Quinta-feira, 18 de Julho de 2024
VIAGENS .186

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA*OPERAÇÃO PROTEA - 1ª  E 2ª BATALHA DE MAVINGA

- Crónica 3597 – 19.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

cuito9.jpg Em 1984, assina-se o 1º acordo Luanda/ Pretória para a retirada das tropas cubanas e constituir-se uma comissão especial, militar/mista, de verificação das operações de recuo, no entanto, por várias vezes, os sul-africanos regressam a Angola em apoio da UNITA, utilizando o “Batalhão Búbalo”.

O “Batalhão Búbalo” era composto essencialmente pelas topas da “Revolta do Leste”, de Daniel Chipenda além de voluntários de várias nacionalidades, entre os quais alguns portugueses. Foram necessários mais quatro anos com repetidas pressões internacionais, para se chegar à primeira reunião tripartida de Londres, na qual pertenciam Angola, Estados Unidos da América, Cuba e África do Sul.

cuito8.jpg Seguem-se novos encontros, em Brazaville, Nova Iorque e, finalmente, a assinatura firmada em Washington. Estes acordos, garantidos pelos Norte-Americanos e Soviéticos, tornaram possível a independência da Namíbia com a sequente retirada de 55.000 cubanos estacionados em Angola, no prazo de 27 meses.

Pretória anuncia a retirada total dos sul-africanos de Angola, mas e, em contrapartida, os Estados Unidos da América, levantam o embargo de nome “Emenda Clark” passando a apoiar a UNITA – Estava-se em Julho de 1985… Seguindo uma série de tentativas frustradas de dominar a região em 1986, oito brigadas da FAPLA realizaram uma ofensiva, conhecida como "Operação Saludando Octubre" em Julho e Agosto de 1987.

cuito7.jpg Esta «Operação Saludando Octubre», que envolveu a 16.ª, 21.ª, 47.ª, e 59.ª, Brigadas das FAPLA tinha como objectivo a captura dos «SANTUÁRIOS DA UNITA» no Sudeste de Angola. Após um período de acumulação de material e grandes concentrações de infantaria, as forças armadas angolanas, as FAPLA, desencadearam essa ofensiva.

E, foi-o com toda a força, contra os centros vitais da UNITA em Mavinga e Jamba. A logística da operação  partia das vilas de Luena e do Cuito, contando com o apoio de artilharia pesada, de caças e bombardeiros soviéticos MIG-23 e SU-22, tanques T-62 e helicópteros de ataque ao solo MI-24/25.

cuito6.jpg Em verdade, as forças governamentais, foram com tudo, contando com apoio de unidades motorizadas cubanas. A ofensiva das FAPLA colocou a UNITA numa posição insustentável; as bolsas de resistência criadas pela UNITA sob pressão contínua dos governamentais, tinham séries dificuldades em articular-se na perfeição.

Perante a eventual derrocada das forças de Jonas Savimbi e a pedido deste, os sul-africanos, a partir das suas bases instaladas em território angolano e na Namíbia, desencadeiam as operações «Moduler8» e «Hooper», com o objectivo de parar a ofensiva angolana, lançando as suas melhores tropas e material militar de última geração, nomeadamente caças Mirage F1 AZ e aviões de ataque Impala, Lançadores Múltiplos de Foguetes (Multiple Rocket Launcher, MRL) e obuses G59…

cuito5.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange, da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto e  RTP - Notícias e Wikipédia…

(Continua…)

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:56
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Terça-feira, 16 de Julho de 2024
VIAGENS .185

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* -  OPERAÇÃO PROTEA - 1ª  E  2ª BATALHA DE MAVINGA

- Crónica 3596 – 16.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

cuito1.jpg Depois da descrição sucinta dos Congressos Ordinários e Extraordinários da UNITA, voltamos a  rever aleatoriamente no tempo, outros eventos de destaque: No ano de 1980 a UNITA fixa-se na JAMBA do Cuando-Cubango. Em Novembro, os antagonistas, UNITA, MPLA, Cubanos e África do Sul  envolvem-se na 1ª batalha de Mavinga que resultou em mais de 800 mortes.

O apoio sul-africano à UNITA viria a tornar-se mais efectivo com a invasão da província do Cunene a 23 de Agosto de 1981 na «Operação Protea», e a subsequente ocupação de uma faixa tampão na fronteira sul de Angola numa profundidade de 200 quilómetros, com o duplo objectivo de neutralizar as operações de guerrilha da Organização do Povo do Sudoeste Africano (South West Africa People’s Organization, SWAPO).

cuito2.jpg O território da Namíbia, então ocupado por protectorado pelo África do Sul, teria de, por outro lado, estabelecer um ponto de partida para novas operações no interior de Angola. O propósito imediato era a consolidação do domínio da UNITA nas províncias do Cunene e do Cuando-Cubango, na perspectiva da criação de um “bantustão” no sudeste angolano..

É nesta altura que o presidente José Eduardo dos Santos pede ao Secretário-Geral da ONU, Pérez de Cuéllar, a convocação do Conselho de Segurança da Nações Unidas – ONU, para discutir a agressão Sul-Africana. Mas a resolução da condenação foi vetada pelos Estados Unidos, de acordo com a estratégia delineada por Washington e pela África do Sul para aniquilar as FAPLA e o MPLA (o comunismo…).

cuito3.jpg A situação em todo o sul de Angola agrava-se com o aumento das hostilidades. A UNITA reforça-se militarmente em armamento e conselheiros militares e, com o apoio das administrações Reagan (EUA), Thatcher (Grâ-Bretanha) e a ajuda do seu aliado Sul-Africano que desencadeia operações militares contra as bases da SWAPO, do Congresso Nacional Africano (African National Congress, ANC).

Também contra posições das FAPLA, para além de acções de sabotagem às linhas dos Caminhos de Ferro da Benguela (CFB), com destruição de infra-estruturas políticas e económicas e minagem de linhas de abastecimento, entre as populações, aldeias, vilas e cidades do Sul de Angola.

cuito4.jpg O ano da “Operação Protea” leva ao controlo militar da UNITA com a ajuda Sul-Africana, na Província do Cunene. Estavam ali sediados 8.000 guerrilheiros da UNITA. Porem, até à chegada das forças angolanos, Mavinga recebe um reforço de 4.000 tropas da SADF (South African Defence Force), vindo a confrontar uma força de 18.000 soldados angolanos.

Na visão das FAPLA, Mavinga seria o primeiro passo no caminho para a Jamba - Cueio e, assim, penetrar na Área  de Kaprivi. Ao tentar travar o seu avanço, os governamentais são surpreendidos por nova frente dando-se a 2ª Batalha de Mavinga, que provoca mais de 1.200 mortos. A UNITA sai vitoriosa e ocupa a cidade. O ataque a Mavinga foi uma derrota total para as forças angolanas, com baixas estimadas em 4.000 mortos. A manobra de contra-ataque das SADF, nomeada “Operação Modular” foi um êxito, forçando as tropas das FAPLA e das FAR a retroceder 200 quilómetros de volta a Cuito-Cuanavale numa perseguição constante através da Operação Hooper.

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Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange, da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto e  RTP - Notícias

(Continua…)

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:54
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Sábado, 13 de Julho de 2024
VIAGENS .184

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* -  XIII  CONGRESSOS DA UNITA

- Crónica 3595 – 13.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

144.jpg

  1. XIII CONGRESSO

Este Congresso Ordinário teve lugar em Viana, Luanda de 13 à 15 de Novembro de 2019 com cinco candidatos: José Pedro Kachiungo, Raúl Manuel Danda, Adalberto Costa Júnior, Abílio Kamalata Numa e Alcides Sakala, tendo sido eleito Adalberto Costa Júnior à Presidente da UNITA.

Através da agencia  Lusa a 07 de Outubro de 2021 fica a saber-se que o Tribunal Constitucional (TC) angolano anulou o XIII Congresso da UNITA, em que foi eleito Adalberto da Costa Júnior, invocando a violação constitucional, devendo o partido manter a anterior liderança de Isaías Samakuva.

unita002.jpg O acórdão do TC, que foi publicado muam quinta-feira, dia 07 de Outubro na sua página oficial, dá razão a um grupo de militantes da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que requereu a nulidade do congresso invocando várias irregularidades. Entre as alegadas irregularidades consta a dupla nacionalidade de Adalberto da Costa Júnior à data de apresentação da sua candidatura às eleições do XIII Congresso.

O acórdão é assinado por sete juízes conselheiros que não foi unânime, tendo votado vencida a juíza Josefa Neto. A juíza destaca na sua declaração de voto que o apuramento da candidatura de Adalberto da Costa Júnior, por parte do comité permanente da UNITA, "além de não materializar qualquer violação ao princípio da legalidade, encontra acolhimento pleno à luz do princípio da autonomia, corolário da liberdade de organização e funcionamento das formações políticas".

adalberto junior unita.jpg A juíza considerou ainda que a decisão sobre esta matéria configura "não apenas violação ao referido princípio de autonomia, mas também ao princípio de intervenção mínima do Tribunal Constitucional, igualmente necessário para salvaguardar a autonomia dos partidos políticos".

Mesmo antes da confirmação do TC sobre a anulação do XIII Congresso da UNITA, Adalberto Costa Júnior afirmou-se "absolutamente tranquilo", lamentando "interferências nos órgãos judiciais” questionando o "estranho silêncio" das autoridades, com a inerente morosidade. “Nós, estamos a aguardar que haja a publicação do eventual acórdão para depois podermos pronunciar-nos", afirmou Adalberto Costa Júnior, quando questionado pela agência de notícias Lusa.

unita04.jpeg O líder da União Nacional para a Independência Total de Angola considerou estar-se perante uma "circunstância muito séria em relação à credibilidade das instituições", bem como em relação à "função para a qual estas instituições existem". A UNITA, anuncia assim que o seu XIII Congresso, em que será escolhido um novo líder para o partido, será realizado até 04 de dezembro de 2021.

Adalberto Costa Júnior que foi eleito o terceiro presidente do partido, em 15 de Novembro de 2019, conquistou mais de 50% dos votos num universo de 960 eleitores e vencendo quatro candidatos: Alcides Sakala, Raul Danda (falecido este ano), Kamalata Numa e José Pedro Catchiungo. A marcação de um novo congresso que surge na sequência da anulação daquele XIII Congresso, de novo, é eleito Adalberto da Costa Júnior, entre 09 e 11 de Dezembro de 2021

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Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange, da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto, Isaías Dembo e, RTP - Notícias

(Continua…)

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:54
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Quinta-feira, 11 de Julho de 2024
VIAGENS .183

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* - DO VII ao XII CONGRESSOS DA UNITA

- Crónica 3594 – 11.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

roxo10.jpg

9. VII CONGRESSO

“O Congresso da Mudança” ocorreu em Março de 1991 na base Presidente Kwame Nkrumah, no extremo oriental da Província do Cuando Cubango. O VII Congresso  preparou o Partido para a batalha política que se vislumbrava com o desfecho das negociações que decorriam em Portugal. Por delegação Fernando Rocha de Olhão representou-me na qualidade de Coordenador da Zona Sul do M´Puto na Diáspora, (eu próprio – T´Chingange)…

Os delegados escolheram unanimemente o Dr. Savimbi como Candidato da UNITA às eleições presidenciais que viriam acontecer em Setembro de 1992

10.VIII CONGRESSO

Teve lugar no Bailundo, Província do Huambo de 7 à 11 de Fevereiro de 1996. A busca de unidade entre os membros do Partido com vista a implementação do Protocolo de Lusaka foi o maior objectivo.

O aquartelamento, desarmamento e desmobilização das forças e a entrega do território administrado pela UNITA à administração central do Estado, foram as decisões tomadas durante o evento, contemplando ainda a incorporação dos generais nas FAA.

mavinga1.jpg

  1. III CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO

Ocorreu entre os dias 20 à 27 de Agosto de 1996, no município do Bailundo – Província do Huambo. Versou fundamentalmente sobre a recusa da oferta da segunda vice-presidência ao Dr. Jonas Malheiro Savimbi que reafirmou o engajamento da UNITA na implementação do Protocolo de Lusaka.

  1. IX CONGRESSO

Este Congresso Ordinário, teve lugar em Viana, Luanda, de 24 a 27 de Junho de 2003 e, depois do memorando do Luena e, que teve dois momentos marcante:

  1. Primeiro Congresso sem Dr. Savimbi, líder fundador;
  2. Congresso com múltiplas candidaturas: Isaías Samakuva, Lukamba Gato e Dinho Chingunji. Isaías Samakuva foi o eleito a Presidente da UNITA.

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    13. X CONGESSO

Este Congresso Ordinário, teve lugar em Viana, Luanda de 16 à 19 de Julho de 2007 tendo dois candidatos: Isaías Samakuva e Abel Chivukuvuku. Desta feita Isaías Samakuva é reeleito à Presidência da UNITA.  Este Congresso debateu vários aspectos com maior realce na realização das segundas eleições em Angola, 16 anos depois das eleições de 1992, sendo estas, as primeiras eleições gerais.

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  1. XI CONGRESSO

Este Congresso Ordinário teve lugar em Viana, Luanda de 13 à 16 de Dezembro de 2011 com dois Candidatos; Isaías Samakuva e José Pedro Kachiungo, tendo sido reeleito Isaías Samakuva para o seu terceiro mandato.

  1. XII CONGRESSO

Este Congresso Ordinário, teve lugar em Viana, Luanda de 3 à 5 de Dezembro de 2015com três candidatos: Isaías Samakuva, Lukamba e Abílio Kamalata Numa, tendo sido reeleito Isaías Samakuva para o seu quarto mandato.

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Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

 (Continua…)

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:21
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Terça-feira, 9 de Julho de 2024
VIAGENS .182

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* . V e VI CONGRESSOS DA UNITA

- Crónica 3593 – 09.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

araujo67.jpg

5. V CONGRESSO

Ocorreu entre 26 à 31 Julho de 1982, em Mavinga - Província do Cuando Cubango sob a cobertura radiofónica da então Voz da Resistência do Galo Negro (VORGAN). Procedendo-se ao balanço da implementação das decisões saídas do IV Congresso. Também se fez a revisão dos Estatutos, adaptando-os as circunstâncias de então. A implementação das resoluções saídas do IV Congresso que projectaram a UNITA para a posição chave na solução do conflito na África Austral.

  1. I CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO

Teve lugar na Jamba, então bastião da Resistência Angolana ao expansionismo Soviético – Cubano na Província do Cuando Cubango, de 1 a 9 de Novembro de 1984. Fez o balanço das vitórias alcançadas sobre as ofensivas militares lançadas pela coligação de forças do MPLA, russas e cubanas contra as áreas administradas pela UNITA.

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7. VI CONGRESSO

Denominado o maior Congresso de todos os tempos, o VI Congresso teve lugar em finais de 1986, na Jamba – Cuando Cubango, sob o signo de “Ofensiva para a Paz”. A força interna e externa foi analisada. Foi inspirada a plataforma da Paz e Reconciliação Nacional em Angola que, entre vários pontos, contemplou a negociação directa entre a UNITA  e o Governo Angolano.

  1. II CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO

Teve lugar na Jamba – Cuando Cubango de 26 à 28 de Setembro de 1989. As formas de alcançar a paz constituíam o tema central do II Congresso Extraordinário. Um plano de paz de cinco pontos foi adoptado na ocasião:

  • Cessar fogo;
  • Formação de um governo de transição;
  • Formação de um governo de unidade e reconciliação nacional;
  • Revisão constitucional;
  • Eleições livres e justas.

À margem dos congressos abre-se aqui um parêntesis para sintetizar o que decorre neste meio tempo até se chegar a Bicesse. Depois de uma visita de Savimbi a Ronald Reagan nos EUA, a UNITA estabelece-se no Norte, na base de Quimbele, Distrito do Uíge. Em Janeiro de  1989, os cubanos iniciam a sua retirada de Angola. O Cardeal Alexander do Nascimento, difunde a mensagem “Reconciliação  Paz”, a qual salienta que o “sentir mais comum e profundo do povo angolano  é o anseio de reconciliação e paz”  

Araujo002.jpg A 22 de Junho do ano de 1989, Eduardo dos Santos e Savimbi encontram-se  Gbadolite no Zaire, sob mediação de Mobutu. No plano negocial apresentado por Luanda, o “caso especial Dr. Savimbi” é o ponto 5 da agenda que exige a retirada temporária do líder da UNITA da cena política angolana. Inicialmente, Jonas Savimbi concorda em se afastar. Chega a estabelecer-se um cessar fogo, mas a euforia nas frentes de batalha de um e outro lado, foi breve.

As armas voltaram a crepitar, quando Savimbi dá o dito por não dito, anunciando que não se retirará de Angola. O MPLA numa operação designada de “Ultimo Assalto”, reocupa Mavinga utilizando um grande número de homens e tanques ( 20 mil militares e 400 tanques). O objectivo, não conseguido pelos governamentais de Luanda, era atingir a Jamba. A UNITA contra ataca desencadeando focos de luta por quase todo o país, obrigando as FAPLA a dispersarem abandonando Mavinga.

araujo49.jpg Poucos dias depois e, pela primeira vez  na história da guerra civil, aviões da FAPA – Força Aérea Popular de Angola, bombardeiam a Jamba. Em retaliação a UNITA corta a água e a luz a Luanda, via sabotagens por destruição de potes de alta tensão de Cambambe  e conduta de água central de Kifangondo. Nesta fase, ambos s beligerantes compreendem que a vitória militar de um deles, é impossível em um tão extenso território - Angola. Iria assim, começar as negociações - placa giratória que conduziu à assinatura dos Acordos de Bicesse, pela mediação do Governo português tendo Cavaco e Silva e Durão Barroso como principais interlocutores …

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Ilustrações de Costa Araújo - o Maianguista da Luua

Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e de anotações de Isaías Dembo.

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O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:47
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Domingo, 7 de Julho de 2024
VIAGENS .181

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* - III e IV CONGRESSOS DA UNITA

- Crónica 3592 – 07.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

- Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

valentina2.jpg   3. III CONGRESSO

Realizou-se  entre 13 e 19 de Agosto de 1973, nas margens do rio Kutahõ, na Província oriental do Moxico. 221 pessoas entre membros do Bureau Político, do Comité Central e delegados de assembleias populares, presenciaram os trabalhos desse Congresso que pela primeira vez, contou com a presença de observadores estrangeiros e cinco jornalistas.

No seu discurso proferido na ocasião, o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, entre vários assuntos, falou da necessidade da unidade entre todos os movimentos de libertação nacional e da luta contra as intrigas que na sua opinião eram veiculadas pelo colonialismo e pelo imperialismo.

A auto-suficiência e progressos feitos na agricultura, na educação e na saúde mereceram realce. Nessa reunião magna, a UNITA definiu-se como movimento de massas oprimidas e decidiu realizar Congressos de quatro em quatro anos.

t´chassamba2.jpg Savimbi com Carlos Morgado (já falecido), seu médico particular

4. IV CONGRESSO

Teve lugar de 23 a 28 de Março de 1977 na Benda, a 80 quilómetros do Huambo. Representantes da UNITA no exterior (Jorge Sangumba e Jeremias Chitunda) e a da imprensa estrangeira estiveram presentes. Falando para mais de cinco mil pessoas das quais 722 delegados, o Dr. Savimbi centrou a sua análise sobre a conjuntura politico–militar de então, resultante da invasão das forças russo–cubanas.

A transformação das forças de guerrilhas em unidades semí-regulares e regulares, o combate ao hegemonismo, tribalismo, regionalismo e ao analfabetismo, a dinamização da agricultura, do ensino livre e obrigatório para todo o povo e a criação dos serviços de justiça civil e militar.

Aquelas,  foram as grandes decisões tomadas no IV Congresso que procedeu à revisão dos Documentos Orintadores adoptando-os à evolução do Movimento e à resistência nacional generalizada. Enquanto este congresso decorre na Benda, em Luanda do MPLA, o panorama é confuso.

silva p0.jpg A revista visão descreve assim:  o carro da tropa passa feito carroça de cães vadios. “Documento militar!? Não tens? “Sobe” - é só, assim mesmo!… O jovem apanhado num buraco, é imediatamente incorporado no exército e enviado para a “defesa da pátria” sem se embrulhar nas despedidas com a escova de dentes.

Repentemente, o candengue camundongo, casa com a tropa sem divorcio à vista. Estás lixado meu, o Poeira (um antigo Administrador Tuga do Posto de Belas…) te leva: São as falas dum mais-velho! Na Mutamba, centro de Luanda, no meio da rua, um soldado sem uma perna, esquelético, está literado como morto, as muletas tombadas ao lado (triste e degradante tempo…)

mutamba.jpg

Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e de anotações de Isaías Dembo.

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O Soba T´Chingange



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Quinta-feira, 4 de Julho de 2024
VIAGENS .180

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* - I e II CONGRESSOS DA UNITA

- Crónica 3591 – 04.07.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Amieiro do M´Puto

unita21.png  Regressando ao carrocel do tempo e estando eu em vias de seguir então para a Venezuela, tomo conhecimento do IV congresso da UNITA realizado de 23 a 28 de Março de 1977 em Benda. Posto isto, irei recordar todos os Congressos da UNITA para daqui se tirarem conclusões no percurso de Movimento a Partido e, a partir de Muangai, seu primeiro bastião…

1 I CONGRESSO (Constitutivo)

Muangai que se tornou celebre, é o nome de um serpenteado subafluente do rio Lunguebungu. Os portugueses baptizaram-no com este nome, o antigo posto colonial situado na floresta densa do Moxico e, que viria ser abandonada nas primeiras acções de guerrilha.

Nessa histórica localidade teve lugar, no dia 13 de Março de 1966, o Congresso Constitutivo que marcou o nascimento da UNITA – União Nacional Para a Independência, na presença de dirigentes acabados de chegar da China Popular, autoridades tradicionais e populares da região.

unita11.jpg Com a presidência do Dr. Jonas Malheiro Savimbi, assistiu-se à entrada em cena política angolana, desta nova força; força esta que veio dar novo impulso à luta de libertação nacional com a participação directa de seus dirigentes no interior do país.

2 - II CONGRESSO

Teve lugar entre 24 e 30 de Agosto de 1969 o seu II Congresso Ordinário, sob a presidência do Dr. Jonas Savimbi, Aconteceu em Sachimbanda, Província do Moxico, com a presença de 80 delegados (55 civis e 25 militares). Neste evento, tomaram parte dirigentes do Partido a vários níveis e representantes do povo da região.

Foi definida a linha política interna e externa da UNITA e, estabelecida a orgânica do Partido e das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola). Foi constituído um Comité Central de 30 elementos dos quais, os primeiros 12 faziam parte do Bureau Político. O Dr. Jonas Savimbi foi confirmado como Presidente do Partido.

unita12.jpg  N’Zau Puna foi o escolhido para Secretário Geral, Samuel Chiwale como Comandante Geral e Samuel Piedoso Chingunji "Kafundanga" como Chefe do Estado Maior. Neste II Congresso, a UNITA reafirmou a sua linha política de não alinhamento aos grandes blocos.

Assim, por um lado, condenou a «continuação da agressão americana contra o Povo Heróico do Vietname», por outro lado, insurgiu-se contra a «descarada invasão da Checoslováquia pela União Soviética». Miguel N'Zau Puna - afirmaria que foi nesse II Congresso em que se confirmou a bandeira da UNITA.

unita20.jpg Foi um tempo difícil em que a UNITA aceitou continuar a lutar pela libertação nacional e, numa altura em que estava desprovida de meios para fazer a luta. É de louvar o espírito de entrega dos militantes da UNITA nessa fase muito difícil da luta armada. Este II Congresso, teve a participação do jornalista Steve Valentine que trabalhava para o Times of Zambia.

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Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e de anotações de Isaías Dembo.

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O Soba T'Chingange



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Quinta-feira, 27 de Junho de 2024
VIAGENS. 178

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* - A HISTÓRIA DA JAMBA

- Crónica 3589 – 25.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

ROXO192.jpgComando e Direcção - Haviam três estruturas: as Forças Armadas, o Partido e o Governo. A figura principal era o velho kota Jonas que na linhagem das Forças Armadas tinha na hierarquia N´zau Puna e o Estado Maior General das FALA e todas as suas dependências orgânicas.

Pelo Governo respondia o Vice-Presidente Jeremias Kaluanda Tchitunda cuja sede estava depois da Praça do Canhão da Liberdade e o Secretariado Geral (estrutura política e comités coordenadores de bairros). Destacam-se os Ministérios da Educação e Cultura (Valentim e Jaka Jamba e Bunju), Saúde (Ruben Sikatu), Administração do Território (N`zau Puna)…

vazio1.JPG Ministério dos Recursos Naturais (Torres Kapiñala, Dias, João Tchitende, Jó Marcolino Prata) , Agricultura e Pecuária (Elias Salupeto Pena e Dario Katata), Informação (Jorge Valentim, Jaka Jamba), etc. Na Jamba o rigor e a disciplina superavam a inteligência, por isso construi-se uma sociedade onde a pontualidade, proteger o bem público e o respeito aos mais velhos eram itens sagrados…

Era proibido ingerir bebidas alcoólicas (só em ocasiões especiais, artigo 140 do código penal), o respeito pela mulher do companheiro, a protecção a crianças, idosos e diminuídos físicos, o estímulo aos melhores (alunos, militares, técnicos) eram uma DIVISA SAGRADA;

unita002.jpg Pelo exemplo da Jamba a Nova Angola há a obrigação de procurar inspiração ao empreendedorismo - disciplina forjados na Jamba, os que lá passaram tenham a coragem de se organizarem, resgatando a sua história base, em uma sempre presente Fundação Muangai.

Adicionar-se-ão  outras que criem e resgatem espaços antigos, que o Ministério do Turismo e todos agentes, a fim de coloquem nesta localidade Escolas de Turismo.  Uma vertente de preservar reservas naturais e ecológicas  com afins de historiadores e académicos de ali, alicercem seus conhecimentos, pesquisas que preservarão  as fontes orais e, antes que  desapareçam.

Termino a descrição sumária da JAMBA, Sem a preocupação gramatical, com o sujeito cutucando o verbo mais o predicado…, uma emergência confusa destes tempos conspurcados na metáfora, o quanto baste e, por vezes de alma torturada…, assim mesmo, jogando búzios na zuela do feitiço do tempo.  Com algum esforço, remexo nas panelas do esquecimento de uma  N´Gola cada vez mais distante do desejável progresso omitindo sistematicamente a UNITA!

t´chassamba3.jpg E, porque não sou só esqueleto, penso em kimbundo da Luua e Ambundo,  recordando falas de nossa terra, “ki tuexile tu ngó ifuba iatujunkura” - ainda não somos só ossos dispersos, “ifuba yetu iokune kala jimbuta” - Nossos ossos serão semeados como sementes… Assim no quizango, feitiço do livro de capa amarelecida e, recordando aos mwadiés camundongos que sempre fingem ser sapientes…

Falei! Seguir-se-ão outras sagas, recordar os Congressos e novas batalhas com o actual líder Adalberto da Costa Júnior, Presidente da UNITA….

Claro que haverá muito mais estórias para se boligrafar!

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Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise angolana e, na diáspora de angolanos  pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e relatórios da Jamba - Agência Kwacha UNITA Press (KUP)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:24
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Sexta-feira, 21 de Junho de 2024
VIAGENS. 177

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* A HISTÓRIA DA JAMBA

- Crónica 3588 – 21.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

luua27.jpg Organização Administrativa e territorial da Jamba: BI (Batalhão de Instrução militar) - começou por ser o local aonde eram treinados militares para os primeiros batalhões; lugar aonde se faziam as principais demonstrações públicas internas e, ou viradas para o diálogo com o mundo. Passou mais tarde a ser habitado por famílias ligadas à instrução, preparação e ensino de tropas (parecido ao actual Cabo Ledo)…

Centro Integral de Formação da Juventude – CENFIN: Lugar onde eram recebidos, formados e educados jovens/adolescentes órfãos ou que não tivessem familiares directos na região da Jamba - Era dirigido pelo ex-deputado, ex-Secretário-geral da JURA Piedoso Tchipindu Bonga; - Foi dos melhores sítios onde foram formados ilustres cidadãos que hoje são políticos, oficiais das FAA e professores… O destaque vai para o Mestre e Professor Álvaro Tchikuamanga, David Tchipassu (Professor Universitário), Nataniel N´Dondo (Engenheiro em empresas de Petróleo e ex-bolseiro na Costa do Marfim).

unitao1.jpeg VORGAN - Era neste local onde eram emitidos em ondas curtas a voz da resistência do galo negro (com equipamentos sofisticados para época e concorrente da RNA); - Toda a acção de comunicação e propaganda era feita na VORGAN com destaque na rádio, boletins informativos, agência Kwacha UNITA Press (KUP) que era a concorrente da Angop

Muitos destes profissionais estão hoje a trabalhar em Angola e na diáspora. Destaque para Clarice Kaputu, Deolindo Kaputu, Inês Cardoso (TPA), N´Guida Paulo (RNA), Manuela Kazoto (Despertar), Bela Malaquias (Ex-Administradora da RNA), Raul Danda (RNA, actor e Deputado), Emanuel Kapanda (ex-locutor infantil e agora na Assembleia Nacional);

Esquadra de Polícia - Como qualquer estado, a esquadra de polícia servia para ajudar e disciplinar eventuais condutas fora da lei; havia o código penal e regras claras para todos. Dirigiram a polícia pública destacáveis profissionais como o Comissário Madaleno Tadeu, os falecidos Evaristo Ramon Tchitumba  e o Comissário Isaías Tchingufu  (co-fundador em 1975 do primeiro corpo de Polícia de Angola Independente e, que chegou a ser nos anos 90, Director Nacional de Ordem Pública da Polícia Nacional de Angola).

swakop10.jpg Hospital Central da jamba - Já falou dele; também o OFICENGUE que eram as oficinas Centrais que ajudavam a reparar material de guerra e outros artefactos; Alfaiataria Central - Dirigidas pelo mítico Trinitá que tinha a obrigação de confeccionar vestuário e fardamento para TODOS; Aeroporto Internacional Comandante Kazombuela que cumpria com os objectivos dum aeroporto permitindo a entrada e saída de bens e pessoas para o diálogo com o mundo.

Quartel General – QG: Era a estrutura administrativa principal onde funcionava o Governo, o Liceu Nacional da Jamba, as TRMS (comunicações militares), os Serviços de informação militar e civil, O Estado Maior General das FALA, a UIREAL, o SINTRAL, o Secretariado Geral do Movimento/Partido e suas organizações de Massa LIMA e JURA…

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Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e relatórios da Jamba - Agência Kwacha UNITA Press (KUP)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:24
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Terça-feira, 18 de Junho de 2024
VIAGENS. 176

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA*A HISTÓRIA DA JAMBA

- Crónica 3587 – 18.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

namibia36.jpg No sistema escolar da Jamba, o domínio de Francês e Inglês era obrigatório, por isso TODOS os ex-alunos pelo menos, falam e escrevem uma língua nacional, escrevem e falam bem português e falam pelo menos uma língua estrangeira; Um aspecto importante: Era obrigatório nos liceus a escolha pelo aluno duma língua nacional e a obrigação de apreender sem titubear matemática e português.

Havia um ensino mais ovacionado para relações internacionais e,  para isso, tinham em seu curriculum outras incidências técnicas dirigidas para o esforço militar sobretudo. Para o efeito, alguns eleitos, por via de suas capacidades,  iam para Bona (Alemanha), África do Sul, Marrocos, Portugal, França, Inglaterra, EUA e lá onde existia cooperação firmada.

namibia35.jpg No tocante à saúde, todos os lugares e comunas, tinham postos médicos tendo no  topo o hospital central da Jamba dirigido por médicos Angolanos; estes hospitais funcionavam tanto para civis, crianças como militares e dependentes dum Ministro da Saúde que coordenava a estrutura de saúde em todo país, gratuitamente. Dos médicos destacam-se Anastácio Sikatu (foi Ministro em Luanda e actualmente deputado), Manassas (foi Ministro em Luanda), Albertina Hamukuaya (foi Ministra em Luanda);

Serafina Gama Paulo (irmã do cantor Mário Gama), Raimundo (foi deputado), etc.; . - Destaca-se ainda o grande cirurgião de nome Tenente que formou grandes cirurgiões e, que são hoje, dos melhores nas FAA e, em vários hospitais públicos e privados. Também Carlos Morgado, antigo médico pessoal de Jonas Savimbi, que morreu em Outubro de 2013, em Lisboa   Ex-militante e dirigente da UNITA, Carlos Morgado acompanhou Abel Chivukuvuku, na saída da UNITA e que  esteve envolvido na fundação da coligação eleitoral Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA-CE), terceiro maior partido angolano.

namibia37.jpg O paludismo não matava crianças e era impossível existir endemias porque para além do aspecto sanitário os programas de vacinação e saúde preventiva sempre funcionaram. Aspectos sociais: Como os recursos eram escassos, a administração dos mesmos eram feitos com disciplina, sem desvios/roubos, distribuição equitativa, entre outras boas práticas.

Roupas, detergentes e bens materiais eram distribuídos protegendo os mais desfavorecidos (crianças, órfãos, velhos, doentes) premiando a excelência; . Desporto e cultura - O desporto com destaque ao futebol eram obrigatórios e existia campeonato nacional onde se destacavam os clubes Estrela Negra, Estrela Vermelha, Mártires da Liberdade, UREAL, etc.

Ainda vivem muitos destes protagonistas como o Genial Wambu (Chegou a Presidente da Federação de futebol), Lito Kandambu (actualmente Deputado e antigo jogador do Estrela Negra, Vermelha e UREAL), Tito Marcolino (Jornalista do Folha , Félix Miranda, Jessé, Zé Manel, Camilo, Satchiambo (Quadro Do Mirex), Tchituku, Beto Tchindombe, Tony Tchivemba, etc;

namibia38.jpg Havia o Movimento Sindical e Estudantil - Destaque para o SINTRAL (sindicato dos trabalhadores de Angola Livre) cujo primeiro presidente é Franco Marcolino Nhany (actual Deputado e Secretário Geral da UNITA), da UREAL (União Revolucionária de Angola Livre) cujo primeiro Presidente é o actual Deputado Estevão José Pedro Katchiungo e antigo bolseiro em Portugal e, por algum tempo representante da UNITA no M´Puto…

namibia39.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e relatórios da Jamba - agência Kwacha UNITA Press (KUP)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:02
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2024
VIAGENS. 175

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* A HISTÓRIA DA JAMBA

- Crónica 3586 – 13.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

roxo170.jpg Do ponto de vista Administrativo a JAMBA funcionava como capital como qualquer Estado do mundo com estruturas que atendiam a Defesa e Segurança, economia, agricultura, pecuária, indústria, educação, saúde, etc. Na Defesa e Segurança, por se estar em período de guerra, todos os seus habitantes tinham a noção clara de que a sobrevivência colectiva dependia basicamente da  instrução  militar com o adequado uso das diferentes armas.

Assim sendo todos os jovens do sexo masculino ao atingirem a idade adulta tinham de ter preparação militar e política para que pudessem ser úteis a si próprios com a necessária cidadania, prontos para integrarem os mais variados órgãos de defesa, diplomacia e segurança se necessário , aprendendo técnicas de comunicação,  informação e contra-informação.

mulola2.jpg Sua estrutura social que tinha pendor militar e paramilitar exigia que usassem vestimenta adequada ao seu enquadramento e, segundo suas aptidões e funções; assim, todos os homens poderiam ou deverem estar fardados dos pés à cabeça. Os dirigentes, tinham por norma graduações militares, podendo andar armados… Eu próprio (T´Chingange), na diáspora,  caso fosse para a Jamba, teria o tratamento do posto de Major…

Como qualquer estado, existiam as polícias (secreta, ordem pública e outras), forças especiais (comandos), batalhões regulares e semi-regulares e forças especiais de guerrilha, etcOs sistemas de comunicações e intercepções militares que em áfrica, poderiam até superar África do Sul, tinham para além dessa, a Israelita, Alemã e Norte Americana. Tinha a VORGAN, rádio resistência das terras Livres de Angola que tinha por missão dar a informação e esclarecer a forma diabólica de como Luanda fazia passar a noticia - com muita deturpação…   

vorgan1.jpg O factor de disciplina e rigor era primordial. A UNITA teve o condão de  introduzir códigos feitos por angolanos, usando parcialmente e, de forma conjugada, usando línguas nativas angolanas. Falando de comunicações e intercepções por exemplo, não havia nenhum plano operativo das FAPLA e da sua força aérea, que não fosse conhecido o que, permitia aos chefes militares delinearem planos de ataque e defesa eficazes…

No tocante ao ensino – foram criadas  escolas do ensino geral e profissionais essencialmente dirigidas por antigos professoras da Administração Colonial,  das missões protestantes e católicas e gente entretanto já formada na Diáspora, em universidades de variados países principalmente europeus e africanos. O Liceu Nacional da Jamba era dirigido pelo Padre Justo Félix.

vorgan2.jpg Leccionavam nos liceus e não só, os melhores quadros que transitaram da administração colonial e do estrangeiro com conhecimentos académicos e científicos certificados. Passam assim à memória os Professores/as: Francisca Prata, Eugénio Manuvakola, Bunju (chegou a ser Ministro da Geologia e Minas de Angola), Elias (vinha dos EUA), Heitor Simões, Toya Tchivukuvuku, Kapapelo, Padre Bongo, Simões Bernardo, Bela Malaquias, Joia Wassuka, Madre/irmã Maria, entre muitos outros e outras.

Na área de ensino de Transmissões Militares por exemplo, não haviam férias e, num ano civil era possível fazerem-se dois anos lectivos, permitindo assim ter em pouco tempo mais letrados e prontos para as tarefas intelectuais. Os melhores alunos (média igual ou superior a 15 valores) eram seleccionados para continuarem a estudar na Costa do Marfim, Senegal, França e Portugal, entre outros…

ARAUJO248.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:21
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Sábado, 8 de Junho de 2024
VIAGENS. 174

NAS FRINCHAS DO TEMPO

DOS TEMPOS DE DIPANDA* A HISTÓRIA DA JAMBA

- Crónica 3585 – 08.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)** – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

helder12.jpg A história da Jamba tem como seu fundador o Dr. JONAS MALHEIRO SAVIMBI no ano de 1979. É esta a génese da independência dos Ovimbundo em seu  ramo político. Jonas Savimbi, o Presidente do Movimento de União Nacional para a Independência Total  de Angola – UNITA, decidiu que era fundamental a Direcção do Movimento ficar SEMPRE em território Angolano (só a partir da Grande Marcha e, após a fuga  do território angolano, esteve na região do Delta do Okavango na Namíbia).

Para a construção da Jamba contribuíram angolanos que levaram experiência por via da Administração Colonial Portuguesa - Noções de Administração e planeamento do território. De destacar  os angolanos autóctones e muitas figuras míticas como por exemplo o falecido Capitão N´djeke (da etnia Kamussekele). Realça-se o Capitão N´djeke e, sua etnia porque ,mesmo sendo minoria, trazia com ele um conhecimento ancestral e lições de como tornar possível o respeito pelo ambiente, seus equilíbrios e usos dos donos da terra, temas obrigatórios que hoje, o  são prática comum nos meios urbanos e, em países ditos avançados.

guerra40.jpg Por seu valor histórico, político e económico a JAMBA, deverá ser transformada em um Município, ser uma das Capitais do Turismo, MUSEU do MUNDO. Isto porque, será a partir deste lugar que se possibilitará ver em estado selvagem a melhor e maior reserva de elefantes do planeta. Mas, entre outros animais destacam-se  zebras, cangurus africanos, palancas, chimpanzés ou macacos

Neste ambiente natural, existem  variadíssimas espécies da flora, algumas ainda nem catalogadas; é o lugar por excelência de África, ainda virgem para entusiasmar pesquisadores, botânicos e cientistas em geral. Estes recursos naturais terão de ser o verdadeiro suporte promovendo o bem estar para TODOS e, no mais curto espaço de tempo.

guerra6.jpg Por ora (naquele então), haveria que resistir e sobretudo “contar essencialmente com as nossas próprias forças” transformando “todos os braços e cabeças” em prol da comunidade, mantendo a resiliência possível perante tanta adversidade estimulada e incentivada pelos notáveis resistentes, inventando, muito para além do imaginário.

E, assim tornando possível a vivência a partir do plausível, teremos de rever os heróis que todos foram, cada qual do seu modo singelo ou capaz de entre  os mais hábeis, os melhor apetrechados de saber, a dirigirem seu povo civilmente ou militarmente.  Assim conhecerão de foram exaustiva nomes  que fizeram saber querer.  Angolanos como Jonas, Rússia, Tchiyuka, Tchiwale, Jaka Jamba, N´zau Puna, Samakuva…

guerra19.jpg E,Tchilingutila, T´Chipilika, T´Chitunda, Valentim, Hamukuaya, Tchata, Danda, Antoninio, Liberty, Ekuikui, N´gamba, Kanutula, Camundongo, Tembi-Tembi, Katchiungo, Sakala, Pena, N´dachala, Numa, Kandambu, Assobio da Bala, Tchingundji, Kahombo, Makanga, Morgado, Puna, Tony Fernandes, Hamukuaya, N´delitumbula ou Chivukuvuku…

A lista é grande e, alguns ficarão no rol de esquecidos, somente  por omissão. Temos assim, Kavulandungue, Calakata, Vituzi, Kalunga, Tarzan, Vakulukuta, Vahikeny, Tchindandi, Prata, Kalhas, Sanguende, Cinco Reis, Epalanga, Kalinoni , Cachiungu e, tantos ilustres. Por ultimo o actual Presidente da UNITA, Adalberto da Costa Junior. Angolanos e outros anónimos que acreditando nos seus ideais e resistindo a tudo dentro ou na diáspora, colocaram no mapa do mundo a futura capital do turismo mundial: JAMBA.

Acácia rubra1.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:25
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Domingo, 2 de Junho de 2024
VIAGENS . 173

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3584 – 02.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

araujo158.jpg É tempo de voltarmos à Jamba e  esperar na mata, a morte do  Agostinho do Sputnik lá para o ano de 1979. Entretanto, um turista bazungo com passaporte de muzungo (branco) Tuga, disfarçado com colete de zuarte, um quiko besuntado de raspas de biltong, destroços de pão duro rusk, muitos bolsos, um canivete macgyver e um crachá da UNITA cozido no forro do colete percorria a tal Faixa de Caprivi.

Procurando-me envolto em sonho, também para que o desse e viesse, com um galo em cerâmica dado a mim, por mérito creio, Issoisso, dado a mim, pelo meu herói de nome Alcides Sakala – um notável da UNITA; assim e, muito bem seguro  com boas linhas,  cosido no forro deste traje de caçador de elefantes.

araujo159.jpg Só eu e José Pedro Cachiungo um dirigente do galo negro em funções em Lisboa, sabia chamar-se assim de “Xirikwata – o pássaro comedor de jndungo”… Mas, nem sei como, San Nujoma, o presidente da Swapo, vim a saber que também o soube mas, desmilinguiu-me bem à beira do Okavango – eram os Serviços de Inteligencia a funcionar - ainda bem que assim o foi!  Tinha a CIA a proteger-me...

Agora, com minha cuca pintalgada de velhice tipo mapa mundo, recordo se estava mesmomesmo pifado dos carretos, coisas reais dum passado acantonada no luco-fusco da vida e, como se o fora um espião de verdade, um tugangolano - aiué! E, no ano de 1978, aconteceu algo; os rodesianos fizeram um ataque ao campo de refugiados da ZAPU de Joshua N´Komo, em Boma, Sul de Luena, onde foram massacradas centena de pessoas.

araujo169.jpg Em um ataque ao Lubango no ano de 1979, por bombardeamento feito pelos sul-africanos, morrem 612 pessoas. Este foi também o ano do “massacre de Cassinga” quando militares sul-africanos atacam um campo de refugiados namibianos, chacinando 1.200 pessoasA morte de Agostinho Neto  sucedeu  nesse ano de 1979.

A morte de Agostinho Neto, acontecu em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, na Rússia. Seu corpo regressa embalsamado a Luanda. Nas exéquias fúnebres, em quase histeria colectiva as pessoas gritam “mataram nosso Netinho”. Referiam-se aos soviéticos, mas a verdade é que Neto sofria de incurável cancro de fígado por via de tanto “chivas regal” e caporroto de Catete – implodiu por dentro, simplesmente!…

araujo179.jpg Na presidência de Angola, sucede o eng.º José Eduardo dos Santos, nascido no musseque Sambizanga, de pai pedreiro e mãe doméstica, foi aluno do Liceu Salvador Correia de Sá. Formou-se em engenharia de petróleos em Baku, ex-URSS, sendo a princípio contestado pelos radicais do MPLA.

Contestado em Luanda, especialmente por ter decidido congelar todos os processos de condenações à morte; posteriormente aboliu a pena de morte em Angola. Sabe-se sim, por via de muitas denúncias que sofisticaram a forma de eliminar inimigos ou gente inconveniente com venenos de sofisticada elaboração entre outras formas dissimuladas… Entretanto a guerra continua com a UNITA já fixada na Jamba – Cuando / Cubango. Iremos para lá a seguir…

Ilustrações aleatórias de  Costa Araújo

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

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O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:03
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Quarta-feira, 29 de Maio de 2024
VIAGENS . 172

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3583 – 29.05.2024

“FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977”- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

guerra14.jpg Justino Pinto de Andrade, elemento da Revolta Activa, preso antes do 27 de Maio, conta na primeira pessoa, “Na noite de 23 de Março levaram, para nunca mais voltarem, inúmeras pessoa: Ademar Valles, irmão de Sita Valles, o engenheiro Rosa, que nada tinha a ver com o 27 de Maio, o Cachimbo, um laranja do MPLA que havia assassinado o engenheiro Betencourt  Faria, em seu Observatório da Mulemba…

Também o comandante Bogalho, combatente do MPLA, que se juntou a Chipenda em Lusaka… O Bogalho foi trespassado pelas balas ou então, como se ouviu dizer, pelas baionetas dos seus algozes. Foi uma verdadeira “noite das facas longas”. Para muitos e em demasia, foi mesmo o fim! E,, só depois de se localizar o local do enterramento de  seus corpos, só então, se poderá cicatrizar essa ferida de tamanho descomunal…

faria1.jpeg A frase proferida por Agostimho Neto que ficou para os vindouros foi a de: “amarrem-nos aonde forem encontrados”. Manuel Ennes Ferreira um preso político do processo OCA, torturado,  relembra: “Às 07h 30 do dia 27 daquele Maio, cheguei ao liceu N´Zinga M´Bandi  para dar aulas. As movimentações na rua e os tiros, colocaram os alunos e os professores em polvorosa”.

Dali por três dias, voltei e fui à cantina da universidade para almoçar. O general N´Donzi chegou e, da porta apontou para o Fuso e o Jorge Basófias; como estava na mesma direcção, gelei! Alguns dias depois segui o mesmo caminho, São Paulo e Campo do Tari”

faria2.jpeg As mulheres detidas eram alvo de violência psicológica e sexual. Nos interrogatórios os agentes e guardas apareciam e, “sobre os seus corpos desnudos despejavam a mais torpe violência” revela Américo Cardoso Botelho, em “Holocausto em Angola”. A comandante do Batalhão Feminino, que tinha conduzido o ataque à cadeia de São Paulo para libertar os apoiantes de Nito Alves, que impedira depois o fuzilamento dos militares da Revolta Activa  e da OCA pelas forças revoltosas, acabou por ser detida.

Quando a situação mudou e as tropas fieis a Neto passaram a controlar os acontecimentos,  deixaram que aquela , porque estava grávida, tivesse a criança mas, depois, espancaram-na durante três dias e três noites, segundo o livro “Purga em Angola no 27 de Maio de 1977” de Dalila e Álvaro Mateus .  Disseram: “ Ela cantava sem parar – a voz enlouqueceu-lhe mas, nunca parou de cantar  até ser fuzilada”

araujo 25.jpg Os interrogatórios eram feitos com as detidas nuas ou seminuas . Usavam os mais variados instrumentos para penetrar as vaginas das detidas. A uma portuguesa branca, obrigaram-na a despir-se para limpar com a roupa o sangue nas selas onde decorriam os interrogatórios. Os guardas voltavam a atirar aquela água suja para o chão , obrigando a limpar de novo.

Enquanto isso lançavam impropérios e davam-lhes pontapés aonde quer que fosse. A uma das prisioneiras, massacraram-lhe tanto os joelhos com uma tábua que doente meses ficou desvalida, quasequase sem conseguir andar. Outra foi colocada no centro de um grupo de agentes e militares, inteiramente nua, sob uma forte iluminação, “sendo alvo dos piores insultos com apreciações jocosas de seu corpo, seguida de agressão física”– conta Américo Botelho…

ARAUJO248.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange, de outros referidos em texto e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:00
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Sábado, 25 de Maio de 2024
VIAGENS . 171

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3582 – 24.05.2024

“FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

chicor4.jpg Herminio Escórsio continua sua descrição quando da visita à Fortaleza de São Miguel: “O único que não veio falar comigo, envergonhado, foi o David Aires Machado (Minerva), até então Ministro do Trabalho. O Zé Van-Dunem perguntou-me pelo pai e, disse-lhe que o velho Mateus estava desfeito, que nem ele, nem ninguém, esperavam que ele, Zé, se metesse numa encrenca tão grave. O Zé, por fim, pediu-me para, ao menos, olhar por seu filho”.

Sou eu a falar: Neste entretanto o rapto de meu pai, (gente simples e alheia a tudo como tantos outros), estava a ser efectuado junto aos Correios da Maianga, um modesto “segurança nocturno do Banco de Angola” e que, em exercício, por ali passou fardado, como sempre fazia, noite após noite. Não foi no sítio errado, mas numa hora de azar,

lua1.jpg Aconteceu quando por toda  a Luanda se faziam altercações com fuzilamentos sumários nas ruas, nos largos, nos hospitais e cadeias. Meu pai Manuel Monteiro, recorda que a uma pergunta feita, deu uma resposta, ao qual logologo o meteram amordaçado em uma carrinha do tipo toyota hiace. A pergunta foi a, de se estava bem com o presidente Agostinho!?

E, a resposta dada foi Sim! Mal sabia ele que aquele  era um grupo afecto a Nito Alves (deduziu isso, por via das falas que se lhe seguiram). Bem! O resto já foi contado lá atrás e o caso, nem é relevante para o contexto geral e neste acontecido de tanta projecção nacional e internacional (fim da minha fala…).

an2.jpeg A repressão estende-se ao ano de 1978. Nas muitas petições a Agostinho Neto feitas por notáveis é referida a violência. dos guardas, as péssimas condições de alimentação e higiene nas prisões, com ratos, baratas, aranhas e outras bichezas coexistindo com os presos e, em celas superlotadas.

A comida é servida em pratos de alumínio já retorcidos e, sujos como se o fossem cachorros. O arroz e feijão tinha gorgulho e em alguns casos, são obrigados a beber água das latrinas. Nos campos para onde eram levados os presos, a vida era duríssima. No campo do Tari, “passávamos fome, tinhamos muito frio.

PUXASACO.jpg A saudade morava dentro de nós com a permanente incerteza; a raiva era mais que muita e o medo demasiado teimoso. “As ratazanas que mais pareciam coelhos aguardavam nossos descuidos para nos ratarem as orelhas dos pés. Nos sonos inquietos havia gritos”; é José Reis, um ilustre desconhecido que sim o conta, mais tarde.

Com tanta falação interna e internacional, Neto distancia-se da DISA, de seus métodos com excessos cometidos levando-o a extingui-la em Julho de 1979. No ar de boca em boca, na vizinhança sempre se ouvia alguém dizer: “O meu filho desapareceu”. E, era forçoso assim, acabar com as testemunhas incómodas. Com a lei 7/78, Neto institui na prática, oficialmente, a pena de morte para quem cometia crimes lesivos à segurança do Estado…

diogo3.jpg

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:50
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Quarta-feira, 22 de Maio de 2024
VIAGENS . 170

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3581 – 22.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

ARAUJO237.jpg CHE com 47 anos de idade (ano de 2024), filho de José Van Dunem e Sitta Valles, sobrinho de Francisca que foi Ministra da Justiça e da Administração Interna do XXII governo do M´Puto (Portugal) e,  com quem foi educado, descreve assim sua estória de vida: “Nasci em Luanda em Fevereiro de 1977, três meses antes do 27 de Maio. Com o desaparecimento de meus pais, de outros familiares e amigos próximos, fui levado para o M´Puto…

Perante a falta de informação sobre o paradeiro de meus progenitores, estando Luanda em contexto de caça aberta ao homem com fuzilamentos em grande escala por todo o território de N´Gola, meus avós maternos decidem levar-me para Portugal em Outubro desse fatídico ano, juntando-nos à minha tia Francisca.  Por fases, fui descobrindo essa parte do meu passado…

Araujo2251.jpg Durante a minha infância contavam-me apenas o indispensável. A partir da minha adolescência, o meu tio João, um irmão mais novo de meu pai, desempenhava um papel importante na revelação dos acontecimentos. Também ele, tinha estado preso, detido em Cuba e levado para Luanda, sobrevivendo à chacina. Regressei a Luanda pela primeira vez em 2005, com 28 anos…

Tinha noção que o meu retorno seria uma questão de tempo. Tinha a consciência que os meus pais se tinham em Angola, batido com dignidade e determinação pela edificação em Angola para uma sociedade justa, em que a solidariedade pudesse substituir o egoísmo e ou a exclusão…

ARAUJO254.jpg Entendi que não fazia sentido não lutar pelo mimo projecto de sociedade na terra onde nasci. Em 2009, decidi que não devia protelar mais e que era chegado o momento certo para voltar  a Angola. Parece-me importante desmistificar a versão criada pelo poder…

Cabe aos especialistas trazer alguma luz sobre o 27 de Maio e fazer também a avaliação do papel histórico que a minha mãe Sita, também o meu pai e, muitos outos camaradas seus, como Juca Valentim, Nito Alves, Monstro Imortal, Bakalov e tantas outras figuras tiveram no período da luta pela independência e neste processo do 27 de Maio em particular”.

Sabe-se que Sita naquele momento de desvario, tentou enviar uma carta à missão soviética através da mulher de seu  irmão Ademar. Onambwé, um dos chefes da DISA, sabe e diz à mulher de Ademar que se lhe tivesse entregue essa carta, o marido seria poupado. Entretanto, Sita e José Van-Dunem são capturados. Entram no Ministério da Defesa de mão dada sendo de seguida levados para a Fortaleza de São Miguel.  Sita é ali violentada, violada, e selvaticamente torturada.  Recusa ser vendada na altura do sumário fuzilamento.

COSTA3.png Herminio Escórsio, chefe do protocolo da presidência nesse ano de 1977, afirma:- Fui à Fortaleza de São Miguel aonde encontrei o Zé Van-Dunem descalço e coberto por um lençol, o Juca Valentim  e o Nado.  Ainda falei com o Jacob João Caetano (o Monstro Imoral), chefe do Estado-Maior-adjunto da FAPLA e outros quadros…  AGORA FALO EU: COM A MINHA KIZOMBA!  EU ME ENGANEI, TE DOU RAZÃO. EU SABIA – SEI, MAS TU VÊ SÓ MERMÃO (salvo o seja), MINHA KIZOMBA TEM TUJI DE SALALÉ, NO MUTUÉ AMI DO ESQUECIMENTO DE MUITOS, MAZÉ TAMBÉM DE MUITOS ANOS - CADAVEZ JÁ É DOCUMENTO

llutrações de Costa Araujo

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingnge 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:47
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Domingo, 19 de Maio de 2024
VIAGENS . 169

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3580 – 19.05.2024

“FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

monstro3.jpg A um deixe para lá senhor TC (de Tenente Coronel), descanse, ele reclamava: Foi assim mesmo, dizia isto para nózes (plural de nós) com duas lágrimas estancadas no rosto, que secavam em seguida. E, desse jeito continuou: - «Presos atirados pelas escadas e, no pátio, espancados só átoa. Berravam e pediam por amor de Deus, não fiz nada…

Quase sem vida eram atirados para dentro de viaturas. Até um mercenário norte-americano, lembro bem, comentou no pormenor: Yes yes, era em um bairro chamado de Bungo bem à beira mar. Você não colabora - vejo-me obrigado a entregá-lo aos militares. «Os detidos passavam para os militares, e para as torturas.» baia de S. Pedro da Barra, uma faixa de terra entre a linha do Caminho-de-Ferro e o mar.

255.jpg «Carlos Jorge, Pitoco e Eduardo Veloso chicoteiam o Costa Martins, batem-lhe com um pau com espigão de ferro, massacram-lhe as costas com correias de uma ventoinha de camião. Ao chicote chamavam Marx e, ao espigão, Lenine. Também o puseram numa sala, junto a uma máquina de choques eléctricos. Só cheirava a carne queimada.»

Este Tenente-Coronel estava mesmo nas últimas; nem sei se estes nomes existem mesmo. Junto com o ranho e as excrescências tossicadas pude ver grossas pastas de sangue. Os cuidados esmerados daquele grupo de gente já não alcançariam êxito de vida para aquele imortal.

monstro1.jpg Naqueles tempos ainda nem sabíamos que usavam a propaganda de forma exaustiva na falácia de tudo vir a ser uma liberdade linda em Angola! Não! Não conhecíamos as filosofias do mal… Nos intervalos dos lapsos de memória quase petrificado, posteriormente, este velho Tenente-Coronel, ex-vizinho, esfarrapado de mente falava no tempo desencontrado - os efeitos da Luua no quarto decrescente, penso eu-de-que!

Babando-se pelo canto esquerdo descaído, insensível ao cérebro abanado por uma trombose, com a lentidão na descrição das coisas graves, titubeava muxoxos – Hum, a kalashnikov, a febre do paludismo, dos malvados da UNITA… E, tudo era na mistura com bolas de trapos, meias a cheirar a sulfato de peúga, impregnando a desconversa!

monstro6.jpg Entre a vida e a morte, as diferenças estão nos pormenores pois algumas são demasiado trágicas e outras, por demais sofríveis… Ele teve a sorte de morrer num ai, repentinamente - a bala do monacaxito… Aquele senhor fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas, olhava para o infinito, definitivamente.

Saí daquele para um outro lugar, lugar de Chokola num jeep willis até Catima Mulillo aonde apanhei um voo até Lusaka. Ainda estou em crer que aquele velho senhor não era esse tal de Monstro Imortal do MPLA mandado matar por Agostinho Neto. Seja como for, para mim o Tenente-Coronel fardado de pijama às riscas deixou de ser Imortal, defuntando-se.

monstro2.jpg

Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:57
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VIAGENS . 168

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3579 – 17.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

araujo154.jpg É verdade que Ele, o Nosso Senhor nos dá Sua paz, mas isso só se trata daquela espécie de paz que provém do espirito: “isso está certo? É isso mesmo o que eu devo entender?”. Será que em cada dia tenho de incentivar meu ânimo para resistir àquilo que sei estar errado!? E, claro, alegrar-me-ei no caminho cristão legado por meu pai Monteiro de sobrenome…

Lembrar-me agora daquele ex-vizinho, que feito Tenente-Coronel, se fardava com um pijama às riscas sentado num sofá preto de orelhas. Passado dos carretos, já kota, era alto em sua juventude mas agora curvado com o peso das traquinices  do seu MPLA, tornou-se num espeto seco, desmilinguido, invulgarmente marreco e bexigoso por tantas ruindades frutificadas na violência - vicissitude da política.

monstro1.jpg E, o tempo foi passando. Em um momento de lucidez perguntei ao TC por seu nome e veio de lá a resposta: Monstro Imortal! Ué? Fiquei de boca aberta pois que este figurão tinha sido morto na guerra dos fraccionistas naquele ainda recente ano de 1977, ano em que meu pai Manuel, foi para o M´Puto com uma bala no corpo.

Isto, há coisas que só acontecem acontecendo! Constava-se que o tinham cegado mas nada lhe perguntei porque o delírio da velhice pode bem dar para estas divagações; ele via mal, mas via! Sendo assim deixei-o a falar entre dentes; -Aquele cabrão do Pedalé (Pedro Tonha) nem teve coragem para me fazer perguntas.

monstro6.jpg Deixaram-me ali a gemer para um gravador, enquanto apertavam o garrote - Iam e vinham; iam e vinham. Atiraram-me ao mar de um avião mas sobrevivi! Será? A história coincidia com os muxoxos mas aqui, num lugar do cú de Judas, já ninguém lhe dava ouvidos. Todos sabiam que tinha chegado em uma avioneta trazido por um homem loiro; talvez uma ONG falsificadora! Pensei eu.  Deve ter sido salvo por um submarino soviético, só pode!

Agora que diz coisa sem coisa, todos os desculpam de coitado, nem sabe o que diz, nem sabe o que fala! Muito cheio de catolotolo a dado momento fica apontando a miragem do seu sonho referindo-se ao porto da Luua: aonde dinamizava homens para não carregar as bikwatas dos colonos brancos e mazombos- gente zebra…

monstro4.jpg Sobressaltado, com os olhos muito abertos falava pró vazio: Hoje vai haver maka! Repetia a  todo o instante. E, punha-se a rir no canto do beiço babado, contando centenas de mortos e ordens de carrega nos unimogues dos Tugas, ofertas do MFA - leva na vala. Nosso Coronel, fazemos como então, com os feridos? - Leva tudo junto e, bota neles cokteil molotov!

Esbufarado com as kinambas a tremer dava ordens. Ordens são ordens e,  rapidamente dali e acolá saiam frotas de carros goteando sangue nas ruas da Luua até chegar à casa mortuária da Avenida Craveiro Lopes ou Avenida de Lisboa. A lamparina dele acendia e apagava num repentemente junto à Delegacia de Saúde, ali bem perto da mortuária, assim com tecnologia nova, de correia de defuntação. Creio que era sim, muitos diabos a torcê-lo pelas maldades.

monstro3.jpg Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

 (Continua…)

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:29
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Quarta-feira, 15 de Maio de 2024
VIAGENS . 167

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3578 – 18.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

luandino2.jpgMeu pai Manuel, passou coisas inimagináveis em Angola e, já kota, teve de voltar ao M´Puto com a vontade de ficar, por força desse dia 27 de Maio no ano de 1977. Estava pintado de manchas já negras de sangue, guiado por duas canadianas. Assim o vi, no aeroporto da Portela de Lisboa (actual Humberto Delgado), perna pendurada e ainda com uma bala junto à rótula do joelho.

Lá na Luua os mortos eram tantos e, por tantos lados, que o médico Boavida do Banco de Angola o mandou para o M'Puto; não fossem os pseudo médicos cubanos cortarem átoa a mesma! E foi no Hospital de Torres Novas do M´Puto que tirou a dita cuja - a bala! Teve a sorte de não gangrenar!

monteiro1.jpg E li algures de que «As forças de segurança prenderam muita gente jovem que, na manhã de 27 de Maio de 1977, andava nas ruas de Luanda. Centenas deles foram levados para um Centro de Instrução Revolucionária na Frente Leste e os dirigentes locais assassinaram-nos friamente.» - Nas Faculdades desapareceram cursos inteiros. No Lubango, dirigentes e quadros da juventude foram atados de pés e mãos e atirados do alto da Tundavala

sorte2.jpg Os tamancos de pinho do M´Puto de meu pai, não eram suficientemente quentes para animar o dia que se seguia naquela terrinha chamada de Barbeita  e, vai  daí, meu pai tentou a Venezuela e o Uruguai mas as facilidades só lhe surgiram para a África - Terras Ultramarinas de Portugal. Deram-lhe passagem de colono após preenchimento de impressos timbrados com a esfera armilar.

Através da Companhia Nacional de Navegação zarpou no tal vapor Mouzinho de Albuquerque por volta do ano de 1950. Nós, família, ficamos a morar no Rio Seco da Maianga da Luua, início do Catambor. Nos fios de gastas crenças, tão corcovado, tão enrodilhado em suas macias filosofias de mineiro de volfrâmio, recordo meu pai Manuel, suspirando baixinho…

araujo100.jpg Revendo sua miúda indecisão de viver, vendendo volfrâmio para dar rijeza aos canhões de Hitler, assim - para sobreviver na “graça de Salazar”, guerra acabada, houve necessidade de mudar o rumo à vida. Um dia, com um trejeito de esforço, endireitou-se emperrado e cresceu! E, falou: - Amanhã vou à Companhia Colonial de Navegação inscrever-me - Vou para Angola! E, foi

Ora sucede que passados muitos anos, nesse 27 de Maio de 77, veio da Luua inchado de porrada e com uma bala nos joelhos. E, vêm agora tornar heróis os Otelos e tantos guedelhudos a fingir que nos libertaram no VINTICINCO. Não posso entender o significado de nossas vidas, fingindo ou imaginando ter sido assim como um colchão coberto de cravos vermelhos num caixão e rosas, porque Cristo nos chama para às mais exigentes e ousadas periclitãncias como a sempre desconhecida morte! E, as FP-25 - Que negócio foi esse?

colono31.jpg Esperei-o no Aeroporto. Seguro por duas muletas parecia um Cristo! Tirou essa bala e, não mais voltou… Impôs-se assim uma forçada regra de vida: - A liberdade de sermos saudáveis ou morrer por coisas impensáveis… Sim! Meu pai padecia  ser um matumbola (morto vivo) e, até me belisquei para ter a certeza de que isto não era só um suspiro. Em verdade, eu também sabia bem que João Jacob Caetano, o lendário Monstro Imortal, tinha morrido com um garrote do n´guelelo, um triste fim de um herói…

flor soba.jpeg

Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

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O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:57
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2024
VIAGENS . 166

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3577 – 13.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji)O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

monstro6.jpg Um novo livro escrito por Carlos Taveira detalha os horrores e o dia a dia na prisão de São Paulo de Luanda antes e depois do 27 de Maio de 1977. Quando o “autocarro do amor” chegava à prisão de São Paulo de Luanda os presos sentiam o terror e o medo de que eles poderiam ser os próximos a serem levados para a morte num local desconhecido.

Carlos Taveira, o autor do livro, que esteve ali detido mais de dois anos disse: Que recordou como os presos jogavam xadrez comunicando de cela para cela através das sanitas nas celas que eram buracos no chão e serviam de câmara de eco. Taveira foi preso em Dezembro de 1976 sob acusação de pertencer à Organização Comunista de Angola, OCA, que se opunha à presença soviética e cubana em Angola, portanto antes da tentativa de golpe de Nito Alves em 27 de Maio de 1977.

monteiro3.jpg A cadeia foi tomada de assalto por elementos ligados a Nito Alves para soltar os seus apoiantes que ali se encontravam presos.“vivemos debaixo de fogo quatro ou cinco horas”, recordou Taveira sublinhando que os apoiantes de Nito Alves apoiavam “ideias opostas da OCA” por se considerarem marxistas da linha soviética…

Os apoiantes de Nito, “quando entraram disseram-nos que nos iam matar nesse dia”. Membros da chamada Revolta Activa que ali se encontravam detidos foram também ameaçados de morte pelos aderentes de Nito Alves . “Quando nos puseram contra uma parede”, recordou – pareceu-nos ser o fim…

monteiro6.jpg “Todos os que entraram depois do 27 de Maio passaram pela sala de torturas; alguns foram barbaramente torturados e alguns morreram de tortura, enquanto outros eram levados simplesmente à noite para serem mortos”, recordou. O escritor disse:  Até ao 27 de Maio, “não havia tortura” na prisão porque o dirigente da policia politica DISA, que lá se encontrava, Helder Neto, “não acreditava nisso”

Helder Neto, preferia tentar “recuperar“ os presos para trabalhar com eles. “Helder, suicidou-se no 27 de Maio – só depois se deu início na tortura em cheio", contou. “Havia entre nós um grande medo. Cada vez que aparecia o tal “autocarro do amor” para levar gente para ser fuzilada havia um ambiente de terror”. Disse recordando que, numa noite foram levados 16 ex-políciais para serem fuzilados. “Foram levados debaixo de pancada até ao “autocarro do amor” e os 16 numa noite desapareceram”, recordou.

morgan3.jpgAgora, sou eu que digo: Meu pai Manuel - “o cabeças”, que foi para a praia errada chamada de Angola num vapor chamado de Mouzinho de Albuquerque no ano de 1950, como colono, ali ficou até este 27 de Maio de 1977. Na ida para o Banco de Angola aonde exercia a função de segurança noturno, foi desapossado de sua arma walther P99, raptado e levado para lá do aeroporto de Belas aonde o encheram de pancada, vulgo porrada; e, havia ali, uns quantos mais, amontoados, esperando o toque final – a morte… 

Ali, no chão, desmaiado, num magote, deram-lhe um tiro de rajada atingindo decerto os demais! Era noite. Teve a sorte de uma aleatóriria bala não lhe ter atingido órgãos vitais, alojando-se no joelho. Arrastou-se pela noite até se recolhido por uma  patrulha mista de cubanos e militares do MPLA. O médico do Banco de Angola (Boavida), não vendo possibilidades de Manuel ser socorrido ali, no Hospital Maria Pia e, por via de estar repleto de muita gente moribunda, deu-lhe uma licença a prazo, metendo-o no avião da TAP a caminho do M´Puto. . Dias depois fui esperá-lo no Aeroporto da Portela em  Lisboa, ainda com a bala no corpo…

Montemor1.jpg Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:46
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Sexta-feira, 10 de Maio de 2024
VIAGENS . 165

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3576 – 10.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

luua01.jpg A última execução em massa de pessoas por via da tentativa do que foi, um golpe, teria ocorrido a 23 de Março de 1978 com pelo menos 15 peoas. “Alguns dos prisioneiros foram condenados à morte ou à prisão por um tribunal especial, mas nenhum foi submetido a nada que se poesse assemelhar a um julgamento imparcial”.

A 10 de Abril , o governo negou alegações feita em carta aberta por um partido politico. Alegava-se que 30 mil pessoas haviam desaparecido durante os anos de 77 e 78, em consequência  da Revolta dos Fraccionistas. O governo do MPLA, limitou-se a admitir “excessos lamentáveis”, declarando compartilhar “a legitima preocupação das famílias das vitimas, interessadas em saber o que acontecera aos seus parentes “.

 luua02.jpgO governo do MPLA mais disse – “que, talvez fosse criada uma comissão para tratar do assunto.” Em realidade, nada foi feito e, as indicações posteriores de gente desgarrada do processo e, despeitada com seus superiores, declarou no exílio da diáspora, aquele número ser de 80 mil… O jornalista angolano, Tonet, em entrevista à Deutsche Welle falou do acontecido na primeiríssima pessoa: Eu estive envolvido no 27 de Maio, a minha família esteve envolvida, a partir do meu pai, que foi preso.

Dois tios meus estiveram presos e foram enterrados vivos, sem qualquer tipo de julgamento”, disse. “Matemática e juridicamente falando, eu ainda estou preso”, denunciou o angolano. “Porque a gente não tem formalizado, sequer, nenhum mandado de soltura, como não tem nenhuma acusação.

luua03.jpg A DISA, a polícia política da altura do chamado “28 de maio”, alusão ao período logo após o 27 do golpe, sob a direcção de Ludi Kissassunda e Onambwé e, tendo como principais executantes António Carlos Silva, Carlos Jorge, Pitoco, Inácio Osvaldo, Eduardo Veloso, Norberto Castro Pereira, Margoso, José Maria, Manuel Carmelindo, José Vale, Nascimento, Domingos Cadete, Victor Jeitoeira, Cristian André, José Baião, João e Henrique Beirão, Zeca França, José Baião, Júlio Rasgado, Miguel de Carvalho, entre outros, prendem, torturam e matam sem qualquer controlo.

As cadeias ficam sobrelotadas; os presos são alvo de todo o tipo de sevícias: espancamentos com martelos, paus, barras de ferro, soqueiras, cintos, chicote, pedaços de mangueira cheios de areia, mesas, bancos, cadeiras, bancos; violentamente amarrados com os braços atrás das costas até perdem a sensibilidade dos braços e mãos.

bungo1.jpgOs presos são suspensos e deixados cair no chão, com os braços e as pernas amarradas; queimados com pontas acesas de cigarros, também um torniquete colocado na cabeça e, que à medida que é apertado, causa fortíssimas dores e a perda de consciência; choques eléctricos nos genitais, etc, etc…

A imaginação dos algozes não tinha limites em sua bestialidade. O sangue corre às golfadas como um mar, os gritos de dor dos seviciados são insuportáveis… Alguns dos prisioneiros foram condenados à morte ou à prisão por um tribunal especial, mas nenhum foi submetido a nada que se assemelhasse a um julgamento imparcial.” 

bungo5.jpg

Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:34
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Terça-feira, 7 de Maio de 2024
VIAGENS . 164

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3575 – 07.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

nito1.jpg Nito Alves  foi ministro do Interior de Angola desde a independência em 11 de Novembro de 1975, até à data em que o presidente Agostinho Neto aboliu o cargo em Outubro de 1976. Fazia parte da linha dura do Movimento Popular de Libertação de Angola e tornou-se conhecido internacionalmente devido ao golpe de estado falhado, conhecido por Fraccionismo, de que foi mentor em 1977 .

Nito Alves opunha-se a Agostinho Neto nos temas da política externa de não-alinhamento, socialismo evolutivo e multirracialismo. O que mais parece chocar na repressão que se seguiu à alegada tentativa de golpe de Estado contra o primeiro presidente angolano após a independência, Agostinho Neto . é que as vítimas não foram inimigos do governo – mas sim membros do MPLA.

maio002.jpg MPLA, partido no poder e, assim, sendo da própria família política e da direcção do país. O desconhecimento sobre o que aconteceu às vítimas da repressão do regime do Presidente Agostinho Neto, nos dias que se seguiram ao que terá sido uma tentativa de golpe, corrói. O cálculo dos mortos varia. A Amnistia Internacional fala em 40 mil, o jornal angolano Folha 8, em 60 mil…

A chamada Fundação 27 de Maio calcula em 80 mil. Fontes da DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola) referem-se a 15 mil mortos. Se nos ficarmos pela média, pelos 30 mil, são dez vezes o número de mortos do Chile dos anos 1970 de Augusto Pinochet, na própria família política o MPLA. Sem julgamento.

maio05.jpg Saidy Mingas, fiel a Agostinho Neto, na madrugada de 27 de Maio de 1977 (sexta-feira), entra no quartel da Nona Brigada para tentar controlar as tropas de Nito Alves;  Foi a sua última missão. O então Ministro da Administração Interna sob a presidência de Agostinho Neto é preso pelos soldados fraccionistas e levado com Eugénio Costa e outros militares contrários à revolta para o musseque Sambizanga, onde são posteriormente queimados vivos.

Sita Valles é talvez a mais conhecida das vítimas da purga do MPLA – ela, o marido José Van Dunem, comissário político do Estado-maior e Nito Alves, ex-ministro do Interior. Mas, de uma forma ou de outra, a repressão que se seguiu ao 27 de Maio de 1977 deixou marcas na vida de grande parte dos angolanos, relata o jornalista independente William Tonet. “Directa ou indirectamente, a maior parte dos angolanos daquele tempo está envolvida no 27 de Maio.

maio9.jpg Ela, Zita Valles, deu ao horror seu rosto. Sita Vales foi fuzilada às 5 da manhã de 1 de Agosto de 1977. Um tiro em cada perna, um tiro em cada braço, o corpo caiu na vala previamente aberta antes de ser dado o tiro de misericórdia. O corpo, ou o que dele restava: Sita Valles havia sido torturada e violada múltiplas vezes pelos homens da DISA.

Rebelde até ao último minuto, recusou a venda e obrigou os homens do pelotão de fuzilamento a enfrentarem o seu olhar. A portuguesa, nascida em Cabinda, tinha então 26 anos e trocara uma vida confortável em Portugal e um curso de medicina para regressar a Angola, país que considerava ser o seu e para defender a ortodoxia soviética em supostos tempos de democracia.

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Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:02
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Sábado, 4 de Maio de 2024
VIAGENS . 163

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3574 – 04.05.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA DA LUUA O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

maio002.jpg Hermínio Escórcio, chefe do protocolo da presidência, descreve mais tarde como sucederam as manobras dessa revolução: “ Na manhã do dia 27 estava em casa quando me apercebi que a Rádio Nacional de Angola - RNA, havia sido tomada. Fui para o meu gabinete no Palácio e de lá telefonei para o Futungo de Belas (Presidência da República).

De caminho pude avistar o Onambwé e o Delfim de Castro que, dentro de um tanque, se dirigiam para as instalações da RNA, onde já estava no ar o programa radiofónico “kudibanguela”. Depois da retomada da RNA fui o primeiro dirigente a lá entrar”.  Continuando: “saí da rádio e fui até à Avenida Lisboa para ver se havia rastos de sublevação. Liguei a Neto, disse-lhe que estava tudo calmo e, ele prontamente afirmou: “Então posso ir até aí!”

maio6.jpg Disse-lhe que por uma questão de segurança, talvez fosse melhor ficar pelo Futungo. Dito isto, acrescentou que ia chamar a imprensa para fazer o ponto da situação.  Mal sabia ele que o Saidy Mingas, o Eurico e o Garcia Neto já tinham sido mortos. Também desconhecia que alguns comandantes haviam caído em emboscadas montadas pelos Fraccionistas à 9ª brigada.

Neto, quando soube de tudo isto, ficou completamente transtornado”. Neto vai à televisão e proclama o salvo-conduto para o banho de sangue: “Não haverá contemplações… Certamente não vamos perder tempo com julgamentos”. Os fuzilamentos sumários passaram logo a ser norma. Convêm dizer aqui que os cubanos após retomarem a Rádio Nacional, abrem fogo sobre todos os amontoados de população que eventualmente estavam ao lado dos revoltosos e, acto contínuo retomam o controlo das cadeias.

maio7.jpg Mila Coelho, mulher de Rui Coelho fuzilado a 2 de Junho de 77 e, que na altura era chefe do gabinete do Primeiro-Ministro Lopo do Nascimento, conta assim: “Esperava Rui, vindo de Argélia e a 1 de Junho com a tragédia do 27 a decorrer, notei nele muita intranquilidade. No dia seguinte, dois de Junho, vieram buscar-nos a casa”.

“Dois soldados armados de metralhadora, exigiram que fôssemos com eles. Levaram-nos para o Ministério da Administração Interna aonde permanecemos toda a tarde, sentados em um banco corrido. Nessas horas falamos pouco; estávamos horrivelmente destroçados.

maio8.jpg Era já noite quando nos foram buscar; meteram-nos num cubículo escuro. Pela madrugada levaram-nos para a Cadeia de S. PauloA separação de homens para um lado, mulheres para o outro afastou-nos definitivamente um do outro para nunca mais nos virmos”…

Em causa estavam no fundo divergências ideológicas entre Agostinho Neto, adepto de uma via “terceiro mundista” para Angola, com características semelhantes à argelina, e Nito Alves, advogado da ortodoxia soviética. Em Angola não podia haver contra revolução popular e, por isso, Neto, o presidente poeta, foi irredutível: “Não haverá perdão para quem penssasse de forma diferente da linha oficial do MPLA”.

maio9.jpg Apesar da dimensão do massacre, o tema é tabu, explica José Milhazes: “É que alguns dos intervenientes ainda estão no poder. Quero recordar que o presidente José Eduardo dos Santos, naquela altura, era já um membro da direcção do MPLA e que participou directamente no conflito”, lembra o comentador e historiador português.

tukya13.jpg Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo

                            Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:54
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2024
VIAGENS .162

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"LUANDA NOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3573 – 30.04.2024

 “FRACCIONISTAS DO MPLA – O 27 DE MAIO DE 1977” - Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

maio1.jpg Cumcamano, disse eu depois de dizer um chorrilho de grossas asneiras  ao pisar bosta de elefante já meia desfeita; assim era este paradisíaco sítio cheio de coisas “good” e, logo a seguir às cubatas feitas de barro e capim entalado em chinguiços.   Paus tortos na vertical atados a mateba em outros paus tortos horizontais. Com dois por dois metros, dei-me a matutar de como caberia ali um par de gente sem ficar com os pés de fora.

Era só mesmo para dormir; as outras divisões eram um amplo mato a seguir à clareira avermelhada. Para ir ao cagadoiro, era só seguir o carreiro que levava ao buraco. Saltando um pouco no tempo sem definir datas ou horas exactas, o chefe  Miranda referia algumas agruras do mato do Calai, Dírico e Mucusso, posturas  antigas nunca esquecidas, a querer relembrar as surucucus de Angola, um pensamento, da  sua  fuga…

maio01.jpg Neste meio tempo de reestruturação da UNITA e construção da JAMBA, vamos desviar a atenção para a Capital Luanda aonde Agostinho Neto se vê em apuros com um suposto golpe de estado. O golpe que ficou conhecido como o Fraccionismo, teve uma data a memorizar esses eventos: - O 27 de Maio!. Quatro homens do MPLA lideram um suposto golpe de Estado contra Agostinho Neto.

Esses homens foram: Bernardo Alves (Nito), Jacob Caetano (Monstro Imortal), José Van-Dunem e o comandante Bakaloff. Situando-nos a 27 de Maio de 1977 e, após as insistências da URSS a Agostinho Neto a fim de aderir ao marxismo-Leninismo, veio a consumar-se com a criação do MPLA-PT. Não obstante, Neto continuava uma pedra no sapato do regime soviético, que na altura era chefiado pela “tróica” de Nicolau Podgorni/Kossinguine/Brejnev.

maio0.jpg O episódio é conhecido por Revolta dos Fraccionistas - “dos Frac´s” na linguagem popular. Num discurso após o golpe, Neto afirma que por detrás da rebelião, estivera “uma embaixada estrangeira em Angola”. Para os analistas políticos não restaram dúvidas em apontar de forma comedida o embaixador Kalilnini como sendo o autor intelectual do episódio.

Já dominando os pontos chaves na Capital – Luua, como a emissora de rádio, o golpe aborta, mercê da rápida intervenção militar cubana ao lado de Neto. “Monstro imortal”, armado com uma metralhadora, entra no Palácio da Cidade Alta de Luanda, com o propósito de dar ordens de prisão ao presidente angolano; assim não foi, porque Neto, estava no Futungo de Belas…

maio05.jpg Monstro Imortal é preso de imediato. Na onda posterior de repressão, são presos, torturados e passados pelas armas na forma sumária, seguindo-se-lhe milhares de pessoas, incluindo os mentores do golpe, depois de serem sujeitos a dolorosa tortura física. Conta-se que a Nito e o Monstro Imortal, lhes foram arrancados os olhos, ainda em vida.

O último relatório da Amnistia Internacional sobre o golpe de 27 de Maio relata o desaparecimento de prisioneiros – “Noite após noite, durante os meses seguintes, ambulâncias e outros veículos saíam da prisão de Luanda e de outras cidades”. Prisioneiros que foram enviados para o campo de reeducação em Calunga -Moxico, afirmariam que muitos outros prisioneiros foram sumariamente executados, morrendo à fome ou simplesmente, foram alvejados ao tentarem fugir…

maio4.jpeg Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota2: **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e da revista descartável do semanário Expresso do M´Puto…

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O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:43
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
VIAGENS . 160

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3571 – 23.04.2024

 “DO  CUELEI ATÉ KAPRIVI Na Faixa de Kaprivi, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba14.jpg Antes de tudo isto… Naqueles longínquos anos de entre sessenta e setenta do século passado, o XX, todo eu estava metido na Mata do Maiombe, tropeçando na força das circunstâncias e num entretanto que só durou quatro anos, a guerra foi um conjunto de acidentes suados a paludismo. De um para outro lado, subindo e descendo rios procurando rastos de turras, com o soba Mateus, também preto  já condecorado com ida grátis ao M´Puto….

Mateus, o soba e guia ocasional, à frente, ia barafustando com o ar, cortando capim à catanada, mastigando uma bolunga escura e pestilenta, pisando charcos infestados de sanguessugas, larvas com milhões de patas e escorpiões pretos e pré-históricos a fingir de lagostins. Buscando turras num secalhar perdido entre a bruma e o cacimbo, o gozo da liberdade, corria como se a vida fosse um jogo de poker…

unita1.jpgUm jogo de poker duma azarada toma de pastilhas vermelhas para anular maleitas com micróbios fosfóricos na única água estraganada. Com as costas das mãos afastávamos as bicharias visíveis e, em seguida engolíamos aquilo escorrendo da mão ou numa qualquer folha verde a jeito. Guardando soberania da pátria do M´Puto, camuflados ensopados até o tutano, assim seguíamos em fila de pirilau, duas granadas presas ao peito, uma G3 em riste e uma cartucheira repleta de balas para o que desse e, viesse procurando o MPLA.

Mas, agora é tempo de relembrar a formação em comunicação e técnicas de controlo aéreo de Abel Chivukuvuku com seus companheiros Aniceto Cavala e Jardo Muekalia na base secreta de Delta ou Ómega na Faixa de Kaprivi da actual Namíbia, antigo Sudoeste Africano. No Rundu, esses três jovens iriam receber formação em tráfego aéreo. Muito mais tarde, eu, o T´Chingange, viria a saber outros pequenos detalhes…

unita2.jpg Pisando os mesmos caminhos, vendo as mesmas acácias e aquele capim do Okavango com o qual se cobrem as casas dos kimbos e das cidades e, com João Miranda, um próspero comerciante do Mukwé, Andara, Nyondo e Divundu, pois por ali andei, na secreta “Missão Xirikwata” com as credenciais da UNITA escondidas no forro daqueles calções de zuarte, mais  um colete muito farto de bolsos para meter balas de matar jambas (elefantes) - tudo a fingir…  

Fazendo futurologia sem bola de cristal e auto-risco, com o conhecimento descomprometido de José Pedro Cachiungo representante do Movimento em Lisboa, assim ia fazendo turismo de guerra como se o fosse, um espião de craveira - uma suave adrenalina regada com Windhoek lager e empatia de toda a família Miranda, sempre à beira do Cubango, que aqui só conhecem por Okavango - vendo Angola, sua gente e gado pastando ao alcance de um grito.

jamba7.jpg Relendo o livro de Agualusa fica-se a saber que em Abril de 1977, fica concluída a formação  no Rundu na Faixa de Kaprivi; Chivukuvuku foi colocado no aeroporto da Mapunda  junto à fronteira com o Sudoeste Africano - o tráfico deste aeroporto era usado quase exclusivamente pelos aviões que vinham de Kinshasa e do Sudoeste Africano. 

Neste então, as insígnias da UNITA ainda mantinham as palavras de Socialismo, Negritude e Democracia.  Nos anos de reestruturação da UNITA, a principal base do movimento foi a base secreta Delta, do outro lado da fronteira, mais propriamente na Faixa de Kaprivi do Sudoeste Africano. Era necessário em primeiro lugar ter-se a suficiente eficácia na defesa do principal bivaque da UNITA, a Jamba, já em fase de construção…

maian6.jpg Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana…

Nota2: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e do livro de Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku de José Agualusa

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:22
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2024
VIAGENS . 159

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3570 – 22.04.2024

 “A 2ª MARCHA – DO  CUELEI ATÉ KAPRIVI”Na Faixa de Kaprivi, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba5.jpg Respirando a noite, metido em calções de caqui, o bafo quente de África contorcia-me a mente como num remoinho de orgasmo. O encanto do mato, seus cheiros e ruídos, em África, são tão especiais que ofuscam a mente com espíritos. As vozes rugosas entrecortadas com choros de hiena e latidos de mabecos arrepiavam ao cair da noite.

Sem pálpebras no olhar, o escuro da Faixa de Kaprivi era mais inebriante  que qualquer outro, a lua feita um risco com nome de nova; o cacimbo miudinho fazia levantar um aroma extasiante, a luz difusa do xipefo vulgo candeeiro de petróleo,  tracejava-o ondulante para além do mato cerrado da margem do Okavango. Para lá desses matos a cagufa latejava nas temporas amargando a boca de gosto rançoso de minha antiga guerra, no lugar aonde também andou esse tal de Ché…

jamba4.jpg Ali e, naquele agora cada burro poderia carregar entre trinta a cinquenta quilos, resistindo bem ao calor e à sede. Foi desta forma que passados uns largos dias, cinquenta por aí, os guerrilheios de Savimbi chegaram à base de Cuelei, acarinhados por cânticos e danças fazendo renascer o Galo Negro das cinzas. A ajuda Sul-africana, foi a partir daí bem substancial, permitindo à UNITA tornar-se mais forte que nunca.

Em Dezembro de 1976, tendo já o apoio do regime do apartheid, da China e dos Estados Unidos, algures  na base de Malengue e, tendo Jonas Savimbi recuperado das longas marchas, preocupado que estava em reagrupar e reorganizar o que restava da UNITA, tendo a seu lado Samuel Chiwale, N´Zau Puna,Tito Chingungi e Altino Sapalalo, conhecido por Bock, dirige-se aos dois jovens corajosos que proporcionaram o encontro destes com os Bóhers na Faixa de Kaprivi dizendo:

jamba3.jpg - Depois do feito destes jovens por sua determinação, estou verdadeiramente convencido de que vamos sim, formar um exército! Tratava-se dos jovens saídos da Missão do Dondi, Abel Chivukuvuku e Vituse que fizeram um primeiro contacto com as autoridades Bóhers da fronteira sul de Angola, a chamada Ovoboland, entre a cidade do Rundu e o Divundu.

De forma eufórica, Sabimbi, levantando seus braços afirmou: Dentro de quinze anos a revolução trunfara! Os jovens guerrilheiros ficaram bem taciturnos, bem dismilinguidos de frustração  com esta firmação, do mais-velho! Tanto tempo, assim! Nesse entretanto, ali na base de Malengue, em um outro dia, foi lido aos soldados um conjunto de despachos. Chendovava era promovido a major tendo como adjuntos os capitães Bock e Tito Chingungi.

jamba2.jpgA Companhia dos “jovens intelectuais” que entretanto tiveram três meses de instrução e especialidades, é dissolvida. A cada soldado é dado o específico destino como soldado da UNITA. Uns irão para o Rundu, mais propriamente para as bases Ómega e Delta da Faixa de Kaprivi, na Namibia adquirir formação em explosivos.

Ouros, terão formação em comunicações, logística militar de defesa antiaérea, formas de disciplinas militares e outras tecnologias modernas em uso de armas inteligentes.  Formas de informação, de desinformação e controlo aéreo. Outros, têm a missão de prosseguir os estudos em países africanos e europeus. A  Chikukuvuku foi-lhe destinado ir para a base secreta do Rundu, a secreta Delta na Faixa de Kaprivi num dos acampamentos, juntamente com Aniceto Cavala e Jardo Muekalia.

jamba11.jpgNota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

Nota2: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e do livro de Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku de José Agualusa

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:20
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Domingo, 14 de Abril de 2024
VIAGENS . 157

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3568 – 14.04.2024

 “A 2ª MARCHA – DO  CUELEI ATÉ KAPRIVI”Na Faixa de Kaprivi, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba13.jpgAnos mais tarde, com João Miranda Khoisan e sua filha Ana Maria, em Suclabo Lodge propriedade duma madame de nome Suzi e, que mais tarde tomou o nome de Divava Okavango Lodge e Spa, cinco estrelas de “elegant style and luxury”, do outro lado do Okavango relembraríamos. Foi ali o  bivaque base Ómega aonde a UNITA, na pessoa de seu presidente Jonas Savimbi, entabularam negociações com os bóhers da África do Sul.

Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, ouço de novo João Miranda: - Isto é mato, amigo!; assim falou estalando a língua assolapada ao seu céu bem ao jeito dos bosquímanos.  Continuando a descrição encetada no Cuelei, naquele então, fins do ano de 1976, decorridas largas horas, o coronel  Philip du Preez, regressando de seu périplo vistoria às suas tropas ao longo da fronteira, desceu de seu helicóptero, entrou na tenda com seus homens, e  todos eles comeram e beberam.

jamba11.jpg Comeram e beberam sem se cuidarem ou lembrarem sequer dos angolanos que os aguardavam lá fora, com uma fome negra. Assim é descrito no livro de “Vidas e mortes de Abel Chivukuvuku” por Agualusa mas, quanto a mim, acho desmedida esta inventação de narrativa. Uma grande desfeita nada peculiar conhecendo-se a estatura e,  até diplomacia dos intervenientes.

A descrição do encontro surge assim com detalhes sórdidos e inusitados. Aliás, nem creio que aquele coronel bóher assim se tenha comportado por me parecer pouco natural, até bizarro. Ter este calibre de comportamento com esta gente guerrilheira, parece-me ser de um torpe e grosseiro descuido, por o serem já tão conceituados e, sobretudo tendo essa conhecida figura, como chefe da delegação - uma afirmada lenda de guerrilheiro africano chamada de Jonas Savimbi.

jamba12.jpgPois então, seus homens tiveram de esperar ainda algum tempo fora da grande tenda, antes de finalmente, conseguirem matar a fome. Aleluia! Por fim houve tempo para discutir ao que os levava ali às terras do Fim-do-Mundo. De forma brejeira é dito que o coronel du Preez, começou por sugerir que os guerrilheiros da UNITA se juntassem ao recém formado Batalhão 32; Sabimbi, indignado, recusou…

A UNITA era um Movimento de Libertação angolano. Não o seria, nunca, assim frisou indignado o Mwata guerrilheiro Jonas Savimbi, um simples instrumento de guerra nas mãos dos bóhers. Philip du Preez, duvidou da firmeza com tenacidade dos guerrilheiros angolanos: - Vocês estão mesmos dispostos a enfrentar sozinhos os cubanos? Têm coragem para isso? Sim, temos! Assegurou com firmeza Savimbi.

jamba10.jpg E continuou falando: - Necessitamos de vocês, nesta fase periclitante, para que nos forneçam material de guerra; é só o que queremos, reafirmou. E, vocês precisam de nós para conter o avanço do comunismo junto às vossas fronteiras. O Coronel Philip, prometeu nessa mesma noite falar com os seus superiores de Pretória, despedindo-se em seguida, subindo para o helicóptero bem à justa de forma a alcançar sua base ainda de dia…

Na percepção parcial das vitais contingências, tecidas e compostas nas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que determinam o futuro próximo e distante. Com encontros decisivos de nula ou muita importância, um simples dia de vida com rooibos tea and rusk bread, Windhoek lager, biltong bóher e bacorinho no espeto, assado pelo Thinus de Outjo, o mais genuíno carcamano bóher da família Miranda do Mukwé, a vida acontece…

Nota: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e do livro de Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku de José Agualusa…

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:38
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Quarta-feira, 3 de Abril de 2024
VIAGENS . 153

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3564 – 03.04.2024

 “APÓS A LONGA MARCHA ” No Cuelei, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

cuelei6.jpg O tenente general Philip du Preez, oficial sul-africano, representando seus militares, relembra anos mais tarde que, em Agosto de 1976 e, após a “Grande marcha”, estavam no Moxico, começando nesse então a cooperar com a UNITA. Era um pequeno número de pessoas e com poucas munições, mas tomando conta do grupo líder que até então estava sob o comando do major Katali. Acomodámo-los e treinámo-los", salientou o oficial sul-africano na reserva.

O tenente general Philip du Preez indicou ter estado na origem da formação de comandos africanos angolanos em Angola para combater as forças governamentais e, que começaram então a ser apoiados pelos soviéticos e cubanos, numa guerra civil que só terminaria em 2002. O mesmo oficial afirmou: Que em Angola e, "Após o final da grande guerra de  TUNDAMUNJILA 1975, que se estendeu até Fevereiro de 1976, quando parou.

cuelei5.jpg Os militares sul-africanos aconselharam Savimbi a não tentar avançar no terreno sem mais nem menos (para combater as forças governamentais), mas entrar sim num esquema de guerrilha. Savimbi preferiu flectir para o leste, para a província do Moxico, para descansar e preparar as suas tropas", sublinhou…  E, o tenente general Philip du Preez continua: "Depois enviámos uma mensagem a Savimbi a perguntar se queria a nossa ajuda, que nós enviaríamos pessoal para o Moxico.

Parece não ter sido bem nestes moldes mas, nas descrições que se seguirão serão percebidas as narrativas; veremos isso, quando se descrever o encontro na Faixa de Kaprivi no estão Sudoeste Africano - Namíbia. Disse que sim e enviámos cerca de 100 pessoas. Consegue imaginar o mapa da Angola de então?

cuelei4.jpg Do Moxico (Luena, base principal) para Catuiti (província do Cuando Cubango, próximo da Faixa de Kaprivi, na Namíbia) são cerca de cerca de 1.200 quilómetros. Andaram e andaram e andaram. Foi a verdadeira expressão … O oficial sul-africano lembrou que já não estava presente na criação do Batalhão 32 (ou Batalhão Búfalo), pois entregara a operação a um "jovem militar, muito bom", o então coronel Jay Breytenbach, militar de infantaria do exército sul-africano.

E, Continua: -"Pegou nesse grupo e foi para a guerra, não como Batalhão 32, mas como o “Grupo Bravo”, a que se juntariam, em fins de Agosto de 1976, vários outros elementos, maioritariamente da UNITA, que criaram o muito eficiente Batalhão Búfalo", explicou.

cuelei3.jpg Questionado pela  agência  Lusa sobre as razões de o exército sul-africano ter decidido envolver-se na guerra civil em Angola, lembrou que, na altura a palavra "comunista" era "muito, muito mal vista" na África do Sul e que a presença de militares soviéticos e cubanos nas proximidades do então Sudoeste Africano não agradava a ninguém do mundo ocidental.

Philip du Preez  em síntese disse: -"Trabalhámos muito com Savimbi, de 1975 até 1976 e, depois, até 1990", lembrou o oficial sul-africano, que considera o líder histórico da UNITA como um homem "muito carismático, um grande líder e adaptável". "Estive presente quando falava com os reis tradicionais locais, com os seus súbditos. Não se pode imaginar a impressão que causava. Falava sempre com uma linguagem popular e não havia nenhum chefe tradicional que se lhe opusesse. Nós, sul-africanos, gostávamos muito de Savimbi", realçou…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:55
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Sábado, 30 de Março de 2024
VIAGENS . 152

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3563 – 28.03.2024

 “A LONGA MARCHA  DE SAVIMBI”Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba1.jpg Hodiernamente, não sei se voltarei a passar nas ruas da Luua que me viram crescer numa mulola chamada de Rio Seco da Maianga porque, também minha passada irá entristecer-se na recordação, do que foi e, já o não é. A sombra que preside aos tempos de agora (2024) e, que por dá cá aquela palha, se ateia a mente, queimando os fusíveis dos coiros, sempre lembrará o tempo em que o fui, feliz, na compreensão muda e queda, das muitas e, alheias infelicidades circunscritas.

Em 1975, embarquei para o M´Puto sem o querer, pela inquieta, medonha ou desolada guerra do tundamunjila. A terra do futuro ficou tardia, sarando-me das pústulas feitas vulcões  na diáspora, comendo sandes na “Tendinha” de Lisboa do Rossio do M´puto, um panado ou posta de bacalhau regada com um penalti. Mais tarde comendo arepas com carne mechada na Venezuela, biltong na África do Sul e coxinhas de galinha no Brasil.  Agora, recordo a odisseia da “Grande Marcha de Savimbi”, como uma prometida vontade a mim mesmo: sentir com a UNITA, essa nova era da mudança para Angola.

vermelho 04.jpg Algures na mata. «Estávamos preocupados com medo de que algum helicóptero pudesse sobrevoar-nos», disse Savimbi. «Disse-lhes que esta não era a maneira de conduzir uma guerra de guerrilha; não queremos riscos. O povo, porém, disse que não nos preocupássemos, que não fora ainda molestado naquele lugar. Numa aldeia, apenas a dois dias de caminho da base, estavam milhares de pessoas a dançar e a cantar. Disseram que nos acompanhariam até à base.

Respondi ao soba que isto  não seria bom, que se a população se portasse assim, não teríamos segurança. Um dia eles seriam descobertos e atacados pelo MPLA e pelos cubanos. Afirmei ao soba que não queria o povo atrás de mim. Chamá-los-ia dentro de uma semana, para um grande comício, já na base. Falhei porém, seguiram-nos sempre, a cantar durante todo o caminho.

jamba2.jpg Desisti e afirmei, vamos correr o risco. Por isso, eles vieram connosco até o Cuelei e foi  este o fim da longa marcha. A  base do Cuelei ficava a cerca de 150 quilómetros para sudeste do Huambo. Estava sob o comando do major Katali, que reunira nesse acampamento cerca de oitocentos guerrilheiros e, duzentas mulheres com crianças.

A “Longa Marcha” terminou com a entrada de Savimbi no Cuelei a  vinte e oito de Agosto de 1976, cerca de sete meses, com três mil quilómetros percorridos após a sua fuga do Luso, seguido por dois mil adeptos. Destes, apenas setenta e nove, incluindo 9 mulheres, estavam com ele, tendo os demais morrido, sido separados para outros locais ou, simplesmente, ficando para trás.

arau1.jpg Foram alguns meses trágicos; porém contra todas as probabilidades e contra todas as espectativas dos estranhos, Jonas Malheiro Savimbi, sobrevivera. A guerra que muitos comentadores anunciaram ter terminado com a victória cubana, em Fevereiro de 1976, iria continuar. Seguem-se agora entre estórias recolhida do baú de lata cravadas com ripas de pau kibaba, o desenrolar da odisseia de sobrevivência de um punhado de gente resiliente  com o espirito sempre presente da UNITA…

E, porque já em tempos disse de quem pensa que sabe tudo, um dia vem a saber mais um pouco, de novo o digo. E, para não ficar só no espírito,  volto à carga com a estória que me liga a uma felicidade estrangulada. Foi assim que arrumando meus cacifos de memória, achei ser justo neste espírito de letras e valores, passado que é meio século após o ano de setentaecinco,  retroceder aos itens de dignidade que persistem passeando um galo de cerâmica na lapela do terno diplomático…

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:00
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Quarta-feira, 27 de Março de 2024
VIAGENS . 151

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3562 – 27.03.2024

 “A LONGA MARCHA  DE SAVIMBI”Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

ama3.jpg Pude ler recentemente - ano de 2024, que já estamos a viver no FUTURO. Que este VÍRUS MUTANTE, pode ser ALIANIGENA, um mecanismo preliminar de nosso salto genético espacial. Partir a gente feitos pedras parideiras  algoritmos, que exige especial atenção para descortinar os pensamentos de querer fazer rebelião como algo inerente às "torpes" eficácias cientificas e também duma covarde gravidade vinda de GOVERNOS formatados por gente igual a nós. Não podemos condescender com aqueles que bestializam um passado que já o foi PRESENTE…

Li também que, somos um projecto de bioengenharia e, que tudo começou algures há 75 mil anos atrás, muito antes de Cristo surgir e, muito antes de quando saímos das algas como micróbios alienígenas. A cultura e o conhecimento, elevando-a de parvidades nem consentir com tolices ou pecados, por assim andarmos cativados numa burlesca depravação e, também enfrascados numas quantas hipóteses de vontade libertadora...

jamba6.jpg Posto isto, relembro o passado, continuando a descrição da saga do  Mwata  chamado de Jonas“A grande Marcha de Savimbi”… Naquele dia, já em finais de Agosto de 1976, Savimbi queria dissipar qualquer ideia de que viria a ter ajuda do exterior, antes de o povo se ajudar a si próprio. Afirmou: «Teremos de lutar primeiro e, só depois, vocês verão que as pessoas do exterior quererão entrar de novo em contacto connosco».

O Presidente também afirmou que os cubanos detinham uma vantagem evidente, em termos de qualidade das suas armas e, da crueldade com que estavam habituados a actuar. E, acrescentou «Porém, estavam em total desvantagem em termos de conhecimento do território, da população e da língua».

jamba5.jpg Savimbi despediu-se do soba  e dos mais-velhos duas horas antes do romper do dia vinte e quatro de Agosto. Durante algum tempo, ainda, a coluna caminhou em direcção ao Norte, através da mata que ficava paralela e à vista da estrada. Às nove horas da manhã um comboio de blindados e camiões, transportando tropas cubanas e do MPLA, começou a passar rumo ao Sul.

Ao longo da estrada e à vista dos homens de Savimbi, era perceptível ouvirem o inimigo a cantar de forma descontraída. Os guias da aldeia  disseram à coluna que continuasse a avançar, assegurando a Savimbi que os seus homens não podiam ser vistos da estrada. Savimbi tencionava progredir  rápidamente em direcção à zona da nova base. Ele sabia que avançava por entre uma cadeia de camponeses pró UNITA.

jamba4.jpg Savimbi afirmou-se, nessa aldeia, com um  perfil  bastante mais elevado do que pensava. As patrulhas de guerrilheiros oriundos da área para onde se dirigia, a cerca de 120 quilómetros para oeste da estrada principal, vinham estabelecendo contactos com a coluna e espalhando a notícia, à medida que  avançavam, da sua chegada iminente. As pessoas vinham ao seu encontro, em plena luz do dia, com bandeiras, cantando e dançando.

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:04
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Sábado, 23 de Março de 2024
VIAGENS . 150

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3561 – 21.03.2024

 “A LONGA MARCHA  DE SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba01.jpg (…) Cada um de nós tem uma lenda! A minha foi preterida por ser o que ainda estava para ser, uma inventação lançada para fugir às realidades da Luua. Para encobrir eventos desonrosos, coisas sem heroicidade, um quarto de hora antes da meia-noite do dia 11 de Novembro de 1975, minha “nação”, meu barco, levantou âncoras ao largo da Luua – Niassa...

A bandeira do M´Puto era embrulhada num baú dum velho carcamano de colono aonde tiveram de caber todas as ilusões. Foi assim que me tornei Niassalês. A bandeira verde-vermelha, tornada num trapo vulgar, estava condenada a criar bolor. Minha nação Niassa fez-se ao alto mar vendo-se de longe os festejos celebrando de forma dantesca o nascimento dum país. Eram tiros e rajadas a fingir de fogo-de-artifício.

jamba1.jpg Agora que passam já 48 anos desse tempo, relembro a odisseia da “Grande Marcha de Savimbi”, um ano depois de eu já  ter saído de Angola, a terra que me viu crescer - A terra que nunca saiu de mim.  Estávamos a 23 de Agosto de 1976… O caminho a partir da mata, levou a coluna da UNITA através da estrada do aglomerado central de cubatas e, das demais espalhadas ao longo da estrada, para Norte.

Se tivessem atravessado mais para o extremo Norte, para além dos limites  do aglomerado de cubatas, teriam feito com que os cães uivassem e, isso teria atraído a atenção dos cubanos; qualquer movimento na aldeia, por parte dos homens da milícia local, armados apenas com arcos e flechas, não provocaria nos cães qualquer reacção invulgar.

jamba2.jpg Uma vez do outro lado da estrada, no sentido oeste, os grupos de homens da UNITA caminharam entre o aglomerado principal do kimbo e as trincheiras vazias para um ponto de encontro na mata, a cerca de um quilómetro para sudeste dos limites da aldeia. Completada a travessia, um grupo de vinte aldeões, o soba, os mais-velhos e suas mulheres, reúnem-se a Savimbi na mata.

A coluna e os aldeões caminharam durante  mais dois ou três quilómetros para o interior, de maneira a que Savimbi pudesse discutir com os sobas  e os mais-velhos, explicando-lhes os seus planos para o futuro e, de que forma os aldeões podiam ajudá-lo. «O presidente argumentou que a UNITA não teria quaisquer probabilidades de sucesso a não ser que o povo estivesse do lado do Movimento».

jamba3.jpg Fizeram perguntas embaraçosas e, não haveria maneira de essas perguntas poderem ser evitadas. Perguntavam por exemplo se a guerra acabaria em breve ou se seria longa. Era evidente que nenhuma vitória seria rápida; a situação era por demais incerta e periclitante e, só a destreza, a astúcia e a sorte, poderia mudar os acontecimentos. Savimbi, afirmou ao soba que um dia, o inimigo iria descobrir que esta aldeia estava a ajuda a UNITA e, consequentemente, ela seria atacada.

«Aquele povo, deveria sem demora, iniciar a armazenar alimentos na mata, para quando chegasse o dia em que tivessem de fugir», frisou Savimbi. Disse que não podia esconder que todos os amigos da UNITA pensassem que nós não eramos capazes de resistir, que estávamos liquidados. O Presidente disse que a UNITA  já não tinha quaisquer aliados efectivos. Teríamos de confiar nos nossos próprios esforços, no apoio da população, nas armas que estavam escondidas e, nas que viessem a ser capturadas… 

tonito19.jpg Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:43
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Sexta-feira, 22 de Março de 2024
VIAGENS . 149

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3560 – 17.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

acácia rubra3.jpeg Algum tempo atrás, desconhecia que podíamos fechar o tempo dentro de casa e, atazanado, comecei a beber dez gotas de cannabis para truncar as vicissitudes, misturando o gosto estranho com kefir, um pouco de café pilão e um pouco de mel com um ou dois croissants para entulhar a malga. E assim, lá pela tarde, na kúkia do sol, meto também num pão tipo da avô os trocadilhos com chouriço e, por vezes pão rust do Calahári…

Intercalando este intróito antes da continuação na descrição da “Grande Marcha  de Savimbi com seu povo” e, porque o tempo esvoaçou desperdiçado, a fim de sentir algum prazer de viver matabichando resiliências e, outros desmandos de tantas maleitas sociais, descrevo isto olhando para as roupas manchadas do tempo a abanar no quintal com os pássaros chamados de  charnecos e melros a alegrar-me com seus voos e seus cantares.

flor de maracuja3.jpg Continuando a epopeia da UNITA, um dia depois, Savimbi ordenou a cerca de vinte soldados, que tinham rápidamente perdido as forças, que voltassem para trás e se juntassem ao povo, que se ia dispersando  da coluna, até convalescerem. Ao fim de mais de um dia, avistaram uma aldeia amiga, na estrada principal. Durante a noite, o soba e os mais-velhos trouxeram comida, reunindo-se a Savimbi na mata.

O soba disse-lhe para descansar ali durante o dia e mudar-se depois, para a aldeia, quando as condições lhe fossem mais favoráveis. Ali ficaram durante dois dias, sendo informados acerca de potenciais pontos e passagem ao longo da estrada fortemente patrulhada. A travessia teria de ser feita aonde os cubanos menos esperassem e, aonde fosse menos provável estarem os seus pisteiros e batedores em acção,

CABINDA3.jpg Tomou-se a decisão de atravessar directamente através da berma da estrada da aldeia com cerca de quinhentos habitantes, protegida por uma paliçada e um posto defendido por dez cubanos e, com alguns soldados do MPLA, colocados nas imediações. «conseguimos ver os cubanos e os soldados do MPLA a movimentarem-se à volta da paliçada, empunhando suas armas», disse Savimbi.

«O soba, porém, disse que eles eram tolos. Nunca se dirigiam à mata a pé e, não supeditariam de nada, desde que não fizéssemos barulho. Confiamos nele porque era um antigo membro do nosso partido». Cerca de uma hora antes do anoitecer, no dia da travessia, dia 22 de Agosto, o soba regressou e disse ter organizado um espectáculo na aldeia nessa mesma noite, para os cubanos da guarnição e, também para o professor da escola, um activista do MPLA  que fora nomeado pelo governo.

ara3.jpg Oito deles, estariam a beber nas cubatas para leste da estrada e, os outros três nas cubatas situadas a oeste. Os homens de Savimbi deveriam atravessar em grupos de quatro ou cinco, guiados por homens das Milicias da aldeia, cujos piquetes dariam o alarme se os cubanos alterassem suas posições. O soba, embora os cubanos não o soubessem, era presidente do Comité civil da UNITA.na aldeia.

A partir do centro da aldeia, as cubatas estavam dispersas e isoladas, numa área de cerca de dois quilómetros ao longo da estrada principal. A vinte e dois de Agosto, á coluna de Savimbi foi reunir-se um grupo de cinquenta soldados, comandados pelo major Bandeira, que fugira do Lobito em Fevereiro e, tomara o rumo do Vale Lungué-Bungo.   Com Bandeira, estava Jorge Valentim, um notável da UNITA.

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:41
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Quinta-feira, 21 de Março de 2024
VIAGENS . 148

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3559 – 15.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI”Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

angola5.jpg Como parte de um rosário feito de búzios e ao jeito de missangas, continuo a descrever realidades passadas quase-quase como se o fossem de um  imaginário tempo, dias de graça com desgraça do já distante ano de 1976, com a “Grande Marcha de Savimbi”. Fazendo fintas ao instinto, driblando premonições entremeadas de medo na busca sobrevivente, olhando o céu  para além das copas a conferir os aviões migues feitos urubus pretos.

E, ouvidos à escuta dos abutres camuflados com  rotativas e tubos de estrias de fazer tiro tenso procurando dar fim a gente; fugir das abertas clareiras é a condição de sobrevivência. Em sua reactividade humana, a esta estória recordo a  frase do espírita pensador Chico Xavier: -Você não pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas você pode começar agora e fazer um novo fim! Desconseguiu-se levar adiante este conselho…

guerra20.jpg Aquela aldeia estava bastante isolada. Nenhuma patrulha cubana ou do MPLA tinha lá chegado, ainda, mas, ao fim de cinco dias, quando a maioria das pessoas já se alimentava com comida sólida, um helicóptero cubano sobrevoou a zona. «Foi apenas pouca sorte», recorda Savimbi. «Embora os cubanos não pudessem saber que lá estávamos, decerto, assinalaram a aldeia em seu mapas e, eventualmente, regressariam.

Em face disto, ordenei aos camponeses que se dispersassem e, encontrassem um novo local para se instalarem». A sua intuição dizia-lhe que os cubanos e o MPLA tentariam cobrir tantas aldeias quanto lhes fosse possível, para o forçar a confinar-se inteiramente às matas. Mais de metade do grupo de Savimbi ainda sofria muito pela exaustão, envenenamento pelos cogumelos e generalizada fraqueza.

ÁFRICA1.jpg Os mais frágeis, teriam assim de permanecer com os camponeses. Quanto aos restantes, Savimbi ordenou uma marcha rápida em direcção à estrada do Bié, que serve Serpa Pinto e, em seguida, prosseguir paralelo a ela, para a área aonde planeara instalar o acampamento de carácter mais definitivo.  Os aldeões cederam dois guias a Savimbi para os conduzirem a um acampamento de guerrilheiros da UNITA, a cerca de trinta e seis horas de marcha.

Uma marcha  pedestre pode ir de quatro a sete horas;  a lenta  pode considerar-se em quatro quilómetros, a rápida com seis e, a  muito rápida com sete quilómetros. Isto dará uma ideia das distâncias, pelo que, 36 horas em terreno limpo significa um dia de marcha rápida. Esta marcha seria feita ao longo de um afluente do rio Cuanza.  Pela logica seguir para montante era caminhar para sul e, o inverso, seria caminhar para norte, no sentido em que as águas correm.

selos8.jpg É muito importante a um guerrilheiro ser conhecedor da topografia da região, saber dos ventos dominantes vendo a inclinação de árvores ou arbustos, o musgo que se acumula nos troncos das mesmas e a ideia correcta de onde  nasce e se põe o sol. Neste caso, se o Cuanza corre para norte, em direcção a Luanda, o caminho do afluente seria nessa mesma direcção pelo que neste caso, seguiriam o sentido sul, contrário da  correnteza,  o rumo à fuga.

O objectivo, era recrutar no acampamento, guias que ainda não estivessem cansados para efectuarem a passagem da estrada. A cerca de trinta minutos de marcha do acampamento, viram dois helicópteros cubanos a metralhar o local e a desembarcar tropas. Savimbi, mudou imediatamente de direcção, cortando a direito para a estrada: mais tarde chegaram até ele notícias, de que mais de trinta pessoas, principalmente mulheres, tinham sido mortas durante aquele ataque.

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:45
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Segunda-feira, 11 de Março de 2024
VIAGENS . 147

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3558 – 11.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

moka27.jpg A maioria de nós já não é capaz de compreender hoje, os grandes problemas morais do Mundo no passado. Já lá vai o tempo em que era só separar o joio do trigo, rezar um pai-nosso ou uma ave-maria para suspender as preocupações circunscritas, porque o longe era-o em demasia e no cercano, o senhor padre ou o kimbanda, comunicava na missa avisos de alvissaras com umas quantas defuntações, pois que sabia de tudo e até sabia encobrir o que era para não ser sabido.

E, afinal não existe "pedra" em nosso caminho que não possa ser aproveitada para nosso próprio uso em crescimento. Muita sabedoria, luz e prudência, é necessária ter para saber o que fazer com cada pedra que se encontre, tornando-as alicerces de nossas vidas. Observe-se que a diferença não está na pedra mas, na atitude das pessoas perante as inerentes coisas! Desta feita a estória da “Grande Marcha com Savimbi” de 48 anos atrás, em Angola  reaviva-se aqui numa permanente angustia, surpresa e penosa admiração :

paulo4.jpg As peles das bagas eram fervidas de novo, juntando a elas folhas de uma outra árvore. A sopa liquida que daqui resultava parecia óleo vegetal queimado e, ao fim de meia hora, deixava  os convivas enfraquecidos, muito mais fracos e inchados. Porém, era uma forma de se alimentarem. Um dos guerrilheiros sabia como colher mel silvestre e, trouxe consigo uma pequena quantidade. Vinoma Savimbi, perita em cogumelos silvestres, conseguir seleccionar alguns.

Porém, cinco soldados morreram envenenados, depois de comerem míscaros, apanhados sem terem consultado Vinoma… Savimbi fez um discurso encorajador  exortando os soldados a não se deixarem render perante a morte, porque o povo estava à espera que combatessem. «Esse foi realmente um momento chocante e assustador porque alguns dos soldados não tinham sequer  a capacidade física necessária para responder ao seu apelo, embora pudesse ver-se que o desejavam».

vumby7.jpg « … Muitos conseguiram  manter-se de pé e dizer que continuariam a combater  mas, alguns instantes mais tarde, caíram por terra».  Apesar de tudo isto, o grupo de Savimbi foi ficando mais fraco, por falta de alimentação. Estavam deitados no chão e, ao sexto dia, a maioria, era incapaz de se arrastar pelos seu próprios meios; porém, nesse mesmo dia, uma patrulha chegou com notícias animadoras.

Tinham descoberto uma aldeia a quinze quilómetros de distância, e os seus habitantes eram de há muito, apoiantes da UNITA. A notícia sobre a existência da aldeia actuou como uma injecção vivificante. O soldados estavam anciosos por estabelecerem de novo, contactos com a população comum. Embora tivessem encontrado  em si mesmos, forças desconhecidas, a jornada de quinze quilómetros, que teria demorado apenas duas horas em situação normal, legou doze horas.

africanos3.jpg Os camponeses vieram ao encontro de Savimbi e ajudaram a levar a coluna para suas cubatas. Afirmavam ter sido visitados por comandantes de guerrilha da UNITA, que os tinham informado que Savimbi estava a ser perseguido pelos cubanos e pelo MPLA. O chefe da aldeia  desenhou diagramas no pó do chão para mostrar a Savimbi como enviar patrulhas, em direcções diversas, para ajudar a desencontrar a coluna do Presidente.

Os camponeses não tinham grande quantidade de alimento armazenados, mas forneceram milho, mandioca e carne de antílope. Savimbi, valendo-se de seus conhecimentos de medicina adquiridos em Portugal, reuniu os oficiais e, explicou-lhes os perigos que corriam ao comer alimentos sólidos, depois de tão grande período de fome… Em seguida Savimbi ordenou aos seus oficiais que repetissem o conselho à população, pelo qual eram responsáveis, utilizando os mesmos pretextos de subsistência.

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:10
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Sexta-feira, 8 de Março de 2024
VIAGENS . 146

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3557 – 08.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

unita04.jpg Na percepção parcial das vitais contingências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que determinam o futuro próximo ou distante. Cada um de nós foi o que foi por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado, nem por onde fazer o rego que influiu na  mudança de nossas vidas. E, lembrando esse passado difícil de Jonas Savimbi e seu povo, algures nas matas do Moxico, relembra-se:

Nas margens do rio Cuíto, Savimbi enviou uma patrulha de batedores constituída por três homens, através da escuridão, para o local da travessia da noite anterior. Nenhuma das três emboscadas armadas pelo inimigo se situava ali, mas, apesar disso, Savimbi estava preocupado com o facto de  o resto da coluna poder cumprir estritamente as ordens dadas na noite anterior, de começarem a atravessar o rio, e de que fossem descobertos .

unita003.jpg Uma patrulha de dois homens vindos do outro lado, tinha atravessado o rio e estavam à espera um pouco mais a norte do local da travessia. A estes, foram-lhes transmitidas novas ordens no sentido de ser abandonada a ideia de atravessarem em massa: a coluna oriental deveria, em vez disso, tomar o rumo do norte, ao longo do rio Cuíto, em direcção à região do Bié e, reunir-se a quaisquer guerrilheiros da UNITA.

Que espalhassem a notícia entre a população de que Savimbi estava vivo e, organizassem a resistência. Todavia, se Mulato fosse encontrado, ele deveria tentar atravessar juntamente com mais vinte homens reunindo-se a Savimbi. Mulato acabou por ser encontrado por um grupo de buscas. Perdera-se ao seguir o rasto de antílopes que ele pensava serem os do grupo  de Vanguarda.

luua24.jpg Mulato, atravessou o rio e conseguiu juntar-se a Savimbi 24 horas depois. «Quando Mulato se reuniu a nós, elevou-se a moral dos homens», disse Savimbi. «Ele era o nosso companheiro de armas e, gostávamos muito dele. O facto de ele estar a salvo, permitia mantermos  os nossos planos inalterados». O grupo era agora formado por 250 homens.

Eram em sua maioria soldados, mas também havia quinze mulheres e dez homens civis, em grande parte, administradores experimentados. O tamanho reduzido da coluna do próprio Savimbi proporcionava certas vantagens. O grupo poderia assim, ser mais facilmente controlado, deixando rastos menos pronunciados e poderia movimentar-se mais habilmente para longe das zonas de maior perigo.

besanga2.jpg A carne proporcionada pelo gado abatido depressa acabou e, a velocidade da marcha abrandou transformando-se numa caminhada muito lenta. Ao fim de uma semana estavam todos tão fracos que Savimbi foi obrigado a fazer uma paragem. Em defesa da moral dos guerrilheiros, o contacto com os camponeses teria de ser restabelecido para se conseguir comida: o contacto era também necessário por razões politicas.

Foram por isso, enviadas patrulhas desde o local em que descansavam, bivacados  na mata, para tentar estabelecer os contactos com as aldeias. Todavia, esta área era esparsamente povoada e, porque os homens estavam muito debilitados, não o podiam por isso, patrulhar a zona a fundo e, não conseguindo encontrar povoados tão rápido como o seria desejável.

ÁFRICA10.jpg Havia pouca caça acessível mas, os guerrilheiros Tchokwes, que eram exímios caçadores há gerações, conseguiram matar um javali. A coluna, esfomeada, comeram não só a carne mas, também os ossos; estes foram fervidos proporcionando uma sopa rala com folhas comestíveis. Sopa de ossos que depois  de amolecidos e esmagados o fora bebida, com sofreguidão. A outra fonte de sustento eram bagas silvestres de cor vermelha  que após o serem apanhadas, eram cozidas, tirando-se-lhe a pele e seu interior que ere venenoso.  

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:42
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Segunda-feira, 4 de Março de 2024
VIAGENS . 145

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3556 – 04.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

mavinga1.jpg Recordando a “Longa Marcha” no ano de 1976, terei de relembrar que tive e continuo a ter com orgulho de exibir, um galo em cerâmica que sempre ficou agarrado à lapela do meu terno de azul diplomático, oferta como se assim o fosse: um louvor medalhado, por essa gentil pessoa, diplomata e guerrilheiro da UNITA com o nome de Alcides Sakala que anos depois, representaria a UNITA em Portugal, sendo eu coordenador da Zona Sul do M´Puto por ele indigitado…

Nesta descrição, andarei um pouco à frente e atrás para inserir o essencial dos problemas que afectavam milhares de seres como eu e, em iguais circunstâncias; gente que quis esquecer e, que acabou mesmo por assim o ser… Perturbado com os punhos no ar e assembleias a toda a hora, em terra de Otelo Saraiva, zarpei, bazei, fugi de licença ilimitada rumando para a Venezuela de Andrés Peres até ao ano de 1982

mavinga4.png Mas, lá longe, a “Grande Marcha” em terras do Moxico, em Agosto de 1976, já quase no fim, tinha sua continuidade. A causa pela qual Savimbi combatera durante mais de uma década, parecia perdida. Durante seis meses, ele fora perseguido e incessantemente acossado través destas vastas matas e savanas de Angola pelas tropas cubanas, por aviões e helicópteros: O inimigo aproximava-se ao entardecer, enquanto ele confortava o soldado moribundo.

Savimbi perdera o contacto com os demais grupos do seu fragmentado exército. Os seus aliados do exterior, em África e noutros continentes, tinham-no abandonado… Savimbi parou de confortar o soldado doente para verificar o estado do resto de seu exército. Uma hora depois de ele ter partido, um oficial de ordens, deu-lhe a notícia de que o jovem guerrilheiro morrera. Pouco depois morreram mais dois guerrilheiros.

paracuca27.jpg A travessia dos quatrocentos metros do canal principal do rio, fora muito má. Os hipopótamos, que reclamavam mais vidas humanas do que qualquer outro animal da selva, tinham ameaçado voltar a única canoa que fazia a travessia em vai-e-vem: apesar do risco de as explosões poderem ser ouvidas por patrulhas inimigas, preciosas granadas de mão tinham sido lançadas à água no intuito de assustarem as feras que resfolegavam.

Contudo a parte mais difícil da travessia, fora feito a pé, mergulhados até à altura do peito, através de trezentos metros do pântano inundado que ladeava a margem leste do rio Cuito. As temperaturas geladas e o avanço penoso a pé esgotaram as últimas reservas de energia dos três homens falecidos. «Não podíamos movermo-nos. Não tinhamos escolha. As minhas tropas estavam exaustas após a travessia e alguns estavam já a morrer», recorda Savimbi.

cuamatos0.jpg«A minha gente estava separada, uns na margem ocidental e outros na margem oriental, e Mulato continuava perdido. Disse-lhes que deveríamos adoptar posições defensivas e, se os encontrássemos no nosso caminho, lutaríamos. Quando o combate começasse, poderíamos ter já recuperado forças; então, a maior parte da coluna poderia fugir para a mata, enquanto os outros procurariam aguentar o inimigo».

Durante a tarde chegaram mais dois helicópteros e, deixaram mais homens, tendo um deles aterrado a cerca de quinhentos metros do piquete de segurança de Savimbi, na orla da mata. Desta maneira, haveria talvez entre sessenta a oitenta soldados inimigos a patrulhar os canaviais do rio. Antes do cair da noite, os cubanos começarem a tomar posições para emboscadas. Savimbi decidiu que a sua gente teria de se afastar da zona perigosa…

Nota: - Com “transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:43
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Sexta-feira, 1 de Março de 2024
VIAGENS . 144

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3555 – 01.03.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI”Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

unita01.jpg Nesta marcha desesperante, eu branco, descrevo-a imaginando-me  a comer raspas de cascas de mandioca, o vai e vem na volta da contra volta,  já cansado de esganar a saudade, de esganar a traição, de esganar a mentira da descolonização, ela, esta coisa, deu-se conta e, sem enfado, muito pausadamente disse-me: - O seu azar, assim quase titubeando a verdade para não se ferir, o seu azar, notei a dificuldade de ir mais além; acenei-lhe assim-assim com o dedo indicador rodando, anda, desembucha! E, repete, o seu azar patrão… o seu azar foi ser um branco mazombo!  E, foi!

Na diáspora, prometi a mim mesmo não me enganar continuando a ser eu próprio peneirando as opiniões, gerindo silêncios e, mesmo estando naquele então no exterior de Angola, fiz trabalho fiel por quem acreditava ser o futuro em Angola. Saí da UNITA mas, ela continuou comigo recordando grandes nomes com quem tive o privilégio de lidar como Carlos Morgado, Kalakata, Alcides Sakala, José Kachiungo Marcial Dachala ou Adalberto Júnior entre tantos outros. Savimbi, o líder, sempre será visto em um leque alargado que vai do génio ao monstro mas, a UNITA foi mesmo seu grande legado: o da liberdade…

guerri3.jpg Mas lá,  às margens do Cuito, em Agosto de 76, Savimbi transmitiu ordens para que eles que ficaram na outra margem, se escondessem na mata; a travessia reiniciar-se-ia na noite seguinte. Foram lançadas granadas para dentro do rio para afastar os hipopótamos e, provavelmente, elas teriam sido ouvidas pelas patrulha inimigas.  Ele temia que os cubanos e o MPLA estivessem na área no dia a seguir.

Na margem ocidental, Savimbi conduziu seu próprio grupo desmembrado através da anhara, deixando atrás de si rastos bem visíveis no capim, coberto de pó e geada. Aqui, de noite, as temperaturas baixam do zero graus; os soldados não tinham fardas para mudar as calças ensopadas em água gelada. Os únicos cobertores que cada um levava também estavam molhados, que para além de serem frios, estavam rasgados. Qualquer um de nós, fica por esta real descrição feito uma pedra de gelo.

unita04.jpeg Assim foi! Muitos estavam enregelados depois de terem passado o pântano com as inerentes dificuldades do rio e, de tal forma que mal podiam falar. «Estavam exaustos, mal alimentados e tinham as faces encovadas». Savimbi continuava a marchar entre a  frente e  a retaguarda da coluna, exortando o povo a seguir em frente, com coragem, em direcção à mata , onde teriam de chegar antes do nascer do sol. Deu ordens à sua ordenança para dar suas roupas de reserva aos soldados mas, seus oficiais superiores esconderam dele um conjunto completo para seu próprio uso.

Savimbi calculara que a marcha através da anhara demoraria cerca de meia hora. Em verdade, demorou três horas, dadas as condições de fraqueza da coluna. Cerca das seis horas e trinta minutos da manhã, quando o sol começou a despontar, estavam ainda a meio do capim, pelo que tiveram de reunir forças extras para correr até à mata cerrada. Mais tarde, nessa mesma manhã, dois helicópteros de fabrico soviético MI-8, chegaram ao local aonde fora feita a travessia do rio Cuito.

piram3.jpg Pairaram a pouca altura do solo e, de cada um deles saltaram quinze a vinte militares cubanos. Felizmente, para a gente de Savimbi, o sol brilhava num céu sem nuvens, secando o gelo que anteriormente tornava bastante visíveis os rastos da UNITA através do capim. Era o dia três de Agosto de 1976 – Jonas Savimbi, um negro angolano, em tempo estudante de medicina na Universidade de Lisboa, licenciado pela Universidade de Lausanne, líder de guerrilha, sentava-se perto da margem esquerda do rio Cuito, no interior de Angola…

Estava-se no solstício de Inverno na África Austral, quando as temperaturas nocturnas  descem abaixo de zero. Savimbi, acalentava em seus braços, um adolescente guerrilheiro que delirava, morrendo de frio e exaustão depois de ter sofrido no corpo a tortura de uma  enregelante travessia do rio, que lhe tolhera os membros.  Não poderia existir maneira mais deprimente de o líder dos guerrilheiros celebrar o seu 42º aniversário… 

Nota: - “Transcrições parciais de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:52
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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 143

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3554 – 27.02.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

mucuisse.jpg Da singeleza de tudo, descrevendo o medo com vontade de viver, risco o  anseio feito odisseia nas desventuras medonhas de um povo seguindo seu líder. É Savimbi que traça suas argutas, astutas de ladinas, premonições para alcançar a liberdade através da “Longa Marcha”. Atravessando rios, charcos e pântanos com sanguessugas e muitas bichezas rastejantes, risco também e, deste modo, o chão das savanas pisadas pela fuga.

Ungindo sem regras no linguajar, revolucionárias só no pensar, despromovo-me num sonho que ainda sobrevive. Nesta vanguarda estética em que as futilidades suplantam o óbvio, passados quase 48 anos, dizer que desgostei ou o inverso disto, não faz parte do meu adeus à estória que inexoravelmente continua… «Podia ter ordenado a todos que continuassem; porém, queria verificar se o piloto tinha conseguido enviar qualquer mensagem pela rádio», recorda ele – Savimbi.

maun08.jpg «Se os cubanos não viessem, era certo que eles não sabiam onde tinha caído o helicóptero; neste caso, estávamos a salvo. Se eles viessem dentro de um curto espaço de tempo, então, é porque sabiam onde fora abatido o helicóptero e, nós saberíamos que eles estavam no nosso encalço com todos os meios de que dispunham, já amanhã». Ao fim de meia hora, os helicópteros chegaram e descobriram imediatamente, o local do desastre.

Sabendo que os helicópteros regressariam às primeiras luzes do dia a seguir, Savimbi ordenou uma rápida marcha nocturna em direcção a oeste. A densidade das matas dessa área dava vantagem aos guerrilheiros, mas estava demasiado escuro porque não havia luar. Por isso, Savimbi teve de ordenar uma paragem. Deu ordens a Ernesto Mulato que fosse à frente e dissesse à vanguarda das tropas para parar também e, assumir posições defensivas para a eventualidade de emboscadas.

ÁFRICA11.jpgA manada, cujo numero baixara para 12 cabeças, de um total inicial de sessenta, não avançou com os guerrilheiros para não se deixar um grande rasto. O boiadeiro, recebeu instruções para espalhar o gado numa frente ampla e, reunir-se mais tarde ao grupo de Savimbi. Após o descanso, Savimbi avançou com o grosso da coluna para se juntar à vanguarda. Mulato não estava lá e ninguém pareceu tê-lo visto. Savimbi ficou seriamente preocupado. Os cubanos poderiam chegar a qualquer momento e Mulato ficaria em perigo de ser capturado.

Isso era particularmente perigoso porque Savimbi tinha tomado a decisão apenas partilhada com N´Zau Puna, Chiwale  e Mulato, de abandonar a ideia de adoptar o Muyé como zona ideal para um futuro acampamento-base , em vez disso, estabelecê-la na área do Cuelei, a oeste de Serpa Pinto. Se Mulato fosse capturado seria logico pensar que seria torturado e, pressupunha-se que, eventualmente revelaria o segredo.

cubango4.jpg Savimbi decidiu avançar mais par oeste: não haveria alteração dos planos durante quatro dias, altura em que se saberia, ao certo, se Mulato se perdera ou não. Os batedores informariam se estavam a ser largados cubanos na retaguarda. Se assim fosse, então Savimbi, teria de concluir que Mulato fora capturado, precisando de traçar planos inteiramente novos. Mais um dia de marcha trouxe a coluna principal para a mata, podendo dali avistar a anhara, bordejando as margens  do Cuito.

Savimbi enviara um grupo avançado de três homens, em marcha muito rápida, para tentarem encontrar uma canoa que servisse para se fazer a travessia do rio com 400 metros de largura.  Existiam problemas, informaram eles. Apenas tinham encontrado uma canoa que poderia levar três pessoas; isto significava na prática que apenas duas pessoas poderiam ser transportadas de cada vez.

papalagui5.jpg Nas proximidades, a leste da margem do rio, existia uma área pantanosa profunda, com Ceca de 300 metros de extinção. Significaria também que o gado não poderia atravessar o rio… Savimbi ordenou que as doze cabeças fossem abatidas e cortadas em pedaços, de modo a que poessem ser transportadas. Estava-se no início de Agosto e, o gado fora a única fonte de alimento durante o último mês de Julho. As pessoas foram transportadas para a outra margem do rio Cuito durante toda a noite. Sucede que quando Savimbi ordenou uma paragem cerca das quatro horas da madrugada, muita gente do grupo estava ainda na margem leste. 

Nota: - Com “Transcrições de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:09
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 142

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3553 – 23.02.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” – Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

lua54.jpg Lá nas matas do Moxico  a “Longa Marcha com Savimbi”, prosseguia rumo a um futuro incerto, permanentemente atentos aos ruídos de helicópteros, escolhendo os melhores rumos de fuga. Quando a coluna se aproxima das margens do rio Gunde, um afluente do grande rio Cuito, todos se sentiram mais aliviados: o MPLA e os cubanos pareciam ter-lhes perdido o rasto e, não tinham avistado aviões desde o dia de partida.

Às margens do rio Gunde, tal como a maioria das margens dos rios angolanos, eram ladeados por anharas com capim de quatro metros de altura e, nalguns locais com 500 metros de extensão. Savimbi mandou parar a coluna na mata e enviou dez guerrilheiros através das faixas da anhara e, através do rio para se assegurar, que a margem ocidental era segura.

moxico2.jpg N´Zau Puna levou também consigo cinco homens através da anhara para a margem oriental a fim de encontrar qual o melhor ponto de passagem para a coluna. Foi quando se ouviu um helicóptero que se aproximava, vindo do sul. Savimbi ordenou de imediato a todos da coluna principal, para que se espalhassem sob as árvores. O grupo de N´Zau Puna começou a recuar da margem do rio para um pequeno grupo de árvores formando como que uma pequena ilha na anhara circundante e, a cerca de duzentos metros do Gunde.

Puna e dois dos seus homens conseguiram chegar às árvores antes do helicóptero pairar por cima de suas cabeças mas, os outros três estavam ainda em campo aberto. Foram localizados e, o helicóptero começou a metralhar a baixa altitude. Os três responderam com armas de fogo ligeiras, tiro tenso e, o helicóptero rodou descontrolado, caiu e explodiu  a cerca de três quilómetros mais adiante.

moxico4.jpg Da sua posição na mata, Savimbi observou o percurso da queda do aparelho. Voou para além dos três guerrilheiros que estavam parados, parecendo dali mergulhar em direcção ao solo, ergueu-se de novo para, em seguida precipitar-se em terra. Savimbi calculou que o piloto teria mantido controlo do helicóptero  até aos últimos instantes: por consequência; decerto teve o tempo suficiente para transmitir para a base, seu SOS.

Teria via rádio, dado a sua posição com outros breves detalhes sobre o que tinha acontecido. Dentro de pouco tempo outros helicópteros estariam no local. «Todos estavam confusos», recordou Savimbi  anos mais tarde. «cada qual davam ordens separadas». “voltem para trás”, dizia Chiwale. “Ide para norte, ao longo da margem do rio”, dizia N´Zau Puna. Eu disse que devíamos seguir em frente, nunca recuar, e ordenei a imediata travessia do rio.

mucuisse.jpg Tinhamos esperado encontrar uma pequena ponte de madeira para pedestres, tipo daquelas que são construídas pelos caçadores locais. Agora não havia tempo a perder. Disse às pessoas que atravessassem em qualquer lugar. «Mergulharam nas águas até o pescoço e, minha mulher, perdeu os sapatos no rio». Tendo atravessado o Gunde, a coluna de Savimbi agora com 350 pessoas, atingiu a mata mais densa a quilómetro e meio para além da anhara. Ordenou a todos que parassem um pouco, dentro dos limites da mata.

Todos nós vivemos em um país, é um facto! É a partir da singularidade legal de uma nação, suas características peculiares e sua identidade conforme a lei que surge o conceito de soberania. Os componentes desta grande marcha buscavam isso! Sua singularidade. Ter uma nação com símbolos próprios com os órgãos instituídos que representassem a sua Nação; com dificuldade, posso imaginar um tal acto de resiliência a pensar numa soberania, visar ter uma identidade naquele espaço no meio do nada, um manto verde onde e aonde, encontrar dois habitantes, já o é: um milagre…

Nota: - “Transcrições de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:43
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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 141

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3552 – 21.02.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI”Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

nasc3.jpgEnquanto transcrevo a “Longa Marcha de Savimbi”  na Luanda de então, a vida mantinha-se claustrofóbica, periclitante e sem saídas fáceis para a província; os corredores aéreos encontravam-se ameaçados. Iam abrindo lojas de kinguilas nos muros de quintais, o trânsito ia ficando já com algum parque automóvel moderno e caro, também muito mais caótico. O  contraste da “cidade capital e o musseque” iam ficando entre o abandono e a  deterioração com amontoados de chapas de zinco e placas ratadas de fibrocimento.

Ainda se podia visualizar entrelaçadas com velhas portas arrancadas de um qualquer armazém as aduelas de barris de vinho “Camilo Alves” idos do M´Puto e até latas espalmadas de azeite galo ou, latas das grandes de  tinta pintal, com ripas de madeira das antigas caixas de sardinha ou atum  importadas de  Portimão do M´Puto. No centro da Luua as caixas de elevadores dos prédios mais antigos, iam ficando atulhados de lixo vasculhado por gatos e ratos com  o mau cheiro inerente…

luanda6.jpg As ruas da baixa da Luua iam ficavam envoltas em nuvens de fumo com cheiro intenso de gasóleo queimado saído dos escapes de geradores construídos a partir de velhos motores de GMCês, Magiros e Fordes e outras ainda não seleccionados pelos cubanos para levar para Cuba; assim, património como coisas de “tecnologia de ponta”, assim consideradas lá na ilha – troféus de guerra para o Fidel. Esta guerra de Angola que nos era servida, não se diferenciava das atrocidades do Corno de África ou das escaramuças do Iraque.

Mas, lá nas matas do Moxico  a “Longa Marcha” continuava com seu líder – o melhor chefe de guerrilha em África. Enquanto Savimbi instruía seus oficiais, o condutor de gado reapareceu como por milagre com a manada de rezes. Savimbi, mandou-o directamente em direcção a sudoeste, caminho que ele pensava seguir com a sua própria coluna. Quando tudo ficou pronto, Savimbi ordenou às colunas de Samalambo e Chimbijika que partissem: a primeira para nordeste e a segunda para noroeste.

Cubango1.jpg Cerca de quatro horas e trinta minutos da manhã, ambas as colunas e toda a gente da coluna de Savimbi, excepto o próprio Savimbi e os cinquenta homens que constituíam a sua retaguarda, tinham partido; a seguir, ele ordenou à retaguarda que também partisse. A coluna de Savimbi não parou de andar até às três horas e trinta minutos da tarde para um descanso, mas já ao romper de um novo dia, os caminhantes ouviram explosões  e  tiroteio na direcção do local de onde tinham descansado na mata.

Os batedores disseram que os cubanos tinham sobrevoado o local, fazendo disparos de metralhadora dos helicópteros. Decididamente, mais tarde os cubanos informaram dirigirem as suas buscas em direcção às colunas de engodo. O resultado do desencontro com o MPLA e os cubanos, resultou no desmembrar a coluna original de Savimbi em cinco grupos. As crianças, as mulheres e a sua  escolta de guerrilheiros permaneceram sem o serem detectados ou molestados durante várias semanas, na que ficou sendo a “aldeia segura” porque nunca o foi visitada por tropas inimigas.

cubango2.jpg O grupo de Chivinga formada por cinquenta pessoas, manteve imobilizadas as tropas do MPLA, precisamente a norte de Chissima; durante várias horas e, até Chivinga ter sido ferido numa coxa: Em consequência disso dispensaram levando o comandante mas, não conseguiram reunir-se às colunas principais, nem mesmo com a coluna das crianças e mulheres. Só meses depois é que Savimbi recebeu mensagens de que as mulheres, as crenças e Chivinga com seus homens, estavam a salvo.

Quanto ao major Samalambo e ao capitão Chimbijika, estes, conduziram as suas colunas de forma segura para longe do perigo. Durante uma semana, a coluna de Savimbi não enfrentou problemas, excepto quando da travessia atribulada do rio Cuanavale: aí, eles tiveram de derrubar várias árvores para construir uma jangada que os ajudou a atravessar o canal de águas profundas. Isto, deixou-os expostos em campo aberto, durante algumas horas, mas o inimigo não apareceu. Aqui chegados direi (do relator): que a logística do MPLA já nesta fase, alegava ser o dono da história seguindo subserviente à mentirosa versão russa.  Isto iria continuar sem se vislumbrar um sine die, com revolta musculada de todo o mundo democrático ocidental – eternas fragilidades das democracias…

Nota: -  Com “Transcrições de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:55
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