Domingo, 3 de Abril de 2016
MUXIMA . LX

MULOLAS DO TEMPOÁfrica, é uma bênção e um veneno! Ainda em tempo de Páscoa
Por

DY00.jpg Dy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa) - Foi dele que ouvi esta frase tão marcante em nossas vidas! Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

dioni1.jpg Antes de mais quero agradecer a todos os que me desejaram uma Páscoa Feliz e retribuir. Relembrarei outras Páscoas como muitos de nós as vivemos. Celebramos duas datas distintas no Cristianismo. O nascimento e a morte de Cristo. Não questionando se Cristo é filho de Deus, ou não, uma coisa é certa, os seus discursos foram os mais lindos que jamais ouvimos. Se é saudade ou não, não sei. Na verdade nós tínhamos uma sociedade quase perfeita. A maioria das pessoas levava a sério as palavras do Salvador.

:::::
As famílias eram realmente famílias. Havia nesse tempo respeito, transparência, tolerância e verdade. A ostentação, a cobiça, a manipulação, a vaidade e sobretudo a mentira não eram de forma alguma, lugares comuns. Hoje são-no. Mentir e trair vulgarizou-se. A família passou a um estatuto secundário. Do topo vêm os exemplos. Vêm de diversos canais. Não sou santo nem pregador. Não pretendo evangelizar ninguém, mas na verdade tenho saudades do tempo em que as pessoas tinham "atitude".

chicor4.jpg PÁSCOA - O céu chorara durante largas horas naquele dia quente de verão, deixando no ar aquele odor a terra molhada que aprisionaria o meu olfacto para o resto dos meus dias. Há cheiros que nunca se esquecem, o da terra regada pela chuva em África é um deles. O chão ficara atapetado de asas de salalés com os minúsculos insectos rebolando-se nelas. Acabei por perder dois e quinhentos com o meu saudoso amigo Marques Luís que apostou comigo que papava um dos bichinhos. E comeu, e eu tive de pagar, e a minha dose de “Francesinhos” ficou drasticamente reduzida.

:::::
A Páscoa chegara finalmente e, uma semana antes tínhamos distribuído raminhos de folhas gentias na esperança que a dádiva fosse compensada com amêndoas. Como eram acessíveis e boas, especialmente aquelas modeladas em bonequinhos singelos, com olhos, boca e até chapéu em algumas delas. Tinham licor no estômago, hoje ainda há cópias mal-amanhadas das mesmas, mas caras e em nada parecidas. O retábulo com a sagrada família aterrara num nicho à entrada de casa, uns dias antes. Três peças de madeira abraçadas com dobradiças, e uma velinha que bruxuleava ao sabor da brisa matinal.

amigo01.jpg Sempre que passava por ela, persignava-me mais por temor do que por adoração. Fora educado no catolicismo o que me obrigava a respeitar Cristo e os seus progenitores. Tive de aprender as palavras do seu discurso na catequese obrigatória, palavras que se foram esmaecendo com o decorrer dos anos, acabando por se tornarem a antítese no comportamento do rebanho.

- Meninos não se esqueçam que temos de atapetar a entrada da casa para a chegada do senhor ressuscitado. Vão apanhar malmequeres silvestres, brancos e violeta e apanhem os beijos de mulata com as folhas verdes para orlar a passadeira. E lá íamos calcorreando os arredores arrecadando braçadas das singelas florinhas. Malmequer, bem-me-quer, tudo, pouco, nada
:::::
- Maria não te esqueças de colocar a garrafa de Porto na mesinha da entrada e as tacinhas com amêndoas e os cálices, e já agora uns rissóis de camarão e croquetes, pois o tanto o padre Geraldes como o Moreira, gostam sempre de molhar o bico e morfarem um petisco. E a dita mesinha ficava engalanada com a toalha alva que a avó rendara, nos tempos em que a visão ainda era boa. A garrafa de Real Companhia Velha ficava de guarda às gulodices e eu não resistia em gatunar os pingos de tocha da tia Maricota que eram uma delícia. Mais uma persignação por este humilde pecado e ouvir a mãe gritar lá de longe. – Isso é para o padre, deixa de ser guloso. Comes mais logo. – Mas aqueles eram santificados. – Já puseram o fato do avô lá no quarto? Já sabem que ele gosta de se apresentar bem ao Senhor.

beldr7.jpg A azáfama na cozinha adensava-se com o aproximar do almoço tradicional e a caldeirada de cabrito bombardeava-me as narinas aguçando-me o apetite. – Qual é o padre que vem para este bairro Hoje? – É o Geraldes. – Respondia alguém. – Ele deixa sempre a nossa casa para o fim, para poder dar à língua mais tempo com o avô e com a avó. E a avó está a onde? – Está a tratar da sua trança. A trança da avó dava à vontade para amarrar na goiabeira do quintal e subir ao ramo mais alto. – Não se esqueçam do vinho para o Dominguinhos que ele é um apreciador de boa pinga. E se era. No final da visita pascal um grãozito já se tinha alojado na asa do saudoso sacristão.

:::::
Tlim, tlim, tlim. Já se escutava a sineta nas casas do fim da rua. – Já lá vem o senhor padre. – Onde está o avô? – Não sei. – Acho que ainda foi ao escritório da serração. – Hoje, Domingo de Páscoa? – Já está a chegar, o Dick está ali nas escadas. – O Dick era a sombra do avô, acompanhando-o para todo o lado e coxeando tal como ele numa cópia fiel do andar. O cão haveria de morrer três dias depois da morte do avô, acompanhando-o na sua caminhada para o além. Coisas inexplicáveis.

mai5.jpg Eis que chega Jesus agonizante no crucifixo de metal. Uma bênção à sagrada família e a vela quase se apaga, Volto a persignar-me de novo como o resto do pessoal. O padre da família como era conhecido, o padre Geraldes, trás o ressuscitado nas mãos, que leva uma saraivada de ósculos nas pernas de metal. Apanho com uns pingos de água benta, borrifados a esmo com uma peça de bronze que mergulha numa taça do mesmo material. Tlim,tlim,tlim. O Dominguinhos vem atrás, traz a sineta com ele e vêm mais uns tantos que não se fazem pecos em relação aos rissóis e aos croquetes. A manhã esteve quente demais e as batas vermelhas que os encobrem deixam-nos sequiosos. Mais uma garrafa do delicioso Porto.

:::::
- O senhor padre almoça cá connosco? – Pergunta a minha mãe. -Quem me dera, que o cabritinho cheira que é uma delícia. Mas a população aumentou e ainda temos um par de horas de visita. Passo por cá mais logo. – Diz à Irene para trazer mais rissóis e croquetes e bolos. – A Irene é a empregada lá de casa. Uma cuanhama de se lhe tirar o chapéu. – Dou-lhe o recado e persigno-me outra vez. – Esta foi baptizada por mim. – Diz o padre que tem fama de saltar amiudadas vezes o décimo mandamento, referindo-se à Irene. – Foi na missão do Sêndi, não foi? – Foi sim senhor padre Geraldes. – Confirma a Irene beijando-lhe reverentemente as mãos. – Acho que é a vez dele se persignar, mas ele não o faz. Se calhar sou eu que alimento as coscuvilhices das beatas.

povo1.jpg A velinha continua acesa, iluminando a sagrada família talhada em madeira de mucibe. O Dominguinhos prepara-se para o assalto ao terceiro copo de Grão Vasco, mas Geraldes não deixa e obriga a horda de Cristo a segui-lo rua abaixo, em direcção a outros crentes. A caldeirada cheira que tresanda. A Irene há muito pôs a mesa e o patriarca da família irá sentar-se à cabeceira para dar início às hostilidades alimentícias. 

:::::
A família está toda reunida com as suas melhores vestes. E Cristo parte, a Páscoa como eu a conheci também parte, os malmequeres murcham nos meus campos, e a Irene? Por onde andará a Irene? O padre Geraldes morre bem longe da sua amada terra. Já não há tapetes de flores nem beijos de mulata. A velinha bruxuleante da sagrada família apagou-se. As famílias sagradas acabam-se, desvanecem-se e adulteram-se com o tempo, mas sobretudo nunca mais ouvi, tlim, tlim, tlim.
- Por onde andas tu, Cristo?
Reis Vissapa
As escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:09
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

RELOGIO
TEMPO
Weather Forecast | Weather Maps
Maio 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15

18
19
22
23

24
25
26
27
28
29
30



MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
Facebook
Kimbolagoa Lagoa

Criar seu atalho
ARQUIVOS

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

TAGS

todas as tags

LINKS
PESQUISE NESTE BLOG
 
CAIXA MUSICAL
ONDE ESTÁS

Sign by Danasoft - Myspace Layouts and Signs

blogs SAPO
subscrever feeds