Sexta-feira, 27 de Março de 2020
KWANGIADES . XXXII

MOKANDA DO ZECA  - As falas do baú de Zeca – 27.03.2020

FALAS BONITAS AI.U.É…. Crónica 3008

Por

zeca1.jpg José Santos - O Senhor do Koilo - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco da Maianga. Tornou-se ali professor katedrático e agora lecciona no M´Puto quando não fica com o catolotolo… Kwangiades: - são as musas, kiandas ou kalungas do Kwanza

kimbo 0.jpg As escolhas de T´Chingange ... No Nordeste brasileiro - (TONITO era seu nome de candengue da Luua)

Só mesmo nós no catravês do ximbico da Luua…

lua1.jpeg Tu mereces TOTEM..., teres todos na tua volta...! Pessoa Igual sabido neste minha vida de Lellu de bué de salalé..., num conheço pessoa de igualmente igual..., dos teu predicados, que cheira a katinga de África, que a deixa ficar, diz é Amuleto.., de T'Chingange! Tu és espécie de chão de poeira em extinção pelo avanço do alcatrão do Mundele de expropriação de exploração..., dos mano dos licenciado.

Alembamento kiavuluvulu cumbu!!! Tu és pessoa do fantástico..., que N' Zambi na tua koka bem Sabe o que as tuas fala, fala mesmo, que são as fala de ÁFRICA, que bué acredito que também te protege, que quando tem O Cambotermo te quer fazer mal, Ele bota Grito de protecção..., num precisa não, desse tocos dos musculus de elevação nos ramos do Imbondeiro...! Sim, te protege, desde esses tempo dos Pés Descalço, que avilo Kandengue coleccionava na sombra da Mulemba, santinhos e beijava crucifico de verdade...!!! Uaué!

lua7.jpg Tambula conta! Ele ficava do mais O Mufulame yê!!! Amam'ééé! O que tu divulgas nas tua malamba no teu jeito único de Rio Grande de nado de teu MUXIMA e igual ao meu..., que bué mazé é abraço.., .e, é laço de capim do nosso kuuaba Rio Seco N´denge Yetu, do território sagrado do Poço da Mayanga do Rey..., e de Vata de beija mão.., do kapiango do N`zimbu... úi.

Para comprar lancha de bordão para ir nas Kilumba..., do afamado bairro da kazukuta do Rio Seco..., da Praia do Bispo, Samba, Mussulu, Xicala, Ilha da Cazanga..., também dos cheiro dos mamilo da kianda dos baixinho de celha morninha (Baía)..., de bué pirão, torresmo de Jacaré do Panguila, também dos tuqueia mais do t´chissipa..., de Mopane dos Herero, de estufado do peixinho dos mais saboroso de África, os Cacussu..., uau!

arau162.jpg Do Mu Ukulu de lagoa de manos que de único matumbo jeito, os acariciava..,. tratava os mona espelho..., para não os perder, antes nos deixar no bandozinho crescer em liberdade de água do mais saudável, a água do Bengo de então..., nos dizer dos nome cientifico dos Mundele biológico do kalunga..., o tratar no saudável.., pópilas mano!

Num ter nunca o extinção pelo tuji do aspirador..., de não ser levado para as celha de cimento dos moderno criação atoa de jimbolo com os fermento, os glúten, os sacarose, pastilha nos bué rápido crescer engordar barrinha de escamas fraquinhas, barbatanas-guiador, e barbatanas leme..., Ai.iu.é, mesmo…

luua10.jpg Ser feliz fazer os seus filhos na sua kubata de folhas de chá Príncipe do fundão que vai buscar no parar a respiração e trazer na kapanga da barbatana peitoral... PARA TI, QUE MUITO TE ADMIRO E QUE MAIS VIDA EM DIANTE O N´ZAMBI NO SEU OLHADO DO KOIILO TÃO BEM TE PROTEGE!  ZECA2020030123H50 NA MINHA KUBATA

GLOSSÁRIO:

Luua - Luanda (diminutivo em gíria) Mocanda - carta;  Mu Ukulu - Do antigamente; Atu/mutu - pessoas/a; Axiluanda - antigos pescadores de Loanda; Berridavam - fugiam; Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kapiango – roubo; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol (nascente); N´dandu – parente; N´dongu - canoa; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Trumunu - jogo de bola de trapos; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama - maravilhoso Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores… Totem - monumento; Lellu – de cigano; katinga- suor, transpiração; Mundele, T´Chindele – branco; tuji – merda, excremento; Alembamento – casamento; kiavuluvulu – muito, por demais; ávilo – amigo;  Kandengue – jovem, rapaz, pivete; Uaué!- Admiração; Tambula – atenção, ficar atento; Mufulame yê!!! Amam'ééé! – coisas do catolotolo; kuuaba – adorável; capiango - roubo; N`zimbu – Buzio, dinheiro; Vata – chefe, grande m´fumo; Kilunda – lugar; Kazucuta: Trambiqueiro, aldrabão, mentiroso, faz manigância; kianda – Sereia; jimbolo – bolo com farinha de mandioca; Kubata – casa de taipa; Kapanga –protecção; Koilo - Céu



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:33
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Quinta-feira, 19 de Março de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLII

A mente humana é demasiado periclitante… Crónica nº 3006

- Não vale a pena morrer de véspera… – 18.03.2020

Por

tonito16.jpg T´Chingange - (Otchingandji) No Nordeste brasileiro

fuga1.jpg Recordando-me quarenta e cinco anos atrás com uma pequena mala na mão com os meus documentos pessoais, alguns escudos angolanos, dinheiro de tugi mais a guia passada pela comissão organizadora de repatriação, uns quantos calções de zuarte, camisas e a família dita nuclear: Mãe, pai e dois filhos na flor da idade. Eramos quatro! Tudo o mais ficou lá nos caixotes que nunca chegaram. Deram-me 5.000$00 de borla, sem quererem receber o dinheiro macaco, angolares que para nada serviram; nem para limpar o fiofó!

Nunca esquecerei os primeiros dias após a chegada ao M´Puto, ano de 1975. Nem as noites, nem os dias seguintes, porque ainda hoje sinto a dormência pela forma fria como fomos recebidos. Tínhamo-nos só a nós, sem saber como seguir em frente - só havia incertezas. Os governantes omitiam-nos e até a própria família do M´Puto nos tratava com indiferença; preferiam andar ao peito com uma tal de Catarina Eufémia, coisa pouca mas, que tocou fundo!

fuga10.jpg Sem aquele calor próprio, inerente sentia-me displicente - ficou-me no corpo e na mente; gente do nosso sangue. Nessa altura não havia terapias de acompanhamento com psicólogos. Os sociólogos comentavam de longe com medo de se tropeçarem nas palavras… Uma Tristeza! E, muitos se foram, feridos, sangrados, percebendo que a estrada não é, nunca foi uma linha recta serena e aberta como pensávamos. Gosto muito das pessoas com quem privo, dos amigos, suponho que tenho muitos, mas isso sou eu a supor.

Neste momento eles, os amigos, encontram-se nas quatro partidas do mundo e detêm na ponta do dedo uma luzinha, quiçá feitos num ET que se assomam à vida e ao coração de cada um na forma digital. Já falei um coxito meus caros, gente do face que nem nunca senti seu bafo a não ser nossas semelhanças de vidas. Senti e sinto! Não excluo ninguém, mas não tenho já espaço e memória, a partir deste meu ximbeco do Nordeste brasileiro, para citar a todos. Não quero nunca é que se desentusiasmem da vida, desconsigam de analisar, sorrindo pela esperança, a sagrada esperança que é a vida.

Fiz batota, botei pontos e baralhei-me na sagrada esperança! É difícil entender esta gente inteligente e num mesmo dum ái, nem sei se tudo é sagrado e se há esperança. A Bolsa desaba... O Dólar sobe... Retalhista esperto, ganha...Chinocas mente rindo. Minoritário bobinho perde... Coronavírus deita e rola na carona (boleia…) ... A cada dia infecta e mata mais gente. Quem não está em pânico, no mínimo, anda preocupado.

negro3.jpg A economia mundial foi quem primeiro entrou em quarentena. Desconfio que fizeram batota - alguém fez!... Depois nós, quarentamo-nos… Está, estamos contagiados pela incerteza. O Presidente Donald Trump já admitiu que os EUA podem entrar em recessão. The cow is going to the swamp? Parece que sim... E agora? O preocupante para nós dos PALOPS é que o Brasil tal como Portugal entra em um perigoso e inconveniente ritmo de parada, paragem mesmo!

Cancelaram meu vôo da TAP, amanhã é outro dia… Valha-me meu tio Nosso Senhor que tinha olho azul e também era carpinteiro chamado de José Loureiro. Este meu tio fazia pistolas tipo canhângulo e em madeira para brincar com os sobrinhos… Será que os idiotas da elite política e económica não perceberam que o modelo “capimunista” tupiniquim ou tipo Zé do Telhado se esgotou, com ou sem crise de coronavírus?

angola6.jpeg Se as imprescindíveis reformas na estrutura estatal não forem feitas o mais depressa possível, vamos afundar, ainda mais, em um processo autofágico, autodestrutivo. Lá e cá tal como cá e lá, cumcamano! A situação é insustentável. A guerra de todos contra todos é apenas o começo do terror psicossocial. Aqui, Brasil, os deputados e senadores já avisaram que não vão ao plenário diante da ameaça do Coronavírus.

Eles têm o apoio integral – e conveniente de Rodrigo Maia e David Alcolumbre. Merda para isto, andam a brincar com o povo, Noé? Nada mais “conveniente” em um momento de guerra entre Executivo e Legislativo (ou vice-versa). Tudo adequado para parlamentares muito bem remunerados que não queriam trabalhar muito, no qual a prioridade é ficar nas bases, e não em Brasília. Creio que no M´Puto a Assembleia Nacional de Lisboa vai andar balançando-se nos dias com o Presidente baralhado por sua máquina de selfies que já não poder laborar.

guerra1.jpg O mais assustador e intrigante é que os principais “líderes” mundiais não conseguem, até agora, apontar soluções sincronizadas para tantos problemas derivados do chinavírus, mas que, na verdade, são falhas económicas que estavam aí na prateleira, só aguardando alguma tragédia imprevisível para eclodir. Pois desaconteceu acontecendo! Até agora, os governantes e a midia foram excelentes em produzir pânico, histeria e insegurança. Meto num só saco o aqui e o ali – Brasile Portugal mas coma a balança a descair, e muito para o dito primeiro mundo- O M´Puto.

Como se diz aqui, estou de saco cheio do noticiário ao qual sou obrigado a assistir por dever clausto mas, concordo que instruam, que informem, que forneçam água a quem não tem! E, são tantos mas tantos que nem dá para perder a conta…Esqueçam! Escrever sobre esta crise é mais de álcool-gel. As paralisações são péssimas para todos. Até agora, fica claro que o falatório, as “fake news” e o clima de pessimismo com histeria nada resolvem.

guerra13.jpg Vamos ver até que ponto as pessoas aguentarão o esquema de “confinamento” em casa, sem convivência com grupos de amigos. Não pode dar beijo, não pode abraçar, não pode dar aperto de mão... Isto contraria nossas culturas milenares... Ainda não sabemos como, mas é necessário levantar a cabeça e seguir em frente, com ou sem mascara. Não vale a pena morrer de véspera. Optimismo realista, sem babaquice, nunca foi tão necessário... O futuro da medicina está cada vez mais próximo do presente pois no Panamá, já foi criada uma membrana que é capaz de desenvolver tecidos de pele, ossos e cartilagem… Cristo, por favor vem cá abaixo ver isto!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:01
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Terça-feira, 17 de Março de 2020
MUJIMBO . CXIV

MUJIMBO . CXIV

Meditação do T'Ching... Esta é a crónica nº 3005

T´CHIPALABOOK do “caronavirus” e suas implicações…. Nem Só de Pão vive a mulher! - Talaqualmente o homem... 17.03.2020

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

araujo 42.jpg Vivemos hoje sob o permanente assédio da propaganda, algo sem precedentes na história humana. Sua artilharia troveja pesadamente, com força persuasiva. Para além disso dizem-nos o que comprar, usar, comer ou vestir, além de nos dizer o que é prioritário. Uns chatos!

A indústria da propaganda, ponta de lança do consumismo, criou uma lista enorme de necessidades falsas, que as pessoas buscam satisfazer. Exercite dizer NÃO àquilo que não solicitou e à força, lhe querem impingir. Há empresas especialistas neste tipo de marketing - é assim que lhe chamam! Deveria ser mentiring, Noé!?

Agora, teremos de nos cuidar, um chega para lá e pensar em nossas debilidades não respirando ares viciados e mentes desavindas, porque para além destes "ácaros" há os invisíveis "miruins". Miruins, feitos perdigotos que voam sem asas que nos querem roer a vida numa tossidela de um qualquer ou através dum corrimão... Cumprimente-se com o pé vestido de sapato. Se tiver a minha idade, 75 anos, o melhor é ficar em casa e pedir tudo pelo "microondas Android"...

fumo de caricoco.jpg Nada de paranóias mas, não facilite, converse pelo microondas chamado de celular ou tablet, o seu sansung e, ou seu Vodafone, mais essa caixa magica do Android... Por ironia, à medida que buscamos satisfazer as necessidades artificiais, criadas pela propaganda, mais vazios nos tornamos das necessidades reais. Em verdade o perigo da fome materialista é uma realidade...

Pois então, se “não só de pão vive o homem" porquê e para o quê lutará tendo hoje esta coisa ruim chamada de pandemia que sem vacina nos atormenta tanto? Pense! O que é que realmente é importante? De acordo com Cristo, questões espirituais devem ter precedência sobre as de carácter material. Em análise, as coisas materiais, embora várias delas necessárias, não podem satisfazer a alma humana.

A vida é muito mais do que as meras comodidades oferecidas no mercado. As pessoas que amamos e que nos amam são mais importantes do que roupas de grife, carros sofisticados ou móveis novos. Pense agora no sabão macaco! Lavar as mãos e a cara é muito importante, quando sair à rua ao chegar a casa e logo à entrada de casa colocar a sola dos sapatos ou chinelos numa mistura parte em cloro, e 5 partes de água … Use dinheiro em uma bolsa só para isto e ao usar logologo, a seguir, passar gel nas mãos e bolsa… Usar de preferência o cartão

araujo181.jpg Realmente não vale a pena ter aquelas outras coisas se, para obtê-las, sacrificamos o convívio familiar ou aquilo que é realmente essencial. Dê um compasso de espera e espere... Karl Marx, em sua crítica ao cristianismo, afirmou que “a religião é o ópio dos povos”. Estava errado! Necessita ter fé porque para Jesus, a verdade é outra mas, você tem de fazer a sua parte. O materialismo é o grande narcótico que anestesia as pessoas contra a realidade de nossa verdadeira condição, transitoriedade e mortalidade.

O mau uso da mente impede-nos de ver as coisas que realmente têm importância final. Em última análise, em nossa ânsia pelas coisas, estamos apenas correndo atrás do vento. De todo o modo lembre-se: no Universo, nos somos só uma imagem... O materialismo condiciona as pessoas a ver a vida presas dentro dos limitados horizontes da pequena concha em que se vivem, incapazes de perceber qualquer coisa acima desse nível.

araujo187.jpg Por desejarem sempre mais, tal insatisfação faz delas, pobres. Tudo o que o materialismo consegue é alimentar a espiral do desejo de aquisição, que é insaciável. Agostinho estava correto ao afirmar o seguinte: “Quem tem Deus tem tudo; quem não tem Deus não tem nada". Vale a pena acreditar neste sossego... Embora Este Deus na natureza, no seu todo não seja tudo! Você tem de colaborar. Reflicta nisto em sua luta pela vida sem se abandonar e, sem medos, faça a sua parte - cuidem-se porque o que tiver de acontecer, vai suceder... Que a Boa mão do TEU Senhor esteja contigo, bom dia! Boa Semana...

O Soba T'Chingange...



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:53
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BOOKTIQUE DO LIVRO . XXXIII

Agora que estou de range rede, sabe!

De caronavirus com Pitu, ciriguela na goela 17.03.2020

15.III – GINGA – Rainha de Angola de Manuel Ricardo Miranda 2ª de várias partes

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

GALO0.jpgÚltimos 3 Livros em cima da mesa da cabeceira, o criado mudo.

12 - O PADRE CÍCERO - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

13 –HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho

14.II – GRANDE SERTÃO: VEREDAS – de João Guimarães Rosa

booktique14.jpg Em tempo de antigas cinzas, N´Zinga crescia. Com dez anos já subia de fraga em fraga em terras que ficaram místicas por sua causa – Terras de Pungo Andongo. Pois naquele ano de 1583 ela corria por carreiros estreitos entre as espaldas de penedias de granito com depressões de argila. Argila que no decorrer do tempo virava pedra. Assim saltando de pedra em pedra legou-nos suas marcas, pé de gente que a lenda da ficção tomou como legado de N´Gola. Um acervo que por lá, ainda se encontra como se fora um carimbo mwangolé das terras, reinos de N´Dongo do N´Kongo da Matamba.

Aquelas pegadas até que poderiam ser as minhas se, por ali tivesse andado descalço naquele tempo. Meus sentidos apurados nas depressões daqueles lajedos, acreditam que assim foi! Ela, N´Zinga cabriolando juventude, envolveu-me na ideia de que num certo talvez de “já estive aqui numa outra gestação”. E, assim peneirado na soma dos tempos, me fui tornando espírito pintado na exclusividade penetrada nos sonhos, das interrogações esvoaçantes.

araujo158.jpg Naquele um dia de três luas de muitas estrelas, alguns guardas reais filhos de Macotas Kilombolas, aprendiam de condição e obrigação aos desejos da rainha de muitos encantos de uma inesperada trepadeira mundondo. Trepadeira verde que num rápido envolvimento de crescimento, fazia e fez de si natureza, umas muralhas, uma fortaleza que enrijou na secura de trezentos e setenta e quatro anos. Bem na base, lá estará também uma outra marca de pé chispada nessa lama ressequida, um pé de t´chingange, a minha, a provar que num finalmente, não era tal fortaleza, assim tão inexpugnável.

Assim rodeando rachas com n´bondos a espreitar estes que foram trezentos e setenta e quatro anos, após ter ido a Massangano, senti tudo o que podia imaginar assim sentado, sentindo o mataco quente do lajedo aquecido pela kúkia num poispois de que assim tudo o teria sido. Elas, as pedras, introduziam-me a curiosidade de observar aquelas pequenas aves roliças ligeiramente acastanhadas que entre elas saltitavam na amostragem dos caminhos. Agora sim que vejo a N´Zinga M´Bandi N´Gola apontando lá do alto esse pássaro feito galinha a que chamava de “sanji” e que cantava ”estou fraca, estou fraca”… A galinha de Angola a que chamámos agora, de capota.

booktique25.jpg Entretanto N´Gola Kiluanji acomodara-se em Cabassa, bem no interior de seu reino. Resistir ao avanço dos portugueses era tudo quanto poderia fazer, utilizando os meios disponíveis ao alcance de seus monangambas para emboscar os invasores, os contratadores de escravos. Aos ambaquistas, pretos calçados, auxiliares que ajudavam os tugas, quando apanhados eram mortos de imediato sem piedade, coisa de nome que ainda nem sabiam o que e como era – piedade!? Isso! Aquela primeira guerra de kwata-kwata, era tarefa difícil porque os portugueses estavam melhor organizados e também tinham canhãngulos potentes.

O Rei Kiluanji aguardava uma embaixada do povo Libolo, que vinha das terras a sul do rio Kwanza; era um povo de origem bantu com dialecto próprio, amigos prontos a lutar do lado desta tribo de Cabassa. Estes, ao chegarem ao povoado, largaram num canto suas imbambas destacando-se da caravana dois musculosos jovens que com submissão protocolar se dirigiram ao Rei. Um deles, o Kanjila com voz firme falou: Estamos perante vós felizes por vos ajudar. Somos filhos de Ganzula, senhor do Libolo e, um grande amigo vosso.

cazumbi02.jpg Os Libolos, um grupo de trinta, eram altos, musculados, cabelos encarapinhados e feições de compostura negróide. Esse jovem na forma expedita de embaixador foi dizendo: Os tempos que correm não são os mais favoráveis para os nossos povos mas, os vossos inimigos, serão também os nossos; não nos deixaremos oprimir. Estamos aqui para não só fortalecer nossa amizade como dar lutas sem tréguas ao inimigo comum, os Tugas! Dito isto lançou um grito de guerra “kwata-kwata” que todos repetiram de forma enérgica.

 

Rebeubeu com pardais ao ninho, esta descrição é uma forma erudita de supor duma forma optimizada o que teria sido naquele então mas, o mais certo foi todos ficarem aos pulos que nem uns tontons zulus, bebendo marufo e cat´chipemba até perderem o tino. A disciplina não tinha contornos de gente formada na luta e, o mais certo era os portuguese aprisionarem uma grande quantidade de homens e mulheres, arrebatá-los como peças escravas e entalá-los numa cave bafienta como porcos, até chegarem à costa do Brasil.

busq2.jpg Ficarem uns quantos dias na engorda em uma ilha litorânea e, depois serem exibidos para venda nos pelourinhos da Baia de Salvador ou em Olinda de Pernambuco. Nestes actos N´Zinga recolhia ensinamentos para dar comportamento de maior dignidade a seu povo num futuro próximo. Sentada num banco forrado com uma pele solta de leopardo não tirava os olhos daquele candengue Libolo que falou com seu pai. N´Zinga que já era moça espigada e, como todas as mulheres de instinto, procurava ler no fundo dos olhos daquele macho, magnetizada e até confusa. Florescia nela uma paixão ardente…

Para os Libolos os portugueses, seus adversários, eram os mais temidos mas, para além destes havia os jagas do interior, principalmente os de Kassange que de vez em quando faziam surtidas nos seus territórios semeando a destruição. Com gritos de guerra de kwa-kuvale aprisionavam muita gente que depois vendiam como escravos ou segundo relatos, comiam os mortos em combate e os mais velhos. Enquanto as mulheres faziam lavra, estes matumbos antropofgos, só pensavam em matar o vizinho. Pouco a pouco N´Zinga foi verificando isto e em lições com o Kimbanda doutor Kalandula, ia recolhendo valores de servidão ao futuro.

(Continua… Ginga IV…)

O Soba T´Chingange     



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:48
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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXXII
Agora que estou de range rede, sabe! Pitu, ciriguela na goela - é ela, é ela…25.02.2020
15.II – GINGA – Rainha de Angola de Manuel Ricardo Miranda1ª de 2 Partes

soba15.jpg T´Chingange - No Carnaval do Nordeste brasileiro

Últimos 3 Livros em cima da mesa da cabeceira, o criado mudo.

12 - O PADRE CÍCERO - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...
13 –HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho
14.II – GRANDE SERTÃO: VEREDAS – de João Guimarães Rosa

n´zinga.jpg Pitu, ciriguela na muela - é ela, é ela! E, era em cantoria que o povo da CAPOTA DA KUKIA cantava repetidamente. Já tinha passado na avenida da Pajuçara o Galo e o Pinto da madrugada – agora era a Capota da Madrugada a recordar um lugar muito antigo recordando a festa da massemba, uma umbigada de um carnaval que o tempo fez mudar. Era um lugar ainda por conhecer chamado de Cabassa. Aonde? Angola pois então!

E, foi no ano de 1589, exactamente oito anos depois do nascimento da Rainha N´Zinga e seis depois do nascimento de sua irmã Cambu. E, foi nesse ano de 1581que Filipe II de Espanha foi reconhecido pelas Cortes de Tomar como o primeiro de Portugal. N´Gola Kiluanji é Rei dos M´Bundos no território de N´Dongo e Matamba. Pois é aqui que nasce N´Zinga M´Bandi N´Gola, filha desse Kiluanji.

PAPAL4.jpg Já esquecidos de tudo isto por via desta singularidade entrapada nas falas e distância temporal, todos pulam ou dão dois para a esquerda e dois para a direita arrebitando o mataco tal como é de lei a recordar os orixás na senda umbanda com urubanda do mundos perdidos e, para lá do iemanjá - kalungas dos tempos perdidos. Pitu, ciriguela na muela - é ela é ela! A bateria composta de mais que muitos tambores, repica sem freios num agora feito antes.

Há um ano atrás, 1588, a armada de Filipe, o espanhol, é derrotado com sua armada invencível e, com ela toda a Marinha Portuguesa numa perda total. Foram-se assim as kalungas deixando Portugal nas lonas nessa distância de já quase com 432 anos. Uma crise de Valhamo-nos Nossa Senhora da Ajuda! A multidão concentrava-se junto à onganda, cubata grande real a redor do grande embondeiro cobrindo parte do recinto, como se fosse um imenso chapéu.

kissan6.jpg Junto ao tronco, que teria um diâmetro de muitos metros, destacavam-se grosas raízes que mergulhavam no solo assemelhando-se a colunas de uma autêntica catedral. Tinha sido montada um estrado, sobre o qual se erguia um imponente cadeirão de madeira dourada, forrada com ricos panos de seda carmesim. De ambos os lados, estavam colocados na vertical dois enormes dentes de elefante. O chão estava atapetado com peles de leopardo. Era noite.

carn1.jpg Notavam-se já sinais de impaciência nos presentes, ansiosos pelo início da cerimónia para o qual tinham sido convidados. Naquele então isto era representado agora em um carro alegórico alto como aquele imbondeiro e, os negros eram retintamente pretos parecendo pintura. Em dado momento ouviram-se os sons peculiares de marimbas e tambores, e um pequeno cortejo rompeu pela multidão em direcção ao palanque.

À frente, vários guardas armados, alguns munidos de archotes fumegantes abriam caminho, logo seguidos de N´Gola Kiluanji, rei dos ambundos. Em passos lentos e ritmados o rei avançava rodeado pelos seus macotas curandeiros e quimbandas, dirigindo-se para o seu trono. Kiluanji estava coberto com um manto, inteiramente bordado com contas de vidros coloridos, brilhando à luz dos archotes em miríades de cintilantes prateados.

carn2.jpg Uma pele de naja enrolada à cintura e vários colares de dentes de leão adornavam-lhe o peito. Finalmente, uma bengala de ouro maciço conferia-lhe a dignidade da sua autoridade. Um pouco trás do rei e deitada numa liteira, uma criança era transportada por escravos num estado que faria supor adormecida. A seu lado, como que protegendo-a, destacava-se uma figura bizarra. Parecia ser muito velha e magra. As peles pendiam-lhe em pregas sobre os ossos, porém movia-se com agilidade, braços e pernas rijas e finas.

Vestia somente um reduzido saiote de pano e usava o cabelo em canudos empastados de barro colorido. Vários sacos com amuletos e pequenas cabaças a tiracolo completavam a indumentária. Chegados ao local, Kiluanji sentou-se no cadeirão, e a seus pés, rodeados pelos familiares mais próximos, depositaram a criança totalmente nua sobre uma manta. Kiluanji interrogava-se sobre os resultados do cerimonial.

carn3.jpg Já não era a primeira vez que a intervenção dos espíritos se fazia sentir sobre sua filha primogénita. Com várias mulheres e muitos filhos, Kiluanji nutria pela filha uma especial afecção. Apesar da sua pouca idade, oito ou nove anos, N´Zinga tinha já um porte altivo de princesa, pouco dada às tropelias dos garotos. Era ágil, decidida e destemida. 432 anos depois, revivíamos uma estória nunca contada. Hoje em dia, eu, T´Chingange, nem me queixo de nenhuma coisa para não tirar sombras dos buracos que relembro. E, dessa, mesmas sombras, o que tenho é só medo de cagufa! Já que minha vida não deixa benfeitorias vamos gozar o carnaval, dizia-me a mim mesmo…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:34
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Sábado, 22 de Fevereiro de 2020
MALAMBAS . CCXLIV

Os filósofos, necessitam tanto da morte como das religiões porque, filosofar é aprender a morrer entorpecido… - 20.02.2020

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

arau154.jpg Nesta data especial composta de quatro dois e quatro zeros, tinha de acontecer o inesperado e, sucedeu que meu celular telemóvel no exacto momento de sair para a praia, tiniu e retiniu murcho de som. Pela quarta vez, atendi: Alô! Do outro lado ouvi uns esquisitos guinchos metálicos como de quem corta o vento Suão com uma moto-serra já com os dentes cariados seguindo-se-lhe de uma voz cavernosamente distante, também ligeiramente metálica como chapa que vibra.

Daqui é o Fala Kalado! Fez-se um silêncio… Silêncio meu engolido em dois assombros encavalitados feitos ondas-curtas a estrebuchar atritos com soluços estriados em ondas moduladas. Não estava a contar, pópilas, pensei, é ele o matumbola do general. Oi, sim! Sim! Até quenfim, me dás alvissaras! Disse isto encafifado em soletrar quais os kitucos de mistério que terá usado para descobrir meu número de celular. 

FK2.jpg Resposta do outro lado da linha: - Nada é impossível para um morto-vivo meu kamba! Álem do mais, tenho meus afilhados que me vão dando novas até do que ainda está para acontecer. Aí é! Respondi na forma intercalada entre o respeito, o assombro e até do medo. Quem tem cu tem cagufa noé!? Trata-se dum General Emérito um permanente guerrilheiro que nem consta das fichas por o ser, tão clandestino o é.

Pois então, é pra te convidar a um encontro, não aqui em Garanhuns, por ora, mas em Petrolina, um lugar a montante da barragem do Sobradinho, no Rio São Francisco, o Velho Chico! Eu sei, disse. E, porquê aí? Porque assim tem de ser; só vais ter de ir até à cidade de Marechal para embarcares com meu amigo Kelerico o tecelão. Falou na data e de como seria, assim e assado. Tudo por minha conta, referiu. Que mais poderia fazer a uma quase ordem na forma enganosa de convite.

FK5.jpg Temos muito para falar mas, entretanto goza o carnaval mas, estava a faltar um mas… mas o quê? – Interroguei! Se fores curtir na rua, na avenida, bota em tua cabeça um chapéu colonial! Porquê isso? Rematei! Para meus quilambas te reconhecerem e, te resguardarem dum qualquer golpe de mão, de arma ou outro qualquer maleficio. Estes quilambas de FK eram em verdade capitães de guerra preta que normalmente actuavam como mercenários. Só podia ser!

FK6.jpg Eu, a pensar que estava por fora dessas manigâncias de guerra antiga, essa tal do tempo dos arcabuzes, das catanas e canhangulos do tipo pederneira. Tenho cá as minhas dúvidas de que FK não se dedica a cem por cento a extoquir seiva da Welwitschia Mirabilis e desses escaravelhos ou besouros pré-históricos que se regeneram em suas células moribundas. Deve também ter por lá, em Garanhuns, um bivaque kilombo com alguns desses antigos quilambas.

Digo isto porque aquele tal de negão, emissário de FK à macarronaria do Isac pescador, tinha essa pinta característica de quilamba ambaquista. Só posso imaginar porque nem o vi. Consegui descortinar por baús muito antigos que lá pelo ano de 1625 havia em um lugar de nome Ambaca estes já esquecidos quilambas mas isto virou pó do tempo acho eu; eram capitães que auxiliavam os portugueses na luta contra o gentio; isso! Gente da Matamba ao serviço da capitania de Ambaca.

FK7.jpg Filhos nobres de uma etnia nobre que combatiam com muita valentia recebendo por troca mais esmeradas atenções de não pagarem tributos, mais água ardente e vinho do M´Puto e, sendo-lhes destinados os postos de cipaio. Os ambaquistas eram então vistos positivamente pelo sistema colonial, pois serviam de intermediários com as populações situadas mais longe no interior do país.

No século XX, os ambaquistas propriamente ditos desapareceram, mas a palavra ficou neste então com uma carga mais como pejorativa; para os designar, até à altura da independência, os colonizados negros que tinham adoptado certos aspectos do modo de vida europeia. Os pretos ambaquences, para fugir ao serviço de carrego que era imposto a todos os camponeses do interior, alistavam-se como brancos nas companhias móveis do exército colonial.

FK3.jpg Assim foi, assim era, pois dizem os livros que “os pretos do interior em usando sapatos logo queriam ser considerados como brancos”. Vemos também que havia um número excessivo de meirinhos, alcaides e porteiros – isto é, de oficiais de justiça popular - os quais constituíam “um bando de carregadores que, imbuídos com as suas ideias de brancura”, se empenhavam e se atributavam como os soldados para serem assim nomeados. Claro que no correr do tempo tornavam-se sanguessugas das diligências diárias… Tanta coisa a rodar dum antigamente retido no esquecimento dos lugares de Zenza e de Kabassa. Agora só resta aguardar o encontro reservando-me ao direito de imaginar coisas, porque dali qualquer coisa é coisa!

O Soba T´Chingange        



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:55
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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2020
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXX

Estou de range rede…! O tempo da Kalunga, ruge…

Em Cabassa de Angola nasceu N´Zinga M´Bandi N´Gola que mais tarde ficou conhecida como Rainha Ginga09.02.2020

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Últimos 3 Livros em cima da mesa da cabeceira - criado mudo.

12 - O PADRE CÍCERO - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

13 –HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho

14 – GRANDE SERTÃO : VEREDAS – de João Guimarães Rosa editado pela Companhia das Letras

15 – GINGA – Rainha de Angola de Manuel Ricardo Miranda

booktique25.jpg Em Cabassa de Angola nasceu N´Zinga M´Bandi N´Gola que mais tarde ficou conhecida como Rainha Ginga. Foi de 15 para 16 de Janeiro do ano de 2009 que eu e minha cara-metade de nome Ibib, passamos a noite na Residência Camões, uma residencial modesta situada bem perto da Praça também de Camões e, tendo mesmo em frente a Embaixada do Brasil. Ficamos na Rua do Poço dos Negros, Bairro Alto, um lugar em que os escravos de tempos passados levavam em baldes a merda e o mijo dos Nobres de Lisboa.

As barricas de penicadas eram despejadas num poço ou directamente no Rio Tejo. Neste então havia no ar um cheiro constante de bosta com coisas nauseabundas à mistura como gatos e cães mortos e vísceras indiscriminadas. Arrepia até escrever isto mas assim era naquela época medieval da qual saíram pestes negras e de outras indefinidas “cores”. A toponímia local faz-nos lembrar também o mar, a kalunga distante com kiandas, gaivotas e pescadores mas, o sítio será sempre restos de má memória porque assim se caracterizou.

lisboa0.jpg Fala-se na existência de uma carta régia de D. Manuel I, datada de 13 de Novembro de 1515, escrita em Almeirim e dirigida à cidade de Lisboa, sobre a necessidade de ali se depositarem os corpos dos escravos mortos, sobretudo aquando de surtos epidérmicos que diga-se, deveriam ser muitos. Diz a carta que os escravos eram mal sepultados e muitos seriam mesmo lançados na lixeira Cruz da Pedra na actual, Rua Marechal Saldanha que está no Caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos, ou para a praia, onde ficavam à mercê da voracidade dos cães. Posso imaginar a nojeira que era nesse então.

Se falar de Paris daquele tempo talvez tenha uma visão ainda mais aterradora se rebuscarmos nas Tulherias esse então tão revolucionário aonde os cavalos relinchavam entre valas escorrendo negrura para o rio Sena; por este motivo os franceses apuraram cheiros tornando-se os melhores fabricantes de perfumes. Esses tempos medievais eram tão nojentos que o ar era empestado pelas fezes dos muitos cavalos que talvez aos milhares salpicavam o agora Arco do Triunfo ou os Campos Elísios.

lisboa1.jpg Foi no dia seis de Janeiro que obtive o visto de residência no Brasil e, com a assinatura dum tal senhor adjunto do Cônsul de nome M. Novaes que me pareceu muito cheio de nove horas. Nesse então já era proprietário há três anos de uma casa na Praia do Francês. Bom! Mas vamos então à descrição muito parcial do livro do dia e sem maka porque diz um provérbio do Catambor da Luua que em maka de brancos, só os burros se metem! E, assim chegamos aos engenhos de assucar num mês de Agosto, a altura certa da moagem da cana.

A moagem tinha início logo pós o despontar do dia e ia até o pôr-do-sol; durante os três meses de trabalho intenso tudo teria d funcionar como um relógio. Quando algo corria mal, haveria sempre um culpado a apontar! Munidos de foices, catanas ou facões, os homens cortavam a cana e as mulheres amarravam-nas em feixes de doze unidades. Cada escravo era obrigado a cortar diariamente trezentos e sessenta feixes, que as mulheres a seguir, teriam de amarrar.

lisboa4.jpg O sonho da liberdade não se desvanecera, contudo a fuga do engenho só era possível em direcção ao agreste e depois sertão. Kanjila, já por várias vezes vira o que acontecia aos escravos fujões; eles voltavam quase sempre ao engenho, normalmente ao fim de alguns dias, debilitados e até feridos pelas dentadas dos cães de fila que acompanhavam o guardas nas buscas. Vinham carregados de ferros!

eça6.jpg Por último, quando regressavam ao engenho, eram submetidos a castigos no tronco. Eram chicoteados e por vezes ou quase sempre era-lhes aplicado um ferro em brasa na cara gravando-lhes um “F” de fugitivo. Os que não regressavam eram possivelmente capturados pelos índios selvagens e, certamente comidos. Kanjila interrogava-se muitas vezes sobre qual seria a situação do seu reino do outro lado da kalunga.

E, sempre que chegavam novos escravos ao engenho, procurava sabe por eles, notícias da Matamba, do seu Kongo de N´Dongo mas nem sempre com resultados pois que ou eram de Minas, gente do Zaire, ou Muçulmanos e, muito raramente da sua etnia. Assim pensando e metidos num atoleiro apareceu o capataz, um encorpado mulato mazombo que por via deste empate e quebra de rendimento, logo o ameaçou levar ao pelourinho, o tal tronco das calamidades…

lisboa5.jpg Assim e afastando-se o capataz ainda deu para ver seu sorriso maldoso, batendo o chicote no cano alto de sua bota. Naquele engenho era prática em cada qual fazer sua comida, farinha de mandioca, feijão de corda numa mistura de charque trazido das terras do sul, Cisplatina; Pampas aonde havia muitos animais em estado de soltura. Hoje podemos apreciar esta carne na forma de sarapatel ou carne de sol mastigando por vezes gengibre em defesa dos muitos infestantes na forma de parasitas; este costume ficou e, recomenda-se quando se come o tal de sururu (mabangas da lagoa…).

ADENDA DO PROFESSOR  JÚLIO FERROLHO

julio2.jpgGostei muito desta crónica tropical-afro-lusa do nosso Soba mas a questão (do Poço dos Negros) é muito polémica. Interessei-me por esta matéria porque vivi a minha juventude de estudante naquele bairro de Santa Catarina, Bairro Alto, S. BENTO nas décadas de 1960-70. Percorri a pé milhares de vezes nos anos de solteiro e depois de carro a Rua do Poço dos Negros. Há quem afirme que o Poço dos Negros não deve o seu nome ao facto de se atirarem para dentro dele os ditos mortos, mas sim a uns frades. (Devo confessar que não tirei ainda a limpo a Carta Régia de D. Manuel que o António cita). O que é certo é que no séc.XVI, quando Lisboa era assolada por epidemias de peste, sabe-se que o rei D. Manuel mandou abrir valas comuns para recolher cadáveres pestíferos, quer pelo facto das igrejas estarem sobrelotadas, quer para evitar contágios. Sabe-se mesmo que uma dessas valas foi aberta não longe desta zona do atual Poço dos Negros, então área erma na periferia da cidade. Após o concílio de Trento, os dois ramos dos frades beneditinos (patrono mor S. Bento), ordens até então instaladas no mundo rural, começaram a construir conventos dentro das cidades. Os cistercienses, ditos os Brancos dada a cor das suas capas, abriram no convento do Desterro uma "sucursal" da casa-mãe de Alcobaça. Quanto aos cluniacenses, chamados os Negros, por ser dessa cor a sua larga capa, vieram de Tibães e Santo Tirso para a capital. Adquiriram uma enorme propriedade na encosta que hoje chamamos a Estrela, limitada em baixo pelo vale que rapidamente se chamou de São Bento. No princípio da encosta, construíram, a partir de finais do século XVI, um enorme mosteiro, dito de São Bento, que hoje é a Assembleia ds República, que já foi as Cortes e a Assembleia Nacional do estado novo. Como é sabido a zona ocidental de Lisboa foi sempre carenciada de água, pelo menos até D. João V construir o Aqueduto.

kunene.jpgPor isso qualquer nascente era uma bênção. Acontece que os padres Negros, como todos lhes chamavam, dispunham, no limite sul da propriedade, mesmo no vale verdejante, de um poço farto que rapidamente - talvez até para ganhar simpatias - puseram à disposição da vizinhança. Daí, agradecidos, os beneficiários usufruíam a água preciosa que os padres lhes ofereciam, chamando-lhe por isso o Poço dos Padres Negros, ou, para encurtar, o Poço dos Negros. Pela lógica das coisas e dos usos e costumes destas gentes parece-me pouco provável que se atirassem para dentro de um poço com água para beber e cozinhar cadáveres empestados. Acresce que os negros escravos de que se fala eram normalmente batizados pela igreja católica, como era costume e como condição prévia para serem negociados. Não se compreende que se atirassem para poços cadáveres de criaturas crentes de Deus sem os sepultar. Daí a minha convicção de que esses deveriam ser enterrados nas grandes valas comuns que o rei Manuel mandou construir.

J.F.

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O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:11
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Sábado, 8 de Fevereiro de 2020
PARACUCA . XXXIV

MULOLAS DE TEMPOS DORMIDOSNão é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar! KIRK DOUGLAS, MORREU08.02.2020

Por

soba0.jpeg T´ChingangeNo Nordeste brasileiro

john0.jpg Entre o entender e o poder do crer lá tive que pagar o condomínio com taxa extra pensando nesta atrasada escrita sobre a morte aos 103 anos do meu amigo Kirk Douglas. Foi no dia seis deste mês de Fevereiro que recebi a notícia directamente dos USA, assim sentado e, sentado fiquei tacitunando-me nas minhas antigas alegrias; alegrias alargadas nos folgados dias de crescimento mazombo da Luua, a capital de Angola.

Relembro o cine Colonial no tempo em que nós nas bancadas também eramos artistas, utentes e autores dumas muita odisseias de participação ao vivo e no escuro; beatas voando como foguetes de alegria por coisa alguma e nenhuma. Um assistente despertava o Kirk duma tocaia de surdina feita emboscada num: - Olha na tua trás, meu! E, num repentemente Douglas virava-se na tela grande e, uma flexa era enfiada bem no coração do bandido, o mau da fita que logo morria, ou fingia! Filme é filme…

john2.jpgAcho que foi no filme “O arco e a flexa” mas, até que pouco importa porque as cowboiadas eram por demais concorridas e, isto era tão usual que sempre saia bagunça de está calado meu grunho e mais de filho da mãe para cima. Eu bem que lhe avisei, dizia o artista espectador exaltado do feito, saltando e estrebuchando em saltos contentes. Um espectáculo de ver! Só mesmo no Colonial Cine de São Paulo de Assunção da Luua.

Claro que estas cenas sucediam com as cowboiadas de John Wayne ou Jack Palance. Cowboiadas de cinco estrelas com o som de pum-pum dos tiros da Rifle Winchester que deram depois lugar às cowboiadas spaghetti do tipo italiano, com Giuliano Gemma aonde os tiros já soavam de txi-pum, txi-pum assim, com eco estriado para além do cano e fazendo nossos mambos de muita demasiada banga ninita e fécula.

john7.jpg Coisas de candengues, de afoitez que se vadiam em fantasiados momentos, muito fartos em invencionices; criacionices só verdadeiras na raiz das falsas almas. E, porque as pessoas não ficam sempre iguais, vão-se no tempo determinando com as mentiras ensinadas e aprendidas na vida como verdades. E, a melhor forma de o dizer é usando nossos termos polifónicos e de só átoa, diacríticos, palavrões que nem sabíamos existirem nas nossas falas.

Ui! - O que a vida me ensinou dá para o gosto, o desgosto e até o contragosto mas o Kirk, sempre foi colocado ao redor dos meus kitucus (mitérios). Enfim! Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir… Nós, com nossos ídolos, limpávamos os ventos que não tinham ordem para respirar e os demais, nós desrodeávamos fazendo esquindiva…

john8.jpg Se não acreditam nestas divagacionices, pulem outro filme! Porque, foram as "20.000 Léguas Submarinas", Spartacus e Ulices entre muitos outros. Posso também recordar o Gregory Peck dos canhões de Navarone, o John Wayne em duelo ao pôr-do-sol e mais edecéteras; Clinton Eastwood, um ator, cineasta produtor  famoso pelos seus papéis de duro em filmes de ação com rifle de repetição. Nossa cultura nesse então era mesmo só do cinema, da praia e farras de quintal; nos intervalos escorregávamos nas ladeiras de asfalto da Luua com nossos carros formula um de rolamentos …

Um dia tal como eles, velhos ídolos, nossas veias farão seus preparos finais. Mas não será por isto que nos aninharemos numa tristeza triste; tristeza de uma raça de homem que o Kirk mais não verá, porque deixou de ser um exorcista do circo, um trapezista. Assim num dia esbarrancaremos nos limbos esfiapados dum vento nesse arrumo de veias, ora quente, ora frio, ora se desfrizando no ar duma exaltação de vida que despairece.

john6.jpg Pois! Que despairece inchada de amor; é assim: -Um dia mesmo que nascido com sol, teremos de conhecer o significado sem requerer desse futuro por conhecer. E, todos ficam assim permanecidos de duvidando de como será até que chegue o tal de seria… Todos seremos legítimos coitados em um tal dia de pororoca (encontro de vagas, rio e mar…) com ou sem arrepio…

fotografo1.jpg A vida é um negócio muito perigoso! E agora, nem me falem de bancos! Porquê? Ora bem - O banco é uma instituição, um negócio que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro! - Pois por tudo isto ando demasiado desconsolado, sabe! Disse eu pra continuar falas comigo mesmo, só pra esquecer o Kirk, meu antigo heroi…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:15
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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2020
KALUNGA . VI

MOKANDAS XINGUILADAS

- A DOENÇA DA DEMOCRACIA E A ECONOMIA DA CORRUPÇÃO – 03.02.2020

- Xinguilar: Palavra angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais de Nkisi/Mukisi.

Por

soba24.jpg T´Chingange – Desde o Nordeste brasileiro

n´tundo2.jpg Undenge ami mu moamba – já passou! Agora que todos falam, que todos partilham despilfarros dos milhões alheios, gostaria de ter uma conversa com meu amigo General Emérito FK, retirado das manobras de engenharia financeira, nas trocas e baldrocas mais os desvia na forma de roubo capiangado na sua cada vez mais longínqua N´Gola. Falo claro, da já muito badalada Isabel dos Santos a filha do presidente “Edu da ínclita geração”, segundo na linha do tempo e primeiro na forma de roubos qualificados.

Isabel dos Santos a mulher mais rica de África, assim se tornou por mágica de expontânea vontade e a partir do nada. Agora muito cobiçada, dizem e desdizem como se tudo fosse um equívoco de devaneio mas, descrito por ilustres personalidades do M´Puto e não só, como uma odisseia levada a cabo por uma respeitável e inteligente senhora engenheira.

Falas impregnadas de numa pegajosa e conspurcada subalternidade e, com vistas demasiado largas para não se vislumbrar as muitas irregularidades. Tudo muito natural nas habituais práticas de governação em África mas que em Angola tomou foros de um poder nunca visto, imaginado ou mesmo adivinhado. Anseio a presença deste meu amigo General Emérito Fala Kalado pelo facto de também ele ser perito nestas pisadas agrestes…

n´tundo1.jpg Falcatruas iniciadas em candengue num estágio único de saltar hortas para roubar gajajas, sape-sape, maças da índia e goiabas; roubo de formação, um estágio primário em que também participei, diga-se… Em idos tempos de colónia de quando o kumbú era tão por demasiado caro que sempre dizíamos de kitare malé. Isso!

Nesses idos tempos em que nem nunca falávamos em milhões; esse mesmo em que havia brancos e negros trabalhadores morando de vizinhos, carpinteiros, serventes, comerciantes ou funcionários raspando a vida do mesmo jeito: trabalhando! Tempos em que os jornalistas escreviam nos jornais. Jornais que eram até de muita importância, de valia quase vital porque nesse então.

Naquele nosso velho tempo os jornais tinham três funções: leitura, limpeza do fiofó ou para embrulhar nas mercearias o feijão, milho, fuba ou qualquer outro tipo de cereal; tempos em que nem se pensava numa tal de AZAE, reguladora de quase tudo no M´Puto. Eram tempos de banga de um estilo muito próprio. Um tempo em que Deus comia escondido atrás de um nem sei quê, e o diabo saia por tudo quanto era canto lambendo pratos.

namib3.jpg Tempo em que as palavras picavam em mim uma grande gastura mas que só o tempo deu justa noção nesse pensar desconjuntado. Tempo ainda de antes de surgir o transístor e andar na praia com o rádio colado na orelha pra fazer furor entre os amigos “pitos calçudos” da Luua; bangar mesmo… Assim botando tudo numa caixinha de sapatos junto com fotos, bilhetinhos de amores e mambos que o tempo desexistiu porque, sim, porquê!?

Ora! Porque era novo e o inferno já era velho só que não sabia mesmo, nem mesmo lhe podia adivinhar. Oh! Ngana Nzambi! Numa de lama, kapiango pés de patranha, engenhosa máquina infernal, Mwangolè edificam-se em poleiros de nossos antigos celeiros. Ué-ué! Agora muito provido de ideias, de noções de ruindades ate entrelaçadas nos restolhos, de conceitos assim, escapulo-me entre espaços, nos chinguiços do tempo que nunca chegaram a madrugar.

nauk11.jpg Porquê? Ora porquê, porquê! Porque a vida é muito perigosa. Ximbicando n´dongo feito canoa nos cânticos de bela kianda feita kapota assento-me naquele lugar que consolava naquele então o meu kituku de dilulu; minha kalunga. Assim, eu esbanjado na noção do tempo e muito farto, cheio de “excessos de ideias” que assim ficou desse jeito: Num tempo em que tudo desaconteceu! Esse filho da mãe, esse mesmo de General FK só está assim de calado miudinho com seus matrindindes saídas da Welwitschia Mirabilis.

nauk01.jpg Terei de ir a Garanhuns de Pernambuco e sentir de perto esse novo segredo que me trás encafifado… Na Welwitschia Mirabilis, que ele chama de N´Tundo com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos. E, aqui está o busílis, há uns pequenos escaravelhos que são atraídos do nada até elas; escaravelhos do género de matrindindes, que levou o FK a os explorar e retirar deles, algo precioso! Vou ter de descobrir – malembelembe…  

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GLOSSÁRIO

Mwangolé – Que manda em Angola, os donos do pedaço; Banga: estilo;  Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kumbú: dinheiro; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Kapiango – roubo; Kapota. Galinha de Angola; Kianda - sereia; Kituku - mistério; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, Undenge ami mu moamba - minha infância de muamba.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:40
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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020
A CHUVA E O BOM TEMPO . CIV

TEMPO DE CINZASMEDITAÇÕES DO T´CHING 01.02.2020

No último dia do BREXIT… Se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

angola colonial.jpg Afinal, a libertação por entrega de Angola no onze de Novembro de 1975, serviu a quem? Se serviu ao povo como seria lógico, nada do que acontece hoje nos levaria a depreender que passados que são 44 anos e picos, o que mudou na vida da maioria, não dá para se notar na qualidade de vida; Mas, então porquê? Porque a independência, serviu e continua a servir um sem fim de cidadãos que se firmaram como elite - uma gangue que com sua duvidosa integridade, gerem a Nação.

Eles são oficiais generais, juízes, gestores de entidades públicas mais afins e governantes em geral que se auto elegeram (sem o aval do povo). Se existe uma nomenclatura de gente dita capaz, deveria agora e no ano de 2020 ser visível o estado da Nação Independente com as condições requeridas, de sempre se estar melhor do que no tempo em que era colónia, certo! No ensino, na agricultura, na economia em geral, na  vialidade e na forma de governação.

angola na moda1.png É lícito perguntar agora: - Afinal para além de mudarem o visual na capital com atropelos ao património, diga-se, o que é que mais fizeram de Cabida ao Cunene na forma de melhoria no dia-a-dia das pessoas? A reposta é um quase-nada se levarmos em consideração o grande potencial da riqueza soberana de Angola. Agora há gente incompetente que simplesmente baralha as normas de decência; o Mundo está estupefacto e, os que nada dizem é por incesto de interesses com compadrio aberrantemente nojento – caso do M´Puto com gente que se diz ou pretende ser ilustre; até admirada. Não é de espantar agora que a antiga metropoke, o M´Puto, seja a terceira foça corrupta da Europa...

ANGOLA7.jpg E, se foi para formarem uma elite de gangues no sentido de explorar as riquezas à revelia dos interesses do povo não se justificaria na prática a mudança de mãos pelo simples motivo de a grande maioria não se rever nisto! Ficou-se livre da canga colonial mas, e agora… Agora e antes podemos verificar uma usurpação sistemática às riquezas que deveriam ser quinhão de todos.

E, o povo não se pode rever nisto, no descaso e procedimentos que a todos mancham e, também porque o Mundo diz e muito bem: Eles não são capazes - os cabos de guerra ficaram oficiais, os auxiliares viraram directores, os advogados venderam ao desbarato sua já fraca reputação, os políticos floresceram na mediocridade. E, os que nada dizem, pensam!

araujo42.jpg As sequelas económicas foram proporcionando uma muito periclitante senão ultrajante qualidade de vida para o angolano – com mágoa o digo! Posto isto, o povo deve debelar-se por forma a substituir de raiz todo esse mal que o MPLA de forma premeditada, e sofismadamente ardilosa e sistemática numa orgânica ultra mafiosa, fez crer ser o Deus da salvação; ou nós ou o fim, como se não houvesse alternativa mais credível no panorama nacional. Um puro engano!

Rosa Coutinho e Melo Antunes entre muitos outros, agentes do comando intitulado de “descolonização” não mais fizeram do que a entrega de um manancial de riqueza a uns quantos filhos da mãe postos a propósito à frente dum governo previamente escolhido. Quem? O MPLA! A descolonização, posta assim e na prática sequente foi uma farsa pura feita falácia trabalhada a contento pela corja de políticos portugueses, provocando uma guerra e proporcionando um despropositado saque com sequelas ainda por apurar.

ANGOLA10.jpg As chaves de Angola foram entregues a quem não estava preparado para ser porteiro quanto mais tutor. Todos, sem excepção fomos enganados de forma vil ou torpe. Posto isto faz-se destas falas, um documento apócrifo mas sentido, para consciencializar quem com direito e com a requerida capacidade, derrube o governo na terceira geração de ilegalidade na pessoa de JL. Deste simples modo “declaro” a rebeldia total a fim de ultimar esta tirana postura de governação.

E, que seja reconhecido como “Libertador” do hacker (nome giro) Rui Pinto, indevidamente preso no M´Puto – Chega de mordaças! João Lourenço, o presidente da burlesca trupe em terceira geração, até se poderá regenerar se, se anuir a esta mudança com um mas, sem nunca poder chegar a “Santo”.

chaves0.jpg Nisto de uma Angola-de Faz-de-Konta, convêm relembrar aos mwangolés ressalvarem de culpas tinhosas os que de forma inesperada tiveram de sair do território como se fossem os maiores tiranos naquele ano de 1975. Nenhum suposto “chicote” de capataz branco, feriu tanto Angola como o que estes algozes do mando fizeram e, ainda fazem. É tempo de se aclararem mentiras e palavrórios mal usados ao longo destes 44 anos depois das metralhas cantarem a ”vitória ou morte” no largo Diogo Cam. Nunca falei tão certo como agora (tarde piaste…)…

Do Soba T´Chingange         



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2020
MUXOXO . LVIII

KIBOM. IV - Quem viaja, necessita de mala ...NOÉ!?

- Divagações do T'Ching - 28.01.2020

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

an2.jpeg Ao viajar, é importante ter uma mala para carregar a bagagem; convém que seja boa porque os tombos são mais que muitos. Fiquei a saber que a mala mais cara deste nosso mundo vale quatro milhões de dólares! É a chamada mala de “Diamantes das 1.001 Noites”... NOÉ, desconhece...

Tem o formato de um coração e vem cravejada com 105 diamantes amarelos, 56 diamantes cor-de-rosa e 4.356 diamantes transparentes. Todo metal dessa bolsa é feito de ouro puro de 18 quilates. Para sua confecção foram necessários 10 artesãos, dedicando quatro meses de trabalho exclusivo,NOÉ!?

arau44.jpg O resultado final é uma bela obra de arte que, até agora, ninguém ousou comprar. Pelo que sei nem Isabel dos Santos a comprou; Nem Manuel Vicente! Creio que nem sabiam mas, às tantas aqueles diamantes saíram de N'Gola, NOÉ!?

A minha é o contrário dessa; mesmo demasiada mixuruca para ser mencionada neste entretém feito estória. É daquelas compradas em saldo, com rodinhas gastas de tantos embarques e desembarques, riscada nos topos e lastimosa no aspecto.

eseves2.jpg Distingo-a porque tem uns quantos laçarotes da Bahia amarrados em seu fecho; desses com variadas cores que se põem no pulso para dar sorte nas ousadias de orixás e oxalás e talvez o xiritung da xirgósia mais o xogum... NOÉ!?

Na alça tem mais uma fita verde fosforescente de escandalosa para que a possa reconhecer na esteira do aeroporto. Para mim, o que realmente importa é o que vai dentro da mala; os queijos disfarçados de prendas e prendas na forma de figos ou chouriços, coisas inofensivas, NOÉ!?

papalagui11.jpg Na vida verdadeira da gente também é assim. Não importa parecer um cidadão valioso se o seu interior é vazio e sem aquela coisa que nos identificam nos valores morais ou mesmo tudo ali ser oco - isto é quase uma metáfora NOÉ!?

Preencha por isso sua vida de boas coisas como se sempre viajasse! Que tal uma lista exclusiva de itens imprescindíveis para sua viagem? NOÉ dirá: Prepara-te pois para tua viagem pro Céu, isso, pró espaço! É isso, NOÉ!?

ong5.jpeg Se for o caso, junte à Bíblia de viagem um bom livro para os demais entretantos. Leve todas as informações do roteiro a fim de ser mais feliz em seus caminhos. Siga os conselhos da gente experiente, todos não serão demais! A sabedoria dos mais velhos, normalmente mostram detalhes de como ir pelos melhores caminhos. Mas, lembre-se que existe um NOÉ...

Tenha presente que na vida, ou você puxa os outros para cima, ou os outros puxarão você para baixo. Fique esperto e siga sempre este princípio porque nem sempre o interesse dos outros batem certo na bota com a perdigota... NOÉ!?

step6.jpg Creio que com um azar do caraças, foi isto que sucedeu com Rui Pinto, o herói actual do pedaço e no M'Puto aonde os larápios são também mais que muitos, com nomes de Santos e Espíritos. Este Rui puxou a brasa à sua sardinha pedindo uns kumbús e, viu-se com um cardume de tubarões...NOÉ!?

Esqueça-se daquilo que Deus já esqueceu dando cobertura aos Espíritos e aos Santos... mas, sorria mais porque um qualquer dia a coisa acontece! Já aconteceu! Seus, nossos dentes, não existem somente para mastigar couve-flor. Temos de os ranger se vez em quando, NOÉ!?

rui1.jpg Com uma mala cheia dessas coisas, valores, ela pode não ser a mais cara, mas, sem dúvida, será a mala mais valiosa ou justa do mundo... JUSTIÇA... Cá para mim este Rui Pinto tem sim, de ser condecorado! Isto termina em 13 para lhe dar sorte, NOÉ!?

T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:31
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Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2020
CAFUFUTILA . LVIII

TEMPOS DE KIBOM. O Pão, a vida e NOÉ ... Divagações do T'Ching – 30.01.2020

Cafufutila /kifufutila: Farinha de bombô com açúcar; Kibom é um sorvete do Nordeste brasileiro

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

(Estas falas já foram publicadas em Kizomba do FB a 27.01.2020)

Meu amigo Quissanje foi para a guerra e, passou-se! Por abandono de todos, virou cantor repentista. Naquele tempo de lucidez ele chamava-se de Céu dos Santos, agora, só tem nuvens no seu sótão…

cipaio1.jpgO principal alimento dos hebreus desde os tempos mais remotos, o pão, é ainda o nosso principal alimento. Na minha infância fui alimentado com broa de milho e leite de cabra. O hábito de comer pão teve talvez seu início com o cultivo do trigo na região da Mesopotâmia. A Bíblia menciona 319 vezes o vocábulo pão; isto dá ideia de seu uso em nossa civilização, NOÉ!?

A palavra pão traz à nossa mente a ideia de satisfação, sustento e saciedade. Pois no corre-corre da vida, todos os esforços empreendidos pelo ser humano parecem centralizar-se em um objectivo: ganhar o pão, a fim de garantir a sobrevivência.

lucala3.jpg Com este propósito, patrões, empregados, líderes e liderados, instrutores e aprendizes, homens e mulheres trabalham árdua e honestamente, de sol a sol. Alguns usam outros métodos, NOÉ!? Uns buscam no máximo de seu aprimoramento intelectual no rumar a vida de forma aprumada porque acham isso necessário, outros não, NOÉ!?

Cada vez mais, alguns pretendem ganhar o pão utilizando meios censuráveis; há quem pense que pode adquirir o pão sem trabalho algum e, usando os demais para o obter e, isto obviamente não é nada bom; sendo assim organizam-se em grupos ou partidos para nos esmifrar e, quase sempre o conseguem como se fossem gangues, NOÉ!?

PUXASACO.jpg É justo e necessário que trabalhemos pela obtenção do pão mas, a queda da humanidade nos procedimentos, alterou a dinâmica de execução do trabalho estabelecendo novos paradigmas, NOÉ!?

Nos dias de Jesus, os habitantes da Galileia sabiam o que significava trabalhar com diligência, e isso eles faziam servindo aos ricos proprietários de terras de quem recebiam salários, até que, chegados aos muitos nossos novos dias, se debelaram, NOÉ!?

junho2.jpg Mesmo assim, em aquele tempo, não eram capazes de empregar esforços na busca espiritual porque as metáforas davam-lhes volta à mioleira, NOÉ! Por isso, o Mestre aconselhou: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que subsiste para a vida eterna”. – Isso só por si já era um grande conforto mas, surgiram sindicatos com regulamentos dando volta às nossas cabeças, NOÉ!?

Com ou sem NOÉ as práticas mudaram em novas engenharias financeiras e hoje suavemente levam-nos os ganhos, NOÉ!? E, é por isso, o mais certo de tudo - por isso, aquilo e aqueloutro que ando a ficar encafifado no meio de tantos milhões, NOÉ!...

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:57
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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2020
MU UKULU – XXVIII

FEROMONAS DA VIDA ... CINZAS DA LUUA29.01.2020

- Saber do passado para melhor se entender o futuro...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

embo0.jpg Sentindo os sabores da nossa terra nas falas de Luís Martins e nossas lembranças, recordamos a mistura de hábitos alimentares por via das duas etnias preponderantes da N´Gola e sequente miscigenação vivenciada ao longo de muitos anos. E, porque a Luua é litorânea, o consumo de peixe no território, sempre foi elevado. A costa angolana rica em espécimes dava assim forma em abarrotar traineiras que se faziam ao mar em sua faina diária.

Recorda-se que era tanto, que dava para secar todo o excedente ou fazer farinha para utilizar como alimento para animais e, na forma de ração; também como adubo para uso da agricultura. Nesse então já na China se usava um peixe a cada árvore replantada para formar florestas - a uma pequena árvore era disposto na raiz um peixe como início de alimento ao seu crescimento.

Mu Ukulu57.jpgO peixe seco sempre foi muito apreciado pelos nativos grunhos e gwetas pelo facto de se ter tornado um costuma e, por via de ser barato no mercado das salgas espalhadas um pouco por todo o lado e ao longo da costa desde o Ambriz, passando por Luanda até Benguela e ainda mais a Sul na Baía Farta. O peixe depois de processado, estripado e escalado é posto a secar ao sol usando loandos normalmente elevados do solo por estacas.   

Este peixe já seco era depois levado em camionetas até os lugares distantes do interior na forma de fardos atados com fio de sisal ou mateba. O itinerário destas carrinhas ou camionetas podia ser-se seguido horas e dias mais tarde pelas picadas seguindo o rastro do cheiro característico que estes lançavam para o mato circundante. A partir de algum tempo as picadas começaram a ser muitas, para despistar os fiscais – posso explicar…

peixe seco1.jpg É que a dado momento o governo do M´Puto em sua governação colonial lançou um imposto sobre o peixe seco. Isto originava a candonga como concorrência e, por motivo de fornecerem preços mais competitivos aos taberneiros chamados de fubeiros instalados em locais bem isolados, competiam berrida de vida; vida que nem sempre era fácil. A extensão do território que se constituía pelos postos administrativos tornava o trabalho de recenseamento, cobrança de impostos e resolução de contendas, muito difícil e até demorado.

As insuficiências materiais, a indigência dos meios disponibilizados e a multiplicidade das tarefas acometidas aos funcionários administrativos eram factores que entravavam a máquina estatal. Ou seja, o facto do próprio corpo administrativo colonial sentir grandes dificuldades logísticas, a sua presença reduzida e isolamento físico, indiciam a incompletude do domínio colonial, agravada já a seguir à Segunda Guerra Mundial.

mucua9.jpg Em Luanda, as quitandeiras abasteciam-se no porto de pesca situado em plena marginal, Avenida de Paulo Dias de Novais e também em lugares como a Chicala, Samba, Corimba ou Bungo directamente dos pecadores que ximbicavam canoas nas águas rasas; um ou outro, metia velas triangulares feitas de sacos de farinha, aventurando-se na pesca de maiores peixes em águas mais profundas. Com a introdução da mandioca levada pelos Tugas do Brasil os pratos de peixe eram acompanhados com fuba funje, um pirão espesso feito dessa fina farinha. Para alguns dos mwangolés esta nova, será uma surpresa - melhor seria que unissem sua matumbice a estes conhecimentos…

Tudo começava com a farinha amolecida na água que já na fase final e no preparo das iguarias tropicais era cozida em água fervente e, sempre mexida de forma vigorosa com pau ou colher bem grossa a fim de desfazer os caroços do cozimento. Sempre mexendo, surgem bolhas de ar empolado que fazendo plof-plof por modo a ficar naquele aspecto pegajoso de “cola de sapateiro” conhecido entre outros nomes, também de pirão.

muralha01.jpg No sul de Angola era mais comum usarem o pirão de milho amarelo ou branco por haver aí mais condições para a cultura do milho. Depois, a esta espessa cola de funje junta-se óleo de dendém e de mãos molhadas juntando um bolo, leva-se à boca; pode ser-se mais civilizado na forma de comer usando a colher tradicional mas, o gozo de degustar não parece ser o mesmo! Isto pode ser acompanhado por aquele peixe seco passado na brasa e só depois de ser demolhado mas e, também acompanhando com carne de frango ou outra, ou mesmo miúdos de galinha ou vísceras de outro qualquer animal.

A tudo aquilo juntam-se as verduras como a abobrinha, o quiabo languinhento, folha de abóbora ou jimboa. O melhor preparo desta muamba é feito com inclusão de saca-saca picada, saído das folhas de mandioca previamente escaldada várias vezes. A isto chama-se a kizaca. Tudo isto convém ser envolto em jindungo ou onoto ao jeito de fazer transpirar no sótão da cabeça e na fronte para dar n´guzo. Para total contento é bom que se sinta na dita moleirinha essas cosquilhas, um tremer fino da musculatura.  No Brasil esta iguaria já é quase habitual na Bahia – um costume oriundo da antiga Matamba, os N´zingas e afins matumbos e matumbolas. A seguir virá o mufete, o kalulu, a kifufutila, o muzungué e a kikwanga. Será bom ter um “palhinhas” por perto a recordar momentos idos e que não voltam mais; ora para quê!? Para esfriar goelas ardentes…    

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:23
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020
MOAMBA . XXXIII

DIVAGAÇÕES DO T´CHING

NA HORA DE APURAR VERGONHA - 23.01.2020

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

isabel.jpg O sol tem ondas de ferroadas quentes que machucam na ida da vinda de nossos dias mas, muita gente entristece quando os meados de Janeiro esfriam o M´Puto. E, assim vamos como legítimos coitados, todos por demais devagar, na pasmacez da pasmaceira.

Justiça ali e aqui nenhuma, não tem. E a que tem, só o Senhor leva, faz ou rasga. Mas, quem é esse Senhor? Talvez um jacaré que choca! Ué, aiué, mas jacaré choca!? Choca sim!  Choca o quê? Os ovos d´oiro da Isabel! E, o jacaré é Tuga? Ui, tem por demasiado…

isabel lacuerda.jpg Surripiando aqui e ali miúdas palavras, relutando-me entre o gostar ou não, apuro vergonhas que surgem repetidas por todos e, ao mesmo tempo, como se fossemos autómatos robôs de uma máquina de informação ÁDHOKAS – que vem de “ad hoc” … Todo o mundo dá o seu palpite na ciniqueira geral comandada pelos fazedores de notícias.

Cada qual com seu dedo, sua unha, seu pedaço de assuntos externos que nada contam na sua, nossa felicidade, como num assim de uma soma de pontos com números somando subtracções de milhões, esmiuçando ou tentando saber a decência do caso num verdadeiro ciúme amargoso…

Estas desconformidades de sintonia, forçosamente turvam minhas, nossas mentes. Euzinho, legitimo de raça indefinidamente ariana também possuo minhas franquezas por muito que tente deduzir em lisas, as farsas, reforçando-me de munições porque, óh gente, simplesmente não quero sufragar-me nos desaires alheios.

ara3.jpg Pois é! Não sou mesmo homem de meio-dia com orvalhos de me tirar o tino, de me esbugalhar os olhos nas fracas naturezas de um sem fim de lorotas salivadas. Agora, todo o mundo fala do naco da Isabel dos Santos, dos seu ovos d´oirados – que coisa!?

Todos ficam assim e assado, lambendo, rechupando, engrossando um nojo, nojento! É bem verdade que ela não me merece um pingo de DÓ, nem tanto nem tampouco. A questão é a de que todos sabiam e todos calavam - Maldito kumbú! Há cúmplices, não há!?

Só não quero mesmo que mexam no meu bolso mas, tem por aí muito rufia das nossas caixas bancárias e afins que viciam com incesto minhas poupanças, só pode ser, ouvi dizer – E, são Tugas de primeiríssima linha; gente de gola alta e coturno intocável. Não toquem no meu bolso, tá! Já chega de ser sujigado…

arau44.jpg E, daí da notícia e fofocas, abrirem-se gavetas com choros ranhosos, ou mesmo gavetões, com ossários feitos do pó esquecido no propósito propositado de não mais falar como se fossem asas p´ra boi voar! Se a vida é uma sentença com um princípio e um fim, não conseguiremos ouvir o grito da vida se sentirmos remorsos daquilo que não fizemos, ou daquilo que poderíamos ter feito; E, afinal quem deu cobertura a todos esses desaires de engenharia financeira, trapaceira de roubar o desinfeliz!?

Não podemos assumir a culpa dos pais, dos colonos, nem dos pais de outros pais na geração perdida, sempre petrificada pelos políticos da Luua e da Liz. Oi, não se fala nisso. Na percepção das vitais contingências, compostas nas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, que determinam o futuro próximo e distante. Nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas para engordar galifões e galifonas…

Ilustrações de Costa Araújo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:53
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Terça-feira, 17 de Dezembro de 2019
MU UKULU – XXVI

FEROMONAS DA VIDA... De Luanda – Sabores da Nossa Terra  – 17.12.2019

- Saber do passado para melhor se entender o futuro... Recordando o Século Mwata Luís Martins Soares falecido na Diáspora do Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

Por

soba15.jpgT´Chingange – No M´Puto

peixe seco1.jpg Cada um de nós foi o que foi ou é o que é por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas. Peneirando no tempo as ténues memórias dos acontecimentos da Luua, apagando os rastos dos passos que nos conduziram à diáspora, de novo volto a remover os ossos do passado, condescendo sem alvoroçar espeleólogos ou espíritos, esquecendo as leis e acordos não cumpridos!

Baloiçando-me no d´jango da memória como se estivera junto da árvore m´vuluvulu do kavango, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços do povo Ovambo. Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito pessoal; muitos haverá até, que não acreditam que seja aquela a sua verdade.

Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Entro assim e após meu prólogo na parte principal do Mu Ukulu da luanda de antigamente peneirando no tempo as ténues ou vivas memórias dos acontecimentos; afins descobridores de pegadas, cheiros encarquilhados misturados com iões ou densidade molecular dos anos na leitura de carbono e edecéteras complicadíssimos ou sem explicação.

araujo159.jpg E, quando nos Sabores da Nossa Terra os portugueses deram início o processo de colonização, encontraram no território que deu origem a Angola, diferentes grupos sociais na forma de tribos; com sua própria identidade, diferenciavam-se entre eles por vários factores tal como a linguagem, o vestuário, formas de pentear, estilo de construção de suas cubatas, suas expressões musicais e fundamentalmente hábitos com diversificados hábitos alimentares.

A cozinha angolana sendo bem variada teve no decorrer do tempo alterações nos gostos e condimentos por via da miscigenação das várias etnias. E, porque Luanda é litorânea, o consumo de peixe sempre foi elevado. Com a chegada das traineiras em substituição dos dongos ou canoas, estas vinham abarrotadas de peixe juntando comerciantes tugas na disputa e comercialização do produto. Logo ali no porto era feita uma lota precária que separava o peixe segundo a espécime.

luua40.jpg Enquanto os peixes maiores eram destinados ao consumo local, os de menor tamanho eram arrematados para secagem nas salgas. O peixe-seco que sempre foi uma iguaria apreciada pelos indígenas por ser mais económico, paulatinamente também foi sendo consumido pelas novas gerações de brancos mazombos, talvez pelo antigo hábito de seus pais no uso do bacalhau do M´Puto. Este peixe saído da lota para a salga, depois do processo de limpeza, era escalado e posto a secar ao sol em loandos, esteira ou bases elevadas feitas com varas de pau em malha apertada.

Este peixe seco era depois de seco comercializado em fardos e levados em camiões para o interior, cidades, loja de mato, vendas ou fazendas de café com gente do contrato, nas grandes plantações de algodão e outras que iam aparecendo no correr dos anos, exploração do sisal ou plantações de ananás. Parte deste peixe era comercializado pelas quitandeiras nas ruas de Luanda e, era ouvir o pregão de pargo ou “garoupa fresca, minha senhola” e logo ali se comercializava o peixe a fritar.

Luua28.jpg E, quem já nem se lembra do cacusso de Kifangondo, peixe do rio assado com feijão de óleo de palma, pirão ou funge com o caldo do cozido. Dos piqueniques no Mussulo e, seus barcos kapossoka e kitoco a acalmar as agruras dum fim-de-semana; acalmia, sossego e paz no encanto da embriaguez de um outro mundo na voz do tempo comendo peixe grelhado, choco com tinta relançando um tempo de cazumbi perturbando no limiar do nada, num vazio dum oculto fogo ximbicado!

A agora conhecida mandioca, lá na Luua foi levada pelos Tugas passando a ser quase a principal alimentação dos axiluandas ou camundongos. O tempo fingiu que isto só foram obras do acaso mas é uma realidade com funge, pirão da fuba; a mesma farinha feita com a mandioca amolecida na água e seca ao sol. Aiiué! Saudades do bangasumo do kimbombo do marufo da cassoneira, da t´chissângwa e a bolunga de milho. Aiué Catonho-Tonho! Aiué Gajajeira! Aiué Robert-Hudson, Biker, Quintas e Irmão, Armazéns do Minho e do Bungo. Tudo na fragrância da Catinga, do Mufete, da garoupa, peixes galo, pungo, corvina e caxuxo.

luua17.jpg Que saudades dos meus tempos de candengue! Da malta com quem ia ao Cine-Colonial ver o John Wine, das beatas pelo ar e dos avisos aos heróis de cena, cuidados e “olha na tua trás” da plateia cheia de grunhos, mazombos e alguns gwetas como eu. Que saudades das sandes de peixe frito do velho Campino, e daquele seu "boteco" defronte da Farmácia São Paulo! Do Sr. Brito que tratava da "flor do Congo"! Que saudades dos doces da paracuca, pirolitos, kicuerra e kafufutila!

luua30.jpg Glossário

Luua - Luanda; loando – esteira feita de papiro (luando do rio) atado com mateba; Kicuerra: farinha de mandioca com açucar; Kafufutila: falrripos, perdigotos; gweta –branco; T´chissângwa e kimbombo – bebidas fermentadas de milho; Axiluanda, camundngos – Naturais de Luanda; Ximbicar – remar com bordão; Kapossoca e kitoco – Nomes de baco, traineiras transformadas; Loando – esteira de papiro do Lifune; Tuga- Diminutivo de português; Múcua – fruto do embondeiro; Mu Ukulo – do antigamente; Mwata – Velho com sabedoria; M´vuluvulu – árvore frondosa da beira rio do Cubango…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:03
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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
MU UKULU – XXV

FEROMONAS DA VIDA... De Luanda do Antigamente até Benguela – 16.12.2019

- Saber do passado para melhor se entender o futuro...

(Este texto já foi publicado em Kizomba a 04.09.2019 e, é agora remetido ao Kimbo para constar na Torre do N´Zombo…)

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No M´Puto

matipa-tipa.jpg Na busca de Catumbela, Lobito e Benguela ao Sul de Luanda pude recolher alguma informação através do blogue “Pensar Angola” e, na minha busca blaguista, tenho de relembrar que os blogues de antigamente eram chamados de blagues, segredos da arte de navegar usada pelos Tugas no achamento das terras. Já naquele tempo e com instrumentos singelos, os portugueses usavam a modernidade de hoje através dos ouvidores e blaguistas; gente que escutando nos portos de Cabo Verde o segredo desses ventos, nas datas de sua fúria, tempestades e as marés, assim passavam a palavra…

Aqueles olheiros e ouvidores eram investigadores espiões ao serviço de Castela dos portos de Antuérpia e praças-fortes da Holanda do comércio em expansão no Mundo! Nesta voluntariosa missão de arrumar as terras nas cartas, quase todos os dias observo a latitude a bordo e, conferenciando andamentos com o piloto fictício, dou compasso às singraduras, prevendo as léguas, a influência dos ventos e das correntes.

fuga1.jpg Espalhamos padrões com a cruz de Cristo por toda a redondeza da terra, em caravelas, naus, bergantins ou canoas, navegando à bolina, com o Siroco ou Alisado, percorrendo as costas dos mares e, neste caso concreto as de Angola, com seus rios largos e boas enseadas para ali se abrigarem. Por tudo isto, os Portugueses são os grandes culpados da globalidade de hoje. Las Casas, cronista conceituado, dito portador da verdade, confidenciou-me em sonhos, que Duarte Pacheco, antes de 1494, já tinha descoberto não só terras brasileiras como também a Flórida só que, tal não podia ser revelado pois o destino do caminho marítimo para a Índia era segredo absoluto.

A arte de navegar de hoje “via Internet” não tem nem de longe a audácia daqueles portadores, dum veículo chamado agora de globalização… Com mar cavado, perfurando os medos, ultrapassavam baixios, conquistavam terras a “uma boca não he mais de hum tiro d’arcabuz”. Com o progressivo descobrimento da costa africana, os Tugas iam-se fixando em seu litoral, fundando povoações ou feitorias e, num acto civilizacional conviviam com o gentio - Na comitiva das naus, sempre ia um padre da Igreja Católica levando a bênção do Papa, a maior figura, Juiz do Mundo e Chefe dos Reis. Um Mwata da Globália…

37.jpg Com espírito aventureiro e mercantilista portadores das ordens régias e na senda do cristianismo, as gentes lusas palmilharam como funantes as vastas regiões dos matos observando a fauna, as espécimes vegetais e modos de vida do gentio. Isto levou muitos a embrenharem-se pelo sertão tendo como armas de defesa uns arcabuzes do tipo canhangulo ou pederneira, muitos carregadores e, em fila, lá iam desbravando o conhecimento, o mel silvestre, o marfim, carne e muito deslumbramento…

Nesta busca pelo interior, é incontestável que os primeiros contactos foram-no através do Bailundo; nestas terras, comerciou o Capitão-General D. Manuel Pereira Forjaz, em 1610, seguido pouco depois pelos funantes de Benguela e Catumbela, estabelecendo-se em lugares como Caconda ou Kaluquembe. Em 1770 ou 1771, o governador Sousa Coutinho fundou a povoação de Nova Golegã, aonde se instalou um Juiz-Regente – género de Mordomo, representando o Governo do Rei junto do Soba.

candomblé.jpg Parece ter sido José Francisco da Cunha o primeiro a desempenhar estas funções; outros se lhe seguindo, com frequentes intervalos, até que, em 1885, Silva Porto, nomeado Capitão-Mor do Bié e Bailundo, estabelece definitivamente a autoridade civil naquelas paragens, com carácter de permanência. Três anos depois, é substituído por Teixeira da Silva, que vai residir para Belmonte, fixando-se mais tarde no Catape, a partir de 1891, quando se dá o desmembramento da capitania.

A 16 de Julho de 1902 é criado o concelho do Bailundo, com os postos militares do Balombo, Huambo, Luimbale, Galanga, Cassongue, Sambo e Bimbe, transformados em postos de polícia civil no ano de 1911. Em 1769, aquele já falado governador pombalino, Sousa Coutinho funda no Quipeio a povoação de Paço de Sousa. Nada se sabe quanto à sua existência, pois que deve ter sido efémera. É de crer que o primeiro regente da província do Huambo tenha sido João dos Santos Moura, em actividade nos fins do século XVIII e princípios do XIX.

kalu9.jpg Em meados deste, deixou de existir autoridade civil nesta região, o que permitiu o regresso à desordem e anarquia. Após a campanha de 1902, foi instalado na Quissala um posto militar, sob a jurisdição do Bailundo. Elevado a comando em 1909, foi em 1911 transformado em concelho. Neste mesmo ano foi também estabelecida a primeira comissão municipal. Do concelho do Huambo se desmembraram sucessivamente os da Caála (Robert Williams) mas, que se diga (primeiro, foi o Lépi), em 1922; o da Bela Vista, em 1957; e o da Vila Nova, em 1960. Em 1934, surgiu o Distrito, integrado na província de Benguela, da qual se desintegrou em 1954.

Foi ainda Sousa Coutinho o fundador da povoação de Linhares, no Galangue, em 1769, ignorando-se a identidade do primeiro regente, cuja jurisdição se estendia ao Sambo. Em 1806, Francisco Lucas da Fonseca passou a intitular-se Juiz-Regente da província do Galangue e Sambos, neste último sobado tendo sua residência e ali exercendo sua autoridade até 1821. A partir desta data, deixou o Governo de ter representante qualificado nesta região. Em 1902, foi criado o posto militar do Sambo, mais tarde transformado em civil, e posteriormente pertencente ao concelho da Vila Nova.

kalu7.jpg A fundação da Vila da Catumbela data-se em 1836, por D. Maria II, rainha de Portugal. Mas o certo é a de que o Porto do Lobito sempre teve a Catumbela como uma extensão deste porto. Ter em atenção que em 1846 foi construída a fortaleza da Catumbela (Reduto de São Pedro), que hoje é um monumento histórico. Entre os anos 1856 e 1864, começaram a surgir as primeiras fazendas, como São Pedro, Fazenda Maravilha do Cassequel, Fazenda do Lembeti, e ambas exerciam actividades relacionadas ao cultivo do algodão e mais tarde cana sacarina para o fabrico de aguardente.

Entre o Lobito e Catumbela e, antes da fundação desta, existiam povos desta localidade. Povos que se dedicavam à agricultura, ao cultivo do milho, feijão, abóbora, batata-doce e outros produtos agrícolas mas, e também à criação de gado. Em 1883 iniciou-se a construção da estrada que liga Benguela a Catumbela, cuja actividade foi concluída em 1889, e ainda em 1889, foi o ano em que construiu o actual cemitério, por José Lourenço Ferreira. A Cana Sacarina foi introduzida de forma intensiva no século XX mas, com a participação dos Cubanos na guerra civil que terminou no ano de 2002, esta cultura foi abandonada por via de sua influência; Aqui, compreende-se o interesse em Cuba gozar de privilégios com a importação do ouro branco de sua ilha no Caribe…

kafu28.jpg NOTA: Esta descrição foge um pouco ao descrito no livro de Mu Ukulu, por via de se dar a conhecer o que se passava em um todo, numa vasta Angola. Voltaremos ao livro de Luís Soares assim que for oportuno… Este texto já foi publicado em Kizomba a 04.09.2019 e é gora remetido ao Kimbo para constar na Torre do N´Zombo…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:46
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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019
MISSOSSO . XXXIX

EU E O FALA KALADO – APONTAMENTOS RELAXADOS

NA ILHA DO CARLITOS 9ª de Várias Partes01.12.2019

Por

soba15.jpgT´Chingange - (No Algarve do M´Puto)

soba03.jpg Naquele outro dia e de saída da ilha de Carlitos, Imaginando um jogo de xadrez, zarpamos aos esses pelas nove ilhas tropicais… Recordo que falávamos de Elias Salupeto Pena, irmão de “Ben-Ben” e outro proeminente dirigente da UNITA igualmente falecido e, que também estudou com João Lourenço, exactamente na mesma escola e época. As famílias eram amigas e professavam a mesma confissão religiosa protestante. Sequeira João Lourenço, pai do Presidente da República de Angola, era amigo pessoal de Loth Malheiro, pai de Jonas Savimbi e avô dos irmãos “Ben-Ben” e Salupeto Pena, o causador da reviravolta de Fala Kalado o Coronel com orelha de plástico.

De novo neste lugar quase secreto e, no meio de várias ilhas, repúnhamos novas e velhas falas para mantermos suficientemente activos nossos labirintos do cerebelo. Assim descontraídos e curtindo o calor e a água morna vinda das águas baixas da lagoa de Manguaba quis saber da razão de um quase enigmático telefonema de Agualusa quando me encontrava no Deserto do Naukluft da Namíbia, no outro lado do Atlântico. Sendo assim perguntei-lhe: - Tu andas desavindo com a escrita de Agualusa; que se passa ou passou? Porque me fazes essa pergunta? Replicou Fala Kalado.

Vi no semblante dele FK, que ali, havia coisa. De relance reparei que sua orelha biónica de plástico vibrou com uma intensidade do tipo vaga-lume o que me levou a ter cuidado mas, arrisquei: É que quando eu estava a entrar no balão para ver as dunas lá no Park de Sossusvlei e por via de falar em ti, ele, Agualusa enigmaticamente para mim, disse para ter cuidado. Até referiu a seguinte frase: “ Nenhum homem vale uma barata”. Claro que isto tem-me atormentado desde esse então!

amigo da onça.jpg Esse gajo escritor anda a aproveitar-se da minha lenda para escrever exactamente aquilo que andei a fazer até há bem pouco tempo, vender armas para os guerrilheiros do morro para reviver o Zumbi dos Palmares. Isso, já era! Acabou! Agora quero ficar de fora dessas trapalhadas, para além do mais os meus antigos fornecedores de armas da guerra de Angola estão-se borrifando para mim. Pois! Entrei no diálogo - o negócio do petróleo veio alterar todo esse sistema de enriquecimento rápido…

Nós estávamos aqui para curtir o tempo na companhia de gente gira e como tal entre as muitas falas com os demais amigalhaços e suas baronas, garinas empapoiladas de fio dental, divergíamos as conversas contando anedotas do burgo e das politicas bem periclitantes saindo do tubo ladrão do Supremo Tribunal e outras Câmaras muito enfeudadas no trambique cazucuta deste belo país tropical – O Brasil.

Entrelaçados na estória, esticamos as pernas na água e entre coisas pedidas ou mal contadas, coisas de Angola, fiquei inteirado por FK que numa reacção a dados de inteligência que alertavam para planos do regime angolano que levariam ao assassinato de Jonas Savimbi, Salupeto Pena o militar de quem temos falado ficou conhecido como o autor da frase “se tocarem no nosso mais velho isto vai ficar feio”. O destino dado aos restos mortais de Salupeto Pena foram objecto de versões díspares – vou-te falar; uma outra lenda.

dakota1.jpg Pópilas! Angola está repleta de lendas. Já nem si se tu mesmo eras aquele Nelito Soares que em 1969, numa quarta-feira de Cacimbo, protagonizaste, com mais dois compatriotas do BC 11 dos Gorilas do Maiombe, o desvio, para o Congo Brazzaville, de um avião comercial!? Era um Dakota que seguia de Luanda para Cabinda, com passageiros a bordo. Esse Nelito de que me falas e dizes ser, só pode se uma inventação tua, replicou Fala Kalado. Estás a ficar como esse tal de Agualusa que fala com osgas e, que me tem metido em sarilhos diplomáticos! Nem confirmo nem desconfirmo o que dizes porque euzinho, também não sei!

- Tudo isso se varreu da minha cuca, sabes! FK, disse isto com tanta convicção que fiquei disparando sinais de confusão feitos rolos de fumo invisível. Será que não é? Tal como Salupeto Pena vais ficar nas nuvens da incerteza. A versão do Salupeto que mais se realçou em círculos restritos alegava que na qualidade de familiar direito de Savimbi, teriam reencaminhado o seu corpo para fins tradicionais, num ritual que teria contado com o envio, a Luanda, de um mago oriundo da Índia, razão pela qual diz-se que o corpo do mesmo já não existe.

O desvio do Dakota da DTA, Divisão dos Transportes de Angola, antecessora da TAAG, ganhou proporções tais, que nem a censura feroz do regime colonial em vigor em Angola, como nos restantes territórios, incluindo Portugal, subjugados à ditadura, conseguiu sufocar. Soube disto quando estava num lugar chamado de Tando Zinze, bem perto da fronteira do Congo Zaire álem Catata do enclave.

maian7.jpg Lembro: - Poucas horas depois de o aparelho aterrar em Ponta Negra, era tema de conversas sussurradas em tudo o que era sítio, principalmente, em Luanda e Cabinda. Mais tarde, a “nova” chegou a toda a Angola, por via do programa radiofónico do MPLA, “Angola Combatente”, transmitido a partir de Brazzaville. No M´Puto a Dona Isabel, proprietária de um pequeno café na pequena cidade de Lagoa, que foi locutora dessa rádio durante algum tempo, confidenciou-me isto mesmo (mas, em verdade eu, já o sabia!)... Patrinichi, o empregado de origem kosovar, desta feita andava demasiado ocupado para cuscar nossas conversas…

Glossário: Bem-te-Vi – pássaro parecido com o melro; Cuscar – bisbilhotar; Dakota – Tipo de avião; Kalacata - militar da Unita; Baronas - Mulheres papudas; Garinas – miúdas, catorzinhas; Euzinho – Terminação de Eu, uma forma de dize “eu” em gíria…

(Continua… )

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:01
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Terça-feira, 26 de Novembro de 2019
FRATERNIDADES . CXXIII

ANDO ENKAFIFADO - NA PRADARIA ALENTEJANA  - 07.08.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Cuba de Colombo, no Alentejo

cubo 10.jpeg O tempo não passa pela amizade mas, a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto existe! Desta feita, eu, um caluanda da Luua, juntei-me aos Chicoronhos do Lubango a festejar nossa existência com aquele Jinga Malaia tão peculiar do Reino Fantasma de Maconge e, secundando os líderes, antes cábulas e agora doutores entre os senhores, com eles cantei. Assim só mesmo por falar como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos, revisitamo-nos na pradaria alentejana para rever outros tempos, antes dos nossos tempos!

Em plena Maianga da Luua, capital de Angola, meu pai reconfortava-se também com os amigos na taberna do Álvaro, daquele outro chamado Hernâni com uma mulemba, jogando a bisca e à sueca mais o tentilhão, Por vezes era no Simões dos matraquilhos junto ao Clube da Maianga que o urbanismo engoliu; uns malhos redondos e um escopro ao alto a fazer de alvo. Quem perdia pagava um copo de tinto ou um “Pinochet”. O Mundo dá voltas e aqui neste agora e em Cuba assim irmanados na memória, lembramos o Cristóvão que a rodeou, a terra!  Já não vi ninguém jogando à malha…

Revi ou vi, alguns em realidade, era a primeiríssima vez! O melhor que os amigos têm a fazer é verem-se cada vez que se podem ver porque o tempo ruge. É verdade que, mesmo tendo passados muitos anos, sente-se o prazer de reencontrar a quem já se pensava nunca mais ver. Saudade! Até agora nunca desconcordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição. Coisas de mais-velhos, misturando alhos com bugalhos e melancias com queijo de ovelha destas pradarias…

cuba4.jpg Ali estávamos, REINO DE MACONGE com nosso guia Valério Guerra, o Soba de Portimão do M´Puto e Barão de Capangombe, recordando em verso os tempos gemidos, o luar de guitarras e de janelas perfumadas de Maconge, suas pedras garridas e serpentinas de raparigas – marés do destino não adormecidas. Depois veio o TESTE DO SUMO D´UVA na adega “País das Uvas” rodeados de potes grandes de barro, vinho de talha e assim, fomos sendo contemplados com o verso do BAMBU.

Bambu trazido pequeno das terras de Lubango, mais propriamente do então Liceu Diogo Cão e que agora já crescido assim foi referenciado: Bambus e mais bambus / que haja mundo fora, / soleníssimo será nenhum / como onde a Academia mora, / e Academia não haver, / majestática e bela / como a da imponente Chela, / nem de presidente constará / virtude fama em anais… / nunca…jamais! De Manikongo levei uma múcua que por via da trincadeira  e dum tal de aragonês, ficou só por ali, para ser vista.

cuba9.png Os súbditos Chicoronhos do Reino de Maconge tomaram conhecimento de que para além de qualquer Tapurbana cantada por Camões e, da volta ao Mundo por Cristóvão, Colombo é Cubano! E, se porventura, alguma expedição marítima chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, na forma lenta dos séculos, este também foi o primeiro. Para nós humanos muito cheios de diplomacia, segredos e feitos enviesados sem vento de bolina sempre teremos os arranjos papais, seu significado histórico! Foi assim porque queremos que o seja e, mais nada!

Eu, soba do reino de Manikongo de nome T´Chingange, afirmo que após o achamento do Brasil por Cabral, o Império Ultramarino Lusitano foi integrado sem essas periclitantes notícias arqueológicas de mirar o osso carunchoso do nosso tempo e de nossos ancestrais através dum microscópio fantasmagórico, não certificado em nossos templos. Meu canto, meu mundo antigo, reaparece embrulhado de saudade, neste torrão embora lhe faltam as fitas da kúkia (pôr do sol)… Cativo, vestido com os meus panos, agarrado aos búzios, amuletos, à undenge ami mu Moamba, desse antigo tempo e lugar…

cuba12.jpg Assim sendo o Reino de Manikongo galardoado com o badalo de ouro mais alvissaras, do Reino de Maconge no meio deste fascínio e, porque os tempos idos sempre foram de cobiça, selamos o assunto tapando-o com azeite fino de moura tal com o tintol da talha da Aldeia de Frades e arrabaldes. Encerrando o capítulo por agora pois que o Tratado de Tordesilhas já sofreu seus andamentos e aditamentos na altura devida! Em Cucufate assim como estivesse em Meca dei três amorosas cabeçadas naqueles grossos muros como aprovação dos feitos idos por Cristóvão Colombo e Pedro Cabral.

Nesta altivez senti o dever do estímulo, da bandeira e do hino e os ricos atributos que fizeram de nós um grupo de fiéis cavaleiros das terras do Nunca. É vital para o nosso equilíbrio emocional ascender na mesma filosofia do Reino de Maconge ou Manikongo, “abraçar o vento que sopra da Leba” – Neste agora, foram os Chicoronhos que deram a bênção ao nosso portal da Globália, ”Quando se quer, o pensamento viaja por distintos lugares”. Vamos assim, contribuir com o nosso lema “o mais valioso é o direito de pensar” em liberdade de espírito.

Cuba é Vila por Alvará de D. Maria I desde 18 de Dezembro d 1872. A ocupação humana é aqui muito antiga, visível pelos registos arqueológicos que por si só provam a existência de uma civilização megalítica de 300 anos antes da nossa era. Do tempo da ocupação árabe ficou possivelmente o nome de Cuba, talvez uma corrupção da palavra árabe “coba” que significa uma pequena torre. Cá para mim prefiro acreditar que o nome Cuba, advenha das cubas de vinho que ali foram encontradas no reinado de D. sancho II aquando da sua reconquista aos mouros.  

cuba11.jpeg Nesta grande misturada, O REINO DE MACONGE com seu Sonho, lenda e fantasia em terras Ultramarinas da Europa, ceamos várias vezes na presença dos nobres e plebeus da Real República de Maconge entre nobres do M´Puto. Com lata, lábia e linha mais aprumo, tratamos assuntos de transcendência, remetendo responso às gerações que virão e, para que não se entre nesse entretém de quem foi que o foi; Após o grito de Ginga Malaia seguido ao toque do chocalho, uma grande ovação com salva de palmas a nós e a quem vier! “Há quem nunca esqueça o chão, os cheiros do coração”. Do reino de Manikongo e, para que conste na Torre do Zombo...

O Soba T´Chingange (Do reino do Faz-de-konta de Manikongo)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:51
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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
MISSOSSO . XXXVIII
EU E O FALA KALADO – APONTAMENTOS RELAXADOS
NA ILHA DO CARLITOS – 8ª de Várias Partes22.11.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Algarve do M´Puto)

ÁFRICA11.jpg Foi uma grande e boa surpresa rever-te de perto disse a FK ainda naquela ilha do Carlitos, bem perto de Maceió em Abril de 2018. Sim! Disse ele, o Fala Kalado depois de entornar a sua décima primeira cerveja Skol, depois de ter tomado três caldinhos variados de sirí e dar umas mais de doze bufas sonoras para aliviar o "simsenhor". Tenho de recordar isto ainda recente para que se não me escapem os pormenores e sem açambarcador os cheiros variados, de fugir com a mão no aspirador de aromas.

Naquele dia de Abril, lembro o FK ter dito: A estória só nos anoiteceu! Conclui isto, dando um tremendo dum peido de assustar os “bem-te-vi”. Para eles – disse! Encabulado olhei ao redor mas, não reparei em nenhuma outra anormalidade. Nesta estória, disse eu: -Nós, sempre iremos ficar como um enigma com essa tua morte não morrida no ano de 1974… Pois assim é, assim vai ser! Cada qual tem o legítimo direito a ser uma lenda e, até poder fazer triagem dos acontecimentos, morrendo e nascendo quando lhe aprouver.

salupeta1.jpg Dirigindo-se a mim na segunda pessoa do plural FK, com o dedo em riste falou: - Tu, T´Chingange, já és uma lenda da estória; para muitos a dúvida sempre subsistirá das muitas inventações, tal como das minhas suposições emudecidas no tempo para marinar a vontade de querer e assim se ficar nas lacunas da justiça. Afinal, sou ou não sou um Fala Kalado!?

Entretanto fui deitando umas achas na fogueira: -Tu, desapareceste porque te convinha, concordavas com o Daniel Chipenda e daí ao separatismo foi um passo rápido, posso calcular até teu encontro com o homem do monóculo; sim, esse de nome Spínola com quem mais tarde te encontraste na Ilha do Sal em Cabo Verde. Posso imaginar depois a tua admiração com Jonas Malheiro Savimbi e, o teres aderido de corpo inteiro à causa. Em resposta o FK prolongou um booom titubeando-se no sibilar com eco de seu caroço de adão; se te disser que sim estou a trai-me, a inimigar-me e, o que te poço dizer é o de que foi com Salupeto Pena com quem me identifiquei.
 
Sim! Foi com este que verdadeiramente me revi; foi ele que me levou à mudança com este nome de Fala Kalado! De novo virando seu dedo em riste tipo rifle foi inventariando coisas desavindas dum tempo que só ele sabia, tu nesse então e, ainda sem patente, já eras major sem vestires farda. Referia-se a mim, T´Chingange mas, não era de todo verdade: consideravam-me por via do meu relacionamento social, sempre fui um zero feito cabo-de-guerra desconhecido.

unita01.jpg E, prefiro que assim seja porque também morri vítima de sabotagem. Tive conhecimento disso, disse Fala Kalado; creio que foi Kalakata que me referiu isso mas, também eu andava mais enrolado que papel de embrulhar chouriço saído do esterco. Cheguei a ver os destroços do teu Renault “Major” tal como dizes e desmentes lá na Curva da morte de Kaluquembe. Correu notícia de ser um pouco inaudito, tinhas um galo negro pintado no capô noé!? Verdade! Como assim, lá tive de concordar contigo – ambos temos lendas no nosso curriculum.

Nesta tarde prolongada podíamos olhar-nos na sombra alongada dos reflexos das lagoas do mangue comendo ostras com a particularidade de serem antibióticos naturais. Como assim! Interrogou o FK. Porque estas estão impregnadas de própolis vermelho, esse mesmo que é extraído pela abelha da seiva das árvores do mangue e que colocam nos bordos da entrada de seus cortiços para derrubar qualquer mal. Bem curioso! Nestes porem, tivemos a confirmação de Bento Patrinichi um multifacetado empregado do verdadeiro Carlitos.
 
Com a tarde caindo rápido Fala Kalado foi dizendo algo acerca do passado de Salupeto lá na Luua: - Na tarde em que iriam assinar os acordos que determinavam a segunda volta das eleições presidências em Angola, a cidade de Luanda entrou em “fogo cruzado”. Do hotel turismo onde se encontrava com os seus companheiros, telefonou para o seu homólogo do MPLA, o general António França “Ndalu” para tentar perceber o que se estava a passar e teve como resposta: “façam o que poder” - Logo a seguir ao contacto com general “Ndalu”, o engenheiro Salupeto Pena e os seus companheiros compreenderam que poderiam estar a premio e decidiram, abandonar Luanda em caravana rumo a Caxito onde se encontravam os generais Nbula Matadi e Abilio Kamalata Numa.

angola ginga.jpg O grupo de Salupeto pensava antes, em distribuir-se em diferentes embaixadas estrangeiras, de países onde trabalharam no passado. Porém, Jeremias Chitunda que se encontrava em Luanda a cerca de dois dias para assinar o acordo de paz, teria desaconselhado tendo os mesmos decididos saírem em coluna. Nas redondezas do mercado do roque santeiro, foram seguidos pelas forças governamentais que atiraram contra os mesmos. Salupeto Pena foi gravemente ferido e levado a uma esquadra da Policia no Sambizanga onde seria torturado até à morte, a 01 de Novembro de 1992.

salupeta2.jpg Patrinichi o empregado de origem kosovar veio de novo até nós para dizer que nossa lancha estava quase de saída, e que estava na hora de encerrar o expediente; com muitas desculpas juntamos nossos apetrechos e ainda ouve tempo de, e a caminho do cais se acrescentar às dúvidas outras informações do passado. Pois! Nosso passado é assim contado aos soluços porque ainda não há uma correlação de datas e mistérios com verdades ou mentiras absolutas.

salupeta3.jpg Sabe-se agora. De acordo com as fontes que forneceram esta informação ao Correio Angolense, Elias Salupeto Pena, irmão de “Ben-Ben” e outro proeminente dirigente da UNITA igualmente falecido, também estudou com João Lourenço, na mesma escola e época. As famílias eram amigas e professavam a mesma confissão religiosa protestante. Sequeira João Lourenço, pai do Presidente da República, era amigo pessoal de Loth Malheiro, pai de Jonas Savimbi e avô dos irmãos “Ben-Ben” e Salupeto Pena. Imaginando um jogo de xadrez zarpamos aos esses pelas nove ilhas tropicais…

Glossário: Bem-te-Vi – pássaro parecido com o melro; simsenhor – mataco, rabo, cú; Kalacata - militar da Unita (Caála)

(Continua… )
O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:42
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Sábado, 2 de Novembro de 2019
MALAMBAS . CCXLI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XXI – 19.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus, AI.IÚ.É - TAMBULAKONTA – Isto é África! O futuro está a ficar doente!

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Os conceitos do mundo actual, valores, crenças e as histórias da avozinha, não são mais as mesmas, dizia eu aos meus companheiros no D´Jango do Mukwé, lugar do fim do mundo e aonde o mwadié Miranda Khoisan, meio carcamano bóher, bivacou nas margens do okavango com toda a sua família depois de perseguido pela UNITA e espirros desclassificados que o apontaram como um informador da PIDE/DGS no já longínquo ano de 1975; ele que sobrevivia como podia em seu mato do Calai, vendendo fuba e peixe frito com carne seca fornecida pelo Fernandes Teles da Chibia, um caçador, recolector de estórias ainda não contadas e, com quem vivi na nossa odisseia da diáspora na Cidade de Bolivar, em terras de Venezuela.

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Minha vida é mesmo um rosário de encontros e desencontros, dizia isto à kianda Januário Pieter que sem se espantar ria só átoa de meu espontânea grito de liberdade sempre condicionada aos desaires da política para onde quer que fosse ou aonde estivesse. Lá na Cidade de Bolivar, as baratas e ratos eram os nossos mais próximos vizinhos. Pázadas de cucarachas eram varridas para o barranco próximo que dava para as traseiras muito cheias de restos despejados a eito… elas voavam e entravam por tudo quanto era canto e recanto, frincha e afins mal caiados. E, o Rio Orinoco ali tão perto.

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No M´Puto, na Venezuela, no Brasil, em Namíbia ou África do Sul e até no escambau aonde judas chorou desesperado com todos nós, mortais filhos da peste que nunca o deixam em descanso. E também em África aonde o ontem fica cada vez mais distante e, o que então era proibido, hoje já o não é. Lugares aonde agora predomina a gasosa e fundamentalmente a postura governamental de BLACK EMPOWERMENT; Isto quer dizer uma política substituição do negro em detrimento do branco.

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Vou vos contar, mas isto não tem por onde se pegar! O branco tem de investir e, quando da necessidade de contratar gente tem por lei de dar trabalho em primeiro lugar ao negro em detrimento de um outro e de outra cor bem melhor preparado para exercer uma qualquer função. Se isto não é racismo selectivo digam-me então o que é? João Miranda disse estar já habituado a este relacionamento; Em tudo há um equilíbrio disse: – Nós, comerciantes, sempre temos de coabitar e ceder benesses às autoridades, um dia é um pneu, em um outro é uma bateria ou umas grades de cerveja de gasosa a troco de tranquilidade.

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No final sempre será o povo a pagar por eles, os que mandam; Os tempos mudam rapidamente e para alguns é de consequências pessoais e psicológicas dramáticas. Na administração Sul-africana os brancos funcionários foram substituídos pelos negros, mandados para casa sem a necessária subsistência aos anos vindouros. Pois! Agora os funcionários bóheres que não acautelaram suas economias, andam a jogar bolas nos robotes, semáforos como os palhaços do circo, para subsistir ao abandono social do novo estado de Pretória.

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Vá-se lá entender a pedagogia de produzir surpresas em novas experiências sociais como esta tão desagradável. A Kianda Pieter mantinha-se ausente neste nosso bate-papo. Olhava de soslaio no ar rarefeito de sua áurea de sabedoria vendo os bois a pastar do lado de Angola, a outra margem que dava para o Dírico. E, num repentinamente fala: - Essa concepção de racionalismo opõe-se à filosofia que professa que as ideias se deterioram quando aplicadas às coisas e procedimentos, depois vem a ineficácia com sequente deterioração na coisa pública e privada.

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Pópilas! Januário falou certo como nem meus amigos sociólogos costumam dissertar. Na contraluz da sorte como se estivesse no “Empera´s Palace” de Johannesburg ouvi o grito de “bingo” quando só me faltavam três números dos nove escolhidos. Era a pizza margarita, ainda fumegando que chegava da cozinha da Dona Elisabette; Meu estômago já titubeava uns gargarejos que subiam ao esófago - esta gente aqui em Sud’África não almoça!?

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O conhecimento da realidade moldada pelas teorias modificam-se assim como numa paisagem vista num nascer ou em um pôr-do-sol, uma kúkia que se confunde pela ordem das razões e nem sempre na teoria adequada. Um bingo! A ordem das razões, valorizam a ordem dos factos em detrimento do bem social. Não há maior religião do que a verdade! Com este pensar de Dalai Lama na cabeça e passeando por África, vi gente branca, (também negros) a pedir nos semáforos, nos parques de estacionamento, um pouco por todo o lado. Trazia na minha mochila palavras de apreço mas, jamais as poderei usar aqui no bom sentido!

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Passeio por terras idílicas que contrastam suas belezas, doirados e arredondados montes com seu verde, flores de Augrabies, penedias com secura e ainda o azul do mar; dos sargaços bailados em meus sonhos como ondas aonde se pode ver o redondo do horizonte nublado por ideias e ideais torpes de governantes perpétuos. Mas estando eu num planalto africano e a mais de 1600 metros de altitude pude em conversa saber que a áfrica fica a cada dia que passa, mais longínqua para os brancos. A estas apreciações Januário Pieter nada diz; na sua qualidade de super-star kianda, não entra nesses detalhes minoritários.

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Levei a cabo a travessia desde Cape Town até à Cidade de Maputo, antigo Lourenço Marques. Passando por Windhoek, Walvis Bay, Victória Falls, Lago Kariba no Zambeze, Tete, Beira, Chimoio, Macia-Bilene e por fim Maputo no ano de 1999. Mas, foi aqui na região da Ovambolândia que atravessei ilegalmente o Cubango numa tosca jangada construída sobre seis tambores. Só queria mesmo pisar o outro lado do sonho e foi quando me encontrei com um velho bosquímano do lado de Angola que fiquei a saber que meu sonho se tornaria lenda. Em uma casa de taipa, um kota costureiro, curtia com serena quietude sem portas nem janelas em chão de areia e, num ar que ziguezagueava frescura entre panos garridos. Não sei como aqueles panos chegavam ali e, saídos do Kongo, talvez um estoque antigo dum Tuga! Na rua de terra, os galináceos picavam reflexos de lama em gaiolas de pau entrelaçado à sombra de velhas acácias. Homens pesarosos, refilavam merdas, só por refilar, descarregavam um velho camião bedford. África, andava por aqui agarrado ao medo da sua sombra. Por vezes, era assim com coisas banais que ocupávamos as vírgulas do nosso tempo no lugar do Mukwé…

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

mlibize kariba1.jpg GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mwadié – Branco; Cucaracha- barata; Kúkia – Sol, pôr do Sol; Mujimbo – boato, diz-que diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato;  Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Tambulakonta – Toma nota, fica atento; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:50
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Sábado, 19 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXL

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XX – 18.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba001.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Nos dias que se seguiram na beirada do rio Cuando que aqui tem o nome de Okavango e, do outro lado da margem, no lugar de Ovambolândia da Namíbia, Januário Pieter - a kianda, já aparecia no D´jango de Mukwé sem fazer aquela fumaçada com cheiro a mofo de trezentos e noventa e quatro anos. Embora tivesse sempre aquele jeito e forma de holográfica figura, assim como uma máscara de cera repenicada de minúsculas partículas fosforescentes encarquilhadas de velhice, era cordato e sempre aparecia com um cheiro silvestre diferente, misteriosamente mais penetrante do que o perfume “Aramis”.

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As tardes continuavam a fazer-se vermelhas no horizonte poente e, de vez em quando, umas bátegas fortes de água precedidas de trovões que rebolavam o sótão de nossas cabeças até esconderem entre carregadas nuvens; estas, refrescavam o ar muito áspero de tórrido calor sentindo-se em seguida aquele cheiro que sai da terra. João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans, fazia por estar sempre presente. As conversas eram bem variadas mas o mote mais interessante dos diálogos vinham da sapiente Kianda.

miran08.jpg ::::180

Januário, tinha o condão de nos prender às descrições com efeitos de arrepios, uma reacção de outro mundo, sensações tão estranhas que até parecia navegarmos numa dimensão quântica, coisa que nem sei bem definir porque for vezes nosso corpo ficava num formigueiro agridoce. Nesta conversa rebrilhando actos antigos, Pieter sempre buscava recordar coisas de Angola. Claro que eu e Miranda estávamos propensos a coisas acontecidas e, que o tempo embrulhou junto dos mujimbos embrutecidos. Nossos sentidos apurados ouviram então:

- Carlos Fabião, o general vermelho designado para lidar com o PAIGC e Flávio Bravo, membro do bureau político de Cuba, em Julho de 1975, encontram-se com Agostinho Neto no Congo Brazaville.

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Demos em sintonia uma golada de supetão no café saído quentinho da chaleira ali na fogueira do D´jango. Aquelas gotas de cachaça do M´Puto no café mistura de Amboim com S. Tomé eram mesmo as requeridas para os ouvidos, uma comunicação interna entre estes e o canal digestivo. Januário depois de um compasso de espera continuou: - Fabião, Flávio Bravo e Agostinho neto, acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota e que ficou conhecida como a Batalha de Luanda. Entre Maio e Junho Fidel de Castro inicia a concentração de unidades em Cabinda e em Julho, acelera a infiltração de seus legionários em Angola, jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água”.

miran11.jpg :::::183

Castro, pede ao Coronel Saraiva de Carvalho mais recursos para o MPLA e condições de infiltração em Angola em sítios estratégicos ao redor de Luanda. Assim, a partir de 26 de Julho de 1975, começam a chegar ao Ambriz em aviões C-130, batalhões de Catangueses que antes actuavam na Lunda contra o MPLA: Estes guerrilheiros Catangueses, dissidentes do então governo de Kinshasa, num total de 6000, foram aliciados a servir o MPLA em um acordo secreto em terras do Leste de Angola; o vermelhão Rosa Coutinho liderava estas diligências.

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Embevecido, João Miranda do Mukwé era todas orelhas! Resmungava como que rosnando e eu ali em pulgas tremendo de ansiedade numa overdose, mais um trago e escutando: -Esta complexa Operação Carlota, consistia em assistir ao MPLA a fim de tomar a liderança na tomada de Angola, formando uma ponte entre Cuba e Angola. Tropas e material eram embarcadas em velhos aviões Britannia na base de Holguim, a ocidente de Cuba; estes aviões faziam escala em Barbados no aeroporto de Bridgetown.

miran10.jpg :::::185

A intervenção Cubana em Angola, nos inícios de 1975, não foi uma reacção à invasão Sul-Africana remata Miranda saído da letargia aparente; isto é posteriormente afirmado pelo General Cubano Rafael Del Pino, concluiu. Neste relato da conversa com Januário Pieter recordo agora que até lhe tinha tirado o rumo da conversa pois que o interrompi ao perguntar de como é que foi desmantelada a força da FNLA. A isto, a Kianda respondeu-nos: - Diaz Arguelles responde às forças de Holdem Roberto com a artilharia reactiva de 122mm (misseis).

A partir de cinco de Novembro, 650 tropas especiais de artilharia às ordens do General Pascual Martinez Gil, chegam durante 13 dias ao aeroporto de Luanda directamente de Havana.

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- Migs 21, saídos do antigo Aeroporto Craveiro Lopes à guarda dos Tugas, picam sobre as forças de Holden Roberto além Kifangondo, chacinando-os, ... Um massacre, ... Morreram como coelhos. – Meus amigos, se quereis saber mais pormenores, têm de falar com gente Kianda de Bom Jesus, Catete e claro da Praia do Sangano em Cabo Ledo. Talvez alguns kotas de lá, vos possam contar estórias desses primeiros e últimos dias da Operação Carlota pois que tiveram de conviver com os Cubanos, oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. De todo o modo a Kianda Mr. Google vai dando mais alguns detalhes! (... Mr. Google? …)

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Fidel de Castro ao enviar suas tropas a 14.000 km da costa cubana, respondeu ao trato com seu amigo Agostinho Neto e seu Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), que acabava de chegar ao poder após a retirada portuguesa. Neto enfrentava a ameaça das guerrilhas de Holden Roberto “apoiado pelo Zaire” e da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), de Jonas Savimbi, que agia com o respaldo e participação da “África do Sul”. Velhos e novos aviões e navios mercantes entram em cena. Castro em Outubro de 1975, enviou um contingente militar por avião através do Congo-Brazzaville, para impedir que aquelas forças tomassem Luanda antes de 11 de Novembro, dia que se proclamou a independência. Mais uma vez, adiamos nossas odisseias com os khoisans…

áfrica19.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mujimbo – boato, diz-que,diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:35
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIX – 11.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios)

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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A verdade é como o azeite, vem à tona de água com o tempo; as memórias que antes eram mugimbos, tornam-se agora verdadeiras. Já a tarde se fazia noite quando eu e Januário Pieter nos voltamos a encontrar na beirada do Okavango e desta feita com João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans. Foi este o homem que chefiou esses especialistas do arco e flecha na invasão dos Sul-Africanos do Batalhão Búfalo- 32 tendo chegado às margens do rio Cuvo - Keve junto às quedas da Binda, entre a Gabela e o Sumbe… Após um pequeno estampido, um fumo feito holograma faz-se gente, e nós, num surpreendido susto, demos cada qual seu salto entornando os copos de cerveja Windhoek em nossos zuartes. Este inesperado susto deu lugar aos comprimentos perante a admiração espacial de Miranda. Tive de, muito na calma dizer-lhe ser este velho senhor uma Kianda que me acompanha desde nosso primeiro encontro em Jablines de Paris de França e quando pela primeira vez fui ao famoso parque da Disneylândia com minha neta!

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Surgindo de quando em vez, ali está ele a clarear coisas obscuras que ocorrem em nossas cabeças, coisas ainda por falar entre nós mas que ele desbravou em sua lanterna fosfórica do tempo. E sem mais nem porquê ali está ele pronto a falar connosco por via de pensamentos dúbios que normalmente vociferamos nas conversas banais. Essas coisas da arca-da-velha a fazer de vírgula nos acontecimentos. Só direi que este kota Kianda, seco de carcomidas carnes tem a bela idade de 394 anos. Como o tempo não nos rugia, recordei depois dum abraço longo e largo do tempo em que sentados em uma esplanada “Plaza Mayor” de Burgos de Espanha, ouvi Pieter descrever as descobertas feitas na sacristia do “Monastério de la Cartuja”.

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Recordo dez anos trás teres-me dito que um teu tio seguindo as pisadas de seu pai Lestienne não sei das quantas, francês, poderia escrever em um livro sobre as judiarias ainda não reveladas da estória difusa e confusa do início da reviravolta em Angola. Não me esclareceste isto nessa altura porque estavas com pressa. Também afirmaste ser isso tarefa para mercenários da escrita ou fazedores de mambos, recordas? Miranda assistia à nossa conversa sem vislumbrar peva de qual era o objectivo desta longa introdução assim sem capítulos nos preâmbulos mas, logo espevitou as orelhas quando se falou na alteração do rumo à história da guerra daquele tempo no lugar de Cabo Ledo e na praia de Sangano. Pois disse eu abrindo as duas mãos solicitando atenção Pieter! Em verdade tu (ele) falaste das meias verdades contadas por Pepetela e um tal de Tchiweka, o homem segredo conhecido por Lúcio Lara, o grande ajudante em campo do Vermelho Rosa Coutinho, o Almirante.

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Não! Não é bem assim como dizes, disse abanando seu templo reluzente de sapiência: Esse meu tio de há quatrocentos e dez anos atrás, rumou até Cádis e no Puerto de Santa Maria no Sul de Espanha embarcou à descoberta das Américas. Ele nunca esteve em África! Agora essa estória de Cabo Ledo, minha terra natal, é só minha! Fui eu que a vivi! Diz peremtóriamente para ficar claro na minha debilidade. Pois é, fiz confusão pela certa, disse eu fazendo um trejeito de muxoxo mal disfarçado para Miranda do Mukwé inclinando a cabeça na forma de dizer aconteceu… Pude ler seu pensamento: - Aguenta parceiro!

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Mas, o que é que esta Kianda de trezentos e noventa e quatro anos sabia das artimanhas do glorioso PREC - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, combinado unha com carne com o glorioso MPLA? Isso! Das coisas que desconhecíamos ao pormenor por tão bem escondido de todos. A verdade é como o azeite! Rosa Coutinho marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas pois que teve o seu início numa gaiola. Em verdade, foi Holden Roberto como patrulheiro da fronteira do Zaire que fez passear em jaula como um macaco, o Vermelho General. Bem! Isto já era do nosso conhecimento, meu e de Miranda…

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Como já disse, as aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim, são uma permanente descoberta de novos pedaços de infinito. E, Pieter descreve: - Por entre os cactos das barrocas, entre a bruma da maresia e clareando, vi centenas de militares percorrer o areal, reunir apetrechos de guerra, subir para carros do tipo unimog e galgarem a montanha da costa a caminho do quartel, uns galpões construídos lado a lado e que seriam as primeiras casernas daquela gente que vim a saber pouco depois serem Cubanos. Estávamos em fins de Julho do ano de mil novecentos e setenta e cinco.

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Mas, interrompo: - Os Cubanos, pelo que consta, só a cinco de Outubro desse ano, é que chegam a Angola. Foi o que sempre disseram quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês souberam o que Rosa Coutinho queria que soubessem. Foi na praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”; os instrutores deste equipamento sofisticado estava a ser coordenado pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville eram enviados numa primeira fase em aviões mais pequenos para a pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

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Andrei Tokarev afirmou que o seu comando enviou oficiais e sargentos que se aquartelaram em instalações abandonadas pelos Tugas: estes quarteis contornavam Luanda que em sequência das orientações do agente vermelho Rosa estavam ao abandono. Por esta altura desde Kifangondo passando por Katete, Colomboloca, Kassoalála, Kassoneca, Dondo, Massangano, Muxima, e descendo o rio até a foz do Kwanza e Cabo Ledo já estava tudo queimado: Ficaram algumas estruturas de pé para assegurar bivaque aos novos guerrilheiros e instrutores do MPLA.

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- Tudo o descrito só é possível a partir da chegada a Luanda do Vermelhão Rosa como Presidente da Junta Governativa de Angola precisamente em Julho de 1975 -Estava tudo traçado, continua Januário Peter. Rosa Coutinho, tempos antes como Alto-comissário escreve uma carta timbrada do antigo Gabinete do Governo Geral de Angola a Agostinho Neto, presidente do MPLA nos seguintes termos: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do processo: Aterrorizar por todos os meios os brancos, matando, pilhando, e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos,...” A Carta é datada a 22 de Dezembro de 1974, terminando com saudações revolucionárias, a vitória é certa, seguindo-se a assinatura, Alves Rosa Coutinho, Vice-Almirante.

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Recorde-se que a tropa Tuga, foi proibida de entrar nos musseques a fim de proporcionar “O poder popular”, simultaneamente retirando as armas em posse dos brancos. Há muitos buracos por preencher. Lúcio Lara, o “Tchiweka”, já pode desvendá-los, antes que se deturpem. Isso é verdade sim! Mas, nessa altura o assunto tinha explodido as veles de ignição de nossos medos, nossas preocupações; nossas cabeças eram uma revoada de coisas ruins…Vivi esta estória amigo Januário, disse. E, acrescentei: - O medo tomou conta de todos com ajuda da FUA, liderada por um tal chamado de Falcão, acrescento eu para a Kianda do Cabo Ledo. Falcão ou falsão? Disse João Miranda do Mukwé. Neste início de noite ficamos assim sem mais falar dos Khoisan…

miran03.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:27
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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVIII – 26.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Falando dos Khoisans neste ano de 2019, não sei se os exploradores Tugas de outros tempos davam importância a alguns factos mas, se o fizeram ficaram relegados para segundas núpcias de estudo nos cadernos africanos do tempo da tzé-tzé. Serpa Pinto recebeu a missão de estudar no Alto Zambeze a construção de uma linha de caminho-de-ferro que assegurasse a ligação do lago Niassa com o mar; apoiado com uma forte coluna militar, junta-se mais tarde no baixo Catanga a outra coluna portuguesa vinda do Bié, sob o comando de Paiva Couceiro.

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Portugal deu assim início a várias acções de ocupação naquela área de África entre 1887 e 1890; Artur de Paiva ocupou o Bié e Paiva Couceiro foi enviado para o Barotze aonde numerosos sobas prestaram vassalagem a Portugal, procedimentos daquele tempo. Tendo isto em vista, os ingleses começaram a aliciar os chefes indígenas das regiões visadas, incluindo aqueles que já tinham prestado vassalagem a Portugal como os Macololos e os Machonas e até o célebre régulo de Gaza, Gungunhana. Os resultados da Conferência de Berlim, acordaram Portugal para a realidade – Sua força estava depauperada…

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Se bem que o esforço estratégico tivesse sido orientado para África após a perda do Brasil, pouco se tinha feito por via da instabilidade da vida político-social da Metrópole, o M´Puto e das extensas vulnerabilidades existentes. Tendo eu atravessado o Botswana em inícios do século XXI retive da estória que este país começou a ser desvendado por exploradores a partir do século XVIII, dando-lhe o nome de Bechuanaland mas, após a sua independência a 30 de Setembro de 1966, toma o nome de Botswana com junção do prefixo "bo" que quer dizer homem em língua Bantu a de "Tswana", nome da tribo mais numerosa daquelas paragens.

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Antes dos pormenores descritivos da viagem em terras do fim do mundo saindo e chegando ao Divundo de Caprivi, lugar dos Miranda do Mukwé e, um entroncamento de vivência de diferentes países, convêm relembrar que os aborígenes habitantes ancestrais do Botswana foram os bosquímanos (bushmen), khoisans, caçadores-recolectores que se espalharam pelo grande Kalahári e deserto do karoo. Em uma outra viagem anterior tive oportunidade de observar estes indígenas errantes no seu meio natural; foi no Kalahári Gemsbok National Park entre Twee Rivieren e Bokspits, um lugar ermo, divisão de fronteira que os vi pela primeira vez e, em uma situação não previsível..

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Ali estava um grupo entre a picada usada na mulola de um rio seco e, que paramos para fornecer água a esses pequenos seres de tês parda, secos de carnes, vestindo pequena tanga taparabos; deslocavam-se em pequeno grupo com algumas lanças e flechas mais apetrechos simples. As mulheres distinguiam-se por levarem ornamentos na forma de pulseiras nos tornozelos. Enchemos suas cabaças ouvindo um linguajar de estalidos do jeito de macancala que creio ter sido de agradecimento, misturados com sopros de suspiros e aspirações guturais do qual nada se entendeu. As mulheres levavam imbambas de cozinha, enxadas de ferro afiado e enfiado no nó de um tronco robusto a fazer de cabo e trastes envoltos num saco em cabedal. Tudo estava suportado nas costas por uma tira ornamental e larga com bonitos desenhos que se ajustava à testa.

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Realizando regulares eleições o Botswana, ao invés de outros povos de África, é considerado um exemplo de estabilidade política. É um grande planalto árido situado bem no interior de África meridional. É daqui que saem para o resto do mundo os mais puros diamantes dando ao povo um modo de vida melhor equilibrada do que a grande maioria dos países do continente negro. Os principais grupos étnicos são os Tswanas, Kalangas, Khoisan entre outros dos quais os brancos nativos dali e indianos que para ali foram saídos do Quénia, Zâmbia, Tanzânia, Ilhas Maurícias, África do Sul e principalmente do Zimbabwé aonde a instabilidade ditada por Robert Mugabe a isso os obrigava.

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Lendo descrições antigas dos khoisans revejo-me como se fosse Silva Porto a descrevê-los. Magros, ossudos, envoltos em peles de panteras ou chitas e com os cabelos penteados em tranças longas. São estes os grandes caçadores desta parte de África; dóceis e selvagens no aspecto como sempre os referem, descendo e sobindo ao longo das linhas de água, rios que os mata a sede com seus charcos; T´chimpacas naturais com nomes de t´chicapa e, em terra de mwene- mãe nos sertões com nomes de Lubuco ou Lubo, distantes do principal rio, o Cassai, aonde as manadas de elefantes são às centenas.

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Os cadernos coloniais referem que nestas suas correrias e naquele tempo de descobertas, estes, vendiam ao desbarato dentes de elefantes, borracha e mel. O major de infantaria, Alexandre de Serpa Pinto, realizou a viagem de Luanda ao Natal, em 1879; e os oficiais de marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em 1885 exploraram todo o sertão de Moçâmedes a Quelimane, num percurso de 4.500 milhas no intuito de ligar Benguela de Angola à Beira passando por Tete e, terminando na Beira Moçambique no Oceano Indico. Estas viagens causaram a admiração na Europa e glorificaram o nome de Portugal mas…Mas, tem sempre um mas! Naquele tempo havia um Inglês que dizia que aquilo era tudo dele; chamava-se Cecil Rodes e, este pretendia fazer uma linha de caminho-de-ferro desde a Cidade do Cabo nas terras descritas pelos portugueses como do Adamastor ou das Tormenta até ao cairo no Egipto.

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Pois este, não fez, nem deixou fazer. Um imbróglio que mete o tal mapa Côr-de-Rosa que nunca desabrochou como Flôr. E, tudo apenas para numa farsa diplomática cortar o mapa Tuga a meio... Sabemos agora que este rail chega à Tanzânia mas, diga-se que mais depressa chegaram os portugueses com o CFB à fronteira do Zaire no rio Luau... Com destino à cidade de Fracistown, lá prosseguimos viagem a partir de Maun por estrada pavimentada rolando quilómetros na savana, vendo de quando em vez, aglomerados de kimbos. Com os restos de murmúrios falsos, tinhamos a ideia formada de que o Botswana era um país esquecido com muitos burros mortos na estrada e desordenadas lixeiras, a comparar com outros países aonde impreparados chefes exibem arrogância impregnada de devaneios mal curtidos mas, foi um total engano.

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Logo à entrada em Popavalle ou Popa Falls, um posto fronteiriço, deparamos com o aprumo de agentes aduaneiros que nos atenderam duma forma surpreendentemente civilizada ao invés de outras anárquicas fronteiras aonde tudo se resolve com uns quantos dólares de gasosa. Estes, na forma de quilombos com palhiça em circulo e, a contornar palhotas redondas, rondáveis feitas a barro, bosta de boi e chinguiços, formavam conjuntos harmoniosos numa vastidão de capim ralo. Conhecer a terra é em verdade um laboratório de vida constante porque nos purifica e regenera. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções recolhidas na terra…

lifune0.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

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GLOSSÁRIO: Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Rundu, – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Potcheftsroom – Cidade sul africana; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Undenge ami mu muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada...

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:12
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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XV24.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos antes e depois do fim do século XX  – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus… um uuabuama da Dipanda*

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos; o dia a seguir começava ao romper do dia, com o piar dos pássaros, o coaxar das rãs que nem pavarotis a repetir-se com ecos misturados nos ruídos de bichezas como um espreguiçar da natureza. E pela tarde, nossas conversas voltavam a recordar o que foi o tundamunjila (o vai embora), já com a tropa portuguesa chamada de NT – Nossas Tropas, que não o pareciam ser, a dar alguma ordem à desordem. Nos primeiros dias de Novembro de 1975 já era efectivamente o Movimento MPLA que mandava.

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As NT-Nossas Tropas, que tudo cederam ao MPLA, num dever mínimo e institucional, fizeram nos últimos dias a segurança possível nos terminais de comunicações marítimas e aéreas de Luanda, aeroporto civil e militar do porto e Ilha do Cabo controlando o eixo Ilha – Fortaleza de S. Miguel, Palácio da Cidade Alta e Quartel-general. A saída dos portugueses ditos colonos e uma grande parte de gente descrente e medrosa de outras etnias, maioritariamente funcionários brancos, incentivadas a sair por coacção e medo, assim o fizeram como carneiros dirigidos ao matadouro; tiveram assim e deste modo peculiarmente vergonhoso um futuro embrulho de um vazio em troca de uma passagem para a metrópole – o M´puto. Muitos saíram para o Mundo de avião, de traineira, de carro ou tractor e até a pé sem saber qual o destino final. Nova Lisboa, a cinco de Outubro de 1975 era uma cidade morta, aonde ficaram somente trinta brancos. Na terceira semana de Outubro a evacuação do Lobito, Benguela e Moçâmedes estava concluída. Em Luanda a quantidade de deslocados era já muita; superior à capacidade diária de escoamento.

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O conflito não parecia afectar a produção da Golf Oil Americana que continuava a extrair mais de cem mil barris de petróleo por dia. As obrigações financeiras iam direitinhas para o Banco de Angola já com a gestão do MPLA na pessoa de Said Mingas, um antigo colega meu por cinco anos, na Escola Industrial de Luanda. Nenhum daqueles rendimentos iam nesse momento para Portugal. No dia 23 de Outubro a pretexto da invasão Sul-africana e a incursão Zairense, o Estado-maior das FAPLA decreta a mobilização geral de todos os homens entre os 18 e os 35 anos. Este recrutamento abrangia todos os naturais de Angola ou lá radicados. Os estrangeiros teriam de se apresentar nos Postos Policiais para validar e autenticar os documentos a fim de registar sua permanência. Era-lhes dado três dias para tal!

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Naqueles tempos da Luua, todos faziam o que lhe dava na gana com a Kalash na mão disse eu, saltando um pouco no tempo sem definir datas ou horas exactas. Miranda referia algumas agruras do mato da região do Calai, Dírico e Mucusso, posturas de gente impreparada a querer tomar o controlo de tudo e, que originou a sua fuga. A lei, a ordem, a justiça eram coisas quase inexistentes ou anedóticas pela pior das negativas… Um retrocesso ao tribalismo com todas as nuances, tudo muito carregado de misticismo e crenças de quimbandas ou sobas analfabetos e sem o mínimo de preparação para gerir o que quer que fosse. Melo Antunes, Mário Soares e outros encarnados na vermelhidão, decerto lá nos areópagos internacionais, não dissertavam conversas destas com Kissinger porque para estes, tanto se lhe dava que fosse assim ou assado, logo que tivessem o controlo do ouro negro – o petróleo já a sair pelo tubo ladrão da Golf Oil Americana. Alguns de nós, manietados de todo. a tudo assistíamos martelando caixotes, rilhando o dente sem mais poder fazer.

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Ter-se em conta que num vale tudo, o MPLA deu-se ao desplante de meses antes, ir ao Laboratório do Instituto de Medicina Legal de Luanda retirar órgãos humanos para propagandearem em muitos posters, que a FNLA era um bando de antropófagos, que comiam fígados e corações de gente – Uns canibais, afirmavam eles! Já não havia médicos, escasseavam os géneros de primeira necessidade e quanto aos novos supostos dirigentes tinhamos receios. Dos três líderes nacionalistas, era Savimbi o mais inteligente, o mais hábil e o mais forte politicamente para uns; também para mim – também o mais conotado com os militares portugueses no antes da Abrilada.

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Os políticos da nova vaga vermelhusca do PREC não se cansavam de repetir isto e aquilo sobre Jonas Savimbi e sua colaboração com os militares antes do “vinticinco” de 74; para o MPLA, era incontestavelmente seu líder Agostinho Neto, um medíocre poeta com formação universitária em Coimbra – O homem escolhido pelos generais e afins do MFA (Dizem agora, ter sido o menos mau!). Quanto a Holdem Roberto não tinha solida formação política, era um fraco e facilmente corrompido; dependia de Mobutu e dos americanos de uma forma sorrateira mas sobejamente conhecida! Nos muitos dias insólitos daqueles tempos, na meditação actual, encontro factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem.

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Amigos, vendendo-se a inverdades ou recorrendo ao esquecimento e, ao não me lembro como se tivessem levado com um martelo amnésico! Nesta minha tirada, recordo o quanto João Miranda riu e riu, engasgando-se. Em um novo dia, internamo-nos numa sinuosa picada de areia a visitar um lugar já conhecido como Suclabo Lodge propriedade duma madame de nome Suzi mas, agora com o nome de Divava Okavango Lodge e Spa, cinco estrelas de “elegant style and luxury”. Cumcamano, disse eu depois de pisar o paradisíaco sítio cheio de coisas “good” logo a seguir a cubatas feitas de barro e capim com dois por dois metros, e muito matutar de como caberia ali um par de gente sem os pés encolhidos.

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Eu, João, Bruno, filhos de Ana Maria e seu tio Alemão Franz lá fomos em uma pequena balsa com motor à popa e um bafana enfarpelado de caqui, seu chapéu de carcamano do Divava, um surtido de águas, refrescos e cervejas na caixa térmica, ate á base dos rápidos do Popa Falls. Naquela turbulência e com nossas canas de carretos, estralhos, amostras bizarras e bizarronas, farfalhudas ou reluzentes, atiramos e recolhemos, atiramos e recolhemos e, por aí, repetido sem nada pescar e, eis que o campeão João num truz recolhe um peixe tigre cheio de dentes pontiagudos aí com uns dois quilos que, foi tudo na soma da pescaria, um tigre e três nadas.

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Pela picada de macadame encrespada de ondinhas já para lá do Divundo, dos vários cuca-shops e cola-colas dos chineses, passamos locais de kimbos dispersos e lodges junto ao rio como o Rainbow Lodge,  Nunda River,  Ngepi Camp ou Ndhovu Safari. Mas foi no Mahango Safari Lodge escondido no denso arvoredo verde e bem na margem do rio que subimos numa barcaça. Passear ao longo do Kavango até quase o Botswana; visitar depois os rápidos e remansos, já com as águas do kuito, águas que inundam o Delta do Okavando; um mar muito antigo a dar vida aos muitos n´dovus ou jambas que conhecemos por elefantes, entre hipopótamos búfalos e outras muitos espécimes.

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Num outro dia, um outro ano e noutro entretanto e, já depois da guerra acabar, João Miranda é convidado a abrir um estabelecimento na capital do Kuando Kubango, Menongue mas, depois de concretizar o envio de géneros de primeira necessidade para um super mercado, vê-se na periclitante situação de ficar sem nada pois que os senhores da nomenclatura local afectos ao MPLA, cada qual tratou de se apetrechar desordenadamente, remetendo o pagamento para o estado, uma coisa assim parecida como um saque. Aqui, eu ri-me em surdina, mas, deu para perceber meu silencioso lixaste-te! Miranda, de novo, ficou a apitar em seco. Disto, nada vim a receber, disse Miranda já muito habituado a estas truculências de dirigentes mwangolés do JES. Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, ouço de novo João Miranda: -Isto é mato, amigo!

div4.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIOBafana – serviçal africano com indumentária de lugar turístico; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Xirikwata – pássaro que come jindungo; candengue: - moço, rapaz; Luua: - Luanda, capital de Angola; kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:08
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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIV 21.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

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TEMPOS PARA ESQUECER – Sentados no alpendre da casa do Mukwé, totalmente feita com madeira de primeira das matas do Cubango, e ainda no século XX, olhando o rio Cubango (Okavango), ao sabor de um café colhido, secado, torrado e moído no local, eu e João Miranda conversávamos sobre a terra de que fomos obrigados a abandonar. Eramos ambos da mesma opinião: Muitos dos “libertadores de 75” os mwangolés de hoje, sonhavam com a casa, o lugar de director, o carro, os privilégios e as posições dos colonos que vendiam peixe frito ou carne seca lá no mato.

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Por vezes em muxoxos, referiam também ficar com a mulher do colono – um desvario alimentado pela midia do M´Puto, pelo MFA e seus generais da mututa. Em Angola “conquistaram” isso, a independência e, tornaram-se piores do que os colonos…Em Kampala, o presidente da OUA, Idi Amim Dada, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP- MFA de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça.

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Em Pereira D´Eça (a actual Onjiva) o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta por ser esta região afecta à UNITA - um povo Ovambo ou Ovibundo. Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas ali sediadas e uma declarada provocação ao Movimento da UNITA. Manuel Resende Ferreira disse neste então: -Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam (uma população maioritariamente branca e assimilados).

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Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito criaram ali uma zona de segurança à revelia de seus comandantes do MFA. O comportamento da UNITA teve forçosamente de mudar de táctica e, seu posterior comportamento no Lubango e áreas do Sul que, levaram a desconsiderar tanto o Movimento como o seu Presidente Jonas Savimbi que por ali esteve em tempos de estudante.

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São aqueles os heróis esquecidos, soldados de Portugal que abandonam o exército comunista Português para protegerem cidadãos e, lutar contra a anarquia comunista. Eu e Miranda ressaltamos bem esta nossa postura; mas, quem éramos nós para vaticinar e politicar a enviesada saída do M´Puto pelos homens que antes tinham sido heróis, como esse do Spínola da banga desmedidamente parva e até caricata, usando luva, monóculo tipo Eça de Queirós, botas de montar lustradas e um pingalim – fetiches de túji que também por vaidade o levou a escrever isso de “Portugal e o Futuro”.

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E, que foi feito do Tenente Fernando Paulo? Pensando nele demo-nos conta que era o fim do império colonial. E isso, nós (Eu e João Miranda) queríamos que acontecesse sim! Mas, e mais mas, tão seguidos mostraram de forma paulatina as feras sendo largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! Tarde piaste! Momentos de muita inocente incerteza; abandonar tudo, entregar a chave do carro ao jardineiro da casa, o cão pastor alemão à Mariana, uma exemplar serviçal ao nosso serviço, na Caála, no Kuito, um qualquer lugar com picada de acesso. E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? Talvez Brasil!? Quem sabe – Austrália ou Argentina!

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As NT - Nossas Tropas, já não eram nossas, davam cunhetes, canhões, paióis inteiros e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina, Nakuru… Mostravam ao MPLA abertamente as fotos aéreas em progressão do “inimigo”; davam-lhe as coordenadas, organizavam planos de voo com dados de meteorologia e até furtavam casas aos colonos e afins em apoio ao MPLA: Isso! Saque dos haveres de colonos que saíam desordenadamente de suas casas, abandonando tudo.

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Uma frieza ímpar na história de Portugal. O MPLA da Luua inventava a maka! E, eram makas sobre makas, paralisações descabidas. Inventavam os pioneiros que eram trabalhados em marcha no esquerdo e direita por jovens estudantes do M´Puto! Estudantes que regressados à Metrópole tinham passagem administrativa garantida; o tal de PREC. Depois o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a vitória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito… Tudo era planificadamente certíssimo! Melo Antunes, Rosa Coutinho e uns quantos mais que ainda não deram à sola pró álem.

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As makas organizadas com o objectivo de criar o caos, originar pancadaria e depois a vitimização com características de sofisticada mentira; meter tudo no barulho, pressionar psicologicamente e criar condições de favorecimento por parte dos militares do MFA, as NT, o CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário. Às tantas, já se fazia tudo às claras. Até o Idi Amim Dada se dava conta de tudo isto! Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Neto (era só mesmo para agradar àquele diplomata da USA…).

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Esse cérebro guia dos demais, chamado de Melo Antunes, foi dizendo a Kissinger que era difícil de classificar politicamente Agostinho Neto como um comunista ortodoxo! Agostinho Neto, à coisa dada (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Mas, que grandes mentirosos! Neto, com laivos de poeta (diga-se de baixo coturno…), dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto, quando em verdade, tudo teve destes (traidores…) Mas que pulha! Bem feito, cambada! Alguns não gostaram, diga-se… Assim e com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos…

fuga3.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Banga – estilo, vaidade excessiva; Tuji – excremento, merda; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Mututa – da bosta, de ralé; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Kapooto – Vinho bolunga feito a martelo, de fermentação rápida com pilhas de lanterna; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Domingo, 22 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XII17.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Percorrendo os muxitos da África com a família, passando por tantos desertos, um mundo a perder de vista e cidades desconhecidas do mundo, subimos para norte até o Rundu na margem do Cubango e seguir mais tarde para lá de Catima Mulillo às margens do rio Zambeze. Nós, uns gwetas com olhos de águia, íamo-nos tornando mwatas na interpretação das terras do fim-do-mundo conciliando no antes e no agora daquela região de Okavango. De novo revisitamos as mulembas de N’Zambi com os kambas daqui, mais dali, ouvindo suas falas de espanto. Mostraram-nos aquele arbusto parecido com rebentos novos de loureiro de onde cortam umas varas para introduzir na boca dos sobas ovambos defuntados. Se apontei seu nome, deve estar agora a zunir-me por tal esquecimento

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Sim, lembrei! Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho gorduroso de envolver manteiga no lugar do Mukwé; ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas, águas que dão cheiro à terra fantasiando nossas lembranças – um cheiro difícil de descrever – só mesmo cheiro de chuva. E, foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo.

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João Miranda, um chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de sua fuga de Angola. Que depois veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1975. Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Disse após longas falas como dando um finalmente àquele passado, falando virgulas desse conturbado tempo. Este lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido empresário, amigo de San Nujoma.

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Este quase lendário homem, pouco a pouco recorda com raspas de esquecimento propositado peripécias e, ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda; Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes. No meio dum rio longínquo chamado Okavango podíamos admirar dum e doutro lado deste, a exuberante verdura, alguns vestígios da base daquela que foi o Batalhão Búfalo nº 32 da África do Sul que é agora uma reserva com esses mesmo nome inserida no Bwabwata National Park.

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No mapa pode ler-se no lugar do Omega Um, Military Ruins – lugar aonde chiam segredos de ferrugem abandonada, coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes, chifres de elefntes e muita aventura em frente dos olhares de hipopótamos. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola. Seguimos viagem rumo a Nascente deixando esta gente que como nós, saíram dessa imensidão de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, Land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.

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Com jeito de filosofia, assim foi dito por Elizabete Miranda sua esposa. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo. Uns salvaram-se na cobardia, outros ficaram heróis chamando a si toda a petulante força de seu poder. O povo – ai.iu.ééé, ficou assim mesmo, pobre! Relembro nestes milhões de espinheiras ressequidas de para além de Okahanja, e Divundo atravessarmos terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá, longe por quilómetros de distância. Casas de colmo ou zinco tendo como sombra as acácias espinhosas; as mesmas que dão sombra aos muitos bichos, felinos dormindo com moscas a perturbar sua paz.

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Ficou-nos bem ciente que podemos sobreviver aos idiotas e até gananciosos que nos governaram nesses lapsos de tempo e, aqui estamos nós velhos resistentes, a retemperar ideias com a heineken lager beer, balouçando o tempo em uma balsa do Nunda Lodge. Cientes de que não podemos sobreviver à traição gerada dentro de nós, que fomos no tempo assistindo ao movimento de traidores que não o pareciam ser, um deus-me-livre dos mortais, cohabitando com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pêlo. Lugares muito diferentes de Ovambo aonde os guetos não juntam brancos com pretos.

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Sucede que um dia e a convite de João Miranda, assisti bem na margem do rio Okavango (Cubango) a uma reunião de empresários e militares presidida por San Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no N´donga Linena River Lodge, dele desceu um velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser feito de um distinto pau, o mesmo de entalar nos dentes depois de morto. Com seus pés e olhos grandes, caminhou em direcção às autoridades locais, depois veio cumprimentar os convivas e suas visitas aonde me encontrava.

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Foi muito agradável em suas palavras, sua característica de humilde, postura e atitude. Naquela reunião, referiu a guerra que grassava do outro lado do rio – Angola. Pediu que não dessem guarida aos militares da Unita, tendo mesmo dito aos militares com estrelas que os ripostassem com fogo de morte. Ele era o líder do povo do Sudoeste Africano, (Ovamboland People's Organization) e eu, um cidadão disfarçado de turista caçador de elefantes. Tenho uma foto deste cumprimento, por aí!

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Soubesse ele que eu era um responsável coordenador da Unita no exterior e, teria apontado o dedo em minha direcção. Em realidade era um turista como tantos outros e, nada havia em concreto sobre a minha pessoa a não ser muxoxos escutados pela contra-informação, sem o peso necessário para me apontarem algo. Bem! Também N´Zambi era meu amigo! Assim não sucedeu embora as estruturas de informação e inteligência pudessem saber de algo; minha missão era ver os pontos de reabastecimento à Jamba a partir da Namíbia. O tempo fez diluir estas contrariedades de estar sob escuta mas ficou bem presente o que disse: “Unita soldiers crossing the river, fire on them”; No M´Puto, José Pedro Cachiungo, tinha-me feito advertência de poder ter algumas contrariedades e, mesmo sem salvo-conduto meu comportamento foi de singela observação… Têm mais kitucus mas, o melhor é ficar só assim mesmo!

etosha2.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo… 

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O Soba T´Chingange



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Sábado, 21 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIII 19.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Ainda no século XX. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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No decurso da guerra civil que se seguiu após os gritos de Agostinho Neto em Luanda, MPLA é o POVO, o POVO é o MPLA e, a LUTA…CONTINUA, assim foi por demasiado tempo. “Durante esses longos anos, quantidades indefinidas de pedras preciosas, milhares de animais liquidados, elefantes e rinocerontes, milhões de toneladas de madeira foram traficadas de Angola desde a Floresta do Maiombe até às chanas do Moxico e Cuando-Cubango, Em troncos ou serradas em tábuas seguiram rumos para Oriente e Ocidente…

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Também nas áreas controladas pela UNITA este tráfico de património natural, se fazia sentir por via de se custear a guerra. Milhões de árvores foram derrubadas nas savanas do Cuando Cubango para traficar madeira, uma catástrofe ambiental com os mesmos tristes requisitos do desbaste de nobres madeiras de Cabinda. Os carros com toros faziam fila por quilómetros entre Lândana e Buco-Zau. Pode ter havido precedentes em outras partes do Mundo mas aqui, tudo ficou sem castigo para os infractores e há revelia do povo.

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Em uma serração pertencente à InterFrama, em Bwabwata que se estende pela Coutadas Públicas do Mucussu Luengué, Luiana e Longa Mavinga, também saíram milhares de toros; árvores milenares. Parte dos diamantes viajavam no avião de Joaquim da Silva Augusto, considerado um dos homens mais ricos da África do Sul a residir na Namíbia. O mesmo que pilotava a avioneta em que João Soares sofreu um grave desastre. Augusto tinha uma cadeia de supermercados e um grande armazém no Rundu, cidade fronteiriça com Angola na margem do rio Okavango.

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Era aqui o ponto de partida para os abastecimentos logísticos à UNITA. Sendo de um e outro lado o mesmo povo Ovambo, autoridades e ordens religiosas, faziam vista grossa ao grande movimento que por ali se fazia num regime de candonga institucionalizada e, por ambos os lados do rio Cubango. Miranda foi por algum tempo um funcionário de Joaquim da Silva Augusto até que se estabeleceu com várias lojas do mato ao longo do Cubango, comércio com padaria, casa de forragem e alfaias, materiais de construção -“Bottle shop, Bottle Store and Liquor Store”; um super mercado, estilo venda boteco com tudo o necessário.   

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No rasto das memórias lembra-se que “foram liquidados 100.000 elefantes para ajudar a financiar a guerra”. As presas dos elefantes e os chifres dos rinocerontes foram armazenados na Jamba. As máfias, colocavam o marfim em Hong Kong, os diamantes em Pretória e na Europa e a madeira preciosa na Namíbia. Os turistas da Jamba, entre os quais a família Soares do M´puto, moviam-se de maravilha entre “embaixadores”. Entre este, havia um comerciante português, Arlindo Manuel Maia, dono de uma empresa de transportes em Joanesburgo com “filial” no Rundu. Nunca Miranda me disse o que aqui digo porque sempre nos distanciamos de suspeições incómodas. Cada qual com sua vida! Mas, foi peremptório em dizer que a queda da avioneta foi motivada por um susto de Augusto; o que dizem acerca dos dentes de elefante é invenção.

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Outro comerciante nestas lides de contrabando se assim se pode dizer, era José Francisco Lopes, com escritórios no Rundu, tido como multimilionário. Isto que já se tornou público, poderia até ser falado com meu amigo João Miranda do Mukwé mas, a propósito, não quis penetrar em periclitantes caminhos respeitando a ética de quem sempre me recebeu de braços abertos, um homem do mato que me merece todo o respeito; em suma direi que simplesmente não quis bulir com antigos constrangedores fantasmas. Tem mais, sempre me disse mal da Unita mas, estou em crer ser uma deslavada mentira. A dado momento, a mentira, é uma forma de coçar a flor do kongo – aparece e desaparece num mistério muito africano.   

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A Environmentand Animal Welfare explicou que o contrabando de marfim se fazia através da Faixa de Caprivi. O coronel Breytenbach teria denunciado isto: “descobri uma máfia que contrabandeava dentes de elefante e chifres de rinoceronte, diamantes, madeira e droga”. Uma catástrofe ambiental sem precedentes nesta zona" disse ele. Ninguém agora pode mudar o rumo àquilo porque se passou, dizia eu a Miranda naquele fim do mundo, palco da acção montada pela África do Sul à que foi dado o nome de “Operação Savannah”.

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Esta operação, que estava destinada a apoiar uma frente entre a FNLA e a UNITA com quadros da extinta PIDE/DGS, não logrou seus fins; Também estes búfalos foram traídos por outras forças e, do qual saíram acordos secretos que mudaram o rumo à historia, origem de outra politicas. O capitão américa já tinha o nosso rumo traçado. Sobressaíram uns quantos na luta medonha a quem deram de espólio aquilo que eles bem quiseram roubar a começar pelo presidente de Angola JES que com seus capangas do MPLA, usaram de farta vilanagem. Nós, naquele então, não entendíamos o que estava a acontecer sem nunca podermos conceber que estava a ser forjada a maior traição de portugueses contra portugueses. Foi assim que tudo começou.

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Muita gente dita liberal, historiadores mancomunados à esquerda, afirmam a todo o momento que isso é para ser arquivadodo, uns porque estão mancomunados com os governos de agora, outros porque são nitidamente engraxadores no sentido mais degradante da palavra e, outros que querem ideologicamente tapar o sol com a peneira; também tapar nossos olhos com a desfaçatez de, o quanto baste. Nem a própria oposição em Angola a fim de tranquilizar os homens de bem, com sede de justiça, teve a coragem de fazer valer seus apregoados trejeitos de verdade.

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Todos sem excepção, se tornaram em uns trastes corruptos, corja ou bando de larápios que enrijaram suas organizações de criar inveja aos cartéis do mal! Uma cambada de ambiciosos sem escrúpulos que engana ainda o povo tanto do lado português como do angolano, sem tibiezas ou despudor! Competia a Portugal assegurar tranquilidade a todos os patriotas mas, em verdade foram os brancos militares e líderes portugueses que proporcionaram tudo o que se verificou! Gente do PREC, militares de aviário do MFA, irresponsáveis imberbes ou incompetentes políticos que nos entregaram ao diabo. No correr dos tempos nenhum político de nomeada se dignou dizer a merda que fizeram e pedir desculpas! Atitudes que não serviram nem aos portugueses nem aos angolanos.

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

maga2.jpgGLOSSÁRIO:

Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo… 

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O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XI15.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

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Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divundo junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi. O senhor Rocha que fugido do Sul de Angola, ali perto, se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas. Alugava estas a baixo custo a refugiados; era em verdade um alojamento local tipo cortiço brasileiro. O senhor Bicho da ponte do Charuto seguiu-lhe as pisadas tornando-se ambos empresários com algum sucesso. A vida de fronteira é assim um pouco tumultuosa pois que sempre tem gente rufia misturada com gente boa que de outras paragens por ali passa fazendo compras ou desviando as compras dos outros; neste caso e, pelo facto de Angola estar envolvida numa guerra prolongada, as carências eram aqui suplantadas no possível.

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Os circuitos de comercialização através dos meios de administração portugueses no território angolano foram totalmente desmantelados e, daí haver lacunas preenchidas pelos mais astutos, vigaristas ou arranjadores de ocasião cazukutas. Junto com esta gente que esgadanhava formas de vida e, com mais-valias de câmbio ou outras, simplesmente ganhavam ganâncias em operações de logística, ajudando nos cambalachos e, até vendendo vidro por diamantes, ouro trocado por produtos da terra ou transaccionando por serviços de ajuda aqui e ali e, toma lá esta gasosa para almoçares. No meio de toda esta amálgama de gente havia informadores pagos pelo governo de Angola disfarçados de gente comum, atentos ao que se dizia e fazendo triagem com empolgadas excrescências valorativas…

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Foi por aqui que me refastelei com uma caldeirada de cabrito na pensão, hotel e convívio de rufias, espiões e camaradas com irmãos. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, num diz que foi para saber o que é, da minha insistência na recolha de informações. Mas, Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico; estava a terminar um hotel com piscina criando condições de prosperar e negociar com diamantes quando lhe fosse possível, pois então. As falas eram abertas e num instante ficávamos a saber coisas de grandes lonjuras como o dito de é ali mesmo patrão! E, este ali ficava a uns duzentos quilómetros. Neste meio tempo de cavalgada esticávamos as orelhas do monangamba, chamando-o de nomes toparioba e sundiameno para cima com o apêndice de mentiroso de merda!

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Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade dando a isto, uma característica única no mundo; em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão por que ninguém se esquece desse viver, daqueles aromas dum “rust camp”, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” ao por do sol atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas com mato aparentemente estéril - lugar da surucucu.

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Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé de Andara e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas actuaram com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. A Namíbia nesse então, estava sob gestão sul africana

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Estou a falar do Miranda, natural das terras Atrás dos Montes lá para Chaves, Miranda do Douro aonde as vacas têm cornos amplos, mas neste contexto de gente fugida havia muitos mais. Rocha diz que nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola.

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Bicho da Ponte do Charuto, reconfirmaria as falas de Rocha. Todos sabiam de tudo – uma vastidão de território e todos a conhecer as vírgulas de cada qual ao ínfimo pormenor, como se, se encontrassem todos os santos dias numa praça do Mundo. Um fascínio que nem a matemática quântica ultra moderna consegue explicar. A família Miranda foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção e assim poderem levar uma vida de normal família. Nestas estórias repetidas nem sempre as coisas aparecem do mesmo jeito ou no mesmo lugar porque, cada cabeça sua sentença e cada qual acrescenta uma pequena casca ou muitas cabeças como aquele lobisomem dando tempero esmeradamente lendário.

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Alguns anos mais tarde, passagem de ano - 31 de Dezembro 2014 para Janeiro de 2015, a escassos metros do rio Okavango, sentado em meu chinchorro (rede de balouçar), divido-me entre os barulhos da chuva e os rápidos do rio, dos piares de pássaros na boca dos ninhos, das rolas sempre gemendo e dos muitos milhares de cigarras que abanam prolongados trinados. Estava no d´jango da Kikas filha de Miranda, Vanda Miranda Potgieter casada com um bohér de estrema simpatia, casa de N´duvu S´tores de Andara, também posso escutar a zoada de carros circulando ao longo da estrada de macadame, areia e pedras soltas. Um homem armado com uma arma de repetição, guardava as instalações em uma guarita, noite e dia; eram vários a revezar-se...

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A enfeitar o pátio entre a casa e o rio uma árvore frondosa que conheço por mulungu, ornamenta a cena com flores vermelhas na forma de laçarotes, coincidência na comemoração da passagem de ano de 2015. Uma marula de grande porte dá soberania ao local por via de sua fruta ser a rainha do Calahári. Do outro lado pastam os bois indiferentes à sua nacionalidade! Que importa isso – boi não tem pátria! Quase-quase me apetecia mugir com elas mas só o facto de suas vidas terminarem estripados num galho, fazia esquindivar minha velhice para outros sonhos resvalados no tempo.

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Neste lugar de Andara, entre mato verde e picos medonhos, vejo Angola salpicando-me na correnteza do rio sem sentir no abandono ou desespero, uma consolação de esperança, assim talhada na natureza para ali permanecer de forma perene como aquela pedra na forma de hipopótamo regada num afogamento. Ao iniciar o dia, sempre e na hora certa, lá está Dona Elisabette a dar ordem a tudo e a todos. Debaixo de um sol ardente, um abafado calor de crispar sobrancelhas em escondidos pensamentos, a estória do Cubango, das terras longínquas no fim do mundo do Rundu, do Dirico, Calai, Mucussu e Divundo. Cabe a mim transformar as coisas dispersas em adultas majestades, tornar as fábulas em lendas, coisas que só os pastores podem criar confundidos entre xirikwatas adulteras.

Namibia4.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Missosso – Conto beve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

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O Soba T´Chingange



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Domingo, 15 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXIX - A

UM CACTO CHAMADO XHOBA . IX 06.08.2019

MALAMBA NAS FRINCHAS DO TEMPO

- Boligrafando estórias e Missossos da Dipanda – Toma lá e anda - do ano de 1999, talvez 1997.

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Não deveria ter sido assim mas, desaconteceu! Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, no após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional chegando até os nossos dias na forma de Diáspora. Uma missanga de contos com lendas e coisas tão verdadeiras que assustam o crédulo. Sendo assim e na forma de espantados, tudo corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo a que chamo de Globália. No Missosso da literatura oral angolana, há contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e crenças dos povos de dialecto quimbundo entre os outros derivados do Povo Bantu - Óscar Ribas da Luua, foi o seu criador.

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No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja. Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha.

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Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade, dando a isto uma característica única no mundo; Em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão por que ninguém se esquece dessa vida, daqueles aromas, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” mais o pôr-do-sol, essa kúkia atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas e mato estéril. No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja.

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Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha - Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. - Chama-se de Sundiameno. Disse! Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! A gente lhe desconfia, acrescentou – Nem nele, nem no pai dele! Concluiu.

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Esta conversa tola seguia um rumo desclassificado e, foi neste então que vi sentado num banco de pau já feito pedra (…ali, as antigas árvores viraram pedra…), um mais-velho branco feito quase assombração de barbas credíveis e brancas – Um branco mais branco, feito preto (talvez um albino, Não! Albino mesmo mas, de lábios grossos com esfarelamento nas rugas…). Entabulei uma conversa séria, falamos do rio Kunene e de seus mistérios. Foi este mais-velho kota, já século, que me descreveu alguns mistérios e, que passo a referir: - Olha mwadié (branco) este rio tem muito cazumbi e muito feijão branco. Um dia ajudei um gweta, t´chindele Rocha, branco como nós, que domesticou desde criança, um jacaré a apanhar diamantes para ele. Saiu daqui muito de rico para Ot´xakati! Afirmou isto e, em seguida, apontando para suas muletas de fibra sintética disse: - Foi ele que mas ofereceu! Pensativo, num repente levou a mão ao seu templo e disse: Parece que ainda é vivo mas, eu nunca mais o vivi! (aconteceu que mais tarde estive com essa lenda a comer pirão em seu restaurante…)

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No lugar aonde o rio se esconde, fizemos acampamento por muitos anos até que chegou a guerra da libertação e, ele seguiu com a sua gente. Conclui na sua sabedoria filosófica com cat´chipemba, uma bolunga pura dos Xi-Colonos – Este segredo, eu conto a toda a gente, disse! Por ali passaram gado, camiões e máquinas amarelas de fazer estradas. Abriram umas picadas e depois seguiram para Walvis Bay e Swakopmund da Namíbia. O mistério daquele jacaré estava quase desvendado por mim, mas, na dúvida sobrante, perguntei: - Então este jacaré que sopra o pó do chão, é esse tal que o gweta Rocha usava para apanhar os feijões brilhantes?

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Talqualmente! Respondeu o kota num desclassificado português com pronúncia meio estalada e ao jeito de um khoisan… E, continuou: - Pois eu fiquei com estas muletas e esse jacaré Sundiameno. O mundo é por demais misterioso! Nunca que eu ia acreditar nisto se não visse! O mais velho de nome Cuca Oshakati, ainda me disse outra coisa em que não acreditei: - Sabes que mais, disse ele. Esse jacaré toca guitarra! Acompanhava muitas vezes seu antigo dono Rocha a cantar fados duma tal de Amália, uma sua prima muito conhecida lá do M´puto!

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Isto era demasiado para a minha camioneta; meti-me no four-bay-four e segui para Ot´xivarongo. Conversando com um velho amigo de Ot´xivarongo, psicólogo do Kalahári, disse-me já ser conhecedor desta estória e, surpresa das surpresas, aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado! Juro que tudo isto me transcende! Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divunda junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi.

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Tinha indicações que havia um tal senhor Rocha que fugido do Sul de Angola ali se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas que eram alugadas a baixo custo a refugiados; foi para ali que me dirigi e aonde me refastelei com uma caldeirada de cabrito e também uma funjada à maneira. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, fruto da minha insistência na recolha de informações. Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico, construir um hotel em condições e negociar com diamantes quando lhe fosse possível. Aconselhou-me a ficar num dos quartos de Bicho da Ponte do Charuto do M´Puto, logo no fundo da rua, pois que ele estava com os alojamentos repletos de gente saída de Angola.

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Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas aturam com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. Nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola. A família foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção. Teria toda a noite para pensar como prosseguir no dia a seguir; agora iria à procura do senhor Bicho para me instalar. Foi assim que cheguei até eles, os Miranda do Divundo, uma gente cinco estrelas… Com esta informação a minha odisseia teria outro rumo e conto assim de trás para a frente e por vezes de patas pró ar…

(Continua…)

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:02
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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . X

NAS FRINCHAS DO TEMPO …– 13.09.2019

- Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Ovamboland – Oshakati - Norte da Namíbia a fazer fronteira com Angola na povoação de Namacunde. Chegado à casa do Senhor Bicho, não muito longe do hotel e restaurante do Rocha e, após as habituais apresentações mostrou-me o quarto disponível; foi-me dizendo que ainda estava em obras e que teria de ficar em um colchão ainda embrulhado em plástico, recomendando-me não o tirar em virtude de poder vir a ser vendido como novo; bem ao jeitinho português. A porta deste quarto era toda ela, uma obra de arte perfeita; representava um búfalo em baixo-relevo – uma madeira de lindos veios que se salientavam pelo verniz usado, dando-lhe uma distinta nobreza.

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Este senhor Bicho, amigo do senhor Rocha era natural da Ponte do Charuto, um local situado entre a Cidade de Lagoa e Portimão; por este facto e sendo eu conhecedor destas paragens no M´Puto, tonou-se fácil prolongarmos as falas com a cordialidade de quem é amigo dum vizinho no lema conhecido de amigo do meu amigo, meu amigo é. Uma empatia sempre resvalando na flor da humanidade. Dormi mal, muito mal! Durante a noite a restolhada do plástico do colchão e a quentura não me proporcionou um absoluto descanso. Para além do mais nem um ventilador havia para colmatar esta tórrida e suarenta noite – áfrica em todo o seu esplendor com cheiros esvoaçados por mosquitos de longas patas e um longo aguilhão sugador de sangue.

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Valeu-me um duche de água fria pela manhã, reconfortado pelo canto das galinhas-de-angola – capotas e o arrulhar das pombas com o gemer das rolas. Também dos cheiros do matabicho que vinham do lado Norte do quintal, salsicha bóher com tiras de carne seca demolhada e passada na brasa. Havia ovos e umas verduras esquisitas tipo esparregado de folha de piteira, tabaibos. Assim foi mas, um empregado do Senhor Bicho comunicou-me em português ovambado com palavras de umbundo e estalos de língua no palato dele, largo e negróide, que podia ir até aquela varanda coberta a colmo. É lá mesmo patrão, no detrás do último quarto e, logo nas curva do corredor que dá nos pátio dos frôr. O patrão “Senhor Bispo” esperava a minha pessoa para tomar o matabicho com cascas de conversa do M´Puto.

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Numa mistura de linguajar com estalidos de permeio, apercebi-me que este mocancala tinha uma mistura de herero com khoisan. Até tinha um tique engraçado de rir só átoa por via de minhas brincadeiras patachuecas. Nestes trejeitos e fungações com muitos gestos, mostrava sua falha de dentes à posterioridade fontal. Seu amplo nariz e dentes alvos de brancura, esfregados com mateba languinhenta na mistura com carvão dos brais-assadas, davam-lhe um sortido rosto de puro kazungula, Bantu. Chegando lá encontrei o senhor Bicho dando ordens a uma gorda senhora que logo se adentrou na cozinha de onde se podia sentir o odor do café e, logo se sentou a meu lado cavaqueando sobre os muitos afazeres daquela hospedaria tipo lodge do mato.

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E, falamos da sua distante terra, a Ponte do Charuto do M´Puto, bem perto de Mexilhoeira Grande no Concelho de Lagoa. Mostrei admiração pela beleza das portas quase maciças da entrada para os quartos com baixos-relevos dos cinco grandes animais de África. A minha porta era uma cabeça de búfalo; em realidade era uma obra de mestre. Bicho, sem saber da minha vontade em ir ao Rundu, do outro lado do Calai foi-me inteirando que a pessoa com quem eu tinha em mente encontrar, João Miranda, já não estava na grande base de Grootfontein.

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Ele e família só por ali esteve o tempo suficiente para enquadrar legalidade em sua inclusão nas forças expedicionárias na guerra de Angola e naquela fase crucial de avançar até Luanda, tomá-la aos Russos, Cubanos e gentalha do MPLA e seus assessores, generais de aviário do MFA. As coisas não correram como o planeado sendo desmantelados de uma forma progressiva até se retirarem totalmente depois da Batalha do Kuito.

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Parece que os Americanos viraram suas atenções por via de negociações petrolíferas e, daí derivou auxiliarem o M´Puto na evacuação dos brancos e a entrega da Namíbia ao Samuel Daniel Shafiishuna, mais conhecido como Sam Nujoma. Com pequenas interjeições minhas, todo eu era ouvidos a escutar as palavras de Bicho da Ponte do Charuto do M´Puto. Bem! Eu também estava ávido de saber coisas escondidas nos meandros poderes da política. Num repente, diz Bicho, o Jonas Savimbi da UNITA, até aí amigo, passou a ser relegado por estes americanos; gente de túji mesmo, conclui.

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A Namíbia foi entregue ao revolucionário San, que como o amigo sabe (o amigo, era eu…) é o actual primeiro presidente da Namíbia e, desde 1990. Pois! Interferi eu: - Ele estava à frente da SWAPO; tinham uma actuação insípida mas eram os que estavam na linha da frente para a entrega deste que foi um protectorado Alemão. Isso mesmo! Remata Bicho acenando com a cabeça e dizendo: Tal-e-qual! As falas do “Senhor Bispo” despertaram-me curiosidade tão redobrada que resolvi recolher os detalhes possíveis sem até falhar os porras e caralhadas feitas vírgulas, num contesto assim tão relevante.

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Pois é, continua Bicho: - Com o mando dum General de Pretória, um dia chega um indivíduo sem nome, em Grootfontein, levando-lhe um visto de trabalho em nome de João Miranda; um Hércules C-130, levou a família inteira para Pretória. João Miranda que tinha todos os seus bens em Dírico, não queria por nada ir para o M´Puto. Deram-lhe um apartamento do tipo T4 totalmente equipado; o General viu nele o perfil certo para ser integrado no Batalhão Búfalo por ser um bom conhecedor do terreno e falar a língua local e, a dos bosquímanos.

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O Batalhão Búfalo estava nesse então, antes de 1974 e, até 1975 a ser organizada há algum tempo no intuito de intervir em Angola salvaguardando possíveis investidas terroristas e comunistas. Os Serviços de Informação Sul-africanos tinham boas ligações com o governo de Marcelo Caetano do M´Puto e, já em 1966, ano em que terminei meu serviço militar da incorporação de Angola, os sargentos e oficiais do exército português mas, e principalmente oriundos da Colónia, antes de sua desmobilização recebiam um convite para serem integrados em forças Sul-africanas – um embrião da formação do Batalhão Búfalo. Eles, os Sul-Africanos já previam o que iria acontecer em Angola e, assim o foi!

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Ovoboland seria um território tampão àquele avanço. Bicho, perante a minha incerteza foi-me reavivando a memória de que assim era. Recordo assim, de nos inícios do ano de 1975, estando eu na Caála, ter ido até o Safari Motel em Windhoek e ter falado com gente refugiada, alguns deles, agentes da PIDE e gente saída das Administrações e OPVDCA; convém relembrar que esta antiga província ultramarina portuguesa, a organização provincial de voluntários e defesa civil (OPVDC) - organização do tipo milícia constituía um corpo de voluntários de ambos os sexos encarregue de prestar auxílio às Forças Armadas e de garantir a defesa civil das populações e, que chegou a ter mais de 40.000 efectivos. A OPVDC era subordinada directamente ao governador-geral ou governador da província que tinham uma noção exacta das movimentações em curso e, no estremo sul do território particularmente, colaborava com a actuação militar sul-africana.

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Matabicho – pequeno almoço, café da manhã; Ovamboland – Norte da Namibia, povo Ovambo – primos dos umbundos; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Linguajar – forma de falar se regras de ortografia, fala popular dum matuto, fala de gente simples e inculta; Mocancala- gente do Sul de Angola que falam com estalidos guturais e guichos; Herero – povo da região do Cunene com tez quase branca; khoisan – Bosquímanos; Patachuecas – gíria de momento, raridades dum sítio; Fungações – enfase de cacaracá; Mateba – seiva de arbusto com características saponáceas com propriedades adstringentes; Languinhenta – babosa, que deita seiva grossa; Kazungula – Com várias falas, dialectos, próprio das terras que falam como na Zâmbia, Zimbabwé, Namíbia e Botswana mais português e dialectos de Angola, nome de terra na foz do rio Cubano; Bantu – Origem de todas as línguas ou dialectos de África; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango tendo do outro lado a vila de Calai, lugar de difícil acesso; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, primeiro acampamento da diáspora maioritariamente brancos fugidos da guerra do Tundamunjila- Uns ficaram, outros seguiram destinos vários como o Brasil, o M´Puto, Austrália, Argentina e Estados Unidos Da América…;

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Batalha do Kuito - A Batalha de Kuito Cuanavale foi o maior confronto militar da Guerra Civil Angolana, ocorrido entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988. Tanto a UNITA como o MPLA, se declararam vitoriosos...; SWAPO – Movimento de libertação da Namíbia liderada por San Nujoma; Batalhão Búfalo - Designação oficial do 32º Batalhão de Elite da África do Sul, nome original em africâner 32-Bataljon; em Angola ocasionalmente chamados. O batalhão foi fundado para trabalhar na operação Savana, inicialmente com o nome de "Força Operacional Zulu", como iniciativa do tenente-coronel sul-africano Jan Breytenbach, que recrutou, sobretudo, soldados da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) que, derrotados no Sul de Angola por MPLA & Cuba, se refugiaram no Sudoeste Africano (hoje Namíbia)... Nela, foram integrados, elementos oriundos de Portugal, do Reino Unido, da então Rodésia, dos Estados Unidos, de Angoa, milícias de S. Tomé entre outros – o batalhão foi considerado como a Legião Estrangeira sul-africana…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:13
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Terça-feira, 10 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXIV

MU UKULU... Luanda do Antigamente 10.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entenderem os futuros...

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpgLuís Martins Soares Falecido no Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

maianga do araujo.jpg Abrindo o livro Mu Ukulu na página 61, posso ler que na Luua, Luanda do antigamente, no jogo de saltar à corda, as meninas eram muito mais ligeiras que os rapazes; tinham graciosidade, leveza nas kinambas e até cantavam enquanto com um só pé ou com os dois juntos, pisavam a terra do pátio da escola ou o asfalto do largo fronteiro ao correr de casas do bairro e assim, galgando o fio grosso e normalmente de sisal balouçado por duas jovens ou candengues meninos, para um só lado faziam passar o tempo! Uma soma de intervalos, infantário, escola, família, a terra, a empresa e o abrigo da idade de kota.

O balanço, tanto podia ser para a esquerda como para a direita mas, sempre em sintonia de como se faz com a manivela de impulso, tal e qual como se fazia nos carros Ford, Bedford, Chevrolett ou Nesh naqueles modelos dos anos de 1945 a 1950. Os meninos candengues jogavam ao botão, ao pião ou à macaca; uns mais espevitados ficavam de lado a soprar vento com os olhos para ver as calcinhas das meninas, apostar de qual era a cor com confirmação da tal de Mariana ou da tal de Fátima.

mai3.jpg Depois do despois, era assim como um campeonato - quando não havia calcinhas era “bingo” pró ganhador. Todos os outros tinham de fazer de burro e levar o ganhador laureado até ao pé de tamarindo; assim, um por um, até botarem seu ar de bofes inchados daquele vento de soprar nos olhos. As brincadeiras de antigamente não faziam as crianças reféns deles como os jogos electrónicos de hoje. Sem televisão e sem computadores, rádio insípido, tínhamos jogos para nos dar mobilidade para a vida de trabalho e social; jogávamos até à noite bem adentrada e até que lá da varanda ou muro viesse um grito grosso do pai ou num esganiçado som da Tia Micas: vem para casa menina - tomar banho, fazer xixi e cama!

As esteiras de loandos ou de caniço eram peças importantes nas casas dos remediados e pobres dos arrabaldes da Luua ou dos bairros periféricos como o Bairro da Vila Alice, Vila Clotilde, Bairro do Café, Bairro da Samba, Coqueiros ou Praia do Bispo entre muitos mais e, a sempre rainha da Luua - a Maianga do Malhoas com o Almeida das Vacas a terminar no Choupal das meninas do Kan-can lá no topo da Avenida António Barroso e que hoje se chama de Presidente Marien N´gouabi cruzando o nosso Rio Seco, uma mulola que nesse então era só areia para brincar, jogar à luta livre ou futebol de fintas n´areia…

Quantas e quantas vezes dormi na varanda, estendido num loando, apanhando o fresco do mar da Samba. Naqueles tempos ainda não havia ar condicionado; era tudo à unha, um abanador de palmeira a dar-a-dar feito leque, ou um ventilador daquelas pás de tecto rodando e guinchando chring…chring…chring…Esteiras e loandos eram peças indispensáveis em uma casa da Luua e, ora servia para nos sentarmos, ora era aonde o candengue filho da lavadeira dormia enquanto sua mãe esfregava as mãos na roupa dos patrões. Por vezes o nené ficava às costas da mãe gozando do balanço com esfrega e, num bate e, roda e …Pois! Era um carrossel bem melhor que a esteira.

Mu Ukulu37.jpg Por vezes num quase sempre de costume, os vizinhos juntavam-se levando suas esteiras enroladas ou suas cadeiras articuladas com uma lona entalada a montante e jusante do sono, do abre boca, abrenuncia dum deus queira ensonado entre o bate-papo falando besteiras ou, entre longas e inspiradas dissertações, do tipo filosofias de cacaracá entre virgulas de muxoxo e cuspidelas raivosas para o pé do mamoeiro ou da árvore de mandioca. Esta, a dar sombra ao tanque de cimento ou selha com uma tábua com ranhuras feito do tipo reco-reco para roçar as cuecas acastanhadas do uso e, talvez duma amarelada bufa de sem querer, digo eu!

Comecei estas falas para recordar as farras de quintal, daqueles candengues e meninas que já com barbas e bigodes macios que nem bigodes enrolados de lontra, curtiam a semana falando daquele e tal e coisa e ou daquela garina (magana) e coisa com tal num vai daí não sei se… e como vai ser - No baile combino! Naqueles tempos de espigadissamento os candengues já com jeito de Alain Delon (Além Delon), banga no estilo de ninita, peritos ao salto da macaca, saltavam os muros para de raspão dar só um beijo na Milocas até fazer cantar os passarinhos, malditos periquitos e… num raspa que se faz tarde, um despois de só mais um… e vai daí o outro dia nascia sempre muito cheio de Sol e do lado Nascente.

Mu Ukulu34.jpg  Assim num pisca-pisca os mais novos, ouviam estórias, missossos dos mais velhos, da labuta dos seu dia, tesourando no patrão, no filho da caixa do capataz, no enrolamento das leis porque a bota não batia com a perdigota; num de estão a lixar-nos a vida eram dissolvidas nas vírgulas desportivas com cabrões e com golos fenomenais descritas ao pormenor que nem os comentaristas de hoje podem exemplificar. Já naquele tempo eram o Sporting, o Benfica mais o Belenenses. Pois! Porque sempre havia uns vocábulos mais fortes de sundiameno do árbitro e, o filho do bandeirinha, cabrão toparioba mesmo; vesgo dos olhos e sei lá mais o quê, o cambuta de merda! Já ao fresco das dez da noite, os loandos eram enrolados e seguiam seus destinos debaixo do braço e, um até amanhã…

Não nos esqueceremos dos bailes onde a farra da música a gira-discos ou até com um conjunto local pago na forma de vaquinha pelos amigos dos amigos, vizinhos e afins dominava nos fundos de quintal até lá pelas quatro da manhã; quintal alisado com cimento na sua pura cor e, mas também de terra batida, molhada para não levantar pó. Até as aduelas de barril e as chapas de zinco se curvavam ao merengue cheirado a catinga misturada com Old Spice e sabão de côco cheiroso, cuca ou nocal - por vezes Sbell na forma de bolunga de whisky da Luua feito na fábrica da Catumbela. Às tantas a mistura de cheiros já eram todas muito iguais…

Mu Ukulu60.jpg  As celhas ficavam a um canto cheias de gelo com pirulitos, canadá dry, mission, seven-up, laranjadas e cerveja. Havia sempre bolos, tortas, rissóis de camarão, bolos de bacalhau levados pelas mães que não perdiam pitada cochichando suas sempre belas filhas casadoiras e o fulano mais beltrano, filho deste e daquele, um director lá da FTU e outro neto do Deslandes, que falam ir ser governador e muitos edecéteras preenchendo num depois as conversas da semana. O ponto alto era mesmo o chás da cinco e das seis, como pretexto de colocar as noticias em dia. Tu já sabes, a Alice que trabalha na Maria Armanda (costureira de fama…) está grávida! Como é!? Pois e tal, vida da Luua era assim um diz que vai ser ou foi, há isso já é velho! Tenho de fazer a janta pró meu Zé, e lá ia a costurar ideias na mistura com seus ideais…

Sábados e domingos eram religiosamente reservados para assistir às cowboiadas e outros filmes; tudo começava nas matinés seguindo-se uma ida ao baleizão para retemperar o físico com uma girafa, canhângulo ou pata, comer um prego no pão ou uma grande salsicha enfiada num pão pré aquecido e com muita mostarda. Isso! Tipo cachorro quente mas, gigante e com o sabor do Tarik.

minguito1.jpg Minguito

Depois combinar com a malta e seguir o rumo do Marítimo da Ilha, Clube do ferrovia, Casa das Beiras ou do Minho no Largo Serpa Pinto ou no Sporting Clube da Maianga com as garinas mais lindas do planeta. Lá estava a família Araújo sentada no palanque de convivas vendendo empatia a quem viesse… E, vinham sorteios do par mais simpático, da rainha do baile com votos de canudinho, prendas ou leilões por vezes e… As meninas sentavam-se em cadeiras dispostas em mesas e nós os gandulos da farra dávamos um toque de farpela, um piscar de orelhas, um puxar de colarinho e a noite escorria numa felicidade perdida…

minguito2.jpgGlossário

Kinambas – pernas; Bingo - a sorte grande da roleta; Girafa – copo grande e esguio de cerveja; Canhângulo – copo tubular e alto com cerveja – como se fosse um cano estriado duma arma tipo pederneira, assim de carregar pregos e limalha para amaciar, como um antigo arcabuz; Pata – copo com forma de pata grossa de elefante; Luua - Luanda; loando – esteira feita de papiro (loando do rio) atado com mateba; espigadissamento - fusão de espiga com astucia; Garina – moça, menina jovem já quase mulher; Tarik – Dono do Baleizão (alcunha, creio!); Estilo ninita – uma banga de puxacarrijoduro (tudo junto), um jeito de calcinhas fazer estilo tipo pavão; Mulola – Linha de água de leito seco, que só é rio quando chove; Sbell – Wisky da Catumbela; Old Spyc – cheirinho cheiroso…

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:20
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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXIII
MU UKULU... Luanda do Antigamente 03.09.2019
FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entenderem coisas do futuro...
Por

soba0.jpeg  T´ChingangeNo Alentejo do M´Puto

luis0.jpg Luís Martins Soares – Falecido no Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

Mu Ukulu59.jpg Continuando nas recordações em forma de ongweva, surgem com um MU de Mutamba, um MU de antigamente ou um MU de árvore a saga “Pombalina” levada até Angola, colónia na governação de D. José I tendo como Primeiro-ministro José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. O Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal e, na qualidade de governador introduz reformas da maior importância naquele território ultramarino esquecido.

Convém recordar aqui que o título de Marquês de Pombal foi instituído por Decreto do Rei D. José I de Portugal a 16 de Setembro de 1769 a favor de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º conde de Oeiras, diplomata e primeiro-ministro de Portugal. É este grande estadista, comentado por muitos como tal mas, e também, contestado por muitos, que nomeia Inocêncio de Sousa Coutinho como Capitão Geral da Colónia de Angola.
 
E, é com esse seu mandante que começa uma nova política para a Colónia. Por motivos outros adversos, este embalo de visão nova, não teve a continuidade desejável mas e, entretanto este fez melhorias aos acessos às feiras existentes criando as novas feiras do Galo, Bimbe, Calandula (onde se situam as quedas do Duque de Bragança ) e Encoje.

Mu Ukulu58.jpg Foi já dito que Luanda vivia exclusivamente dos produtos que vinham rio abaixo. A cidade possuía poucos poços rasos (denominados cacimbas ou maiangas) de fracos rendimentos e água um tanto de sabor salobra. No bairro da Maianga existia um poço a que se lhe deu o nome de Poço do Rei, poço que ainda está de pé, mas vetado ao abandono entre um desadequado caserio de casas sem os requisitos modernos de habitação.

Pelo que se sabe é um recanto de abandono depósito de dejectos e demais porcaria avulso - um total desrespeito ao património que se pretende preservar. Uma nítida desatenção das gentes do mando e, que só se pode entender como um absurdo sem as políticas correctas de reordenamento e enquadramento ou requalificação urbano da Luua. Aqui e ali gente da diáspora, mostra as modernidades da banga, sem a requerida sensibilidade para o vasto e rico património legado a custo zero pelos Tugas.
 
Por maus enquadramentos e desaforadas medidas, Luanda já não tem solução; é um amontoado de prédios que para além da orla marítima são em verdade um desconjunto de boa prática urbana. Esta insensatez só é visível quando chove, quando faz vento ou quando a merda dos musseques, vem lamber os citadinos e gente que sempre se esconde num “talvez, haja esperança”. Em resumo, naqueles idos tempos e após o aterro da lagoa do Kinaxixi, a cidade era árida, recebia muita água de fora, dos rios Bengo e Cuanza. As chuvas em Luanda eram e continuam a ser escassas e mal distribuídas.

Mu Ukulu53.jpg O Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho cria as fábricas de cordoaria, estabelece o presídio de Novo Redondo (Sumbe), capital da província do Kwanza Sul, a mesma que se tornou conhecida ao Mundo por ter sido a cidade aonde o eclipse do Sol, durou mais tempo - foi em Junho de 2001. Foi criada a manufactura de carnes secas, couros e sabões com fábrica situada junto ao antigo Baleizão e prédio Tarik.

Finalmente, o empreendimento estrelado que marcou sua governação: a criação da fundição de Nova Oeiras, na confluência do rio Luinha com o rio Lucala (a 5 km a leste de Cassoalála). De aqui, chegou a ser extraído ferro, e exportado para a Metrópole, com grande sucesso; algo admirável para esta época – O primeiro empenho na construção maciça de ferro em toda a África. Chegaram a trabalhar nas minas 400 africanos “livres e sem constrangimento” segundo o dizer de Sousa Coutinho.

Mu Ukulu50.jpg Um dos muitos méritos de Sousa Coutinho foi o de ter acreditado na potencialidade dos africanos, tendo escrito: «… Sempre os negros trabalharão o ferro das minas de Nova Oeiras e dos muitos outros lugares do mesmo reino em que as há, e jamais comprarão algum ferro da Europa para as suas obras e serviços; e têm tal propensão estes povos para aquele trabalho que sobre os muitos fundidores ferreiros que conservam nas suas libatas ou povoações têm uma grande veneração pelo seu primeiro rei porque foi ferreiro, e finalmente toda aquela vastíssima região se serve do seu ferro, que jamais comprou algum aos nossos europeus…». Quem faz por esquecer isto, terá de ser apodado de hipocrisia!

Para esta fundição, um embrião de uma futura siderurgia, se continuada, foram para Angola quatro mestres de fundição, vindos do Brasil mas oriundos da Biscaia. Tiveram fins prematuros: um ano depois da chegada tinham falecido todos. Chegaram em 3 de Novembro de 1768, a 6 de Dezembro morre José de Retolaça, devido a exageros alimentares segundo o laudo mortuário, a 8 morre Francisco Zuloaga e a 29 Francisco de Chinique o chefe dos mestres. O último, José Echevarria veio a morrer um ano depois.

Mu Ukulu52.jpg A REAL FÁBRICA DO FERRO DE NOVA OEIRAS foi o maior empreendimento industrial do seu tempo na África. Deve-se ao governador e capitão general de Angola D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (de 1764 a 1772 no cargo) a obra, uma antecipação ambiciosa para a sua época e, quando os meios técnicos eram ainda incipientes. Procurou com a exploração do ferro, reestruturar a economia de Angola de modo a poder dispensar o tráfico de escravos.

Foram nesse então, criados meios de trabalho e rendimento locais que supriam o recurso forçado a tal exportação. Os que se lhe seguiram, quiseram as mordomias que curiosamente os mwangolés actuais praticam (estamos em 2019). Para que conste, Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e Conde de Oeiras foi um diplomata e estadista português de vulto. Foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I, sendo ainda hoje considerado uma das figuras mais controversas e carismáticas da História Portuguesa. Angola teve o seu quinhão embora os vindouros Lusos e mwangolés os tivessem esquecido; talvez por ignorância!
(Continua…)

Mu Ukulu57.jpg

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:21
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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXII

MU UKULU... Luanda do Antigamente – 02.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entender o futuro... Sousa Coutinho, por via do Ministro de D. José I,  começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpg Luís Martins Soares – Falecido no Brasil em Julho de 2109 - (Rio de Janeiro)

ango0.jpgAleatoriamente, abro o livro do Mu Ukulu e, aqui e ali as recordações na forma de ongweva surgem com um MU de Mutamba, feita árvore com nome de praça “rua larga e areosa” com machimbombos ou, na forma de lembranças “da Luua do antigamente”. Aqueles tempos em que Luanda ainda tinha Assunção no nome com mais de quatrocentos anos, eram de um trágico marasmo, mesmo admitindo a breve presença holandesa entre 1641 e 1649 que por ali se estabeleceram aproveitando, também, “o manancial” escravista.

Os holandeses não levavam propósitos libertários e nada acrescentou à economia angolana a não ser deixar uma prole de gente com nome menos vulgares como os Van Dunem. Eles também queriam escravos para as suas possessões em outras partes do Mundo. Os portuguese tiveram assim de se refugiar no Rio Kwanza, fortaleza de Massangano que tiveram de construir na sua margem direita. “Aqui se retempera a Alta-Lusíada” escreveria um jornalista angolano.

muxima1.jpg Mas, pulando no tempo, eis que em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador-geral. Em Junho desembarca o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal, “Primeiro-Ministro” em Portugal, a Metrópole. Sousa Coutinho era da família dos Condes de Redondo, trineto de Fernão de Sousa. Redondo é um concelho próximo de Évora. A cidade de Sumbe, cujo nome antigo era Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho e, daí o nome em homenagem ao seu fundador.

Recentemente estive em Cuba do Alentejo revendo no local as pegadas antropológicas de Cristóvão Colombo que ali nasceu e, pude verificar terem saído desta região de Portugal gente que permanece na história hodierna por via de seus feitos; entre estes está Inocêncio de Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” e, ali chegado, de imediato executou os seus objectivos: Ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro - até esse então, só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes.

moça2.jpg A nova “borda mar”, bombordo pretendida por Sousa Coutinho, dizia respeito à célebre Costa dos Esqueletos e abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia; os portugueses não tinham meios e gente para tão grande e exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos de um frade capuchinho de nom Cavazzi, que viveu em Angola por volta de 1678.

Portanto, só a partir da ida de Sousa Coutinho e, por via do Ministro de D. José I, se começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento. Bem! Logo a seguir foi votada de novo ao quase esquecimento e, até aos anos de 1885 quando da Conferência de Berlim. Preocupou-se na facilitação de colonos nos planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil. Pouco ou nada se conseguiu porque as doenças dizimaram os poucos colonos que para lá foram. O actual Sumbe era até conhecido pelo  “Cemitério dos brancos”...

coutinho1.jpg Tinha também o propósito diminuir a exportação de escravos com melhoria nas condições de transporte destes. Foi o único Governador a proibir a guerra do kwata-kwuata (Agarra-Agarra), mas infelizmente mal virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. A guerra do Kwata-Kwata era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus sequazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. O próprio gentio escravizava-se entre eles, normalmente por via de aprisionamento das guerras entre tribos. E um facto ainda bem conhecido nos dias de hoje quanto se dá ordens a um cão para agarrar algo com a fala de kwata repetida.

coutinho2.jpg Criar incentivo à imigração estrangeira para substituir as levas de degredados que não cessavam de chegar do M´Puto e Brasil; também a criação de uma agricultura auto-suficiente. Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda morria-se com escorbuto - uma doença comum nesse então, por não haver o hábito de come frutas e legumes frescos. Surtos normais nos embarcados em caravelas por ainda não existirem os métodos modernos de conservação pelo frio. Não obstante era possível cultivar todos os géneros alimentícios nas margens dos rios como o Kwanza, o Bengo  entre outros.

massangano1.jpg Estabelecimento de grandes armazéns de víveres para eliminar os ciclos de fome que atingiam a capital de Loanda, um ancestral formato dos Armazéns do Povo após a independência dada pelo MFA em 1975 ao MPLA (Movimento de Libertação de Angola), à revelia dos outros dois Movimentos e grande parte da população de regiões para além da grande Luanda com kwanza Icolo e Bengo na linha da frente.

kwanza1.jpg Também o desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre (Benguela) cobre, sal e salitre e, talvez prata e ouro, que nunca apareceram mas, que se dizia existir nos rios Lucala e kwanza. Os diamantes e petróleo por desconhecimento ainda não tinham a cobiça do mundo, nem tampouco a importância do Nióbio entre outros minerais de características especiais em uso nos aparatos de aviação espacial e na comunicação. Construção do hospital de Luanda, edifício da Alfandega, Terreiro Público e fortaleza de Benguela.

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:22
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Sexta-feira, 9 de Agosto de 2019
MALAMBAS . CCXXIX

QUILOMBOS DA GLOBÁLIA

ALGURES NO BUCO-ZAU09.08.2019

- De uma das mãos lançou um ás de copas que baloiçou até meus pés e ouvi mesmo: La vitória és cierta! La lucha continua! O Gorigula tinha sido um companheiro de Ché Guevara…

Por

soba15.jpg T´Chingange - No algarve do M´Puto

capulana1.jpg Naqueles longínquos anos de entre sessenta e setenta do século passado, o XX, todo metido na Mata do Maiombe, tropeçando na força das circunstâncias e num entretanto que só durou quatro anos, a guerra foi um conjunto de acidentes suados a paludismo. De um para outro lado, subindo e descendo rios procurando rastos com o soba Mateus à frente, barafustando com o ar e cortando capim à catanada, pisando charcos infestados de sanguessugas, larvas com milhões de patas e escorpiões pretos e pré-históricos a fingir de lagostins.

Buscando turras num secalhar perdido entre a bruma e o cacimbo, o gozo da liberdade corria como se a vida fosse um jogo de poker, num azar de tomar pastilhas vermelhas para anular maleitas com micróbios fosfóricos na única água estraganada ou estagnada. Com as costas das mãos afastávamos as bicharias visíveis e, em seguida engolíamos aquilo escorrendo da mão ou numa qualquer folha verde a jeito. Guardando soberania da pátria do M´Puto, camuflados ensopados até o tutano, assim seguíamos em fila de pirilau, duas granadas presas ao peito, uma G3 em riste e uma cartucheira repleta de balas para o que desse e, viesse.

angola colonial.jpg  Atrás uns dos outros, ouvíamos os gritos da floresta, o piar dos pássaros e o grasnar de fantasmosas sombras que se moviam como olharapos entre o ripado verde com troncos disformes e veias salientes segurando esguios troncos sequiosos de luz, outros disformes esfarelando-se na velhice como abatises para alimentar bichezas rastejantes; a mente medrosa fazia-se ali num jardim de cânticos surdinando mugidos e muxoxos numa raiva sossegada. O barulho do helicóptero chega zunindo e na forma de parafuso baixa suave até ao centro da mata, uma clareira junto ao rio Luáli, um afluente do Chiloango.

Buco-Zau era um lugar rodeado de um verde escandalosamente variado e húmido, um conjunto de casas e armazéns rodeados de árvores majestosamente nobres e, mais além um conjunto de cubatas unidas por um terreiro, uma quase colina rodeada de cacaueiros e um ou outo pé de cafeeiro aonde já se podiam distinguir bagas vermelhas. As casas grandes como as do M´Puto, umas com beira outras sem ela, pertença de administradores e capatazes T´chinderes, dispunham-se alinhadas com cobertura de zinco já na cor de um castanho enferrujado.

moka31.jpg Enquanto a casa principal da roça era coberta a quatro águas em telha de canudo luso ou marselha e sacadas a quase todo o seu redor, as outras, mais modestas, eram cobertas só a zinco mas, e também com folhas de palmeira ripada e entrelaçada na forma de loando. Pretos em tronco nu cruzam-se com bikwatas ou ferramentas pendendo dos ombros enquanto as mulheres envoltas em panos com a esfinge de Mobutu, Mogabe ou do Idi Amim, levam quindas na cabeça, acanguladas de grãos.

Dos corpos musculosos daqueles Fiotes Imbindas, a catinga suada escorre-lhes como brilhantina escura e luzidia como pele de mamba brilhante, pegando-se ao cacimbo intensamente chovediço. Depois de um gim com água tónica, numa daquelas paragens de soberania no Necuto, tirei uma foto com a Charlotte, uma negra que fugida do Congo Zaire pediu boleia ate ao sítio do primo, com quem tinha promessa de alambamento. A foto com aquela negra de feições árabes crê-se ter ficado em uma caixa de sapatos na guerra posterior do tundamunjila. Isso! A guerra do setentaecinco-pkp!

camionista 2.jpg Subindo o rio Inhuca, chegamos ao Sanga Mongo, um lugar para lá das traseiras do tempo, mais longínquo do que as Bitinas e a antiga Serração do Aníbal Afonso que só existe no nome. Naquela terra, este sítio, só o nome subsiste ao salalé; ficaram restos de troncos e, alguns já só eram tábuas avulso ladeadas ou cobertas por capim, abraçados por trepadeiras canibais. Naquele desalinhado jardim, um verdadeiro refúgio de cobras de mamba negra e cipó mais surucucu, kissonde e elefantes num fim de missão medalhada a medos, fiz amizade com um Gorila do Maiombe.

O dito cujo, sentado no topo das tabuas por aparar, olhando para mim de peito feito, sorrindo de susto ousado; Seguiram-se outros instantes muito cheios de adrenalina e assim na crescente empatia tornamo-nos amigos! Ao cair da noite o meu amigo gorila a quem dei o nome de Felizmino, lá estava naquele sítio, topo das tábuas; num cada vez mais aproximados fizemos amizade dando-nos ao luxo de trocar sons de guinchos e rapidamente aprendeu o dóremifasolasi com topariobé na mistura!

poluição.jpg Num jogo de esconde e foge comprava sua amizade oferecendo-lhe bananas ouro e prata mais de maça, Foi um entendimento superior às nossas competências chegando no escorrer do tempo em um tu-cá tu-lá de irmãos. Um dia fiz uso de um estratagema, meti numa cabaça uma boa quantidade de jinguba e prendi-a com um baraço e arame a um chinguiço saliente de entre as tábuas do Tal Ex-Anibal. Felizmino não resistiu à tentação, meteu a mão na cabaça, encheu seu punho e,…nada de largar; assim ficou prisioneiro da sua própria gula.

Reganhando o dente aos poucos amaciou empatia com minha pópia já não de todo desinteligivel. Soltei-o com afagos e carinho ficando a partir daqui amigos. Ele e eu guinchávamos amizade e por este acontecido dei ao Felizmino o sobrenome de Gorigula. Fora de portas d´armas e arame farpado eu e Gorigula fomo-nos isentando de medos, conservando gestos subservientes de baixar a cabeça procurando um afago de catar amizade.

may8.jpg Um dia apareci com um baralho de cartas e, na mesa improvisada espalhei os paus, as copas, os ouros e catanas e, num repente surpreendemo-nos a jogar sem regras. Entretanto falava-lhe das minhas alegrias, num faz de conta e, ele se desentendia largando as copas; entre paus cambalhotava-se como um doidão e, eu gesticulando graças sem coreografia como só mesmo para espantar suprimentos da fala. Estávamos com uma dança com doidos quando da mata veio grande alarido, rebentamento de granadas, rajadas e bazucadas; era uma emboscada!

Escorreguei entre lianas, cipós húmidos e folhagem impregnada de aranhas até que, parei na berma, justamente ali na curva da morte aonde os restos dos camaradas se dispunham desalinhavados ao longo da picada do Massabi. Morreu o Rodrigues mais o Junça! Estes tempos amachucados da estória, foram apertados - as vergonhas alheias da vitória ficaram na certa numa luta que continuou sempre muito traída. Até cheguei a pensar que Deus era ateu, uma heresia de todo o tamanho, diga-se em abono da verdade.

CABINDA5.png Do Felismino Gorigula ficou um sonho incompleto! Em verdade ele falava espanhol – o sacana enganou-me por completamente. Ele era do MPLA, um genuíno filho da mãe …Pulando em cima dos troncos da serração do Aníbal, com braços abertos gesticulava uma catana cortando o vento com fúria como se fosse um ninja. De uma das mãos lançou um ás de copas que baloiçou até meus pés e ouvi mesmo: La vitória és cierta! La lucha continua! O Gorigula tinha sido um companheiro do Ché Guevara; Quem ia adivinhar!? Vim a saber muito mais tarde. Desconsolado ainda pude ver-me na lagoa do Bumelambuto a fumar liamba com os Mpalabandas.

Glossário:

Fiote: -Natural de Cabinda, Imbinda; Bikwatas: - Coisas, trastes; Alambamento: - Casamento: Mpalanda: - Libertador de Cabinda, defensor de seus direitos; Salalé: -Formiga que se alimenta de madeira apodrecida; Turra: - Guerrilheiro; Muxoxo: - Um estalar de palato com queixo inferior descolando a língua formatando assim um desdém sonoro mas, sussurrado; T´chindere: - Branco; Topariobé: - Vai à tuge…  

O Sob T´Chingange        



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:23
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Terça-feira, 30 de Julho de 2019
MOKANDA DO SOBA . CL

TEMPOS PARA ESQUECER - NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA

Relembrando alguns factos do SETENTAECINCO30.07.2019

“Vai para a tua terra, branco” era o que mais se ouvia na Luua de 74/75… Alguns dos heróis de túji afectos ao MPLA também deram à sola – dissimulados, claro!

Por

 soba15.jpg T´Chingange - (Otchingandji) No Alentejo do M´Puto

soba23.jpg Remexendo no meu baú encontrei o único e último documento que tenho do ESTADO DE ANGOLA e, do Governo de Transição assinado por António da Silva Cardoso – General das F.A. Trata-se de um Salvo-conduto para transitar pela Cidade de Luanda e Bairros Suburbanos. Revendo o mesmo, este refere que na condição de deslocado exercia a função de Colaborador na Comissão de Repatriamento. Está assinado pelo Alto-comissário de Angola, em Luanda, aos 29 de Julho de 1975 - Quinze dias antes do meu Voo Luualix…

Naquele então do ano de 1975, Gonçalves Ribeiro, o pai da “Ponte Luualix” fazia alarde ao mundo da periclitante situação em retirar todos os deslocados por via da descolonização, entenda-se uma anárquica guerra com vários intervenientes, movimentos emancipalistas impreparados para se governarem a si próprios. Ainda faltava ir buscar algumas pessoas a áreas aonde não havia qualquer segurança (…). Confirmo que assim era porque estando eu destacado como “adido” no Palácio do Governo da Cidade Alta da Luua, podia vivificar o que por ali se passava.

soba22.jpg Tinha por missão dar a conhecer a gente deslocada de seus sítios tais como Administradores, Chefes de Posto entre outros funcionários que fugidos dos movimentos, mais propriamente do MPLA se encontravam confinados em hotéis, pensões e afins. Preparava também as listas de embarque – Guias de Marcha sem retorno. Via telefone ou por estafeta, dava-lhes a conhecer qual a sua hora de embarque na ponte “Luualix”; para ultimarem sua presença no aeroporto ou esperar transporte ido do Palácio que os levaria ao aeroporto de Craveiro Lopes, também conhecido por Belas.

Alguns daqueles funcionários administrativos por estarem escondidos, por assim dizer, em casas de familiares eram recolhidos por um autocarro do Alto Comissariado que os transportava ao dito aeroporto. Havia promessas de morte, vinganças avulsas. Já neste início de Agosto podia ver-se milhares de famílias pernoitando de qualquer jeito junto aos seus haveres no largo frontal da zona do check-in e jardins do aeroporto, malas, caixotes e bugigangas. Ali permaneciam dia e noite cobertos com lonas presas a caixotes usando como banheiro áreas improvisadas ou as bissapas circundantes; o cheiro era nauseabundo.

guerra12.jpg Estando eu já no M´Puto com a família, ia sabendo dos efeitos de fuga lá no Ultramar. Coisas de partir o coração aconteciam como sendo coisa pouca – a frieza das pessoas, do governo, da Metrópole em um todo, afligiam-me sobremaneira. Minha revolta era imensa! No dia 4 de Agosto de 1975, na cidade da Gabela os partidos entram em confrontos e a população organiza uma caravana, com mais de duzentos veículos, acompanhados por militares portugueses e da UNITA, que com veículos e aviação fizeram escolta até a cidade de Nova Lisboa (Huambo).

O clima que já era de inferno aquecia ao rubro! O negro olhava-nos de lado e com cara de ódio pela fermentação das rádios, dos cabos que viriam as ser generais e outros que tais. Já há uma semana que tinham deixado de trabalhar para fabricarem armas artesanais. Outros recebiam-nas das mãos dos líderes políticos, dos militares de aviário do M´Puto mais os PREC para se dar início à matança um dia depois. Em meados de Outubro, o terminal aéreo de Nova Lisboa (Huambo) encerrava, e Luanda passou a receber entre quinze a vinte aviões por dia. Conto isto sem me situar no tempo ou local mas, pouco importa porque tudo estava por igual: - Descontrolado!

Os meios aéreos para fazer chegar a Luanda os refugiados do Lobito, Benguela e Moçâmedes, sendo insuficientes, o Comando Naval arranjou meios marítimos para fazer chegar a Luanda os cerca de 250 mil cidadãos brancos (maioritariamente) mas, tendo também milhares de mestiços e negros; enfim! Seguiam todos aqueles que o desejassem! Na vinda ou ida dos refugiados de um para outro lado (como kissondes) mas e, principalmente para os lugares de embarque da Luua, praticamente não havia triagem; o controlo era precário. Nunca pude entender esta falta de cuidado na logística das coisas.

guerra01.jpg Não havia tempo para decidir de quem estava ou não nas condições de perseguido, refugiado ou o que quer que fosse. Não importava ser-se quem era e de onde vinha ou do porquê de estar ali. Era tudo ao monte e seja o que Deus quiser, aos magotes na fé de Deus com o natural berreiro e choros de adultos e crianças, ordens e contra ordens desencontradas ou nem tanto. Cães, gatos e outros animais de estimação foram largados ao descaso como heresia apócrifa!

É confrangedor só de pensar em estas turbas de gente que às pressas colocaram umas peças de roupa, uns agasalhos, umas fotos de recordação e aí vão ao encontro dum desconhecido maior que o mundo. E, as despedidas de gente serviçal ou amiga, até mesmo um vizinho que por ali iam ficando; toma lá a chave do meu carro, da minha casa, cuida do gado meu amigo porque não sei quando voltarei nem se volte. Olha pelo meu cão, a aspirina mais o tarzan que ficam presos lá junto ao gerador e perto do galinheiro. Doeu e ainda dói!

moka25.jpg Era um Adeus dado aos trambolhões às coisas, ao motor da GMC a fazer de gerador, dos gansos guardadores mais o pavão e as galinhas fracas debaixo do DKV. Ele, Deus, era só uma questão de fé interior, a vontade de querer e acreditar mas Ele, não surgiu a muitos; a lei da vida e da morte era um traço disforme, desfeito em cotão a confirmar que só somos enquanto somos, uma ilusão! Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muito mais; mas aqui não havia fracos ou fortes, só deprimidos…

Sempre observei amizades incipientes desde o tempo em que os cuspidores de prata eram usuais e era admissível ou sem reparo; cuspir-se em público era feio e anti-higiénico mas agora e ali nem escarradores havia, era no barrento da terra, nosso infortúnio. Num repentemente viramos escarro, nada ou ninguém - triste; cada qual cuspia para onde quer que fosse que nem monandengues. E entre estes, surgiam os rufias catadores de desaconchegos, gente do MPLA usando prepotência com um extremo desprezo, pedindo relógios ou valores para ficar sem dissabores nesta hora de partir; uma forma de pressionar o medo ou resquícios deste.

picapau1.jpg Havia uma restea de ordem por alguns militares, Nossas Tropas mais conscientes! Valha-nos isso porque nem todos viam este desmando na forma do PREC, dos guedelhudos do M´Puto às ordens do diabo. As leis, as atitudes, o MFA, nossos patrícios do M´Puto, os generais de aviário, mesmo que absurdas, tornavam o impossível em admissível e hoje que penso muito e rezo pouco, recordo isto, procedimentos sem que ninguém averiguasse as diferenças aturdidos por pudor. Pudor, palavra complicada de entender - qual pudor qual quê!?

Nesse então, nós gente desavinda, podíamos ver já a força da crise com roubos subtraídos pela lei dos homens, pelas nossos guardiões militares com seus amigos, nossos inimigos – o MPLA, sem lei - nem velha nem nova ou tampouco ordinária ou arbitrária, nenhuma! Um salve-se quem puder! Era um acaso feito lei ali e a frio, ora marcial ora uma prepotente aberração feita de coisa feito gente, drogados no cérebro, nas kinambas ou nas matubas…Mas, ainda há quem use paninhos de flanela para amenizar o impossível…

monstro6.jpg E, muitos daqueles ali ao nosso lado a fugir do caos, tinham estado dias ou meses antes, também a fiscalizar nossas bagagens, bagulhos de sentimento a escolher os cristais, a parti-los num desdém e isto sim e isto não; Este ouro é nosso, do governo! Mas qual governo - do MPLA diziam… sim! Ao serviço do por eles chamado de glorioso MPLA… Agora, eram camuflados companheiros de viagem, de infortúnio e, já ninguém queria retaliar o que quer que fosse; uma entrega sem jeito nas mãos dum Nosso Senhor…

(Continua…)

O Soba T´Chingange - (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:59
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Quarta-feira, 3 de Julho de 2019
CAZUMBI . LV

OS FALCÕES DE NOSSAS VIDAS - OS FALCÕES DAS MINHAS PRAIAS - 02.07.2019

FÁBRICA DE LETRAS DA KIZOMBA

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Lagoa do M´Puto - Algarve

Envaidecendo-me entre tufos de aroeiras, de orelhas e nariz arregaçados, espaireço-me com tudo com mais os olhos de ver recordando que as raposas daqui (que aqui havia) escasseiam mas, ao invés disso no outro M´Puto - Portugal, as raposas crescem duma forma muito inaudita, ladinas como nunca visto, nem previsto.

carv0.jpg Bufando minhas raivas pelos poros e no topo das falésias, olho e ouço barulhos de coelhos fintadores e assim num turbilhão de espairecer o físico e a mente, chego aos níveis de enriquecimento ilícito por via da corrupção. Portugal está negligenciando isto! Piso pedras agressivas neste caminho de sobe e desce pensando, quando só queria mesmo enxugar minhas lamurias por só ouvir tantas e demolidoras atitudes sem vislumbrar acções drásticas, o quanto baste.

Ao longo da minha vida gozei de muitas e belas praias; umas houve que ficaram no canto da retina, surgem às vezes em pensamentos ou sonhos. Em Angola a praia da Samba em Luanda aonde aprendi a nadar, a surfar, a pescar, a brincar às jangadas com bidons roubados nas obras públicas, coisas de candengue. Os falcões dali e agora, não são pássaros, são gente feitos “Falcão-kissonde”. Depois mudaram-se para o Mussulo, feitos já suas excelências com um pelotão de mocambos, auxiliares com bajulinhos embutidos em cheiro de aviário. Assim, vuzumunam ali a sua petulância, prepotência e poder com banga de mwngolé.

estombar3.jpeg Da Praia do Francês em pleno Nordeste Brasileiro não há falcões na forma de pássaros; em sua substituição há urubus pela costa, nos coqueirais, como se fossem gaivotas. Mas, há muito mais pelas urbes grandes, pelos municípios e com suas duas pernas fazem fintas com cambalaxos no jeito de borralheiro dão bassulas - remendador de pneus, remendando nosso kumbú, nosso pilim, nosso suor feito dinheiro.

Em todo o lado parece ser assim! Maldita confraria de larápios, falsos falcões - falcões do M´Puto, de N´Gola ou dos Brasis - predadores. Bem, agora e aqui, aqui aonde calcorreio falésias, são mesmo pássaros; acompanham-me por vezes. Assim é na Praia do Carvoeiro do Algarve com sua recortada costa cársica e aonde nidificam, ora roubando os ninhos já feitos à outra passarada, ora construindo-o em ranhuras de rasos arbustos; limitando-se a pôr os ovos directamente sobre a plataforma escolhida; não é raro encontrar ninhos de Falcões em buracos de ruínas ou na própria falésia.

bolota2.jpg Pensando e circundando com os cuidado requeridos por via de pedras roliças penso na treta de "Presunção de inocência" e dessas saídas manhosas que os DDT usam com seus bandos de doutores advogados que tudo fazem para se guindar na vida nessa mesma forma corrupta - Falcões ou Corvos especialistas em subtrair nossas migalhas. Outras vezes esperam tanto que a propósito a lei tal e seus edeceteras, expiram... Os colarinhos brancos sempre se safam e, por isso recordo um linguajar de pergunta, ao jeito brasileiro "Mas, quando é que um RICO vai para a cadeia?

Iniciei esta crónica para falar dos falcões e acabei por me debruçar nos predadores feitos homens que surgidos de muitas latitudes da Globália também para aqui vieram; só que alguns têm as garras demasiado afiadas e, falar deles é só criar contratempos. Falando desta costa com praias de maravilha que são património vivo, seria muito bom ficarmos resguardados da malvadez, humana, e da sua utópica sustentabilidade tão apregoada. Aqui direi: " Quem tem dinheiro vê o mar"; quem o não tem fica "A ver navios"...

zeca02.jpeg Passeando minha reforma entre carrascos, arruda, e espinheiras com arranha cão e quinambas, recolho espantos do mar vendo por vezes golfinhos entre os leixões ali tão perto; contornando algares sinto o restolhar de roedores, coelhos e perdizes que esgravatam entre as rosas- de-cão, orquídeas Ophrys lutea, speculum ou maios-roxos nos vales suspensos.

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Com mais tempo falarei destes caminhos dos promontórios e vales suspensos de carbonatadas rochas com mais de dezasseis milhões de anos e, do alvoroço das primeiras horas do dia. Das torres de vigia do tempo dos romanos Falarei entre coisas do nosso dia a dia com falcões de verdade ondulando o que seja com os cantares de rolas e pombos bravos, toutinegras, gralhas e até gaivotas.

CARVOEIRO01.jpg No Torreão da Atalaia, a nostalgia estava escrita com rasgos na pedra; sicrano e fulana aos tantos de tal, estiveram aqui com todo o amor do mundo. Um lindo sítio para perpetuar aventuras, apalpar os dígitos das luzernas como um farol de vida desenhada assim porque, uma vida sem memória não é uma verdadeira vida! No final as cigarras, já fantasmavam minhas antigas alforrias.

O Soba T´Chingange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:45
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Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
A CHUVA E O BOM TEMPO . CI

EXCESSO DE OPINIÃOParte UM - 23.06.2019

- As leis da natureza dizem que independentemente do estatuto parental, todos nascem pelo mesmo local: -Nus e ateus…

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

cacu6.jpg  Entretido com a rega de minhas verduras espalhadas por aí a eito e sem jeito, salsa com jindungo e hortelã mais hortenses e boldo ao lado do doutorzinho, venho aos solavancos entre o tempo dado ou esquecido das nove tomas de rega, escrever algo entre o muito que desejo escrever antes que as ditas pensadas nuvens se esfumem num aquecimento ou puro esquecimento; Meus pensamentos por via de não o serem caligrafados ou psicografados de forma instantânea como o café mocambo, provocam atraso a tantas e, tantas estórias que me dá dó não o serem, contadas, xinguiladas! Nestas alturas queria mesmo ser um ET, carregar num botão só pensado e, logo num repentinamente, ver afluir como uma flor as notícias do T´Ching…

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Umas inventações criam mofo no baú do meu sótão, outras surgem e logo desaparecem como obra do chifrudo com quem nem simpatizo que as leva para as catacumbas. O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos num Um Ukulu esquecido por muitos e, a propósito, para não ficarem aturdidos. Sim! Ficarem com ataques de asma e ou até caspa. Porque Charulla se afastou para parte incerta defuntando-se com seus dois elles, levando com ele sua sabedoria para a terra, tal como as sementes de orégão que por aí andei espalhando a eito. Venho assim e, a bem das gentes, muito sem peneiras e de uma forma aleatória botar falas, feitas faladuras, como um banal linguajar

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A opinião e o esclarecimento são principios da maior importância para uma qualquer sociedade que se preze ao desenvolvimento. Claro que todos deveríamos ter a capacidade de opinar com conhecimento e fundamentação mas, a realidade que nos é dada observar é bem diferente; em umas, a bota não bate com a perdigota mas, outras são falsas ou demasiado facilistas para um plausível entendimento – recomendo cuidados…

saramargo3.jpg Isto leva-nos a fazer uma triagem sem contudo eliminarmos as subtilezas de cada interesse porque as facilidades imperam e outos vendem a alma ao tal diabo chifrudo para contento de sua malvadez ou e também para originar desvios ao pensamento alheio. Como manobras de diversão, andam muitos mentirosos ao nosso redor vendendo gato por lebre, criticando átoa e, outros se lhe seguem transmitindo ignorância. O partilhamento, está hoje disponível a um simples clicar e, até faz lembra as comadres da época quase medieval dum recanto interior, lugar aonde Judas perdeu as botas.

maximilano0.jpg Comadres que com sua boca de trapo faziam de mulheres sérias umas putas de baixo coturno, baixo calibre ou desclassificadas. Isto poderá verificar-se nos dias de hoje pela boca de gente que deveria ser estadista mas, que com seus propósitos nos fazem inevitavelmente numa coisa nenhuma. Nenhures que nunca aceitarei porque não me quero mentir, simplesmente e assim tão só e sozinho sem recorrer a sofismas políticos, merdosos de cheirar mal às orelhas, irritar os entrefolhos do cerebelo e olear de mau cheiro nossos pelos. Cabelos e até pintelhos… É que nestas alturas apetece-me dizer asneiras fedorentas para que toquem no ponto nevrálgico da alma.

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É mesmo uma bosta; hoje as pessoas lêem cada vez menos, escrevem cadavez (cada vez) pior e sabem cadavez menos daquilo que é importante. Apesar disso têm mais opinião sobre tudo e são especialistas nas críticas com visão de ponta, afiadíssima. As redes sociais são o espelho mais fiel disso mesmo e o palco ideal onde os ignorantes, tudo criticam, quase nem sabendo escrever. Outros, baseados nestas falas, opinam construindo uma mentira porque nem sabem que a água ferve a 100 graus Celcius. Pópilas! Fervem-nos a mioleira a troco de vaidades, tropelias, enganos, engodos açucarados de mel ou simples matumbice…

arau154.jpg As redes sociais são assim e inevitavelmente uma caldeirada de coisas más havendo no meio destas, umas muito poucas a assegurarem alguma coerência, sem essa desmedida venda de ilusões, invejas, negatividade entre outras arbitrárias. Desqualidades na mistura de sexo com religião e, como se essas suas fotografias do reviralho tipo conde de Ficalho, sempre fossem as mais credíveis – ora bolas: ir para a cama futricar até ver o São Arcanjo e depois dizer, este foi o melhor momento da minha vida; no outo dia é do mesmo e por esse desamor, assim descartam a alma em detrimento da felicidade. Cumcamano!

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Assim, numa troca de galhardetes e ou fantasias numa oportunidade de um agora, brilham sua ignorância sem saber que o Maximiliano Austríaco de nascença foi também o imperador do México e que por lá morreu encostado a um muro, fuzilado a bem da nação! Se um dia eu o T´Ching… vier a se presidente da NIASSALAND, não se admirem; já esteve mais longe! Isso! Maximiliano de Habsburgo-Lorena foi o único monarca do Segundo Império Mexicano. Ele era o irmão mais novo do imperador Francisco I da Áustria. O mesmo a quem e, em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que já há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia dos Tugas.

maximilano1.jpg Com uma poderosa imaginação, José Saramago coloca nas nossas mãos essa fricção - obra excepcional que é “A Viagem do Elefante”. Ele, Saramago fez-nos olhar a humanidade neste campo tão vasto de ironia com sarcasmo, marcas da lucidez implacável dele, combinando com a compaixão o desamor com que o autor observa as fraquezas dos homens. Sabe-se que ele também tinha um diabinho feito peluche dentro dele. Estou-me perdendo no fio enleado da meada mas, convém dizer-se a jeitos de saber mais que, aquele mesmo território aonde Maximiliano foi Imperador, foi vendido à América – vulgo USA. Creio que por um tal de Antonio López de Santa Anna, o Rosa Coutinho lá do sítio sem Tapurbana nem rio Zaire de permeio nem ter passeado numa jaula como um macaco.

saramargo0.png A Compra da Louisiana, concluída em 1803, foi negociada por Robert Livingston, durante a presidência de Thomas Jefferson, o território foi adquirido da França por US $ 15.000.000. Uma pequena parte deste território foi cedida ao Reino Unido em 1818 em troca da Bacia do Rio Vermelho. Mais desta área foi cedida à Espanha em 1819 com a compra da Florida, mas depois foi readquirida pela anexação do Texas e a Cessão Mexicana. Para terminar haverá a tecer duas importantes considerações a levar em conta: Fé e política, não se impõe nem se prescrevem porque mesmo recomendadas, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de as possuir representará a verdade. É isto a democracia!... FUI!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:00
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Domingo, 16 de Junho de 2019
MALAMBAS .CCXXII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . II13 DE JUNHO - 2019

– MALAMBA é a palavra

- Boligrafando estórias em cor antiga - do Mu Ukulu em lugares tão fantásticos que até o nome se alonga de gozo: Ondundozonanandana… Foi no ano de 1999

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

IMG_20170901_115753.jpg Foi nesse sítio de Mata-Mata, lugar ideal para se sepultar o passado que encontramos o milagroso cacto escondido entre tufos espinhosos, verde, gomoso e muito ornado de picos; agressivo no aspecto, engana no entanto a fome ao povo Bosquímano há séculos. A fronteira da coragem transpira incertezas naquele povo a quem Nelson Mandela cedeu 400 milhões de metros quadrados para mitigarem a fome explorando este milagroso cacto.

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O xhoba para além de surgir naturalmente na natureza, também é cultivado por esta etnia Bushmen, por algumas tribos nómadas que vivem sem fronteiras entre Angola, Namíbia, Botswana, Zâmbia, África do Sul e Zimbabwé. Este cacto torna-se agora conhecido, fruto de pesquisas nos laboratórios ocidentais e ao longo dos últimos tempos no intuito de controlarem o problema social da obesidade, consequentes problemas de colesterol com os triglicéridos.

xique xique3.jpg Lípidos que sendo importantes para o armazenamento de energia no organismo sob a forma de tecido adiposo, podem originar problemas cardíacos ou doenças coronárias em geral quando em quantidade elevada. Se bem se recordam da figura do bosquímano, ele é seco de carnes e, de estrutura perfeitamente musculada. Pois o xhoba que, também conhecido por Hoodia, é um cacto da família suculenta que cresce naturalmente na África do Sul, a norte, desde a Costa Atlântica até ao Limpopo.

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Tem a particularidade de eliminar a fome reduzindo duas mil calorias por naco e por dia; viscoso e azedo, quando ingerido, engana o cérebro até à linha zero, num gozo de deuses ladeados de chacais, caracais ou hienas. Entretanto vi-me obrigado a apaziguar inquietudes por evidente encantamento deste Kalahári. As noites frias daquela terra de Bushmanland crepitavam em fogueiras, alçadas labaredas do meio de tanta negrura. E, eles gente do Kalahári, embrulhados toscamente numa pele, numa tanga.

spring1.jpg O que despertou o interesse das grandes farmacêuticas no sentido de sintetizar o princípio activo da planta foi uma tal de “molécula P57”; a mesma que ajuda a suportar a fome e a sede durante suas longas caçadas, sem efeitos secundários. O fumo da fogueira dissipa-se num vazio de milhões de estrelas enquanto no retiro das precárias cubatas-choças, pelo que também se diz o frenesim do amor ou relações de corpos se desprende naturalmente pelo efeito afrodisíaco do mesmo xhoba (assim dizem).

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Existem cerca de 20 variedades desta planta mas é na variedade Hoodia Gordinii que é encontrado um supressor de apetite totalmente natural; assim se pode ler algures em uma publicação farmacêutica. No ano de 1997, a licença da descoberta foi vendida a uma empresa britânica, Phytofarm, que por sua vez vendeu os direitos de desenvolvimento e marketing à gigante Pfizer Corporation. Os interesses comerciais entram aqui com sua natural e exagerada relevância que nos levam ao género humano que somos hoje, estereotipo bem diferenciado dos Koysan, da etnia Bushmen, Bosquimanos ou da tribo nómada dos "San"…

swakop5.jpg De uma forma mais activa, a P57 tem um comportamento similar ao que a glucose tem ao nível das células nervosas, no cérebro, levando o corpo a pensar, que está cheio, mesmo quando não o está, cortando assim o apetite, como explica o Dr. Richard Dixey, da Phytofarm: “Existe uma parte do cérebro chamada hipotálamo. Dentro do hipotálamo, situado no centro do cérebro, existem células nervosas que detectam a presença de um açúcar chamado glucose".

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Quando comemos, os níveis de açúcar no sangue aumentam por causa da comida e estas células começam a lançar para o corpo a informação de que estamos cheios. Pois o que o xhoba parece conter é uma molécula que é cerca de 10 mil vezes mais activa que a glucose. A maturidade dos Bosquimanos mede-se pela idade, no encanto de estalar conversa em contos e, por isso, são a mais velha biblioteca oral do mundo. Os mais velhos, kotas, engalanados em contos de místicas com lendas de mussendos ou missossos, descrevem por estalos sua coragem despida de preconceitos porque os desconhecem.

namib5.jpg De sabedoria debruada em muitas rugas, olham num permanente espanto as coisas que nós os ocidentais inteligentes banalizam e, uma casca de fruta que pode ser um grande património para eles, torna um fio com uma linha uma tecnologia espacial. Para nós alienígenas ocidentais do mundo terreno, iremos dizer do quanto é maravilhoso ter comprimidos que permitirão encher o bandulho de pasteis de creme e baba de camelo às duas da manhã, ou sorvete na forma de gelado sem riscos de se ficar com um peso na consciência. E, tem mais, as mulheres não deixarão seus maridos à solta se souberem que ingeriram uma vitamina super de xhoba…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:43
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019
KILUNDU . VI
kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga em ALHAMBRA, assiste ao pacto de Mano-Kilombelombe com Januário. Eu já era Mano-Corvo - Uma fusão de homem com pássaro - Eu, Costa Araújo e o pássaro do tipo Kwetzal (México)...
NA LAGOA DO M´PUTO - 08.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Na estepe Alentejana

ÁFRICA7.jpg Com a sensação de começar a penetrar na minha intranquila dependência da kianda, quase que me dou conta que meu pacto de sangue com o velho de mais de talvez 394 anos, começa a borbulhar-me no cocuruto da meninge. Os seguranças de serviço levaram-nos direitinhos à única entrada exterior do Palácio Nazarie.

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Tratados como mustáfas por via da indumentária de Januário Pieter e seu guardião - lanceiro, um espanto de nos fazer sentir os maiores privilegiados. O Cipaio Kukia  Edu Mandinga muito vaidoso, banga ultra moderna fardanda de zuarte amarelo, balalaica com muitos bolsos e uma catrefada de zingarelhos pendurados à mistura com pequenos chifres de porco do mato.

angola colonial.jpg Coisas trazidas dos confins; lá duma terra chamada Mapunda e uma outra com nome de Chibia com nome de espantar pássaros xirikuatas. Cipaio Mandinga, direitinho que nem um fuso,  tudo olhava com vontade de saber. Muxuxou que era muita areia prá sua camioneta e que, teria de comer um chipe extra de memória e sistema integrado para fosforescer mais rápido na sabedoria.

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A partir daqui rodávamos a cabeça em todos os sentidos observando toda a beleza daquele conjunto palaciano com quartéis, estábulos, mesquitas, escolas, banhos, cemitérios e jardins. O escambau de coisas desanoitecidas já esquecidas ou penduradas por detrás das portas junto às muitas ferraduras de muares e outros bicharocos espinhosos ou cascarrudos.

araujo 25.jpg O Palácio dos Nazaries, é em verdade um conjunto de residências principescas sem fachada, sem alinhamento de salas, com passeios e jardins interiores de grande frescura. Pode adivinhar-se as forças ingrávidas de arcos com paredes furadas de renda; portas, janelas e arcadas por onde a luz penetra na medida certa e, aonde parece não haver gravidade. Qualquer matumbo, ali, fica espevitado da cabeça, numa de jihadar cosigo próprio...

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Foi no Pátio dos Leões, a sala privada do Sultão em que eu T´Chingange e Pieter selamos o nosso mais verdadeiro pacto de sangue. Esse cipaio Kukia Edu da Chibia que anda por aqui, até pode nem se lembrar mas assistiu direitinho com sua lança, feito Massai da Corongosa - um jardim que havia lá perto de sua casa cubata no Lubango. Uma mistura cafusa na cabeça dele que faz pena. Nunca no Lubango ouve caserna de bichos desses e, com esse nome!?

araujo 28.jpg Por medo, as pessoas passavam de largo como se nós também fossemos daqueles muitos idos anos e muito cheios de caruncho. Tínhamos em frente um belo claustro formado por muitas colunas, o lugar mais Pambu N´gila de todos os lugares aonde estivemos antes. Este sítio, era em verdade um sem número de flocos dourados caídos do Duilo.

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E, foi ali que ambos picamos o centro da palma da mão esquerda de onde saiu uma bolha de sangue. Eu T´Chingange cuspi na mão esquerda de Pieter dissolvendo-se no sangue e ele fez o mesmo na minha mão esquerda; com a mão direita, ambos acariciamos as cabeças dos leões e, eu primeiro e depois Pieter, desferimos com a direita em cutelo na mão esquerda do outro um enérgico movimento fazendo chispar sangue e cuspo no ar.
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Teve de ser ali porque o leão que pela boca deita água simboliza o Sol da qual brota a a vida. Os doze leões, são os doze Sois do Zodiaco, os doze meses que na eternidade existem em simultâneo. Eles, os leões sostêem a Kalunga como os doze torres de ferro no templo de Salomão. É este o depósito das águas celestes dessa Kalunga.

araujo17.jpg Este simbolismo único, venera a água como a pura vida e, foi ali que também, ambos choramos lágrimas de prata polindo o chão do Califa para ficarmos Manos-Kilombelombe. O Cipaio vaidoso sempre em guarda, sorria de vez em vez, inadequado para ser uma testemunha com carisma de Xi-Colono de terceira geração. Em realidade ele era mesmo um genuíno africano, embora branco, mas era! Sem nós t´Xinderes, a África fica incompleta! 

:::::
Januário Pieter falou de que quando ficasse um antigamente, de mais tarde, eu, um mais kota, me iria recordar deste selo de Mano-Kilombelombe enquanto ele, lá na ilha da ensandeira do Kwanza, recordaria os espíritos dos M´fumos Kia-Samba e Manhanga como um minkinsi.
:::::
Pieter recordava as minhas próprias brincadeiras com os candengues no mar da Samba, os pactos de amizade feitos a cuspo e bisgo da mulemba nos subúrbios da Lua. A Kianda Pieter sabia tudo! Sukuama!
- Deixa só, “ N´Zambi a tu bane n´guzu mu kukaiela”, Deus dá-nos força para seguir, disse eu batendo dedos no ar enxotando maus olhados.

 araujo155.jpg  Ilustrações do Mano Corvo Costa Araújo, nosso mestre (falecido recentemente...)

Glossaário:
Edu: De Eduardo Torres - Um amigo kota, poeta, prosador, branco de segunda com bitacaias nas orelhas , apátrida e vaidoso quanto baste... um amigo para sempre...
Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto Duilo: - Céu (em um amiente de espíritualidade)
kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral
Mano-Kilombelombe: - Mano-Corvo, Uma fusão de homem com pássaro do tipo Kwetzal ( México)
M´fumos : - Chefes
Kukia: - Sol, pô do sol
Samba: - Lugar ente a Quissala e Futungo (Belas da Luanda de antigamente)
Manhanga: - Bairro da Maianga, lugar de cacimba, nome antigo já esquecido.
Amazulu: - Dialeto Zulu
Minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado
Sukuama!: - Caramba!; poça!; Cus diabos; Porra!
Bisgo: - Resina de mulemba usado para apanhar pássaros,da mulembeira (árvore de grande porte que dá uns figos pequenos)
Lua – Diminutivo de Luanda
(Continua ...)an
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:23
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Terça-feira, 7 de Maio de 2019
KILUNDU . V

kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga botou faladura : - O Mundo está todo esfrangalhado em toda a parte; estamos separados, mas sinto que somos feitos do mesmo loando. Ué... ele fala angolês!?.... Desta feita estávamos ainda em Granada..
NA LAGOA DO M´PUTO - 07.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Estepe Alentejana
Na sequência duma estória não muito antiga,  com a sensação de começar a penetrar na minha própria inconsciência, enrolando dedos e retesando músculos, cruzei o bairro mouro Albayzin bem cedo; de forma aleatória como um senhor dos caminhos minkisi cruzei ruelas estreitas de aroma de mijo ou tapetes molhados misturados com cheiros de churros.

MARROCOS2.jpg Do outro lado do vale podia ver as muralhas e torres de Alhambra. O rio Darro, corria na depressão à semelhança dos meus pensamentos que rolavam entre mulheres jitanas guapas bailando o flamengo em as mil e uma noites e, em companhia de Aladino e N´si, o guardião negro da terra. 
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Este carregado de espanta espíritos, vendia ternuras na forma de raminhos de alecrim e farrapos enternecidos de recordações. Tinha combinado encontrar-me de novo com Januário Pieter, um velho de trezentos e muitos anos e, aquele era um novo bom dia. Esta kianda itinerante da Globália, natural de Cabo Ledo, sítio distante da kalunga trazia com ele um moreno como guarda costas.

alhambra5.jpg Sempre estranhei uma kianda ter necessidade de um guarda costas sem, em verdade, ter costas! Este novo personagem tinha o nome de Cipaio Kukia Mandinga; tinha um cofió vermelho com uns laçarotes a saírem do cucuruto do boné que mais parecia um vaso invertido e, trazia não uma adaga mas, uma lança como se tratasse um guardião vindo daquela Índia imperial.
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Terei tempo para descrever este cipaio vestido de zuarte amarelo com mais detalhes mas, por agora iremos continuar a estória base do meu calendário. Na lapela do lado esquerdo tinha um escudo meio surrado com as Letras EDU. O que poço adiantar é o de que este mafarrico se dizia ser branco de segunda mas, em realidade aparecia preto que nem um tição...

alhambra4.jpg Cruzamos para Sul em ruas e avenidas modernas de patéticas angústias feitas estátuas! Íamos na busca do lugar mais próximo do "Arco de las granadas", o ponto nosso Pambu N´jila das antigas muralhas mouras; é ali que os espaços físico e e místico juntam simbis com gente de suko ou alucinados como nós.

mocanda11.jpg Na "Calle Bodegoncillo", já um pouco encalacrado, entrei em "El Pátio Riconcillo" e, busquei acento apropriado; o lugar era arejado dando para a "Plaza Nueva" podendo até, ver mais acima a "Plaza de Santa Ana". As paredes estavam cobertas de cartazes anunciando espaços de "Flamenco" e cartazes de cores amarelecidas com datas ultrapassadas de eventos tauromárqicos.

alhambra3.jpg Eram bestas de bois cornudos e esbeltos toureiros enfiados em apertados fato vistosos de lantejoulas zurzindo farpas ou bandarilhas coloridas; estavam encaixilhados em madeira sarapintada de minúsculos furos de térmitas, resquícios das pestes de Guernica.
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Foi assim já sentados com o Cipaio Kukia Mandinga que este falou pela única vez; antes só abanava sua cabeça ziguezagueando os penduricalhos do cofió. E, botando conversa de sábias palavras como que assim comesse delas num sempre mais constante do que o habitual, falou: - O Mundo está todo esfrangalhado em toda a parte; estamos separados, mas sinto que somos feitos do mesmo loando. Ué... ele fala angolês da Chibia!?

cipaio001.jpg E, continuou: - Há um grito que ximbica no nosso coração de fazer missangas. É um sentimento, uma sensibilidade, o respeito pelo ser humano que se juntam e são banda que batucam nosso coração; uma fé que se abre na kubata do nosso coração; jura mesmo patrão, diz assim desta forma encavalitada na mistura de sabedoria virando-se para Januário Pieter.
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Intransmissível! Intransferível! Ele nem quer saber quem morreu, só chora num repentinamente… Assim, preocupado com a RAIZ que alimenta a árvore - o imbondeiro, muito cava para contar quantas são, como se alimentam, se são envenenadas por ervas daninhas que crescem do nada e fazem secar os seus veios de vida. Pópilas! Ele falava coisa sem coisar o que estávamos a viver... Mas, aqui tem touros, tem touradas meu! Porque estás falar só àtoa, fingir que não és matumbo. Cala-te! Disse perenptóriamente a Kianda Pieter...

guernica4.jpgGLOSSÁRIO 
Minkisi: - Agente de ligação entre seres humanos e o físico, elementos de fogo, água, ar e terra; Jitanas guapas: - Ciganas bonitas; Aladino: O sábio árabe das lâmparinas; N´si: - Terra, o feiticeiro pintado com farinha vermelha (maiaca kianguim) que guarda os pórticos e permanece até o toque do medo, adrenalina, guardador de caminhos com saber do ontem, do hoje e do amanhã; Kianda: - Fantasma, assombração das águas das lagoas, rios e mares ou Kalungas; Kalunga: Junção de espíritos na forma de água, simplesmente água ou mar, espírito forte no reino dos mortos, divindade abstracta podendo ter a forma humana, quando alguém é levado pelo mar, foi Kalunga que lhe levou porque fez uafa, uafou (wafou= morreu); Globália. - O Mundo; Pambu N´Jila: Espaço físico em conjunção com o campo místico; Simbis: - Espírito ancestral de origem do Kikongo e àfrica central.
(Continua ...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:26
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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