Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA – Parte XVI - Crónica 3334 – 04.11.2022, em Messejana do M´puto – Republicada a 26.12.2022 em Arazede do M´Puto

CORRIA O ANO DE 2002EM TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã? Háka!” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Jonas Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002) - "O futuro anda empenhado ao diabo”...

Pordolar2.jpgT´Chingange

acácia rubra3.jpeg Aquele dia de domingo estava com uma temperatura amena, algo habitual em tempo de cacimbo. Eu e Chiquinho resolvemos dar uma volta a pé pulsando a vida real na admiração de pormenores, reparando as montras existentes com produtos variados ou publicidade às suas actividades. Em uma, curiosamente tinha a indicação manuscrita em cartão: “Vende-se gelo caseiro”; alusão a água filtrada, metida em sacos de plástico de uma qualquer geladeira chamada de frigorífico, de um lar normal. Cheguei a comprar deste gelo, do que cada um produz em sua casa para poder beber meus gins com água tónica, para espantar mosquitos em fim de tarde.

Viam-se muitas montras desactivadas, ocupadas com trastes ou tendo gatos a dormir curtindo a Kukia vespertina. Na rotunda e bem perto da Catedral de Benguela, resolvi trocar uns dólares junto às kinguilas cambistas; explicando para quem não sabe, estas pessoas, normalmente mulheres, agitam maços de notas retiradas de balaios como se o fossem laranjas ou tamarindos. Sempre se sinalizam assim quando surge um potencial turista ou forasteiro com necessidade de trocar dólares ou kwanzas - não há regra fixa para se chamar a atenção, é pela pinta!

acácia rubra2.jpegDispus cem dólares e, eis que a kinguila faz-me reparo de que as notas tinham a figura de Washington com a cabeça pequena e que, não podia mesmo trocar – Ué!? Como é então mamã, faço como? Não tenho ordens de aceitar, disse a senhora idosa. Nem fiz maka de confusão e do como assim, passei só a ver se tinha mais kúmbu verde com a esfinge do Tio George Washington em tamanho grande e afinal até tinha, troquei. Nada falei, caté porque sempre desconfiam das pessoas que muito perguntam, assim nos entretantos fiquei a saber que apareceram no mercado muitas notas falsas e, eram exactamente as do Tio Gringo no tamanho pequeno. Bem, quanto a Euros, nem sabiam bem o que era isso.

Talqualmente como em Luanda, aqui na terra das acácias, também havia as boutiques: “Rabo no ar, Tira bikinis ou de Paga e leva” assim do género Rock Santeiro, ou o Fardex dos tempos coloniais - mercados com novas calamidades. Na parte da manhã tive tempo de assistir parcialmente à missa admirando as vozes do coro naquele tom africano com dança à mistura. Nos ouvidos ficaram resíduos de tambores… Depois de um passeio rápido pela cidade, neste domingo, 30 de Junho, rumamos também a ver na rota a Sul, Baia Farta, Dombe Grande, Cubal e Cacula via Lubango.

dolar1.jpg Baía Farta, de grossas e dourada areia, uma extensa praia na forma de baía com chalés na contemplação, casas dos anteriores colonos e tão ao gosto dos generais do M. Progressivamente foram-nas ocupando a custo zero e na vertente dos acordos Tugas, vulgo da Penina ou Alvor património ofertado sem ressarcimento nem sentimento. As ideias turvas, por vezes vêem e vão no descumprimento da razão. Percorri aquele areal sem guarda-costas nem comitiva, como coisa minha e, sem ninguém a impedir pensar – continuo pensando só!

Sem pigmentar definições de integridade determino no presente a compreensão do precedente. Da Victória ou Morte mãos dadas com o MFA, das muitas mentiras entre muitas outras falsidades. Em verdade não estava ali e naquele agora para divagar em ideias e ideais perdidos, nos antigos sertanejos, pombeiros, carcamanos ou caramujos de África alterando mutações na medula da estória. Ficar assim com uma ou mais pátrias, acrioulado nos costumes, correntes separatistas; consciencializei o custo do todo suplantando o efémero. Aquele Domingo terminou mais tarde, no após Mundial de Futebol ganho pelo Brasil com dois a zero contra a Alemanha. Uma onda de barulho se fez ouvir por toda a Benguela. Foguetes e tiros em rajadas para o ar - também elas, euforias efémeras…

FIM

baú1.jpgAGRADECIMENTOS:

À Dina que cumpria os cinquenta anos numa festa farta em Sumbe, distinta e distinguida por autoridades e o seu clã de família; Ao Sr. Pais da Cunha (já falecido) que nos deu guarida entre outros apoios; Ao General Wilson das FAA que nos mostrou os novos horizontes a Norte; Ao Jimba do Cassosso, marido de Dina com entusiasmo de amplificador Minolta (Já falecido); a alegria contagiante do Chiquinho; Ao Tio Francisco (já falecido), pai da Aldinha (…que vendia petróleo a caneco, sentado em seu Mercedes);a todos os meus novos sobrinhos em especial o Nando; à Sra Elvira e mãe Luisa que nos ofereceram casa e cama; Ao Eng.º Bien formado em Cuba, um verdadeiro irmão; à Miná que nos deu um dia de encantação em seu imbondeiro com d´jango ao redor perto das furnas do Sumbe; ao Eliseu que nos acompanhou com o aprumo de professor; Ao Zito, alto e musculoso que deu alegria ao grupo, o Lethor do Mandrak T´Chingange

batalha7.jpgGLOSSÁRIO:

Bazou: saiu na socapa; Bimga: madeira muito leve, boa para fazer jangada; Bangasumo: vinho feito a martelo, com sumo de frutas; Kassoneira: tipo de palmeira de onde se extrai malavo ou marufo; kumbú: dinheiro; Cazucuteiro: gente de truque, embusteiro, trapaceiro; Camundongo: rato, natural de Luanda, caluanda, Muxiloanda; Ximbicar: acto de remar com um bordão ou pau longo; Corotos: trastes, coisas indefinidas, bikwatas; Gongo: árvore da marula em dialecto Amboim; Candengue: criança, pivete, gaiato; Dilengo: coelho; Gasosa: gorjeta, gosma, limosna, suborno, mata-bicho ou cala a boca; Gajajeira: árvore que dá gajajas, fruta pequena; Imbambas: corotos, bikwatas; IFAS/URAIS: carro militar russo, sucata velha de assustar criança; Jindungo: malagueta, piripiri, pimenta; Kota: Mais velho, idoso; Mabanga: Bivalve, berbigão de sangue, isco para matonas; Múcua: fruto do imbondeiro; Maboque: fruto das bissapas, do mato, com casca dura, massala; Matebeira: de onde se extrai o vinho de palma, marufo, malavo; Mujimbo: segredos, boatos ou calunia; Marula: baga de árvore parecida com o medronho; Mutamba: árvore de copa fechada da qual se retiram tiras para fazer cordas ao momento, Largo central da Luua; Machimbombo: autocarro, ónibus, por vezes pau de arara; Matacanha: Bicho de pé, bitacaia, pulga das pocilgas; Mulembeira: árvore de grande porte e frondosa que dá pequenos figos, de onde se retira o visgo para apanhar gungas, celestes, etc…,ande se corta o cabelo com gillete ou caco de vidro e se fazem rituais de cazumbi; Mulola: rio seco aonde só passa chuva quando chove; Mezungué: Tipo de caldeirada de peixe seco com óleo de palma, tipo calulu; M´Puto: Portugal; Quinamba: perna; Quitandeira: vendedora de rua que faz pregão à sinhola (Sra.); Sengue: lagarto grande, espécie de varano; Saca-saca: esparregado feito de folha de mandioqueira; Sape-sape: graviola, do tipo da anona; Tua: ave pernalta de meio porte; Upapa: arbusto chinguiço com pequenas bagas; Vata: povoado, amontoado de cubatas ou palhotas; Chinguiços: paus secos retorcidos, tufos de mato; Xingrilá: sítio mágico nunca alcançado, lugar longínquo e indefinido…

O Soba T´Chingange          



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:59
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Sábado, 17 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXIX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA : Parte XVI

-CORRIA O ANO DE 2002 – NA TERRA DE MATRINDINDES

- Crónica 3327 - 01.08.2022 – Republicada a 17.12.2022

 “Angola, quanto tempo falta para amanhã? Háka!” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Jonas Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002) - "O futuro anda empenhado ao diabo”...

Por amendo5.jpgT´Chingange No AlGharb do M´Puto

bengela1.jpg Escrevo agora: Aqui me encontro na Diáspora! A batota continua em Angola e, tudo é do MPLA: É a Comissão Nacional de Eleições, é o Tribunal Constitucional, são as Forças Armadas, é a Polícia Civil, são os Kazukuteiros, é sua opinião, são os Tribunais, é o escambau, como dizem nossos manos brasileiros. Angola deveria mudar o nome para “Terra da Batota”, “Terra do M” ou “Terra dos Matrindindes”; Também “Terra dos Marimbondos…Háka!

Depois deste interlúdio em dois compassos de raiva rilhada, feito prefácio assobiado em graves e gravíssimos tons aonde se vislumbram muitos jogos de luzes, telões que mudam o cenário, fogo e fumaça com os neurónios do povo a arder, surgem as poses estudadas dos DDT (Donos Disto Tudo), coreografias milimetricamente ensaiadas por assessores da mututa pagos em milhões.

Há, vídeos e silêncios que servem de interlúdio duma batuta única para manterem a mesma farpela. Ali o texto governamental, não tem contexto, não há prefácio nem postfácio; tudo é como eles querem, sem notas, sem sumário, sem introdução, nem capítulos. Lembro a minha empregada de Kampala, a Mery falando: - Patrão, aquilo mesmo vai ser só de faz-de-conta, rematando “This is áfrica”

pirulitos1.jpg Mary estava Certa! Escrevo agora: Ali continua a ser a terra da bagunça, terra do J.L. Sesse Seko Nkuku Ngbendu wa Za Banga. Háka… Naquela viagem de 2002, a Benguela mulata salientou-se de forma diferenciada. Em casa de gente mulata fiquei; a Dona Adelaide foi o máximo de carinho que nos reservou, seu fino trato em um escasso fim-de-semana.

Por imperativos mútuos só ali ficamos o tempo que se quis mas, naquela casa do Amor (nome de família) o almoço de muamba, o saca-saca com gimboa, o muzungué e os bolinhos de fabrico próprio deram tempo para matar as falas antigas com ongweva animando aqueles sábado e domingo de Julho (…há vinte anos atrás). Os mosquitos, também eles nos acariciaram de amores e, tantos eram que, tivemos de nos refugiar no quarto, exactamente o do dono da casa, no primeiro andar, janela a dar para o grande adro da catedral de Benguela na forma de V invertido. E, no canto da casa lá estava uma arma kalashnikov, municiada para qualquer contratempo – mosquitos de duas pernas. Amor esfacelou sua perna em luta com um ladrão de quintal, perna que agora, não tem!

marimba1.jpg A muleta substituiu a pena – os tempos condicionaram a vida da família amores ao rubro. Naquele quintal havia uvas, gajajeiras, sape-sape, tamarindo e goiabeira; também havia uma maça-da-índia. Os cubanos nada puderam levar daqui mas, foi dito que as lápides em mármore dos cemitérios despareceram sim! Recordei em falas que quando da minha ida a Cuba vi uma carrinha fechada aonde ainda se podia ler de forma sumida “Futebol Club do Lobito”.  

Em nossas conversas de fundo do quintal relembramos o tempo sem aprofundarmos em exagero porque cada qual, naturalmente teria suas próprias periclitãncias e, não convinha recordar cacimbos defuntados. A última vez que tinhamos estado com a família Amor tinha sido em um almoço no João do Grão, ali bem perto do Rossio de Lisboa. Formando frases curtas e sinceras rematávamos nas voltas certas, driblando de certo jeito nosso passado. Sim! Porque de outro qualquer modo ele, o passado podia, reconhecer-nos.

PUXASACO.jpg Tivemos de aprender com as formigas grandes, kissondes que em andamento seguro arrastam pelo pó do chão seus ventres escuros sem discutir com Deus por assim andarem, sempre se arrastando. É a vida, dizia o homem que mais tarde foi para a ONU; que ainda lá está… Se pudéssemos adivinhar o futuro sem o ter de deslocar, tê-lo-íamos beijado, sugar-lhe as energias, deixando-lhe um montão de problemas, porque cada vez que se respira agora, torna-se tudo mais caro e, nossa escrita que até podia ser criativa, fica lodosa; um pântano languinhento com taxas e taxinhas mais a água, a luz, revisão do carro ou pagamento ao jardineiro que quer ganhar como se o fora o primeiro-ministro…

Nossa vida, nossa prosa fica assim como um deserto, estendendo-se até ao horizonte da kúkia, sem nada acontecer; fica só uma vida de estórias com partidas e chegadas. É por isso que me regalo com as estórias alheias como a da minha empregada de Kampala chamada Mery. Na manhã de antes de anteontem disse-me que sua mãe mandou-lhe por correio expresso um pacote de formigas fritas, embrulhadas numas folhas de bananeira… Ele há coisas…Lá teremos de papar formigas.

(Continua…)

 O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:04
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXVII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA -.XII -" Alto Liro. Lobito à vista" - Crónica 3325 - 03.08.2022 – Republicada a 15.12.2022

CORRIA O ANO DE 2002 - CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

 “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por dia220.jpgT´Chingange – (Otchingandji) – No Al.Gharb do M´Puto

soba24.jpg Rumo a Sul, na geografia natural, segue-se o rio Evale, fronteira do Quanza Sul e não muito longe o rio Colango aonde paramos e provamos cocoto, fruto da matebeira; cá para mim aquilo de tão rijo só dá mesmo para enfeitar centros de mesa ou chapéus de dama exótica e, brasonada. Foi aqui, no Colango que vimos indicação de minas em tabuletas vermelhas de caveiras brancas.

Havia pedras pintadas de branco a dar indicação do lado ruim além berma em ambos os lados da ponte. Aqui compramos aos acantonados da UNITA umas quantas perdizes por 50 kwanzas cada e, mais uma tua; estes faziam por ali desesperos de nada recheados de moleza rota e mal paga. Mais à frente - muitos buracos... Os táxis e candongueiros das "piruas" passavam por nós desafiando a gravidade, como batiscafos. Alguns ultrapassaram as indefinidas bermas e desmantelaram-se nos capins e cajueiros.

benguela2.jpg Os condutores das “piruas” andam que nem louco; estes chapas kazukuteiros trabalham no futuro condicional, juro, vai correr tudo bem “tio”- falam só assim com os mais velhos; vimos vários nos capins ainda cheirando de desastre fresco. Foi a partir do rio Balombo ou, melhor, lá atrás na Kanjala, aonde começou a dança, aonde parámos para provarmos as frias Nocal, Eka ou Cuca à sombra de uma grande mulembeira; mesmo ao lado do hotel aonde o Jimba (Peixoto, já falecido) passou a sua lua-de-mel e, do outro lado do rio lá estava o bananal do Setas.

Demoramos seis horas contornando buracos nos 180 quilómetros, sendo os últimos oitenta os piores. A cassete enquanto desprendia música na perplexidade de tanto solavanco e, no recordar de palavras memorizadas de sal sujo, com as matubas (testículos) pisadas o “havemos de voltar “ incubava-se de vontade.

DIA76.jpg Entretanto as canções dos Irmãos verdade “Deixa eu entrar no teu coração “ ou o “Ka Bu Fronton“ do Jota Neto e mesmo “Os amigos da Onça” do D.J. Rafa e Isidora, perturbavam-me, juro mesmo!... Talvez pelo fumo do petróleo que entrava pela chapa do zingarelho –lastro do fundo sem fundo, misto de carrinha com ximbeco colado com chwingame nos muitos buracos do escape e periferias.

Carro chinguiço do engenheiro de Matanças, o Bien, francês de faz-de-conta. E, também com adjacências estranhas e estrambólicas que talvez, de certeza, perturbava nossos sete sentidos virados num oito de indefinida duração. Se não morrer por aí lá chegarei – aiué. Passado o cruzamento da estrada que liga ao planalto central através do Bocoio via Bailundo segue-se o desvio para a barragem do Biópio no rio Catumbela a montante dali, o Alto Liro do Lobito já estava próximo.

acácia rubra2.jpeg Era um era num era neste caminho de destino às acácias rubras e buganvílias de Benguela. Se Deus quiser, vamos chegar; pelo menos uma vez, olhe pelas nossas carcaças Tio do Ceu, viu! Sem saber se viu ou ouviu, lá fomos, sem ter chegado à nascente do Nilo ou Zambeze, tal como Livingstone e, ressalvada a lonjura no tempo e no espaço, também parte do meu coração foi ficando por ali em dedicação com fidelidade canina a África, terra de largos gestos! Saí de Angola mas ela nunca saiu de mim... Bien?... Prego no fundo que já cheira a maresia.

DIA199.jpg “Benguela, terra das acácias rubras". O lixo era por demais naquela descida para o sapal do Lobito, era-o de um lado e outro nas encostas do morro que nos levava lá abaixo. A estrada no final não se distinguia do resto e a gente era mais que muita no meio de uma suja poeira e fumo desmaiado de tendas mal-amanhadas; ali bem perto e do lado esquerdo corriam umas águas vindas do Alto Liro, dos esgotos claro! Ou, nem tanto, pois que talvez estivessem filtradas pela terra ou então, uma rotura nas águas domésticas porque estava a ser recolhida em baldes e já se via um Jeep luzidio da lavagem! Tudo indicava ser de um Libanês – aqui tem gente daí pra caramba. Até Sírios, tem…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:19
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXVI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . XII

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3323 de 01.08.2022  - Republicação a 13.12.2022, no Al.Gharb do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por angola6.jpeg T´Chingange – (Otchingandji)  

kapara2.jpgVoo TAP – Destino Luanda – Ano de 2002. A viagem de teimosia ao Lobito e Benguela respirou coerência porque queríamos sentir o ondulado de 180 mil buracos em oitenta quilómetros e, ficarmos zonzos no jeito de internar doidos na reclusão da paciência, mas valeu pela beleza das vistas além asfalto, além urbano, para lá do Morro do M´Gelo. Os sabores da antiga infância, sinuseavam aquela picada promovida a estrada trazendo à ideia o muxoxo da quitandeira lá do bairro e no tempo em que o contentor não era o mini- mercado de alguns desinfelizes.

Assim e sem luz, barulho engasgado do gerador Honda no fundo do quintal, entre queixas de uns e outros com muito sundiameno e toparioba pelo meio, tudo era intercalado com vírgulas de carvalhos sem vê, que isto assim não pode ser e, sem luz nem televisão havia silêncios misturados com prazer – a vida continua! Só o velho Pernambuco, o cozinheiro que sabia fazer lagosta suada como mais ninguém, se desfazia em queixumes silenciosos como essa dor de reumático que lhe entorpecia tudo e até o prazer de viver. Menino, estou nos finalmente, disse ele para mim e, eu fiquei bwé de triste, tristíssimo mentindo-lhe com falas baratas; falas de matrindindi…

baú de coiro1.jpg Na inventação disto tudo vejo que todos têm um forte compromisso na reconciliação dos direitos do homem, para no fundamental irem para além do marasmo, se solidarizarem com o comprimido aspro e paracetamol a que tudo acode, a tudo do quanto baste. Quinino, Kamoquina ou Rezoquina se houver tremuras com frio. Mas, o fado era mesmo deixa para lá que tudo passa com o que tiver que ser, missangas de vai ser com outras filosofias empoleiradas no varão da coisa fácil, amarrotadas no canto das alvissaras porque em tempo de crise urubu vira galinha, o chuço, talqualmente…

Só mesmo o Bien, engenheiro civil formado em Varadero e Matanças de Cuba, nos poderia levar a estes muitos lugares, em seu carro de muitas verguinhas soldadas no chassi, só mesmo metade do vidro retrovisor do lado dele, do outro só mesmo o espaço oco e enferrujado, era um carro de metades, biónico e ajustado nos ruídos de alerta, chiadeiras dos ferodos do travão com cheiros espaciais, com ajustes devido aos fumos saindo da carcaça sem reflectores, sem pára-choques, a mola da esquerda helicoidal com H e, da direita improvisada de molas de carrinha estiradas, batidas e ajustadas, Uma aranha andante que arrancava com gasolina e depois de virar o zingarelho de arame, gastava petróleo de candeeiro (Bien engenheiro, aprendeu isso em Matanças de Cuba)

IMBONDEIRO1.jpg Quase na foz do Cubal, junto à estrada das tormentas, o rio sai das alturas por um fundo canal com rápidos e margens escarpadas, cheias de vegetação nas vertentes; dos jacarés que dizem haver não vi nenhum mas, imaginei vislumbrar uns quantos em surdina da frescura. Bem perto, na antiga estrada para a praia do Kilombo lá estavam aqueles imbondeiros, referência da infância na viragem à direita naquela mesma picada. À vez cada qual dos ocupantes tinha vez de ir com a cabeça de fora para não intoxicar (verdade mesmo…)

Nas agressivas barrocas e antes dos tais penhascos misturavam-se um alcantarilha de cubatas feitas a taipa, cor da terra que desciam em presépio pobre terminando num terraço aonde se mantinha uma escola cuidada; na cornija desta podia ler-se “Havemos de Voltar”, penso eu que, uma alusão de que ali as crianças eram oriundas do planalto central de Angola, gente deslocada pela guerra. Recordar que tantas vezes repeti esta pequena referência como busca desenfreada que nunca se proporcionou, por uma qualquer razão até que entardeceu por demais…

nauk03.jpg  Como erva do diabo, o desejável raramente passa no mesmo sítio. Uma erva que existe no Calahári e deserto do Karoo muito para lá da Namíbia. Afinal, esta gente, tal como eu, também foram intornados para ali, lugar possível, foz de um rio chorado nas terras altas do Huambo. Como é necessário refazer os afectos, matutei.

 Saindo deste sapal aonde as mil formas de vida contemplam, a natureza sobrepõe-se à resiliência e, faço mais o quê!? - Sigo o rumo febril de cheirar por inteiro a mítica África que me viu nascer só de faz-de-conta no barco Niassa. Já no cair da noite, deixamos o kota da Vata de nome Diogo Cão, seu verdadeiro nome de pescador de lagostas naquele lindo lugar de Kilombo, lugar de antigas salgas de peixe seco; Fiquei a saber por ele que para além daqueles crustáceos há cacusso, também um bagre de nome tipioco e lagostim do bom, parecido com o “pitu” do Rio São Francisco do Brasil…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:00
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2022
KALUNGA . XXXVI

KIANDA COM ONGWEVA - XXI de várias partes…

– Crónica 3316 de 14.06.2022 – Republicada a 07.12.2022 na falsa savana do Alentejo do M´Puto

MUXIMA NAS FRINCHAS DO TEMPO - Falar do futuro, até para as kiandas é tabu…

Ongweva é saudade

Por koisan7.jpgT´Chingange (Ochingandji)

lualaba0.jpg Quem se mete com kiandas fica kiandado ou oxorizado. Morgan Tsvangirai o pai de Roxo ficou avençado pelos Mwana-Pwós com o posto de tenente de segunda linha mandando os escravos m´bikas do kimbo fazer tarefas de soberania. Nesta tarefa de contar a estória lá teremos de ver para onde correm as águas de navegar na boleia da correnteza e eis que do lugar distante de Pernambuco e suas capitânias adjacentes, no reino de Terras de Vera Cruz, estavam carentes de braços para fazer o cultivo da cana para fazer andar os engenhos de assucar.

Os pormenores que podem até ser pensados insignificantes, têm de ser descritos para haver um melhor entendimento nos grandes gestos nos feitos, dos obreiros sertanejos e Mwana-Pwós em lados quase de mesma longitude mas afastados por um oceano na Latitude Mar kalunga dos iemanjás - os Orixás das águas salgadas, mãe dos demais orixás; Rainha do mar, Mãe das águas ou mãe dos filhos-peixe. Filha de Olokum, dum Iemanjá que foi casada com Oduduá, com quem teve dez filhos orixás. Bom! Latitude serão os movimentos destes ao longo dos meridianos; ao longo do equador ou linha paralela a este.

espiga1.jpg A preguiça na cultura dos índios americanos dos brasis não permitia seu uso no trabalho – isso era tarefa de mulher e gente, dada ao desprezo. Talvez por isto, seus lugares tenentes mantinham contacto com alguns negreiros portugueses que detinham este negócio, pagando-lhes ainda mais do que a antiga coroa determinava. Era um quase pacto de negócio mantendo-os como principais fornecedores de peças á margem dos interesses dos reis do M´Puto.

As ordens que vinham do Conde Maurício de Nassau a partir de Olinda eram de subornar a todo o custo os intervenientes funantes do mato de N´Gola no negócio escravo. Estava em causa a política comercial da Companhia das Índias Ocidentais... O lucro! E, Portugal que era agora pertença dos espanhóis não havia por isso empenho nestas políticas de tanto trabalho; preferiam estabelecer severas taxas de soberania aos amarídeos de seus territórios com pagas em ouro.

As mordomias dos reis Filipe de Castela, Astúrias, Galiza, Catalunha Portugal e Andaluzia eram muitas - isso impunha uma política restritiva, sem dispersão. A tia da Kianda Roxo, N´ga Maria Káfutila de linhagem nobre do reino do Kongo ajudava Januário Pieter na quinda do mercado da paliça vendendo malavo e quitoto ou permutando com os indígenas ou mesmo n´gwetas produtos da terra como ginguba e fuba de mandioca.

kianda2.jpg A fuba originava um prato apetecível chamado de funje ou pirão, um preparo a partir da mandioca. E, ela, a Roxo, tornou-se assim uma cozinheira de primeira mão mas, no correr do tempo preferiu lançar suas fluorescências em pinturas. Por obra desconhecida ou talvez de *Olokun rodou trezentos e sessenta graus confundindo essas tais de Latitude e de longitude; hoje dificilmente frita um ovo! A casa dela nem cozinha tem… Ainda intentou fazer uso das folhas do pau de mandioca que era passada por cinco fervuras para anular o veneno da coisa e, desistiu a favor da Saka-Saka.

Agora a isto chama-se assim de Saka-Saka sendo impregnada de azeite de palma, um prato mais típico e requintado. De saber que ainda hoje e do lugar natural dos Mafulos (Holanda), daí advém em latas deste produto enraizado naqueles idos tempos e que perdurou - um caso menor mas de importante e curiosidade de no decorrer do tempo, ali e em todos os povos de fala francesa.   

kianda03.jpg Kiandas e calungas! O tempo, na mística espiritual de N´Gola, não tem fidelidade à linha do tempo, anda do agora para trás e, se sabe no depois, nunca o diz! Também tem medo de virar poeira como o Plutão… O futuro é já a seguir… Como se diz, a calunga ou kianda é assim como um vírus de computador que sem se ver, se faz notar. Nossa kianda Roxo veio como Assunção por alguma razão que, nem ela própria sabe! Melhor seria Ascensão mas quis a semântica do uso dar-lhe esse quase igual nome. Podia ser só Maria mas quis o encontro com as calemas do destino encontrar o T´Chingange que estupfeito com suas bizarras cores do além e seus mágicos gatafunhos psicadélicos, simbiose de Naif com Dali, ascendeu aos espíritos. E, em viagem por esse Universo distribuindo alegrias tomando muito chá de funcho e oliveira a controlar sua intensidade de fazer gaifonas à vida, T´Chingange anda agora beulando porque não mais soube coisas da Oxor, a kianda espelho de  Roxo. Acho que sim! Seguiu o rumo de Plutão, fez uafo, uafou…

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*Do Olokun: Para as águas do mar, Olokun, Ye Olokun, Ya Olokun, são pontos de areia. Os destinos brilhando num só Olokun - Ye Olokun, Ya Olokun… Na cultura africana, Olokun possui diferentes representações, em alguns locais ele possui características do sexo masculino (Yorubá) e em outras, do feminino (Ifé). Mas em todas suas formas ele tem o corpo metade peixe e metade homem.

GLOSSÁRIO: Kalunga - mar; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol nascente; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Mafulos - Holandeses; Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores;Tambulakonta – toma atenção, cuidado; matona – peixe da bahia da Luua; Luua – Diminutivo de Luanda; kifufutila ou kafufutila – perdigotos ao comer e falar ao mesmo tempo; Xipala, T´Xipala – foto; Malamba – palavra; átoa – de qualquer maneira; beulando – passeando o abandono; uafo – morte, morreu…

(Continua com “fricção”…)

Por: Soba T´Chingange (Ochingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:23
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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXV

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . XI

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3315 de 12.06.2022 - Republicação a 06.12.2022, na falsa estepe alentejana do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

PorSBEL.jpg T´Chingange, (Otchingandji)

soba40.jpg Depois da Catumbela, do canavial de açúcar que já não era e da fábrica de whisky Sbel enferrujada por abandono seguiu-se a ponte que já o tinha sido, à entrada de Benguela. Este contratempo do tinha e havia mas, já não o é, forçou-nos a um pequeno desvio pela mulola seca mas, logologo aí estava a cidade das acácias. Aqui os crioulos em rebeldia de afazeres e dizeres ao rubro, reforçaram valores angolenses, não permitindo que os Cubanos levassem as acácias rubras para a sua marginal do Malecon de Havana.

Nesta cidade mestiça ficou algum aprumo e uma catedral em forma de bivaque do tempo dos Tugas. Aqui o caldeamento do mundo negro num predisposto protesto com os Lusos brancos gwetas do M´Puto e alguns Mazombos, nunca atingiu a negritude plena; ficou a mística de muitas castas, estímulos e sentimentos cantados ao som de chocalhos e espanta espíritos pendurados na alma como se o fossem hologramas da “Benguela, terra das acácias rubras".

bengela1.jpg Aqui me encontro; isto continua a ser Benguela! A Benguela mulata salientou-se nesta viagem odisseia de contrastes!...Em casa de gente mulata fiquei; a Dona Adelaide foi o máximo no carinho que nos reservou durante um escasso fim-de-semana e, por imperativos mútuos só ali ficamos o tempo que se quis mas, naquela casa do Amor (Amor é o nome de família) o almoço da muamba, o saca-saca, o muzungué, e os bolinhos de fabrico próprio deram conversa para animar aquele sábado de Julho do ano de 2002; Os mosquitos, também eles nos acariciaram de amores e, foram tantos que tive de me refugiar no quarto do 1º andar.

Ali no canto estava uma “kalashnikov“ a guardar-me ou talvez não, pois que pode ter sido com esta que o Amor esfacelou a sua perna em luta com um ladrão de quintal. Perna que agora já não tem! A muleta substituiu a perna - O tempo condicionou a vida de cada qual. Naquele quintal havia uvas, gajajeiras, sape-sape e até uma maçã da índia! Daqui os Cubanos, nada mais puderam levar para além das placas de mármore retiradas do cemitério e os machimbombos da City…

benguela3.jpg Pois assim foi: levaram-nas para Cuba tal como todos os autocarros de clubes e outros para servirem em e El Pinar, Matanzas perto de Varadero e em Cienfuegos perto da Baia dos Porcos. Anos mais tarde, quando fui a Cuba, pude constatar como verdade, alguns supostos mugimbos… em passeio, vi por lá um autocarro do Lobito Futebol Clube com alguma tinta ainda visível na marginal de Havana. Aquela avenida de Cuba chama-se Malecon; é o lugar aonde os noivos vão prometer o futuro risonho ao parceiro.

Dali, Malecon da Havana vê-se romântica mas, dentro dos prédios despintados há uma outra realidade: muita gente em lugares apertados e bafientos tentando superar a vida oca de todos os dias. É cruel! E, eu estive lá a comprar charutos Romeu e Julieta, fugido da feia guia Mercedes. Apreciei nos cemitérios os mesmos mármores usados em Angola idos de Vila Viçosa (estão lá para quem quiser ver). As pedras às vezes falam! No seu divino dom da conversa calada já não tinha mais razão de ser; de ver fugir alguém à frente dum barulho de metralha ensurdecedor.

mocanda8.jpg As estórias ficam sim gravadas nas veias de pedras e, esta viu: No fim da restinga, num Lobito carregado de medo, a brancura da pele tornando-se reaccionária. Passados uns anos ouvia na rádio: “morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou o chocalho mexe com ela” …                                                     

Todos os dias são bons para se viver mas o espírito tem de estar em paz consigo próprio. Juntei as coisas simples numa montanha de ternura e quis entender a canção do Chico Buarque; pouco apouco fui conseguindo estar de bem com aquela musica cheia de transcensões – Verdade - As pedras, às vezes falam!  “A bela mulata remexendo,... Deixando requentar o feijão no tacho,... Na Catumbela”. Na Catumbela?! Haka! Não tem mais cana-de-açúcar, nem s´bell; a fábrica do açúcar da Cassequel é um montão de ferro velho e a praça do Império, tem uma traineira encalhada no meio; O postal mais actual daquela restinga, é aquele barco empoleirado, dando fim ao ciclo imperial dos Tugas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)       



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:41
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2022
MU UKULU – XXIX

LUANDA DO ANTIGAMENTE

Crónica 3314 - 09-06-2022 – A2 - Recordando o Século Mwata Luís Martins Soares

– Republicação a 05.12.2022 no Alentejo do M`Puto

Por   namib3.jpg T´Chingange (Ot´chingandji)

maximbombo.jpeg Em sequência das falas recordadas do livro Mu Ukulu, ir-se-á transcrever o capítulo dos Sabores da Nossa Terra tendo como início uma síntese da estória. A cidade de Luanda foi fundada a 25 de Janeiro de 1576 pelo capitão Tuga chamado de Paulo Dias de Novaes após ter desembarcado na baia de Loanda com cerca de 700 homens (soldados, padres e almocreves). Em 1576 manda construir a igreja de são Sebastião na fortaleza aonde agora se encontra o museu das Forças Armadas Angolanas.

Antes da chegada dos portugueses, Luanda já era habitada pelas gentes do rei do N´Dongo concentrando-se no lugar seguro da ilha de Mazenga a que os portugueses chamaram de ilha das cabras por terem visto ali alguns destes caprinos. Viviam ali os Muxiloandas, oficiais do reino de N´dongo que recolhiam os n´zimbos para transaccioná-los como dinheiro. No ano de 1605 a Vila de São Paulo de Assunção de Loanda é elevada à categoria de cidade pelo governador Manoel Cerveira Pereira que exerceu seu cargo entre os anos de 1603 e 1606.

luis0.jpg Não obstante estes dados históricos, o Rei de N´Dongo vassalo do rei do Kongo era o dono e senhor daquele espaço, pois que era ali seu banco central! Isto, depois de N'Gola Kiluanji Inene ter dado independência ao Reino de N'Dongo separando-o do poderoso Reino do Kongo! Quanto ao banco de N´gola da moeda n´zimbo: Seus zeladores Muxiloandas, cipaios e gente miúda laboravam na apanha e sequente selecção atribuindo às conchas o respectivo valor monetário. Relembra-se que quando os portugueses deram início ao processo chamado de colonização que originou na Angola hodierna, diferenciaram grupos sociais com identidades próprias.

Os factores de diferenciação entre as etnias foram: a linguagem, vestuário, formas de penteado, estilos de construção das cubatas, sua forma de expressão musical, práticas fúnebres, e suas comidas entre outros detalhes. Quanto à cozinha angolana ela teve ao longo dos anos alterações por via de produtos levados para ali pelos portugueses; produtos trazidos das américas da ásia e da metrópole - M´Puto. Houve por este motivo miscigenação nos hábitos. Do Brasil Imperial foi levada a mandioca que se tornou básica e generalizada por toda a África.

luua24.jpgCom a introdução da mandioca levada pelos Tugas do Brasil os pratos de peixe eram acompanhados com fuba funje, um pirão espesso feito dessa fina farinha. Para alguns dos mwangolés esta nova, será uma surpresa - melhor seria que unissem sua sapiência repondo a verdade, não desconsiderando permanentemente o colonizador Tuga. Requer-se por isso mudanças futuras em sua Constituição e, por forma a reverem a lei da nacionalidade e tornarem as gentes brancas de pele da terceira e quarta geração em cidadãos de facto – Angolanos!

banco de angola1.jpg Com a chegada das traineiras abarrotadas de peixe, comerciantes brancos, juntavam-se no local de descarga e, ali, disputavam a compra do produto que era previamente separado de acordo com o destino a ser-lhe dado. Os peixes maiores eram destinados ao consumo de hotéis, pensões e casas de pasto. Lembro-me em candengue desta actividade no antigo porto de pesca situado bem em frente do Banco de Angola (1954/1955) e, aonde ia rebuscar sardinhas rejeitadas para utilizar como isco em minha pescaria na baia da Luua em companhia da minha turma da maré mansa da Maianga, Samba e Praia do Bispo…

Parte do peixe para venda ao público era levado para o mercado situado bem perto do Largo Bressane Leite, bem na baixa de Luanda; mais tarde mudou-se para o Kinaxixe, um belo edifício, património arquitectónico que os mwangolés ávidos de kumbú mandaram deitar abaixo, não sei se por parva retaliação ao colono, se só para encherem seus bolsos de dólares e, também agradarem a esses tantos generais de tugi do governo que surgiram por “feitos heróicos”. Bem! Falando do peixe, o de menor tamanho era arrematado para salgas de onde saía o preparo e seca do conhecido “Peixe Seco”, uma forma bem apreciada por nativos e brancos de segunda ou mazombos (filhos de colonos) como eu.

luis51.jpg Este peixe-seco, tão apreciado pelos nativos grunhos (pretos) e gwetas (Brancos) e, pelo facto de se ter tornado um costume, por via de ser barato, espalharam-se salgas um pouco por todo o lado e ao longo da costa desde o Ambriz mais a Norte, passando por Luanda até Benguela e ainda mais a Sul na Baía Farta. O peixe depois de processado, estripado e escalado era posto a secar ao sol usando loandos normalmente elevados do solo por estacas. Este peixe já seco, era depois levado em camionetas por, maioritariamente “candongueiros” até aos lugares distantes do interior na forma de fardos atados com fio de sisal ou mateba. O itinerário destas carrinhas ou camionetas podia ser-se seguido horas e até dias mais tarde pelas picadas seguindo o rasto do cheiro característico que estes lançavam para o mato circundante…

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares com algumas adendas acintosas de minha lavra…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:46
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXIV

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . X

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3310 de 02.05.2022  na Lagoa do M´Puto – Republicada a 01.12.2022 no Alentejo do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por  canguixe1.jpgT´Chingange - (Otchingandji)

soba0.jpeg Na contingência de estar a falar para o boneco de coisas passadas, dos tempos de escândalos e dinheiro escondido na cueca, enterrado nos jardins ou até esquecidos em contentores ao sol impiedoso e, no meio de gente que sofre de resiliência e coisas ao desbarato pós colonial, lá teremos que contar sempre com essa gente do sistema que não obstante serem estupidamente fanatizadas no partido da governação, o são também por conveniência despiedosamente vazias de raciocínio na humanidade.

Por isso terei de falar banalidades do dia-a-dia de então sem me imiscuir a fundo nas debilidades de N´Gola e no seu imberbe sistema caducado, passados que são muitos anos e, desde então sem ver o emprego crescer, sem ver uma boa ordenação do território com os governantes a só fazerem banga com o que lhes é alheio, dinheiro oriundo do petróleo caindo do céu e a rodos como se o fosse chuva a cair só no seu quintal, sua n´nhaka ou fazenda. Não obstante tudo ter um início, só senti o permanente cuspir cacofonia de palavrões na sorte do colono.

Cristo continua a assobiar para o purgatório na mira de não desagradar aos olheiros da justiça, da educação, na ética e, por aí; como tal não nos cabe pretender agradar a alguns esquecendo a todos! Teremos de omitir falar de venenos especiais, críticas eventualmente justas, desoxigenando o nosso EU na defesa de torpes brutamontes; o importante é não alimentarmos ódios ou desejo de vingança porque isso, só torturará nosso bom censo, nossa liberdade. Nem é preciso estudar-se psicologia avançada para se concluir que o ódio ou desejo de vingança como um bumerangue, só deformará nossa personalidade.

canguixe2.jpg Naqueles idos tempos e ali, Cantinho do Inferno, centro produtor de algodão havia muita gente dependente a não ganhar fortunas, mas, até havia cinema e salão da ferrunfunfa, forró aonde se curtiam danças de farfalho, lugares aonde se esgotava parte do salário, dinheiro da jorna desbaratado em álcool de cerveja e outras afinidades à bebedeira; segunda-feira era dia certo de se comunicar as falsas mortes lá de casa por via de se justificar a não ida ao trabalho. Não levava muito tempo para se matar a família todo e até os tios morriam duas e três vezes. A arte da mentira era bem conhecida do patrão, coisa corriqueira até.

Os filhos do patrão Cunha, subornavam com frequência os condutores subalternos com umas Cucas, Nocais ou Ekas e até Mission, para os deixarem conduzir o tractor, a alfaia ou a carrinhas Bedford ou Ford e, era um gozo do caraças. Foi bem assim que Chiquinho, Zito e Toninho aprenderam a fazer esquindivas com as máquinas. Mais tarde e ainda naquele agora relembraram as finfias que faziam. Neste entretanto da visita verificamos as muitas carências em que viviam naquele ano de 2002. Eu, Zito e Chiquito resolvemos voltar àquela aldeia. Decidimos ir à Cruz Vermelha local pedir um fardo de roupa a fim de o distribuirmos àquela gente; os candengues andavam com trapos nos corpos meio desnudos.

Assim pensamos e assim o fizemos. Junto do representante da Cruz vermelha depois de muitas falas no convencimento de que não havia negócio em nossa vontade, compramos um balão de roupa, fardo como nós conhecíamos do antigamente. No desenrolar de conversas ultrapassadas e pagamento de 100 dólares, pedimos ao senhor Setas o Land Roover e lá fomos conduzidos por seu filho Cado de nome. Passadas todas as instâncias, cuvas e buracos, chegamos á dita aldeia.

pilão1.jpg Chegados cedo encontramos o padeiro que também chegava naquele momento e partindo de mim, disse ao Zito que compraria todo o pão para oferecer àquela gente. Pois foi dia de festa: nós mesmo distribuímos todo o pão segundo a ordem da fila e entregamos ao Soba o fardo de roupa para distribuir pelos necessitados que em verdade eram todos. Recordo que distribuímos o pão sendo a unidade ao preço de cinco kwanzas. Os mais velhos conheciam a Dina, o Zito, o Chiquinho e as festas de ongweva, foram mais que muitas. Bebemos marufo em latas amassadas e sem rótulo oferecido por um deles, sabor que já conhecia por via da guerra do Maiombe; foi esse dia, pelo dito, um bonito dia de bênção.

Deram-me um canguixe, utensilio de pisar grãos de milho em cima das locas, penedos já lisos de tanto uso; foi um agradecimento que preservo como se o fosse de oiro em minha sala e num lugar nobre em cima da estante. Esta ferramenta de trabalho chamam também de “huim” – é usado só com uma mão, enquanto com a outra, normalmente as mulheres batem e batem, sequentemente ajustando o monte e, até tudo ficar em farinha. Tem a forma de um braço curto, feito de pau-ferro e, sendo uma das extremidades com o formato de cabo anatómico e ajustado à mão. Linda, era o nome da mulher que me ofereceu tal instrumento. Quiseram que trouxéssemos, imaginem, gente carecida de tudo, um cabrito e galinhas mas, rejeitamos ficando de voltar mais tarde para os comprarmos. Resta dizer que ainda nesse então havia sim, paredes de pé, havia sim sinais de bazucadas jogadas a eito. Concluindo: Os matrindindes continuam livres como sempre se viram!

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)       



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:51
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2022
KWANGIADES .XXXVI

ANGOLA DOS MWENE-PUTO (M´Puto)

KUKIA DA VIDA - Crónica 3308 – 29.05.2022 – Republicada a 29.11.2022 em Lagoa do M´puto

Kukia é o nascer ou por do sol

Por araujo158.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Na Lagoa do M´puto (M´Putulândia)

amigo da onça.jpg Diáriamente, sempre vai haver escolhas a fazer; elas podem determinar nossa felicidade aqui, no futuro ou no álem. As escolhas que fazemos hoje, mesmo já sendo kotas, são vitalmente importantes e contumazes. Os amigos que escolheu e ainda escolhe, a todo o momento explodem na singularidade dum extraordinário proceder ou de pensar. Tudo terá muito a ver com sua vida tornando-a um esplêndido crepúsculo ou um velho celeiro sem graça; por vezes, muitas vezes desilude-se deste e daquele mas, é forçoso continuar a fabricar amigos, mesmo que num repente fiquem amigos da onça…

Os amigos podem levá-lo a concentrar-se naquilo que é passageiro, ou conduzi-lo para mais perto de coisas vaidosas e até fúteis. Todos os dias você precisa escolher entre o nascer e o pôr-do-sol - a KUKIA DA VIDA. Ontem eu, o Santos e o Eduardo Torres reunimo-nos no meu Pátio Andaluz para se falar de coisas e até comer algo entre os intervalos das falas, melhor, gritando como moucos. A pilha do ouvido direito do EDU pifou (o esquerdo já pifou, faz tempo…) e num repentemente tivemos de aumentar os decibéis e, o vozeirão decerto incomodou meu vizinho Lestienne, um francês de França, macambúzio como meu ex-cão Columbo…

silva00.jpg Como sempre nossa conversa de boi dormir, resvalou como sempre para as coisas de áfrica. Queiramos ou não, nós saímos d’África mas, África nunca saiu de nós! Pois, falo de Angola. A gente dá voltas e divaga, deita conversa fora mas, sempre iremos parar naquele item rasgado no tempo. A verdade, nunca o é de valor absoluto mas, na relatividade da afirmação o peso desta vem de quem a prefere num determinado tempo e, desta feita descarreguei nos meus amigos coisas do tempo do Carcamano com expedicionários, funantes, sertanejos e até negreiros.

Assim, contornando medrosas angústias, febres palustres, água estagnada, jacarés do Panguila ou do Cunene, exigiram-nos esforços na consolidação dum país que não pode ser nosso por via de coisas merdosas e, porque estávamos condenados ao esquecimento pelos governantes de hoje misturados com os idos e também estadistas emudecidos da cabeça; gente do M´Puto metropolitano e de Angola. Um Ex-combatente de Angola sofre agora de estresse de guerra; cumpriu o serviço militar sem saber até que tinha os pés chatos e agora a adicionar muitas mais mazelas à idade, vê-se à rasca com uma reforma de cacaracá…

araujo160.jpg CA - Angola ganhou condição de país quando na embala de Belmonte, Silva Porto, com 72 anos de idade se imolou envolvido à bandeira Portuguesa; isto foi muito antes de o arrastar da bandeira do M´Puto por muitos lados e pisoteada por gente que virou governante. Enquanto isso os resistentes daqueles tempos lambem as feridas de catanas ou G-três da história. Silva Porto desrespeitado pelo soba N´Dunduma, "O trovão", meteu-se numa barrica com pólvora e queimou-se - outros tempos! Em 11 de Novembro de 1975 concretizou-se um país cujas fronteiras foram delineadas por estes combatentes paulatinamente desprezados no tempo.

A maioria dos combatentes, fizeram o seu serviço em dose de camelo; viram morrer camaradas, ficaram apanhados do clima, mosquitagem, jibóias, gorilas e sanguessugas dos pântanos. Recalcados de tanta injustiça, perderam o medo naquelas florestas, chanas, e anharas, numa Angola tão rica e tão ingrata. Defenderam e mataram gente, construindo novas coisas, impondo regras sociais para conservar tal espaço.

E, foram Fiotes, Quiocos, Quimbundos, Umbundos. Hereros, Ganguelas, Muílas, Mucubais e Bosquímanos que, mudaram de alguma maneira o modo de estar dos magalas de Mwene-Puto; e tantas guerras para desenhar um mapa cor-de-rosa que nunca o chegou a ser, para nada*... Quantas mortes! O Mapa-Rosa africano começou a ser desenhado em 11 de Julho de 1890 com as campanhas de submissão do sobado do Bié e, passados 85 anos, em 11 de Novembro de 1975 concretizou-se um país cujas fronteiras foram delineadas por estes combatentes paulatinamente desprezados no tempo.

araujo174.jpg CA - Aquele chefe "O trovão", veio a sofrer represálias a 9 de Dezembro de 1890 por parte de Artur de Paiva, Paiva Couceiro e Teixeira da Silva- os Mwene-Puto com a ajuda do povo Ovibundo governado então pelo rei Ekuikui Segundo. Daí as boas relações com o povo do Bailundo que perduraram após esses 85 anos. Paiva Couceiro, foi em verdade o último sertanejo a percorrer as terras do fim do mundo, no Cuando - Cubango, Mucusso, Cuangar, Dírico e Sambia. Parece mentira mas, é verdade! Ao soba de Sambia de nome Palata de Massaca foi dado o nome de D. António Maria de Fontes Pereira de Mello, ao soba do Aimalua do Cuangar foi dado o nome de D. Luís Bondoso Pinto Ribeiro e Montes Claros e, N´Hangau do Dirico ficou a chamar-se D. Afonso Enriques de Aljubarrota Atoleiros e Valverde. Tudo o resto foi tempo perdido, Aos combatentes de ambos os lados ficou esta recordação como contentamento! As minhas falas de ontem foram mais que muitas caindo sempre no mesmo – Angola, Aiué…

*Nada: A complementar a Teoria do Nadismo; Carcamano: tempo de funantes e expedicionários no lidar com um filho de soba do Planalto Central revoltado, com esse nome; palavra castelhana carcamano, que na América Latina denota "pessoa decrépita"…

Ilustrações de Costa Araújo

O Soba T´chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:40
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2022
N`NHAKA . XXIII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . IX

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3307 de 27.05.2022 (45 anos depois da morte de mais de 30.000 Nitistas – a matança)- Republicação a 28.11.2022 na Lagoa do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por n´tundo3.jpg T´Chingange – (Otchingandji)

n´tundo1.jpg Em terras de matrindindi! Matrindindi é uma carocha de perfil pré-histórico, talvez um normal insecto coleóptero do género do escaravelho, só que este é muito mais extravagante, de cor escura, dorso azul e com muitos picos e patas longas; mais parece obra duma formatada bruxa ruim promovida a grilo, salvo seja. O Land Rover do Cadinho do Sumbe, pisava-os sem alternativa, eram muitos a passear descuidadamente na picada, sucedendo-se os estalos como o de castanhas a rebentar ao calor do fogo. 

Era suposto falar hoje do 27 de maio de 1977 mas o tema ainda é “quase tabu” em Angola, desconhecido por muito jovens e, porque não quero hoje tocar em coisas nefastas vou passear pelos matos; o que mudou mesmo foi o ressurgir de novas formas de roubar ao erário público destroçando paulatinamente a economia angolana, levando o povo ao desemprego, usando formas tristes de rebuscar nas lixeiras os desperdícios dos ricos que mantêm o sistema…

A serra do Chamaco via-se ao longe como teta saliente na cordilheira e, no caminho de Seles com uma vasta região de floreta de espinheiras, acácias de picos medonhos, babosas, newas, matebas, uma ou outra cassuneira, lengues, lungwengué da qual se fazem cordas de muita resistência. Em terras e N´Gunza Kabolo, soba antigo que deixou bom nome, avançamos pelo matagal, por onda a guerra se fazia sentir escassos meses atrás; a comprovar lá estavam as carcaças enferrujadas de camionetas, machimbombos, Ifas e Urais de fabrico russo.

n´tundo4.jpg Calcorreando desvios, contornando maboques, upapas e lenwenue de bagas curativas das feridas de matacanhas, cheiramos a braveza da natureza a contornar o rio Lua e o Caçosso com n´nhacas de belas hortas até se chegar ao rio Cubal. Não vi os macacos pulando entre as bimbas, coisa normal de tempos idos mas, que a guerra decerto os fez correr para não serem comidos.

Havia sim goiabeiras mangueiras e gajajeiras que ainda serviam para alimentar as acantonadas tropas da UNITA. Num tom de saudosa lembrança a voz esganiçada de Vitória* tipo cana rachada fazia-se ouvir: Vou ti bater minina; pertencente à OMA – Liga da Mulher Angolana afecta ao MPLA foi sobrevivendo com o slogan de victória ou morte; ali estava ela anafada e impregnada de bolunga feita em álcool de caporroto, de casca de banana, mandioca ou batata mas, no entanto lembrava-se das tareias que levou por causa da menina Dina, filha do patrão Cunha.

caatinga2.jpg Um grande abraço selou a saudade, daqueles tempos em que perseguiam os macacos e metiam matrindindes em frascos de nescafé. Isso de quando iam apanhar minhocas do rio Caçosso colocando-as em latas de leite Nido para o tio Francisco ir à pesca lá na foz do Cubal. Apanhamos sape-sape (graviola) tirando deles as sementes, dispusemos em uns frascos de azeitona para plantar no M´Puto e também umas melancias gentias chamadas de tanga – vi estas em grande quantidade quando andei pelo Kalahári…

Os Bushmen usam-nas para fazer o “Kalahári thirstland Liqueur”. Aqui usam-nas para fazer de xuxú nos variados cozinhados: aproveitamos trazer uns cambungues (papaia) e ukeluá-muflé – folha de abóbora para fazer esparregado e, no regresso junto ao Caçosso apanhámos as tais bagas vermelhas que no tempo passado servia para colar os selos nas cartas - por isso ainda as conhecemos por árvore da cola. 

matrindindi00.jpg Da aldeia do Caçosso só existiam ruínas (não vem no mapa) mas, a mulembeira ainda lá estava, menos imponente porque a cortaram parcialmente. Dali seguimos até ao Cantinho do Inferno; o porquê deste sítio se chamar assim deve-se ao facto de numa baixa pantanosa as camionetas mercedes, chevrolletes, magiros e Fordes ficarem ali atascadas dias e dias na via que vinha do Planalto Central. A escassos quinhentos metros lá estava a casa mãe da fazenda de algodão (em abandono) que dava guarida a todos aqueles camionistas que por ali vinham com suas cargas e, ali tinham parada forçada pela chuva e atoleiro. Cantinho do Inferno, funcionava pois como pensão, restaurante e a boa-atenção do Patrão Cunha (Já falecido) …   * Nota: Vitória, entusiasta da OMA, morreu encharcada em cachaça no ano de 2004 - dois anos após esta odisseia…

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)        

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:01
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Domingo, 27 de Novembro de 2022
KALUNGA . XXXV

KIANDA COM ONGWEVA - XX de várias partes…

– Crónica 3306 de 21.05.2022 – Republicação a 27.11.2022  em Lagoa do M´Puto

MUXIMA NAS FRINCHAS DO TEMPO - Falar do futuro, até para as kiandas é tabu…

Ongweva é saudade

Por  roxo3.jpg T´Chingange (Ochingandji)Em Arazede do M´Puto

roxo225.jpg Falar do futuro, até para as kiandas é tabu - metem-no em sapatos quedes envolto em meias já debotadas e assim abandonados ali ficam na poeira do tempo como se estivessem arrumados num canto da arrecadação. Aos comuns viventes não se pode transmitir o amanhã, só o agora, lei básica da vida; caso contrário aparecem uns lacraus vindos do álem, misteriosamente oxorizados (coisas de Oxor). O Universo tem regras que por mais que queiramos, não estão ao nosso alcance engravidá-las. É aqui que surgem os mambos longínquos com soldados Mafulos, por via das falas da Kianda Januário Pieter também este, tio tetravô de Roxo, nascido às margens do lago Niassa, um meu antiquíssimo patrício…

E, os mambos de Januário, o Pieter, nem sabermos como, quando e aonde ia, ou vai buscar tantas falas sem medo de gastar seu reservatório das magias como se houvesse lá na cuca-armazém, uma fábrica de empacotar chwingames; fala do tempo, das revoltas da embocadura do rio Kwanza, das guerras dos Tugas e Mafulos de Loanda, n´gwetas e dos desentendimentos com a rainha N´Zinga, mais outros personagens do distante Kongo do Zombo, das terras de Kassange e da Matamba…

roxo223.jpg Parece que neste entretanto vazamos para outro lado que não era o tal de Museu do Prado. Estávamos no centro da antiga Madrid da época da Casa de Habsburgo em la Plaza Mayor, ladeados por pórticos. Nas proximidades ficavam o barroco Palácio Real mais o Arsenal Real, que exibe armas históricas mas, nem sei como do nada transladamos para aqui! Quem se mete com kiandas fica kiandado ou oxorizado.

O velho Januário Niassalês o tio das manas, descreve as festas axiluandas de então com kimbandas e t´chinganges pisoteando a terra, levantando poeira de encorajar kotas, jagas, sobas e m´fumos que iam chegando em alvoroço dos Dembos e de lá mais além do Kassange. Como se ali estivéramos senti que iam passando cabaças com malavo de cassoneira e, a cada grito dado pelos dançarinos guerreiros, o povo em uníssono gritava kwata mwana-pwó, kwata mwana-pwó. Arrepiei-me com medo como num repentemente estivesse rodeado de jacarés do kwanza, amarelados de muxima, pode!?

roxo224.jpg Era a preparação duma guerra contra os Tugas n´gwetas entrincheirados em Massangano por ordem dos Mafulos Holandeses. Morgan Tsvangirai o pai de Roxo ficou avençado pelos Mwana-Pwós com o posto de tenente de segunda linha; mandava os escravos m´bikas do kimbo fazer tarefas de manutenção e limpeza ao forte, zelar pelos n´dongos de pesca e translado de coisas para a Kissama e das patrulhas de soberania aos mares parados com lagoas até o Morro dos Imbondeiros e dos Elefantes da Maianga e Samba. Também tinham a caça e a pesca ao seu cuidado.

Assim transladado naqueles tempos vi M´fumos; iam chegando aos poucos como emissários da rainha N´Zinga M´Bandi da Matamba e do rei do Kongo Garcia II que, embora sendo cristianizado pelos Portugueses, com eles andava desentendido após a chegada dos Mafulos. Teriam estes prometido a eles poderes maiores com auxílio de armas do tipo de canhangulos ou pederneiras. Eram preparativos duma união para fazerem o grande e final assalto a Massangano. Só podia ser!

Naquela fortaleza os Tugas resistiam aos holandeses tapando-lhes as vias de comunicação ao mercado de escravos lá do interior fazendo emboscadas ou tocaias usando azagaias venenosas, um método aprendido com os índios do brasil, uma cana comprida que depois de soprada, dela saia um dardo mortífero. Por isso aquele mato metia demasiado medo aos Mafulos. É aqui que entra o Senhor Maurício de Nassau que desde o Recife Brasileiro mantia o negócio das peças m´bikas para os seus engenhos de assucar.

roxo215.jpg Neste arraial com a vida acontecendo muito de repente Redufina Kabasa mãe negra da Kianda Roxo estremava-se ensinando a sua filha maneiras de comportamento e era vê-la brincar com candengues brancos e pardos no átrio da missão! Bem cedo se destacou nas habilidades de colorir os jogos de desenho, os riscos da cabra cega; qualquer argila era motivo para dali sair pintura ou escultura bem à moda dos trabalhadores de talha do pequeno altar da igreja da muxima!

Ilustrações de Assunção Roxo

Glossário: Kianda: Calunga, fantasma; Muxima: saudade, lugar de romagem; quedes: sapatos de pano; da macambira; Mafulos: Holandeses; Mambos: Atitudes, procedimentos; Cuca: cabeça; Chuingame: pastilha elástica; N´gweta: branco; axiluanda: nascido na ilha de Luanda; Kimbanda: Médico tribal, curandeiro;  T´Chingange: feiticeiro, secretário e cobrador do rei ou Mwata; malavo: vinho de palmeira; M´fumo: chefe da aldeia; Cassoneira: tipo de palmeira ; Kwata: agarra, Mwana-pwó: pombeiro branco, sertanejo, colonos; antigos taberneiros brancos; M´bika: escravo; N´dongo: canoa; Kissama: reserva animal, lugar com animais selvagens; Canhangulo: arma artesanal, de carregar pelo cano; Kiandado: enfeitiçado;  Oxorizado: virado do avesso, vaporizado…  

(Continua com “fricção”…)

Por: Soba T´Chingange (Ochingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:43
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Domingo, 20 de Novembro de 2022
MISSOSSO . LV

NO KILOMBO– NA FUNDAÇÃO DE ZUMBI DE N´GOLA…

COM FALA KALADO – NA SINGULARIDADE DOS KALUNDU

- Crónica com ficção 3300 – 20ª de Várias Partes – 13.05.2022 – Republicação a 20.11.2022 na Lagoa do M´Puto

Por mess04.jpgT´Chingange – Em Arazede de Coimbra do M´Puto

ROXO133.jpgAR - Na minha qualidade de Zelador-Mor da Fundação de Zumbi de N´Gola fiz uma visita relâmpago ao CDB - Centro de Documentações no lugar de Baobá (Imbondeiro) – lugar de entre União dos Palmares e o Morro da Barriga no estado de Alagoas do Brasil. O historiador Vizeu Antunes, responsável pelo sector, deu-me liberdade de poder consultar os arquivos da Fundação e assim, livre de outros deveres poder ver e analisar antigos dados para assim, prosseguir minha tarefa de entrevistar gente de nomeada na ainda estória recente de N´Gola. E, vasculhando cadernos de apontamentos entre múltiplas anotações recolhi dados ainda mal decifrados no contesto da semântica histórica. Fala Kalado, o agora Comendador - um Ex-Defunto de nome Nelito Soares e hoje, Ex-Coronel, recuperado em vivo e, que andou com o Che Guevara em um lugar perto de Ponta Negra chamado de Luvungi da RPC- República Popular do Congo lá para trás nos anos de 1964 ou 1965.

É aqui que ele encontra Jonas Savimbi, um negro bem negro e, os rumos, lentamente, viraram em novos azimutes. Ainda não tenho bem a exacta certeza de como tudo aconteceu mas e como diz Murphy em seu princípio, o que tiver de ser, assim será na convicção de que escrever o futuro dum morto matumbola* é bem periclitante, quase impossível. Nelito Soares era funcionário da Imprensa Nacional de Angola - Cidade Alta da LUUA… Para muitos é apenas o nome de bairro luandense; combateu, de armas na mão, contra o estado colonial, sem ter visto realizado o sonho da Angola independente, tendo sido morto pela tropa portuguesa no seu Bairro da Vila Alice. Tal como eu, foi estudante na EIL – Escola Industrial de Luanda e fez seu Curso de Sargentos Milicianos na Escola de Aplicação Militar de Nova Lisboa (EAMA)– Huambo.

roxo91.jpgAR - Bom! Nelito, um incorporado nas tropas regulamentares coloniais na região de Cabinda, tal como eu, T´Chingange, um seu colega de armas e, também incorporado na Companhia de Caçadores 1734 de Beja do M´Puto, protagonizou, com mais dois compatriotas, o desvio, para o Congo Brazzaville, de um avião comercial – um “Dacota da DTA” que seguia de Luanda para Cabinda, com passageiros a bordo no ano de 1969 (04 de Junho). O avião que deveria aterrar em Cabinda foi desviado para Ponta Negra. Longe estava, então, Nelito Soares de imaginar que, seis anos depois, num outro dia, com a Independência à porta, havia de ser morto por elementos Comandos das Forças do M´Puto – as únicas que dignificaram o M´Puto em Angola…

Nelito1.jpg NELITOEm frente à então sede nacional do MPLA, a cujos ideais aderiu numa altura conturbada de tomada do poder por este partido/movimento a maka, aconteceu! Ainda mal estruturado este Movimento do “M da vitória ou morte” aterroriza a população de Luanda às ordens “encapotadas” do General de Aviário Rosa Coutinho do MFA - um antigo prisioneiro da FNLA no rio Zaire. Nelito Soares, foi também no bairro da Vila Alice que cresceu e viveu até deixar o país para se juntar, em Brazzaville segundo a estória mal contada, à Luta Armada de Libertação Nacional, protagonizada pelo MPLA.

Era, então, funcionário da Imprensa Nacional. Eram tempos de clandestinidade, sem cartão de militante, nem discursos, muito menos promessas. Angola em um prazo muito curto, virou às avessas por força e graça do “glorioso MFA – salvo seja”. Havia falas surdinadas, salões de baile, ou bailes de jardim ou em locais de trabalho e, num repente depois dum VINTICINCO NO M´PUTO, tudo mudou – Cravos para uns, espinhos para outros, que num repente viram RETORNADOS. Mais tarde os boatos, os rebentamentos nos musseques, a rebelião SAIDA DO NADA, para trabalhar o medo, o apelo à fuga dos brancos

ROXO187.jpgAR -  Manuel Soares de Silva, nome de registo, filho de Luís João Soares da Silva e de Isabel Severina da Silva, nasceu em Luanda, a 19 de Setembro de 1943, tendo falecido em 27 de Julho de 1975. Assim se pensava mas, pelo que já foi contado, saiu morto pela fronteira Sul de Namacunde com o beneplácito de segredo do médico Kimbanda Kassessa. A parti daqui as intermitências da morte sugere segredo de resiliência e, do nada (…) instala-se em Brasil negociando com armas aos traficantes dos morros ao redor de S. Paulo e Rio de Janeiro mas e, sempre com seu novo nome de Fala Kalado.

Seu estudo secundário fê-lo na antiga Escola Industrial de Luanda, onde funciona agora o Instituto Médio Industrial de Luanda (Makarenko), na Vila Alice. Um militar de “veia lusa” afirma que: Esse Filho da Puta foi abatido em 75 nas escaramuças “escaramuças, é favor” – aonde o MPLA emboscou e assassinou vários militares… E, vêem-me agora com panfletos de merda em ode a um terrorista mal fabricado. Malditos reaccionários - fodam-se! Fantoches travestidos em progressistas.

roxo137.jpg AR - Comuna, é mentiroso compulsivo, seja da URSS seja da CHINA, Coreia do Norte ou o raio que os parta! Foram eles sim, quem arregimentou e armou uns quantos candengues “PIONEIROS” que metralharam um Jeep de Comandos Tugas PELAS COSTAS (confirmo que assim foi! Eu estava na Luua neste então), matando logo dois e ferindo gravemente outros dois. Mesmo assim conseguiram levar o Jeep até ao Quartel dos Comandos do Cazenga! Ali, mal viram o resultado desta enorme COBARDIA do MPLA os COMANDOS, a seguir, deram a resposta. A chegada de 2 Companhias dos Comandos desde o Cazenga dignificou o acto de afronta da Vila Alice; esta é a verdade!…Bem! Menos mal que só ressuscito o morto NELITO nesta estória como um Ex-defunto MATUMBOLA!

*Matumbola: - Na superstição de gente bantu, é um morto-vivo - indivíduo ressuscitado por artes mágicas, que cumpre ordens dum suposto feiticeiro kalundu que o trouxe à vida - Uma divindade ou espirito justiceiro, presente na natureza…

Ilustrações de A. Roxo - AR

 (Continua…)

 O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:46
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2022
GUARARAPES - 5

RECIFE – A SAGA DO AÇÚCAR – TOMADA DE LOANDA PELOS MAFULOS

FÁBRICA DE LETRAS DA KIZOMBA

Crónica nº 3297 de 10.05.2022,em Arazede do M´Puto – Republicação a 17.11.2022 em Lagoa do M´Puto

Por soba40.jpgT´Chingange (Ochingandji)  

A figura pública de Figueiroa foi contestada quando ainda era governador de Cabo Verde mas, na saga Atlântica, como herói na tomada de Pernambuco, passou a ter uma forte ligação com a história…

suku0.jpg Na sua relação com Angola, interessa descrever o seu trajecto de vida. A vinte e dois de Janeiro de 1639, Filipe III, rei de Portugal sob o domínio de Castela, nomeou Pedro César de Mendonça Governador e Capitão-General dos Reinos do Congo e N´Gola. Francisco de Figueiroa que já era um destacado homem, reivindicador de seu posto de fidalgo da corte, foi nomeado Almirante, o segundo posto depois do de General e simultaneamente Ouvidor da Colónia, um alto cargo nesse então.

Nesta expedição a terras de África embarcou como soldado António de Oliveira Cadornega que mais tarde, entre 1860 e 1861, se reactivaria a história das guerras Angolanas escritas por si, em três volumes da Agência Geral do Ultramar. As duas naus “Rei Dadid e Santa Catarina” chegariam a Loanda em 18 de Outubro desse ano de 1639.

madeira01.jpg No dia 30 de Maio de 1641, parte do Recife uma expedição de 21 navios comandada por Cornelis Cornelis Zonjil com 3000 homens, marinheiros Mafulos (Holandeses) e infantes mercenários de várias nacionalidades da Europa de então a soldo da Companhia das Índias Ocidentais, todos eles experimentados nas guerras de Flandres e Alemanha.

Estas forças de guerra tinham por objectivo tomar Loanda, ocupar N´Gola e dominar o mercado de escravaria da região, importante mão-de-obra para os engenhos de Pernambuco em seu poder. Ao largo da baia de Loanda, a 23 de Agosto desse ano, esta esquadra é avistada de terra, do lugar sobranceiro de fortaleza de São Miguel e parte alta do insípido caserio daquele esboço de cidade já com quase 4000 almas.

maful1.jpg Os moradores com seus governantes, arraia-miúda de desterrados e escravos evacuaram a cidade levando os haveres possíveis, refugiando-se no arraial de Kilunda do Bengo. Esta fuga teve redobradas dificuldades por terem à-perna os nativos descontentes flagelando os mwana-pwós e o governador Pedro Cézar. Este governador tinha-se revelado um homem de má índole, inepto no mando de gente e detendo haveres por corruptas e enganosas tramóias.

No dia 25 de Agosto de 1641 os Mafulos com toda aquela gente de olho azul, vestida de ferro, tomam posse de todo aquele caserio e fortaleza sem grande contratempo. Na manhã de 17 de Maio de 1643, dois anos depois, os Mafulos, contrariando acordos de relação comercial dúbia por parte de alguns portugueses, atacam por isso mesmo, de forma inesperada, o arraial do Bengo.

maful2.jpg A usura do governador Pedro Cézar tinha transbordado em traquinices resultado daqui a morte de alguns dos defensores. O próprio governador e o Ouvidor Francisco de Figueiroa foram presos e levados para Loanda. Estes “ilustres desclassificados” na visão de pontos de vista dos cronistas de então, foram embarcados para o Recife; estes, com mais alguns destacados comerciantes negreiros, compraram a sua liberdade a troco dos seus baús carregados de jóias, ouro e património de indevida apropriação à igreja e seus pares, ricos negreiros não colaborantes.

A soltura de Figueiroa ficou-lhe em mais de 15 mil cruzados pelo que, pode assim regressar ao Brasil tendo-se instalado em Bahia de todos os Santos por algum tempo. Figueiroa regressa à Madeira em uma escolta de navetas a cinco navios que regressavam da Índia aportando no Funchal para reabastecimento. D. João IV, tendo notícias de que a holanda preparava uma armada destinada a reforçar as guarnições holandesas de Pernambuco e Bahia; sabendo disso, deu ordens musculadas para que Portugal enviasse tropas de infantaria para tais destinos pois que se estava a tornar demasiada tardia a ajuda solicitada por Pernambuco. Em Lisboa formaram-se 100 infantes em 2 caravelas; no Porto, outras tantas de Viana do Minho, Aveiro, Algarve, e Setúbal. Ao mesmo tempo dava ordens a Figueiroa que levantasse 500 infantes da ilha da Madeira e Açores para tal envolvimento militar…

madeira3.jpg

GLOSSÁRIO: Mafulo: - Holandês em dialecto kimbundo de Angola

NOTA: A reconquista de Angola virá logo a seguir, pois que foi do Recife que saiu Salvador Correia de Sá e Benevides com uma frota de naus, que libertou Loanda do jugo Mafulo - * Pode agora entender-se a importância destas ligações entre a Metrópole, Brasil, Ilhas Atlânticas e Angola… Factos quase desconhecidos no mundo português da aqui referida Globália

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Ochingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:15
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2022
N´NHAKA . XXI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . VII

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?”

– Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3295 de 04.05.2022- Republicação a 14.11.2022 para o Kimbo

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por chai4.jpgT´ChingangeEm Lagoa do M´Puto

deserto5.jpg Cambongo Negunza, é o nome do rio que desagua a norte do Sumbe e é dali que sai a água, sugada do rio, que sem tratamento segue para a rede da cidade chegando aos soluços, quando chega, sempre barrenta. O viveiro, em tempos verdejante e com muitas mudas de árvores e plantas para as ruas e jardins da urbe está agora mais que desprezado, acabado; vêem-se umas rosas de porcelana ressequidas no meio de tufos que definham no castanho, tendo o rio a dois paços. Mais à frente e do outro lado da estrada o tio Chico* vende petróleo a caneco.

De calções desbotados, camisa solta, mostra a velhice que se aproxima rápido; pés inchados indiciam ácido úrico e mazelas que se esborracham no chinelo de dedo grande, as manchas são mais que muitas coloridas de terra colada à gordura do querosene adocicado na terra do pó que se levanta com o vento e quando passa as relíquias de dodge, chevrollet, carrinhas ford ou camiões Scania mas, e também Urais dos militares russos; tudo faz levantar pó que se agarra ao transpirar da gente desde o cachaço às matubas do mijo mal pingado…

cafu14.jpg Tio Chico sentado no seu velho mercedes branco atende com rabugice os candengues que trazem latas, mulheres embrulhadas em panos com as esfinges de Eduardo dos Santos*, Mobutu e Mugabe, bafanas desocupados de trabalho efectivo que desenrascam só no leva e trás dos recados de quem vende chita e zuarte lá nas lojas do burgo. A crise da luz faz aumentar o consumo do querosene avermelhado. Cada caneco despejado, tem uma descarga de um monte de nomes fazendo vírgula com sundiameno e ponto e virgula com topariobé entre os recados e devolução de trocos em moedas de luínhas e notas surradas de kwanzas…

Tio Chico já com seus mais de setenta anos de idade sobrevive assim com a ajuda do irmão Cunha que prospera no negócio de venda de bebidas, bolungas, pneus, géneros alimentícios e outras candongas; dá para notar que o cumbú do tio Chico anda malé mesmo. Ué, beber água!? Só do Luso! Também aparece água da Chela de rótulo azul que diz ser da nascente natural – a condizer lá está colado o rotulo com o mapa minúsculo de Angola com a bolinha do sítio e o dizer: “Produto de Angola”…

O mercedes do tio Chico, tinha tanta terra dentro dele que seus sobrinhos Zito e Chiquinho até disseram que se podia ali plantar mandioca ou até cana-de-açúcar; um exagero bem condizente com o galinheiro chique de Mercedes Benz. Saídos dali, fomos até às Quedas da Binga no rio Queve ou Cuvo situada a uns oitenta quilómetros do Sumbe. De geleiras de isopor, esferovite cheias de gelo e cerveja, escolhemos lugar sombreado do parque e entre mergulhos lá íamos comendo iguarias feitas de esparregado de folha de abobora, folha de batata-doce e croquetes de peixe do rio Cambongo e ostras da foz do Cuvo.

sumbe1.jpg Estando ali na Binga e vendo a ponte meio derrubada pelos cubanos quando do avanço da forças vindas da África do Sul, fomos ao topo dos rápidos ver de perto como se fazia agora a travessia e constatamos haver uma grandes chapas de ferro grosso a ligar os pilares e muros que resistiram ao original desmantelamento por efeito de minas; Os militares de plantão não nos deixaram tirar fotos mas, sempre acabamos por fazer alguns registos fotográficos.

Visitamos um velho conhecido da antiga JAEA e que neste então se chamava de INEA. Passou de Junta a Instituto mas de relevo só mesmo o nome porque os buracos por todo o lado eram mais que muitos. Visita feita, tratamos de nos regalar nas águas frescas a montante das quedas com algumas ilhas e penedos a rodear-nos. Mais acima da corrente as donzelas tomavam banho com as mamas a leu, luzidias de negro, pulavam e gesticulavam-nos adeus, a mim e ao Zito. Assim metidos na água, até parecíamos, o Tarzan branco na minha pessoa e o auxiliar do Mandrak, o Zito Lothor preto, como se estivéramos numa cena de filme.

angola5.jpg Na merenda, pude observar a boa conservação do parque, muros caiados, terreno limpo e um vigilante a não permitir que a garotada se acercasse de nós pedinchando a famosa gasosa e, foram fotos debaixo da cachoeira, um sengue que mansamente se deslocava na margem de lá deixando rasto na areia ali depositada, a espuma da água compondo brancura. Recordei neste então a minha estada ali em lua-de-mel no ano de 1970 – naquele agora pareceu-me mais majestosa pelo muito caudal de água. As cervejas, sagres e castle da África do Sul estavam de arrepiar frescura sequiosa. Por debaixo do imbondeiro e ladeados por marulas, mutambas e upapas, nelas riscamos corações com flexas entre muitos outros nomes já ali encarquilhados no tempo com casca. Quase noite, retornamos ao Sumbe, casa do Sr. Pais da Cunha*, pai de Balbina, nosso anfitrião e sogro do Jimba*

Notas*: Tio Chico, Jimba, Pais da Cunha, Eduardo Santos (o presidente), todos já falecidos (14.11.202)

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:50
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Domingo, 13 de Novembro de 2022
KALUNGA . XXXIV

KIANDA COM ONGWEVA NAS FRINCHAS DO TEMPO - XIX de várias partes…

– Crónica 3294 de 04.05.2022 – Segredos de sua tetravó Zachaf Pigafetta Roxo no Museu do Prado em Madrid…

Republicação a 13.11.2022 em Lagoa do M´Puto

Ongweva é saudade

Por zedu4.jpgT´Chingange (Ochingandji)

tukya13.jpgCA - Quase tudo que vou dizer é mentira mas, tende a ser verdadeira. Como disse, foi graças à insistência do Conde de San German que ela, tetravó de Roxo se decidiu a abrir comigo: Sua mãe (de Roxo) kianda negra foi Redufina Kabasa Tsvangirai que se umbigou com um tal de Morgan Tsvangirai. Que nasceu preta-preta retinta mas, no correr dos dias foi ficando assim branquela como o é hoje. Ela a kianda Assunção Roxo deu seu primeiríssimo alerta de vida nas águas do lago Chivero, que fazia fronteira com a fazenda farm de Morgan Tsvangirai.

Pois, tranquilamente disse-me que sua mãe era preta retinta, casada com esse tal de Morgan Tsvangirai, que ganhou a primeira volta nas eleições em confronto com a múmia Mugabe, após vários dos seus apoiantes terem sido assassinados. África é assim mesmo, inconstante, de revoltas permanentes e, aonde o poder vira tribal, mesmo brutal. Zimbabwé era um território farto em acontecimentos irreais (confirmei isto mais tarde a duras penas no lago Kariba). Foi isto que os motivou a transladarem-se para o Kwanza e ficar ali bem perto de Massangano, também um lugar de muita magia, da antiga.

paradi2.jpg Massangano, aonde os espíritos ainda conferenciam muxima por ser um pambu-n´jila (lugar de afectos especiais com bwé Muxima). A múmia Robert Mugabe venceu as eleições convocadas para o dia 28 de Junho de 2008, sendo reconduzido mais uma vez ao poder, desta feita pela sexta vez consecutiva, por desistência do pai de Roxo. Esses foram momentos conturbados mesmo para Morgan Tsvangirai*, e até para kiandas como nós, disse sua tetravó Zachaf Pigafetta Roxo. Com o apoio internacional, houve uma partilha de poder que durou cerca de quatro anos.

Este Governo de Unidade Nacional revelou-se ineficaz para acabar com as fortes tensões e evitar confrontos sangrentos entre os apoiantes de Mugabe e Tsvangirai. Em 30 de Junho de 2013 Robert Mugabe foi novamente reeleito, apesar da oposição adocicada.

massangano1.jpg Talvez seja a sina de África ter gente que nunca chega a crescer em definitivo – são na grande maioria crianças até quase morrer e morrem até, sem curriculum vitae… Ficam sábios quando recebem a estrema unção dum quimbanda credenciado nas bocas do Mundo. Acho que Nosso Senhor não andou por ali e ficaram só abençonhados por aquele branco chamado de Livingstone. Em 2018, passei por lá e vi que a nota, dinheiro de maior valor tem três pedras empilhadas no lugar da esfinge dum possível estadista – Vale zero! Os kinguilas vendem-nas aos magotes para malucos coleccionadores, a preço de banana podrida…Aiué!

Posso agora entender do porquê esta kianda Roxo andar assim tanto de um para outro lado irrequieta, sem saber desta sua dupla vida mas, compartilhando xispanços de tinta com maestria. Xispanços de pinceis electrónicos na forma de gigabaites que se traduzem em cores holográficas, fosfóricas e ate cibernéticas; pinturas do paralém de assombros que só kiandas podem executar. A surrealidade está-lhe no equinócio de singularidade primaveril.

muxima1.jpg Pois! Com tantas nuances – de cada uma das diferentes gradações pode ter uma cor entre o seu claro e o escuro periclitante que, teria mesmo de acabar esta intrincada estória no equinócio de primavera, uma óptima sinalização para quem vive no lugar dos espantos, fenómenos dum Entroncamento. Convém lembrar que o primeiro dia da primavera, o que ocorre todos os anos entre os dias 20 e 21 de Março, este ano, aconteceu no dia 20 de Março de 2022 às 15h33. Pude ver isto nos astros…

Equinócio é uma palavra em latim que aglutina dois termos com significados diferentes. Aequus significa "igual" e nox, "noite". O termo quer dizer literalmente "noites iguais", isto porque nessa altura a noite e o dia têm sensivelmente a mesma duração, 12 horas. Nesta altura da estória tenho de confessar que a kianda Oxor nunca foi vista por mim ao vivo mas, estive lá bem à sua porta no lugar do Entroncamento, terra de fenómenos e assombrações – Se estava com uma nevralgia ou artrite, não pude perceber o cheiro intenso da canfora, dos cremes usados para aliviar dores como o diclofenaco ou dietilamônio. Mas, falando com “Humberto Delgado” durante o almoço das enguias, senti que havia um torcicolo para decifrar com a kianda gémea de Roxo… Assim, ao invés de fataça comi enguia, bem boa!

zebra1.jpg NOTA*: - Morgan Richard Tsvangirai já desfaleceu, quersedizer, morreu em 2018! Foi em verdade, um sindicalista, activista de direitos humanos e político do Zimbabwé, antigo primeiro-ministro do país, depois do acordo de divisão de poder que foi estabelecido com o então presidente Robert Mugabe depois das eleições presidenciais, em Setembro de 2008…

(Continua com “fricção ficção”…)

O Soba T´Chingange (Ochingandji) – Na Lagoa do M´Puto

Equinócio é uma palavra em latim que aglutina dois termos com significados diferentes. Aequus



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:00
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2022
MISSOSSO . LIV

NO KILOMBO DO ZUMBI – NA FUNDAÇÃO DE ZUMBI DE N´GOLA…

COM FALA KALADOCUITO CUANAVALE . MAVINGA

- Crónica com ficção 3292 19ª de Várias Partes – 26.04.2022, na Pajuçara do nordeste brasileiro – Republicação a 11.11.2022 na Lagoa do M´Puto  ( Dia da Independência -  Há 47 anos...)

Porguerri3.jpgT´Chingange 

Numa01.jpgGeneral Kamalata Numa da UNITA 

Continuação das falas com o General Numa da UITA (ficcionada)

P: - A Batalha de Cuíto Cuanavale ocorreu entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988. Foi a batalha mais prolongada que teve lugar no continente africano desde a Segunda Guerra Mundial. Que nos diz acerca desse evento?

G: - A batalha de Cuíto Cuanavale continua a ser reivindicada á revelia dos generais da UNITA que nela participaram; sempre será uma fractura entorpecida da verdade, quase um tabu no enaltecer de vaidades. Subsiste sempre aquilo que já se verificou na estória e, que ficou conhecido como o “Síndroma de Estocolmo” que, pode bem aqui, ser chamado de “Síndroma do Cuíto”

Por que isso aconteceu? Abro aqui um parêntesis para e em síntese, explicar o que é isso de “Síndroma de Estocolmo”: Algo que nem eu conhecia ao pormenor - Foi um caso peculiar que permitiu a observação de um estranho fenómeno em que os militares, passam a ter fortes afectos pelo próprio agressor (UNITA) após casos sérios de violência física, psicológica ou guerra forçada e prolongada. O soldado patriota, passa a ter um relacionamento de lealdade e solidariedade com seu agressor. A teoria consiste em acreditar que, apesar das adversidades apresentadas, o inimigo (UNITA) está de alguma forma tentando proporcionar algo bom. A vítima, MPLA, pensa não ter possibilidade de escapar da situação, uma vez que está em situação de vulnerabilidade – É o sistema de defesa da mente humana a buscar uma maneira de aliviar a situação.

mavinga2.jpg P: Para além da fuga de Luanda em 75, ouve mais tarde aquela que ficou conhecida como a “Grande Marcha” dos sobreviventes da UNITA à perseguição das forças ditas governamentais! Correcto?

G: - Ainda lembrando: No dia 8 de Agosto de 75, a UNITA em Luanda, teve de evacuar todos os seus ministros do Governo de Transição. Dá-se o genocídio da UNITA no Pica-pau com o assassínio total de todos os seus ocupantes. A perseguição continua até 17 de Agosto de 1975, obrigando todos os dirigentes, demais elementos e simpatizantes, Umbundos a fugir para onde quer que fosse para se manterem vivos. Em verdade, quem instalou a lógica da guerra foi o MPLA com a supervisão, beneplácito, oferta de material bélico e logística do MFA, dos portugueses …  

P: - Perto de Vila Flôr a cerca de 40 km do Huambo, na noite de sete para oito de Setembro de 1976, Canhala foi cercada, atacada, saqueada tendo o governo do MPLA massacrado toda a população. Foi assim, general?

G: - Isso! Não podendo admitir o erro, o MPLA atribuiu aos “fantoches da UNITA” a responsabilidade pelo massacre; quando, na verdade, a UNITA se encontrava desmantelando para Sudeste. Até final de 1976, embora desfalcada, a UNITA resiste a três operações dos cubanos e MPLA “Tigre” no Leste; “Kwenda” a Sueste; “Vakulukutu”, no Cunene. Neste ano, Savimbi envia para Marrocos 500 homens que, a coberto do apoio do Hassan II, recebem treino militar – em Março do ano seguinte, no 4º Congresso da UNITA, estes homens são nomeados comandantes do exército semi-regular da UNITA.

mavinga1.jpg P: - Pelo que sei também ouve actuação de topas congolesas al lado das topas ditas regulares do MPLA, Certo!?

G: - É verdade! À coligação MPLA/cubanos juntam-se tropas congolesas com um total aproximado de 10 batalhões que passam a actuar no Centro/Sul de Angola, praticando a politica de terra queimada e, na qual ficou a ser conhecida por “Ofensiva Ngouabi”, de Marien Ngouabi, presidente do Congo e que, em Setembro de 76, visitou oficialmente Angola. Entre as aldeias mártires da “Ofensiva Ngouabi”, contam-se Quissanquela, Capango, T´Chilonga, T´Chiuca e Mutiete. Nesta última, foi sumariamente executada toda a população masculina.

P: - A República Popular de Angola é admitida na ONU e reconhecida por vários países. Portugal seria o 88º membro a reconhecê-la. E, Como ficou a UNITA, general?

G: - Nesse mesmo mês, o comité político da UNITA abandona Huambo e inicia a retirada par Sudeste, com cobertura de uma coluna Sul-africana. Savimbi está no Leste e inicia, juntamente com duas mil pessoas, aquilo a que se veio a chamar a “Longa Marcha”. O líder da UNITA, Jonas Savimbi, viria a atingir o Cuelei, a 28 de Agosto, milhares de quilómetros percorridos, apenas com 79 resistentes.

mavinga3.jpg P: - General, parece que tudo se acertou em 1991 com o tão desejado “Acordo de Paz”.

G: - Pois ouve sim uma pausa quando se sentaram à mesa nessa data, Alicerces Mango e Lucamba Paulo Gato pela UNITA e, Pitra Neto e o general Ika pelo MPLA. Foi nesse então que a UNITA exigiu um governo de direito democrático que nos levou a Bicesse; isto só foi possível após o último assalto ao Cuíto Cuanavale.

Mas, em verdade, foi a Batalha do Lomba em 1987, ganha pela UNITA que levou o MPLA a sentar-se à mesa de negociações. Se não fosse assim, nunca o MPLA cederia!

mavinga4.png P: - General, para terminar, qual foi a decisão que mais pesou na mudança da guerra?

G: - Naquela batalha do Lomba houve por parte de Savimbi a decisão de eliminar todas as fontes de abastecimento ao combustível petróleo. Foi sim decisivo na quebra de logística do MPLA que pretendia ser o dono da história e seguir subserviente à mentirosa versão russa. Mas, é sabido que os interesses económicos estão acima de qualquer outro ideal. E, aqui os americanos deram a volta – que ninguém mecha com seu petróleo. – Adeus USA, adeus América… Teremos de terminar aqui, com a oferta de alta tecnologia americana a Savimbi que sem falhas o localizou e, matou… Há sempre algo desconhecido que nos espera… Abraço!...

(Continua…) 

O Soba T´Chingange (Otchingandji)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:40
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2022
MISSOSSO . LIII

NO KILOMBO DO ZUMBI – NA FUNDAÇÃO DE ZUMBI DE N´GOLA…

COM FALA KALADO – A TRAIÇÃO DO ALVOR - Crónica com ficção 3291

18ª de Várias Partes 25.04.2022 ,na Pajuçara do Nordeste brasileiro

– Republicação a 10.11.2022 na Lagoa do M´puto

Por ÁFRICA17.jpgT´Chingange

vaca0.jpg Aquele encontro em Lindoya com o General Kamalata Numa da UNITA, acabou em churrasco com a promessa de me dar uma entrevista sobre o tema Angola… Dizia então que se “Deus quiser como é de norma dizer-se entre cristãos” iriamos aqui estar de novo. Desta feita e, de comum acordo, falamos no exacto dia em que se comemora o Vinticinco de Abril no M´Puto (48 anos passados), o qual com todas as vicissitudes deu origem à independência de Angola. A entrevista começa assim do nada e, em uma data apelidada aqui de Vinticinco:  

P**: - General, como pode ver agora essa data de Vinticinco de Abril de 1975 que foi tão marcante para a liberdade no espaço da Lusofonia?

G**: - O regime instaurado em Portugal a 25 de Abril de 1974, tudo tem feito para minimizar os crimes cometidos contra a nova nação Angola, traindo logo à partida o Acordo de Alvor e, que ainda tanto apregoam e, pelos quais é directamente responsável; promovendo a propósito, o mito de que a Revolução dos Cravos foi uma “revolução sem sangue”. Por outro lado, passados que são 48 anos, ainda não ouve um alto dignatário do Governo do M´Puto que mencionasse este desaire que culminou na entrega da governação ao MPLA.

Numa01.jpg P: - General, para além do mais, estão hoje (dia do Vinticinco) condecorando com a ORDEM DA LIBERDADE no M´Puto o vilão que tudo fez para desvirtuar todas as eventuais boas intenções do Concelho da Revolução, um oficial vermelho chamado de Rosa Coutinho?

G: - Em 15 de Janeiro de 1975 foi assinado esse acordo que refere, “Acordo de Alvor” que deveria corresponder à transição de poderes de Portugal para os três movimentos emancipalistas reconhecidos. Portugal, tomou logo partido pelo MPLA pois que já antes deste acordo, se tinham reunido em Argel para consertar os procedimentos a que viemos a assistir. As consequências são por demais conhecidas e, assiste-se a uma permanente campanha de imunda falsidade da história com branqueamento de crimes com o apoio da pseudo “elite de Abril”, infiltrada nas escolas, universidade, fundações e observatórios, em quase todos os meios de comunicação de massas e até na figura principal do Estado Português.

P: - Como General da UNITA, como vê o desenrolar de todo o processo em Angola após o Vinticinco?

G: - Quem levou a guerra a Angola foram os portugueses que logo buscaram os russos para os coadjuvarem na mudança fornecendo-lhes toda a “aptidão” na técnica de guerra de sublevação. Chamaram a seguir os cubanos que entraram em solo angolano muito ante da data estipulada para a independência, o 11 de Novembro de 1975. Fizeram do MPLA e à revelia do povo, o representante de toda a população residente no território. Temos assim o MPLA/Governo, como o agente do neocolonialismo em Angola. Por detrás de tudo estão as decisões tomadas em Argel pelos militares portugueses, de esquerda. 

P: - Reconhece ter havido golpe baixo, senão traição, por parte de Portugal?

G: - É por demais conhecida a ida de Otelo Saraiva de Carvalho a Cuba

solicitar intervenção armada e a figura sinistra de Rosa Coutinho que tudo fizeram para que o rumo de Angola resvalasse na guerra entre irmãos. E, estava escrito naquele acordo que em Angola se formaria uma Assembleia Constituinte no prazo de nove meses. Nada disto aconteceu!

P: - Em Abril de 1975 Jomo Keniata organiza a Cimeira de Nakuru no Quénia, na qual a UNITA, MPLA e FNLA acordam na formação de um exército nacional único. O que falhou depois disto?

G: -Bem! Nesse mesmo mês (Abril de 75) Savimbi chega a Luanda. Cerca de dois meses depois, o MPLA destrói um quartel da UNITA na capital., chacinando militares e civis ali bivacados – este episódio ficou conhecido por “MASSACRE DO PICA-PAU, nome do bairro que albergou o quartel. Definitivamente o MPLA, pelas ordens de Rosa Coutinho, o cunhado de Agostinho Neto, não queria nenhum dos outros Movimentos intervenientes no “ACORDO DE ALVOR” em Luanda. Eu direi que este foi o mais escandaloso “DESACORDO” na estória recente que envolve países dos PALOPS.

adalberto junior unita.jpgP: Em Luanda, nesse então, havia provocações originando a fuga de brancos e assimilados, mazombos como eu. A lei, a ordem, a justiça eram coisas quase inexistentes ou anedóticas pela pior das negativas. Que tem a dizer a isto?

G: - Luanda ficou entregue a gente impreparada, gente racista como Lúcio Lara entre muitos outros e “miúdos pioneiros” que faziam querer tomar o controlo de tudo… Para o MPLA, era incontestavelmente seu líder Agostinho Neto, um medíocre poeta com formação universitária em Coimbra – O homem escolhido pelos generais e afins do MFA (dizem agora, ter sido o menos mau!). A UNITA também se retira de Luanda para o Huambo, antiga Nova lisboa. O MPLA fica dono e senhor da capital, a Luua.

P: - Muito antes do 11 de Novembro de 1975, desembarcam os primeiros cubanos que passam a apoiar o MPLA contra a FNLA tal como o combinado entre Fidel de Castro e Otelo Saraiva de Carvalho; hoje deve saber-se como tudo se processou?

G: - Assim foi! O pseudo-herói do VINTICINCO de Abril do M´Puto, conhecido pela rebelião dos capitães assim procedeu. Mas, em verdade já havia em Angola e Congo Brazaville cubanos em treinamento para ultimar sua entrada em Angola e, muito antes do 11 de Novembro. Esta força ajudou o MPLA contra a FNLA; força da FNLA que avançou para tomar Luanda, uma coluna na qual se incluíam mercenários de várias nacionalidades, portuguesas incluídas tal como Santos e Castro um oficial superior nascido em Angola; também havia um elevado número de zairenses - sete ingleses, dois americanos, um cipriota, um escocês e um sul-africano que são feitos prisioneiros e, que num julgamento sumário, mais tarde, foram fuzilados

toledo20.jpg P: - Houve na África Portuguesa, uma limpeza étnica da população branca, promovida pela União Soviética com o total apoio dos partidos da esquerda portuguesa: - PCP e PS. Que tem a acrescentar a isto General?

G:- Em verdade, o Relatório Final da Comissão de Peritos estabelecido conforme a Resolução 780 do Conselho de Segurança das Nações Unidas* definiu a limpeza étnica como sendo: “Uma política propositadamente concebida por um grupo étnico ou religioso, para remover a população civil de outro grupo étnico de uma determinada área geográfica, através de meios violentos ou que inspirem terror”. Pois foi isto que aconteceu com Umbundos e Brancos… As evidências e as provas de crime são tantas que, não restam dúvidas de que a descolonização da África Portuguesa foi uma limpeza étnica da população branca, Quiocos e Umbundos, promovida pela União Soviética com o total apoio dos partidos da esquerda portuguesa: - PCP e PS.

Ver Nota***

Notas- 1*: Ver documenta – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇOES UNIDAS – Relatório Final da Comissão de Peritos Estabelecido Conforme a Resolução 780 do Conselho de Segurança (1992). 27 de Maio de 1994; 2**: - P de pergunta, G de General; 3***: - Nesta data o M, movimento governo, continua no poder tendo sufragado João Lourenço como Presidente do MPLA/Angola, com fraude. Batota verificada mas não aceite pelos apêndices de Tribunal Constitucional e Eleitoral, tendo recusado as provas da victória, sem sequer as lerem. A prova de que foi ganhador Adalberto da Costa Júnior, Presidente da UNITA…

(Continua… Sobre Cuíto -Mavinga) 

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:59
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Sábado, 5 de Novembro de 2022
N´NHAKA . XX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . VI

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3287 de 20.04.2022, em PortVille da Pajuçara de Maceió – Republicação a 05.11.2022 em Messejana do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto ao rio, horta…

Por araujo160.jpg T´Chingange –(Otchingandji)

araujo1.jpg CA -Já estamos no Sumbe, terra do eclipse e da eleição de misse 2001, um ano atrás, mas ainda lá está o jardim que proporcionou mostrar a fantasia com lençol de água escorrendo em cascata e, muita luz de coloridos brilhos. Tudo para trabalhar pela televisão as invencionices de lavagem da governação sem os desmandos, roubos e superfacturamento que a nomenclatura vinha praticando. Agora está tudo seco, o fingimento de beldades já sem águas escorrendo, deu lugar à terra crua e vermelha no lugar da grama - as árvores definham por falta de água!

Água, aiué…foi aparecendo nas torneiras em alguns dias entre as cinco e seis horas da manhã, depois, adeus… Não deu para tomar banho de chuveiro; na casa do pai de Balbina, Pais da Cunha o caneco funcionou todo o tempo. A luz da lâmpada também só aparecia nos dias ímpares; com gasosa até podiam dar-nos uma fase por mais algum tempo. O mundial de futebol de 2002 (vinte anos atrás) estava a decorrer. Todos desejavam a victória do Senegal e, só depois o Brasil – Os Tugas já estavam de fora.

arau44.jpgCA - Os grandes discos de antenas parabólicas proporcionavam aos mais abastados da cidade do Sumbe verem o canal de África – RTP Internacional entre outras e de todo o mundo. Xingú, o mais candengue da família Pais, nas falhas de energia lá ia a correr até à casa do gerente do gerador ligar a fase pirata da zona par; aconteceu até levar uma lata de gasóleo, o necessário para o gerador funcionar.

Era uma luta pelos vistos! É que nem sempre os vizinhos estavam nos ajustes indevidos para que o gerador funcionasse na borla devida. Mas, nestes dias a febre do futebol fazia milagres de luz para sempre se verem os gooolos. Em um dos vários dias comemos de vela acesa, talvez a gasosa do lado impar tivesse sido mais substancial. Até foi bom que acontecesse a escuridão porque tivemos oportunidade de assim entabular divagações com ajustes de posturas nos muxoxos e kazumbis.

araujo179.jpgCA - No meu sentido de inserir palavras nesta descrição, frases e estruturas sintácticas, fui acumulando palavras novas oriundas do kimbundo, do umbundo e outras maneiras de linguajar tendo sempre como base o português do M´Puto com as declinações e palavras novas, inventadas até e, u oriundas do tronco bantu. Sendo assim um misto de narração, inventação, conto ou testemunho de reportagem, coloco em meus próprios sonhos, as vontades de reconciliação com um profundo agradecimento a todos os que me proporcionaram dias tão diferentes.

Envolto em ideias díspares, quase psicografava em vontade, nas contradições, algumas das sanguinolentas, macabras até e, que sem o devido tato, poderiam resvalar para ressentimentos; acontecia assim ao falar com o filósofo Pipocas, um responsável do património local do MPLA que de tanto beber, se esqueceu dele mesmo – pifou em sabedoria!

araujo158.jpgCA -  Pipocas era em verdade um símbolo kazukuteiro descartável, ágil e de falas suaves, peneirava-se na beleza das malambas, esperto, agressivo no beber, desconsiderado ou desclassificado por raiva, ciúme ou desdém, poucos o tinham em conceito concebido mas, tinha sim uma mente aguda: Ginasticando suas manigâncias da vida definhava-se na permanente curtição do álcool, vinho Camilo Alves, cerveja, cachaça e outras mistelas de bangasumo e capo-roto.

Pipocas, tinha sido comandante mas, por ter arrecadado o dinheiro dos mortos de guerra saiu dos mecanográficos e, por ali está agora comandando os imóveis, remexendo continuamente mugimbos almoxarifados, efémeros de quanto baste para encantar linguistas; isto, antes de rodopiar os olhos liambados de coisa ruim. É um personagem típico dum grande palco que é Angola, passando os dias num faz de conta divagando e bebendo frias cucas; e, assim sua cuca se adia, sempre adiado nas obrigações. (…Com ele, Pipocas sóbrio, tive conversas bem interessantes, senti-lhe uma arguta esperteza, ideais bem formulados, revelando ter principios de sábia concertação social de elevada erudição – acima da média …)     

Ilustrações de CA -Costa Araújo

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)    



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:52
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Domingo, 30 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XIX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . V

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002) – Crónica 3283 de 16.04.2022 em PortVille da Pajuçara de Maceió – Republicada a 30.10.2022 na Lagoa do M´puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por mocanda11.jpg T´Chingange

dracma5.jpg Neste lugar de encantos atarraxados, na área de serviço de Cabo Ledo, as cervejas são retiradas de grandes caixas de isopor, esferovite; dessas que se usam quando vamos para o campismo mas, de maiores dimensões. É dali que retiram as verdadeiras gasosas de beber, pepsi-cola, mission, cucas e taifal ou sagres do M´Puto. Ali perto há um aquartelamento militar; foi por aqui que entraram os primeiros militares cubanos que deram formação às primeiras tropas organizadas do MPLA. E, foi Carlos Fabião, Flávio Bravo e Agostinho Neto que acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota, a que ficou conhecida como a Batalha de Luanda.

Pois foi aqui que entraram e depois saíram entre Maio e Junho nessa Operação Carlota; oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. Foram estes e os jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água” que mais tarde deram os pormenores já descritos em várias fontes. Cabo Ledo teve uma forte intervenção naquela que ficou conhecida por “a Batalha de Luanda”.

No entretanto da observância vêem-se uns quantos militares roçando as donzelas; um deles, de patente rasa vem até nós pedir uma gasosa a fim de poder ir até Luanda visitar sua namorada; treta ou não, em seguida bazou de nós indo pela certa cravar outro, indícios firmes do pouco salário que recebem. Já perto do rio Calamba, começa a ver-se newas, maboqueiros, embondeiros e cassuneiras; podem ver-se muitas destas, altas e esguias palmeiras já em fase de vida terminal -alguém esclareceu que por tanto retirarem sua seiva para fazer marufo, elas definham até à morte.

quiçama01.jpg Atravessamos a Reserva da Kissama sem ter visto uma simples capota, nem tampouco um camundongo ou mesmo um dilengo (coelho). Começamos a descer para Porto Amboim, um antigo e importante porto de pesca e início da linha de comboio que trazia em tempos o café da CADA, uma empresa exportadora de café robusta. Foi ali na “Boa Lembrança” da CADA, que passei minha lua-de-mel como soe dizer-se, no ano de 1970. O sol kúkia, descia já no horizonte valorizando a ampla baía com o mesmo nome.

Neste local de muita azáfama piscatória no tempo dos Tugas, podia ainda ver-se alguma movida na arte de secar peixe, pesca da lagosta e lá mais adiante, ao dobrar do promontório e na foz do rio Cuvo as deliciosas e grandes ostras. Compramos ao Tadeu Matrindindi um saco de ráfia, daqueles usados no transporte de carvão lá no M´Puto. Custou-nos cem kwanzas ou seja o equivalente a dois €uros e vinte cêntimos. E, se havia ostras! Dias depois voltamos ali, atravessamos em uma improvisada jangada de paus de binga, amarrados com mateba, numa lagoa da foz do rio Cuvo e nós mesmos, eu, Jimba, Zito e o vizinho Candimba apanhamos mais um saco daqueles.

quiçama0.jpg À medida que espetávamos o bordão no fundo, sentíamos as ostras, um rochoso crocante, depois era só mergulhar e apanhar à lagardere… Foram dias de folgadas lembranças como se ainda candengue estivesse a apanhar na Samba da Luua as mabangas para o isco a usar na apanha das mariquitas ou roncadores. O banco de calcário ostrífero era impressionantemente vasto por ali. Fazendo uma fogueira na ilha de areia daquela foz, pudemos fazer abrir aquelas deliciosas ostras, meter-lhe uma porção de sumo de limão e, depois degluti-las. A acompanhar tivemos as frias, cervejas Hanson, Heineken, Sul Africanas e a Cuca angolana.

Recordo agora o Jimba (já falecido) a apontar uma farta planície, uma imensidão de capim, as terras de seu pai e aonde cultivavam algodão em idos tempos. Agora podiam ver-se umas quantas cabeças de gado nemas bem perto de um quartel com parque militar; estafadas Urais e Ifas soviéticas usadas na guerra recém terminada -  há quatro meses…    

quiçama03.jpg Posso agora, 47 anos depois do 75 recordar: E, foi na Praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”. Os instrutores deste equipamento sofisticado, estavam a ser coordenados pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville enviavam numa primeira fase, pequenos aviões para aterrizar na pequena pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)     



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:45
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Sábado, 22 de Outubro de 2022
MISSOSSO . LI

NO KILOMBO DO ZUMBI – NA FUNDAÇÃO DE ZUMBI DE N´GOLA…

COM FALA KALADO - Crónica 327716ª de Várias Partes – 08.04.2022 em Pajuçara – Republicada a 22.10.2022 em Lagoa do M´puto

Por aqualtune.jpgA - T´Chingange – No nordeste brasileiro e AlGharb do M´puto (Com Aqualtune)

tonito19.jpg Chegada a hora do café e dos digestivos, era suposto haver discursos na forma de agradecimento mas, e devido ao facto do Exmo. Cidadão estar no estado já descrito e, porque sempre ficava apoquentado de irrequieto quando tudo ficava demorado, Rosa Casado, a chefe de protocolo, deu indicações que o senhor Comendador iria retirar-se a fim de dar andamento aos seus tratamentos e, que as individualidades presentes, (nós), iriam para o d´jango do jardim para e após ou durante o café serem estabelecidas as linhas programáticas da Fundação Zumbi de N´Gola para o tempo que restava, até se findar o ano civil.

Após Rosa Casado ter segredado algo propedêutico ao ouvido do Exmo. Comendador, este de novo levantou sua mão direita para dar homologação às palavras de sua muito distinta auxiliar, dona de muitos segredos oriundos de Garanhuns, Petrolina e Serra da Barriga por ser filha de um antigo prefeito da Cidade de União dos Palmares – António Ribeiro Casado. Todos de pé, assistimos à saída do filantrópico cidadão acompanhado daquela outra senhora com bata branca com uma cruz vermelha ao peito…

O gigante negro Lother, que até então se mantinha afastado, bem no canto e ao lado do tal chefe de cerimónias com laçarote, este, ao tocar de novo o sino como que dando por terminado o repasto, Lother caminhou na direcção da cadeira ergonómica que, com suavidade, rodou noventa graus, levando seu patrono ao seu mukifo … Estando eu atento em todo o tempo ao semblante do meu antigo companheiro de guerra do Maiombe pude reparar…

zem4.jpg Pude notar duas lágrimas caindo por sua face; havia momentos de lucidez e, nesses momentos, era tomado pelas carências de perdoar o justo pelo certo e também porque não mais seu luar, poderia pôr a noite inchada. Por momentos até relancei a hipótese de estar a fingir para ludibriar a Intelligence secreta que sempre parecia estar presente em seus passos desde que saiu matumbola de Angola, seu país de origem… União dos Palmares é considerada uma das principais cidades de Alagoas e é conhecida por ser "A Terra da Liberdade", pois foi nela, mais precisamente na Serra da Barriga aqui descrita por vezes como Serra dos Macacos, aonde foi dado o primeiro grito de liberdade por Zumbi dos Palmares.

Em sua memória surgiu a festa da Consciência Negra festejada a 20 de Novembro, dia de sua morte. Tive esta lembrança na deslocação para o d´jango aonde iriamos estabelecer as tais linhas programáticas da Fundação. Do muito que ali se debateu, a mim, Zelador-Mor, conselheiro, fiquei de coordenar o vinte de Novembro, de coordenar toda a logística de convites às muitas personalidades do mundo dos PALOPS, cabendo a cada um dos outros nove membros eleger três figuras públicas internacionais nas áreas de governo, cultura e diplomacia global. 

adalberto junior unita.jpg Não vou aqui entrar em detalhes do foro interno mas e, no que toca à minha escolha apontei os nomes de Marcial N´Dachala e General Kamalata Numa, ambos da UNITA*** e, José Eduardo Agualusa, escritor conceituado a nível internacional. Na altura certa se saberá publicamente os outros nomes num total de trinta, tendo várias correntes politicas e visões diferenciadas para e, em altura própria conferenciarem seus pontos de vista, da Paz e da guerra, dos pontos dentro e fora das quatro linhas que balizam os conceitos de democracia.

Também ficará a meu cargo a popularíssima Corrida Palmarina do Jumento Alagoano no último domingo de Dezembro de cada ano civil; uma cavalhada que entusiasmará por certo todos os tropeiros deste mundo. Esta festa de cariz popular terá decerto a filiação da autarquia e muitos aficionados das gestas heróicas dos tempos idos, das tropas de muares cruzando os lugares mais recônditos deste brasil. Esta terá também a participação das gentes dos actuais quilombos adstritos à governança de Paulo Sarmento, Assistente do Rotary Internacional, Distrito 4390.  

No século XVII, Alagoas oferecia reduto para os negros formarem os inúmeros quilombos que prosperavam em todo o território brasileiro, mas que tiveram na Cerca dos Macacos da Serra da Barriga, nos Palmares, sua maior simbologia. O Brasil foi o país com a maior concentração de escravos negros do mundo com dados indicadores de 3,5 milhões. A liberdade, por meio de fuga, consolidava-se pela anormalidade da vida administrativa e económica da capitania de Pernambuco. Palmares, perdurou por 64 anos, capitulando no ano de 1696 e é o governador da capitania que relata ao rei D. Pedro II do M´Puto, o pacífico, a morte de Zumbi dos Palmares…

esquindiva1.jpg Nota ***: - Por via de altercações ao programa editorial acrescento agora – 22.10.2022 à lista de convidados Adalberto da Costa Júnior, o verdadeiro ganhador das eleições em Angola mas que por via de fraude grosseira não pode usar das prorrogativas de Presidente. O seu a seu dono: Kwacha!…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:37
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XVII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . III

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “havemos de voltar” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3276 de 07.04.2022 escrita na Pajuçara de Maceió – Republicação a 20.10.2022 na lagoa do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por t´chingange 0.jpg T´Chingange

selo10.jpg Bien, Humberto Cunha do Sumbe, engenheiro civil formado em Cuba em tempos de dipanda, chorou ao despedir-se de mim e Ibib no mesmo aeroporto “4 de Fevereiro” (antigo Craveiro Lopes ou de Belas). Eu, que me fiz forte na altura, relembro agora que também fiquei esfiapado das pestanas, com humidade por arrumo dos preparos finais. Foi exactamente na sala que nesse então, reparei, essa sala ter perdido o tecto falso; podia ver-se os tubos semi descarnados e em desalinho, dispondo-se encavalitados em todos os sentidos. Este intróito sendo de saída é só uma pescada de rabo na boca porque a descrição que se segue é o começo da visita ao CANTINHO DO INFERNO

Fiquei sem saber se os tubos levavam dentro outros fios ou águas negras; Se eram condutas de ar condicionado ou fios de comunicação! Só faço este reparo para verem o quanto havia de descaso numa sala de entrada e saída de gente a quem se necessita dar uma boa imagem; Os tempos de guerra finda há quatro meses, supõe-se não ter dado manobra de embelezamento às estruturas de aparência. Tinha saído de Angola nesta mesma sala em Agosto 1975 com uma guia de marcha sem volta, emanada pelo Alto Comissária em Angola e, no meio de tanta agitação, tanto caixote espalhado a esmo, nem reparei se havia ali, ou não, tecto falso.

Havia sim controlo sanitário, alfândega, controlo de polícia de fronteira e bagagem. Quem tivesse kwanzas ou outra moeda de sobra, era ali depositada por confisco sumário; não era permitido retirar do território qualquer divisa sem estar superiormente declarada. Consegui passar despercebido ao lado desta desorganizada rigorosidade. Nossas malas dispostas no exterior eram assinaladas por cada um dos passageiros que só depois de o dizer qual a sua mala ou malas, eram carregadas até ao avião da TAP. Compreende-se, pois nesse então e ali, não havia ainda os métodos modernos de visão do tipo de raio xis…

selos3.jpg Pois de vacina nas mãos é-nos indicado o sítio de carimbação; gente improvisada, vestida de bata dá valia aos papéis amarelos e, depois das boas chegadas por parte das autoridades com chapéu de dourados arabescos, vem a secção da bagagem aonde a dita gasosa agiliza as vistas. Isto aconteceu na chegada com o surpreendente pedido de gasosa sem sabermos nesse então o que seria isso; O Zito mais avisado disse ao Jimba (já falecido) que era uma gorjeta para não empatar; neste momento já tinha vinte euros na mão para desanuviar a mercadoria e, assim aconteceu…

O primeiro impacto com os destapados buracos de rua foi logo ali em frente ao aeroporto 4 de Fevereiro, esgotos a correr a céu aberto, bem à saída da base da Força Aérea e, entre esta e o bairro que já foi novo quando os cubanos o construíram. Os bolos de batata-doce, de mandioca e banana assada com outras iguarias por ali estão expostos, no meio do espezinhado lamaçal, em cima de improvisadas caixas. Mais ao lado há uma secção de lavagens de carros, uma mangueira que verte água que por seu lado escorre para este improvisado mercado das calamidades.

selos7.jpg O desenrasca funciona paredes meias com os supostos sítios nobres. Luanda aí está! Passando no antigo largo Afonso Henriques, e bem em frente aonde funcionou o sindicato metalúrgico para meu espanto, vejo um grande buraco a jorrar água limpa aos borbotos e uns quantos jovens a fazer daquilo uma estação de lavagem para carros, baldes, esfregonas, sabões e tudo no tecnicamente imperfeito. Os carros eram de alta cilindrada, vidos fumados e acessórios xispéteo… O sinaleiro da Maianga faz milagres para dar ordem ao trânsito, é desrespeitado e até chamado de nomes de macaco para símio. Os vendedores de antenas parabólicas, chinelos e quinquilharias chinocas não largam as janelas dos carros aqui e em qualquer cruzamento com ou sem sinais. Patrão compra só, é barato! 

E, vi porque ninguém me contou: coleiras de cão, peúgas, pó de pulgas, chapéus quicos e até batatas fritas. Os Libaneses resolvem o problema de despachar o negócio usando crianças a venderem de tudo e também CêDês produzidos em estúdios suspeitos do Cazenga ou kazukuteiros do Sambizanga, saídos do Tira-biquíni e Dona Xepa e outros com esquemas com bangula, um salve-se quem poder que a morte vem aí, é certa…

sumbe1.jpg Bem ao lado da casa do Chico Massa aonde ficamos por uma noite, cruzamento da rua de João Seca com a rua da Maianga, o imbondeiro, continua lá, mas muito rodeado de chapas altas. Posso ver daqui a antiga oficina do meu cunhado Paulino Branco, o homem das cambotas (já falecido), bem junto à antiga avenida Craveiro Lopes; sei que do outro lado está a morgue aonde em tempos de candengue vi pedaços de atrocidades, mas, olhando para cima consigo ver umas quantas múcuas. De lá de dentro sai um barulho de esmeril guinchando raivas afiadas – é uma fábrica de grades anti ladrão para colocar em janelas, portas e demais vãos de casas e edecéteras.

Nota: mais lá para o final colocarei um glossário para se lembrarem de quando não eram kaluandas…      

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)              



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:24
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Domingo, 16 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XVI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . II

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “Havemos de voltar”Foi em Julho de 2002

– Crónica 3273 de 05.04.2022 – Republicada a 16.10.2022 no AlGharb do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por soba02.jpg  T´Chingange

caricocos.jpg Voo TP, destino Luanda – Uma lufada de ar quente ao sair do Douglas no Aeroporto Internacional de Luanda, “Quatro de Fevereiro” em Belas. Momentos antes na acomodação da aterragem, já lusco-fusco, circunsobrevoavamos a Luua e, ali estava ela cheia de pontinhos de luz dando indicação do crescimento emancipado para mais além do que se poderia imaginar em 11 de Novembro de 1975 e, lá estava a ponta da ilha Mazenga e sua bonita baia de luz reflectida em nuances multicolores, os barcos, edifícios e, também uma nova coisa chamada de plataforma petrolífera, mesmomesmo na embocadura.

Do Morra da Cruz e em círculo, passando por Viana até quase ao Cacuaco, tudo é Luanda, não se distinguindo aonde acaba o musseque e começa a cidade; o centro perdeu-se numa imensidão de cubatas e, aí temos a grande metrópole com quase cinco milhões de habitantes (2002), a transbordar nas barrocas e linhas de água, que já o foram. A catinga sente-se no ar à mistura com estagnados descuidos de águas negras a céu aberto e, sem impedimento de se o notar; o costume habitua-se no urbanismo da normalidade…

Noutro dia e, à luz clara da manhã fresca deu para pisar o pó e as escorrências, sentir os cheiros fortes de mabanga e peixe frito em óleo de dendém, odores de lixo desentulhado com muita gente circulando, fazendo não sei o quê, talvez queimando o tempo e, cruzando arrepiadamente sobrevivências por todo sitio, ruas definhadas, esburacadas, ondulando o passeio, que o não é mais; asfalto malé, aiué…

mirangolos.jpg Na encosta do Prenda cortava-se a carapinha num telheiro meio chapa, meio palha e pedaços de taipa quase que meio por fazer e, mais ao lado neste pseudo cabeleireiro, lá estava a tabuleta “Salão de senhoras Dona Xepa” e no letreiro podia até ler-se: desfrisam-se cabeças. Se havia cor no imóvel, tinha fugido, faz tempo!... Vou tentar cronicar o que vi e, fazer retrato do que me apercebi com as inerentes dificuldades dum branco de segunda, quase preto por defeito e ousadia, que não esquece o calor daquela terra de quando ainda candengue pisou todo aquele espaço.   

Espaço que também me viu crescer amulatado de jeitos, crioulo mazombo de imperfeição. Mas, diga-se, o calor continua também naquelas gentes, com vontade de agradar; a amizade faz-se rápido, flui mais repentinamente num abraço de empatia como doença de querer. Desta feita assim ganhei mais um amigo de nome Humberto, rebaptizado de “Bien”. Foi ele o meu cicerone durante vinticinco dias e, é a ele a quem esta crónica é dedicada por agradecimento…

Foi ele, engenheiro Bien, formado em Cubano, natural do Sumbe, que me levou desde a foz do rio Dande, bem perto do Caxito, até ao dito Cantinho do Inferno. Aqui voltarei na descrição chegado seu próprio momento e, para não me perder no fio da meada dizendo do resto aonde me levou que, assim será na ordem cardial e para Sul com o Porto Amboim, Sumbe, antigo Novo Redondo, Canjála, Lobito, Benguela e Baia Farta.

moka31.jpg Bien, ex-comandante, formado em Cuba, técnico de Construção Civil. Como tantos outros neste momento (2002) está no desemprego mas, sempre há um mas, desenrasca a vida peneirando diligências aqui e ali furando o esquema; comprou uma roulotte e, lá para os lados do Sambizanga tem uma catorzinha a vender peixe frito, banana assada, pasteis e cachorros quentes de pastas coloridas oriundas dos tomates e outras especiarias, mais cerveja cuca quando a há e, também quando calha, se acomoda com ela nas ternuras do farfalho…

Bien, o ex-comandante, engenheiro de desenrasca, diz que são necessidades fisioterapeutas. Só que lá no Sumbe e Benguela também tem mulher e filhos, pois! Mancomunou a vida aqui e ali soldando avarias pelas técnicas aprendidas em Havana e, ali nas facilidades acostumadas de suas terras, comunga tudo com as saias desprendidas e a isto, disse-me não ser de ferro. Em verdade, há trechos em que nossa vida amolece a gente, tanto, que até num referver de bom desejo, no meio da razão sempre vem um benefício…

Passados que são mais de vinte anos, recordo de novo nesta data para que conste na Torre de N´Zombo do Kimbo, a biblioteca base desta existência…

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)               



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:38
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XV

ANGOLA, TERRA DA GAZOSA . I

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “havemos de voltar”  

Crónica 3272 em Coimbra – Republicação a 14.10.2022 em Lagoa do M´Puto

N´nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios em zona plana e húmida, horta…

Por roxo135.jpgT´Chingange no AlGharb do M´Puto

roxo92.jpg Matrindindi é uma carocha de perfil pré-histórico, talvez um normal insecto coleóptero do género do escaravelho, só que este é muito mais extravagante, de cor escura e com muitos picos; mais parece obra deformada de bruxa ruim; O Land Rover pisava-os sem alternativa e sucediam-se estalos chocantes como de castanhas a rebentar no calor da fogueira (estávamos no ano de 2005, em Porto Amboim)

Quatro anos depois - Coimbra. Já estávamos quase, quase no ano de 2009. O tipo tinha pinta de kazukuteiro, barba grisalha com mancha ruiva de mata ratos ou maconha. Falava com um casal de meia-idade na paragem do machimbombo do mercado municipal; todos esperávamos o nº 7 do Tovim.

matrindindi00.jpgO dito casal tentava não lhe dar atenção e fiquei com a nítida impressão que o sicrano estava cambulando uma gasosa para alimentar o vício. Subiram no machimbombo. O fulano deu-me prioridade e eu, sério, recusei com um obrigado e, vi com os meus olhos que este dito cujo, tirou a carteira de couro, fingiu passar um cartão no traga bilhetes e na maior, seguiu para um banco lá atrás, depois de cumprimentar um perneta de muletas ao lado.

Fiquei intrigado e com raiva pensativa dele, pois que me distraiu de pensamentos recentes de coisas vistas, e que tentava reter em memória. Uma voz suave de senhora falou do tejadilho, Floriano Peixoto número um e, seguiu-se a dois mais a Cruz de Celas. O casal desceu. Aquele tipo, quando viu a saída do casal também se levantou e com estes, saiu. Reparei com mais pormenor no rabo-de-cavalo amarrado por um elástico fazendo banga de estilo ladino. Deixei de os ver na esquina da Caixa Geral de Depósitos.

roxo90.jpg Como os pensamentos voam mais rápido que caneta com dedos, anotei no telemóvel o que antes tinha lido no muro perto da Universidade para não esquecer: - A morte serve-se a quente! E havia um A com um círculo a circunscrevê-lo, tudo em cor azul - Não a deixes arrefecer! Logo por debaixo a tinta preta.

Ao sair da Dolce Vita vi uma carrinha de caixa aberta pintada a camuflado apetrechada para a mata tendo nas portas os seguintes dizeres em círculo a contornar um coração vermelho com uma mola curva, varando este: - “Corpo especial de vigilância. VERGAMOLAS”; tal e qual como a carrinha 4 * 4 que eu idealizei para o “Kimbo Ot´xicoto Lodge” em terras de Sumbe bem perto do rio Cubal.

Aida em pleno centro histórico de Coimbra, tirando uma foto à torre Almedina alguém querendo uma informação perguntava-me se eu era dali ao que respondi não. Repeti mentalmente, só para mim: - Não sou daqui, não sou daqui, não sou daqui! Mentia-me.

roxo102.jpg Lembrei-me do livro que tinha na mesinha de cabeceira do meu mais contemporâneo amigo José Eduardo Agualusa. Parecia estar a fazer-me uma entrevista: Pópilas! Mas, tu cantas o hino do puto “ os meus egrégios avós”. Logo, logo…, os teus avós eram angolanos. E, a falação continua comigo a responder: - Não! Eu sou mesmo daqui! Sou um Tuga Niassalês! Deixa-te de finfias meu. Tu és um angolano nascido no M´Puto.

roxo213.jpg Já estava noutra, lembrando-me do sonho futuro que ainda era presente, a minha cubata no platô do Cantinho do Inferno muito perto da foz do rio Cuvo, na praia dos matrindindes. A serra do Chamaco via-se ao longe, como teta saliente na cordilheira, no caminho de Seles e, na vasta região uma floresta de espinheiras, acácias com picos medonhos, pau-ferro, babosas, newas, matebas, lengues e lungwengus e um letreiro na escola da Canjala “havemos de voltar”

Ilustrações de Assunção Roxo

O Soba T´chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:56
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Sábado, 8 de Outubro de 2022
MISSOSSO . L

NO KILOMBO DO ZUMBI – NA FUNDAÇÃO DE ZUMBI DE N´GOLA…

COM FALA KALADO - Crónica 3266 15ª de Várias Partes – 28.03.2022 m Maceió – Republicação a 08.10.2022 no AlGharb do M´Puto

Por  zulu1.jpg  T´Chingange – Na Pajuçara do nordeste brasileiro e Lagoa do M´Puto

araujo158.jpgCA - A hora aprazada para o almoço com o Comendador, ex-coronel Fala Kalado, era invariavelmente às 12 horas e 30 minutos pelo que tivemos de suspender a visita ao Morro dos Macacos, também conhecido por Serra da Barriga e assim, chegados à entrada do Imbondeiro, um cipaio com cofió, armado com uma espécie de arcabuz, mas moderno, mistura de metralhadora FP com Kalashnikov que, com apresentação de armas à maneira tradicional, nos deu triunfal entrada na casa d`jango do patriarca da Fundação Zumbi de N´Gola…

Havia câmaras por todo o lado e duas fiadas de arame que me pareceu electrificado pois que reconheci haver uns quantos isoladores ao longo da cerca exterior. Já era sabido por mim ter de manter segredo das instalações pelo que nem foto, eu na qualidade de Zelador-Mor ou um qualquer, poderíamos dali tirar. Na antessala do d´jango coberto a capim, um espaço de piso em tijoleira vermelha, já ali estavam esperando a comitiva dos ilustres, da qual eu fazia parte, Andrey Blazhe biólogo da Bulgária, a psicóloga Rita Fiuza, o Arquitecto Luiz Cateriangongo, o geólogo Patriniche de Gusmão e o historiador Vizeu Antunes.

araujo176.jpgCA - Podia assim depreender estar perante a primeiríssima Reunião Magna para assim se selarem os compromissos de fidelidade à causa. Havia outros elementos dos quais dois fardados a rigor e com medalhas pendentes em seus peitos. Suas fardas eram até um pouco estapafúrdias pois que em tudo se assemelhavam às mesmas vestimentas usadas nas colónias com chapéus feitos em cortiça bem ao jeito dos antigos exploradores em áfrica; também usavam calções folgados do tipo zuarte a condizer com suas balalaicas de muitos bolsos e, suas divisas eram flechas; um tinha duas, o outro, quatro.

Os cumprimentos foram rápidos e após tomarmos uma bebida de bolunga feita de múcua e leite azedo, um pouco ácido até, mas bem refrescante, assim como uma praxe de boas vindas todos entramos a tomar nossos lugares marcados. Estranhei todos eles beberem aquilo que sendo bom, não era habitual e também eu mesmo no meu papel de alta instância, desconhecia – em verdade até bebi a medo, não fosse um daquelas mistelas venenosas; mas, ficaria mal não o fazer! Pópilas, isto de descrever ao pormenor todas estas traquinices, arrepia, arriscar a vida só por um entretém…  

araujo182.jpgCA - Era uma mesa bem comprida. No total eramos dez pessoas e dispusemo-nos segundo as placas a assinalar nosso lugar, oito civis e dois militares-cipaios. Um chefe de cerimónias lá bem no canto, com lacinho e tudo, tocou um sino e ai vem ele. A chefe de cerimónias Rosa Casado, ladeando o Ex-Coronel, Comendador, sentado em uma cadeira de rodas tipo poltrona e, também uma senhora vestida de branco e com uma cruz vermelha no peito, entraram na ampla porta, na que tinha a bandeira actual de N`Gola bem por cima. Um gigante negro parecendo o auxiliar do Mandrak, Lothar, fazia deslocar a cadeira-espacial poltrona.

Aí estava o Comendador FK! Até chegar ao topo da mesa, seu lugar, veio com a mão levantada ao jeito de saudação. Todos nós estávamos perfilados junto a seus lugares e só quando a poltrona encostou à mesa é que todos se foram sentando. O Comendador, ex-Coronel tinha um semblante aberto de sorriso e olhando para mim bem do lado direito, acenou a cabeça como em cumprimento especial à minha pessoa, o seu antigo camarada da guerra do Maiombe, furriel Mike da Companhia do M´Puto 1734. O tempo sentia-se rugir em nossos esqueletos.

xiricuata1.jpg Rosa Casado, a chefe de protocolo, fez uma prelação rápida mencionando ser este um momento alto e explicitando as vontades do Comendador ditas ou escritas de quando lucido de seu perfeito juízo pelas consequências dessa tão vil doença de alzheimer. Andrey Blazhe,o biólogo da Bulgária, disse estar já bem avançada uma vacina contra Alzheimer em seu laboratório mas ainda havia muito por fazer. O almoço foi de muitos pequenos requintes, servido por gente de laçarote e destacou-se sim a tal falada muamba de galinha de angola; em verdade eu acho que era faisão bem apodrecido! No final, tiramos uma foto ladeando o distinguido Comendador para que o registo fosse feito com as alvissaras da Torre do N´Zombo…

Podia aqui perder-me em descrições mas, só direi que na mesa e a ladear o excelentíssimo FK estavam os oficiais cipaios de flechas verdes, depois vinha eu, O zelado-Mor do lado direito e tendo em frente o Presidente do executivo da Fundação, Arrais de Cantanhede. O salão era amplo, no tecto havia asnas de madeira trabalhada e, num dos topos, como já disse, havia a bandeira de Angola. No outro topo estavam as fotos em grande de N´Zinga, do Zumbi e Aqualtune. Nas laterais havia quadros de distintos reis de Angola, como Mandume, Ekuicui II, Ana de Sousa, Kiluange Kiassamba, Jinga Ambandi, Jinga Malaio, Jinga Amora e dois destacados cidadãos conhecidos por Kaparandanda e Ganga-Zumba…

lustrações de Costa Araújo

(Continua…)

O  Soba T´Chingange

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:39
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2022
MISSOSSO . XLIX

NO KILOMBO DO ZUMBI – NA FUNDAÇÃO DE FALA KALADO

Crónica 3259 14ª de Várias Partes – 19.03.2022 em Pajuçara de Maceió – Republicação a 29.09.2022 em AlGharb do M´Puto

Por: Soba T´Chingange brasil.jpg T´Chingange – Na Pajuçara do Nordeste brasileiro e AlGharb do M´puto

 kilo0.jpgO dia aprazado para ver FK, uma sexta-feira, coincidiu também ser um dia 13, muito enevoado. Tinha havido umas trovoado durante a noite, raios e relâmpagos com águas escorrendo pelas quebradas e, àquela hora da manhã ainda se podiam ver os destroços, abatises aleatoriamente embrulhadas com desperdícios escurentes do kilombo. Supersticioso quanto baste, pareciam ser estes, uns maus indícios de borrasca mas, e na qualidade de Zelador-Mor da Fundação Zumbi de N´Gola teria de suprir-me de importância nesta primeiríssima visita institucional..

Arrais Castelo de Cantanhede, o Presidente executivo da Fundação, fazia-se acompanhar pelo Encarregado do Museu da Escravatura e da Casa da Cultura Maria-Maria, o senhor Paulo Sarmento e, também Governador Assistente do Rotary Internacional, Distrito 4390. Enquanto um e outro falavam lá na parte anterior do Mercedes do ano de troca-o-passo conduzido pelo senhor Encarregado-Governador, eu ia pensando no que seria este encontro com o militar amigo (nem tanto) ex-Coronel Fala Kalado; esse mesmo que saiu morto na fronteira de Namacunde em Angola…

kilo01.jpg Diziam estar ele num estado quase confrangedor pois que já não era aquela íntegra figura de antes torcer que quebrar embora fosse meio biónico, portador de uma orelha de silicone-5G e perna com osso de nitreto de boro; isso era um tanto pesaroso para quem sempre o tinha visto desempoeirado, diligente, ladino e assustador. Assim pensando fui interrompido por Arrais, o Presidente da Fundação FK: Antes de irmos à mansão do Comendador FK e de modo a chegarmos lá na hora aprazada para o almoço, iremos fazer uma visita guiada ao Kilombo a fim de ficar inteirado de alguns detalhes ainda desconhecidos!

Nem sabia que Fala Kalado, o ex-Coronel tinha sido elevado ao cargo de Comendador mas até aceitei pois que seu legado de benemérito induzia a ter um outro destaque social. E, foi o senhor Paulo Sarmento Governador assistente do Rotary Internacional que finalizou as falas, dizendo que este cargo dignitário lhe foi emanado do próprio Conselheiro de Estado do Governo Federal Civil em parecer conjunto com Sua Excelência o Presidente Geral dos muitos Distritos com Clubes Rotary.

kilo3.jpg Assim chegados ao Morro dos Macacos fui apresentado à Senhora Rosa Casado, advogada aposentada, filha de um dos últimos prefeitos de União dos Palmares que por norma e por via de ser secretária do mesmo club Rotary, protocolizava estas visitas. Afinal, sempre era eu o Zelador-Mor da Fundação Zumbi de N´Gola. O termos de Muxima que é a saudade dos mwangolés, kimbundus, pode ler-se no quadro de entrada na Serra da Barriga:

Muxima dos Palmares é uma homenagem aos Comandantes-em-Chefe que formavam o Conselho Deliberativo do Quilombo dos Palmares: Acaíne, Acaiuba, Acutilene, Amaro, Andalaquituche, Dambrabanga, Ganga-Muiça, Ganga-Zona, Osenga, Subupira, Toculo, Tabocas, e seus principais líderes: - Aqualtune, Ganga-Zumba e Zumbi, Banga, Camoanga e Mouza, que resistiram depois da morte de Zumbi, que aqui também são homenageados, assim como todos os negros e negras, guerreiros e guerreiras, que ao longo de quatro séculos lutaram e ainda lutam pela liberdade racial”. Isto promete, muxoxei só para mim e de forma imperceptível, caminhando num troço de tapete com as cores da bandeira de Angola, preto e vermelho, tendo no topo o símbolo da catana com os dizeres “Victória ou morte”…

Uma outra placa com fundo preto e letras salientes reconhecido no final pelo Governador Alagoano, Engenheiro Lessa a 20 de Novembro de 2002: -“Homenagem aos Heróis Quilombolas que tombaram lutando pela liberdade em 06 de Fevereiro de 1694: Ganga Zumba, Dandaro, Acotirente, Andalaquituche, Aqualtune, Gana Zona, Ganga Muiça, Acaiúbo, Toculo”. Visto isto, deixo algumas considerações para mais tarde…

zumbi6.jpg O termo Sanzala ou Senzala em Angola é um povoado normal enquanto no Brasil está conotada com as casas de tortura, da canga, dos grilhos, da chibata, da bola, da máscara de sino e correntes. Kimbo é o nome de sanzala na região de fala Umbundo em Angola, planalto Central com suas casas, libatas ou embalas. Todo este trabalho de pesquisa adicional, foi objecto de promessa minha ao fiel depositário do Guardião da cultura em União dos Palmares e Zelador do Museu de Maria Mariá, Senhor Paulo de Castro Sarmento Filho e como disse, também Governador Assistente do Club Rotary Internacional, que teve amabilidade de me mostrar também o actual Mocambo de Muquém, a Serra da Barriga e descrever seu trabalho ainda em esboço numa Cartilha Pedagógica, um projecto de cultura viva. Ainda não será nesta missiva-cronica que falarei do encontro tão esperado com meu amigo FK, um almoço quase banquete tendo como iguaria “Muamba de capota”…

Nota: Esta inventação, contem muito da história real mas alguns dados são só fricção. Quem quiser esclarecimento, coloque questões - que esclarecerei...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:50
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2022
KALUNGA . XXX

KIANDA COM ONGWEVA NAS FRINCHAS DO TEMPO - XV de várias partes…

– Crónica 3257 de 16.03.2022 na Pajuçara de Maceió – Republicada a 28.09.2022 em AlGharb do M´Puto

Episódio em Madrid com Jerónimo Pieter e, um tal de Conde de Sant German.

Ongweva é saudade  

Por  soba002.jpg T´Chingange (Ochingandji) – No PortVille da Pajuçara em Alagoas do Brasil e Lagoa do M´Puto

cafu15.jpg  Museu do Prado em Madrid com a kianda Zachaf Pigafetta, o irmão Januário Pieter, mais o Conde de San German. Não fosse o ipad e o andróide e, nos teríamos perdido entre tantos turistas a laurear a pevide, tanta gente sem fazer nada, a consumir o erário para verem pinturas e mais pinturas. Eles tinham compromissos no aquietar de almas desavindas e por isso acho que nem saborearam tanta arte. A todo o momento falavam com estalidos desassossegos com gente de longe, Talvez Orândia, Ovoboland, terra de khoisans Niassaland ou lá no Kwazulu…   

Aproveito por isso falar um pouco do entrelaçado de malambas já faladas entre nós a fim de arrumar os eventos vindouros, do futuro mesmo, para que se compreenda o desfecho da estória-mussendo. Sendo assim, relendo a origem de Saint Germain, sabe-se muito pouco pois ainda hoje é desconhecida, mas o que sabemos é que marcou presença a partir do século XVlll pelas cortes da Europa destacando-se como diplomata em Génova, Paris, Londres, São Petersburgo, Índia, África, China e outros lugares.

silva7.jpg E, logologo tinha de aparecer um cara de pau a fim de me atezanar a estória que até estava tão bem delineada de verosímil, pópilas… Ele, com frequência refere ser filho de um príncipe oriental talqualmente como eu ser Niassalês. O certo é de que sua idade tal como as demais kiandas, sendo indefinidamente falíveis, têm a particularidade de quando necessário tornar-se numa normal figura de gente.

Niassalândia (actual Malawi) foi assim denominada por causa do Lago Niassa de onde originaram Januário e Zachaf Roxo – tinha mesmo de o ser! Um carapau não anda só, tem seu cardume. Em setembro de 1859, o explorador e missionário escocês David Livingstone torna-se supostamente o primeiro europeu a avistar o lago*, o terceiro maior da África. Um dos encontros foi exactamente com o Conde de San German, que por ali se envolvia em actividades missionárias e comerciais britânicas.

silva p2.jpg Na década de 1880, Portugal reivindicou o território em virtude de sua presença na colónia vizinha de Moçambique mas a Grã-Bretanha, uma secular nação amiga da onça, resistindo às reivindicações portuguesas, a 14 de maio de 1891 proclamou um protectorado sobre Niassalândia. E, assim se tornou parte da Federação da Rodésia e Niassalândia em 1953. Após a dissolução da federação, alcançou independência total a 6 de julho de 1964 como a República do Malawi.

Acho que não vou ter tempo de dar meu parecer acerca do Museu do Prado porque esta gente só nas apresentações, perdem-se nos entretantos das suas reminiscências e assim e agora por intermédio destas três kiandas é-me é dado conhecer toda a arte de velhacaria que invadiu o dito mundo moderno através dos arautos da verdade. Vou-vos falar, a estória é toda ela muito mentirosa: Os primos Ingleses e Americanos que continuam a ditar leis aos outros povos, sabendo à partida que é tudo uma utopia ou farsa comem-nos a moleirinha.

silva00.jpg Nós, que estamos vivendo os problemas que nos cercam, podemos dar a importância devida ao que engloba este nosso recente passado para nos rectificarmos ou ponderarmos sobre o nosso futuro. Sabemos bem o que ocorre hoje nestes territórios de uma gestão catastrófica de puros ditadores. Terei de falar, o Prado ficará lá para o fim. A Grande Traição é o título das memórias publicadas em 1997 por Ian Smith, último primeiro-ministro da Rodésia.

Sua obra oferece um interessante panorama da história desta importante parte da África austral e relata minuciosamente como os nossos “amigos” britânicos e Estado-Unidenses não descansaram enquanto não lançaram o calvário naquele pedaço de chão. Fez-se luz! A requerida paz, lei e ordem, factores fundamentais para qualquer evolução autêntica e segura, foram sacrificados em favor da hipocrisia, da irresponsabilidade, da expediência.

cafu32.jpg As nossas três kiandas (Zachaf Pigafetta, Januário Pieter e Conde de San German) andavam por ali fazendo seminários, tentando introduzir nas mentes pensares pacifistas tendo sido logrados em toda a linha. A mais interveniente foi o Conde de San German mas mesmo esta, esfumou-se. Foram as memórias de Iam Smith que interessaram particularmente aos portugueses, euro-africanos genuínos e pioneiros, escandalosamente imolados e esbulhados pela traição doméstica a soldo de uma conspiração internacional - tragédia odiosa que brada aos céus e clama por justiça! Bem! Já estou no item oito e tenho de acabar por hoje…

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Nota* O sertanejo português Silva Porto já era conhecedor do lago Niassa e das Cataratas Vitória do Rio Zambeze pelo que deu posteriores indicações a David Livingstone! O feito de Silva Porto não ficou registado em papel tendo resultado nesta nova convicção de que foi Livingstone o primeiro europeu a lá chegar. Em interpretações posteriores àquele feito e dando resposta a um jornalista que mencionou Silva Porto como tendo sido o primeiro descobridor daquelas topografias, a isto respondeu que nunca dissera ter sido o primeiro homem a ali chegar mas sim que foi o primeiro branco europeu. Foi nítida a sua prosápia no rebaixar Silva Porto, colocando-o como um assimilado de segunda categoria; algo que os anais da história tentam relegar dando alvissaras aos sempre altivos ingleses, as cinco estrelas do Mundo… As novas leituras fazendo justiça à verdade já referem «« David Livingstone foi um missionário e explorador britânico que se tornou famoso por ter sido um dos primeiros europeus a terem explorado o interior da…»»»

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:08
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Sábado, 17 de Setembro de 2022
MISSOSSO . XLVIII
MOKANDA DO EDU - DA MAPUNDA À CHIBIA
- FANTASIA ANTIGA 
Crónica 3247 - Republicada a 17.09.2022
Porsoba0.jpeg T'Chingange (gasosa para o E. Carvalho Torres no M´Puto)

soba21.jpeg Era naquela hora de lusco-fusco em que o dia vai acabando feito entardecer; no alpendre da casa lá no mato, Zacarias, jiboiava numa rede, balouçado no sonho de caçar onça. Acordou num sobressalto gritando: - agarra agarra - kwata-kwata!

Colocou os pés no chão e ainda meio envolto na penumbra do medo e enquanto pulava, levava as mãos algures ao pescoço querendo libertar-se da cobra! Era sim, uma grande giboia enrroscada nele.
 
Saltitou meio ébrio à mistura de medo em direcção å saleta onde tinha uma arma de bala.
Mas, que podia ele fazer com aquele sonho? Foi quando despertou mesmo, num respiro longo de realidade. Pois! Estava só, tendo uma tremuras de pesadelo...

o vazio.JPG Construira aquela casa, metade habitação, metade tasca de vender peixe-frito, fuba e vinho baptizado do M'Puto. Naquele interior, isolado só tinha a companhia do Pernambuco, um já velho ajudante que cozinhava para eles.

Eles, eram o patrão Zacarias da Silva, ele próprio e sua velha senhora Maria do Ó e, mais um puto candengue faz-de-tudo, um sobrinho de Pernambuco chamado de Brututu... Naquele entretanto esta companheira de Zacarias da Silva, ausentara-se para a Mapunda onde tinha um filho a tomar conta da Padaria Lafões. Chamava-se Napumosseno da Silva

Este, tinha uma filha a estudar na Missão do padre Messias da Huila. Estas visitas da Dona do Ó da Silva a sua neta, filha do Napumosseno, eram periódicas pois que a sua linda Neta, era um propósito de esta se afincar à vida já bem encrustada - avó e neta davam-se às mil maravilhas - unha com carne seca...

chibia.jpg Zacarias, ficara assim na vida fazendo ganhos vendendo sua fuba, seu peixe frito e permutas de produtos com o povo de Mandumbe, nome derivado de seu m'fumo chefe mwata que ali vivia com sua nobreza, seu kimbo. O mesmo que fez a vida negra a Pereira D'eça, um oficial expedicionário do Reino...

Kota Zacarias, trocava cobertores, vinho baptizado, sal e outros produto, pelo milho, mel, grandes bolas de cera e algumas cabeças de gado - nemas gentias. Fornecia também cat'chipemba e outras bolungas feitas de massambala aos, óbitos! Umas defuntadas festas gentias. Isto dava-lhe muitos Angolares, Macutas com a esfinge de D. Maria, aquela que nasceu no Brasil.

Ao lado da casa, num chimbeko vivia Pernambuco e Brututu Sobrinho, bem ao lado do alpendre aonde ficava estacionada, a velha carrinha de caixa aberta DODGE. Muito enferrujada, ainda era o seu meio preferido de transporte...

angola colonial.jpg Duas vezes por semana punha suas alpercatas com polainas de lona e, com muita banga, envernizado e perfumado deslocava-se ora ao Lubango ora à Chibia. E, hoje era dia de ir a Pereira D'eça visitar seu compadre Cantanhede de Bustos. Já estava até um pouco atrasado - negócios não são de desperdiçar e, eis que neste despertar repentino sentiu um rosnar bem conhecido.

O sonho era um aviso; ouvia agora com nitidez o ronronar de um felino que andava rondando o curral, não de agora, mas de uns tempos àquela parte - lembrou-se! Misturadas com suas cabeças de gado, havia sempre alguns galináceos dispersos, que gostavam de andar debicando qualquer coisa encontrada no chão.
 
É desta! Pegando na arma e em algumas balas, dirigiu-se à porta de lá detrás, espreitou o som de fora, a ver se havia algum sinal da coisa! Saíu pé ante pé com abafados silêncios, caminhando em direcção ao local. Não se apercebendo de algo de anormal, regressou a casa, pendurou a arma, guardou as balas...

ANGOLA7.jpg Despendurou de novo a chifuta de estrias, meteu mais balas nas lonas e deu ordens de marcha a Brututu: despacha-te meu coirão. Acto continuo, na habitual tarefa deu arranque na sua DODGE! Destino, Xangongo na graça de Deus... E, eis que tratranquilamente no meu espaço de vida via Ondjiva no meu NASH carregado de candonga de peixe seco dou com o velho kota Zacarias atascado na lama até ao chassi! Ué! Claro que ajudei aquele unhas de fome!

Se não fosse eu ainda por lá estava gripando a paciência, um espaço de vida que escolhera para viver. Entretanto, ja noite, com ruídos insalubres da escuridão com sons distintos de feras e edecéteras acompanhei-o até Xangongo. Vida de comerciante no mato, era assim, nos meus tempos de antigamente. Agora, só temos resiliência com swift estatal aiué...
Soba T'Chingange no AlGharb do M´Puto


PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:15
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2022
MOKANDA DO BRASIL . XVIII

SETE COQUEIROS DA PAJUÇARA - “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso - a palavra foi feita para se dizer”- Crónica 3238 - 05.02.2022 – Republicada no KIMBO a 30.08.22 no AlGharb do M´Puto

Portonito19.jpg T´Chingange – (Na Pajuçara de Maceió no Nordeste brasileiro)  

Hoje (05.02.2022) apreciei de dentro da água tépida de 28 graus o nascimento das capitânias d´areia – concessão aos empresários que vivem da venda de sombra aos turistas, uns cocos frios e pasteis feitos na hora e debaixo de uma amendoeira e também o açaí de Tocantins ou skol em lata. O empregado do capitão d´areia risca a areia segundo uma direcção já estipulada, depois conta dez passos para o lado concessionado e, com o pé risca na areia o término correspondente ao seu patrão, Seu Baldo.

bra4.jpg Entretanto o moço vai cantando uma lengalenga e, intercalando a mesma, mete-se com o vizinho, também mocambo do Comprido, nome de seu patrão; imagino que seja alcunha pois que ele é mesmo alto. O dito-cujo chegou mais tarde botando ordem na algazarrada feita forró de pé-de-serra da dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó… Pode assim imaginar-se a divisão do Brasil em capitânias medidas em léguas no tempo em que os prémios de marear mares por Portugal lá pelas Índias, eram ficar com lonjuras de terras desconhecidas até seu limite e segundo o Tratado de Tordesilhas, seguindo uma linha paralela aos paralelos ou equador.

brasil0.jpg Recordando a história, temos que as capitanias hereditárias eram uma forma de administração do território colonial português na América. Basicamente eram formadas por faixas de terra que partiam do litoral para o interior, comandadas por donatários e cuja posse era passada de forma hereditária. Por motivos de melhor aproveitamento para a administração da colónia, a Coroa Portuguesa delegava a exploração e a colonização aos interesses privados, principalmente por falta de recursos de Portugal em manter tais territórios.

As capitanias iam do litoral até o limite estipulado pelo Tratado de Tordesilhas, um modelo de colonização que tinha obtido sucesso na Ilha da Madeira e em Cabo Verde e África. A iniciativa de colonização utilizando este modelo respondia à necessidade de protecção contra invasores, sobretudo franceses que deixaram algum legado pois não me situo muito longe da Praia do Francês onde vivi por oito anos (de 2006 a 2014) . Os escolhidos eram membros da baixa nobreza portuguesa que a Coroa acreditava terem condições para a empreitada de colonização ou gente que se destacou na odisseia em descobrir o caminho marítimo para a índia.

Martim Afonso de Sousabrasil04.jpg

Esses nobres foram denominados donatários e representavam a autoridade máxima da capitania. O donatário não era dono, mas deveria desenvolver a capitania com recursos próprios, responsabilizando-se por seu controle, protecção e desenvolvimento. Juridicamente se estruturava o controlo da capitania através de dois documentos: Carta de Doação e Carta Foral. Tomemos por exemplo a capitânia de Paulo Afonso bem a meio do curso do Rio São Francisco que deu origem há agora grande cidade com seu nome, lugar que visitei na peugada de Lampião, um dos meus heróis da banda desenhada lá pelos anos de 1960 em Luanda (Angola), conjuntamente com o Mandrak, Homem de Borracha, Tarzan, Zorro ou O Fantasma… Minha cultura advém daqui e do cinema…

A Carta de doação dava a posse da terra ao donatário e a possibilidade de transmitir essa terra aos filhos, mas não a autorização de vendê-la. O documento dava também uma sesmaria de dez léguas (50 Km.) da costa onde se deveria fundar vilas, construir engenhos, garantir a segurança e colonização através do povoamento. Nela definia-se que o donatário era a autoridade máxima judicial e administrativa da capitania. As capitanias hereditárias existiram até 1821. À medida que iam fracassando, voltavam às mãos da Coroa Portuguesa e eram redimensionadas, gerando novas estruturas de administração. O acto de redimensionar as fronteiras das capitanias hereditárias moldou alguns estados litorâneos actuais.

arau154.jpg Não obstante o sucesso administrativo, o sistema de capitanias sofreu com a falta de recursos, algumas foram abandonadas e em outras jamais seus donatários estiveram ali. Igualmente sofreram ataques indígenas, os quais lutavam contra a invasão de suas terras.

Desta maneira, o empreendimento das capitanias hereditárias fracassou. Somente duas foram bem-sucedidas a saber: A Capitania de Pernambuco, comandada por Duarte Coelho, responsável por introduzir o cultivo da cana-de-açúcar e a Capitania de São Vicente, comandada por Martim Afonso de Sousa, graças ao tráfico de indígenas que realizavam naquelas terras.

O foco da Coroa portuguesa na sua colónia da América Portuguesa era a extracção dos recursos da terra, como o pau-brasil. Isso devia-se ao facto de não terem sido encontrados metais preciosos como foi o caso dos espanhóis em suas possessões. Após a inviabilidade das Capitanias Hereditárias, a colónia do Brasil, passou por uma reforma administrativa sendo instituído o cargo de Governo-Geral, prática também iniciada nas possessões africanas de Angola e Moçambique.

brasil05.jpg Convém aqui nesta leitura da história do M´Puto – Portugal, falar de algumas curiosidades sobre as Capitanias Hereditárias. Elas impulsionaram o crescimento das vilas, que aos poucos se transformaram em províncias e, mais tarde constituíram alguns estados brasileiros. A herança dos sistemas de capitanias hereditárias pode ser sentida até hoje através do coronelismo e das famílias que seguem mantendo o poder em certos estados. Martim Afonso de Sousa permaneceu pouco tempo em sua capitania, pois foi deslocado para ocupar um posto nas Índias. Quem administrou a terra foi sua esposa, Ana Pimentel. Ando a rever isto vendo a novela “Escrava Isaura” que foi escrita pelo romancista Bernardo Joaquim da Silva Guimarães…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:08
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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CXCIII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXX

Ultima visão de Savimbi: “moscas pousando no rosto, feridas na cabeça e numa mão e, um buraco de bala na garganta”.

Crónica 321411.11.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que ainda governam…      Por soba24.jpg  T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Após o ano de 1994, haveria que manipular os espíritos inseguros, carregar nos botões certos das almas inocentes, com o fígado incompleto, candengues sem estrutura para os virar monstros desapiedados com o nome de pioneiros… Eram ideias desfibrilhadadas numa antiga dor e creio que se foi no tempo com um sentimento de culpa. Deveria iluminar-nos não é!? Amanhã será outro dia e, foi-se! O Sol não tinha como se abraçar a nós, nem se poderia esperar isto. O tempo escasseia-me muitas vezes, para poder redigir histórias escondidas, antigas, que até posso antever reais a tempo inteiro, real ou ficção. Nessas alturas subitamente levanto voo, plano como um albatroz e por aí vou fora, sem parágrafos ou pontos finais, com diálogos dinâmicos, que só o serão na ficção!

savimbi2.jpg  Fala o Soba, impõe as suas leis, fala o Luís que quer fugir aos ditames dos familiares próximos, subverte-se as leis, obtendo-se gozo nisso, e sabedoria, claro, que estas coisas, mesmo negativas são as que mais resultam e se aprumam na coluna vertebral de um indígena. O Protocolo de Lusaka de 1994 reafirmou os Acordos de Bicesse. Savimbi, não querendo assinar pessoalmente esse acordo, enviou o ex-Secretário Geral da UNITA Eugénio Manuvakola representando em seu lugar, o partido. Manuvakola e o Ministro das Relações Exteriores de Angola, Venâncio de Moura, assinaram o Protocolo de Lusaka em Lusaka, Zâmbia, em 31 de Outubro de 1994, concordando em integrar e desarmar a UNITA.

Ambos os lados assinaram um cessar-fogo como parte do protocolo em 20 de Novembro. Sob o acordo, o Governo e a UNITA cessariam os incêndios e desmobilizariam 5 500 membros da UNITA, incluindo 180 militantes, que se uniriam à polícia nacional angolana, 1 200 membros da UNITA, incluindo 40 militantes, que se uniriam à força policial de reacção rápida e os generais da UNITA, que se tornariam oficiais das Forças Armadas Angolanas. Mercenários estrangeiros retornariam aos seus países de origem e todas as partes parariam de adquirir armas estrangeiras.

ango1.jpgO acordo deu aos políticos da UNITA casas e uma sede. O governo concordou em nomear membros da UNITA para chefiar os ministérios de Minas, Comércio, Saúde e Turismo, além de sete vice-ministros, embaixadores, governos de Uíge, Lunda Sul e Cuando Cubango, vice-governadores, administradores municipais, vice administradores, e comuna de administradores. O governo libertaria todos os prisioneiros e amnistiaria todos os militantes envolvidos na guerra civil. O presidente do Zimbabwé, Robert Mugabe, e o presidente sul-africano, Nelson Mandela, reuniram-se em Lusaka a 15 de Novembro de 1994 para aumentar o apoio simbólico ao protocolo. Mugabe e Mandela disseram que estariam dispostos a encontrar-se com Savimbi e Mandela. Pediu que ele fosse à África do Sul, mas Savimbi não foi. O acordo criou uma comissão conjunta, composta por funcionários do governo angolano, da UNITA e da ONU, com os governos de Portugal, Estados Unidos e Rússia como observadores, para supervisionar sua implementação.

As violações das disposições do protocolo serão discutidas e revisadas pela comissão. As disposições do protocolo, integrando a UNITA nas forças armadas, um cessar-fogo e um governo de coligação, eram semelhantes às do Acordo do Alvor, que concedeu a Angola a independência de Portugal em 1975. Muitos dos mesmos problemas ambientais, desconfiança mútua entre a UNITA e o MPLA, falta de supervisão internacional, importação de armas estrangeiras e ênfase excessiva na manutenção do equilíbrio de poder, levariam ao colapso do protocolo…

savimbi3.jpg  E, chegados ao ano de 2002, tropas do governo matam Jonas Savimbi a 22 de Fevereiro deste ano, na província de Moxico. Jonas Savimbi morre "de arma na mão", como "um militar", numa emboscada das Forças Armadas Angolanas (FAA), sexta-feira à tarde, junto ao rio Luio, sudeste da província do Moxico, ao fim de cinco dias de perseguição pelo mato. "Sete tiros foram suficientes para o abater". Foi assim que o brigadeiro Wala, na qualidade de dirigente da "força mista que matou o líder da UNITA", resumiu o fim de Savimbi aos jornalistas presentes no local em que o corpo foi exibido - Lucusse, a 79 quilómetros do sítio da emboscada. O relato é do repórter da Lusa, Miguel Souto. O destino de Savimbi, calculou Wala, era a fronteira com a Zâmbia, onde contava ser reabastecido pelos seus homens.

savimbi5.jpg Acossado pelas tropas do Governo angolano desde o Andulo, Jonas Savimbi, dividiu a sua coluna em três. Seguiu com uma, e deixou o comando das restantes duas aos generais Abreu "Kamorteiro" (chefe de Estado-Maior das forças da UNITA) e António Dembo (vice-presidente do movimento do Galo Negro). A coluna de Savimbi iria ao encontro do General "Big Jo", que partira antes, em busca de víveres. Ainda de acordo com a versão das tropas angolanas, quando um ataque das tropas angolanas liquida "Big Jo", o líder da UNITA inflecte para norte, por uma mata densa que levaria ao rio Luio. "Deu muitas curvas e fintas, porque conhecia muito bem o terreno,pois que  a UNITA nasceu aqui", lembrou o brigadeiro Wala, acrescentando que os seus homens andaram "dia e noite numa perseguição que durou cinco dias", até à emboscada final de sexta-feira.

Nas palavras de Wala: "quando Savimbi viu os seus homens mortos, pegou na arma". Além dos "vários oficiais" atingidos, avia um "total de 21 ". Os generais Dembo, "Kamorteiro", Abílio Camalata Numa e Samy terão escapado ao ataque, e as forças governamentais dizem estar no seu "encalço". O paradeiro do secretário-geral do movimento, Paulo Lukamba Gato, permanecia desconhecido. Segundo o embaixador português em Luanda disse ao PÚBLICO, as primeiras imagens do corpo de Jonas Malheiro Savimbi foram exibidas na televisão estatal angolana por volta das 17h00 locais (16h00 em Lisboa), sem terem ocupado mais do que "um espaço normal" nos telejornais. A reportagem do jornalista da RTP Alves Fernandes, que foi ao Lucusse, mostrava o corpo de Savimbi deitado numa prancha ao ar livre, à beira de uma árvore, rodeado por centenas de homens mulheres e crianças, misturados com militares.

 savimbi6.jpgNinguém compusera o corpo para a última imagem: farda verde oliva desfraldada, deixando ver parte da roupa interior, os pés sem botas, só com meias, moscas pousando no rosto, feridas na cabeça e numa mão e um buraco de bala na garganta. Diz-se que Savimbi, ferido de morte teria sido o autor deste ultima tiro. Na sequência seguinte, o corpo, embrulhado na bandeira do Galo Negro, era levado da prancha para um caixão. Segundo o relato inicial deste jornalista, antes das imagens serem difundidas, Savimbi teria sido atingido sexta-feira à tarde não por sete mas por "quinze balas, duas na cabeça, as restantes no tronco, nos braços e nas pernas". Chegaram a correr versões que falavam em 52 tiros. A agência Reuters, por seu turno, ao princípio da tarde, citava fontes dos serviços secretos zambianos que contestavam a data da morte. De acordo com esses relatos, Savimbi teria sido morto já na segunda-feira, e as forças do Governo angolano teriam retardado a notícia da sua liquidação, de forma a poderem difundi-la, com outro impacto, nas vésperas da partida do Presidente José Eduardo dos Santos para Washington, onde dia 26 se reuniria com o seu homólogo norte-americano, George W. Bush.

tonito11.jpg As fontes zambianas sublinhavam que as tropas do Governo angolano tinham localizado a coluna de Savimbi no Moxico há duas semanas e que, tendo enviado reforços, se lançaram num ataque maciço no passado domingo. O vice-presidente da UNITA, António Dembo, assumiu o cargo, mas, enfraquecido pelas feridas sofridas na mesma escaramuça que matou Savimbi, morreu de diabetes 12 dias depois, a 3 de Março, e o Secretário-geral Paulo Lukamba torna-se naturalmente o líder da UNITA. A seguir a tudo isto, Angola viveu no descarado roubo de seus governantes, podendo por ora concluir-se: -“A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes, que ainda governam - ano de 2021 - (Ainda…)

(Fim…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:36
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CXCII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXIX

DEPOIS  DE ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS”O VAZIO COM A 6ª FEIRA SANGRENTA DE 22 DE JANEIRO DE 1993

Crónica 321105.11.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam (Ainda…)

araujo179.jpg

Por soba0.jpeg  T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

A 6ª Feira sangrenta, 22 de Janeiro 1993 - o dia que angolanos do grupo linguístico Kikongo, foram assassinados por razões xenófobas. Com efeito, na manhã do dia 23 de Janeiro de 1993, os bairros da Petrangol, Mabor e Palanca e outros habitados maioritariamente por Bakongos, foram atacados por parte de habitantes de Luanda. O Governo de Angola teria reconhecido oficialmente 57 mortos, mas as organizações civis bakongos apontaram mais de mil vítimas e acusaram jornalistas angolanos de serem os responsáveis da chacina.

Estes ataques foram referidos como sendo ocasionados por motivos étnicos mas, em realidade, tratou-se de conflito pré-eleitoral. Os bakongos foram acusados pela imprensa oficial de ter apoiado o partido do Galo Negro. Depois da fuga do Jonas Savimbi, nos fins de Novembro de 1992 para o Huambo, este reorganiza o comando da sua ala militar e, no espaço de poucos meses depois das primeiras eleições em Angola, ocupa as cidades do Uige, Mbanza Kongo, N´dalatando, Soyo, Caxito e mais tarde, depois de uma batalha de 55 dias, a segunda cidade de Angola, Huambo, obrigando o governo a ficar na defensiva.

kicongo1.jpg Nasce daí, a campanha mediática contra o Zaire de Mobutu, acusado de ter enviado tropas para auxiliar o braço armado da UNITA. No entanto, quando as ex- FALA's ocupavam militarmente uma das cidades, a Rádio Nacional de Angola, noticiava o que aqui se cita: "tropas zairenses e da UNITA, ocuparam a tal cidade", etc. Alguns jornalistas de Jornal de Angola imprudentes, assinam artigos que criticavam os supostos zairenses (na realidade, angolanos bakongos), com caricaturas, denegrindo-os de ser responsáveis da miséria do povo angolano.

Em meados de Janeiro de 1993, todos os órgãos de comunicação Social de Angola, citam fontes militares que foram capturados no campo de batalha, tropas zairenses, o que constituía prova suficiente da implicação de Mobutu no sucesso de tropas da UNITA no terreno. Prometeram apresentá-las numa conferência de imprensa. Na preparação desta, um jornalista corajoso questiona sobre as provas que os militares estrangeiros africanos capturados fossem zairenses; a resposta foi simples: falavam lingala! O jornalista insiste em saber se, nas forças armadas angolanas e da UNITA, não havia militares que falassem lingala, sendo logicamente, angolanos.

socie2.jpg A reunião com imprensa foi anulada "in-extremis", por ordens superiores. Soube-se mais tarde, que os supostos soldados zairenses, na realidade eram angolanos bakongos que falavam lingala, ligados ao partido no poder e recrutados para este efeito. A campanha de difamação contra Mobutu e os zairenses era tão forte que obrigou o então general da UNITA, Demosthenes Chilingutila a desmentir na rádio portuguesa TSF, qualquer implicação das tropas do Zaire ao lado das suas tropas afirmando ainda que o próprio presidente do Zaire tinha problemas graves no interior de seu pais e, precisando ele sim, da ajuda da UNITA.

Nesse dia, 22 de Janeiro de 1993, um editorial da Rádio Nacional de Angola revela que os Zairenses infiltrados no seio da população angolana, preparavam um plano para assassinar o presidente da República, José Eduardo dos Santos. E, foi esta a razão que no mesmo dia incutiram e accionaram seu conhecido Poder Popular junto de seus seguidores entre a população de Luanda munidas de armas de fogos pelo MPLA a assaltarem, violarem e matarem à revelia e com toda a impunidade, os bakongos da capital do país – Luanda.

balba1.jpg Dias depois, os bakongos, impotentes e frustrados, reúnem-se algures em Luanda, redigem o famoso Manifesto da Sexta-Feira Sangrenta, um memorandum dirigido ao governo de Angola, ao parlamento e às embaixadas acreditadas em Angola. Neste documento, os activistas “bakongo” relatam com pormenor o que se passou nestes dias. O então deputado do partido PDP-ANA, Nfulumpinga Landu Víctor, toma conhecimento do manifesto e interpela a Assembleia para condenar os massacres e levar à justiça os autores.

Em uma exortação sobre a Sexta-Feira Sangrenta, Muana Damba publicou a 24 de Janeiro no recente ano de 2013: História do Reino do Kongo - Você é um N'kongo, filho desta terra legada pelos nossos antepassados. Se podemos considerar esta Angola um país de Cabinda ao Cunene, é porque nele estão inseridas todas as etnias do país* incluindo os Bakongos sejam eles de Cabinda, do Soyo, do Uige, M'banza Kongo e outros, mas se essa realidade deixar de ser considerada, Angola deixa de ser aquilo que é, portanto vamos todos reflectir...

bacongo1.jpg.crdownload *Abro aqui um parêntesis para prosseguir este pensamento de Muana Damba, ressaltando que a etnia Branca desde seu processo libertador pelos autodesignados mandatários dum autopoder, na gestão do todo-poderoso MPLA na governação, sempre a excluíram, subtraindo-lhe direitos de gerações por nascimento. Algo incomum e xenófobo, do qual tanto se fala hoje pelo mundo com refugiados de um e outro lado, passados que são quase 46 anos daquele 11 de Novembro de 1975, verificando-se sempre um provocado desleixo ao lidar com a etnia Branca, relegando-a para um submundo de indiferença e menosprezo…

bacongo2.jpg Muana Damba continuando seu MANIFESTO refere: Queremos que as autoridades, outros irmãos angolanos saibam que Angola é um mosaico de tribos ou mesmo junção de tribos, nós temos a nossa terra, espaço terra tal como outros, assim sejam Kimbundos, Ovimbundos entre outros que o tempo ditará terem também os mesmos direitos de jus soli (lei do solo -"direito de solo") irrestrito, ou o direito à cidadania a quem nasça em solo nacional, independente de quaisquer outras condições. Se alguma lei assim o refere, urge modificá-la para bem de Angola…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:53
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Domingo, 31 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CXCI

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXVIII

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS” O VAZIO EM ANGOLA

Crónica 321031.10.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam…

kisan1.jpgPor: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Naqueles tempos ainda nem sabíamos que usavam a propaganda de forma exaustiva na falácia de tudo vir a ser uma liberdade linda em Angola! Não! Não conhecíamos as filosofias do mal… Nos intervalos dos lapsos de memória quase petrificado, posteriormente, ele, um velho Tenente-Coronel, falava tudo desencontrado no tempo e no espaço esfarrapado de mente contando os efeitos da Luua no quarto decrescente, penso eu-de-que!

Aquele senhor fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas, olhava para o infinito, babando-se pelo canto esquerdo descaído, insensível ao cérebro abanado por uma trombose, com a lentidão na descrição das coisas graves, titubeava muxoxos – Hum, pois, não sabe; a kalashnikov, os turras, a febre do poder, os malvados da UITA… E, eram bolas de trapos, meias surripiadas do pai a cheirar a sulfato de peúga a impregnar a desconversa! Mas, o que é que tem a ver o cú com as calças? Estão a ver o filme?

miran04.jpg Entre a vida e a morte, as diferenças estão nos pormenores pois algumas são demasiado trágicas e outras muito, por demais sofríveis… Ele teve a sorte de morrer num ai, repentinamente (falava dum monstro, talvez um tal de imortal do MPLA); que nem a viu aparecer - a bala do monacaxito… Movimentos das FA com seus militares guedelhudos e revolucionários esquerdistas do M´Puto…

Na tempestade vingativa dos habitantes da Luua, dos musseques, que se abateu sobre os comerciantes brancos. E foram primeiro os fubeiros, depois os taxistas e a seguir já o eram todos os brancos. Os fubeiros tinham fama de trapaceiros e os taxistas de reaccionários. Entre a vida e morte as diferenças estão nos pormenores, repetiu o velho tenentista babado ao recente passado… Em sua cabeça, sua cuca estava mesmomesmo pifada mas, eram coisas reais dum passado…

araujo1.jpg A quitandeira, de filho atado com lenços do Mobutu com quindas cheias de loengos, gajajas ou sape-sape… candengue ranhoso abanado no caminhar, dando cabeçadas na mãe por entorpecimento entre apertos de multidão pra apanhar as chapas (táxis populares da quinhenta) do Zambizanga…. Pois! Queres ver que agora é preciso ser preto para se ser angolano! Repetia isto a todo o instante como se fizesse funje numa lata de leite Nido nas obras do António Barroso no Rio Seco.

Os primeiros foram expulsos dos musseques, à força e com o medo a estalar em fogos de very-lites, arcos-íris de granadas às centenas produzindo efeitos imediatos – E, agora ou vais ou morres! Isso: ou mato ou morro! Pópilas, de novo: ou morro ou mato! Mas ali só havia prédios. Creio que estava a ver a avenida Brasil da Luua! E, eram centenas; despojados dos pecúlios com a ajuda do lobo mau das NT – o mesmo que MFA a ajudar quem nunca deveria…

quitandeira5.jpg Era a frente para a fuga ao invés da fuga práfrente, algo já estudado pelos frentistas a fim de se efectuar o abandono, uma táctica nunca vista nos anais da lusofonia. Esta tornava-se conhecida aos poucos entre muxoxos de lusofodiaste; uma teoria que funcionou átoa, mas resultou mesmo.…Coisas do passado.

O Soba atento, fumando rapé ou liamba no seu cachimbo mutopa, sentado ou em seu pé à entrada do d´jango esperando os súbditos e dando-lhes conselhos; a família é importante, reúnem lá com os filhos debaixo da mulembeira lembram-lhe os seus deveres como a eles próprios lhes foram transmitidos, pelos pais e pelos pais dos pais, sabe que travarem as suas batalhas é ponto de honra e, sabe também que na hora de fazer a paz e a concórdia, com o usurpador ou sem usurpador, é da natureza humana, o caminho N´zambi indica.

SEXTA FEIRA1.jpg Mais tarde: A UNITA tentou retirar o controlo de Cabinda do MPLA em janeiro de 1993. Edward De Jarnette, chefe do Gabinete de Ligação dos Estados Unidos em Angola para o governo Clinton, alertou Savimbi que, se a UNITA impedisse ou interrompesse a produção de Cabinda, os Estados Unidos encerrariam seu apoio. Aqui, deu para se entender que os piores amigos eram mesmo, os americanos.

Em 9 de Janeiro, a UNITA iniciou uma batalha de 55 dias contra Huambo, a "Guerra das Cidades". Centenas de milhares fugiram e 10 mil foram mortos antes que a UNITA assumisse o controlo a 7 de Março. O governo engajou-se em uma limpeza étnica kikonga e, em menor grau, de ovimbundos e, em várias cidades, principalmente Luanda como o de 22 de Janeiro, chamado de massacre da Sexta-Feira Sangrenta.

SEXTA FEIRA2.jpg Os rebeldes da UNITA e os representantes do governo encontram-se cinco dias depois na Etiópia, mas as negociações em restaurar a paz falharam. O Conselho de Segurança das Nações Unidas sancionou a UNITA através da Resolução 864 a 15 de Setembro de 1993, proibindo a venda de armas ou combustível para a organização. Talvez a mudança mais clara na política externa estadunidense tenha surgido quando o presidente Bill Clinton emitiu a Ordem Executiva 12865 em 23 de Setembro, rotulando a UNITA como "uma ameaça contínua aos objectivos de política externa dos Estados Unidos" em Angola.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Sábado, 23 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CXC

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXVII

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS” – CAMPANHA ELEITURAL CONFLITUOSA…

Crónica 320822.10.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam…      

Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

1 ::::: No Gabão, em Libreville, Jonas Savimbi, Líder da UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola, José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola e Omar Bongo Ondimba reuniram-se dando as mãos e segundo o jornalista Carlos Albuquerque que fez a cobertura. A Savimbi foi-lhe proposta o lugar de Vice-Presidente e após este ter aceitado informalmente, a nomenclatura do MPLA, de imediato afirmou que haveria dois vice-presidentes: Um indicado pelo MPLA e ele, Savimbi que ficaria em segunda linha na hierarquia…. Só lhe restava recusar! O MPLA, sempre foi assim; inventam coisas tão diabólicas que nem lembram ao diabo…

Na óptica das probabilidades, haverá aqui uma situação incrível, pois que Savimbi poderia ter sido o primeiro Presidente de Angola eleito. Se ele tivesse aceitado, a realização da segunda volta das presidenciais, em 1992, nada nos garante que não tivesse ganho, ou mesmo, perdendo, nada nos diz que numa nova votação, saísse vencedor mas sempre o seria, uma perigosa suposição…

2 ::::: Estando a dias do termo da campanha eleitoral, a Conferência Episcopal Angolana, difunde uma mensagem intitulada “As portas da II República “. Nela, os bispos sublinham que “a Igreja não tem de apresentar nenhum candidato”, exortando ao voto consciente: “ Não devem merecer a preferência dos cristãos os que violam os direitos humanos e os que dilapidam os bens públicos, seja por que via for”. A UNITA entende que a mensagem é tendencialmente favorável ao governo do MPLA.

Ao mesmo tempo da intervenção do bispos na política, a UNITA dirige insultuosos ataques à representante das Nações Unidas Margaret Anstee, acusando-a de “estar comprada pelo MPLA, com diamantes e mercúrio”. As mulheres de Luanda, com blusas da OMA, saem à rua em defesa dos bispos e da própria Anstee. Numa grande manifestação, exigem “ a consciência democrática e perdão sem violência”, para que seus filhos cresçam numa Angola nova, sem luto, dor e lágrimas”.  

3 ::::: Passados já uns cinco anos dos recontros da Batalha do Cuíto Cuanavale o é dado a conhecer pelo toxicologista criminal belga Dr. Aubin Heyndrickx, o uso de gases na guerra. Ele, estudou supostas evidências, incluindo amostras de "kits de identificação" de gás de guerra encontrados após a batalha em Cuito Cuanavale, alegando que "não há mais dúvida de que os cubanos estavam usando gases nervosos contra as tropa Jonas Savimbi" - As tropas cubanas foram neste então acusadas formalmente de terem usado gás nervoso contra as tropas da UNITA durante a guerra civil.

O envenenamento por aquele agente nervoso leva a contracção de pupilas, salivação profusa, convulsões e micção e defecação involuntária, sendo que os primeiros sintomas aparecem segundos após a exposição. A morte por asfixia ou parada cardíaca pode ocorrer em minutos devido à perda do controle do corpo sobre os músculos respiratórios e outros. Os agentes nervosos também podem ser absorvidos através da pele, exigindo que aqueles que provavelmente sejam submetidos a tais agentes usem uma vestimenta completa, além de um respirador. Os agentes nervosos são geralmente líquido insípidos de coloração que varia entre o incolor e o âmbar e podem evaporar para um gás. Os agentes sarin e VX são inodoros; o tabun tem um odor ligeiramente frutado e o soman tem um leve odor de cânfora.

4 ::::: Na década após 1990 as mudanças políticas no exterior e vitórias militares em casa permitiram ao governo fazer a transição de um Estado nominalmente comunista para um Estado tendencialmente democrático. A declaração de independência da Namíbia a 21 de Março de 1990, eliminou a ameaça ao MPLA da África do Sul, quando a SADF se retirou de lá. O MPLA aboliu o sistema de partido único e rejeitou o marxismo-leninismo no terceiro Congresso do MPLA em dezembro, mudando formalmente o nome do partido de MPLA-PT para MPLA.

Com sua riqueza em petróleo e diamantes, Angola é como uma grande carcaça inchada com os abutres girando no alto. Os antigos aliados de Savimbi estão mudando de lado, atraídos pelo aroma da moeda forte". Savimbi também expurgou alguns dos membros da UNITA, que ele pode ter visto como ameaças à sua liderança ou como questionadores de seu curso estratégico. Entre os mortos no expurgo estavam Tito Chingunji e sua família em 1991. Savimbi negou seu envolvimento no assassinato de Chingunji e culpou os dissidentes da UNITA.

5 ::::: Um observador oficial escreveu que nas primeiras eleições em Angola, havia pouca supervisão da ONU, que 500 mil eleitores da UNITA foram desprivilegiados e que havia 100 assembleias de voto clandestinas. Savimbi enviou Jeremias Chitunda, vice-presidente da UNITA, a Luanda para negociar os termos do segundo turno. O processo eleitoral fracassou em 31 de Outubro, quando tropas do governo em Luanda atacaram os camados de rebeldes. Os sucessos militares do governo em 1994 forçaram a UNITA a negociar pela paz. Em Novembro de 1994, o governo havia assumido o controle de 60% do país.

6 ::::: Savimbi chamou a situação de "crise mais profunda" da UNITA desde a sua criação. Estima-se que talvez 120 mil pessoas tenham sido mortas nos primeiros dezoito meses após a eleição de 1992, quase metade do número de baixas dos dezasseis anos anteriores de guerra. Ambos os lados do conflito continuaram a cometer violações generalizadas e sistemáticas das leis de guerra, sendo que a UNITA, em particular, foi culpada de bombardeios indiscriminados de cidades sitiadas, o que resultou em um grande número de mortos civis. As forças do governo do MPLA usaram o poder aéreo de maneira indiscriminada, resultando também em várias mortes de civis…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:27
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXIX

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXVI

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS”CAMPANHA ELEITURAL CONFLITUOSA…

Crónica 320517.10.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam…                                                                                                                                        

Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

:::::1

Os chamados “três dias das bruxas” são referentes aos sequentes dias a 30 de Setembro de 1992, imediatamente após se saberem os resultados “fraudulentos” das eleições; estes eventos de matança aos homens da UNITA ocorreram até 1 de Novembro, já aqui descritos na parte XXIV desta “Angola da libertação”. Teria de haver uma segunda volta para as presidenciais para saber-se qual o verdadeiro vencedor e, segundo a óptica governamental com aconchavos internacionais, mas esta volta nunca se chegaria a realizar …     

:::::2

Em Setembro de 1992, três meses após a visita do Papa João Paulo II, no Huambo mais de uma centena de homens da UNITA fortemente armados “estacionam” frente à casa de Savimbi. A CCPM (Comissão Conjunta Político-Militar), interfere. A UNITA virá a dizer que são homens “da segurança pessoal de Savimbi”, mas a CMVF (Comissão Mista de Verificação e Fiscalização do Cessar-fogo), apura que o contingente e respectivo material bélico, havia entrado na cidade sem conhecimento da UNAVEM.

:::::3

Neste meio tempo, Luanda (e todo o país) estava pejada de um dispositivo policial desmesurado, como se tratasse de um estado de sítio - coisa a que os luandenses já não estavam habituados depois da guerra civil - dadas as preocupações com o acto eleitoral dos dias 29 e 30 de Setembro, para que tudo corresse bem. E correu. Correu muito bem, dada a afluência às urnas ter ultrapassado os 70% só no primeiro dia. O povo queria a paz e acreditava que a poderia conseguir pelo voto. Mas Angola, não era só Luanda.

:::::4

Os votos foram contados, mas a UNITA não concordando, exigiram a recontagem, pois os primeiros resultados deixavam de fora a possibilidade de uma segunda volta das presidenciais a Savimbi. Os acontecimentos precipitaram-se e Savimbi teve de fugir de novo para o Huambo levando atrás de si uns esperançosos 40% nas eleições com os dados viciados, segundo a UNITA. Lendo o Expresso do M´Puto: Savimbi ficou à espera por um curto tempo no Huambo e mais tarde, no seu refúgio da Jamba. Savimbi aguardava agora a marcação da segunda volta, que o levaria ao cume das suas aspirações.

:::::5

No terreno, à medida que decorria a campanha eleitoral, tropas da UNITA tomam posições no Centro/Sul de Angola, expulsando o MPLA de vários municípios. No Norte, em Caxito, soldados da UNITA envolvem-se com a polícia; em Benguela, a UNITA ataca uma caravana do Fórum Democrático de Angolano, ambos os incidentes causaram dezenas de feridos na população civil. No caso de benguela, a UNAVEM concluiu que “houve provocação por parte dos dissidentes e uma reacção exagerada por parte da UNITA”. Em Luanda a FNLA condena veementemente a agressão sofrida por Baptista Fula, seu membro, brutalmente agredido por militares e militantes da UNITA.

:::::6

Claro que sempre se verificou por parte das instâncias internacionais um certo acomodamento às visões do comportamento dos elementos afectos ao MPLA, o lado “governamental” por estes terem os donos da opinião com sua máquina da informação lubrificada de seu lado, dizendo o que mais lhe interessava; prosseguindo uma logística concertada de denegrir sempre a UNITA. Os posteriores conhecimentos dos factos vieram a confirmar em como a permanente contra-informação e métodos dissuasores das instituições e polícias de inteligência treinadas por peritos oriundos da cortina comunista.

:::::7 

Por via das eventuais mudanças políticas faz-se revisão da lei constitucional - Lei Nº 23/92 de 16 de Setembro, alterando a de Março de 1991, destinando-se principalmente à criação das premissas constitucionais necessárias à implantação duma democracia pluripartidária. Um cumprimento referido quando da assinatura a 31 de Maio de 1991 nos Acordos de Paz para Angola. É desta feita, a primeira vez na história do país, que levam à realização às eleições gerais multipartidárias assentes no sufrágio universal directo e secreto.

:::::8

O maior incidente da campanha eleitoral foi a captura, pela UNITA, de onze elementos da guarda pessoal de Eduardo Dos Santos. Savimbi justificaria que o comportamento de seus homens lhe foi “tardiamente comunicado”. Ainda em Setembro, chega a Lisboa uma queixa informal da UNITA, sobre o envolvimento de uma empresa portuguesa de distribuição alimentar, sediada no Porto, presumivelmente envolvida no fornecimento de material de guerra à Polícia anti-motim angolana - os 30 mil “NINJAS” do MPLA (assim foram chamados), treinados pelos espanhóis.

:::::9

Não houve grande desenvolvimento sobre o caso, assim como quase nada foi explicado, acerca do cargueiro “Cecil Lulo”, tripulado por dinamarqueses e filipinos, ostentando pavilhão das Bahamas e operado pela empresa dinamarquesa J. Pulsen, localizada no porto de Ponta Delgada nos Açores. O mesmo tinha um carregamento de armas, segundo se consta embarcadas numa base militar dos EUA – Estados Unidos da América e, com destino a Angola. Tudo que é descortinado no tempo, o é, de uma forma que surpreende, como tudo acontece numa altura tão crucial na tão desejada PAZ…

:::::10

A guerra de 27 anos pode ser dividida aproximadamente em três períodos de grandes combates - de 1975 a 1991, 1992 a 1994 e 1998 a 2002 - com períodos de paz frágeis. Quando o MPLA alcançou a vitória em 2002, mais de 500 mil pessoas morreram e mais de um milhão foram deslocadas internamente. A guerra devastou as infra-estruturas de Angola e danificou gravemente a administração pública, a economia e as instituições religiosas do país. Esta guerra terá de o ser, considerado um conflito por procuração da Guerra Fria, já que a União Soviética e os Estados Unidos, com seus respectivos aliados, prestaram assistência às facções em luta.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:12
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Terça-feira, 12 de Outubro de 2021
A CHUVA E O BOM ATEMPO . CXX

A ADIÁFA DOS MOIRÕES E SALAZAR - I

ENTRE 1914 E 1945 E O AGORA 2021

Crónica 3203 de 10.10. 2021 - Em Cantanede do M´Puto

Por: T´Chingange

:::::1

Naqueles idos tempos, enquanto o estado confiscava bens à igreja, fidalgos ou aristocratas feitos políticos, sacrificavam imbecilmente os jovens mandando-os para morrer como tordos nas trincheiras da guerra. Do corpo expedicionário enviado para Flandres de França poucos regressaram e os que voltaram vinham de pulmões afectados pelas gazes ali utilizados. Nesse então, a 1ª República Portuguesa era composta por deputados que faziam absurdos e floreados discursos no parlamento sem sequência na realidade do dia-a-dia. Hoje, estamos quase iguais…

:::::2

Eram uns pavões que vendiam petulância nos cafés do Chiado; era ver qual deles tinha mais protagonismo na pópia faroleira do Rossio ou no Café da Arcádia. Neste aspecto, Portugal viveu sempre em crise, (e continua a enfermar desses resquícios) envolto em devaneios de gente acomodada à política de faz-de-conta, devaneios de gente que sempre se sentem insubstituíveis.

:::::3

Naquele então, senhores latifundiários, donos de muitos hectares, muito gado, muitos chaparros pavoneavam política em Lisboa enquanto seus ganhões ou moirões lhe garantiam os bolsos cheios. Lá na província, na lezíria, ou seara alentejana, no cortical, olival, nas chapadas de trigo, nas lameiras, enquanto nas courelas havia a míngua – nesse então, ainda não se falava na palavra resiliência…

:::::4

Enquanto isso decorria, a Angola distante aonde eu me encontrava, estava quase ao abandono. Estamos em 2021 com dez milhões de Portugueses e o estado ainda vive à míngua sugado por corruptos e corruptores. As conquistas do povo foram direitinhas para a nova casta de políticos que dividem o bolo por quotas, tanto para ti, tanto para mim e, estamos de novo naquela merda desses idos anos; o povo fugindo para o resto da Europa, lugares para onde ninguém pensava ir depois dum 25 de Abril de 1975.

:::::5

Será a sina do Portuga, andar pelo mundo subsistindo à tal de resiliência enquanto eleitos, maioritariamente incompetentes singram com grandes salários nas administrações? Gente que assim repartidas pelo Arco-íris político nos torcem e retorcem com impostos com mais taxas em cima de outras já taxadas. Toda a banda larga será inútil se esta gente de mente continuar na festa desta dita democracia.

:::::6

Não é normal meter-me nestas citações mas que ando revoltado lá isso ando! Revendo o panorama do após guerra por incapacidade de gestão, Angola após o Abril de 1975 ficou abandonada à sua sorte até que algures no início da Estrada de Catete em Luanda, deram o grito do “tundamunjila” festejando a independência com rajadas de kalashnikov.

:::::7

A República Portuguesa tinha sido tomada por panhares com militares empoleirados em sua carcaça agitando cravos na ponta das armas. Surgiram uns oficiais barbudos cheios de hormonas de aviário fazendo alarde duma valentia inexistente, em floreados discursos. Elaboraram regras dum criado MFA, Movimento das Forças armadas que logo desrespeitaram.

:::::8

Eles eram os donos da guerra, da opinião, e o povo levantava os punhos em aprovação de suas decisões democráticas – assisti a isto como destacado na Câmara Municipal de Torres Novas; o povo é quem mais ordena e, todos se olhavam entre si ao levantar o braço em reuniões magnas. E, havia por semana uma ou duas destas reuniões; entretanto o Sindicato dos Trabalhadores das Autarquias, por nada nos queriam lá. Passei por isto na fase de Vasco Gonçalves, vendo-o só esbracejar depois de lhe tirar o som da TV.

:::::9

O medo era farejado pela astúcia duns quantos autopromovidos a pavões. Guedelhudos que fingiam ser os Che Guevara duma Sierra Maestra, vendendo seu imaginário a custo zero. Desde esse tempo, Portugal viveu sempre em crise, (e continua a enfermar desses resquícios) envolto em devaneios de gente acomodada à política de faz-de-conta, com gente que teima em se sentir insubstituível.

:::::10

Em Angola, os ditos Movimentos, digladiavam-se pelo poder morrendo como tordos numa guerra a céu aberto. Recém-chegado a Portugal, com um bilhete de vinda sem regresso, ano de 1975, deram a mim e aos meus, 500 escudos por adulto. Com uma senha de viagem fornecida pelo IARN, Instituto de Apoio a Retornados levei meus dois filhos até o Alentejo. Na Funcheira tinha o meu concunhado Cailogo a receber-me e, lá fomos para a Panoias. Meus filhos ficariam aqui até que em terras do norte orientasse a vida em casa de outros familiares brancos de cor e nome...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:35
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXVIII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXV

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS” CAMPANHA CONFLITUOSA…

Crónica 320108.10.2021 - A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

Por: T´Chingange, em Cantanhede do M´Puto

:::::1

Após o 11 de Novembro de 1975, as casas abandonadas em Luanda maioritariamente pelos brancos, são entregues a “amigos” do MPLA e aos amigos dos amigos ou assim supostos; por toda a Angola se verificou o mesmo procedimento – fábricas, complexos desportivos, armazéns de géneros, bombas de gasolina, literalmente, tudo passou para a gestão do MPLA. Personalidades angolanas terão recebido apartamentos no Kilamba por terem apoiado o MPLA na campanha para as eleições gerais em Angola. Estas pessoas tiveram acesso privilegiado às casas mas, sendo propriedade do estado por confisco, supostamente, teriam de as pagar (digo eu…).

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Por tantas dúvidas no ar, tantas medidas arbitrárias, umas torpes outras sem explicação plausível, levam os jovens de agora a pedir explicações. Nos dois anos de 2019 e 2020 e, no actual 2021, protagonizam inéditas manifestações, estipulando como que uma espécie de moratória ao executivo angolano, antes de voltarem às ruas, uma e outra vez, pedindo eleições livres e sem batota, eleições municipais e o fim da mordaça e do estado policial, ditatorial na verdadeira versão da palavra; uma cleptocracia, um governo cujos líderes corruptos usam o poder político para se apropriar da riqueza de sua nação, com o desvio ou apropriação indevida de fundos do governo às custas da população em geral.

:::::3

Uns, declarados opositores, são pressionados, coagidos ou assediados, outros desaparecem misteriosamente e ainda outros são presos por se expressarem em desfavor do MPLA que se protagoniza como sendo eles, o país. Nas eleições parlamentares, a UNITA obteve uma votação de mais de 30%, portanto expressiva, mas que ficou aquém das suas expectativas. Nas eleições presidenciais, os cerca de 42% obtidos por Jonas Savimbi impediram que José Eduardo dos Santos, presidente em exercício que reuniu 59% dos votos, obtivesse na primeira volta a maioria absoluta, do modo que, pela legislação então em vigor, teria sido necessária uma segunda volta.

:::::4

Esta, não se chegou a realizar, porque a UNITA declarou de imediato que tinha havido fraude nas eleições presidenciais, e retomou as suas actividades militares - enquanto os deputados eleitos pela UNITA assumiam as suas funções de forma regular. A seguir a uma fase de êxitos militares, por exemplo a tomada temporária da cidade do Huambo, a UNITA passou a perder terreno de maneira dramática, devido ao reforço maciço das FAA (Forças Armadas de Angola), em pessoal, formação e equipamento, no essencial financiado pelas receitas do petróleo.

:::::5

Em paralelo, constitui-se uma dissidência da UNITA, designada "UNITA Renovada" e liderada por um dos deputados, Eugénio Manuvakola; esta corrente era a favor do abandono da luta armada e de uma concentração sobre a luta política. No fim dos anos 1990 era patente que a UNITA tinha perdido o combate, em termos militares. Perseguido por uma unidade das forças governamentais, Jonas Malheiro Savimbi é morto em Fevereiro de 2002. Segundo o jornal Público (do M´Puto): Jonas Savimbi morreu "de arma na mão", como "um militar", numa emboscada das Forças Armadas Angolanas (FAA), numa sexta-feira à tarde, junto ao rio Luio, sudeste da província do Moxico, ao fim de cinco dias de perseguição pelo mato. "Sete tiros foram suficientes para o abater". Foi assim que o brigadeiro Wala, na qualidade de dirigente da "força mista que matou o líder da UNITA", resumiu o fim de Savimbi aos jornalistas presentes no local em que o corpo foi exibido.

:::::6

Ano de 2002 - Após a sua morte, a UNITA tornou-se num partido civil e abandonou a luta armada. No congresso da fundação do partido, onde a UNITA Renovada e outros elementos dissidentes foram reintegrados, Isaías Samakuva foi eleito presidente. Concorrendo às eleições parlamentares de Setembro de 2008, a UNITA obteve pouco mais de 10%, tornando-se num partido com poucas condições para exercer funções efectivas de oposição. Em 2012, esta situação levou à saída de uma dos seus mais destacados dirigentes, Abel Epalanga Chivukuvuku que fundou um novo partido, CASA (Convergência Ampla de Salvação de Angola).

:::::7

Apesar desta perda, a UNITA aumentou muito significativamente, de cerca de 80%, nas eleições realizadas em 2012, duplicando o número dos seus deputados, enquanto a CASA obteve respeitáveis 6% com 8 deputados - constituindo-se, deste modo, uma oposição parlamentar significativa ao MPLA. Nas eleições de 2017, a UNITA quase duplicou outra vez o número de acentos no parlamento, saindo de 32 para 51 deputado, sendo que a CASA-CE passou de 8 para 6 deputados.

:::::8

A UNITA que tem tentado sempre demonstrar democracia interna realizando congressos de 4 em 4 anos, é hoje, o principal partido opositor ao partido que forma o governo afirmando-se como uma verdadeira alternativa a este. A morte de Savimbi também se reflectiu na mudança ideológica do partido, deixando o nacionalismo de esquerda e o socialismo humanitário (correntes maioritárias até então). Este facto alterou o espectro do partido, que, de situado mais a centro-esquerda, passou a um movimento sem ideologia dominante.

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Segundo Jofre Justino, o partido terá assim várias correntes, sendo a dominante, direitista, capitaneado por Isaías Samakuva. As demais correntes do Galo Negro seriam a da esquerda, dirigida por um general do terreno; e a do centro, capitaneada por Abel Chivukuvuku (que acabou por romper com a UNITA e formar um novo partido). O XIII Congresso da UNITA, realizado entre os dias 13, 14 e 15 de Novembro de 2019 foi o mais renhido da sua história, em relação à disputa da presidência.

:::::10

Concorreram 4 candidatos, todos eles dirigentes de proa do partido, como o diplomata Alcides Sakala Simões, na altura secretário para as relações internacionais, o deputado e académico José Pedro Katchiungo, na altura também vice-presidente da bancada parlamentar, José Abílio Kamalata Numa, um destacado General na reserva, o jornalista Manuel Raul Danda, na altura vice-presidente do partido e o Eng.º Adalberto Costa Júnior, então presidente da bancada parlamentar, que veio a ganhar as eleições, com pouco mais da metade dos votos. A UNITA é hoje composta por uma direcção coesa liderada por Adalberto Costa Júnior, Arlete Leona Chimbinda, primeira mulher a chegar ao cargo de vice-presidente do partido e Álvaro Daniel.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:22
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXVII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXIV

”OS DIAS DAS BRUXAS” – CAMPANHA CONFLITUOSA…

Crónica 3198 – 28.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

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Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

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Logo no dia a seguir à partida do Papa João Paulo II de Angola a 10 de Junho de 1992, MPLA e UNITA envolvem-se em violento combate verbal, só apaziguado com a interferência de Herman Cohen. No segundo dia da campanha eleitoral, soldados da UNITA atacam o governo provincial de Kuito. Os governamentais reagem. O incidente salda-se em 20 militares e 10 civis mortos. No mesmo dia, no Huambo, numa emboscada à caravana automóvel de Kundy Paihama, director de campanha do MPLA, falece o secretário provincial da juventude do MPLA e cinco pessoas ficam feridas com gravidade.

:::::2

Estes acontecimentos, motivam um comunicado dos observadores internacionais e membros da missão das Nações Unidas UNAVEM II, condenando a atitude do MPLA e da UNITA -Convém esclarecer que a UNAVEM I, fiscalizou a retirada das tropas expedicionárias cubanas. A 8 de Setembro de 1992, Eduardo dos Santos e Savimbi acordam no princípio da criação de um governo de unidade nacional, independentemente do resultado das eleições. Comprometem-se na extinção dos seus exércitos, antes do escrutínio. Dez dias depois aquele comprometimento, avisado pela sua representante em Angola, Margaret Anstee, Butros-Ghali envia um relatório ao Conselho de Segurança da ONU, denunciando que apenas 41% das forças armadas do governo da UNITA tinham sido desmobilizadas e apenas 19% das forças armadas unificadas tinham sido constituídas.

:::::3

O mesmo documento sublinha que o ritmo da desmobilização foi mais rápido do lado das forças governamentais – 54.747 soldados, correspondentes a 45%, contra 7.257 soldados da UNITA, correspondendo a 24%. Toda esta movimentação de vontades fica conspurcada pela má-fé de ambas as partes que não confiam em suas próprias sombras pois que sempre vem ao de cima mais de 10.000 mortes de partidários da UNITA e da FNLA que foram assassinados pelas forças do MPLA, principalmente dos grupos étnicos ovimbundos e bacongos.

:::::4

Os “3 DIAS DAS BRUXAS” sempre é relembrado com as mortes de muitos membros proeminentes da UNITA como Jeremias Chitunda, Elias Salupeto Pena e Aliceres Mango, entre muitos outros. Dia 30 de Outubro de 2021, completam-se 29 anos sobre o massacre iniciado a 30 de Outubro de 1992 na capital angolana, Luanda. Recorde-se: De 29 e 30 de Setembro de 1992 diz Filomena Lopes líder do Bloco Democrático, partido da oposição angolana: “foram naturalmente três dias horríveis", data em que se interrompeu o processo de paz em Angola. Fui apanhada de surpresa, sobretudo numa altura em que se tentava encontrar soluções políticas para o problema.

::::5

Filomena diz: - “Matava-se tudo. Matavam-se todos os que tivessem alguma ligação com a oposição. ”Milhares de apoiantes e até dirigentes da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) são assassinados em Luanda e em outras localidades do país. Também há vítimas da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). “É a primeira vez, na história da guerra civil angolana, que políticos morrem em combate”, escreve o jornalista Emídio Fernando no livro Jonas Savimbi, “No Lado errado da História”.

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Até hoje - 2021, permanece por esclarecer quem ordenou o massacre. O número de vítimas também nunca foi confirmado, mas estima-se que tenham morrido entre 10 mil e 50 mil pessoas. Outros gráficos, baseadas em números da Igreja Católica, estimam que foram mortos de 25.000 a 40.000 partidários da UNITA e da FNLA. Números que Mário Pinto de Andrade, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contesta: “Acho que, às vezes, a comunidade internacional empola. Houve uma manipulação desses resultados. Eventualmente fala-se das pessoas que morreram pela UNITA, mas também morreu muita gente pelo lado do governo. A UNITA quando ocupou o Uíge matou muita gente do MPLA e quando ocupou o Huambo, fez o mesmo.”

:::::7

Nem o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos, nem o seu adversário, Jonas Savimbi, da UNITA, conseguiram maioria absoluta nas presidenciais. Mas, a segunda volta nunca se realizou. A guerra civil reacendeu-se com o massacre e, prolongar-se-ia até quatro de Abril de 2002. O massacre dizimou muitos membros dos grupos étnicos Ovimbundu e Bakongo, historicamente tidos como adversários do MPLA. O jornalista e analista político Orlando Castro afirma que, nessa altura, o MPLA tentou “neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime”.

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“Foi uma nova tentativa de decapitar a UNITA. Orlando Castro conta: "Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA”. Essa prática vem-se verificando até aos dias de hoje segundo muitas versões contadas aqui e ali, em livros ou crónicas nos jornais e redes sociais e, até por gente fugida ao sistema que sempre acusam o MPLA na utilização de venenos para eliminar parceiros ou amigos considerados insuspeitos. Quem lê o “Fórum de Liberdade” nas redes sociais de Fernando Vumby exilado na Alemanha, um antigo elemento da DISA - a polícia política do governo de Agostinho Neto, fica com os cabelos em pé.

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O tema ainda é tabu em Angola e desconhecido por muito jovens. Daí a importância de uma boa estratégia de reconciliação, desde que não se branqueie a verdade, defende Orlando Castro: “Estes massacres são os mais visíveis, quer o de 27 de Maio de 1977, quer o de 1992, são os mais visíveis pelo número de vítimas, mas o MPLA tem muitas outras histórias porque ao longo da guerra – embora a UNITA obviamente também tenha cometido grandes erros – o MPLA, até pelo poder militar que tinha, massacrou muita gente inocente.

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Os jovens não conhecem esta história. E, a paz e reconciliação em Angola nunca se conseguirão com base na mentira”. Mário Pinto de Andrade recorda: “ninguém pode negar a História, mas tem de se falar com realismo. Apesar de Angola ter um grande potencial em recursos hídricos, nem toda a gente tem acesso a água e energia no país. O governo angolano quer mudar isso e está também aberto a cooperar com Portugal; assim se falava a em Outubro de.2012; o que mudou mesmo foi  o ressurgir de novas formas de roubar ao erário publico destroçando paulatinamente a economia e levando o povo ao desemprego, sobrevivendo da forma triste em rebuscar nas lixeiras, caixotes de lixo e coisas nauseabundas que só abutres praticam…  

(Continua…)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:53
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXVI

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXIII

”TENTATIVAS DE RECONCILIAÇÃO”  TRAGÉDIA ANUNCIADA COM CAMPANHA CONFLITUOSA…

Crónica 3197 – 27.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

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Por soba k.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Em Março de 1992, representantes da Amnistia Internacional visitaram Angola lançando um apelo para a protecção dos direitos humanos – “Na ausência de providências imediatas para impedir novos assassinatos, verificava-se uma escalada da violência que vinha a pôr em risco os acordos de paz”. Crimes cometidos, nunca castigados, segundo pesquisa na imprensa angolana e portuguesa: Pelos governamentais, a morte de seis pessoas, numa manifestação pacífica de apoio aos separatistas de Cabinda, em 1991.

Ainda em Cabinda, no mesmo ano verifica-se a execução a tiro do diácono Arão. Também em Luanda, ocorre o assassinato do piloto governamental Sampaio Raimundo, pelo guarda-costas de um oficial da UNITA. No corrente ano de 1992, a morte de quatro oficiais da Força Aérea angolana, por membros da UNITA – dois deles, enterrados vivos, um queimado, outro espancado. Dá-se a morte de nove membros da UNITA, entre os quais o tenente José Segundo, na Província de Benguela, segundo representante da UNITA em uma comissão da CCPM - Comissão Conjunta Politico Militar. O mesmo, foi alvejado por um civil e por um outro com uniforme das FAPLA, em Junho do passado ano. Àquelas mortes, nenhuma investigação foi feita.

cronXXIII-5.jpg Dá-se o assassinato do representante da UNITA em Malange, coronel Pedro Makanga, vingado logo a seguir, com o assassinato de um tenente-coronel das FAPLA. Era esta a onda de insanidade e falta de rigor na fiscalização e ordem do território e, dizer-se por isso, estar-se a caminhar para uma tragédia anunciada, sem ter ninguém ou entidade fidedigna para superar com justiça quaisquer arbitrariedades. Na Província da Huíla dá-se assassinato de quatro turistas; este episódio transforma-se em mais um incidente político, quando Jonas Savimbi anuncia que prendera Celestino Sapalo, um agente de segurança governamental, por suspeita dos crimes. A ONU, vem a concluir que os crimes haviam sido cometidos pela tropa da UNITA; esta, concorda em permitir o interrogatório a Sapalo por uma comissão conjunta de inquérito, formada por seus representantes e do governo, mas isso nunca aconteceu.

cronXXIII-0.jpg Dá-se aqui conhecimento de várias altercações que um pouco por toda a Angola se vão verificando, para que se tenha uma ideia melhor formatada do todo o ambiente social em efervescência expectante da paz que, não chega… Em Cabo Ledo, arredores de Luanda, ocorre a morte por assassinato de uma família portuguesa. O governo apresenta um presumível autor dos crimes que anuncia ter actuado a mando da UNITA, por dinheiro e, embora tudo apontasse ser uma manobra política do MPLA, nenhuma investigação viria a ser feita. Por sete dias o Papa João Paulo II visita Angola, tendo-se despedido a 10 de Junho de 1992 do povo angolano no Aeroporto de Luanda e, tendo na primeira linha um grupo de escuteiros em fila.

cronXXIII-3.jpg O Papa João Paulo II junto de José Eduardo dos Santos, presta honras militares; arcebispos e bispos, em representação de vários países africanos; crianças com camisolas impressas com fotografia do Papa João Paulo II; O Papa João Paulo ao fazer discurso de despedida dá antecipadamente a bênção para um bom entendimento entre irmãos desavindos, o que teimará em não se verificar. As eleições gerais angolanas ocorreram nos dias 29 e 30 de Setembro de 1992 para eleger o Presidente da República e a Assembleia Nacional. Foram as primeiras eleições multipartidárias, supostamente democráticas e livres realizadas no país. Ocorreram na sequência da assinatura dos Acordos de Bicesse de 31 de maio de 1991, que pretendia pôr fim ao impasse militar com mais de dezassete anos.

O MPLA ganha as duas eleições; no entanto, os oito partidos de oposição, em particular a UNITA, rejeitaram os resultados como fraudulentos, o que se veio a verificar posteriormente segundo relatos de ocorrências, por impedimentos de fiscalização, destruição de urnas ou, por trâmites com bizarrias inconsequentes. Como resultado, a guerra civil seria retomada. Alguns milhares a dezenas de milhares de membros da UNITA ou apoiantes em todo o país seriam mortos pelas forças do MPLA em poucos dias, no que é conhecido como o MASSACRE DO DIA DAS BRUXAS, também conhecido como o Massacre de Outubro, referindo-se aos eventos que ocorreram de 30 de Outubro a 1 de Novembro de 1992 em Luanda, já como parte da Guerra Civil Angolana.

cronXXIII-2.jpg O massacre aconteceu após as primeiras eleições da história do país. O partido governante, o MPLA, reivindicou a vitória. A UNITA, questionou a equidade das eleições, apresentando provas das anomalias mas, a Comunidade Internacional e os países dos PALOPS assobiaram para o lado; era no Mundo, o início do barlavento esquerdista com a postura moderada de socialista! Podemos agora e à distância, ver a grande imagem, tomando como exemplo o ”Fórum de S. Paulo”- uma organização que reúne partidos políticos e organizações de esquerda, criada em 1990 para promover mudanças à esquerda com a capa suave de "neoliberais” como Cuba, Venezuela, Bolívia, Argentina entre outros…

Uma vez que nem o candidato do MPLA nem o candidato da UNITA obtiveram a maioria absoluta requerida nas eleições presidenciais, uma segunda volta seria necessária de acordo com a constituição mas, à medida que ambas as partes intensificaram a retórica da guerra, o MPLA ataca posições da UNITA em Luanda. Seguiram-se combates que levaram à morte de muitos membros proeminentes da UNITA como Jeremias Chitunda, Elias Salupeto Pena e Aliceres Mango Alicerces, que foram retirados do seu veículo e mortos a tiros. Milhares de eleitores da UNITA e da Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA,  foram massacrados em todo o país pelas forças do MPLA ao longo de três dias…

cronXXIII-4.jpg Em um atentado no Huambo, é assassinado o poeta Fernando Franco Marcelino. Neste atentado é ferido com gravidade a poetiza Zaida Daskalos. O “Terra Angolana” – o jornal da UNITA, em sua edição de 31 de Outubro, atribui ao MPLA a autoria deste crime, o que é duvidoso pois que eram pessoas muito conhecidas em Angola e, desde sempre ligadas ao MPLA. Neste meio tempo é também assassinado no Huambo o médico e escritor David Bernardino, homem ligado à esquerda pelo Movimento Democrático do Huambo – um apêndice do MPLA desde o seu nascimento…    

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:27
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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXV

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXII

–”TENTATIVAS DE RECONCILIAÇÃO” – Tragédia anunciada

Crónica 319619.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

kuito7.jpg

Por soba k.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Em carta datada de 11 de Março de 1992 destinada ao Secretário de Estado Norte-Americano James Backer, Jonas Savimbi admitiu as execuções de Pedro N´Gueve Jonatão Chingunji, “Tito” - delegado da UNITA nos E.U.A. e de Fernando Wilson, delegado da UNITA em Lisboa, assim como toda a família, de ambos e, respectivos guardas pessoais, por via de “actos de alta traição” e, após julgamento. Ainda declara que haviam sido mortos em 1991 e não em 1992. A Amnistia Internacional contesta a Comissão de Inquérito da UNITA, fazendo saber ao movimento, que a mesma não obedecera aos “critérios geralmente aceites de independência e imparcialidade”.

Na carta dirigida a Backer, Savimbi acusou “Tito” e Fernando Wilson de pretenderem envenena-lo: “Depois do regresso à Jamba, a 11 de Novembro de 1988, promovi um encontro entre nós e, alguns de seus amigos para discutirmos o que se falava. Tito confessou que pretendia derrubar-me ou envenenar-me com um tipo de veneno de camaleão bem conhecido pelos angolanos”. “Na altura em que a estória emergiu, “Tito” que nomeou Wilson como conspirador, estava convencido de que um acordo poderia ser fechado com o MPLA, se eu fosse afastado.

kuito1.jpg Entretanto a UNITA chamava de “criminosos de guerra” a Almeida Santos, António Guterres, Jaime Gama e Durão Barroso. Em 1988, no Palácio de Belém, Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, agracia com a Ordem do Infante Dom Henrique o empresário Horácio Roque, cuja mulher, Fátima Roque, acompanha Savimbi num périplo por vários países. Só em 1992, pela primeira vez, é que João Soares se demarca de Savimbi ao certificar-se de que este mandara fuzilar os dirigentes da UNITA Tito Chingunji e Wilson dos Santos.

Tito e uns quantos mais – entre eles Fred Bridgeland, um britânico, autor da biografia oficial de Savimbi e autor de outros artigos, denunciava a crueldade, associada a eventuais desvios mentais de Jonas Savimbi, e também uma tal de Olga Mundombe, estudante da UNITA nos EUA, e recentemente afastada do movimento – desenvolveram um plano para destruir a minha reputação, alegando violações dos direitos humanos com uso de drogas, numa tentativa de criar um clima favorável a “Tito” para tomar a presidência.

 bicesse2.jpgO plano alternativo era envenenar-me na Jamba e arregimentar jovens e outros indecisos à sua suposta bandeira. “A situação fica particularmente delicada porque “Tito” alegou que o seu plano beneficiava de apoio actuante da CIA”. São desconhecidas as movimentações de Backer mas, é conhecida a carta que o presidente e vice-presidente da “Senate Select Committee on Intelligence”, respectivamente David Boren e Frank Murkowski, enviaram a George Bush: “Os nossos membros estão profundamente preocupados com as repetidas acusações de abusos dos direitos humanos em Angola e, em particular, às mortes de Tito Chingunji, Wilson dos Santos e suas famílias.

Podemos nunca saber quem foram os responsáveis por estes crimes, mas o Dr. Savimbi tem de aceitar a responsabilidade pelo facto de terem ocorrido na jurisdição controlada pela sua organização politica e militar. O facto de estes acontecimentos, terem acontecido depois da paz ter chegado a Angola, deixa-nos apreensivos. Espera-se por isso que certas e especificas acções sejam tomadas por ele, Jonas Savimbi que comanda o movimento UNITA.

ong5.jpeg Com o título de Galo Negro em inglês (“The Black Cockerel”), existe uma peça teatral sobre Savimbi, da autoria do nigeriano Ademola Bello, o primeiro africano a obter um mestrado em arte dramática pela Universidade de New York.“The Black Cockerel” estreou em Junho de 2008 numa encenação da companhia do Out North Theatre de Anchorage, Alaska, onde o autor reside; esteve longe de ser um sucesso, mas teve pelo menos o mérito de atrair o interesse de Hollywood para a vida de um dos maiores líderes africanos. A acção da peça decorre entre 1985 e 1992 e os personagens são Savimbi e Tito Chingunji, secretário dos Negócios Estrangeiros da UNITA entre 1980 e 1990 e representante do movimento em Washington e o americano Jack Abramoff, lobista ligado ao Partido Republicano e que conseguiu que Savimbi fosse recebido com passadeira vermelha na Casa Branca.

Estando eu na odisseia da diáspora “ Kikas Xirikwata” por terras de Ovoboland e, no final do ano de 2014 no alpendre de soalho e tecto em madeira da Guest House Willtop de Vanda Potgieter, pude repensar em fim de tarde os últimos dias percorridos entre Okavango na Faixa de Kaprivi e os desertos de Swakopmund, pelas quenturas agrestes dos morros de Ozakos e Kiribib. Pude rever esta matéria com “João Miranda”, o chefe dos khoisans do batalhão Búfalo, quando da invasão a Angola naqueles primeiros tempos da invasão Sul-Africana.

guerra19.jpg Também senti um desassossego de excitação inquieta nos porquês mal respondidos e, que só África nos transmite; há fogos em guerrilhas escondidas com vinganças incompreendidas, queixas e gemidos, quiçá chorando nova dores, quebrando os hábitos dum quotidiano em noites de espaços perdidos. O que foi e, como foi que aconteceu é uma ideia que sempre nos acode e adianta ao acontecido. África é imprevisível na soma de angústias, incêndios com sinais de pavor, traficâncias com segredos de podridão. Deus não se vai fiar em qualquer um, por muito boas que sejam a recomendações. Esta temeridade advém de coincidências da África, de guerras subterrâneas do poder, do branco e do preto, das coisas que dão zebra.

São coisas dos últimos e antigos tempos e, embora seja cruel deixar os kotas velhos sem resposta, as pessoas, genericamente, não escolhem as sombras que têm e, também o amanhã que não pertence a ninguém! Isto acontece no “This is África”! Lugar, aonde tudo é possível.  Na voz do bom senso, terei de esperar o amanhã, sem mais nada ter que fazer e, em paz, divorciar-me de mim, dando a chave do cofre ao mestre da charrua da vida. E, porque foi que vim aqui, se não era necessário afastarmo-nos tanto, a um lugar tendo por testemunho absoluto o céu que nos cobre, para onde quer que se vá.

xiricuata2.jpg Como podemos nós acrescentar à ciência o entendimento de simplicidades tão abrangentes; uma mão amiga! As pedras surdas e mudas que não podem testemunhar porque elas têm seu próprio destino, transformar-se em pó, e nós, em coisa nenhuma. Para provar que o que tem de acontecer acontecerá, haverá sempre um milagre a alterar o curso do destino, pequeno grande! Desta feita tem o nome de “Kikas Xirikwata”, no feminino, que move vontades e ternuras a alterar este simples destino, seu toque milagreiro de bem-haja, pequenas grandes coisas que fazem a diferença!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:13
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Domingo, 19 de Setembro de 2021
CAZUMBI . LXXI
NAS FRINCHA DO TEMPO BILHETE DO ASTROLOGO ALADJE 
- Sonhajando a felicidade com Ongweva (saudade) - Crónica 3195 – 19.09.2021

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Por   soba k.jpg T´Chingange no AlGharb do M´Puto

O papel branco formatado num pequeno quadrado, cheio de letras e arabescos nos quatro cantos, surgiu de mistério seguro pela escova no para brisas do carro. Coisas de espiritualista avulso e vidente. No canto do topo tinha uma crescente lua no lado direito com estrela a acompanhar; da direita, a lua era decrescente e também tinha uma estrela ao lado. Guardei e li, uma literatura como que saindo de um afamado cientista, espiritualista e também curandeiro.

kimbanda1.jpg Para imprimir grandiosidade diz o “fulano” ser descendente de uma antiga e rica família com poderes. Diz ser um mestre conceituado na Magia Negra e Branca, originário dos impérios do mal, do Senegal, da Gâmbia e Guine-Conacri e Angola. Um grande signatário coordenador dos impérios daquele tal mal, mesmo das lonjuras de muitos anos…

Conhecedor de casos desesperados, requerendo ajuda e conselhos em qualquer problema, grande ou de difícil solução. Diz que tudo é feito em rapidez e sabedoria nos assuntos de amores, insucessos, depressão, saúde, negócios, impotência sexual, mau-olhado, invejas trancadas e atravessadas e, todo o tipo de doenças…

kimbanda3.jpg Este quadrado exíguo para tantas e, relevantes tarefas de pirilampo, ainda arranja e mantêm emprego, aproximação ou afastamento de pessoas amadas. Ué! Com enfado muito carregado de curiosidade, de texto longo, leio ainda que também lê a sorte pelo bom espirito com seu forte talismã; faz trabalhos à distância afirmando ser conhecido por toda a europa e áfrica.

Seu horário é de entre as 8 horas e 30 minutos e as 20 Horas. Nos cantos inferiores, esquerdo e direito, tem duas lamparinas de Alibabá; assim termina seu “patuá” indicando seus dois telefones portáteis e um fixo. Cumcamano, fiquei assim estupefeito com tantas alvissaras penduradas em seu carisma de Kimbanda…

saramargo01.jpg Desta feita verifico ser este “Aladje” muito superior ao nosso Primeiro-Ministro de nome António Costa. Deveria ser assessor deste “nosso” compatriota para acudir às mazelas do M´Puto pois que sua “lábia” é bem oleada nas muitas difíceis engrenagens do optimismo… Suas entidades vibram nas matas, cemitérios e encruzilhadas, com o "Povo da Rua" abrangendo os mensageiros ou guardiões (é dos livros…)

Estou a ver-me tirando uma senha a fim de ficar depenado nos trinques, talqualmente fazem os muitos políticos de “nosso” rectângulo. Mas, ele, há coisas… afinando as pestanas vê-se que é para além de um bom candidato a politico, um bom homem de ética apurada, enfim, um bom republicano, socialista…

sacag11.jpg Perante esta mokanda, acho que o espírito da gente é cavalo que relincha e até escolhe estrada. Que quando numa de para tristeza, e morte, vai não vendo o que é bonito e bom; seja!? Contando assim este episódio de quase resiliência, coloco até minha sobrada amizade, assim mesmo, um pouco para ele singrar, pois surge do nada em criatura de simples coração que em verdade, me fez desacreditar que o inferno é mesmo possível! Ainda estou sonhajando…

Nota: Sonhajando: - Viajar com sonho…
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:51
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXIV

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXI

ACORDO DE BICESSE - 30 DE MAIO DE 1991

–”O CESSAR-FOGO” - Crónica 3192 – 13.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – A independência era para isto!? - Nós e os mwangolés…

obra arte 1.jpg

Por   soba02.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Após 15 anos de permanência em Angola, o último soldado cubano retorna à ilha no mês de Maio de 1991. Teremos aqui de fazer um curto desvio para descrever seu regresso e, de forma sucinta dar detalhes do que então se passou: Na madrugada de 14 de julho de 1989, o general Arnaldo Tomás Ochoa Sánchez o herói chefe das forças expedicionárias em Angola, a terceira figura militar mais poderosa da ilha de Cuba, depois do Comandante em Chefe Fidel Castro e do General Raúl Castro é fuzilado pelo crime de traição. O que se esperava ser uma verificação de antecedentes de rotina antes do anúncio, o governo acusou Ochoa de corrupção, na venda de diamantes e marfim de Angola e a apropriação indevida de armas na Nicarágua.

À medida que a investigação prosseguia, foram encontradas ligações com outros militares e funcionários do Ministério do Interior cubano que estavam envolvidos em crimes ainda mais graves: receber suborno de traficantes de drogas da América do Sul em troca de deixá-los usar as águas territoriais cubanas para colecta de drogas. O general Raúl Castro, que era muito próximo de Ochoa pediu várias vezes a Ochoa para confessar, revelar tudo, para que eles pudessem seguir em frente. Quando Ochoa se recusou a cooperar, em 12 de Junho, o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias anunciou sua prisão e investigação por graves actos de corrupção, uso desonesto de recursos económicos e cumplicidade no tráfico de drogas.

Ochoa2.jpg Ochoa foi colocado atrás das grades por um mês na base militar de Reloj Club Boinas Rojas. Durante este mesmo período, Patricio e Tony de la Guardia e outros foram presos e acusados, ​​também. Seu julgamento pelo Tribunal de Honra Militar, que forneceu ampla evidência dos crimes cometidos, incluindo datas, locais, quantias em dinheiro e drogas envolvidas, junto com os crimes menores de contrabando de diamantes e marfim para venda, foi exibido na televisão caribenha. O Tribunal Militar considerou-o culpado de todas as acusações, incluindo o crime capital de traição. Os promotores apresentaram evidências de que pelo menos um piloto envolvido na transferência de drogas foi contratado pela CIA e, argumentou que se o governo dos Estados Unidos em vez do governo cubano tivesse descoberto e revelado o envolvimento de militares cubanos de alto escalão no narcotráfico, isso teria fornecido uma desculpa para invadirem Cuba.

Menos de um ano depois, os EUA invadiram o Panamá usando o envolvimento de Noriega no tráfico de drogas como justificativa. Alternativamente, eles presumiram, se Cuba tivesse ido na frente e nomeado o General Ochoa como Chefe do Exército Ocidental, os EUA estariam em uma boa posição para chantagear e controlar uma das pessoas mais responsáveis ​​pela segurança do país. Quatro dos réus, incluindo Ochoa e Tony de la Guardia, foram condenados à morte pelo crime de traição. O regime vigente alegou que não apenas traíram o alto nível de confiança do governo e do povo cubano, declarou a Corte, mas colocaram todo o país em perigo por suas acções. Creio ter sido esta razão (entre outras…) de levar á morte o considerado herói Ochoa para salvar Cuba de um assalto humilhante pela forças dos Estados Unidos da América.

ochoa3.jpg O Conselho de Estado confirmou por unanimidade as condenações e a pena de morte. As acusações, condenações e sentenças de morte foram extremamente desagradáveis ​​para grande parte da população cubana, especialmente no caso de Arnaldo Ochoa, que foi considerado pela maioria das pessoas em Cuba um dos mais respeitados generais das Forças Armadas cubanas. Na madrugada de 14 de julho de 1989, Ochoa foi executado por um pelotão de fuzilamento na base militar "Tropas Especiales" em Baracoa, no oeste de Havana. Um relato amplamente reconhecido, conta como ele pediu para não ser vendado e para dar ele mesmo o comando ao pelotão de fuzilamento. Ambos os desejos foram atendidos.

Voltamos assim aos anos de oiro da diplomacia portuguesa comemorando em Março de 1990 a independência da Namíbia. Durão Barroso tem o primeiro encontro a sós com o presidente Dos Santos. Começa a desenhar-se o papel mediado de Portugal (M´Puto) na placa giratória que conduziu a Bicesse. O Prof. Cavaco Silva vai a S. Tomé encontrar-se com Eduardo Dos Santos e desloca-se a Paris para dialogar com Jonas Savimbi. Durão Barroso inicia viagens a Luanda e Washington; dois elementos do seu gabinete, António Monteiro e José Queirós de Ataíde, desdobram-se em contactos e esforços.

bicesse1.jpg Em 24 e 25 de Abril de 1990, dá-se o primeiro encontro das partes sob mediação portuguesa em Évora. De 16 a 18 de Junho de 1990 dá-se a segunda ronda negocial, no Forte de S. Julião da Barra, Oeiras. Discute-se a formação do futuro exército único de Angola e fiscalização do cessar-fogo. Durão Barroso afirma na altura: “ Os méritos ou desaires das negociações cabem exclusivamente aos angolanos”. A 23 de Julho de 1990, Jeffrey Davidow, subsecretário do gabinete de Cohen, encontra-se com Dos Santos. Logo a seguir, o governo angolano desencadeia uma ofensiva diplomática encabeçada por Venâncio de Moura e, pela primeira vez, em mais de quinze anos, fala da UNITA empregando a expressão “nossos irmãos”, em vez de “fantoches”.

nujoma0.jpg A terceira ronda negocial verifica-se entre 27 e 28 de Agosto de 1990, no Instituto de Altos Estudos Militares em Pedrouços. A 8 de Setembro chega a Lisboa o secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos, Herman Cohen confirmando-se assim a presença norte-americana nas conversações. De 24 a 27 de Setembro dá-se início à quarta ronda negocial na Base Aérea de Sintra. Pela primeira vez, com a presença dos observadores americano e soviético. A 22 de Outubro, Cohen volta a Lisboa para participar na discussão de um documento dirigido às partes angolanas, no qual se busca obter o consenso sobre pontos essenciais dos acordos de paz.

Ochoa + Otelo3.jpg No dia seguinte, Durão Barroso recebe uma delegação sul-africana chefiada por Rusty Evans, chefe do departamento de Assuntos Africanos do Ministério dos Negócios Estrangeiros para “análise de assuntos da África Austral”, tal como foi justificado. A quinta ronda negocial tem lugar na Escola de Hotelaria de Bicesse, No dia 21 deste mês, Durão Barroso afirma: “ Deparou-se com um ciclo vicioso. Não se avança nas questões politicam porque é necessário garantias militares e, não se avança no cessar-fogo, porque não há garantias políticas”. Em Dezembro, em Washington, há um encontro entre Chevardnaze e James Backer. A participação soviética está garantida.

luderitz14.jpg Em Janeiro de 1991, em conferência de imprensa em Washington, Cohen afirma que “um cessar-fogo para Angola, será possível dentro de dois meses, as eleições realizar-se-ão dentro de dois anos”. A UNITA contesta e propõe eleições no prazo de seis meses, após o cessar-fogo. O MPLA, avança três anos. Apraza-se ano e meio, mais ou menos, para agradar a ambos. A seis de Fevereiro de 1991, data prevista para a sexta ronda negocial, acaba por não se realizar. As discussões posteriores assentam em encontros exploratórios e, num documento elaborado numa reunião tripartida da mediação portuguesa com os observadores americano e soviético. Finalmente a 30 de Maio de 1991 dá-se a assinatura dos acordos de Bicesse. Em Angola, continuam os combates, com a UNITA tentando ocupar as cidades de Luena e Waku-Kungo, antiga Cela. Luena esteve sujeita a 45 dias de cerco e bombardeamentos diários.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:46
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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