Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 139

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3550 – 16.02.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Acácia rubra1.jpg ( Na mata…) Ao Longo da Caminhada Surge a Senhora Vinona que pressentia que a qualquer momento a caravana da UNITA poderia ser atacada não escondendo seu pensamento. «Sinto que vamos ser atacados», disse ela a Savimbi. A voz de Vinona não era uma voz que se pudesse ignorar. Era uma mulher decidida, de poucas palavras, capaz de mobilizar e disciplinar outras mulheres com o seu exemplo. «Savimbi, porém, não lhe concedia privilégios especiais nem se dirigia de maneira diferente à própria mulher. Ela era apenas uma pessoa mais, na coluna».

Savimbi chamou N'Zau Puna e Chiwale e falou-lhes sobre o aviso que Vinona lhe fizera. Savimbi não ignorou completamente aqueles pressentimentos: «É verdade, quando se está há muito tempo numa guerra de guerrilha desenvolve-se um discernimento instintivo, um sentimento de que, vai ou não haver um ataque».

zem4.jpg Não obstante, Vinona insistiu que tencionava partir e juntar-se aos filhos, enquanto os pais chegavam da sua aldeia natal para saudarem a filha e o genro. Vinona pediu a Savimbi para vir falar-lhes, antes de regressarem a casa. Savimbi mal tivera tempo de dizer adeus aos sogros, quando Chivinga voltou para trás a correr, com notícias de que tinham sofrido uma emboscada, por parte das tropas do MPLA, justamente a norte de Chissimba.

Fora capturado um guerrilheiro da UNITA e era virtualmente certo admitir por parte da força conjunta MPLA/cubanos, que Savimbi estaria por perto. «Dificilmente acreditei que fosse possível a presença do MPLA», afirmou Savimbi. «Todavia, a minha mulher tinha tido razão na sua insistência por isso, dei imediatamente ordens para partir». A coluna mal podia dirigir-se para sul, na direcção do local da emboscada.

zem3.jpg Não ousavam voltar para norte e qualquer retirada em direcção a leste estava bloqueada Quembo. Só lhes restava tomar o rumo oeste, atravessando uma vasta área de cultivo com dois quilómetros de extensão, zona desbastada de árvores. Savimbi reforçou o grupo de Chivinga elevando-a para cinquenta homens enviando-o rumo ao sul para Chissimba de modo a aguentar o MPLA, enquanto fosse possível. Cerca de meia hora depois de Chivinga ter partido, começou a cair fogo de morteiros e rochets no local aonde Savimbi se encontrava.

Por via disto, Savimbi ordenou ao seu grupo que também partisse. Apenas tinham travessado a área cultivada e atingido a mata quando, à distância, apareceram dois helicópteros. «Assumi pessoalmente o comando porque compreendi que estávamos perante uma situação muito grave», disse ele. Mandei que todos se deitassem no chão. Disse que ninguém mais daria ordens, fosse em que circunstâncias  fosse, nem mesmo N´Zau Puna ou Chiwale. Não queria confusões».

zem2.jpg Havia um posto avançado de guerrilheiros da UNITA acerca de dois quilómetros para Norte do local onde estavam escondidos e aonde Savimbi queria chegar. Eram necessários suprimentos de comida para a fuga e, ele, estava agora a planear com base em informações recentes trazidas por mensageiros: No posto avançado, tinham reunido grandes stocks de carne seca de antílope. Savimbi conduziu o seu grupo mais para o interior da mata e mandou oficiais com instruções para o comandante do posto avançado, major Samalambo.

Quando descansava durante o dia, o povo de Savimbi avistou helicópteros movimentando-se de Chissima em direcção à posição de Samalambo e já quase ao anoitecer, chegaram noticias alarmantes. Um mensageiro de entre os oficiais que tinham sido enviados até Samalambo, disse que um helicóptero o tinha sobrevoado, quando se deslocavam em terreno aberto: estavam certos de terem sido localizados. Não havia tempo a perder.  A estratégia delineada para confundir o MPLA e os cubanos, tinha de estar concluída ainda antes da noite acabar…

Nota: - “Transcrições de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:31
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Sexta-feira, 18 de Agosto de 2023
VIAGENS . 58

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3468 – 18.08.2023

- Boligrafando estórias de RUACANÁ FALLS a Waterberg Prateou National Park. – Ondundozonanandana -  Foi no ano de 1999

Porkhoisan01.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

khoisan00.jpg Das quedas do Ruacaná, fronteira de Angola com a Namíbia, só vimos o penedo escuro na forma de falésia escorrendo pequenos fios de água envolvendo árvores retorcidas, estendendo aqui e além suas raízes; ao nível da margem aonde nós estávamos estendia-se um lago manso irregular entre tufos de vegetação. Não muito longe do gado beberricando aproveitamos refrescarmo-nos nas águas do Cunene, o mesmo que há muitos milénios desaguava no agora seco lago do Etoscha.

Foi no regresso que tivemos a feliz sorte de ver uma mulher Himba, toda pintada de ocre vermelho com tiras de couro cruzando o peito desnudo e seus carrapitos de cabelo enlameado de barro. Foi um contacto fugidio á beira da picada que liga à povoação Ruacaná mas, no registo das retinas de todos nós ficou aquela figura de gente agora quase em extinção.

otchicoto1.jpg Foi neste percurso e a caminho de Ondangwa que tentamos abraçar um embondeiro majestoso mas, os quatro da tribo não conseguiram chegar à metade. A t´xipala amarelecida relembra a euforia daqueles dias mas que agora estão confinadas à caixa de sapatos do mukifo do soba; O mofo foi lá deixado para preservar o espírito das terras do Fim-do-Mundo junto às petrificadas árvores das terras de Kaokoland, Namíbia Twifelfontein. Rumando a norte para o Okavango, seguimos a direcção de Grootfontein, uma singela cidade no meio da grande chana de África e após o almoço, na revisão de mapas, julgamos de interesse ficar por ali a fim de conhecermos o Waterberg Plateou National Park.

E, porque gostamos do lugar, acabamos por alugar um chalé bem junto à falésia colorida do Plateou entre acácias e, porque não podíamos percorrer com o nosso 4x4 o planalto, inscrevemo-nos no safari da reserva; por lá andamos toda a manha desfrutando paisagens alargadas. O Cudu, Olongue, do buraco de observação, deu um pulo descabido ao clique da máquina fotográfica e desenfreou-se entre capim e pedras.

khoisan03.jpg Já no Camp, o brai de carne estava melhor que nunca e, após tão suculento repasto veio a soneca de passar pelas brasas o tal cochilo. A tarde daquele dia, terminou com uma ascensão entre rochas de escorrida pintura natural em jeito de arco-íris e, seguindo a pista, fomos e viemos já ao cair da noite, de papo cheio de vistas soberbas. A contornar o chalé amiudadamente recebíamos a visita de saguins, bâmbis, capotas e um sem fim de pássaros, bicos de lacre, viuvinhas, celestes e o sempre presente monteiro´s ornebil com seu grande bico amarelo e, adunco.

O Park Nacional de Waterberg com sua bonita meseta, é um espaço protegido, situado bem no centro da Namíbia, ficando a 69 Km a este da povoação de Waterburg. Destaca-se pela sua elevação, bem acima da planície do Kalahári. Com os 405 Km quadrados de terreno circundante, foram declarados Reserva Natural no ano de 1972.

WATER1.jpg A meseta é em grande parte inacessível, pelo que, na década de 1970 várias das espécies em perigo de Namíbia, foram para ali trasladadas para assim as proteger de depredadores da caça furtiva. Em 1904, nas encostas da meseta, teve lugar a batalha de Waterberg, um marco de genocídio dos povos herero e namas (namaquas), perpetrado pelos alemães entre 1904 y 1907. A batalha saldou-se com a derrota dos hereros, muitos dos quais morreram no deserto. Esta zona faz ainda parte da Grande Namaqualândia, escassamente povoada pelo povo khoisan (bosquímanos) que tradicionalmente ali habita - região do semiárido chamado de Succulent Karoo…

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:21
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Quarta-feira, 16 de Agosto de 2023
VIAGENS . 56
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”
- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3466 – 16.08.2023
- Boligrafando estórias em NAMUTONI do Etoscha
–Ondundozonanandana - Foi no ano de 1999
Por:Namotoni01.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Namotoni03.jpg Não posso deixar de descrever sucintamente o forte Namutoni pois que faz parte do Park Etoscha, lugar aonde se bivacaram as tropas da Alemanha durante a segunda guerra mundial e que também teve uma forte acção durante as batalhas do sul de Angola quando da consolidação da fronteira com a Namíbia, do tempo em que para ali foram enviados muitos expedicionários portugueses. Teremos de recordar ao de leve esses tempos do início do século XIX, do que foi a batalha de Naulila e a leva de militares nesse então - Alguns, foram considerados, sim! Outros morreram desclassificados até ao tutano que virou cinza…

O Combate de Naulila, ou Desastre de Naulila, é a designação dada na historiografia portuguesa à batalha travada a 18 de Dezembro de 1914 em Naulila, sul de Angola, entre forças portuguesas e alemãs, inserido na Campanha alemã em Angola, da Primeira Guerra Mundial. O combate terminou com a derrota dos militares portugueses, com cerca de 70 mortos da parte portuguesa, entre oficiais e praças. As forças portuguesas foram então obrigadas a abandonar temporariamente o Cuamato e Humbe, territórios na fronteira entre a então colónia portuguesa de Angola e a colónia alemã do Sudoeste Africano.

Namotoni04.jpg Em consequência da perda de prestígio das forças portuguesas as populações de Huíla revoltaram-se contra a ocupação portuguesa. A crise instalada resolver-se-ia com o envio de uma força expedicionária por Portugal sob o comando do general Pereira d'Eça. A Grande Guerra, originou um conjunto de conflitos com raízes na corrida à ocupação da África que se seguiu à Conferência de Berlim de 1884-1885. Por via da entrada de novas potências coloniais em África, a obrigação de ocupação efectiva do território, colónia de Angola, levou às campanhas de pacificação, as quais se prolongaram por décadas.

Portugal assistiu com grande desconfiança e desagrado à ocupação de enormes extensões de território por outras potências dando origem ao conflito com o Império Britânico, que desembocou na ultimato britânico de 1890 em torno do Mapa Cor-de-Rosa, as Guerras Bóhers com o consequente avanço para norte dos bóhers sul-africanos e, por se tratar do surgimento de uma potência sem tradições coloniais em África, criando as colónias alemãs adjacentes – leia-se Namíbia.

Namotoni1.jpg A colónia do Sudoeste Africano Alemão a sul de Angola que impôs novas fronteiras, limitando as pretensões portuguesas naquelas regiões interferiu na missionação portuguesa com o aparecimento de missões protestantes suportadas por organizações alemãs. As razões para a desconfiança mútua que se sentia eram sérias: em causa estavam as fronteiras entre as colónias de Angola e do Sudoeste Africano Alemão (Damaralãndia). Um consenso alargado na classe política portuguesa sobre a necessidade de defender as colónias africanas, traduziu-se no envio, em Setembro de 1914, de forças expedicionárias para Angola.

Para Angola partiu um contingente de 1600 homens, comandado pelo tenente-coronel José Augusto Alves Roçadas, um militar africanista que entre 1904 e 1907 se distinguira no sul de Angola na campanha do Cuamato, uma longa e difícil campanha de pacificação contra os povos cuanhamas. Conhecedor daquele território, em 1914, regressou com a missão de guarnecer a região de fronteira com a colónia alemã da Damaralãndia, incumbido de evitar levantamentos indígenas e de proteger a fronteira.

naulila1.jpg As forças comandadas por Alves Roçadas desembarcaram em Moçâmedes a 27 de Setembro e a 1 de Outubro daquele ano. Em Novembro de 1914, já após os incidentes de Naulila e Cuangar, foram enviados mais 2800 homens para Angola e em Dezembro outros 4300 militares. Nos anos seguintes, o efectivo continuou a ser reforçado. Dos eventos anteriores que levaram ao confronto de Naulila iniciou-se a 18 de Outubro de 1914, quando um pelotão comandado pelo alferes Manuel Álvares Sereno, em patrulha junto à fronteira com a Damaralândia, um território integrado no Sudoeste Africano Alemão, encontrou a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila uma pequena força alemã, capitaneada pelo Dr. Hans Schultze-Jena, juiz e administrador do distrito de Outjo, que tinha entrado em Angola sem prévio aviso às autoridades portuguesas.

naulila3.jpgDe incidente em incidente, a indignação na colónia era enorme e os apelos à vingança sucederam-se. E, deu-se assim o ataque a Cuangar a 31 de Outubro de 1914. A primeira retaliação alemã surgiu logo a 31 de Outubro, quando uma força alemão, sob o comando do comissário de polícia Oswald Ostermann, do posto de polícia de Nkurenkuru, atacou Forte de Cuangar, um posto fronteiriço a leste de Naulila, destruindo o forte e matando, com recurso a metralhadoras, todo o pessoal que ali se encontrava e que não conseguiu fugir para o mato. Este incidente, que ficou conhecido como o "Massacre de Cuangar", marca o desencadear das hostilidades entre as forças portuguesas e alemãs ao longo da fronteira com a Damaralãndia, actual Ovambolândia e, tendo o forte de Namutoni como um lugar bivaque de base à retaguarda… Lugar que, por isso, requer um avivar da história Lusa-Tuga…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:03
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
KWANGIADES . XXVIII

NAS TERRAS DO FIM-DO-MUNDO

T´CHINGANGE COM REIS VISSAPA* NO OKAVANGO

Kinga só patrão. Kwangiades são as musas do Kwanza…

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Tive a sorte de atravessar os muxitos da África com Dy Reis Vissapa; desde Windhoek, capital da Namíbia, subimos para norte até o Rundu na margem do Cubango e Catima Mulillo às margens do rio Zambeze. Nós, uns gwetas com olhos de águia, íamo-nos tornando mwatas na interpretação das terras do fim-do-mundo conciliando o antes e o agora daquela região de Okavango. E, de novo revisitamos as mulembas de N’Zambi com os kambas daqui, mais dali, ouvindo suas falas de espanto.

  DY00.jpg..soba15.jpg Mostraram-nos aquele arbusto parecido com rebentos novos de loureiro de onde cortam umas varas para introduzir na boca dos sobas defuntados. Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho no lugar do Mukwé; ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas.

:::::

De certa forma os sobas são os guardiões da memória, das tradições antepassadas e, por isso teriam de já defuntados ficar de boca aberta para dizer suas últimas vontades. E, era aquele pau que dava nobreza a este procedimento e, até que o Kimbanda falasse por delegação do morto, tudo o que lhe foi transmitido no tempo, a boca não era encerrada.

:::::

Eu e Dy, pela indumentária, mais parecíamos uns caçadores de elefantes. E, foi uma turista de cor branca de leite que nos perguntou se eramos mesmo caçadores de elefante! Olhamos um para o outro admirados de ver ali esta branquela de mochila pedindo boleia em plena faixa de Kaprivi e, nem sei bem o que respondemos mas o que ficou desta cena foi acharmos demasiado destemida a sua atitude em cruzar áfrica sozinha. Disse-nos que ia para as cataratas Victória fazer jumping na ponte do Stanley que liga o Zimbabwé à Zâmbia.

dy15.jpg Foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo. João Miranda, um chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de fuga de Angola. E, que depois veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1974

:::::

Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Disse ele após longas falas como dando um finalmente àquele passado mas, sempre ia falando raspas desse conturbado tempo. Mesmo naquele lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido comerciante.

:::::

Este quase lendário homem da mata, pouco a pouco recorda com raspas de esquecimento propositado peripécias e, ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda; fazia parte do batalhão Búfalo! Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes.

miran01.jpeg Seguimos viagem rumo a Nascente deixando esta gente que como nós, saíram dessa imensidão dos matos de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado; assim foi dito por Elizabete Miranda sua esposa. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo.

:::::

Prosseguindo nesses milhões de espinheiras ressequidas de para além de Okahanja, e Divundo atravessamos terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá longe por quilómetros de distância, situadas à sombra de acácias; Farmes quase invisíveis aonde só o depósito de água ou o moinho de vento se vêm tremelicando nas onduladas quenturas. A caminho de Catima Mulillo passamos antigos acampamentos de Omega, chiam segredos de ferrugem abandonada, coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes e muita aventura em rente dos olhares de hipopótamos. Estes nada me falaram, preocupados que estavam em espargir merda ao seu redor para marcar território.

miran03.jpg Por todo o lado podem ver-se orixes e avestruzes bordeando as áridas terras aonde até o deus-me-livre dos mortais, tem de cohabitar com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pêlo. Lugares muito diferentes das regiões a Sul de Ovambo aonde os guetos não juntam brancos com pretos.

:::::

*Reis Vissapa - Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:27
LINK DO POST | COMENTAR | VER COMENTÁRIOS (1) | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LXXII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Guetos, somos todos nós, brancos e pretos

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba0.jpgT´Chingange

zeca3.jpgEntre dúvidas escondidas no pormenor de factos conhecidos, dou-me conta que João Miranda do Kavango tem versões novas a que eu não forço ao pormenor para não suscitar ranhuras, referindo tão-somente o que me parece ter lógica porque por mais que nos esforcemos há coisas que sempre ficam na charneira do mujimbo, do boato. Savimbi, sempre recusou o abandono da luta escolhendo cenários de exílio dourado e, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou no seio de sua terra, sua pátria, disse eu num propósito de diálogo.

 savi02.jpg E continuei: – A ela tudo deu e "nada tirou", ao contrário de outros com contas, palácios e mansões no exterior. Fisicamente Savimbi morreu mas, seu espírito está em toda a parte, mesmo fora de Angola! Alguém em seu nome continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma de ser e de estar! Li algures que está enterrado em um humilde cemitério de Luena.

savi1.jpg Isso é o que se diz, rebate Miranda no seu jeito enigmático de sempre deixar uma prega solta na costura. Ele está vivo, sim! Algures num lugar palaciano e bem protegido; aquilo de sua morte foi uma farsa muito bem engendrada pelas grandes potências. O que viram em fotos é uma tramóia muito bem-feita, um sócio de Savimbi e, não é certo saberem aonde ele foi enterrado para evitar um rodopio de peregrinos.

savi8.pngNão acredito nesta sua versão, não tem lógica porque mostraram o corpo dele em várias posições e eu até pude referir em tempos que ele se teria matado pois que na foto de Grande Reportagem podia ver-se um furo em seu queixo do lado direito. Era ele sim! Rematei em termo definitivo! Ele, Miranda, deu de ombros assim como dizendo que cada qual ficava com a sua opinião. Não forcei a nota mas, ando matutando em sua ficção; acontece hoje tanta coisa estranha!?

savi03.jpgTambém é mentira que o Cessna que caiu na Jamba com João Soares, levasse dentes de elefante! O Cessna em voo para a Namíbia caiu, não por excesso de carga mas por nabice do dono e piloto Joaquim da Silva Augusto que actuou precipitadamente a um grito de medo de João Soares; devido a já estar escuro quando do levantamento do ainda novo Cessna, as fagulhas que normalmente saem dos motores fizeram com que João Soares gritasse pelo que, Augusto, fez uma manobra precipitada para regressar, tendo batido nas árvores limítrofes;com precipitando-se no solo.

savi7.pngJoão Soares ficou ferido, convalescendo em Pretória em casa do casal Horácio e Fátima Roque. Os outros deputados, Rui Gomes da Silva, do PSD, e Nogueira de Brito, do CDS, que tinham ido assistir ao Congresso da UNITA, nada tiveram para além do susto. Quem sou eu para contrapor e com que dados, o que João Miranda afirma!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:07
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Sábado, 31 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXVI

TEMPO COM FRINHAS . Coisa infecta, simbiose de militar com político, um promíscuo MFA que nos sucumbia, passando armas ao inimigo...

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpgT´Chingange

ana maria 4.jpgAquele domingo dia dez de Janeiro, foi um comprido dia dedicado à conversa de antigas passagens, famílias em cruzados destinos falando muito de nossas vivências em África a quarenta anos de distância. No meio dum rio longínquo chamado Okavango podíamos admirar dum e doutro lado deste rio a exuberante verdura, alguns vestígios da base daquela que foi o Batalhão Búfalo nº 32 da África do Sul que é agora uma reserva com esses mesmo nome inserida no Bwabwata National Park e, podendo ler-se no mapa como Military Ruins. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola.

miranda3.jpgFicou-nos bem ciente que podemos sobreviver aos idiotas e até gananciosos que nos governaram nesse lapso de tempo e, aqui estamos nós velhos resistentes, a retemperar ideias com a heineken lager beer, balouçando o tempo em uma balsa do Nunda Lodge. Cientes de que não podemos sobreviver à traição gerada dentro de nós, que fomos no tempo assistindo ao movimento de traidores que não o pareciam, mexendo-se livremente dentro dum governo que se dizia nosso, nos entorpeceram com melífluos sussurros ouvidos por todos que no vestíbulo do Estado português, já ecoavam falsidade nos propósitos; nós muito descansados, muito inocentes, a maioria nada disto sabia.

ana maria 3.jpgEsses traidores, não o parecendo ser, falavam-nos com familiaridade, suas vítimas, que sem o sabermos, usavam sua força e suas ambições em apelo a sentimentos que infantilmente se alojavam no coração de todos nós. Foram muitos a arruinar as raízes da sociedade, a trabalhar até em segredo com a justiça, ocultos na noite para demolir nossas fundações; minar também os alicerces da nação portuguesa, coisa infecta num corpo, simbiose de militar com político, um promíscuo MFA que nos sucumbia por mando de outras potências, de tropas passando armas ao inimigo, velhaquices de todo o tamanho vendendo-nos ao desbarato. O dia termina com um adeus aos hipopótamos tendo a kúkia do sol poente, uma visão deslumbrante e, já noite, as luzes do povoado Mucusso, do outro lado do sonho.

Fotos de Ana Maria Miranda (Mwkwé)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:56
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXI

NAS FRINCHAS DO TEMPO . O risco ou o rego que, por coisa pouca muda nossas vidas…

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Se a vida é uma sentença com um princípio e um fim, não conseguiremos ouvir o grito da vida se sentirmos remorsos daquilo que não fizemos, ou daquilo que poderíamos ter feito; não podemos assumir a culpa dos pais, nem dos pais de outros pais. Na percepção parcial das vitais contingências, tecidas e compostas nas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que determinam o futuro próximo e distante. Cada um de nós foi o que foi por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas.

 Sem perder tempo com enigmas, aceitei o convite da Ana Maria para passear ao longo do Kavango até quase o Botswana a visitar rápidos e remansos das chanas deste, já com as águas do kuito, águas escuras que irão inundar o Delta, um mar muito antigo a dar vida aos muitos N´dovus ou jambas que conhecemos por elefantes, entre hipopótamos búfalos e outras muitas espécimes. Pela picada de macadame encrespada de ondinhas já para lá do Divundo, dos vários cuca-shops e cola-colas dos chineses, passamos locais de kimbos dispersos e lodges junto ao rio como o Rainbow Lodge,  Nunda River,  Ngepi Camp, Ndhovu Safari, mas foi no Mahango Safari Lodge escondido no denso arvoredo verde e bem na margem do rio, aonde subimos numa barcaça, mesa posta supimpa, para as catorze  almas e alminhas do clã Miranda degustarem um bem surtido e nutrido breakfast com iguarias de crepes e outras ternuras mais adultas.

 Já de regresso, de novo nos internamos numa sinuosa picada de areia a visitar um lugar já conhecido como Suclabo Lodge propriedade duma madame de nome Suzi mas, agora com o nome de Divava Okavango Lodge e Spa, cinco estrelas de “elegant style and luxury”. Cumcatano, disse eu depois de pisar o paradisíaco sítio cheio de coisas “good” logo a seguir a cubatas feitas de barro e capim com dois por dois metros, e muito matutar de como caberia ali um par de gente sem os pés encolhidos. Eu, João, Bruno e seu tio Alemão Franz lá fomos em uma pequena balsa com motor à popa e um bafana enfarpelado de caqui, seu chapéu de carcamano do Divava, um surtido de águas, refrescos e cervejas na caixa térmica, ate á base dos rápidos do Popa Falls. Naquela turbulência e com nossas canas de carretos, estralhos, amostras bizarras e bizarrocas, farfalhudas ou reluzentes, atiramos e recolhemos, atiramos e recolhemos e, por aí, repetido sem nada pescar e, eis que o campeão João num truz recolhe um peixe tigre cheio de dentes pontiagudos aí com uns dois quilos que, foi tudo na soma da pescaria, um tigre e três nadas. 

 E porque é vulgar dizer-se que os gestos não totalmente sinceros vão sempre atrasados, agradeci logo tais luxuriosas horas de lazer a Ana Maria e seus dois filhos quase carcamanos, mas com rusticidade na traça mirandesa ou bragançana em seus sotaques, falas e cantorias. Soe dizer-se que todo o acto humano interfere com a vontade de Deus por mais insignificante que seja e, neste dia de Domingo, quatro de Janeiro do ano da graça de 2015, só fui livre para poder ser castigado na míngua da pesca com um escassíssimo nada. Também nisto, não posso ter remorsos! Um dia de cada vez com encontros decisivos de nula ou muita importância, um simples dia de vida com rooibos tea and rusk bread, Windhoek lager, biltong boher e bacorinho no espeto, assado pelo Thinus de Outjo, o mais genuíno carcamano da família Miranda.

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:19
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Sábado, 3 de Janeiro de 2015
MOKANDA DO SOBA . LXX

MALAMBAS NO OKAVANGO –  Passagem de ano - 31 de Dezembro 2014  para Janeiro de 2015

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 A escassos metros do rio Okavango, sentado em meu chinxorro, divido-me entre os barulhos da chuva e os rápidos do rio, dos piares de pássaros na boca dos ninhos, das rolas sempre gemendo e dos muitos milhares de cigarras que abanam prolongados trinados. No d´jango da Kikas, casa de Nduvu Stores de Andara, também posso escutar a zoada de carros circulando ao longo da estrada de macadame, areia e pedras soltas. A enfeitar o pátio entre a casa e o rio uma árvore frondosa que conheço por mulungu orna a cena com flores vermelhas na forma de laçarotes, coincidência na comemoração da passagem de ano de 2015. Uma marula de grande porte dá soberania ao local por via de sua fruta ser a rainha do Calahári.

 Neste lugar de Andara, entre mato verde e picos medonhos, vejo Angola do outro lado, em tudo igual a este, duma solidão infinda podendo apreciar em primeiro plano uma pedra na forma de hipopótamo, salpicando-se na correnteza sem sentir abandono ou desespero, uma consolação de esperança perdida, talhada na natureza para ali permanecer de forma perene, afogada na água. Há muitos anos atrás naquele outro lado, nada se pode opor à vontade do Senhor, qualquer que fosse e, o Senhor fez de mim seu cordeiro, logo a seguir noutra vontade contrária eu fui senhor noutro lado distante, logo a seguir irá ter outra contrária ou não, nunca saberei se farei parte duma nova contradição; uma responsabilidade que se me alheia por aventura e risco, um diferente horizonte.

 Não querendo entregar meu coração à tristeza vim aqui lembrar seu fim, jogar serpentinas de alegria, pular o ano vendo no caminho das estrelas o fogo de artifício, uma surpresa da Ana Maria, beber e divertir-me com gente amiga na dignidade da vida, que tudo indica, foi outorgado por Deus, que pelo que se diz ilumina as frinchas de todas as portas. Desta feita, toda a grande prole da família João Miranda, quatro filhas de nome Ana Maria, Marlene, Vanda Kikas e Margarida, dez netos para preencher uma lenda com carcamanos e khoisans e, com a grande mãe Elisabete a dar ordem a tudo e a todos. Debaixo de um sol ardente, um abafado calor de crispar sobrancelhas em escondidos pensamentos, a estória do Cubango, das terras longínquas no fim do mundo do Rundu, do Dirico, Calai, Mucussu e Divundo, cabe a mim transformar as coisas dispersas em adultas majestades, tornar as fábulas em lendas, coisas que só os pastores podem criar confundidos entre ovelhas.

O Soba T´Chingange.



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:57
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Sábado, 13 de Dezembro de 2014
MUSSENDO . XII

ANGOLA . LUANDA CHIBATA O CANHOTO E O MUKUANKALA PERNETA - 3ª de IV partes

Dy.jpg Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

kunene2.jpgEm 1901 perto da região do Mocundi o clã acampou junto ao Cubango durante dois meses, completara o candengue seis anos. Resolvi mandar escavar um dongo num tronco de uma árvore para poder atravessar o rio para a outra margem o que acabou por redundar numa tragédia. Alfredo Aranha fez uma pausa na sua narrativa. Vislumbrei uma certa comoção a embargar-lhe a voz e pareceu-me que uma ténue névoa se instalara nos olhos mortiços. Tanto eu como o meu pai respeitámos o seu longo silêncio sem perguntas até ao momento em que reatou recomposto a sua narração.

- Um hipopótamo ergueu-se debaixo do dongo fazendo-o virar e vi aterrorizado o meu filho perder-se nas águas profundas do grande rio. Em vão percorremos as margens em busca do “ Mukuankala Mestiço” nome com que fora baptizado pelos seus congéneres.

cassoneiras.jpgEmbora nutrindo uma profunda afeição e uma enorme admiração por aquele povo acabei por abandonar  o grupo, e vim de novo para esta região. Nova pausa e mais uma caneca de café que o meu pai aproveitou para ir buscar uma garrafa de aguardente de Mangongo e três cálices servindo-nos em seguida a aromática bebida. Depois de esvaziar de um trago o seu cálice o velho Aranha continuou.

- Certo dia volvidos quinze anos acampei junto a um grupo de bosquimanos na região do Cambeno e à noite junto à fogueira e talvez devido à minha presença ouvi-os comentar a odisseia de um “Mukuankala Perneta” vulgo conhecido pelo “Mestiço” vilipendiado e maltratado por um banto gigante de etnia Muakahona a quem faltava a mão direita e de alcunha “O Chibata”.

kunene3.jpg

- Nova interrupção e mais um trago de aguardente e o velhote deixou-nos em suspenso durante três longos minutos, absolutamente impacientes pelo retomar da história pelo enfraquecido caçador.

- É conhecido o desprezo que os bantos nutrem pelos “Khoisan” em geral e os maus-tratos que lhes infligem. Ao que parece o Chibata era o mais temível de todos eles. Homem de má índole e cruel usava sem cerimónia o seu chicote de cavalo-marinho nas costas dos desgraçados mukuankalas a quem tratava como escravos.

dio0.jpgUma das suas vítimas preferidas talvez pela sua mestiçagem e fraqueza física era o Perneta cujas costas dilaceradas repetidas vezes pelo chicote do seu algoz denunciavam tais desmandos em forma de lenhos sanguinolentos. Ao que parece o dito Perneta cujo membro desaparecera nas goelas de um jacaré na região do Cubango acabou por se cansar das contínuas agressões e um dia roubou o chicote ao Chibata e fugiu em direcção ao deserto. Deliberadamente ia deixando indícios visíveis da sua passagem ao Muakahona e este perseguiu-o ferozmente durante dias

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola) durante o tempo colonial (Arnaldo Santos foi seu 1º mestre).

(Continua…)

Reis Vissapa

As ecolhas do Soba T´Chingenge



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:37
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014
MUSSENDO . XI

ANGOLA . CHIBATA O CANHOTO E O MUKUANKALA PERNETA - de IV partes

Por

Dy.jpg Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

Cunene.jpgCom o andar dos tempos aprendi os diversos dialectos dos Bantos, uma raridade que ele dominava na perfeição e pacientemente, linguística ho! Kung que nem as etnias da região do Cunene e do Cubango entendem e muito menos falam. Aos setenta e dois o Aranha abandonou quase por completo a sua vida de caçador devido a uma miopia avançada e a uma saúde decrépita acabando por adoptar a nossa casa como lar permanente. Reservado como um cágado nunca nos falou de alguma família que algures tivesse e tanto eu como o papá nunca nos atrevemos a indagá-lo sobre tal assunto. Aproximando-se a passos largos os seus últimos dias contou-nos então uma história arrepiante.

cunene gente.jpg- No final do século dezanove com apenas dezasseis anos de idade e o vício da caça, aventurei-me pelas terras do Cubango com intuito de abater leões que ao que constava eram abundantes na região onde o rio Quatir desagua no Cubango. Tudo correu bem até ao dia em que me perdi naquele lugar desabitado e inóspito. Com a estação das chuvas o rio dilatou transformando-se numa jibóia gigantesca que me fez caminhar sem norte durante um mês. O pisteiro que me acompanhava um Muakahona com mais de dois metros de altura e desprovido do braço direito que conheci no Kuroca, desapareceu e nunca mais lhe coloquei a vista em cima.

curoca2.jpg Acabei por ser encontrado meio morto de febre, sem roupa e completamente estropiado por um clã de Mukuankalas que trataram de mim. Caçadores experientes e conhecedores dos segredos das florestas e dos desertos, decidi percorrer com eles numa vida nómada todo este território do sul de Angola durante sete anos. Cerca de um ano depois de me juntar ao grupo uma das Mukuankalas teve um filho meu. – Disse de supetão obviamente incomodado com o assunto. - Tanto eu como o meu pai abrimos os olhos de espanto perante tal confissão e após uma pausa o Cabral Aranha continuou. – Comecei a ensiná-lo a falar português e dei conta da rapidez com que ele aprendia a minha língua e quão exímio era na arte de perseguir a caça e a facilidade com que identificava raízes e frutos comestíveis.

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola) durante o tempo colonial (Arnaldo Santos foi seu 1º mestre).

(Continua…)

Reis Vissapa

As ecolhas do Soba T´Chingenge

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:35
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014
MUSSENDO . X

ANGOLA . LUANDA CHIBATA O CANHOTO E O MUKUANKALA PERNETA - 1ª de IV partes

Mussendo: Conto curto de raiz popular, missiva em forma de mokanda (carta) do Kimbundo de Angola (N´gola) durante o tempo colonial (Arnaldo Santos foi seu 1º mestre).

Por

Dy.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

dip2.jpgAlfredo Cabral Aranha foi meu avô por adopção. A primeira vez que tomei conta da sua existência andava eu na casa de um dígito em matéria de idade. Seis anos vividos junto ao meu progenitor num lugarejo esquecido de Deus perto de Melunga a escassos quilómetros da divisa com a fronteira do antigo Sudoeste Africano. Privado do carinho maternal desde o dia em que nasci fui amamentado por numa mulher Dombondola que acabou sendo a minha segunda mãe. O Cabral Aranha tinha mais similaridade com um bicho pau que propriamente com um aracnídeo. Sessenta primaveras soalheiras tinham tornado o seu corpo franzino numa amálgama de músculo, pele e osso e um rosto de uma ruga só onde dois pequeninos olhos negros brilhavam nas noites de lua cheia, como os holofotes de um Cuio à luz de um farolim. Quando ocasionalmente passava pelo exíguo comércio do meu velhote aproveitava para descansar das suas sortidas como caçador uns tantos dias o que fazia as delícias tanto minhas como do meu pai.

dy27.jpgJoana Sadiki servia-lhe litros de café na varanda colonial da nossa humilde casa do mato. Ao entardecer quando a atmosfera abrasadora da região do Cuvelai nos dava finalmente tréguas dando lugar a uma brisa fresca o meu pai e eu juntávamo-nos a ele no alpendre rodeado por uma balaustrada caiada a branco. O velho caçador assentava o esqueleto em posição inversa na tosca cadeira de mucibe com os braços peludos enegrecidos por mil soalheiras escaldantes apanhadas entre o Curoca e o Cubango, apoiados no espaldar. Faziam parte integrante da sua figura três objectos dos quais nunca o vi separado: Um enorme chapéu de cor castanho e aba larga cobrindo-lhe os cabelos grisalhos, uma beata demolhada e adormecida entre as falhas dentárias e uma Mauser “Oito Sessenta” de coronha polida pelo uso.

dy23.jpgdy22.jpg

Era então que começava a desfiar o seu rosário de aventuras vividas no mato ao compasso de goladas de café na caneca de esmalte que Joana Sadiki tinha a preocupação de manter cheia. – Esta menina aqui não é de grande calibre mas onde eu ponho o olho ponho tiro e é quanto basta. - Comentava em voz rouca apontando a arma de bala encostada à parede quando nos descrevia alguma das caçadas que fizera durante a sua vida aventureira nessa Angola imensa. Com o andar dos tempos comecei a tratá-lo por avô Aranha e aguardava ansioso a sua passagem pela nossa casa para beber das suas histórias que inexoravelmente envenenaram a minha imaginação e moldaram o meu futuro como caçador.

(Continua…)

Reis Vissapa

As ecolhas do Soba T´Chingenge



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:00
LINK DO POST | COMENTAR | ADICIONAR AOS FAVORITOS

Fevereiro 2024
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
14
15
17

19
20
22
24

25
26
27
28
29


MAIS SOBRE NÓS
QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
Facebook
Kimbolagoa Lagoa

Criar seu atalho
ARQUIVOS

Fevereiro 2024

Janeiro 2024

Dezembro 2023

Novembro 2023

Outubro 2023

Setembro 2023

Agosto 2023

Julho 2023

Junho 2023

Maio 2023

Abril 2023

Março 2023

Fevereiro 2023

Janeiro 2023

Dezembro 2022

Novembro 2022

Outubro 2022

Setembro 2022

Agosto 2022

Julho 2022

Junho 2022

Novembro 2021

Outubro 2021

Setembro 2021

Agosto 2021

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

TAGS

todas as tags

LINKS
PESQUISE NESTE BLOG
 
blogs SAPO
subscrever feeds
Em destaque no SAPO Blogs
pub