Sexta-feira, 15 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVI

-Este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua** - 15.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange ...(ADENDAS). No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 

 2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

:::::154valentina3.jpg Euclides, o jornalista benguelense sai aturdido do Clube Francês, lugar da conferência de imprensa com negociações. Nesta zona libertada pelo CV – Comando Vermelho, Ernesto, o motorista, espera-o estendido de costas no passeio, uma garrafa de whisky servindo-lhe de almofada, as mãos cruzadas sobre o ventre. Nestes dias tumultuosos já quase não circulavam táxis nas ruas da zona Sul do Rio, zona libertada para o Comando Negro.

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(O Rio estava a passar por uma situação muito parecida com a Luua do ano de 1975, tempo do Poder Popular com intervenção dos Pioneiros, uma Criação dos Comunas Tugas como Rosa Coutinho e outros FDP, para Angola e, que resultou na fuga dos gwetas colonos – O medo aqui tal como lá, dissuadia o cérebro… Foi o que eu, relator anotei por ter ouvido e, que não vem escrito neste Zumbi que tomou o Rio.)

angola4.jpg:::::156 - Eu gostava de ser negro – diz o jornalista benguelense. Na sua voz melancólica pressente-se um arrebatamento que é nele pouco comum: - Sou sincero. Gostava de se um Leopold Senghor, um Aimé Sesaire ou mesmo Sam Nujoma. Gostava de saber dançar como um negro, ao som da música de Louis Armestrong… Entretanto a cidade ia ficando anoitecida; sombras remexem-se ao redor num bailado de espectros. Ao longo da praia, de quando em quando, as fogueiras tremelicam a escuridão. São as luzes dos soldados do morro; do CV – Comando Vermelho.

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Nas esquinas das ruas o lixo acumulado desprende um fedor insuportável. À medida que se aproximam da linha da frente da Glória – Frente Leste, surgem mais fogueiras, em pleno Calçadão multiplicando-se em número de homens armados. Um grupo de guerrilheiros com aspecto muito jovem, pioneiros afro-ameríndios-descendentes (de indígena do continente americano) manda parar o carro. Apontam a lanterna para o rosto de Ernesto: - Onde tu tá pensando que vai?

IMG_20170721_124807.jpg :::::158 - Euclides mostra a carteira de jornalista. Estende-lhe uma nota de cinquenta reais. Seguem. Quinhentos metros à frente a estrada, está cortada por pneus, rolos de arame farpado, uma cancela improvisada. Cinco ou seis carros aguardam na fila a vez para passar. Do lado de cá, formou-se uma feira livre, com gente a assar frango, em largas grelhas de ferro, a vender pasteis e cachorro-quente, cerveja fria e água - uma por três reais e duas por cinco.

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Vários jovens candengues, quase todos com uma metralhadora ao colo, estão sentados no asfalto diante de uma televisão. Há gente a jogar às cartas como se nada se passasse de anormalidade.  Do outro lado o rugido de um gerador, fazia-se ouvir por detrás dos mukifos, um zumbido que parecia meter pregos mas, que davam luz em holofotes resplandecendo dezenas de carrinhas da Policia, ambulâncias e quatro blindados.

dia143.jpg :::::160 - Euclides, o benguelense jornalista, salta do carro. Sabe que embora a fila de carros seja curta, a negociação de paz entre o Governo Estatal e do Rio com o Comando vermelho, pode demorar. Dois soldados do morro discutem com um policial. Escassos metros os separam. Toda uma vida parada num ritual de passagem: - Nós não somos o inimigo, não, malandro. Tu és bem pretinho, tu és um fodinha, feito agente… Com fobia de ser mulato, o benguelense ouvia já na dúvida de se era bom ser assim – um preto*.

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- Calma aí! Sou negro mas não sou bandido não. Trabalho duro. Não me meto em baderna (amigo de farra, considerado um inútil, desclassificado…*). Um outro policial, um tipo muito alto, rosto coberto por um capuz preto, apenas com uma estreita abertura para os olhos, aproxima-se do primeiro segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido. O soldado do Comando Negro provoca: - Vais ser sempre um pau mandado do branco!? Se liga, meu, tu tá combatendo tua própria gente. Não ouviu o que o teu chefe Weissmann anda dizendo, não? O cara quer mandar todos os crioulos para África…

moka31.jpg :::::162 - O CV contínuo: - Teu chefe gweta vai ter de encontrar um barco do tamanho do Brasil… Dito isto ri com gosto levantando o punho esquerdo desenhando um “C” e o direito fazendo um “V”*. Euclides fica na dúvida pensando - este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua**… E, assim no meio destas periclitãncias vê que o policial encapuzado reage enraivecido. Grita com um forte sotaque gaúcho, voz roca de muito “chá-mate”*: - Está rindo de quê seu banana!? Vou aí e quebro a tua cara, sua bicha*!...  

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Bartolomeu Katiavela surge nesse momento, vestido com o uniforme de general do Exército angolano, repreende o rapaz. O policial governamental volta-se contra ele: - E tu, porque não vais fazer a guerra no teu país? Katiavala enfrenta-o. Está ali tão firme, tão íntegro, tão prepotente, que parece ter sido aparafusado ao chão. Entretanto ainda ouve o outro a dizer: - Quanto dinheiro esses filhos da puta*, esses marginais estão te pagando? A voz de Katiavala, límpida e sem esforço, assim como a de Net King Cole, sai com decibéis, sotaque coimbrão, acima do ronco do gerador Honda: - Porque não tira essa mascara? – Assim como está, parece um bandido.

( Continua…)   

Notas: *Item da autoria de T´Chingange; **gweta é branco; cangundo é branco de baixa condição, do musseque…

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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Terça-feira, 12 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXVI

TEMPO DE CINZAS NA NAMEYA BAR – MALAMBA é a palavra – 11.03.2019

- Boligrafando minha própria estória em cor vermelha…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Com sotaque de classe média, cada qual falava em seu telemóvel (celular – microondas) como se fizessem exercício em águas quentes para relaxar. Um casal envolto em núpcias de mel, assim demasiados ocupados, ele e ela, apertando letras de amor – creio!… Com ares conspiratórios; decerto não falavam de grasnares dos patos e das patas de seus progenitores largados no sítio não muito longe da cidade de Bonito. Falo de Bonito, uma pequena cidade do Nordeste mas, até poderia falar de Garça ou Piranhas em lugares bem distintos e, bem diferentes.

kimberly2.jpg Garça ou Piranhas que estando muito afastadas entre si mas, aonde os dias calorentos se dissolvem por vezes em chuva morrinhenta ou mesmo cinzenta e até por vezes salpicada de fina lama suspensa no ar. E, foi assim, sentado em uma cadeira de praia e à sombra de um chapéu verde e branco, que vasculhei com olhares os arredores de mim, ondulando a vontade num faz de conta e imaginando-me ser uma caneta tipo lapiseira do tipo boligrafo.

nauk03.jpg Imaginei ser uma caneta, boligrafando minha própria estória em cor vermelha, a única que tinha à mão. Contornando símbolos em cima de um longo papel e, nas costas das contas do supermercado da Pajuçara, deixo o boligrafo levar minha própria mão sem tempo, sem metas ou temas previamente definidos dando-lhe largas, assim sem a definir como a única caneta da minha vida! Simplesmente um boligrafo entre tantos já usados…

swakop10.jpg E, como um destino sem termo, uns fins sem princípio, um índice sem prefácio nem glossário e reconhecendo que o fim só o é quando chega, sem epilogo ou amuradas dum barco carcomido pela ferrugem, como num tudo ou nada, sem makas ou quenturas procurando uma agulha num palheiro ou num porão, definia-me como um grão-de-bico que posto na água incha e que depois é revertido e deglutido como bolo alimentar. Os bichos vão-me comer depois de bem gordinho!

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E, digo isto porque pude ler num carro de vendas, espigas de milho verde: “ou você escreve ou Jesus escreve por ti”. Busquei saber do porquê daquela frase no livro dos livros tendo encontrado uma frase em que o apóstolo João descreve sobre o grão de trigo: “ Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer produz muito fruto. Lendo mais vi que quem ama a sua vida perde-a, mas aquele que a odeia (a sua vida), neste mundo, irá preservá-la para a vida inteira”.

MONA2.jpg E, continua: “Se alguém me serve, siga-me e, aonde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir meu Pai o honrará”. Terminada a citação e por esta leitura posso concluir pela milionésima vez que, sendo eu outra espécie de grão, nunca poderei ser um bom pastor. Nunca o poderei ser, porque não o consigo interpretar na perfeição.

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Pois que é uma fala tão antiga e, ao segui-la me verei num comprido e admirado rosto, de uns sabujos e pesados papos, castanhos e bolorentos por debaixo dos olhos, e também com um trejeito na curva esquerda do lábio num sorriso falso como daqueles de quem se enganam permanentemente sem ter bem a convicção disso; de ser uma ignorante areia que nada gemina simplesmente porque não é um grão de trigo.

arau162.jpg Assim me vejo religiosamente feito numa carcaça escorregando no purgatório, gaguejada e chocada na ignorância de uma esperança esfarrapada na incompreensão: - “Hó - ser pastor não é verdadeiramente a minha profissão, nem minha inclinação”. Confesso isto sem embaraço, como dizem os ingleses: sou só um part-time; melhor uma missanga de part-times.

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Será assim como uma parábola dos tempos modernos confrontando a vida esterilizada num celular que emana neuroses e preocupações, uma existência alheia a Deus porque em seu tempo não havia estas máquinas de empilhar tensões e neuroses antes, durante e depois de se casar. Foi assim nesta complexa análise quase nadista que resolvi terminar meu dia de praia, levantando e abanando a mão como que para afastar demónios.

EDU63.jpg O importante é não alimentarmos ódios por quem pensa de outra qualquer forma ou ter desejos de vingança porque isso, só torturará nosso bom censo, nossa liberdade. Nem é preciso estudar-se psicologia avançada para se concluir que os pensamentos maus ou enviesados, como um boomerang, um pau torto inventado pelos aborígenes australianos, que lançado a um alvo, só deformará nossa personalidade. Cada um que fique com sua cruz ou o seu boomerang…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:47
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Sábado, 9 de Março de 2019
XIPALABOOK . I

Xipala é rosto, é cara e, book é livro - 06.03.2019

Minha cara é um livro aberto – É assim que se diz mas, nem sempre o que parece ser, o é...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

sacag1.jpg Esta palavra aglutinada espacial, foi inventada por Maria João Sacagami, uma insigne psicóloga dedicada às coisas do paralém, que trata os mistérios duma forma imperceptível num tu-cá tu-lá. Ela que Saca e interpreta a fúria das nuvens cavalgando nelas assim na forma fácil de como eu navego sentado num chassi vruum vruum como se fora uma zundap. Um especial veículo cabo de vassoura de pura piaçaba, volante cabo de pau-rosa e com um quase imperceptível motor movido por salalés…

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Pois! Uma coisa de outro mundo que nem o chefe da suprema corte do Xingrilá consegue definir na torpitude dum surreal quadro. Salalés de áfrica que zundrapão movendo seus pistons ortorrômbicos no eixo longitudinal e, usando óleo de amendoim reforçado com óleo fino de carnaúba espacial e, ainda mais uns aditivos e aplicativos tirados duma galáxia ainda não inventariada nos longínquos arrabaldes da Xirgosia.

sacag3.jpg Aparatos e zingarelhos, que se movem no retrogrado sentido do escape tardoz, muito recheado de minúsculos chips. Posso reler-me na contraluz do espelho convexo do veículo, uma muito complicada figura de muito para lá do paratrás, algo quase desentendível dum vulgar humanóide terreno. Relembro assim perturbado, minha singela proposição de quando só era um soba sem coturno, um sem eira nem beira, uma singularidade quase imperceptível com a presente figura plasmada.

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E, vi-me lá longe no início do meu funil do tempo: Assim vestido a rigor de cerimónia, com um manto adornado de conchas, vários colares com dentes de leão, contas de vidro missangando o pescoço, uns chifres de pacaça duros e pesados a fingir de cornos na dianteira testeira, dois olhos ressequidos de facochero colgando das orelhas – um em cada uma delas.

143.jpg Pude rever-me aqui, um soba de categoria super tutelado por N´Gola Kiluanji, meu rei saído dum raio de sol, duma kúkia manobrada com fumaça por N´Gola M´Bandi, o Kimbanda tribufu do meu Kimbo ancestral, pensava eu! Afinal era o fim da kúkia dele – Kiluanji, morreu todo inteirinho… Bom! Falando de mim, ao redor da cintura, uma pele de cobra surucucu simbolizando meu estatuto de soba. Como se tudo fosse pouco ainda tinha um chapéu tipo cartola, alto e, ao qual estavam presos pequenos ossos talhados, saídos da falange falanginha e falangeta do King Kong, algo inexplicável…

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N´Gola M´Bandi batendo palmas, cai um silêncio quase sepulcral, tal o respeito que dava para se sentir emanando daquele personagem tão cheio de estralhos e outros menores aplicativos sem descrever ao pormenor suas salientes tatuagens envolvendo seu umbigo do tamanho dum abrunho preto. Uma indumentária só mesmo de um Kimbanda supra numerário do reino. Logo a seguir vinham seus guardas pessoais, suas mulheres e filhos, uma multidão ao som de timbales e marimbas.

sacag2.jpg N´Gola sentou-se pesadamente no cadeirão bem no topo da encosta e depois de todos ficarem em silêncio pela segunda vez, após segunda batida de palmas. O que conto a seguir até a mim me repugnou. Após a secreção de sua laringe lhe afluir à boca, um dos seus atentos macotas aproximou-se, ajoelhou-se e á sua frente com os braços bem no alto e suas mãos abertas em forma de concha, aguardou que N´Gola, com um potente ronco e um rápido movimento de língua, projectasse nas mãos daquele seu vassalo uma massa viscosa verde que este recebeu com muitas seguidas vénias.

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Com um ar compungente, e logo após aquela viscosa massa ser guardada em um recipiente em forma de cabaça muito ornamentada, falou: “Por muito que me custe, terei de resignar-me aceitando a missão dos meus antepassados. Eu serei o rei que todos desejam!” – Ouviu-se um trovão saído do meio das bissapas, um fumo branco e em seguida um tremendo clamor sido de todos em uníssono. Estava concluída a tomada de posse do novo rei…

capeta0.jpg  Os músicos, marimbeiros e tocadores de tambores recomeçaram o batuque; é curioso referir aqui que até um chifre curvo apareceu tocado na forma de berrante, algo curioso que eu tinha assistido no paralém do futuro em uma terra distante aonde havia muito gado. A multidão dançava em círculos batendo os pés na terra e em simultâneo fazendo uma perfeita coreografia de tantãn zulu. Ainda bebi vinho das cabaças e até sangue de boi a borbulhar mas, num repente minha cor começou a ficar branca e sem mais, tratei de me por ao fresco. Bazei!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:53
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Sexta-feira, 8 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXV
TEMPO DE CINZAS – MALAMBA é a palavra – 07.03.2019
Marcelo do M´Puto ganhou a alcunha de Tio Celito na primeira vez em que esteve na Luua, na tomada de posse de João Lourenço, em 2017. Regressa agora para consolidar a reputação e a normalização luso-angolana. Tomara que seja…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Foi a 15 de Janeiro do ano de 2007 que eu e minha sobeta consorte, passamos a noite na Residencial Camões, bem perto da praça com o mesmo nome da cidade de Lisboa e, mesmo em frente da Embaixada do Brasil aonde iríamos obter o visto de residência permanente. Ficamos na Rua do Poço, um lugar em que os criados escravos e as escravas negras, do fim do século XIX levavam em baldes a merda e o mijo de seus nobres senhores moradores neste Bairro Alto de Lisboa, para um tal poço.

poço1.jpg Mas, esta rua é muito antiga! Antes disto e exactamente a 13 de Novembro de 1515 – século XVI, ou seja trezentos e muitos anos antes desta minha dormida em Lisboa, pode ler-se em arquivos da Torre do Tombo em uma carta regia de D. Manuel I escrita em Almeirim e dirigida à cidade de Lisboa, sobre a necessidade de se construir um poço para depositar os corpos dos escravos mortos. Salientava que haveria que se evitar a todo o custo os tão habituais surtos epidérmicos.

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As barricas de penicadas do século XIX, eram despejadas neste poço ou directamente no Rio Tejo. No ar daquele então, havia um constante cheiro nauseabundo de merda e coisas putrefactas. O panorama era todo muito igual em Paris, em Londres, Madrid ou Roma. Esta é uma das razões porque os franceses têm dos melhores perfumes do Mundo. As pessoas não tinham o hábito de se lavar com frequência.

poço2.jpg Basta recordar a Catedral de Santiago de Compostela aonde desde a idade média se juntavam peregrinos idos de toda a Europa. O Bota-fumeiro gigante balouçando no átrio principal-altar da Catedral, era nem mais nem menos para fazer desaparecer o cheiro nauseabundo que acompanhava os viajantes. Hoje, não podem imaginar o fedor que soprava por entre aqueles antigos prédios das muitas cidades, do estrume acumulado nas travessas, becos com matilhas de cães mordiscando restos como se abutres fossem; também das centenas de carroças despejando toneladas de excrementos que por ali iam sendo pasto de milhares de moscas com milhões de bactérias.

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D. João VI fugiu para o Brasil com sua corte levando consigo muitos inúteis nobres que viviam à sombra da linhagem. As moscas através do tempo mudaram bastante, mas há outro tipo de bosta nos dia de hoje, a dos comportamentos, da falta ou descuido dos políticos de alto coturno - o de não se manter o desejado nível de seriedade ou aprumo no trato entre nações que deveriam fluir tranquilidade. Terei de mencionar a falta de decoro nas relações diplomáticas fazendo de casos menores como o da JAMAICA uma empolgante notícia e, aonde ambos os países, Angola e Portugal terão de se sair envergonhados.

modas0.jpg Um pela descabida prepotência e o outro pela falta de decoro subestimando-se de forma pouco enaltecedora. O Portugal de hoje com um governo tripartido e descrente e a Angola actual do MPLA, desrespeitadora de princípios básicos de solidariedade. Se não houver comportamento de estadistas, se prevalecer a bajulação encardida de hipocrisia o quanto baste, quebrando algum do nosso orgulho, sempre subsistirá raspas de azedume. Nas bocas do povo surgem comparações com países de quarto mundo – é a JAMAICA mas poderia perfeitamente ser o Haiti… Angola e Portugal, no correr do tempo e consonante a evolução e relacionamentos em princípios sociais, não podem alinhar nesta diapasão de acasos destemperados.

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Pode concluir-se que a ignorância de muitos, apazigua os espíritos duns quantos que se submetem, que se subestimam, que quase se poem de joelhos a pedir desculpas – desculpas indevidas! Haja paciência! Esta é outra merda - uma empobrecida quietude, morna quanto baste para aquietar expectativas de mudança. Triste realidade de submissão com fantasmas fabricados num passado: Angola – Portugal… quanta desilusão!

saramargo03.jpg Diz a carta de D. Manuel I, que os escravos eram mal sepultados e, muitos seriam mesmo lançados (...)"na lixeira que está junto da “Cruz da Pedra” a Santa Catarina (actual Rua Marechal Saldanha) que está no Caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos, ou para a praia onde ficavam à mercê da voracidade dos cães.

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Para evitar as deletérias consequências de tantos cadáveres não sepultados, achava o Rei, "que o melhor remédio será fazer-se um poço, o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais conveniente, no qual se lançassem os ditos escravos" e para ajudar a decomposição dos corpos, dizia ainda que se deitasse " alguma quantidade de cal virgem" de quando em quando.

poço6.jpg Tal medida seria cumprida pela Câmara que o teria mandado fazer no referido caminho para “Santos”, descendo a actual Calçada do Combro conhecido por "Horta Navia" (nome de uma divindade indígena após a ocupação Romana). A actual localização perdeu-se, mas a aproximação geográfica do antigo Largo do Poço Novo (actual Largo Dr. António de Sousa de Macedo) ao fundo da Calçada do Combro, nome que já nos aparece na segunda metade de “quinhentos”.

poço5.jpg Com as novas posturas do século XXI, ficamos na expectativa de não existir entre países irmãos, a tristes relações de estado originando um sintoma da maior frustração, para quem dali saiu com um tão grande sentimento de injustiça pela descolorida descolonização. Neste enredo carnavalesco de relações internacionais não podem agora à semelhança da idade média cagar-se no orgulho parecendo ser a dado momento a merda dum cenário, um enredo nada agradável a reviver para reforçar nosso desenraizamento ou um simples alheamento.

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:08
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Domingo, 3 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XV

“Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas, trauteei!? Reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo – Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. - 03.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

agualusa2.jpg :::::144 

Eram 5.55 horas deste dia. O telefone tocou!... Preparava-me para ir à Praia da Pajuçara - deposito a xicara de café Santa Clara ainda muito quente no balcão de granito preto. Surpreso pela hora tão matinal e com o carnaval a desfilar na televisão tão cheio de cor no sambódromo de São Paulo penso: Quem será!? Vou atender pensando ser a Margarida a dizer que afinal, mesmo depois de passar a noite na refrega do samba do Jaraguá, sempre vai à praia. Atendo com um alô, alô! … Num espanto de quase susto, ouço: Sou o José Agualusa, o dono do Zumbi!... E, segue-se um espaço descolorido em cima dum branco fosforescente… Caramba é ele, o próprio! - Mas que prazer, disse assim meio tremendo de emoção com um formigueiro nos gémeos das quinambas. O José Agualusa!?

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Mas que prazer, repeti de forma escusada, meio encafifado e, ainda tendo na cabeça a musica “Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas,… trauteei!? Não! Diz Agualusa meio a rir-se de meu titubear feito bobagem de susto!  Não, diz ele do outro lado da linha… (uma pequena pausa, creio que um gole de whisky, dum surdo e insuspeito gluk…gluk…) É para te agradecer pela propaganda que tens feito do meu livro do Zumbi!   

agualusa1.jpg :::::146

Também para te desejar um bom carnaval!... Estou em Curitiba num “Work Shop literário” e ontem vi alguém que tu descreves nas tuas mokandas do Kimbo! Também na Kizomba! Alguém que anda por aqui a farejar negócios - reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo, disse isto como se eu apreendesse a mensagem vendo a figura. Não sei do que falas nem de quem falas! Disse eu, muito verdadeiro na surpresa. Nem tampouco conheço quem tenha uma orelha postiça. Pois, eu assim disse: - Não sei de quem falas amigo? Ele, o Agualuza, tinha sido meu vizinho lá no Huambo, podia dar-me a estas íntimas aproximações… Afinal quando ele cresceu, eu estava na Caála (Robert Williams).  

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Resposta rápida: Do teu personagem Coronel Fala Kalado, o morto vivo! Pópilas… (eu, no discurso directo) nem sabia que assim era! Às tantas até tem uma perna de pau que vira metralha ou catana em casos de periclitãncias e, eu sem saber. Pois é! O cara andou por aqui rondando. Não fosse eu saber de vossas relações e nem te iria perturbar a esta hora! Assim, como quem demonstra estar muito ocupado e após um Hic…Hic… xuk…xuk…krás…krás disse: - Fui! E, foice, digo foi-se mesmo!

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E, eu que fazia o Coronel emérito das FALA estar bem perto de Poconé a traficar armas em troca de pó feito chocolate de canábis lá para os lados da Bolívia. Assim confuso, resolvi desvendar um pouco mais de sua escrita matrix das guerrilhas do Morro da Rocinha, lendo e relendo sem conseguir atinar na quietude do desassossego. Como é que descobriu meu telefone deste mukifo? Coisas por desvendar. E, que quereria ele dizer-me com esta descrição do cara ter na cara uma cicatriz bem por debaixo da orelha esquerda que era falsa. Vou-te contar (disse de mim para comigo mesmo!)

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RIO DE JANEIRO, IPANEMA, CLUBE FRANCÊS, NOITE – Na zona do CV – Comando Vermelho; Euclides, o jornalista, levanta a voz: Ouviste o que te disse? – Ouvi. O Presidente baicou… (morreu…) - E não te interessa? Francisco Palmares franze as sobrancelhas. Toda a sua atenção está concentrada no grande mapa da sala de comandos. Coloca e retira alfinetes. Desenha círculos a tinta vermelha em redor de determinadas posições. Enlaça os dedos e estala-os. Finalmente volta-se para o jornalista: - Então o velho baicou? Morreu como? – Faleceu durante o sono, enquanto fazia a sesta, ele era do tempo em que ainda se fazia a sesta. Ataque cardíaco. Foi Monte quem o encontrou… (parecem referir-se ao JES, o dono d´Angola)

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- Monte? O nosso amigo tem um talento especial para encontrar defuntos… Diz isto distraído e retoma o trabalho. O destino de Angola já não o entusiasma. Euclides senta-se numa cadeira. Abana a cabeça. Afaga perplexo o farto bigode. Aborrece-o o alheamento do outro: - Pensei que te agradaria a notícia. A morte do Velho vai abrir caminho para a democracia plena. O regime está a viver os seus últimos dias. Se a vossa aventura tiver um final feliz, entendes?, se o Governo aceitar as vossas condições … (este governo, é referente ao Brasil do tempo do PT - José Inácio, ainda liberto…) Pois tu não entendes, coronel?!...

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Se o José Inácio amnistiar toda a gente, podes depois regressar à Luua (Luanda). Francisco Palmares enfrenta-o de novo. Desta vez olha-o com intensidade. Pousa a mão nos ombros dele. Euclides sente-lhe a febre. Uma serena tristeza: - Eu já não volto meu kota. Não terei a alegria de morrer na Luua. Primeiro porque encontrei o meu destino. E depois, talvez nem se chegue a um acordo com o Governo (de novo o Brasil), talvez não haja um final feliz. A coisa aqui está a ficar preta (feia)… - O que dizes? Tu sabes que temos problemas…

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Começa a faltar comida na cidade e, como dizia a minha avó, em casa que não tem pão todos ralham e ninguém tem razão… Há divisões no movimento (do CV-Rio - Comando Vermelho), tem gente que quer assaltar os supermercados, os armazéns…Está a ser difícil lidar com algumas pessoas… O jacaré!?... Olha, por exemplo, o Jacaré. Muito destes mwadiés não têm formação politica. Em Angola vivemos um processo semelhante, não foi?, em setenta e cinco, quando o partido do M decidiu recrutar o lumpens (?),  a bandidagem dos musseques, gente habituada a fazer tiros… Mas não eram militares, faltava-lhes a disciplina… (refere-se aos pioneiros e outros desclassificados). E a seguir, ainda por cima, para saldar a dívida, deram-lhe cargos de responsabilidade… (de cabos fizeram generais num piscar de olhos).

café da avó1.jpg :::::153

- Pareces o teu pai… O meu Pai? O erro do meu pai, kota, aquilo que o perdeu, foi nunca ter sido capaz de passar das palavras aos actos. Democracia plena em Angola? Não, não penses nisso. Vai ficar tudo na mesma. (já Agualusa feito osga, estava a ver o filme bem afrente, com o laranja JL…). Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. Como assim? – Em Angola talvez seja possível derrubar o regime, mas não vai mudar nada. Aqui (Referia-se ao Brasil), ao contrário, podemos até perder esta batalha. Mas, depois da nossa derrota, acredita, nada será como antes. Mesmo derrotados, teremos vencido.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:08
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Sábado, 2 de Março de 2019
MU UKULU – XV

MU UKULU...Luanda do Antigamente02.03.2019

Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos, símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

muralha10.jpg Ainda como adenda a livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1910 em Angola e zonas de influência. O lingote era vertido em nó de caniço, uma forma manejável de um metal pesado, monetário ou não. No entanto a forma cilíndrica, ou vergalhão, era a mais espalhada pela África austral, tal como o material para a confecção de manilhas na forma de mutsuku, os “cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo”.

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Cada manilha era equivalente a 133 gramas de metal, o preço de uma enxada de ferro. Os tamanhos mais pequenos deste lingote, lembram as orelhas de um martelo: foi um tal Bent que primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruinas do Zimbabué em Fort Victoria e, de que Hall and Neal em 1903 encontraram o molde feito em talco xistoso, na estação de U’Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e “um jogo de bolinhas de talco xistoso”.

Mu Ukulu30.jpg Outros 12 moldes conhecem-se de Elizabethville e da Zâmbia; 21 espécimes foram encontrados por António Joaquim da Rocha “em Gwengue, junto ao rio Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva”, província de Manica e Sofala em Moçambique.

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A cruzeta era em tudo igual à cruzeta dos povos primitivos da Europa. Os mutsuku já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional quando os Venda bantos ali chegaram no século XVIII. Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena – mineiros do estanho do Rooiberg, distrito de Waterberg no Transvaal – em moldes cavados em areia ou talco xistoso.

Mu Ukulu19.jpg Lombongo – De libongo, nome dado em Angola ao “paninho” tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em N´Gola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de cinco reis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o autor, o termo é crioulo, derivado do kimbundo m’ilambongo, “uma quantidade de imbonge” (sing. m´bonge, ou ‘bongue’) coisa de contar, como o nó do caniço.

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Significa hoje, simplesmente, “dinheiro”. Macuta – do kimbundu makuta, plural de likuta, o nome quicongo dos célebres “panos”, tecidos de fibras vegetais que correram como moeda em Angola até 1694. A partir deste ano, correram principalmente moedas de 10 reis produzidas para “o Brasil e Guiné”, querendo ‘Guiné’ dizer todas as possessões portuguesas.

mucu2.jpg As macutas, com o dístico “África Portuguesa”, só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do marquês de Pombal. Conheceram, porém, uma grande distribuição no reinado de sua filha D. Maria I. Houve emissões em 1783 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata; 1 macuta, em cobre), 1784 (6 e 4 macutas, em prata), 1785 (1, ½ e ¼ macuta, em cobre), 1786 (1 e ½ macuta, em cobre), 1789 (12, 8, 6 e 4 macutas, em prata; 1, ½ e ¼ macuta, em bronze) e 1796 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata portuguesa correndo em toda a costa ocidental de África.

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As macutas foram desvalorizadas 50% sob o regente D. João, em 1814 (carimbadas nas missões até 1816), e não tiveram novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria foram de novo desvalorizadas em 20%, mas houve novas emissões em 1848-51 e em 1853. Sob D. Pedro V houve emissões das moedas de ½ macuta (1858) e de 1 e de ½ macuta (1860).

mucuisse.jpg No reinado de D. Luís I houve um ensaio de nova moeda para Angola: as moedas de 20, 10 e 5 reis de 1886 substituiriam as macutas, mas nunca foram produzidas. Assim, as macutas correram em Angola até à implantação da República em 1910, durante, portanto, 148 anos e 9 reinados.

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A terminar esta longa conversa sobre dinheiro na forma de n´zimbos, depois caurins, mais tarde panos libongo, colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes de cingir a garganta ou os pulsos de mulheres e homens, fazendo realçar o ébano da cútis, acabamos nas macutas e angolares. Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

mucu3.jpg De salientar que no Bié, a principal unidade de troca para alimentos e quaisquer outros produtos, exceptuando o marfim os escravos, era o pano. Cada pano media uma jarda, equivalente a 14 mm e, cujos múltiplos eram: a beca com duas jardas, o lençol com quatro jardas e a quirana com oito jardas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:31
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2019
N´GUZU. XXX

CONHECER O BRASIL 24.02.2019
Brasil - Os Cortiços vieram a seguir às casas de Bangu e batuque – repotreando-me na minha cadeira de balouçar, rindo forte, e sem calar a boca, a camisa a espipar-se-me pela braguilha aberta e piscando o olho à Rita Baiana…
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil
Cortiços - Tipos bastante variados de habitações colectivas que abrigavam os segmentos pobres da população urbana, moradores sobretudo do Rio de Janeiro e, a partir de meados do século XIX. O aumento populacional que se vinha incrementando desde 1808 com transferência da Corte portuguesa, tornava-se cada vez mais expressivo por via do aumento dos fluxos migratórios, sobretudo de portugueses.

cortiço0.jpg Com a diminuição do número de escravos em função da extinção do tráfico africano, por volta de 1850, e apesar da crescente ampliação da estrutura urbana, as oportunidades de emprego mantinham-se reduzidas, agravando as condições de vida da maior parte da população. Em alguns lugares do Brasil, as coisas não mudaram tanto assim pois continuam a ver-se muitos camelós zurzindo suas vidas rebocando cangulos com cinco e mais caixas de isopor ou montras de muitos e fosfóricos óculos de sol, adstringentes e até fosforescentes… 
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O fenómeno não era só brasileiro pois que em Argentina podia encontrar-se também esse mesmo tipo de habitação urbana. Em “El Caminito” de Buenos Aires havia o mesmo tipo de construção agregando gente que vinha da Europa na busca de uma nova vida; ainda hoje podemos ver a combinação de materiais adaptados à construção barata com varandas ripadas e cores variadas dando assim, mais harmonia ao conjunto habitacional, um amontoado de mukifos atravancados a eito. Ainda se vê disto em Viñas-del-Mar e Valparaiso.

cortiço6.jpg El Caminito é uma rua-museu e um logradouro tradicional, localizado no bairro de La Boca (Do Boca Juñior Club), junto ao estádio de futebol na Cidade de Buenos Aires. O lugar adquiriu significado cultural devido a ter inspirado a música do famoso tango Caminito trazido pela comunidade italiana também em meados do século XIX. Tanto portugueses como Italianos vinham em vapores destinados a trabalhar nas fazendas de café ou canaviais a fim de substituir os negros escravos que por lei, iam sendo libertos.
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Para além das dificuldades de acesso à alimentação, o problema habitacional tornava-se cada vez mais grave. Em 1868 o Ministro dos Negócios do Império regista a existência de 642 cortiços na cidade do Rio, distribuídos por diversas paróquias. Em 1888, já existiam 1331 cortiços, alguns já com características de estalagem sendo que a maior concentração se verificava na paróquia de Santana.

cortiço2.jpg Proliferavam assim estas habitações colectivas aonde residiam não só os livres e libertos pobres como e também, ganhões ou camelós que ganhavam a vida como ambulantes à mistura com emigrantes que iam chegando com uma mão à frente e outra atrás tendo de viver sobre si mesmos, vendendo o que desse e aprouvesse; costurando em plena rua e remendando os sapatos debaixo de um esporádico toldo ou mesmo a simples sombra de uma árvore…
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Em princípios da década de 1870, o termo cortiço adquiriu um sentido cada vez mais estigmatizador das habitações colectivas. Estas tornaram-se o alvo dos defensores do higienismo que determinaram por posturas proibir a construção em áreas nobres ou centrais do Rio de Janeiro. Isto veio a colidir com uma grande camada de pequenos investidores que controlavam as vendas a crédito, os donos das tabernas, tascas e quiosques que ali laboravam numa forma de consórcio ou rodízio. A vida ia rolando…

cortiço4.jpg Os Cortiços estavam por assim dizer e, também associados à malandragem, às promiscuidades e epidemias com desordem social, locais privilegiados aos zeladores da trambicagem, quase tudo em igual como muitas das favelas actuais aonde fecundam as hordas de marginais que vivem de expedientes, vendendo gato por lebre ou dedicados ao jogo do bicho, ou outras manigâncias de obter dinheiro fácil.
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Era o lugar de mestiçar a raça numa miscigenação que provocou genericamente a raça humana, furta-cores que derivou a se acabar com as cores natas com o ADN do arco-íris perfeito preconizado por Thomas Robert Malthus no seu puritanismo de higienismo racial. 
Um tal que foi considerado o pai da demografia por sua teoria para o controle do aumento populacional, conhecida como malthusianismo. 

cortiço3.jpg Felizmente que este Malthus não teve grande sucesso aqui no Brasil. Nos cortiços foram iniciados laços de solidariedade que preconizaram um modo de vida diferente dando origem a várias estratégias de resistência sem a necessidade de lamber a tão proclamada independência de outros povos que pela prática se vê hoje seguirem rumos de muito difícil adaptação aos conceitos da pele, originando preconceitos e paradigmas desvirtuastes; estou a referir-me à Angola que simplesmente rejeitou milhares de cidadãos que a ela pertencem por nascimento por via do “MATUMBISMO”…

cortiço01.jpg Quem ler o Cortiço de Aluísio de Azevedo vai entender na perfeição as virtudes e desvirtudes dos conjuntos sociais que originaram a vida de hoje em condomínios fechados. Estou a ver-me já desengravatado e com os braços à mostra, dum vermelho lustroso de suor, intumecido de vinho do M´Puto, vinho já baptizado com água benta e cachaça, esperando o leitão no forno, repotreando-me na minha cadeira de balouçar, rindo forte e sem calar a boca, a camisa a espipar-se-me pela braguilha aberta e piscando o olho à Rita Baiana que canta ou tentava cantar o novo desfado; assim, a dar para os bestialógicos arremedos da minha santa terrinha.
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:58
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIII

 COMUNICADO DO CV -  Comando Vermelho -19.02.2019

O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube militar de Luanda - CML
O ano dos COMUNICADOS em Luanda . 1975 
Escrito por – José Eduardo Agualusa
Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

araujo 25.jpg Pude ler nas páginas 232 e 233 do livro de Agualusa uma réplica da proliferação de COMUNICADOS à imprensa de então no ano da Luua em 1975 e em Angola - emanados do COPLAD, do MFA, da FUA dos MOVIMENTOS de libertação para tranquilidade de toda a população. Foi de uma tranquilidade de espanto – a guerra do TUNDAMUNJILA…Sem aquela inquietude de afligir o próximo, ou ficar num estranho silêncio, esperamos as mudanças no tempo e suas modas adaptando-nos ao luto de preto, que faz muito tempo atrás era branco. 
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Eu quis saber do porquê de cada homem ou de cada mulher, nascer com a verdade dentro de si e só para si! Assim e, porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Angola foi uma mentira, uma farsa, uma gigantesca farsa…

agualusa1.jpg Julho de 1975 - Em Muquitixe estive encostado a um muro velho com minha sogra idosa! Fazia o percurso de Nova Lisboa (Huambo) para Luanda. Não se sabia o que poderia sair daqueles drogados que revistavam o autocarro aonde seguíamos. Podíamos ter sido ali, metralhados, como num filme de revolução, cuja morte parece sempre surgir junto a um já esburacado muro! Isto simplesmente, não aconteceu. Ninguém se culparia e nem haveria de jurar a alguém! Parecia não haver esse tal de alguém; simplesmente, assustador! 
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Ouve combates no morro do Rio de Janeiro do Brasil e do livro do Zumbi: Mas que porra é aquela? Jararaca fala à imprensa em negociações! Vai dai elaboram um COMUNCADO «O Comando Negro exige do governo federal: 
Ponto 1 – Uma ampla amnistia para os soldados sob sua direcção, (* -trata-se dos revoltosos do morro) aqueles que estão detidos, e todos os heróis que desceram hoje dos morros para combater a escravidão.
Ponto 2 – A imediata demissão do ministro da Defesa, general Mateus Weissmann.
Ponto 3 – Uma indemnização simbólica a todos os brasileiros de ascendência africana e um pedido público de desculpas pelos séculos de exploração e opressão.
Ponto 4 – A introdução de um sistema de cotas para afrodescendentes, nunca inferior a quarenta por cento, não apenas nas universidades e repartições públicas, mas também para cargos superiores na Polícia e no Exército, e candidatos a deputados estaduais e federais.
Ponto 5 - Durante as negociações com o Governo todas as unidades das Forças Armadas estacionadas no Rio de Janeiro devem recuar para fora das fronteiras do Estado e não interferir.»

mocanda11.jpg O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube Militar de Luanda. Jorge Velho reconhece os símbolos- o punho negro, a metralhadora, a estrela amarela sob fundo vermelho (* - A variante da Luua tinha uma roda dentada e uma catana em diagonal) -, porque já os viu inúmeras vezes em bandeiras e cartazes ou pintadas nas paredes das favelas (* - musseques), mas é incapaz de decifrar a sigla, CML.
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Jararaca, tem ao pescoço um colar de missangas vermelhas e negras… Olha de frente para o mundo. Conclui solene e desafiador: «Estamos voltando hoje uma página na História do Brasil. Este país nunca mais será igual. Bom dia, Liberdade!» Cala-te. Ouve-se alguém a gritar: «Corta, porra, corta logo!» (* -eram imagens para a TV). Ele levanta-se e a imagem desaparece. Surge uma fotografia com o clássico cartão postal, com o Pão de Açúcar em primeiro plano (* - fim de citação ao livro…).

cabo ledo3.jpg Poderíamos perfeitamente dizer que assim se passava no dia-a-dia da Luua nos anos de 1974 e 1975, a Emissora Oficial de Angola a dar comunicados atrás de comunicados. Com eles soaram as cantigas de permeio recordando os heróis de Valódia, Monstro Imortal que os pioneiros cantavam nas ruas vezes sem conta; nas ruas de todas as cidades! Olhando o passado víamos ali “Nossos versos de Carnaval”. Entretanto havia filas quilométricas de refugiados que em alguns casos eram escoltados pelas tropas portuguesas e também do MPLA numa já perfeita parceria de zelo de Estado.
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Era criado ao acaso um autêntico corredor entre as cidades do Centro e Norte até Namacunde, no extremo sul do “Sambódromo Estado de Angola”- ao longo da estrada principal. A falta de gasolina, água e alimentos tornava-se cada vez mais dramática pela carência. Trocavam-se contos ao desbarato por tambores de gasolina. A tropa portuguesa assistia agora à fuga de milhares de ex-colonos e naturais com um sentimento de impotência, coisa confrangedora para alguns – não tanto para outros.

louva7.jpg Não haveria desculpas para essa corja de militares de aviário, os cérebros do Concelho da Revolução e muitos civis que se ufanavam deste feito como sendo exemplar. Puta que os pariu! Prometi recordar estas tristes passagens, tempo de tão mau augúrio para um Império que ruiu da pior forma, sem dignidade; tudo feito por empedernidos fanáticos que a troco de uma centelha ideológica empederniam-se num regime despótico e anárquico entregando as gentes ao descaso, aos entretantos …Ou mato, ou morro!

Nota* - Esclarecimentos de T´Chingange
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:24
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2019
N´GUZU . XXVII

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL11.02.2019

Angola e os Quilombos... Cabe aqui referir a dança kizomba de hoje, que não é mais do que fingir o acto de praticar o coito…

Por

soba15.jpg T´Chingange . No Nordeste brasileio

Zumbi, nasceu livre em terras do Nordeste em 1655 e morreu a 20 de Novembro de 1695. Em homenagem a todos os negros que lutaram para se libertar do jugo da escravidão o Brasil considerou este dia como Feriado Nacional “ O dia da Consciência Negra”. No final do século XVI as terras Pernambucanas eram das mais prósperas das novas colónias portuguesas. Havia 66 engenhos na região e, e no litoral funcionava já toda uma estrutura que permitia o escoamento dos produtos da terra. A cidade de Recife a cada dia que passava, ficava mais organizada e urgia pôr ordem lá no lugar da “Cerca dos Macacos”, acabar com os mocambos daqueles guerrilheiros com características de luta bem definidas e com algum enquadramento nas chefias.

Aqueles fujões, usavam um tipo de flexa, zagaia, lança ou um cajado nodoso em tudo semelhantes com as usadas pelos gentios junto à costa dos Dembos em Angola. Homens e mulheres usavam enfeites de muito capricho feitos em argolas com metais trabalhados na bigorna. Tatuavam o corpo com cortes de estiletes afiados no peito, braço e até nos lábios e língua. As mulheres furavam as orelhas para nelas introduzir argolas de coco ou missangas. No lábio superior e nas abas do nariz introduziam enfeites de marfim, à semelhança do uso na região de Matamba, Kassange ou Kuvale.

kilo8.jpg ZUMBI O HERÓI DA CONSCIÊNCIA NEGRA - As tatuagens eram um uso habitual das terras de N´Gola para serem reconhecidos, dar a saber a todos qual a sua ascendência, era a sua cartilha de identificação. Recordar que a escrita era de pouco uso e a história passava de pais para filhos por transmissão oral. Por este motivo faziam e ainda usam reunir junto à mulembeira ou mulungu, uma árvore frondosa e nobre por nela se abrigarem as assembleias do povo, sanzala, mocambo ou kimbo.

Nos kimbos melhor organizados há uma casa aonde se reúnem para fazer tertúlias, falar com os mais-velhos Kotas e saber para poder transmitir aos vindouros. A essa casa grande, normalmente aberta e circular, chama-se Jango. Nos aglomerados urbanos surgem os musseques (favela do Brasil) e, quando muito reúnem-se numa casa de assembleia, salão social, clube ou missão duma qualquer igreja (as mais normais são: a igreja Evangélica, a Igreja do Corpo de Deus e do Sétimo dia). Também é de salientar o conhecimento da cura através de plantas do mato, coisa que os quimbandas faziam nas suas terras de origem por saberem já usar unguentos, chás e sempre o exorcismo em obediência ao deus N´Zambi.

kilo7.jpg Nas artes de batuque, o bate pé da dança em círculo tipo a que se veio a chamar de xanxado no tempo do cangaço; a umbigada da massemba e trejeitos que vieram a resultar no merengue e semba brasileiro moderno, sempre com muito erotismo, estímulo à procriação. Há registos duma dança marcada por umbigadas com movimento de ancas acompanhadas por batuque, violas ou violões a que chamaram de lundu. Dizer-se por isso que os negros apesar da dura lei de escravidão, não haviam perdido o gosto pelas danças.

Muito recentemente, tivemos a lambada, o kuduro e a tarraxinha. O lundu consistia num movimento particular das partes inferiores do corpo, movimento que os europeus de então não sabiam imitar, mais por ser considerada indecente do que por outro qualquer motivo. Cabe aqui referir a dança kizomba de hoje, que não é mais do que fingir o acto de praticar o coito num estilo de harmonia a que dizem ser uma forma de arte!

kilo5.jpg Xiiiii! Nossos avôs diriam que também seria uma dança de sem vergonhice, dança de pretos sem decência. Háka! Patrão não fala assim! Mas em verdade podemos até ver nestes movimentos alguns trejeitos de fandangos, chulas com requebro de ombros com folclore com referências de roda, movimentos de mataco, bunda, passos ondulados e engraçados como o merengue.

E, podemos ter violas, cavaquinhos, bandolins, flautas, urucungos, uma espécie de berimbau com marimbas e quissanjes a juntar ao estalar de dedos e o bater de palmas ritmadas. E, isto faz parte dos fados, das chibas ou polcas e modinhas entrelaçadas em brincadeiras circenses a culminar no maxixe. Tudo isto muito repleto de movimentos coreografados no acaso do gosto e banga da Luua, tal e qual como na aldeia dos macacos dos Palmares ou festa de roda da Muxima do Kwanza com saltos de capoeira de bassula ou esquindiva.

kilo4.jpg Vale a pena referir a luta da bassula, finta ou esquindiva utilizada pelos pescadores imbindas do Kongo (Cabindas e Boma do N´Zaire), os Muxiloandas da ilha da Mazenga (também conhecida por ilha das cabras pelos antigos Tugas) na baia de Loanda e Mussulo (Kaluandas ou Camundongos) na região dos Dembos. Tudo isto, muito semelhante com a capoeira com passos de dança a esconder truques e quedas de luta.

 A bassula da foz dos rios Dande, Bengo e Kwanza, no brasil derivou para a Capoeira, uma forma de dança para ludibriar o patrão fazendeiro e usar a ginástica de dança como luta do dá e larga sem agarrar ou usar a força do adversário com suaves e mágicos “toques de bassula“ ou “toque de finta” como eu próprio fazia em tempos de candengue num lugar chamado de Maianga ou Manhanga da Luua, lugar de águas e cacimbas boas…

 (Continua…..)

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:18
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . X

A VIAGEM DO ELEFANTE – José Saramago – Da Caminho - 04.02.2019
Por

soba15.jpgT´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

sacag1.jpg Um Desafio de Maria João Sacagami (psicóloga) . No Bombom do Rio de Janeiro
Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7- Vidas Secas de Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

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Saramargo1.jpg À lista de livros da BOOKTIQUE, adicionei um oitavo mais um nono LIVROS com falas bem diferenciadas e com conteúdos de se lhe tirar o capacete. Aleatoriamente, falarei destes e de outros, sem me meter a fundo nos meandros filosóficos de cada autor; copiando aqui e além partes mais fosforescentes da linguagem, introduzirei meu linguajar sem a preocupação das normas que Nosso Senhor me estipulou com sua mão direita. Dar com a esquerda sem que a direita o saiba ou o seu reciproco. 
Bom! Pois! A mão direita porque a esquerda por vezes falseia. Para além do mais e seguindo os conceitos bíblicos blábláblá, deixa para lá… A erudição de cada qual, autor, não vai ser aqui analisada porque minha caminheta não comporta tanta tonelagem; Neste caso do sétimo e oitavos livros, um foi Prémio Nobel (Saramago) e o outro foi Camões (O autor, Luandino Vieira recusou tal prémio porque, de tão honesto, disse ser seu português demasiado atravessado)...
O JAMBA SALOMÃO CAPA DO JAMBA - O elefante milagreiro Salomão, o Jamba de Saramago do ano de 1553, oferta de Dom João III a seu primo o Arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do Imperador Carlos V, passou por Pádua e fez tremer a queixada relíquia de Santo António de Lisboa e Pádua; o Salomão desta inventação de José Saramago fez um milagre à porta da catedral de Pádua. 

saramargo2.jpg Desde o tempo de D. Afonso Henriques que há crise em Portugal; no entanto e, nos intervalos, houve grandes gestos de magnanimidade. Em meados do século XVI, o rei D. João III ofereceu esse tal elefante indiano a seu primo, o Arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V. D. João V, em 1721, momentos de boa situação financeira com muito ouro saído do Brasil, ofereceu 50 dúzias de pratos de ouro para os Cardeais Pereira e Cunha representarem condignamente Portugal em Roma.
Eu não estava lá, mas pude verificar há uns anos atrás em visita ao Vaticano, que a queixada do santo tremeu de indignação. Tendo gasto, tanto despifarro para curtir vaidades. O Conarca, homem condutor do elefante, burlão quanto baste, estava mancomunado com o bispo e, eis que o dito cujo bicho de quatro toneladas, se ajoelha com as duas patas dianteiras, uma coisa nunca presenciada de um esquisito e trombudo animal. 
Um milagre por inteiro, diz o digníssimo relator Saramago ao afirmar que a assistência presente no adro, em grande número, toda ela, acto contínuo se ajoelhou imitando o quadrúpede. Se eu dissesse isto, era logo excomungado pelos midia. Mas que espectáculo eu perdi! Em troca, Salomão recebeu uma generosa aspersão de água benta com aquela coisa, um zingarelho de espantar espíritos que os bispos usam. 

saramargo3.jpg Dentro da catedral a múmia do santo António estremeceu de gozo no túmulo, afirmação de gente muito crédula. (Mais tarde, eu, na primeiríssima pessoa, século XXI, também vi!…) Esta estória dum ateu que se diz agnóstico, é tão ou mais macabra que as já muitas estórias aqui descritas pelo relator vanguardista do blog Kimbolagoa, um ilustrem desconhecido 
Háka! Não é que, o Cornaca tirava pelos do cú do elefante para fazer pulseiras de macumba, vendendo estas aos fieis devotos ao Santo. E, não é que comprometeu seriamente nesta operação de trapaça e candonga o mui nobre Arquiduque Maximiliano da Áustria, como um vulgar Lello cigano da nossa praça (vendedor de cuecas em segunda mão) numa corrupta ligação com inspectores da ASAE da ilha de Lançarote, 600 anos depois (ou antes,... já nem sei!)

dia19.jpg Em 1730 o mesmo D. João V oferece um caixote de barras de ouro para a princesa das Astúrias e, um ano depois outro caixote do mesmo ouro vindo do Brasil para a rainha de Espanha, Em 1732 mais 72 barras desse ouro para o núncio apostólico Bichi, em Roma e, em 1733, mais 24 barras do mesmo ouro para ajuda do enterro do núncio apostólico Cavallieri, em Roma. É demais!...
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:09
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2019
KANIMAMBO . LXV

CONVERSANDO COM LOUIS ARMSTRONG02.02.2019

Pois! Uma coisa chamada de talassoterapia com a vitamina D de Deus… Armstrong, amontoa suas roupas em cima das chinelas ficando em sunga tipo calção florido idêntico ao meu…

Por

soba15.jpg T´Chingange . No Nordeste brasileiro…

Na praia da Pajuçara, encostado à Canoa, vendo o sol recém-nascido lá no horizonte e, lá pelas seis horas da madrugada, chega um senhor moreno na cor e na idade que, cumprimenta. – Bom dia! Respondo também com um bom dia. Amontoa suas roupas em cima das chinelas ficando em sunga tipo calção florido idêntico ao meu. Senta-se e ali ao lado dizendo algo sobre a maré que está secando; falas de ocasião pra puxar conversa. Dando-lhe um pois-pois, claro, sinto ter ele, vontade de falar – Não tem nada demais.

Já habituado a esta empatia nordestina vou dando respostas aleatórias sobre as algas, o tempo e as mazelas. Comenta aquilo que todos falam e também repetida na televisão vezes sem conta: A desgraça da barragem de terra do Brumadinho! Assim permanecemos falando de várias coisas até que lhe perguntei: Como se chama? Resposta pronta: Louis Armstrong!

ARMSTROG1.jpgBom… em realidade tinha alguma semelhança com o cantor e trompetista de outros tempos mas, daí a chamar-se nem mais nem menos da mesma forma, fiquei só um pouco intrigado. Seus pais deviam gostar muito desse senhor músico que faleceu no ano de 1971!? Por acaso você também é músico? Não, mas gosto muito de ouvir sua voz rouca; é verdade que meu pai tinha um fraquinho por esse tipo de canções choradas com encanto.    

-E o senhor, faz o quê? Pergunto. Parece-me que ainda está na vida activa! Não hesitou um segundo para responder: - Sou Procurador! Bem! Assim neste panorama, mantinha-me na dúvida se não me estaria a tomar por parvo e dizer-me inverdades. Eu sabia que Procurador era assim uma figura de destaque tal como Procurador da República, figura de Estado e esta Louis Armstrong até no nome me parecia ser uma pegada mentira. Mas, tenha-se em conta ser demasiado deselegante perguntar-lhe detalhes mais fragmentados.

panoias2.jpg O mar verde continuava a secar, a maré descia a olhos vistos juntando fiadas de algas verdes e o Louis Armstrong tudo indicava estar à espera de ficar muita areia para depois entrar. Pensei que assim queria ter rasura na altura da água, para esfregar suas quinambas, o peito e talvez fazer uma tratamento terapêutico pelos banhos de mar e pela acção dos climas marítimos.

Pois! Uma coisa quase hidroginástica chamada de talassoterapia com a vitamina D de Deus, pois que qualquer coisa por ele falada era terminada com a graça de Deus, se Deus quiser. Falava assim denunciando sua veia evangélica, usando com tato as palavras para não ofender o Senhor. Bom! Como seguindo as palavras do novo presidente Bolsonaro que também diz, a bem da nação, o País acima de tudo e Deus acima de todos.

uruguai3.jpg Eu evitava usar palavras para o senhor que não fossem demasiado periclitantes ou polémicas e assim derivei para a vulgaridade de não reutilizar garrafas de plásticos com água porque, tal e coisa, um produto de plástico por um longo período de tempo não se conhece segurança de remover completamente todos os perigos nele contidos. Bom! Mediante esta conversa um pouco mais desenvolta o senhor de sobrolho meio retorcido perguntou qual era o meu nome. Resposta imediata: Frank Sinatra. Bom! O bigode dele ficou retorcendo a sobrancelha com três rugas a salientarem sua admiração. Ambos estávamos a ficar infestados de bactérias…

Pois é! Falei. Meu pai adorava ouvir Frank Sinatra e tal como o seu, também me baptizou desse mesmo jeito! E, olhe que gosto imenso de o ouvir. E, afinal já morreram ambos num é!? E, que faz na vida? Perguntou ele. Conto estórias! Então é escritor? Não, eu só escrevo para animar os amigos, porque gosto de usar as formas directas do linguajar do povo com que contacto; invento muito e por vezes fico rindo só e, que nem um tonto com minhas inventações.

kafu5.jpg Bem dôtor, vou ter de ir à minha luta, ganhar a vida! A maré já está bem seca para pegar no meu saxofone! Reparem que devido à minha fala assim mais erudita, Louis licenciou-me de dôtor em menos de poucos minutos. Ué… e, afinal ele é mesmo tocador de pífaro, ou trombone ou que sei eu, sei lá clarinete. E, bolas, aqui a imaginar tonteiras! Deve tocar para quem passa para receber uma gasosa; não é a primeira vez que vejo gente tocando na praia para os namorados, para gente com dólares, pessoas românticas que gostam de repentistas.

arau44.jpg Mas ele não disse que era Procurador!? Vou deixar aqui minhas coisas, o dôtor dê uma olhada fazfavor! Pois não! disse eu. Deixe ficar! Foi quando foi atrás do barraco da Canoa e de lá, veio com seu saxofone, assim uma vara comprida com uma espécie de argola no fim. Um saxofone bem esquisito, diga-se! Só dei pelo meu erro quando iniciou sua caminhada em zig-sagues pela areia com seu instrumento riscando chão até apitar. Só então entendi o que era essa função de PROCURADOR. Quando ele aqui chegar vou dizer-lhe que agora é PESQUIZADOR… Isto há coisas…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:47
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . IX

VIDAS SECAS – COMO SINTO O MUNDO

Pretonceito - Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé…

- Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …17.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Lagoa do M´Puto

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO – Como dar certo …Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS - Graciliano Ramos . Br

84  - Secando a palavra ao sol e, porque foi feita para se dizer, recordo as “vidas secas” de Graciliano Ramos, escrito de 1937 e assim, acompanhei parte do trajecto da família de Fabiano e também da cachorra Balaia. No meio de muitas arbitrariedades próprias da classe dominante de então no Brasil e, andando eu frequentemente por terras de índios Caetés, lá terei de ler o “São bernardo” de 1933 e o “Angustias” de 1936, talvez o melhor das suas publicações.

85 - A partir de factos simples, tento compreender com a maior exactidão, analisando isto e aquilo e, no possível, o meu próprio desenvolvimento do pensamento - Dar atenção a um, descuidando um outro que o precedeu. A teoria da casualidade por reflexão de ressonância sucedeu ouvindo um grilo que canta, que grila…Ele canta, estridula, guizalha, trila ou tretinha num zumbido que se interrompe. Com estes silvidos, chego à via especulativa no ser capaz de me ajudar a compreender o Mundo.

booktqiue6.jpg 85 - E, porque também está viva em minha memória, relembro parcialmente as “Vidas Secas”. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. «Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do Rio Seco, a viagem progredira bem umas três léguas. Fazia horas que procuravam uma sobra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.

86 - Arrastavam-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Fabiano, sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda pederneira no ombro; o menino mais velho e a cachorra Balaia iam atrás. Os juazeiros aproximavam-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

gracilano1.jpg 8- Anda condenado do diabo gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo. A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor dos bichos moribundos.

88 - Anda, excomungado! O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um facto necessário - os tremidos e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro caboclo precisava chegar, não sabia onde.

booktique7.jpg 89 - Tinham deixado os caminhos cheios de espinhos e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés…» Esta descrição espremida como roupa pronta a corar, causa-nos calores e frios tremidos, uma miragem com uma amargura tão sobrevivente que podemos até sentir sofrimento. Ele tinha o condão de elaborar um trabalho colocando no papel tudo aquilo que conseguia observar na pessoa, num animal, em uma cidade e sua sociedade, com matizes varias.

90 - Foi um pouco a partir dele que trabalhei a curiosidade, descrevendo assuntos demasiado banais. E, fiquei também ciente de que o que toca a imortalidade é a obra e não o ser humano. Nisto de recordações acabo por chegar ao conceito de se escrever “por linhas tortas” e, é aqui que largo o preconceito, para recordar alguém de nomeada e, que mudou minha forma de estar. É ele Graciliano Ramos! E, disse assim: -“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para se dizer”. Assim diz Graciliano no ano de 1962, para comparar seu ofício de escrever com o acto de lavar roupa pelas lavadeiras do rio.

booktique8.jpg 91 - E, recordo-me de no acampamento aonde dormi com meu pai, um bivaque de gente da Brigada dos Caminhos de Ferro de Angola, de ter ouvido hienas a chorar e urros distantes de leões em um ermo quase sertão como aquele do Nordeste brasileiro; relembro deste meu jeito os bidons ao redor do acampamento contendo tochas de fogo pela noite, para afugentar as feras nesse lugar conhecido por Lucala, sobre o rio com o mesmo nome e, no distante ano de 1954; era eu candengue – falo de Angola.

92 - Claro que relembro algo que deveria estar esquecido, disse isto para mim mesmo. Uma terra que deixou de ser nossa por pretonceito, já o meu pai o dizia - Como é!? Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé… porque simplesmente de dia para a noite se perdeu o direito de nela se viver. E pelo dizer de Graciliano, um escrito deve ser lido e relido, ensaboado, esfregado, batido no lajedo, no burgau, como uma peça de roupa suja. Assim fiz: - depois, pô-lo a corar nas ervas, nas bissapas ou penedias, após enxaguar. Estou fazendo!

araujo69.jpg 93 - Ler seus escritos é como revisitar um laboratório e obter capacidade literária independentemente dum qualquer estilo. Por isso não escrevo átoa, ao calhas, Será!? …Mas ele, com sua caneta bike, transformava um banal relatório ou carta burocrática em uma verdadeira peça literária. E, já que isto é mencionado, quero avivar relatos de seu exercício passados ao papel no ano de 1930; ainda eu, o T´Chingange, nem era um projecto de vida pois que minha singularidade surgiu no ano de 1945 e na convulsão dos sons de obuses da primeira guerra mundial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:49
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VI

- Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo…

 Arqueies tipos! - Vocês!  - 10.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Lagoa do M´Puto

agualusa1.jpg54 - O pessimismo é um luxo dos povos felizes. Quem o diz é um kamba nascido no Huambo chamado de José Eduardo Agualusa em Dezembro do ano de 1960, bem perto da Caála, lugar aonde morei por algum tempo, trabalhando às ordens do presidente do Município chamado de Casimiro Gouveia com a alcunha de caluviaviri. Aqui, refiro Agualusa porque faz parte da minha lista do BOOKTIQUE. Até cheguei a ter uma xitaca com nemas junto à pedra do Alemão mas, deixa para lá, a guerra do tundamunjila a levou……

55 - Irei escalpelizar seus escritos pela razão de tal como eu, andar por aí escrevendo crónicas e livros que muito me fazem borbulhar o cerebelo do lado bombordo. Enquanto eu ando com um imbondeiro às costas, ele sempre se faz acompanhar de cadernos com linhas, um micro-ondas Ipad e uma catrefada de canetas de várias cores. Só que tem uma grande diferença, ele ganha bom kumbú e eu nem cheta… Acho que sempre leva um casal de osgas de estimação e olhos oblongos e enviesados, com quem cavaqueia longos tempos. É delas que recebe inspiração, pode isto ser?

agualusa2.jpg 56 - E, é sobre um antigo Coronel do Ministério da Segurança de Estado de Angola que tudo se desenvolve. Já morto, fugindo às armadilhas da guerra com um amor de hiena, percorre agora seu tormento das memórias vendendo armas aos sublevados do Morro da Barriga do Rio. Quer à viva força levar a descolonização ao Brasil mergulhando a fundo nos incêndios dos morros cariocas. Foi ali, no lugar aonde os candengues brincam com kalashnikoves AK-47, numa sacada a ver-se o Rio estendido até o Cristo Rei, que o ouvi dizer: -A guerra enche os bolsos a muita gente. Bom! Isso não parece ser novidade para ninguém…

57 - Nesta análise, tenho a ajudar-me um jornalista de nome Euclides muito hábil a complicar as respostas que sendo fáceis as engravida só para se vingar das peripécias vividas em África e muito especialmente naqueles tempos perturbadores da guerra do kwata-kwata, do foge branco t´chindere, senão estripo-te. O raro disto é a de que também foi polícia do Estado, um supranumerário de confiança. Bom! Tudo isto acontece inspirado na saga dos fujões pretos, escravos dum qualquer coronel que num golpe de audácia fogem para os quilombos dos Palmares. Até poço sentir o bafo dos cães de fila soprando e babando ranho por aquelas matas procurando os gentios entre as coroas-de-frade e picos kilométricos.

zumbi6.jpg 58 - Francisco Palmares o coronel angolano, o morto-vivo, recordando a fúria de Zumbi, quer tomar o rio dando lugar de destaque aos negros; diz que Zumbi voltou para tomar o Rio. Nós angolanos, somos optimistas – os pessimistas já se suicidaram todos! É Euclides que assim fala sem se recordar do nome desse homem que assim falou lá para trás no tempo; acontece ser assim quando se encontra em dificuldades.

59 - Euclides fala com o Coronel como se fossem amigos de há muito tempo, e eram mesmo: - Vi-te na feira, escondido atrás de uma barraca, disseram-me que morreste e agora!? As coisas mudaram muito desde que tu morreste! O que vocês fizeram não tem perdão, diz Euclides. Eu sei; eu sei! Diz Palmares ao seu assombrado amigo. Aquilo escapou ao nosso controle, foi longe demais…

ANGOLA10.jpg 60 - Ficam muito tempo em silêncio. Finalmente o Coronel fala: - Tu estavas na delegação provincial. Tenho a certeza. Numa de falas tu e, agora eu, Euclides, o jornalista repentinasse: Como conseguiste escapar? - Escapar!? Eu não escapei. Tu viste que não,… estiveste no meu enterro!… De sobrancelhas carregadas e pigarreando, foi dizendo.- O Cunha deu-me um milongo que me deixou a dormir, acho até que morri, mesmo! Depois organizou aquele fantástico funeral, enterrou-me e, logo a seguir, desenterrou-me.

61 - Passei a polícia de Fronteira em Namacunde com o meu próprio passaporte dois dias depois de enterrado e, ninguém deu por nada. Incompetentes! Os teus colegas, graças a Deus! São todos incompetentes, repetiu… Ficamos aqui a saber que Euclides também tinha sido da polícia porque logologo o Coronel afirma com trejeitos de gozo: Tinha a certeza que me seguirias até aqui - Um polícia nunca o deixa de ser… polícia!

coroa de frade.jpg 62  - O medo veio até mim sabes, diz Euclides o ex-polícia e agora jornalista. Os camaradas fraccionistas faziam a sua autocritica, pediam perdão ao povo, assim publicamente e, depois eram fuzilados. Bom! Também naquela altura, sabes, as pessoas arriscavam a vida por um leitão assado. Estava farto de comer arroz de mabanga – quando penso nisso até me dá vómitos.  Como não fugir… como fez o Isomar, T´Chingange, o Vumby e tantos outros. Francisco Palmares lembra-se da Luua: - Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo… Aqueles tipos, ué! - Vocês!

63 - Vocês destruíram tudo, assim fala de dedo em riste o ex-polícia da nomenclatura. O Coronel olha-o ofendido; abana a cabeça. Esquece… Eu não tenho já nada a ver com a pátria; pátria ou morte, o escambau. Quase nada. Sou empresário, tenho negócios aqui… Negócios? Sente-se um muxoxo prolongado de Euclides. Olha, os outros compram barato aqui no Brasil, levam cuecas e cabeleiras postiças, sandálias e lençóis de cama para venderem caro na Luua. Eu, faço o contrário, compro barato em Luanda e vendo caro aqui. Sou besta!? Caramba… O que é que compras barato em Luanda para venderes caro no Brasil? Interroga o ex-polícia em voz de falsete? A coisa promete meus ávilos…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:56
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Domingo, 30 de Dezembro de 2018
MUXOXO . LIII

IDEIAS CUSPILHADAS . 30.12.2018

Na natureza dos dias de hoje, não é o mais inteligente que vence na vida mas sim aquele que melhor se adapta a ela…

Por

tonito 20.jpgT´Chingange - Em Coimbra do M´Puto

Hoje, penúltimo dia do ano de dois mil e dezoito, não estou disposto a ler recados de rápidas mensagens electrónicas, coisas partilhadas mil cento e onze vezes, com muitas e auspiciosas generosidades timbradas e, de sombrias flexibilidades de cor carmim. Também dos versos de rimas desastradas de colar amor com dor, vulgarizando os mata-bichos da vida e, esquecendo os outros trezentos e sessenta e três dias de presença.

Sem pretender vulgarizar o verdadeiro sentido da amizade, aqui estou escrevendo missossos, muxoxos, mujimbos ou mocandas nos trezenos e sessenta e cinco dias dos anos comuns, para arredondar abraços XXL aos verdadeiros gestores do bem-querer. Nesta afirmação, existe uma inevitável armadilha, que chamamos de cultura subordinada a um outro potencial de fingimento, pois que o real entrelaça-se com o possível dando forma à fricção, uma nova forma de ficção.

dy15.jpg Ficção repleta de justificadas deduções através das malhas linguísticas ou narrativas imaginárias; sonhos em que todos podem passar por entre os pingos da chuva. Pois! - Os poetas com seu romantismo, controlam os paradoxos em criativas imagens, monopolizam a futilidade em verdade consoante sua habilidade e, sem obedecer aos ditames da razão.

Queria falar coisas simples, entendíveis o quanto baste de chamar às rezes bois, aos porcos marranos e aos bodes cabrões mas, não é legitimo sermos indelicados com estes domésticos animais que nos dão sustento, dão carne, dão leite, dão peles, dão agasalhos e até servem de arados em terras moles. O mundo não deveria ser assim mas, uns comem outros e outros são comidos.

sanchs1.jpg Encostado à cabeceira da cama e num terceiro andar, num repentino ruido de susto, vejo a gata Yacha saltar da comoda para o parapeito da janela escancarada. Deste jeito bem que podia navegar no espaço até se esparramar lá em baixo no passeio, confirmando que a lei do Isac Newton é bem perigosa, quando não se usa a tecnologia certa de navegar no espaço.  Menos mal que a calha das persianas lhe retiveram o ímpeto, digo eu.

Assim, repenicando ternuras, posso aperceber-me de minhas avantajadas unhas a necessitar de serem cortadas, retirar-lhes o encortiçado e persistente fungo que insiste em perpetuar sua amizade com a minha pessoa. Enquanto isto a gata Yacha foge para os lados da cozinha de onde vem um cheiro de ensopado de borrego e arroz de sanchas conhecidas por míscaros, cogumelos da família dos pleurotos e tortulhos.

sanchas2.jpg Já muito cheio de raminhos de urze, de folhas de loureiro e folhas de azevinho com bagas vermelhuscas, não será conveniente dizer que no correr do tempo os amigos foram-se rareando ao ponto de por vezes dizer que sim, tenho alguns conhecidos! É que muitos daqueles outros, no correr dos anos, demonstraram fingir que sempre foram almas caridosas trejeitando sorrisos e monices como se sempre fossem glorificados em virtudes religiosas.

Nada de troças! Muitos mastigarão respostas inarticuladas de um sorriso aflito mas, para não me mentir, em tempos, tive também vontade de enriquecer mas, fui ficando com o estritamente necessário sem nunca ficar merecedor de uma comenda. Por vezes os silêncios descem-me pela cara em forma de rugas recordando antigas pandegas, daquelas de fazer chinfrim, estomago vitimado em comezainas fora de portas e de horas desavindas.

sanchas3.jpg Não será de admirar ficar assim com manchas na pele, sentir biliosas sensações de pingar desaforos às prestações, sentir o rebuliço provocado pelos espumantes e demais frisantes; levantar-me uma, duas e três vezes na noite para sempre recordar que os abusos por vezes fogem da memória. Sentado de fronte para uma magnifica tarde do 363º dia do ano, vivo o quanto a memória me atormenta, dia e noite, moendo e remoendo – fugindo dela, a memória!

jatiu3.jpg Até há bem pouco tempo, dizia o quanto tinha de vocação para terrorista. Ouvi até em tempos e, em surdina alguém dizer referindo-se a mim: -Ele conhece muitas estórias, é um inconveniente. E, porque nunca me conformei por nunca me entenderem, fico aqui de novo pensando nesta insensata atitude da gata Yacha, saltar para o parapeito da janela, correndo o perigo de só parar lá em baixo, no passeio, esborrachada. Acho que a teoria do tal de Isak Newton também é válida para gatos…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:07
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO . C

FRINCHAS DA VIDA – 10.12.2018 
Por

soba0.jpeg T´Chingange – No M´Puto
A fé cega não examinando nada, aceita sem controlar a evidência e, o falso como verdadeiro; assim e a cada passo se chega contra a evidência e, ou a razão. Esta fé levada ao extremo produz o que conhecemos por fanatismo. E, quando esta fé repousa no erro, cedo ou tarde se destruirá.
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O que é verdadeiro na obscuridade também o será em plena luz. Cada religião pretende estar na exclusiva posse da verdade e, esta fé cega tocando seus pontos de crença e, no tempo, se vê no dilema impotente de demonstrar que se tem razão.

abraço0.jpg Haverá duas importantes considerações a se ter em atenção: A fé não se impõe nem se prescreve porque mesmo recomendada, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de a possuir representará a verdade.
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Uma fé adquire-se com discernimento quando se o têm e, cabe à fé não ir ao encontro deles, mas eles (nós) irmos ao encontro dela. Em este canto da Internet, e em outros similares, aparece frequentemente alguém com ideias interessantes; tenho a certeza de que cada um de nós poderá oferecer suas perspectivas sobre o que entende por amizade mas esta, pode não coincidir com ideias pré-estabelecidas na fé de cada qual.

araujo48.jpg  Em certas pessoas, a fé parece de alguma forma inata a eles mas, se um qualquer procurar com sinceridade essa tal de fé, certamente a encontrará. Para haver fé é necessária uma base; esta base é seguramente a inteligência, daquilo em que se deve acreditar e, mesmo para crer não basta ver, é necessário sobretudo, compreender. 
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O dogma da fé cega é que faz com que haja muitos incrédulos. O que eu acho ser comum a todo o humano é a necessidade de se socializar no afecto; a amizade acaba sendo algo que buscamos, por vezes até com ansiedade, uma circunstância que dá ao desejo de amizade alguma pitada de egoísmo. Quanto à fé ela surge em um qualquer momento!

araujo 101.jpg Existe o perigo de drenar nossas dores em nossos amigos, dar descanso de nossas preocupações em um desejo; se nós não paramos para pensar que cada amizade, terá de ser correspondida por igual, acabamos usando indevidamente esse dom. Eu não acho bom rejeitar-se a amizade de alguém com ideias diferentes. 
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Os amigos, nós escolhemos, fabricamos no correr do tempo. O termo empatia é definido como “a capacidade de penetrar pela imaginação ou premonição, nos sentimentos e motivações de outros", assim como entender as suas tristezas, seus medos e alegrias. A amizade não é em definitivo uma receita médica mas tem sempre uma bula de cuidados a reter para não se ser surpreendido no respeito mútuo ou recíproco.

arau44.jpg E, porque Deus me deu essa prerrogativa do raciocínio e do livre arbítrio, meu espírito anda vago. E, porque não há fé inabalável, daquela que se pode encarar na razão, face a face, espero meu próprio tempo de prescrição!

Ilustrações de Costa Araújo
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:06
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018
PARACUCA . XXVII

MULOLAS DO TEMPO . 2 - 28.11.2018

Nós, bazungus rumo à Tanzânia comendo RUSK - 20 de Setembro de 2018 - Quinta-feira  

Por

Botswana 055.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

Neste início de roteiro aventura com safari, não poderei escrever algo de criativo sem temor ou sem tremer, evitando falar de cada um de nós dos nossos nervosismos ou nossas particularidades na forma de interpretar as coisas, no avolumar de entusiasmos e também sem ofender os pergaminhos que nos mudam no tempo. E, assim como um esquentador antigo mantendo a chama do piloto a fumegar passados amarelecidos e, chispando de vez quando, nervosismos com beijos irritadiços.

Botswana 300.jpg Neste agora, feito salalé em pau carunchoso, sem visar sublimar os feitos em criação artística conformo-me pela idade talvez, seguir sem um prévio planeamento, os trilhos do acaso, sem um aturado planeamento; aventura é aventura! Vamos em direcção a Dar Es Salam dividindo os percursos no máximo até seis horas de viagem, até encontrar um lugar de reconforto à idade, poder comer algo e ter ânimo a continuar.

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Ao quinto dia de viagem – 25 de Setembro podemos ver um casal de leões com uma cria a guardar a carcaça de um elefante que morreu bem na orla da floresta confinante com a planura verde do rio Shoba em Kasane. O Nissan de tracção 4 por 4 portou-se bem na picada de acesso ao rio; tomara, não fossemos nós com o melhor condutor de áfrica. Uma picada de areia solta e com um socalco elevado ao centro e ao longo de muitos metros. Um trilho bem tortuoso, que só um condutor do mato, sabe como lidar.

Botswana 276.jpg A adrenalina subiu aos píncaros na descida empoeirada, picada com árvores de um e outro lado e, já junto à margem do Shoba a maldita picada de areia melhorou; lugar de larga vista para espraiar nosso nervoso miudinho. Podemos assim ver centenas de antílopes, gungas, veados springboks, Javalis, olongos, búfalos, jacarés e grandes grupos de elefantes comendo rebentos verdes da várzea.

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Também vimos aqui calaus, perus do mato, como se diz em Angola e águia-real, uma imponente ave que de bico adunco e olhos penetrantes consegue até levar em suas patas pequenos bâmbis, capotas e outros rastejantes; talvez por isso não tenhamos visto coelhos.     

soba22.jpg E, bem na sombra atrás de umas bissapas, troncos apodrecidos, lá estava o rei leão com sua juba e sua dama mais uma cria; todos eles, olhando o elefante já desventrado. É sabido que no meio do mato o leão sempre fica bem camuflado pela sua natural cor e, também aqui, os turistas bazungus como nós em outros carros, esperavam estes levantarem-se para colherem a melhor foto.

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Ali, e por cima deles lá estavam os urubus, abutres empoleirados em ramos ressequidos de árvores, observando e esperando o momento exacto de entrar no repasto das vísceras deste grande quadrupede. Tivéssemos ficado ali de noite e decerto, veríamos as hienas a rondar a morte junto com chacais. Por vezes, estes predadores esperam até uma semana para intervir na comezaina.

Botswana 261.jpg Os últimos são os abutres, tudo fica limpo! Mais tarde ver-se-á a cabeça do paquiderme já branca, da cor da cal. Vêm besouros, animais rastejantes e até o escaravelho do Nilo rolando com graciosidade suas bolas de desperdício. Na natureza nada se perde, tudo se transforma. Dá para reflectir em tantas odisseias de nossas vidas, uma grande parte passada em áfrica e aonde outros abutres na forma de gente nos roeram vontades.

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Foi lá atrás num lugar de Pandamatenga, no quarto troço, que referi ser necessário uma logística para enfrentar a áfrica e, sem querer voltamos mais uma vez àquela caturrice tão própria da adrenalina africana com os santos a perderem a paciência. Por momentos pensei que chegando mais acima poderia até tomar o comboio Xoxolosa, voltar a Johannesburg para evitar remoer ideias do Tocoismo, uma religião de cariz anticolonial - a sua verdadeira pregação nacional.  

Botswana 019.jpg Mas, neste calor intenso foi refrescante olhar aquela grande toalha de água a dar grandeza ao encontro das águas dos rios Shoba e Zambeze. É impensável andar aqui sem uma garrafa de água fresca, ter um caixa térmica com gelo e cerveja para arredondar vontades loucas. Sendo assim, lá terei de me lembrar que a natureza tem como lei a obtenção dos seus fins pelos meios mais económicos; só assim se justifica a erradicação total e absoluta dos resquícios coloniais e da necessidade de tudo voltar a ser, só capim…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:05
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
MUJIMBO CX

CICATRIZES DO TEMPO - Mujimbo é boato em kimbundo; diz-se por aí… 23.11.2018

Por

soba0.jpegT´Chingange em Johannesburg

Com fúteis caprichos de escritor avulso, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros recolhendo feitos e lendas do passado. Sim! O futuro de um mundo surreal, tentando compreender melhor a essência dos acontecimentos. Também observo agora, já kota mais-velho, estar num joguete de tantos portais desconhecidos.

Sendo mazombo de Angola na criação e, vivendo entre astucias enganosas e superstições intestinas, falo e penso como se fosse um africano preto na cor, captando como um íman as feitiçarias das memórias feitas tradição. E, é aqui neste hiato que o tempo me leva ao era uma vez, no tempo que não tinha minas nas picadas; a gente ainda andávamos descalços de medo.

luandino1.jpg Vistas as coisas, não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Neste tempo daquele agora, ele, era um guerrilheiro de nome Makongo, amigo de Luandino, cheirava o chão, mata e ar, mas sempre queria se vanguardiar.

Por três vezes o voo da mina, por perto ou por longe, ele se cambalhotava no pó. Se diz que nessas horas ouvia-se sempre o piado do holococo (águia) voando muito alto. Nossos pés xacatavam (arrastavam) ligeiros por trilho aberto na mata ou mesmo picada da roça. Então, foi num dia, o rio calado de poucas águas, foi mesmo lá aonde lhe comeram num jacaré o camarada Vutuka.

cabinda6.jpg Foram eles mesmo que escreveram assim neste livro dos guerrilheiros quando a noite estava de gasalhar uma lua nova, na escuridão. Kimoanga Paka assim sem mais nem porquê falava do seu filho; ele estava comigo assentado em seus calcanhares, a velha carabina ao alto. Atirou uma pedrinha, o rio assustou, parou.

-Kene Vua?  Eu sofro… É assim que Luandino descreve numa mescla de testemunho e ficção, arrastando-nos por uma viagem marcada pelo risco, quebrando a sintaxe convencional, incorporando neologismos com expressões em quimbundo, abismos antigos, passados naquele tempo contemporâneo. Kene Vua o Sem Azar morreu na picada.

CABINDA3.jpg Um dia em Cabinda, numa companhia do M´Puto, num lugar chamado de Miconge, a caveira de Kene Vua, carcomida pelo Kissonde, na beira dum fiote, chamou-me nomes de vergonha: -Tu vais poder nunca lavar tua catinga de geração! Assim mesmo, assustei-me. Ali do meio da mata, perseguindo turras que eram guerrilheiros como eu, do outro lado. Eu, branquela, fiquei cismando do susto.

Recordo que naquele entretanto os kissonde, subiu por mim acima, picando matubas e tudo, foi quando aquela caveira do Kene Vua, pareceu-me de vingança, foi mesmo, piscou-me o olho e ainda se via nele, na caveira, medo de acordar outro medo. Claro que isso assim falado, nenhuma mata ia poder nunca lavar, era mesmo catinga de geração.

kalu1.jpg Kene Vua! Vê!... Posso ver ele levantar-se, feito quizango (feitiço), deu um passo só e tirou no ar flor e folhas num pequeno pau de quimbuma. Esfregou suas mãos, cheirou; mastigou. E cegou meus olhos com sua mão perfumada. Vida de pessoa devia de cheirar bem. Como flor, sempre.

Kene Vua apareceu-me mais tarde em sonho dizendo algo meio arrependido de quando falou na catinga de geração: Tu, também vais ser angolano pela tua participação nos conhecimentos, nasceste debaixo dum cajueiro, plantaste beleza feita espiga de milho debaixo das quifuacassas! Quifacassas!? Nem sei bem o que isso é!...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018
MU UKULU . VIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.11.2018
A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente, separava os luandenses entre portugueses…
Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil 
A iluminação pública de Loanda, começou por ser com azeite de jinguba no ano de 1839; seguiu-se-lhe o gás até o ano de 1897 e a petróleo até 1900 – fim do século XX; só a partir de 1938 é que a electricidade passa a ser de uso generalizado em edifícios públicos, creio que primeiro com geradores e, em 1948 através da Barragem das Mabubas construída no rio Bengo - data de sua inauguração. Foi a partir da década de 40 que se notou alterações profundas na gestão do território por parte das autoridades de Portugal.
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A entrada em serviço da barragem das Mabubas mudou radicalmente o perfil das actividades económicas nas regiões de Luanda e Dembos. A Luanda nova tem início na década de 40 do século XX, tornando-se num centro de administração e de poder colonial - um processo de transferência da cultura imperial, mudança de suas teses ideológicas, económicas e até culturais.

mabumbas2.jpg Na consequência de um melhor controlo da população, surgem espaços de resistências e autonomias por parte da população local. A pesquisa sobre estes espaços urbanos constituiu como um campo próprio de estudos que, não cabe aqui desenvolver. No ano de 1937 a nova Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Luanda composta por personalidades das várias áreas que administram a cidade, mudam a toponímia alterando nomes e recriando novos espaços.
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Em 1930 as Ingombotas estão inseridas nos limites da cidade mas o Maculusso, ainda se considera musseque. Em 1940 as casas em zinco com quintais com goiabeiras mamoeiros e mangueiras, dão lugar ao moderno Bairro do Café. O Bairro Operário surge como um musseque organizado, mas fora dos limites da cidade de então. As Ingombotas, dentro do perímetro urbano, ainda era habitada por muitas famílias de origem europeia (branca) e africana.

luanda5.jpg Esta cidade de Luanda, que paulatinamente abandona sua escrita com o “o”, é um autentico laboratório em suas transformações sociais. O Maculusso ainda não urbanizado e outros musseques periféricos, apresentam ordenamento caótico de cubatas intercaladas com casas de adobe ou em tijolo cobertas na maioria com zinco. Em alguns quintais surgem a aduelas de barris que até ali serviram para armazenar o vinho chegado do M´Puto.
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Pequenas hortas surgem de permeio com as casas onde se cultivam couves, alfaces e hortelã, tomateiros, goiabeiras, mangueiras e tamarindos para consumo próprio ou para se vender o excedente nas quitandas. Na região das Kipacas, junto à base da falésia, entre esta e o porto, por via de ali existir argila boa, surgem cerâmicas para fabricação de telhas e tijolos com altas chaminés.

cipaios.jpg A chegada em massa dos portugueses nos anos quarenta, por via de uma nova política da Metrópole do M´Puto, na ocupação das colónias, provoca um novo desenho demográfico na cidade com a expulsão da antiga elite crioula das zonas centrais como o Bairro das Ingombotas já mencionado. Por este motivo surge o Bairro Operário originando um cenário com tensões sociais e mesmo raciais que se avolumam no tempo.
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O aumento significativo de portugueses, concorreram com a elite letrada local – crioulos, novos assimilados e os nativos nas várias actividades económicas. Sendo assim, estas alterações com a inerente separação entre uma cidade branca e uma cidade negra e periférica, originaram lados opostos. Era já latente nesta contestação uma restea de emancipação encoberta ou sob reptícia.

luis50.jpg A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente separava os luandenses entre portugueses, assimilados e indígenas. Este estatuto fora criado como uma forma de organizar o trabalho dos nativos, mas também como um instrumento paramilitar. 
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O estatuto de cidadão legal e civilizado, tinha sido instituído durante a República entre os anos de 1910 e 1921 retirando aos crioulos indígenas esse estatuto; uma iniciativa bem difícil de ser vencida, para um qualquer se tornar em um assimilado. A própria organização social metropolitana instalada em Luanda, criava entraves da elite letrada nativa a cargos administrativos.

luua12.jpg Havia temor de rebaixamento dos europeus em face dos nativos. É mais ou menos por estas alturas que surgem referências a documentos oficiais chamando aos brancos naturais de Angola como sendo brancos de segunda. Em verdade nunca vi isto num papel oficial mas, prefiro deixar isto no campo do provável…

Nota: Tomar em conta, ser este texto como um complemento ao livro de Mu Ukulu ressalvando situações sociais naquela Luanda de então… 
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:55
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
MU UKULU – VII
MU UKULU...Luanda do Antigamente16.11.2018
Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Os dias de feiras especiais no mercado da Quitanda e arrabaldes que se estendiam pelo largo da alfândega, eram gritados pelo burgo por pregoeiros que circundavam pelo burgo, um ordenamento caótico, cubatas intercaladas com casas de adobe ou de tijolo cobertas com zinco e quindas erguidas com aduelas de barris; pequenas hortas de permeio com couves, tomateiros, alfaces e hortelã em cercas protectoras de chinguiços e debaixo de mangueiras.

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O pregoeiro com voz sonante de leiloeiro subia à cidade Alta a dar conhecimento de novas remessas chegadas do M´Puto, tais como iroses de escabeche, sardinha em sal moura, favas ou vinho generoso da Galafura, pois era por ali que se concentravam as famílias de posse e, assim percorria seu circuito de passagem pelo Observatório Meteorológico João Capelo, descendo aos Coqueiros pela calçada dos Enforcados.

Mu Ukulu14.jpg E, chegada a ocasião, já depois do Pelourinho fazia uma paragem técnica para estimular a voz com aguardente de Monchique, repetindo já de forma murcha os pregões de saldo até chegar à Quitanda das mutambas. Ali se vendiam fazendas de algodão de tecidos coloridos mais sarja ou linho de cor branca. Até os ricos ociosos que iam para ali encher o dia, metiam conversa com os caixeiros, peritos em contar anedotas vestidas com calções de brim.

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Naquele lugar das mutambas, até os próprios vadios desempregados faziam cera, aparentando estar cumprindo diligências de prontidão. Já era escuro quando este laborioso cantador de saldos chegava ao Largo Bressane Leite, e por ali ficava algum tempo cheirando a acidez das frutas iluminadas pelo candeeiro de praça e, à luz de óleo de jinguba.

Mu Ukulu13.jpg Naquele outro dia apregoado, viam-se deslizar pela Quitanda imponentes e monstruosos abdómens, capitalistas decerto à procura de chouriços e presuntos seguidos por monangambas, mocambos sem alforria para levar os embrulhos; cabeças escarlates tapadas a chapéu de cortiça, gotejando suor por debaixo das orelhas, bocas com bigodes dilatados e retorcidos e, distribuindo mesuras com falas mansas às damas que cobertas de cambraia e rendados os olhavam de soslaio.

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Tendo esta visão numa varanda larga e sem forro no testo do tempo, deixo ver as ripas e os caibros que sustentam as telhas, a sociedade num assim com uma bela vista sobre a Baía de são Paulo de Loanda com um aspecto mais ou menos tropical. Pitoresco e de calor húmido, como se tudo fosse um amplo quintal; longo e muito cheio de tamarindos, mamoeiros e pitangueiras. Um lugar de preguiça, diga-se; ao fundo uma máquina de costura Wilson, uma das primeiríssimas em meu uso na costura do tempo.

Mu Ukulu12.jpg Desta varanda posso ver as Portas do Mar da Luua e cheirar catinga na segunda metade do século XIX. Ficam em frente à Alfândega, uma zona com gente a correr de manhã à noite; um porto de embarque de escravos - um local histórico aonde podia acontecer toda e qualquer revolta. Quando embarcava, “o escravo não sabia para onde ia - ia para o Kalunga”. O infinito feito mar iemanjá, como se fala em Angola e Brasil. Pois! Havia ali, revoltas e suicídios.

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O palácio de Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, a negreira, chegou a ter um quintalão em frente à escadaria. Por ali passaram milhares de escravos. Eles saíam dali directamente para o embarque nas Portas do Mar, com destino à Kalunga. Os cálculos da Atlantic Slave Trade dizem que entre 1501 e 1866, aproximadamente, 5,7 milhões de escravos saíram dos portos de áfrica para as américas.

Mu Ukulu11.jpg Angola, foi uma das grandes fontes emissoras de comércio de escravos desde o século XV até o terceiro quarto do século XIX. No domingo de 13 de Maio de 1888, dia comemorativo do nascimento de D. João VI, foi assinada por sua bisneta Dona Isabel, e Rodrigo Augusto da Silva a lei que aboliu a escravatura no Brasil. Só neste então é que Porto Galinhas do Brasil deixou de receber oficialmente escravos idos de áfrica. Mas, havia fugas ao regulamentado. Ainda por alguns anos e até fins do século XIX chegavam peças humanas de contrabando.

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No Brasil, os pregoeiros iam às roças anunciar que tinham chegado galinhas ao porto. Era uma forma de enganar as autoridades do reino perpetuando a venda de gente. E, é por este motivo que Porto Galinhas, um lugar de veraneio brasileiro é assim chamado. Dona Isabel sancionou a Lei Áurea, na sua terceira e última regência, estando o Imperador D. Pedro II em viagem ao exterior, às três horas da tarde do dia 13 de maio de 1888.

dia141.jpg O Brasil foi o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravatura. O último país do mundo a abolir a escravidão foi a Mauritânia, somente a 9 de Novembro de 1981, pelo decreto n.º 81.234 - Há somente 37 anos. Seis anos depois da independência de Angola a 11 de Novembro.

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Quanto valia um escravo? Não se sabe ao certo, mas diz-se que o preço era feito de acordo com os negociantes. Quem vendia? “Os comandantes militarem, negociantes negreiros como a Dona Ana, administradores, o próprio governador, que tinha tropas e a própria igreja.” Em 1846, o Brasil conseguiu o 1º orçamento super da gestão do Império. É a partir destes dados oficiais que podemos tirar alguma conclusão.

rio11.jpg Nessa época, uma saca de café era comprada por 12 mil-réis e um escravo comum era cotado a 350 mil-réis. Portanto um escravo valia em média entre vinte a trinta sacas de café. Os escravos que eram hábeis em carpintaria, fundição maquinista etc., valiam 715 mil-réis - o dobro. E, porque Loanda de então era uma cidade esclavagista, muito do negócio corria com essa dinâmica o que, levou muitos sectores da sociedade a dizer no após abolição da escravatura: “Vamos viver do quê, se não produzimos nada?”

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:33
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
MU UKULU – VI
MU UKULU... Luanda do Antigamente 15.11.2018
Os Talatonas por ordem dos padres e outros negreiros, geriam os cipaios no comércio dos escravos… Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

No período de 24 de Agosto de 1641 a 15 de Agosto de 1648, o então forte de S. Miguel, conhecido antes por S. Paulo, em mãos dos Mafulos, passa definitivamente nesta data para a Coroa Portuguesa com a tomada pela expedição vinda do Rio de Janeiro sob o comando de Benevides. Em 1650, o comandante desta expedição Salvador Correia de Sá e Benevides nomeado Governador, é nesta função que apresenta ao Concelho Ultramarino os novos planos de fortificação de Loanda.

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O Fort Aardenburgh, assim chamado pelos holandeses, passa a ter o nome de Forte de S. Miguel e sofre algumas remodelações pela mão do engenheiro francês Pedro Pelike, nomeado por Benevides, que com ele tinha vindo. Era na cidade baixa que se centrava o comércio, lugar aonde no ano de 1770 foi edificada a alfândega. Em 1755 foi construído um grande edifício quadrangular com uma praça ao centro, uma grande cisterna, o quartel do Esquadrão de Cavalaria e a igreja que veio a ser Sé, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

luis11.jpg Neste então surgiram passeios públicos a unir a Praça do Pelourinho com a praça e mercado denominados de Quitanda Pequena ligando com a extensa praia de meia milha de extensão e, ladeada de casas nobres. O principal mercado de Loanda a que se chamou Quitanda Grande ou simplesmente Quitanda, foi construído em 1818 por ordem do Vice-almirante Feo e Torres.

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Para defesa da cidade de Loanda são mandadas fazer três fortalezas e dois fortes. São elas a Fortaleza de S. Miguel, a fortaleza de S. Pedro da Barra e a Fortaleza de S. Francisco do Penedo bem no meio da baía e, para defender a entrada das embarcações. As estações ou cacimbas públicas eram fornecidas com a água das Maiangas do Rei, conduzidas em carros das Obras Públicas.

ana2.jpg Posso aqui, transladar-me para a cidade de S. Luís do Maranhão do Brasil para descrever bem à maneira de Aluísio de Azevedo e naqueles anos findos do século XIX (1870) o que se passava no seio da cidade de Loanda. Não seria muito diferente descrever o que se passava na Calçada dos Enforcados ou no Largo do Pelourinho, Coqueiros, Ingombotas ou Maculusso após a construção do cemitério público do Alto das Cruzes.

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Os escravos eram guardados por cipaios e talatonas ao serviço de padres e negreiros em currais ou cercas na área das Ingombotas, esperando pelo embarque para o chamado Novo Mundo. No Kinaxixe era frequente aparecerem leões e onças para beberem ou darem caça a manadas de antílopes… Pode tentar ver-se a quitandeira, balaio na cabeça, rebolando os grossos quadris trémulos e também as tetas opulentas; o quitandeiro cochilando sua preguiça morrinhenta.

luis20.jpg Também os caixeiros vestidos de caqui ou sarja com manchas de suor nos sovacos. Os correctores de escravos examinando à plena luz do sol, os negros que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhe com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos.

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Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à Alfândega. Pela Igreja do Carmo passaram milhares de escravos, muitos vindos do interior. A relação da Igreja Católica com a escravatura era comercial; “a Igreja também precisava de escravos para permutar - em toda a parte, houve esta ligação fatal. O próprio Vaticano queria fazer evangelização utilizando os escravos, como cristãos - era um dos meios”.

zem4.jpg Loanda era uma cidade esclavagista. A Igreja do Carmo construída no século XVII, foi um dos lugares marcantes da Rota da Escravatura. Após o abandono da moeda antiga o n´zimbo, começaram a usar uma moeda viva - os homens. Havia ali um quintalão de escravos - era a reserva ou o “banco central. Estas peças humanas eram trocadas por outros produtos necessários ao clero - um exemplo da articulação da Igreja com o tráfico de escravos que sempre tentam amenizar.

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Dona Ana Joaquina dos Santos Silva (1788-1859), mulata de Luanda, bisneta por linha paterna de uma negra forra, foi uma das maiores escravocratas da Angola do século XIX. Era uma mulher poderosa em Luanda, filha de um português e de uma angolana. Conseguiu construir um palácio à altura dos meios de um estado, podendo assim ver-se a potência financeira que ela tinha. O enorme edifício que hoje funciona como o Tribunal Provincial de Luanda, bem na baixa da cidade, substituiu aquele palácio original.
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:51
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
MU UKULU – V

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.11.2018

O tempo dos Mafulos ou Holandeses… Os Talatonas geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus…

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

Esta companhia sediada em AmsterdãoCompanhia Holandesa das Índias Ocidentais afirma-se aqui em N´Gola com alguma dificuldade”. Por decisão do conselho de administração constituído por 19 membros, nomeiam em 1637 Johann Moritz Von Nassau-Siegen governador das possessões holandesas no nordeste brasileiro.

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Este Von Nassau tinha a concessão de monopólio de comércio no Caribe e da América do Norte, para o tráfico de escravos dirigidos ao Brasil. Tudo isto para diminuir a competição espanhola e portuguesa. Tempos bem conturbados, sem uma ONU, sem UNICEF e sem Tribunal Internacional! Cada país decidia de sua livre vontade o que lhe aprouvesse! Com o objectivo de participar directamente do tráfico negreiro, Nassau, o governador de Pernambuco com sede em Olinda, decidiu em maio de 1641, enviar uma expedição para ocupar Loanda, principal porto de escravos da África Ocidental para o Brasil.

ÁFRICA1.jpg Era evidente que queriam a seguir, conquistar Benguela, São Tomé e Axim da Guiné e outros entrepostos comerciais de origem lusa, deixados um pouco ao acaso pela administração espanhola. As fortalezas e presídios de Muxima, Massangano e Cambambe, foram marcos político-militares na conquista do reino do N´Gola, e sua perpetuação, consolidando assim a civilização portuguesa; tudo à custa de muita abnegação, diga-se!

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Inglaterra e Holanda pretendiam assenhorar-se do mundo retaliando os Espanhóis e logicamente Portugal com suas possessões em África, entretanto nas mãos dos Filipes I, II e III e, por sessenta anos, a partir de 1580. Foi assim e, a partir de Olinda no Brasil, que tudo foi fomentado na tomada de São Paulo da Assunção de Loanda pois que, era para ali que ia o grande fluxo de escravos idos da costa angolana para fazer andar as culturas e engenhos do assucar.

albuq1.jpg É ali, no Brasil, que tudo começa nesta relação de holandeses com a N´Gola de então. A história não pode ser relegada agora para um outro plano porque e, nesta sequência, sem a natureza, não haveria seres humanos; sem florestas e fitoplâncton, organismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética, não haveria ar suficiente para respirar.

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E, se não houvesse fungos, não haveria antibióticos; se isto não tivesse sucedido com os Tugas, a Angola de hoje seria bem diferente e muito pior do que a maior parte dos países africanos. As cidades e civilização, só existem porque temos disponíveis culturas selectivas que nos dão frutos, caules e sementes comestíveis. Portugueses e até Holandeses fazem parte deste caldo aonde ficaram raízes de alambamento ou umbigamento.

VanDun2.jpg As relações entre Portugueses e Jagas dos Dembos, Kissama, Manhanga e Matamba são parte integrante duma cultura. Uma grande novidade era o uso de sapatos feitos em couro de tiras entrelaçadas e, que mereceu atenção especial por parte dos camondongos, caluandas alforriados que assim passaram a proteger seus gretados pés. Descortinar isto, é como  abrir hoje, uma loja virtual.

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E, é aqui que Balthasar Van Dun, oficial da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas entra na chama do passado. Sabe-se que quando o almirante holandês da Companhia das Índias Ocidentais tomou Luanda, os portugueses fugiram todos para Massangano, e por ali permaneceram durante a ocupação, até à chegada do luso-brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides, que reconquistou a Fortaleza de S. Miguel, na baía de Luanda em 1648.

luis01.jpg Originalmente, a construção desta Fortaleza tinha para além da defesa de naus ancoradas na baía, também em vista a defesa das redes comerciais de mercadorias tais como cera, peles, dentes de marfim, pedras preciosas mas, e especialmente da venda de escravos às Américas, como posto avançado na garantia do porto de Muxima e, presídio de Massangano, que a monarquia portuguesa utilizava como local de degredo.

VanDun.jpg Alguns dos degredados que estiveram presos por algum tempo, destacaram-se mais tarde como cidadãos de carreira, uns como funcionários do reino e outros como comerciantes. A luta pela independência do Brasil saiu-lhes pelo cano com as estrias invertidas. O Van Dun Mafulo, já depois da tomada de Loanda por Benevides, ficou por ali mantendo uma função dupla, a de militar e a de negociador de escravos com os descendentes de N´Gola Kilwanje.

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Quis a estória que nessa missão dupla e de também negociador com os portugueses, ficar por ali com uma prole de filhos mazombos e pardos. Os negócios sempre suplantam as políticas e, eis que eram os próprios portugueses que vendiam escravos a este inimigo holandês de origem, um súbdito de Maurício de Nassau. Pois acreditem ou não a actual ministra da Justiça de Portugal, Francisca Van Dunem desde 26 de Novembro, vem desta prole de gente.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:46
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018
MOAMBA . XXIII

NA NUDEZ DA VIDA – Komatipoorte (África do Sul) - 08.11.2018

- Não há forças que destruam as lendas com fusos – Superstições antigas do Big Ben…

Por

soba15.jpgT´Chingange - Em Komatipoort - África do Sul

Bem cedo fui até ao Komati River, afluente do Crocodile river e, logo ao chegar, vi dois grandes jacarés a tomarem banhos de sol do outro lado, em uma ilha, bem ao lado aonde ontem Dy Vissapa pescava sentado em uma raiz de uma grande acácia, ali mesmo ao lado. Acabou por pescar um peixe tigre que mais tarde comi depois do brai-churrasco de carne de lamb e beef de boi.

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Em verdade, não foi um grande pitéu, tinha muitas espinhas, o gosto não era igual ao peixe do mar e até me pareceu ter um ligeiro sabor a lodo; não fosse o jindungo de Moçambique e o sabor seria parecido com o do catato também conhecido por mopane. Foi quando me lembrei que uns anos atrás, ido de Johannesburg levei um quilo desta lagarta comestível para meu grande amigo, o Zeca Mamoeiro da Maianga, um kamba desde os longínquos anos de candengue…

crocodile river2.JPG Consultando meu baú de lembranças amarelecidas no tempo, tive de capiangar a mukanda do kussunguila Vasco Antunes dirigida ao comum amigo Zeca poeta com o título de Janela Aberta. Ai.iu.é... É verdade! O Zeca ficou feito estátua, agarrado ao mamoeiro lá num jardim da Travessa João Seca da Maianga! Espreitava a garina m´boa filha da Tia Mariquinhas...

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Assim lendo a dita cuja, desconsegui continuar a cena do Komati River. Dizia assim: - Quero deixar-vos tranquilos meus kambas - Andei este Sábado pelo Marítimo da Ilha mas, ainda dei uma saltada ao Kussunguila. A noite tropical puxou por mim até clarear. Resolvi por lá ficar, a areia da praia no S. Jorge que é a melhor cama que um indígena como eu pode almejar. E tem sonho que vem nessa hora das cinco da manhã…

crocodile river3.jpg O marulhar das águas, as estrelas miríades no céu, a noite que passou, o dia que está a chegar, a vida toda que sei vai esperar por mim. Eu posso atrasar o relógio o tempo que eu quiser. Ué, digo eu: - esse kazumbi deve ser do mestre Sambo! Tentei isso num entretanto passado com meu Tissot, rodei o ponteiro para trás e, num repentemente fui parar entalado nas rodas dentadas do relógio no rio Tamisa, o Big Ben.

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Há coisas que parecem mentiras mas, aqui no Komati recordo que naquele então, no ano de sua inauguração a 31 de Maio de 1859, aflitinho da silva, tive de mergulhar de uma altura de 96 metros em voo de trotinete planadora. Estavam a instalar este zingarelho no Palácio de Westminster durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Obras Públicas do Reino Unido….

crocodile river 4.jpg Nesse então, u T´Chingange, recebi aplausos de muita gente e na presença do Sir Benjamim Hall fui condecorado por um dos arquitectos que o concebeu. Tinha o nome de Charles Barry e, foi assim que vi quanto perigo corremos quando desaparafusamos a mente na marcha-à-ré! Mas assim lá no fuso zero ainda recordo ser aquilo feito ao estilo Neogótico. Passados anos deparo-me estando na Luua revendo meus kambas a apanhar mabanga prá pesca na praia do Bispo.

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E falavam, gritavam com pulos chapinhados naquela água morna da Chicala: - Vamos ainda, barona companheira dos pezinhos quentes… Na água, que o sol já nos torrou vermelho, tem lá marisco e cervejinha fresca para terminar este bendito Domingo. Se Domingo é santo, então é do sô Santo lá na Vila Alice ou na Maianga do Zeca e do Tonito.

vasco0.jpgzeca00.jpg - Vamos apanhar o Buggy do Vasco Antunes, cor de camarão. Vamos falar mujimbo às nossas mães, vamos contar outros mambos para elas não desconfiarem. Aquela da tia Mariquinha, tá lembrada? Tia Mariquinhas teve um nené mas os pessoa estava a ficar desconfiado, pois.

cronicas mano corvo2.jpg  O marido dela tinha perna de pau e os menino, nasceu com perna verdadeira. Pópilas! Ou aquela, daquele nosso amigo da Maianga, o Zeca. Sabe, esse mesmo O Zeca que não desceu do mamoeiro, está esperando que eles madurem - Kamba diame Muxima, Tza ´kidila - Kiene! Kuia bué!

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:16
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Domingo, 4 de Novembro de 2018
XICULULU . XCVII

Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo…"O cabrito come o capim só do sítio onde está amarrado"  – 04-11.2018

Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Moçambique (Bilene)

Estávamos a 28 de Setembro de 2018. Em África e sempre rumo ao Norte, de safari Lodge em safari Lodge, e desde o Choba no Botswana, às margens do rio com o mesmo nome, chegamos a Vitória Falls - quedas do Rio Zambeze e, à boleia do Comandante Vissapa... Também aqui em áfrica, como diz a sombra esquerda de Saramago, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó.

INHASSORO 218.jpg É uma superfície oblíqua e ondulante, dependente da memória de cada qual, da saudade das capotas a atravessar a estrada às centenas mais os olongos a dar saltos por cima dos carros. O sol, o ar, a água, e a terra, têm de ser considerados permanentemente parte de nós. O sol é a verdadeira fonte da vida e, ao invés do que alguns conceituados doutorados dizem, ele não é prejudicial.

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Não é o sol que provoca o câncer de pele mas sim os muitos venenos que ingerimos. A terra é um laboratório de vida porque purifica, regenera e dá energia. Andamos a lavar nossas almas, a entender o nunca visto e até ouvir o inimaginável. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções com arrelias, tendo entre outros males o medo como um veneno que num qualquer jeito, terá de suportar as crises cíclicas ou as provocadas pelos homens.

INHASSORO 064.jpg Sendo hoje domingo, 4 de Novembro, aqui estou sentado defronte desta magnifica manhã e, tendo um mar bonito da praia do Bilene do Distrito de Gaza, recordando o ontem recente para não me fugir da memória, falando também com a osga que sempre me olha inchando o papo e, salpicando falas na forma de estalos como se fosse de origem khoisan.

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E, se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque, nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado e, embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não ter tempo para nos olhar de frente. E, foi hoje que visitamos a casa museu de Eduardo Ruiz com uma mulemba radiante mesmo em frente do seu Complexo Palmeiras. Uma amabilidade na forma de gente que fez o favor de nos esclarecer sobre o problema que áfrica atravessa de momento. Também ele quer vender seu Complexo por dois milhões, tendo o banco calculado seu património em oito milhões. Tudo tem um porquê!

INHASSORO 169.jpg Teremos por isso de nos fixarmos na fé, sem aquela inquietude de nos afligirmos com o próximo, ou ficar nesse estranho silêncio, uma forma de ver o princípio do nada, ouvir desaforos e, esperando as mudanças no tempo para os ressecar... Ao longo da costa e, a partir da Cidade da Beira para Sul, vimos lugares bem bonitos, empreendimentos maioritariamente propriedade de Sul-africanos quase às moscas, sub-aproveitados e, em sua maior parte com ar decadente ou simplesmente vetados ao abando.

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Adaptando-nos ao luto do preto, podemos ver que parece também ser branco. A moeda do Zimbabwé é o dólar americano! Emitiram uma moeda assim tipo fotocópia, com o mesmo valor mas só de fingir pois que só é válida aqui. Não tem qualquer silhueta de gente – só 3 pedras encavalitadas… As notícias da Internet vão dizendo que o país está empenhado com os chineses e que estes a qualquer momento, irão tomar conta de algo para recuperar o empréstimo. Também tivemos de comprar gasolina em tambor de plástico porque as bombas não tinham...

INHASSORO 193.jpg  A China emprestou bilhões ao Djibouti, que não conseguiu pagar, por via disso a China confiscou o porto nacional como garantia de pagamento. Também fez um empréstimo às Maldivas e esta não lhes conseguiu pagar; por isso mais de 38% das estâncias turísticas que eram pertença do estado, agora pertencem à China.

INHASSORO 352.jpg O Quénia viu 70% dos seus recursos minerais, minas passarem para controle Chinês, porque foram incapazes de pagar a dívida. E, estando aqui em Moçambique será legítimo perguntar o que acontecerá senão pagarem a divida bilionária à China? Por tudo o que vi, quase posso apostar que África vai passar para os chinocas – É só uma questão de tempo…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:19
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Sábado, 3 de Novembro de 2018
XICULULU . CXVI

Na minha frente tenho dois tocos de charutos meio fumados aonde se pode ler “connectu” - 28-10-2018

São pertença do “bife-gringo” que veio até áfrica caçar um búfalo…

Por

tonito16.jpgT´Chingange – Em Inhassoro de Moçambique

Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo… O homem, feito de sobrancelha grande e grave, também gordo, deve ser dono dos petróleos lá nas terras do Alasca porque do que se soube, foi aos mesmos lugares que nós fomos, só que, de avião! Pode notar-se, serem desses tais ricos pra xuxú pois que andam aos saltos folgando-se das odisseias das fronteiras e dos milhões de buracos das estradas.

INHASSORO 385.jpg Delta do Okavango em Maun, Casane do Choba, Victoria Falls e agora, aqui pescando nos mares de Inhassoro em rápidos gasolinas. Estando aqui refastelado, parece ser tudo seu e, afinal, é um turista como nós só que se supõe ter guita - têm um casal de jovens sul-africanos aqui radicados para lhe fazerem a papinha, traduzir dissabores com grossos trocados de notas verdes.

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Hoje é ainda quinta-feira e estamos no Yellowlin Lodge; sairemos amanhã para Vilanculo e aí, talvez possamos ir de barco até à ilha de Bazaruto ou uma outra que ao largo da costa aguarda a chegada de corsários turistas; daqui podem ver-se os morros carecas da ilha de Santa Catarina com manchas verdes em suas encostas e vales.

INHASSORO 381.jpg Ibib está preparando os três quilos de mexilhões que comprei a um conhecido de Sebastião, o fiel depositário e guarda-mor dos bungalows dum patrão sul-africano. Há certos lugares que traduzem certos pensares nos quais nem a decadência é sincera, lugares em que as folhas viram sujeira e até se traduzem num cardápio de bizarras esculturas pintadas no lado menos positivo – é só um estado de espírito…

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Também os mwangolés brancos de angola, t´chinderes perdidos numa ficção de sonhos de conhecimento na diáspora, se vão transferindo com devaneios ou arrogância, num raiar de petulante envaidecimento; a falar é que muitas vezes nos desentendemos e, nem sempre me sinto destribalizado no humor que sempre, quando negro, me arranha os neurónios, assim como um buzio que sempre tem cheiro de sapato se não for bem lavado com água sanitária. 

INHASSORO 388.jpg Deitado de barriga virada ao tecto a osga gorda estuda-me com seus olhos oblíquos. Acena por várias vezes, parece cuspir qualquer coisa e depois refugia-se no escuro ficando a espreitar entre a esteira do tecto e o pau avermelhado da asna tecto de capim. Ainda não eram horas de dormir mas estava relaxando ainda do almoço feito de chocos e mexilhões apanhados entre Inhassoro e o matope da lagoa.

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Não sei nem porquê, aquela osga era-me familiar porque, num repentemente dei-me conta de que só ela sabia alguma coisa da minha origem. Sim! Quase percebi, chamar-me de Niassalês – sentia-me reduzido a um ponto de interrogação; acho mesmo que aquela gorda osga via pessoas que mais ninguém via ou conseguiria ver. Nesta questão de instantes o tempo murchou-me a vontade de entender se o pior era eu não suportar o balanço das potholes ou as quezílias de gémeos.

INHASSORO 378.jpg Dos longos silêncios remoídos na sustentação das mentiras ou verdades sobre africanos, sua terra e sua origem, gente sem nenhures; como entender tudo numa longínqua aridez de secura, um investimento de leveza desocupada, fazendo nada ou parecendo nada fazer. E assim ia ficando meio anestesiado, ficando osga com jeito de pessoa que mais ninguém conseguia vislumbrar…

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Foi então que vi um sujeito mulatão de nome comum de Zé Manel, meio a dar para indiano, um meio monhê a viver de expedientes na cidade do Chimoio; com colares de missangas penduradas ao pescoço e um cofió colorido – enfim, um mwadié fantasiado de africano a repetir-me: - Só quem anda por gosto, não descansa! Isto, foi quando me queixei com azedume dos muitos buracos.

INHASSORO 393.jpg Vissapa - o comandante, ainda lhe disse que era angolano de gema, que edecéteras e tal e, até lhe mostrou o bilhete de identidade. Era um branco, sim senhor mas genuinamente africano! Ele, filho dum acaso mal feito, torceu seu nariz achatado, deu uma baforada com rolos de índio no ar no bar K.2 do senhor Couto. Filosoficamente disse que aqui em áfrica tudo é de todos, menos dos brancos. E, assim, engolindo desaforos ficávamos num nada, feitos genéricos. Menos mal que eu só era mesmo – sou Niassalês…

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O filho da mãe, negociante de diligências, vendedor de picos de acácia, pelos vistos não podia conceber um índio sem uma zarabatana na mão! Virou-se para Vissapa e disse assim como cuspindo vinagre feito bolinha de visgo: - Tu, branco, quereres ser africano!? Isso é uma tua miragem, meu! Eram horas de bazar, nossas mulheres esperavam-nos no Bidjou Vermelho de Chimoio; ali mesmo ao lado da linha do caminho-de-ferro. Já em casa, de papo para o tecto pisco o olho àquela gorda osga…

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:20
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO . XCVII

NAS FRINCHAS DO TEMPO16.10.2018

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Monkey Bay do Malawi

O lago é uma surpresa para todos. Uma imensa extensão de água doce a banhar Moçambique, Malawi e Tanzânia. Por terra, andamos vendo um deslumbrante espelho de água até chegar aqui a Monkey Bay na parte Sul do Lago e no lugar de alcon cottage, um lodge de um indiano com piscina e árvores frondosas com o nome de Juliette. Sereno, selvagem, tranquilo, invade-nos com uma misteriosa paz e invulgar quietude.

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Da superfície das águas elevam-se nuvens em espiral de transportar kiandas do kalunga. Um mistério que vai alimentar muitas conversas, originar escritos de sonhos com danças de boas vindas ao Niassa! E em Sitima de Nkhotakota, uma casa feita de assombro e restos dum barco encalhado com o nome do capitão Steve, um barco que parece ter andado por aqui em tempos de segunda guerra mundial; são as fantasias de Vissapa que recordam estas coisas escondidas em seus sonhos.  Almoçamos na sala do capitão mas este, não apareceu naquela forma de olho tapado e perna de pau…

Niassa1.jpg Andamos de sítio em sítio sem vermos o tal de “Ilala Boat “ que dizem andar pelo lago tendo no 1º andar os turistas bazungus carregado de máquinas e binóculos e edecéteras com canivetes de Mack Guiver com mais de dez aplicações e um colete com bolsos secretos para guardas shillings, dólares, randes ou kwachas; no andar inferior os que vivem nas margens do Niassa e que tem de transportar galinhas, mandioca e peixe seco t´chissipa.

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Um barco que sempre nos traz à memória "A Curva do Rio" de V.S. Naipaul e também do Peter Pan… A divisão das fronteiras tem coisas surpreendidas; daqui não se avista a costa do Moçambique - o lago parece ter mais de 80 quilómetros de largura. Falam de uma ilha de nome Likoma terra de kiandas sábias que curam mazelas fazendo trepanação com seus dedos muitos dedos mas nós, só pensamos por agora ir à ilha de Bazaruto em frente a Inhassoro já na costa do Oceano Indico.

niassa4.jpg Antes disso teremos de esperar os carimbos nos passaportes – vistos de saída e de entrada para alimentar o sofrimento da burocracia com papel avondo. Mas, a paisagem com imbondeiros esmaga estes problemas formais. Algures ao luar e, na areia aqui junto ao lago ouviremos do outro lado da enseada rumores do canto do Niassa, um grupo de miúdos que junto à fogueira soltam a voz mas nós daqui só podemos ouvir. Já os vimos passar em carrinhas de caixa aberta cantando seus domingos de Pentecostes e aleluias de Cristo de Salima.

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Este grande lago africano está localizado no Vale do Rift, com uma orientação norte-sul, o lago tem 560 km de comprimento, 80 km de largura máxima e uma profundidade máxima de 700 m. Os estudiosos, dizem ter sido a origem da junção de uma grande ilha separada de áfrica que aqui se juntou originando os grandes lagos do centro de áfrica. Tem uma área estimada de 31 mil quilómetros quadrados, dos quais 6 400 são território moçambicano.

niassa2.jpg Na língua chinyanja (ou chinhanja), falada na orla moçambicana do lago, Niassa significa "lago", tal como o próprio nome do povo que usa aquela língua, os Nyanjas, significa povo do lago. Em chichewa, uma das línguas do Malawi, a palavra malawi significa o nascer do sol, visto que, estando a ocidente do lago, é dessa forma que os malawianos vêem nascer o dia, sobre o lago.

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É um lago único no mundo por formar uma província biogeográfica específica, com cerca de 400 espécies de ciclídeas descritas endémicas. O nível da água varia com as estações do ano e tem ainda um ciclo de longa duração, com os níveis mais altos em anos recentes, desde que existem registos.

niassa3.jpg Vamos em seguida em direcção ao Parque Nacional do Lago Malawi, abrangendo a extremidade sul do lago, uma dúzia de ilhas, uma região de reserva florestal e uma zona aquática até 100 m da costa que foi inscrito pela UNESCO em 1984 na lista dos locais que são Património da Humanidade.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:05
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
XICULULU . CXIV

– BOOKTIQUE DO LIVRO – IV19.09.2018

O Adão e a Eva eram africanos! Disse a minha empregada Mary de Kampala… Também disse: - Leão que ruge muito, não caça nada…

Xicululu: Mau-olhado

Por

soba0.jpeg T´Chingange Em Johannesburg

Ainda não eram seis horas e a minha empregada Mary de Kampala já andava pela casa saracoteando afazeres nos preparos do matabicho. Cheirava-me a mutton do rynfield, um grande mercado que tem várias qualidades de boerewors. Desfrisei meus parcos cabelos com os papudos dedos e, foi quando reparei, ter as unhas demasiado grandes; como crescem, aqui no altiplanalto de África!? Por agora afaguei minhas sobrancelhas que esbarravam contra a lente dos óculos; lá tive de as limpar da gordura com o pensamento no alicate para as cortar.

araujo179.jpg Estes pelos grossos e brancos cada vez se parecem mais com os de Álvaro Cunhal. E eu que sempre eu o via na televisão do M´Puto sempre reparava naqueles entrelaçados arames quilométricos que saíam dos olhos de abutre; e estas condiziam até com os pelos longos a sair das narinas como pinceis. Não é que agora também me sucede este pormenor e, quando noto isso corro para o banheiro apetrechado dum especial alicate que até arame ou linha de pesca corta.

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Levantei-me e frente ao espelho aparei-me destas estranhezas lavando também o alçado principal da minha t´xipala. O cheiro do café santa clara trazido do Brasil, espalhava seu aroma bom pela casa. Já afeitado e aromatizado com meu preferido perfume aramis seguia meu roteiro da manhã; sempre acontece tomar em primeiro lugar um café para lubrificar as mucosas e micoses do meu istmo da felicidade. 

pombinho3.jpg Enquanto isso, olho da varanda as xiricuatas que apanham fagulhas e raspas de comida na grama meio ressequida! Quando os jindungueiros pintam seus frutos de vermelho, são as primeiras consumidoras. De regresso ao quarto e antes de trincar o boerewors de mutton apanho do chão um amarrotado papel; entro no quarto meu e de Ibib, minha cara-metade e, já sentado na cama ainda por fazer, desdobro o papel das conta do rynfield supermarket.

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Pude ver num esboço, uma escrita misturada com contas de somar e subtrair. Por vezes também faço isto para ver quanto gastei em Euros mas este não sendo meu, agudizou-me a curiosidade pois que mencionava uma conta de números altos em randes e xilins; bom! Se não era um gatafunho meu, só poderia ser de Mary e, dai, ainda mais curioso fiquei. Dizia assim: “ O dinheiro que ganhei com meus patrões bazungus está a crescer como um caroço de manga caído no chão do mato do Uganda”

ROXO166.jpg Fiquei assim meio brutefeito com isto, pois que os bazungus só poderiam ser eu e a Ibib. Nem sabia bem o que era isso de bazungu mas, porque nem sempre sou tolo, achei que era relacionado com muzungu que quer dizer branco em língua xhosa; Não sei como é mas os negroas daqui todos se entendem e falam línguas com nomes raros de maxangana, isixhosa, isiZulu, seSotho usando cliques como fonemas da língua bantu,  características dos khoisans.

araujo181.jpg Aquela frase de “em breve a minha vida estará cheia de mangas” apoquentou o meu mukifo do cerebelo. E, porque razão Mary, escrevia isto? Talvez para preencher o tempo e não se esquecer de isto referir em suas conversas com seu boy friend de Kampala. Só pode! Mas havia mais referências. “ Meus patrões muzungus com a minha comida, já defecam como as cegonhas de Campala… Ué…como pode?! Defecam caganitas mal cheirosas como aquelas cegonhas do Uganda!? 

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Escondi o esboço amarrotado no livro do Mu Ukulu e, de calções e flanela dos bafanas do n´Zinpeto, fui tomar o meu breakfast com o tal café de Santa Clara mais o mutton de fazer caganitas de cabra ugandesa, o maizpap ( papa de milho), afadigando-me em nada dizer do que  li no papel – contas de Mary e edecéteras de mulungu. Bom dia patrão! Bom dia Mary, respondi na maior das quietudes. Foi quando reparei nas mangas de cores gulosas encavalitadas cuidadosamente numa grande fruteira de vidro!

massau4.jpg Foi neste então que bebendo de novo aquele café à mistura com leite do dia e aquele milhipap ou maizpap, perguntei: - Mary, lá no Uganda há muitos turistas como nós à busca de leões, fazendo safari? Assim como nós, que gostamos de ouvir os leões a rugirem? Haka patrão! No Uganda tem bué de bazungus assim como vocês carregados de bikuatas. Fica esperto T´chindere, afinal, bazungu era mesmo o que pensava ser: Branco a fazer visita ao mato – fazer safari!

pombinho2.jpg Mas, a gente de Kampala não vai em safaris patrão; só mesmo os bazungus que gostam mais dos animais do que as pessoas!   Gostam de leões, de crocodilos, springboks e até das cobras! N´Zambi me livre, só mesmo de pensar já estou de arrepiada. Eu não gosto, diz Mary e, continua com suas falas: tornei-me até muito amiga das cabras que dão leite de beber, porque só gostava mesmo do meu namorado que as guardava. Pois! Disse eu, aquele bafana para quem tu tanto falas ao telefone…

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Mas, os bazungus velhos assim como o patrão e, seu amigo Reis das Vissapas com seus carros de tracção às quatro rodas, vestidos com roupas muito cheias de bolsos que parecem soldados antigos expedicionários, e com o equipamento de combate pendurados, binóculos, máquinas de vídeo, celulares, bengalas e garrafas de água. Ué, como é então? Eu sou assim mesmo? Ela, nada disse, só mesmo oscilou os braços e fez um muxoxo a comprovar ser verdade com um sorriso de quem canta victória.

tonito16.jpg Patrão (só faltou dizer muzungu) nós no Uganda não temos kitar de xelin, dinheiro para bafunfar férias como os europeus; só mesmo fazendo companhia aos muzungus para limpar as cagadelas dos brais (assadas de churrasco). Agora entendi essa do cagar como as cegonhas ugandesas. Pois! Pelos vistos ela não conhece mais nada para além de Campala. Para terminar disse-lhe: - Um dia vais ter dinheiro para ver os leões! Haka! – Para quê patrão; Leão que ruge muito não apanha caça! Tudo ficou assim; eles são imprevisíveis, tambulakonta – disse-me assim mesmo e, baixinho…   

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:33
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
CAZUMBI . LIII

TEMPOS DE ESPERA - Johannesburg – (16.09.2018 dia do apagão) - 18.09.2018

- Nos intervalos da vida, durmo! - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios…

Por

soba0.jpegT´Chingange

A chaleira fumega por cima do fogão eléctrico. O sol entra pela janela da kitchenette que liga à sala aonde estou sentado, melhor, afundado numa poltrona cuja tábua deve ter fundeado no acostamento de matacos de um quilómetro quadrado. Aqui há muita gente gorda e o melhor mesmo é nem repararmos porque, senão os contratempos surgem de soslaio vindos dum desconhecido lugar cheio de biltong, boerewors e coldrinks de cocacola…

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Os vapores do meu chá trazido do M´Puto serpenteiam até ao tecto de pinho em desenhos enrolados e fazendo uma cortina com raios digitalizados. Trata-se de uma velha cura legada pelo meu tio avó de nome Guerra e composto de barbas de milho, pés de cereja e ipé-roxo, também conhecido como pau de arco.

CAPOTA1.jpg Num espaço etéreo de virtual roxismo, o fumo enlaça visões de índios sioux, astecas ou apaches. O termo roxismo derivada de Roxo, o nome de uma senhora que pinta seus sonhos no computador metendo as pestanas verdes fazendo de óculos e, com madeixas de cabelo ruivos como se todos fossemos assim, uma forma espantada de arco-íris a condizer com a ideia de que efectivamente, somos uma ilusão.

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Hoje mesmo, vou-me ensinando a ser gente tomando aqui e acolá, por onde calha, o saber dos mais sábios para ficar esperto. Nem sempre homem, nem sempre jovem, já mais velho, nos intervalos, aprendo a aprender a ser grande graças a esta aguda perspectiva de também ver e ler as coisas da frente para trás e tal como o camaleão, ter um olho aqui e outro mais longe para poder fazer selfies de mim mesmo, bem ao jeito de Picasso.

ROXO134.jpg Esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos e dos fúteis caprichos duma vida cheia de gente, uma multidão que grita, que gasta o que não tem simulando normalidades e carregando um vazio dentro de si. Sim! Neste mato de capim tombado pelo vento tiro aqui e ali umas fotos sem pau de selfie tendo como companhia aqueles cheiros e sabores do boerewors, uma salsicha fresca tradicional da culinária da África do Sul.

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E, porque estou aqui, averiguo o saber na deriva dos vocábulos boere e wors, oriundos do africânder, significando respectivamente "agricultor" e "salsicha". Vi-me na foto do meu android e fiz-me gaifonas vendo as rugas enquadradas num diferente tempo, nem sempre alegre, nem sempre triste. Naquele chá pus umas três gotas de canábis para encurtar pesadelos e restituir-me a lucides, enfim, para equilibrar meu físico e mantê-lo ligado aos espirito.

boer carro5.jpg Aqui há plantas de canábis-liamba pelos jardins e o comércio de sementes é livre. Há pouco deitei água numa situada na varanda e, que aparenta ir morrer se o esquecimento não lhe der água. Neste compasso de espera a fim de rumar ao tal de Kariba, embarque em M´bibizi, um lago no meio dum altiplanalto, sonho que parto para outro e, mais outro e outro lugar, sem encontrar o meu poiso certo, juntando a praia, o rio, o deserto e tudo o resto; uma impossibilidade. Iremos juntos na companha de Vissapa para o calor do Limpopo, rever os baobás ou árvore garrafa que nas nossas angústias, tem o nome de imbondeiro…

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Ontem comi frango frito esfarelado com arroz integral e aquecido no forno e, para variar, gelado com amarula. Comi biltong de kudu, de boi ou vaca e olongo, e bebi suco de goiaba e massala de Moçambique. Percorro assim um caminho com gente chegando e partindo dizendo good morning mesmo sem muito mais dizer, sem muito mais saber; missangas de vida com malas atafulhadas de coisas: coisas que podem ser úteis tais como o canivete, a lanterna junto com as cuecas e, os cremes de amaciar as peles mais o pincel de amaciar as carunchosas unhas …

boer carro6.jpg Fui ao computador ocupar o tempo, li poemas, reli baladas e muitas tretas de fazer caretas; ouvi cantigas, li desaforos, coisas choradas, lamuriadas, cânticos gospel humedecidos, vídeos foleiros, alguns brejeiros e fui à China comer baratas, grilos e gafanhotos. E, eis que num dado momento o écran do maldito computer surge a perguntar-me se este senhor “sou eu”? Estou feito ao bife – de novo!

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Outra vez! Sempre sucede isso quando mudo de continente e telefone. Acho que ando demasiado vigiado; deve haver um anjo da guarda que me persegue mas, em qualquer momento falha sua visão e entro nos cadafalsos da penumbra. Estou assim a pensar como irei restituir-me. Lá terei de largar isto e fazer meu brai com o boerewors com carne de bovino e especiarias, sementes de coentro torradas, pimenta preta, noz-moscada e cravinho. Depois disto veio um vazio, estavam a estudar meu problema pois que mandaram o código de seis números para um telefone que nem era meu embora tivesse o mesmo nome. Creio que era um bafana muzungu destas lonjuras e eu, esperei dois dias soprando ventanias.

bra2.jpg Com este  elevado teor de gordura, estou feito ao mataco  de afundear sofás e lá tenho de o conservar com sal e vinagre na forma enrolada numa espiral contínua. Estou a falar da salsicha bóher que após ser temperada no invólucro comestível e já torriscada no brai, é servida com pap, uma papa de milho típica daqui - África do Sul. No calor do tempo queimo cansaços, fracassos vazios, decepções e até solidões, com Windhoek premium lager! Obrigado a mim, a ti e a tu também (o ti é um, o tu é um outro)…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:06
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MOAMBA – XXII

NAS FRINCHAS DO TEMPO – 18.09.2018

FAVELAS “Townships” na África do Sul ... Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo

Por

soba0.jpeg T´Chingange 2017 em Cape Town  - 2018 em Johannesburg

Este artigo já foi publicado em 14 de Setembro em Kizomba do FB deste ano de 2018 mas, por qualquer motivo que só os matrindindes podem saber, o assunto evaporou-se! Para que fique definitivamente no meu baú Niassalês, é agora publicado aqui no Kimbo de Lagoa Blogue com ligeiras alterações na redacção…  

fantasma0.jpg O aqui descrito remonta ao ano de 2017 quando desbravando áfrica, sucedeu dum inesperado desejo de rever musseques ou favelas aqui designadas de townshipes. Há alguma diferença entre as três designações mas, a pobreza, indigência e sobrevivência é seu denominador comum. A poucos quilómetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships” sul-africanas, como já referi. Elas cresceram de maneira desproporcionada após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências.

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Nem mesmo o final do regime de segregação racial, em 1994, foi capaz de melhorar a situação para centenas de milhares de pessoas que vivem em townships actualmente na Cidade do Cabo. Há diferentes tipos de townships; algumas misturam raças e outras reúnem apenas tribos específicas. Em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos, funcionários despedidos bóhers e outros marginalizados no tempo pela acção afirmativa do ANC – dar primazia de trabalho aos negros.

favela6.jpg A Cidade do Cabo possui o maior símbolo do regime, a prisão de segurança máxima Robben Island. Lá Nelson Mandela e outras centenas de líderes políticos negros ficaram isolados da população por décadas em uma ilha. Hoje a prisão virou símbolo de liberdade e ponto turístico da cidade, enquanto as townships caíram no esquecimento e ainda convivem com o fantasma do Apartheid.

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Com a miséria, nem os olhos ou o cérebro das ovelhas escapam da panela; assim me foi dado observar. Pelo menos quatro vezes por semana, o sul-africano Lele M´Binda ajuda a superar o preconceito entre negros e brancos. Nascido na township de Langa, em Cape Flats, território da tribo Xhosa, Lelé, como é chamado, encontrou uma forma de ganhar dinheiro ao atrair turistas e estudantes brancos para conhecer a township onde foi criado.

favelas8.jpg O destino é recomendado apenas para quem quer enxergar um outro lado da cidade. E, interessados não faltam; Lelé está em contacto com as melhores escolas de inglês e agências de turismo de Cape Town, já que Langa é uma das poucas townships consideradas pacíficas e ele a conhece como ninguém. Ele, é um dos poucos em sua turma que conseguiram escapar da violência; faz questão de ressaltar isso logo no início da visita enquanto dirige sua carrinha (VAN ou comby). Na descida, fica impossível caminhar quando crianças nos cercam e imploram por dinheiro. Lelé diz para não darmos esmola, que isso só atrapalha; é uma realidade que nós de fala lusófona, bem conhecemos. Vamos em frente!

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A primeira parada é em uma tradicional casa de cultura Xhosa, onde se é recebido com uma animada música local. O lugar parece importante, pois já recebeu a visita de Bill Clinton; por isso, ali surge colgada na parede, uma enorme ilustração do VIP-americano. Aprendemos, entre outras coisas, que Xhosa é a segunda língua mais falada na África do Sul, apenas atrás do Zulu. O artesanato local é curioso e interessante - os preços chegam a ser picantes, mas é difícil sair de lá sem querer ajudar um pessoal pé-de-chinelo sem lhes dar uns jindungos.

favela a.sul1.jpg Entre becos obscuros, leva-nos a um minúsculo quarto, onde vivem cerca de três famílias. Durante o dia ninguém fica por lá, pois não há espaço para todos. À noite todos se espremem para dormir. “Cerca de trinta pessoas moram aqui” - Lelé traduz as palavras de uma senhora aparentemente triste e cansada, que estava gentilmente no local para nos receber. Com os sentimentos um pouco confusos, vamos em direcção ao próximo programa - degustação de uma cerveja artesanal local. Lelé deve ter incluído isso na visita “townshipica”, pois sabe que estudantes e turistas gostam de cerveja.

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Passamos por uma série de rituais que inclui descascar e comer uma semente, antes de experimentar a loira gelada, que na verdade é morena e quente! Um grande balde da bebida é compartilhado por todos e, o sabor é de uma cerveja fraca, quase sem álcool, nada comparado à Skol do Brasil, Sagres do M´Puto ou Cuca de Angola. Enfim, um mijo de burro ligeiramente graduado com álcool. É praticamente no meio da rua que acontece o momento mais desafiador do passeio. Em um fogão improvisado sobre latões de lixo, simpáticas cozinheiras começam a preparar o “Smiley”, prato típico da culinária de uma township. Aqui tudo parece improvisado mas nada é de estranhar para um cidadão do Mundo, o próprio Niassalês de nome T´Chingange

favela5.jpg O improviso consiste em comer tudo o que a cabeça de uma ovelha proporciona, desde cérebro, olhos e língua. Um pequeno pedaço da bochecha foi o suficiente e, para falar a verdade, até que ela possui um gosto satisfatório. Já de volta à VAN e um pouco traumatizados com a cena das ovelhas mortas, somos levados à última parada, o bar M´zoli’s, na vizinha township de Gugulethu. É neste território Zulu, onde também funciona uma churrascaria, que a cultura de uma township pode ser mostrada para os quatro cantos do mundo. Brancos, negros, mulatos e “pessoas de todas as tribos”, misturam-se em uma grande festa com música ao vivo tradicional com cerveja barata. Um forró Xhosa ou um baile arraial de mastro do M´puto!

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O território é livre e o clima de coexistência com paz prevalece, aparentemente! Nos dias que correm nota-se uma tensão por via de desmandos e ataques com mortes violentas em fazendas - farmes, propriedade de brancos maioritariamente bóheres. Nota-se muita apreensão à qual eu dou veracidade por já ter passado por uma merda de política a que chamaram de descolonização exemplar. Isto é África!

IMG_20170720_115617.jpg Aqui, Talvez seja um dos poucos lugares na Cidade do Cabo aonde brancos, negros e mulatos convivem em condições igualitárias. Tudo aparenta em ninguém ser melhor do que outro alguém e todos se compartilham em estórias. Depois de muito churrasco de carneiro, cerveja e outros aperitivos locais, saímos com a certeza, já ao anoitecer, de que o sol também brilha em uma township. Na anterior publicação que não sei como se escafedeu nos labirintos plutónicos do Facebook dois amigos próximos da Kizomba, referiram não gostar de circos e em verdade não irei dizer que gostei, porque para o ser em realidade, só faltaram domadores de chicote e mansos leões que rugem em karaoke Xhosa …  

Vou dizer mais o quê! Amanhã será outro dia...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:32
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Sábado, 15 de Setembro de 2018
MU UKULU – IV

MU UKULU...Luanda do Antigamente – 15.09.2018

O tempo dos Mafulos ou Holandeses… Os Talatonas geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus…

Por

macuta com soba.jpgT´Chingange – Em Johannsburg

luis49.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

A Vila de Loanda foi fundada a 25 de Janeiro de 1576 pelo capitão Tuga chamado de Paulo Dias de Novaes após ter desembarcado na baia de Loanda com cerca de 700 homens (soldados, padres e almocreves). Em 1576 manda construir a igreja de são Sebastião na fortaleza aonde agora se encontra o museu das Forças Armadas Angolanas. Antes da chegada dos Tugas, Loanda já era habitada pelas gentes do rei do N´Dongo concentrando-se no lugar seguro da ilha de Mazenga a que os portugueses chamaram de ilhas das cabras por ter visto ali alguns destes caprinos. Viviam ali os Muxiloandas, oficiais do reino de N´dongo que recolhiam os n´zimbos para transaccioná-los como dinheiro.

luis01.jpg No ano de 1605 a vila de São Paulo de Assunção de Loanda é elevada à categoria de cidade pelo governador Manoel Cerveira Pereira que exerceu seu cargo entre os anos de 1603 e 1606. Não obstante estes dados históricos, o Rei de N´Dongo ou Kongo era o dono e senhor daquele espaço, pois que era ali seu banco central! O banco de N´gola. Seus zeladores Muxiloandas, cipaios e gente miúda laboravam na apanha e sequente selecção atribuindo às conchas o respectivo valor monetário.

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Para se ter uma ideia da relação de valores de então temos que para o Manikongo, 1 galinha valia 30 n´zimbus e uma vaca cerca de 300 n´zimbus, 3000 caurins ou 6000 lufuzus. Podemos então estabelecer uma escala de valores para as unidades monetárias de N´zimbos, Caurins e lufuzus na proporção de 1,1/10 e 1/200. Qualquer invasor daquele espaço era retaliado com severidade ou morte em caso de insubmissão às ordens do reino ou reincidência em actos de roubo. Era esta a lei conhecida por kikongo que se confundia com a morte e de quem os súbditos tinham o maior medo.

luis02.jpg Todos estes funcionários dormiam em libatas feitas de folhas de coqueiro dormindo em loandos ou esteiras feitas por folhas entrelaçadas da mesma árvore. Foi assim e, daqui, que mais tarde se começou a designar aquele como o lugar dos loandos exportando para o reino este uso de estar, dormir e espreguiçar.

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Mas, Loanda de então já tinha sete povoados e foi só em 1576 que o rei N´gola Kiluanji Kiassamba autorizou a fundação de São Paulo de Loanda passando de certo modo a autoridade para Paulo Dias Novaes que aportou ali na ilha da Mazenga levando presentes da coroa de Portugal para o Reino de N´gola e, por intermédio do fidalgo negro Dom Pedro da Silva, que estabeleceu uma aliança entre os N´Gola e o M´Puto.

luis04.jpg Um daqueles sete povoados ou sanzalas de então, era as Ingombotas, caserio que no correr do tempo foram armazéns depósito de negros escravos enquanto esperavam embarque para terras de Vera Cruz o Novo Mundo também chamado de Brasil; um outro povoado era conhecido por Maculussu e, assim se chamava por ser o sítio das cruzes reservado aos Tala-tona que já entendiam e falavam algum português, os chamados assimilados maioritariamente Kicongos.

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Também viviam ali os fiéis macotas do reino de N´dongo ou N´gola; Os mesmos que traziam prisioneiros das guerras tribais, feitos escravos e com quem os Tugas de então negociavam. Bem assim dizer, os cipaios eram destacados pelo rei amigo a fim de serem levados nas naus e tendo os Talatonas como seus administradores mais directos. Eram os M´Fumos, qualquer coisa parecida como capataz e, obedecendo às ordens de Kiluanji Kiassamba seu rei.

luua7.jpg Os Talatonas, geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus e a fortaleza bivaque de água potável. Faziam outros trabalhos como a limpeza dos terreiros, fazer os enterros no alto das cruzes ou largar os corpos nas lonjuras do kazenga para pasto de onças e leões. As águas para lavagens na higiene doméstica eram levadas da lagoa do kinaxixe que lá pelos anos sessenta, trezentos e poucos anos depois foi soterrada para dar lugar ao mercado que ficou conhecido com esse nome no tempo colonial.

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Todo aquele caserio era composto de cubatas amontoadas ou dispersas com tufos de vegetação começando a surgir entre os imbondeiros, tufos de bissapas e n´hiwas, pequenas lavras de mandioca e até árvores não autóctones trazidas pelos navegadores negreiros tal com a mangueira, laranjeira, pessegueiro e outros que se foram adaptando como a goiaba, ou o tamarindo. A manga por exemplo é nativa do sul desde o leste da Índia até as Filipinas, e foi através dos anos sendo introduzida com sucesso no Brasil, em Angola, e em Moçambique, mas também em outros países tropicais.

luis40.jpg O nome da fruta manga vem da palavra do idioma malaiala e foi popularizada na Europa pelos portugueses, que conheceram a fruta em Kerala (que conseguiram pelas trocas de temperos). Tenha-se em mente que nos anos e séculos que se seguiram, Portugal era o dono das rotas para as Índias e, dali traziam para o resto do mundo árvores e tubérculos ainda não conhecidos no resto do mundo; um verdadeiro início da chamada globalidade.

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Estando agora emperrado na estória de Loanda no tempo dos Mafulos, terei de partilhar estórias verdadeiras que o tempo lambeu com vagas de esquecimento. Trata-se do Mafulu que deu gente nobre a Angola como a dinastia mestiça de Baltazar Van Dum. Durante os sete anos da presença holandesa e, com o objectivo do fortalecimento do tráfico negreiro rumo às lavouras de cana-de-açúcar no Brasil e ilhas do Caribe sobre seu domínio, o projecto da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais afirma-se aqui em N´Gola com alguma dificuldade.

luis54.jpg Nota: É esta um participação para a verdadeira estória de Angola a custo zero… Luís Martins Soares e T´Chingange vão ter de ser incluídos na antologia Angolana…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:02
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2018
MOKANDA DO SOBA . CXLVI

ANGOLA DA LUUA XLVI - TEMPOS PARA ESQUECER – 14.09.2018

Espreitando pelo postigo da memória antropológica ... Na ausência de estadistas, houve demasiados traidores…

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

Já estamos a mais de 43 anos daquele então – ano de 1975. Durante quatro meses, entre Julho e Novembro de 1975, mais de 900 voos, a maior parte da TAP, levaram mais de 200 mil pessoas de Luanda e Nova-Lisboa (Huambo) para a capital portuguesa na ponte “LuuaLix”. Assim chamei por via de um amigo de nome Antunes, a ter escolhido; aqui tem sido referida para a distinguir de tantas outras de âmbito turístico. E, no total foram mais de um milhão de cidadãos que chegou a Lisboa – Lix, vindos da Luua.

torres5.jpg Foi uma das maiores operações de resgate de civis de todos os tempos e, que envolveu muitas centenas de voluntários. Muitos outros saíram de traineira ou indo de carro para os países limítrofes como a Namíbia e outros para onde seguiram directo, tais como por via aérea: o Brasil, Argentina, Austrália ou mesmo os Estados Unidos. A esta dispersão provocada pela guerra do “Tundamunjila” - Thundá mu n´jilla, chamou-se de DIPANDA a que podemos dar também o significado de DIÁSPORA.

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E, assim átoa sem rascunhos de contacto, chegavam a um qualquer lugar e se desenrascavam como soe dizer-se na gíria de cariz tão lusitano. Os ''retornados'' eram portugueses mas, para muitos Portugal era um país desconhecido, um país que tinha acabado de viver uma revolução e onde poucos estavam preocupados com quem chegava de África. Nem mesmo a família acalentou as angústias de tanta gente; verdade se diga que sempre houve alguém a prestar solidariedade e isso, marcou a diferença.

silva2.jpg Nós andávamos baralhados com tanto ódio, tanta insensatez e tanto desconhecimento das palavras como amor e ternura ou solidariedade. Fui cair num ninho de comunistas chamado de Torres Novas aonde a ordem do dia era sempre por unanimidade - levantando braços; eram as assembleias do povo. Não foi fácil passar dias e dias só falando em surdina para que não se apercebessem que eramos retornados - nossa pronúncia com sotaque, denunciava-nos. Podem calcular como era difícil andar entre “irmãos” trilhando o dente por não se poder expressar.

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Hoje os refugiados vindos da África, sem qualquer restea luso, a mesma que nos escorraçou, são melhor acolhidos em toda a europa, têm casa, vencimento, passe de transporte e até trabalho sazonal. Mesmo assim, pouco tempo depois e em surdina fogem para os países mais ricos vivendo uma grande parte dos subsídios estatais que a Europa decidiu dar sem retorno. Se é mau ou bom não interessa escalpelizar aqui mas, o tratamento é bem diferente do nosso naquele então, de quando chegamos ao aeroporto da Portela.

SBEL.jpg Zé Antunes refere em um blogue amigo que quando ia a Lisboa, sempre passava no Rossio, junto ao Pic-Nic - local de encontro de todos os oriundos de Angola. Eu que fiquei instalado em Torres Novas, em casa de uma irmã, também ali ia; normalmente comia uma sandes na “Tendinha” do Rossio, um panado ou posta de bacalhau e um penalti (um copo de vinho tinto) e, também me inteirava de notícias da Luua e de Angola em geral, pois que dali chegavam todos os dias refugiados na Ponte Aérea LuuaLix. Íamos assim, sabendo novidades de Angola e particularmente de Luanda onde ainda se encontravam meu pai e outros familiares.

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Outros, confraternizavam deitando conversa fora com boatos na forma de mujimbos e também para beber uns finos ou pancar uns petiscos no Pingo Bar, no Leão D’oiro na Rua 1º de Dezembro, na Praça do Chile em Arroios, Na estação de Santa Apolónia e outras, sempre na ânsia de saber mais e mais novidades de Angola. Entre muitos chegados ao M´Puto comentam coisas do género: Foi muito triste… Eu não queria vir! Era lá que eu vivia, era lá que estavam os meus amigos, a minha casa. Mas a família mostrava-se irredutível, pois nessa altura o cheiro a medo era muito.

sabão macaco1.jpg O metralhar dos bairros, as balas tracejantes lançadas pelo Poder Popular e o pregar de caixotes tornava a vida ensurdecedora. Corria notícias de violações, contados por quem tinha visto, ou proveniente de mujimbos contados com intervenção dos candengues Pioneiros do M.P.L.A. Cenas de rasgarem e pisarem a bandeira portuguesa em frente à tropa do M´Puto que ficava sem reagir. Isto, para os moradores, tornava-se muito triste, um mau indício e revoltante.

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Ninguém aguenta ver a sua Bandeira maltratada sem poder fazer nada; mas no m´Puto os procedimentos eram bem diferentes pois que nisto temos de excluir Mário Soares que até foi presidente e tem uma fundação subsidiada pelo erário público… Como lavagem de ética, diziam que era em repulsa a Salazar mas, disto não nos devemos esquecer para que não tenha direito a ir para um qualquer panteão (…O que mais tarde ou mais cedo vai acontecer!...). Baloiçando-me no d´jango do plot, muito perto da árvore n´vuluvulu de Benoni, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços ao povo da Obovolândia.

silva p0.jpg Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito só sua; e até, muitos haverá, que não acreditam que seja aquela a sua verdade. Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Estamos a viver este momento de falácia mas voltando àquela certeza de que iriamos voltar para a Luua a refazer a vida, foi-se desvanecendo malembelembe como um sonho…Para pior, antes assim!

pombinho5.jpg Os sonhos ficaram a definir se a recta era mais curta no tempo ou se era a curva mais universal, com um mundo sem bordos e rebordos… Fui lá, a Angola em dois mil e dois mas, as tabuletas de caveiras ladeando os acantonados da UNITA, ainda eram muitas e por muitos lados. Também cheguei a Lisboa, como todos os demais, um outro Portugal, o tal Continental; afinal havia dois, o M´Puto e N´Gola mas nós estávamos por demais inocentes para entender aquela revolução dos cravos ao pormenor. No aeroporto duas senhoras da Cruz Vermelha comentavam em surdina estarem ali a perder seu sono por via destes ranhosos (eramos nós…). Felizmente que havia algumas Donas, estarem ali por amor e solidariedade… Bem-haja!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:21
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2018
MOKANDA DO SOBA . CXLV

ANGOLA DA LUUA XLV - TEMPOS PARA ESQUECER – 13.09.2018

Na ausência de estadistas, houve demasiados traidores…

Por

soba0.jpeg T´ChingangeEm Johannesburg

Já estamos longe daquele tempo, meses de Julho e Agosto de 1975; meses de polvorosa nas movimentações político-militares do M´Puto - a Metrópole. Com dados aleatórios no tempo aqui se descrevem situações que agora nem interessa saber se foram antes ou depois. Aconteceram! Em Portugal, partidos à direita do PS encaravam o futuro com alguma apreensão; naqueles dias chegava a vez dos social-democratas assistirem aos boicotes aos seus comícios - PPD.

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De tão inchado de espantos, desenho-me entre antigos esboços, revendo-me nos desenhos das sombras, sendo eu próprio um grafites escanchado em cima dum touro que, visto de lado parece ser uma palanca. Os oficias do M´Puto preparavam uma estratégia para conter a alma danada da reacção. Não queriam condenar os golpes e contra-golpes a uns mero folhetim, decidindo criar uma comissão destinada a coordenar uma resposta operacional a eventuais tentativas de ataques.

star10.jpg Não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem agora, já passados 43 anos, assim como o camaleão, com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Pois assim tem de ser! Reinava na nação uma incessante excitação. Dia sim, dia não, estava para rebentar um golpe militar… Bem! Nós em Angola já estávamos nela; a metralha estava na ordem da manhã, da tarde e da noite. Era o tempo da conspiração e do mujimbo, estar-se sempre à espera de onde vem ou virá a próxima trama secreta.

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Por lá, na metrópole dizia-se ser cada vez mais difícil perceber até que ponto é que tudo aquilo, em Angola não era apenas uma diversão; os três movimentos de libertação estavam em guerra aberta. A pouco mais de um ano depois da Revolução abrilista, a balança de pagamentos sucumbe. A fuga de capitais para o estrangeiro torna-se uma realidade. "A falta de confiança leva as pessoas a levantarem os seus depósitos para manterem o dinheiro em casa, ou a transferi-lo para a CGD", diz Silva Lopes, Governador de então no Banco de Portugal.

guerra22.jpg É ratificada pelo CR a criação do Directório para “assegurar a autoridade do poder”; Oficiais e praças do Regimento de Comandos da Amadora insubordinam-se contra o seu Comandante Major Jaime Neves e prendem o 2º Comandante Major Lobato Faria, entre outros militares e elegem como comandante interino o major Miquelina Simões. Entretanto, intensifica-se a ponte aérea que a partir de Angola e de outros territórios africanos e durante vários meses, vai fazer afluir a Portugal centenas de milhares de refugiados rotulados como retornados …

retornar3.jpgOs jornalistas estrangeiros, espantados, levantam questões pois que estava já em curso um movimento geral de ocupações em terras do Alentejo; existia um grupo de pessoas que, apesar das circunstâncias adversas, continuava a trabalhar para que Portugal voltasse à normalidade. Pouco a pouco iam saindo do seu silêncio.

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O Governador do Banco de Portugal, Jacinto Nunes, comunica a entrada para o Banco de Portugal do ex-ministro dos Assuntos Sociais Mário Murteira, para ocupar o lugar de vice-governador. "A minha função no BP era conceber um mecanismo de acompanhamento dos comportamentos dos grandes grupos económicos", conta mais tarde Mário Murteira. A sua nomeação é logo encarada como o reforço das posições comunistas na estrutura do poder.

retornar6.jpg Os ministros decidem intervir no complexo agrícola de herdades, Donas Marias e Cavacedos em Moura com mais de 1350 hectares. Com que argumento? Subaproveitamento das terras, deficiente alimentação do gado, despedimento sem justa causa, não pagamento de salários e, mais importante, mau relacionamento do patrão com os empregados. Com fúteis caprichos de poder, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros. Agora, embora as circunstâncias medrosas, não permitem que abra uma nova frente de guerra, elas continuam mesmo sem haver razões independentistas…

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Que importância terá, saber-se agora se a mulher de Lot, em Sodoma, ao olhar para trás se transformou em sal-gema ou sal marinho ou, até saber se a embriaguez de Noé, foi de vinho branco ou de vinho tinto se naquele agora, as brigadas da FAPLA (Forças armada do MPLA) e da força cubana estavam totalmente livres para enfrentar as tropas Sul-africanas e da UNITA que se aproximavam pelo lado Sul de Luanda. Não se sabe ao certo o porquê desta manobra e a sua falta de coordenação; as traições dos “nossos militares” por afinidade ao MPLA dentro das forças armadas, eram mais que muitas!

valentina2.jpg Houve decerto uma chamada de última hora para tudo contrariar naquela que foi uma “Não Batalha de Kifangondo”. Pressões do petróleo por parte dos americanos? Há quem pense ter sido uma manobra de diversão a Norte de Luanda para encobrir a real intenção de ocupar a capital pelo Sul mas isto, não é totalmente velverossímil. A “Bagunça de Angola” que mais tarde apelidei de “Tundamunjila” – Thundá mu n´jilla – era não mais do que as manobras de meter medo ao medo para vincar o fito principal: vai prá tua terra, branco T´Chindere, seguido de “kwata-kwata” ou agarra, agarra.

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Alguém mandou calar os canhões de longo alcance Sul-Africanos, retirar as culatras e abandonar a batalha! Tal como se passou, ainda não é entendível pelos militares dados a comentar isto e é perfeitamente credível que à ultima hora, os americanos tenham dito NÃO!  Há coisas que nunca se saberão por inteiro mas o certo é, que ter os gringos como amigos é algo de muito perigoso! Um grave risco, mesmo! ...

guerra7.jpg E, vêm os porquês!? Porquê CLPA em Angola, sempre esteve em conflito e contrariando o Alto-Comissário Silva Cardoso? Porquê o MFA deu apoio logístico aos soviéticos, deu armas, favoreceu o MPLA articulando e facilitando os cubanos, com intervenção de Otelo Saraiva de Carvalho e, sempre em apoio ao MPLA? O que levou ao CR – Conselho da Revolução e o presidente rolha Costa Gomes permitir o desembarque na costa angolana, o material bélico para o MPLA? Porque tardou a evacuação dos cidadãos civis “angolanos e portugueses” da guerra?

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:04
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018
MALAMBAS . CCXII

NAS FRINCHAS DO KALAHÁRI - KIMBERLEY –  7ª de Várias Partes

- EM CAPE TOWN – HÀ UM ANO ATRÁS – 03.09.2017 – No Kirstenbosch – National Botanical Gardens de Cape Town…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg - 11.09.2018

Este bairro de Imizamo Yethu em Hout Bay e outro mais que proliferam ao redor da Cidade do Cabo, são muito semelhantes às favelas do Brasil mas muito mais carecidas e feitas de uma grande variedade de materiais. São em chapas zincadas e outras achatadas a partir de tambores mais madeira e pranchas de fibras com variadas cores. É um mundo visto a duas distintas velocidades mais por via de refugiados que aqui chegam do resto de África.

cape10.jpg Na encosta Sul da Table Mountain fica um vale chamado de Constantia e, é daqui que sai o melhor “Pinotage”- vinho tinto; a melhor casta de uvas devido ao especial clima daqui por reunir as melhores condições. Há dezoito anos atrás visitei Stellenbush, fui a caves e nesse então inteirei-me haver ali um clima favorável a uma grande variedade de castas sobressaindo o cabernet sauvignon tão da minha preferência, mas e também o Shiraz – todos excelentes!

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Em toda a propaganda escutada a bordo do red-bus é dada enfase às populações supostamente autóctones (os primitivos KoyKoy) mas, pelo que sei, estes nunca tiveram qualquer preponderância no aspecto empresarial. A qualidade de vida que pode ser apreciada deve-se aos primeiros e sequentes pioneiros bóheres que desbravaram terras. Nota-se agora uma multiplicidade racial de gente laboriosa que a torna bem cosmopolita.

cape7.jpg Não devem agora os novos dirigentes da África do Sul propalarem discursos negativos subtraindo as mais-valias que o Mwata Mandela legou. Os discursos quanto às leis de terras têm sido bem negativos para o desejável desenvolvimento da África do Sul; não podem no calor das refregas políticas caírem no mesmo erro de outros países, tentando lavar e purificar a mentira com a demagogia que a ninguém favorecerá.

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Sei porque ouço e vivi, são arbitrariedades não desejáveis num qualquer lado. As práticas erradas estão originando fugas, desemprego, corruptas atitudes com favorecimentos pela cor da pele entre muitas mazelas escandalosas de roubos, matanças, incitamento o descontrolo duma sociedade de forma pervertida e invertida.

cape9.jpg Matança aqui e além para de forma encapotada fabricar o medo entre os brancos, como se a áfrica não lhes pertencesse também. É nítida a forma em como o património do homem branco é cobiçado e estimulado por dirigentes arruaceiros. Os discursos estão aí para todos escutarem, populistas negros a clamar com pretextos quando o que pretendem é simplesmente esmifrá-los; isto quer dizer: rasgar ou desfazer em pedaços, cravar, esforricar ou extorquir dinheiro por qualquer banalidade! Não me posso mentir! 

cape6.jpg Reestruturar e restruturar são duas formas possíveis em português, aonde e, em politica não deve originar o “esmiframento”. Esta é uma palavra inventada agora por mim para fazer sentir que esta estranheza pode de novo acontecer tal como já me sucedeu junto com mais de meio milhão por via do “descolonizamento”, outra palavra inventada para elucidar uma pseudo descolonização (falo de Angola). Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muitos mais.

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Sempre observei entre os políticos amizades incipientes desde o tempo em que os cuspidores de prata eram usuais e era admissível ou, sem reparo, cuspir-se em público. E, anda muita gente de alto coturno e responsabilidade a cuspir pró ar sem que ninguém de peso conteste. Falo do mundo todo! Vejo isto por todo o lado e em particular aqui em África.

cacto xoba3.jpg Hoje que penso muito e, rezo pouco, sinto os tempos subtraídos nas leis dos governos, e, logicamente, averiguo sem pudor, as diferenças. Para não me mentir, resgatando pedaços de lembranças, chupo a acidez da múkua (fruto do imbondeiro), abraço os meus amigos, muitos deles sem a t´xipala de candengues visível no cardápio das mokandas, das muitas malambas do facebook. Já kotas, de cabelos brancos ou grisalhos, o tempo esquindiva-se nas vontades de juventude perene. O que tiver de acontecer, vai acontecer!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:49
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2018
MU UKULU – III

MU UKULU...Luanda do Antigamente10.09.2018

Entra-se num outro capitulo - o tempo dos Mafulos ou Holandeses enviados a propósito para conquistar terras de N´Gola…

De

luis49.jpgLuís Martins SoaresNo Brasil

soba15.jpgT´ChingangeEm Johannsburg

O Governador Pedro César de Menezes no dia seguinte, 25 de Agosto de 1641, abandonou o arraial de bivaque no Morro de S. Miguel de Loanda, deixando a povoação de trincheiras no poder dos Mafulos Neerlandeses. A coroa portuguesa que neste então estava sob o domínio espanhol não pode manter os entrepostos comerciais e possessões que mantinha ao longo de toda a Costa Africana. Assim, estando em guerra com os Holandeses, estes atacaram todos os lugares aonde estavam os Tugas com principal incidência na costa de África.

Mu Ukulu7.jpg Pedro César de Menezes retirou-se para o lugar de Bembem não muito longe do lugar a ser conhecido por Massangano bem à beira do rio Kwanza e na zona de Kambambe aonde os portugueses mantinham suas áreas de influência. Era um ponto de excelente posição estratégica por proporcionar para além da defesa a acostagem de naus, canoas e outras barcaças desde a barra até Muxima da Kissama.  

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O Padre António Vieira interrogava-se de como poderia Portugal prevalecer contra Holanda e Castela? Nesse então os Holandeses tinham onze mil navios de gávea mais outros três mil navios e duzentos e cinquenta mil marinheiros adiantando: “…os dois nervos da guerra são gente e dinheiro; e que gente e que dinheiro temos nós hoje? A gente é tão pouca, que para qualquer rebate de Alentejo é necessário tirar os estudantes das universidades, os oficiais das tendas e os lavradores do arado.

Mu Ukulu9.jpg Vejam o quanto é interessante vasculhar na história para entendermos as dificuldades dum país tão pequeno! E dizia o Padre Vieira: - Pois com que gente havemos de acudir às quatro partes do mundo, e em cada partes destas a tantas partes? Os Mafulos em Holanda têm quatorze mil barcos; nós em Portugal não temos treze. Na Índia têm cem naus de guerra de 24 até 50 peças; nós na Índia não temos uma só.

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No Brasil têm mais de sessenta navios na maior parte poderosos vasos de guerra e nós temos sete, se ainda os temos”. Os Holandeses estão livres do poder da Espanha; nós, temos todo o poder de Espanha contra nós. É curioso ler os relatórios e missivas do padre António Vieira por sua arguta visão mostrando ser um observador mais militar do que a maioria dos mestres de guerra de então e, refere “Os holandeses em Europa não tem nenhum inimigo; nós não temos nenhum amigo. Isto veio a acontecer muito mais tarde à mistura com traições em 1975 que, de forma desavinda tiveram de abandonar Angola como escorraçados.

Mu Ukulu8.jpg Eles, os Mafulos, têm mais de duzentos mil marinheiros; nós em Portugal não temos quatro mil”. Reconhecia que “um sucesso quase milagroso” a saber da vitória de Guararapes em 1648 no Brasil, tinha mudado a opinião de muitos até então favoráveis à entrega, mas ninguém deveria contar com milagres, “pois os milagres são sempre mais seguro merecê-los que esperá-los.

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Os milagres! Fiar-se neles, ainda depois de os merecer, é tentar a Deus”. Reconhecia que a companhia estava economicamente exausta mas, a melhor solução era a da entrega de Pernambuco, pois os Holandeses não admitiam a proposta de compra. Os documentos mostram porém que a memória erudita do Padre Vieira traiu o Jesuíta. Sempre o M´puto teve em simultâneo grandes homens de grandes feitos e grandes traidores. Traidores que só a estória sem agá fala.

vieira1.jpg Felizmente que a propaganda de tristes alvitre não teve eco em Fernandes Vieira e essa saga de Luso-brasileiros, os verdadeiros próceres do Brasil. De notar que refiro Fernandes vieira como o herói de Guararapes que tendo nascido na Madeira aqui elevou nossa condição de gente ilustre. Só relembro isto porque foi do Brasil que mais tarde saiu uma campanha capitaneada por Salvador Correi de Sá e Benevides para retirar os Mafulos de Loanda. Angola e Brasil sempre estiveram ligados e, daqui poderão extrair nota do muito desconhecimento que temos da nossa posição Lusa no Mundo.

Mu Ukulu10.jpg O Padre António Vieira em 29 de Julho de 1648, transmitia por carta ao Marquês de Niza as notícias do sucesso da primeira batalha de Guararapes do seguinte modo: “… de maneira Senhor, que temos Pernambuco vitorioso, o Rio-de-Janeiro socorrido, a Bahia com armada e Angola com a esquadra de Salvador Correia (….), todo o debate agora é sobre Angola e, é matéria em que os Mafulos, não hão-de ceder, porque sem negros, não há Pernambuco e sem Angola não há negros e, como nós temos o comércio do sertão, ainda que eles tenham a cidade de Loanda, temem que nós tomemos outros portos”.

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O poder da Holanda unido ao da Companhia das índias (Ocidentais e Orientais) era o maior da Europa, pois a história mostrava que a Espanha sem guerras externas, abundante de dinheiro e armas e agora, em paz com toda a Europa, ainda tinha Portugal sobre sua sujeição. Por este acontecido que durou sessenta anos com os reinados dos Filipes I, II e III, Portugal, perdera a soberania que tinha sobre o Ultramar.

maful2.jpg Em pouco tempo os Mafulos ficaram com as possessões daquele Portugal debilitado perdendo muitas praças nas Índias Orientais, na costa africana, na Bahia, e por último Pernambuco. Os danos para Portugal pela perda de soberania a favor de Espanha e por via daquela companhia das Índias, foram-no na índia, Ceilão, Angola, S. Tomé, Maranhão, Bahia e Pernambuco. De notar que João Pessoa tinha o nome derivado do nome Filipe – chamava-se Filipeia. Nem os brasileiros, mais se lembram disto.

junho0.jpg Fugi um pouco do tema de Mu Ukulu da Luua de Luís Martins Soares mas, em seu tempo voltarei às malambas do século (mais-velho)…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Domingo, 9 de Setembro de 2018
MALAMBAS . CCXI

NAS FRINCHAS DO KALAHÁRI –  6ª de Várias Partes

- EM CAPE TOWN – HÀ UM ANO ATRÁS02.09.2017No Kirstenbosch – National Botanical Gardens de Cape Town…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

Estamos a 09.09.2018; passado que dá um ano e três dias, aqui estou de novo revendo este recente tempo, passando a limpo meus gatafunhos do baú do Karoo do Xoxolosa Trem. Fazendo um interregno por espera na obtenção do carro que nos levará mais a norte, irei rever a visita ao Jardim de Kirstenbosch na Cidade do Cabo. Dy, também conhecido por Reis Vissapa vai diligenciar encontrar o carro ideal e com tracção a todas as rodas a fim de rumarmos a norte via Botswana.

alfa0.jpg Aqui neste vastíssimo planalto de Johannesburg, as temperaturas são estremas; de dia e, nesta época do ano, podem ir dos zero aos vinte e cinco graus. Esta noite tive de colocar meias e gorro trazido do M´Puto pois que o frio não me deixava dormir. O computador da Ibib marcava um grau e deu para sentir. Lá fora os carros tinham gelo nos vidos. Tentaram sair no jeep mas este não pegou pelo intenso frio que fez na noite. Pelas sete e trinta da manhã, tiveram de ir à igreja no carro da Celeste, minha nora. Eu fiquei no bombom do quarto com os meus santos, empolgando-me na mioleira.

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Pois voltando ao Jardim e rodando nós a Table Mountain da Cidade do Cabo no autocarro vermelho do Cityrama, ali chegamos deixando de sentir aquele vento frio que sopra do Atlântico. E, porque aqui, não se faz sentir aquele vento, as plantas crescem envoltas num microclima como se estivessem em uma estufa. Vimos altíssimos pinheiros e até entre outras plantas autóctones, o tão nosso conhecido sobreiro de dar cortiça e também castanheiros.

koisan1.jpg Andar pelo Jardim foi como revisitar os desertos de toda a África vendo até algumas plantas já na fase de extinção em outras partes do globo. Tinha vindo aqui há dezoito anos e pude de novo rever com deslumbre este grande jardim e, com tanta variedade de espécimes. As etiquetas referiam o nome, sua procedência entre outras particularidades. Fiquei a saber que em outro tempo também aqui havia leões, sendo seu último exemplar, morto aqui no ano de 1884.

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Em uma brochura recordam que os primeiros europeus a chegar aqui ao Cabo, foram os portugueses capitaneados por Bartolomeu Dias. Há uma grande estátua dele logo à saída do porto do Waterfront, fica bem no centro de uma grande rotunda aonde vai desembocar uma das principais avenidas da Cidade; mais tarde chegaram os holandeses subvencionados pela Companhia das Índias Ocidentais que aqui se estabeleceram.

alfa2.jpg Estes holandeses são os mesmos Mafulos que se apoderaram de Loanda de N´Gola a 24 de Agosto do ano de 1641 já referidos em uma outra crónica de Mu Ukulu II. Esta mesma tropa composta de flibusteiros, arqueiros cobertos de metais e, portando arcabuzes de cuspir fogo, encontraram uns indígenas de pequena estatura a quem chamaram os “KoyKoy”; talvez os da mesma origem dos Khoisans ou bosquímanos. Os holandeses Mafulos afastaram os KoyKoy para longe de suas vivências estabelecendo-se nesta ponta rodeada de morros.

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Também aqui os Mafulos ou Holandeses foram enviados a propósito para conquistar terras de África. O M´Puto estava nesse então debaixo do mando dos Filipes de Espanha tendo Filipe I de Portugal e Algarves, sendo o segundo monarca de Espanha. D. Filipe II de Espanha expandiu seu domínio a Portugal, à Flórida e às Filipinas desleixando o que era de Portugal. Em verdade foi nesse então o primeiro líder mundial a estender os seus domínios sobre uma área directa "onde o sol jamais se punha", superando Gengis Cã.

alfa5.jpg Filipe I de Portugal até então, era o homem mais poderoso de todos os tempos. Os limites do seu império foram denominados em sua homenagem desde o extremo leste das Américas (Filipeia, hoje João Pessoa do Brasil) ao sudeste insular asiático: Filipinas; do Atlântico centro-ocidental ao Pacífico centro-ocidental passando por todas as longitudes do oceano Índico. Não foi com medo da malária, o porquê deste tão grande monarca nunca se preocupar com as antigas possessões do M´Puto mas, sim pela força do Papa que definiu a linha do Tratado de Tordesilhas.

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Bom! Voltando aos Mafulos, por aqui se estabeleceram vivendo da pesca mas e principalmente das muito boas madeiras que recolhiam nestas encostas. Os troncos eram arrastados até à beira mar e embarcados em naus no lugar protegido de Hout Bay. Com as guerras anglo bóhers e por via dos interesses nas explorações de ouro e diamantes, estes colonos foram sendo empurrados, sempre mais para norte. Foram assim forçados, que originou o desbravar de todo Karoo, uma parte do grande Calahári tendo como elemento aglutinador o rio Orange que nasce nas terras altas do Drakensberg.

alfa01.jpg Na encosta sul de Hout Bay, pode verificar-se o desarrumado caserio de gente que busca estas paragens para trabalhar. É aqui chamado de Imizamo Yethu, um conjunto de casas minúsculas e coloridas subindo a encosta do morro, num urbanismo em tudo idêntica às favelas do Rio de Janeiro; imagino pela pequenez, não terem o mínimo de condições de habitabilidade mas, que a necessidade obriga a ginasticar como um estágio de vida penoso.

alfa6.jpg São pessoas que sem qualquer formação, a tudo se sujeitam; gente vinda do Lesoto, Zâmbia ou o Malawi. O curioso é ser este um ponto de paragem turística com guia e, que por uma gasosa, explica aos turistas por forma a se inteirarem deste pormenor. Explicarem a vida tormentosa de quem sobrevive nela, como a visão duma evolutiva excentricidade e, a quem nem sonha poder viver em nove metros quadrados…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:25
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018
MALAMBAS . CCX

MOKANDA PARA KUVALE 

Refem do medo, penetra na vida um dia de cada vez - 05.09.2018

Crónica sempre actual – Inicialmente foi para o Kamundongo do Maculussu, o Cipaio Comando mas, hoje é para fecho de mala com ida para Tanzânia com Vissapa, o homem do Okavango…

Por

soba0.jpegT´Chingange

O Camundongo Comando do Maculussu tem uma lança no estandarte da Kizomba e, assim, foi seu baptismo na cubata-restaurante do marinheiro de Albandeira, mesmo sem lhe ver os cascos, os dentes, as unhas e as orelhas. Ficamos sem saber se as bitacaias o tratam por tu. Ele vive ainda no Ontem com o hoje cohabitando com os Mucubais; um sonho perene cheio de cacimbo pelas manhãs e aquela tremulina nas quenturas ondulando miragens das anharas, pasto de facocheros, mabecos e bandos de galinhas do mato arramhando seu disco partido – estou fraca, estou fraca, estou fraca! Kafundanga Neves é seu nome de branca alvura.

ÁFRICA11.jpg Refém do medo, penetra na vida um dia de cada vez, penosamente candongando chinguiços como num conto insuficiente; como se tratasse de uma vida que já só serve para ser contada, queima lenha para vender carvão na cidade; não é verdade mas, faz-de-conta! Eles que sempre pastaram gado, agora, as cercas de arame farpado levantadas pelos generais mwangolés, barram-lhe a passagem!

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A democracia perdeu-se no labirinto das manipulações e interesses, não diferindo em nada das piores regras do colonialismo ai iú éé! É pior!... A nomenclatura da Luua (Luanda) distribui entre si o espólio espalhando condomínios pelo mato, uma t´ximpaca com água e uns quantos animais mostrando sua durabilidade na debilidade. Assim na banga, o general XIS, baloiça seu chinchorro, rede dos Andes, fazendo bafunfa a seu 

ÁFRICA18.jpg Vai um whisky, vai um conhaque, vai um gim? Pode ouvir-se estas conversas dos curibotas cazucutas a gozar férias e gastar seu cumbú governamental… No meio de uma grande ilusão, possibilitou-se a vida numa sobrevivência corruptada na obtenção de dinheiro num qualquer preço, mesmo que tapando o acesso dos bois à água que sempre foi do povo. São os DDT – Os Donos Disto Tudo…

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Acabaram com as leis restritivas do tempo do xi-colono mwene M´Puto e, agora constroem cercas só à toa e, pois não há mais t´ximpaca nem mulola nem tanque para lavar o gado, nem os pesticidas com cheiro a medicamento defuntado. Está mal, patrão!? Num está! Eu não sou teu patrão; para quê me estás a queixar?! Nas antigas leis do colono gweta do M´Puto não era assim mesmo, repete o cipaio comando kamundongo Branco das Neves.

ama3.jpg Ainda andam de tanga, dizem estes promovidos generais saídos duma guerra de kwata-kwata entre irmãos! Claro que são pretos! Mas... Afinal patrão, quando acaba mesmo a independência? Pópilas, primeiro que nem sou teu patrão e segundamente eu não sou teu soba nem talqualmente nem nos entretantos. Angola é livre, tu és livre, já te falei. Pois! Levou a mão à cabeça e olhando-me no presente do indicativo falou: Isso é uma coisa muito perigosa! Verdade mesmo que não era assim, juro! Não digo mais nada; vou fazer mais o quê!?

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As Organizações e uma grande parte dos mwangolés, não entendem porquê aqueles pastores andam quase sem roupa – incivilizados, dizem; desconhecem que quando o sol cai de cima e o calor sai do chão, este, é o próprio modo de estar do pastor Kuvale. Tratar astutos guerreiros, altivos homens como se fossem indigentes pelo facto de aparecerem vestidos com um pano á frente e outro atrás, é desprezar outros valores. Xiií, o próprio irmão, escuro mesmo!

ÁFRICA14.jpg Kuvale!... Kuvale, governador de vastas áreas e muitos bois, controlador da aridez das terras que circundam o Bero, Geral, Kuroka e também o Iona aquém do Cunene. De mulola em mulola, de t´ximpaca em t´ximpaca, só estes sabem abeberar o gado, ajustando-se no tempo transumando na altura certa. Só eles sabem alimentar e manter acesa a fogueira naquelas noites frias, sangrar os bois na veia certa.

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Alterar isto com argumentações técnicas ou científicas, é promover a inviabilidade de sociedades antigas. Mudar tudo isto, é torná-los dependentes, proletarizá-los na miséria envoltos em arame farpado. Ali no Karacul, ideólogos, políticos e agentes humanitários de forma aberrante distribuem caridade em nome da civilização. Que é que os levará a advogar que esta gente é pobre e vagabunda nesta forma de estar!

ÁFRICA3.jpg Não é por usarem tanga que são pobres. Ter ar, sal, leite, água, é tudo do que necessitam. Dormir sobre uma pele de boi, habitar em casas de barro e bosta, usar sandálias de tiras de couro, ter um pau especialmente curvo para assentar com dignidade sua cabeça e alimentar-se de malulu (leite azedo), isto é ser Mucubal e assim vai ter de continuar. Os seus actos heróicos de adquirir gado, sempre foram designados como roubo; mesmo no tempo dos Tugas; mas estes faziam respeitar sua natureza própria e agreste. África é isto!

ÁFRICA13.jpg Glossário: Mokanda:- Carta; Kuvale/ Mucubal:- Zona sul de Angola, a norte do rio Cunene; Bero, Giraul, Kuroka:- Rios de Angola; Mulola:- cheia ocasional na linha de água; t´ximpaca: Cacimba de águas de chuva, poça ou charco; Chinguiço:- Pau seco e retorcido, problemas;

O Soba T´chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:53
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Terça-feira, 4 de Setembro de 2018
CAZUMBI . LII

TEMPOS CINZENTOSSER-SE ANGOLANO04.09.2018

 - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios

Por

soba0.jpegT´Chingange

O Alvará de 19 de Setembro do ano de 1761 providenciado pelo Marquês de Pombal dá fim à entrada de escravos em Portugal. Neste ano e apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000 escravos. Há muito branquela no M´Puto que tem ADN negro sem o saberem; daqui derivaram os nomes de Carapinha ou Negro; conheço alguns.

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O motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo que se arrastaria por centenas de anos. A utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho.

mulata1.jpg Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, coisa que só findou com o tal decreto Pombalino de Setembro. Não conseguindo estabelecer maiores pontos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa que subsistam e, que possam ser detectados na nossa etnografia, fica aqui o contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa cultura.

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Embora os princípios da eugenia tenham sido elaborados por um cientista inglês, foi nos Estados Unidos e na Alemanha, a partir do início do século XX, que começaram a ser colocados em prática. Sob a designação de “eugenia positiva”, adoptaram-se medidas de incentivo financeiro a casamentos mistos, considerados favoráveis à tese; para isso implantavam-se programas educacionais numa via de reprodução planeada.

to3.jpg Até eram realizados concursos para a descoberta de famílias e indivíduos talentosos oriundos desta miscigenação. Tenha-se em conta que esta prática de incitamento já era bem conhecida pelos portugueses pois que as autoridades tinham no intuito, a fixação do colono à terra; assim sucedeu no Brasil e em Angola mas, este facto não proporcionou aos Tugas o serem considerados modelo nesta nova e independente sociedade. Antes pelo contrário, o que se verificou foi o não reconhecimento deste tão natural umbigamento pelas novas Nações e o Mundo.

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Por outro lado, faziam parte da “eugenia negativa” acções de esterilização, eutanásia, segregação e de restrição à imigração. A primeira lei de esterilização americana foi aprovada em 1907, no estado de Indiana. Se houve um povo que sempre cultivou a “eugenia positiva”, esses foram sem dúvidas os portugueses espadas-machos, que lá aonde quer que fosse se umbigavam com qualquer buraco de prolifera fêmea. Parece grosseiro dizer isto deste jeito mas é a pura verdade!

angola4.jpg Os defensores da eugenia encontraram suporte nas teorias raciais de meados do século XIX: para o racismo científico, os brancos europeus representavam a superioridade biológica, negros e amarelos eram considerados inferiores e a miscigenação era criticada por causar supostos danos irreversíveis na descendência. O movimento eugénico rapidamente se transformou em campanha nacionalista agressiva contra negros e imigrantes.

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Em parte os grandes culpados são os génios generais negros que com sapiência de cabos tomaram o mando em suas mãos impulsados pelo ódio, a vingança, a torpitude da incompetência. Falo claramente do estado Angolano aonde a maior preocupação foi extorquir o património dos brancos, seu lugar de trabalho, sua fábrica, seu carro, sua casa, seu estatus! São ondas de intolerância conforme as necessidades; uma prática indesculpável ou de deixa para lá! Uma conveniente conivência dos novos políticos.

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Após o término da Segunda Guerra Mundial, a eugenia foi desacreditada como ciência e condenada como postura política. Entretanto, a última lei de esterilização americana foi revogada apenas na década de 70. É necessário manter-se alerta a novas tentativas de oferecer soluções ideológicas a problemas cujas causas são económicas, sociais e, ou incompetência.

angolar5.jpgReconhecendo isto desta forma e, em relação aos estudos urbanos tomando por exemplo Lisboa ou Luanda, há que reflectir sobre o espaço e a interacção entre grupos por modo a que esta relação não se reduza a uma questão de “competição” ou “selecção biológica”. Os termos em que hoje falamos em origem, ainda são aqueles definidos pelo colonialismo.

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João Leal, um conceituado antropólogo português, escreveu um livro sobre a preocupação da sua disciplina, durante o Estado Novo, com os estudos sobre etnogénese. Para aqueles que nunca se darão ao trabalho de viver como os angolanos vivem, Angola é ainda um território mítico nesta visão: a terra trazida à civilização pelo esforço e engenho dos portugueses não tem sido enaltecida por esta via e, deveria ser! Ao invés disto restringem o direito à nacionalidade por questões de puro egoísmo.

ango1.jpg Eles, os mwangolés, querem castas genuínas e nesta leva o branco sempre vai ser preterido. A áfrica tem esta embirrante tendência de só considerar genuínos os negros. Está mal! Assim nunca irão longe… tenho dito! Não estou a dizer que este seja o caso de quem quer que seja. O que me parece interessante é identificar a existência de tal discurso pelas altas esferas da nova Nação que é Angola. E quando por vezes se diz que se é angolano, o que se está simplesmente a fazer é habitar o espaço em que é possível tal discurso tomado sobre a origem dos avós e tetravós mas sem seus direitos cívicos…

ANGOLA10.jpg Há que ter um papel na vida, tentando a todo o custo interpretar o lado positivo mas, os laivos de maldade dos novos governantes decapitam, que nem a esquerda comunista estalinista e maoista no seu lado mais negro, traz consigo! Uma carga negativa do passado cultural colonial, arredondada na perfeição dos silêncios ou na pura omissão. Com fúteis caprichos de poder, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros. Sim! O futuro de um mundo surreal tentando compreender melhor a essência dos seus divinos filhos. Uns são filhos da mãe e outros filhos da Puta...Falei!

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:34
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018
MU UKULU – II

MU UKULU ... Luanda do Antigamente - 03.09.2018

Neste e próximos episódios vamos dar uma volta pela Luua reavivando memórias do baú do kota Luís Martins Soares com adendas também elas minuciosas de T´Chingange…

De

luis49.jpgLuís Martins Soares No Brasil

soba15.jpgAs escolhas de  T´ChingangeNo M´Puto

Foi com grande satisfação que recebi uma mokanda no ano de 2017 do meu amigo kota, mais-velho da Luua residente no Brasil dizendo ter escolhido o título por mim indicado para seu livro de “Mu Ukulu”. No dia dois de Agosto de 2018, autografou seu livro que me foi remetido recentemente por correio pela amiga comum Assunção Roxo. A pintora mais fosforescente da EIL por nós reconhecida mestra em pintura digital e, que teve o privilégio de o contactar lá na terra grande da "ORDEM E PROGRESSO" no lugar de Sampas do Rio de Janeiro – Brasil.

diogo1.jpg Os relatos verídicos de Luís Martins Soares são uma contribuição para todos aqueles que se interessam por saber como em outros tempos era o dia-a-dia naquela cidade de Luanda entre seus habitantes camundongos, muxiluandas ou mwadiés do M´Puto, que com o tempo, passaram a considerar aquela terra como sua. Algo valioso para nos preencher o vazio que a saudade alimenta e, também para todos aqueles que contribuíram de alguma forma para a valorizar. E, assim mesmo, completando ou não um sonho acalentado pela maioria mas e, na qual a estória para alguns, ficou sem o agá!    

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Angola foi uma Nação que como tal já nasceu feita, burilada na labuta por alguém. Este e alguém, fomos todos nós, angolanos do coração. Dizeres que só o tempo reconhecerá como sendo verdadeiros e, porque neste nosso curso de enfrentar os conhecimentos com verdade, todos os dias serão uma prova à adaptabilidade humana com o manuseio de instituições e gentes que nos governam ou governaram. Sempre foi assim e assim continuará a ser!

diogo3.jpg No nascimento de Angola, teremos forçosamente de modificar nosso caracter de existência para aprender esta permanente transitoriedade pois que sempre seremos um fruto de mudança. A aceleração do conhecimento é uma das mais importantes e talvez a menos compreendida de todas as formas sociais e, que naturalmente abala as nossas instituições e a nós mesmos. O ritmo crescente de mudança perturba o nosso equilíbrio interior e, até modifica a própria maneira de como experimentar a vida acelerando a integridade de cada qual. Mas diga-se em abono da verdade, é difícil ficar-se indiferente…

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Esta aceleração de mudança que foi longa e lenta, teve quinhentos anos de complicada vivência mudando muito a estrutura de nossas vidas, na vida de nossos ancestrais, diversificando-nos nas formas que temos de representar e o número de papéis com uma inerente opção de obrigatoriedade. Assim, a breve resenha de cariz colonial de Luís, tem início a 3 de Maio de 1560 com a chegada à baia de M´Bungu de Paulo Dias de Novais sua primeira viagem, tendo sido preso por alguns anos no reino de N´Dongo. Em uma segunda ida, a 11 de Fevereiro de 1575, Paulo Dias de Novais, já encontrou 40 portugueses estabelecidos e com sete embarcações fundeadas na baia da Luua.

diogo5.jpg Aquelas naus eram destinadas ao transporte de escravos, uma prática social e comercial corrente entre tribos negras daquela parte do mundo, reinos de N´Dongo e N´Gola; a necessidade passou a partir daqui a ser gerida com coisa pouca - como um negócio de búzios, zimbros, caurins e libongos como mão barata para os novos empreendimentos agrícolas nas américas – o chamado Novo Mundo em terras de Brasis.

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Era a nova era do Ouro Branco, do açúcar a ser extraído da cana a que se lhes seguiu a cultura e manufactura do cacau, do café, do garimpo, afazeres menores a troco de comida de sarapatel, muitas chicotadas e nenhures da vida. Numa labuta diplomática de encantamento o rei N´Jinga N´Gola também conhecido por Kilwange Kazenda, envia uma amistosa embaixada a Paulo Dias a 2 de Junho de 1575 – era em verdade uma forma de iniciação comercial com os Mwene-Putos, donos da sabedoria e portadores do pau-trovão que cuspia fogo.

adam2.jpg Foi neste então que ali montaram bivaque fundando a vila de São Paulo de Loanda; isto a 25 de Janeiro de 1576. Aquela vila teve início na forma de fortificação no morro de São Miguel composta por trincheiras de pipas cheias de areia e, por forma a guarnecer o lugar de acostagem ou precário porto, local aonde se situavam as naus – baia de Loanda e à distância protectora de peças de canhão situadas no bivaque-trincheira; com a água batendo no sopé do Morro as naus estariam à distância de um grito de marinheiro e tiro de arcabuz.

diogo6.jpg A 24 de Agosto do ano de 1641 aparece ao largo da larga embocadura da baia entre a ilha da mazenga ou das cabras e as falésias do M´Bungu, lugar designado mais tarde por Barra de São Pedro, uma poderosa armada composta de vinte e uma naus e dois mil homens de tropa flibusteiros, arqueiros cobertos de metais e portando arcabuzes de cuspir fogo, cavalgaduras e peças de troar ventos para além da guarnição. Entra-se num outro capitulo - o tempo dos Mafulos ou Holandeses enviados a propósito para conquistar terras de N´Gola. O M´Puto estava agora debaixo do mando dos Filipes de Espanha – Filipe I era o novo monarca da terra Metrópole…

(Continua…)

O Soba T´Chingange      



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:02
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018
CAZUMBI . L

RAÍZES – 3 de 3 Partes… 30.08.2018

Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …

kimbo 0.jpg As escolhas de Kizomba

Por: canhot1.jpgAntónio José Canhoto

Poucos terão a oportunidade de ouvir os aplausos da vitória, sentir os odores caros das fragâncias de um bom perfume os cheiros de um belo cozinhado gourmet ou sentarem o cu e conduzir um Ferrari, Porsche ou Lamborghini. A maioria dos prazeres da vida está apenas reservados aos eleitos ou às castas superiores elitistas que se alternam no poder das nações, comunidades ou empresas quem lideram pelo poder social ou financeiro.

mandrak5.jpg Só aqueles lacaios que vivem na sombra dos poderosos lambendo as botas e curvando a espinha beneficiam das suas indulgências usufruem de alguns privilégios que os diferenciam do “formigueiro” humano. A grande maioria das pessoas nascem para obedecer, cumprir regras e directrizes, não para as fazer, por isso são abusadas, violentadas, denegridas, esquecidas e marginalizadas na sua dignidade por este grande e monstruoso picador de carne que as vai moendo destruindo sentimentos, sonhos e anos de vida sem contemplações.

CAPITALISTA.jpg Por outro lado, temos que admitir que estes cidadãos homúnculos, obedientes, resignados, amorfos nada ousados ou imaginativos e pouco ambiciosos para correrem riscos, gostam de se sentir no lado seguro da vida, nos seus minúsculos mundos e casulos que lhes permitem aparentes zonas de conforto recusando-se a aceitar desafios ou aproveitar oportunidades para fazerem o mundo girar, saltar ou progredir.

EIL2.jpg As pessoas de sucesso e com poder são as únicas que não precisam de escrever a sua própria história, pois esta fará lembrar aos vindouros a notoriedade dos seus antepassados que se notabilizaram por diferentes razões. Estas pessoas têm motoristas que lhes guiam os seus carros, nunca estão perdidos no seu percurso ou perguntam a terceiros que lhes indiquem qual a estrada que devem tomar para chegarem ao seu destino.

cornos1.jpg Pessoas de sucesso assumem o comando das operações e para elas não se aplica o Princípio de Peter que se define quando alguém atinge o princípio da sua incompetência. Existe claramente um abismo entre vencidos e vencedores, entre leaders e seguidores, escravos e senhores que jamais será eliminado ou alterará a hierarquia mundial desta pirâmide sociológica em que o mundo se encontra escalonado e alicerçado.

FIM

António José Canhoto - 23-8-2018



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:17
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MU UKULU - I

MOKANDA  DE LUÍS - 26.08.2018

De

luis000.jpgLuís Martins Soares para A. Monteiro - (T´Chingange)

 - Da LUUA - Mu Ukulu: - outrora, noutro tempo... Luanda do Antigamente

:::Luis1

António: Não estou lembrado em que ano o meu amigo lendo as minhas cronicas, a exemplo de outros, incentivou-me a publicá-las. Consegui resgatá-las dos Grupos de relacionamento, e em um processo que se arrasta há dois anos, consegui com o patrocínio do meu filho Luís Cláudio uma editora brasileira que interessou-se em editar o livro em Portugal e no Brasil.

:::Luis2

O António, não sei se está lembrado, incentivou-me a dar o titulo de " MU UKULU" ao livro. O livro que vai ser editado terá o título de "Mu ukulu, Luanda do Antigamente". Obrigado pela sugestão António Monteiro. Depois poste no meu e-mail

:::Luis3

luis.m.soares@bol.com.br  - o seu endereço que terei imenso prazer em ofertá-lo.

Abraços.

luis00.jpgAntónio Monteiro - O T´Chingange...

Foi com grande satisfação que recebi esta mokanda de 2017 do meu amigo kota, mais-velho da Luua residente no Brasil. No dia dois de Agosto de 2018, autografou seu livro que me foi enviado recentemente. Foi a amiga comum Assunção Roxo que mo trouxe porque teve o privilégio de contactá-lo pessoalmente lá na terra grande da "ORDEM E PROGRESSO" - É o que vem escrito na bandeira do BRASIL... Terra irmã que nos acolheu de bom grado.

Mu Ukulu04.jpgMu Ukulu0.jpg Roxo com Luís e Livro

Recordo-me deste evento recorrendo ao meu baú de lata muito coberto de ferrugem. Lembro-me perfeitamente de solicitar-lhe a publicação de Luanda antiga na página de Memorias da Maianga. Entre o Kimbo blogue e Memórias da Maianga encontrei referências entre as muitas mokandas!

baú1.jpgBaú da Luua

Luís Martins Soares falava dos Caminhos-de-ferro, da Cidade Alta e Hospital Maria Pia e costumes da Luua nas "Memorias da Maianga", uma página social a que estamos ligados de forma umbilical e, tendo como administrador-mor o Edgar Neves um bastonário do Rio Seco e Malhoas.

mai5.jpg Agora e, em posse do livro MU UKULU Irei dar início aos relatos nele contados que são de maior valia. Serão adendas em retalho e misturadas sem adulterar o tema do texto, seu princípio e sua ética. Assim, será numa forma sintética, com inclusão de pormenores adicionais já contados por mim e outros em  KIMBO LAGOA, Kimbolagoa Blogue, KIZOMBA e outras páginas Sociais tais como KIMBO online ou FEKA YETU,  amigos da E.I.L. Memórias da Maianga e, Roxomania entre tantas coisas por contar.

MAGA10.jpg Avivado agora pelos escritos de Luís Martins Soares, novos afloramentos surgirão no tempo das memórias. Luís, dedica o MU UKULU a todos os angolanos e Tugas com alma de angolanos que por lá labutaram e, com esforços e sacrifícios, irmanados no mesmo amor pela terra, mesmo ideal, tentaram fazer daquela N´Gola, um lugar de excelência.

maximbombo.jpegMaximbombo nº 3 da maianga

Um lugar aonde todos sem distinção de credos e raças pudessem conviver harmoniosamente para o nascimento e engrandecimento de uma Nova Nação, sonho de todos nós. Sendo assim, Luís Soares nosso KOTA MWATA deu início com um poema de Neves e Sousa dando a definição de Angolano. Um belo começo, diga-se!

maianga do araujo.jpg A Maianga com Costa Araújo

SER ANGOLANO

Ser angolano é meu fado e meu castigo

Branco eu sou e pois já não consigo

Mudar jamais de cor e condição

Mas, será que tem cor o coração?

:::

Ser africano não é questão de cor

É sentimento, vocação, talvez amor.

Não é questão, nem mesmo de bandeiras,

De mínguas, de costumes ou maneiras...

:::

A questão é de dentro, é sentimento

E nas parecenças doutras terras,

Longe das disputas e das guerras

Encontro na distância esquecimento.

Mu Ukulu05.jpgDe Neves e Sousa no ano de 1979

Um abraço ao mano Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:34
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018
CAZUMBI . XLIX

RAÍZES – 2 de 3 Partes… 28.08.2018

Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …

kimbo 0.jpgAs escolhas de Kizomba

Porcanhot3.jpg António José Canhoto

EDU63.jpg Peneiras que avaliarão o potencial e calibre intelectual dos candidatos para um eventual debate. Os meus olhos já viram o melhor e o pior mundo bem como o nascer e pôr-do-sol em todos os continentes e dos sistemas políticos e religiosos que neles vigoram e os diferenciam pelos deuses que adoram. Preenchi a minha mente com todas as verdades que precisava para adquirir o conhecimento que hoje me permite deixar de ter interrogações sobre a vida e morte.

sol4.jpeg E, por esse facto encontrei o equilíbrio, paz e tranquilidade necessárias para deixar de me atormentar ou preocupar com questionamentos metafísicos ou espirituais. Por vezes sinto o desejo de saltar para a garupa do meu ginete alado e viajar para os espaços infinitos da minha África que continua a ser o elemento catalisador, inspirador e o elixir revigorante da essência do meu viver.

:::

Infelizmente o tempo não volta para trás e as Áfricas aonde vivi, sofreram grandes transformações infelizmente algumas para pior. Hoje a viver nesta superlotada Europa onde o espaço é cada vez menor e o oxigénio que respiramos é cada vez mais conspurcado pelos milhões de emigrantes que aqui procuraram vida, sinto a falta de percorrer na minha África centenas de quilómetros por picadas poeirentas sem ver ninguém a não serem os ocasionais animais selvagens.

sol3.jpeg Alguns deles também existem na Europa, mas de duas patas cometendo diariamente actos de terror em nome do seu deus e religião. A grande maioria dos refugiados que diariamente chegam á Europa fogem de África por diversas razões, procurando aqui um lugar ao sol o que raramente acontece e consequentemente nunca conseguem sair da sombra e da pobreza.

:::

O aumento de refugiados no continente europeu reduz o espaço e o oxigénio que os autóctones necessitam para viverem sem que os governos nos imponham a obrigatoriedade de nos miscigenarmos com estes refugiados alienígenas com os quais nada, temos em comum.

nauk13.jpg A população dos 28 países da Comunidade Europeia soma 741.4 milhões de pessoas e mais de 80% compreendem a massa trabalhadora que há muito deixaram de ser gente para passarem a “números”. Números pares ou ímpares nos computadores governamentais ou das empresas que os desnudam, escravizam, espremem que nem limões ou laranjas para fazer sumo do seu suor. Muito poucos serão aqueles que alguma vez terão a oportunidade de serem reconhecidos pelos superiores hierárquicos informalmente pelo seu nome e não pelo apelido.

(Continua…)

António José Canhoto - 23-8-2018



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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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