Sábado, 2 de Novembro de 2019
MALAMBAS . CCXLI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XXI – 19.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus, AI.IÚ.É - TAMBULAKONTA – Isto é África! O futuro está a ficar doente!

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Os conceitos do mundo actual, valores, crenças e as histórias da avozinha, não são mais as mesmas, dizia eu aos meus companheiros no D´Jango do Mukwé, lugar do fim do mundo e aonde o mwadié Miranda Khoisan, meio carcamano bóher, bivacou nas margens do okavango com toda a sua família depois de perseguido pela UNITA e espirros desclassificados que o apontaram como um informador da PIDE/DGS no já longínquo ano de 1975; ele que sobrevivia como podia em seu mato do Calai, vendendo fuba e peixe frito com carne seca fornecida pelo Fernandes Teles da Chibia, um caçador, recolector de estórias ainda não contadas e, com quem vivi na nossa odisseia da diáspora na Cidade de Bolivar, em terras de Venezuela.

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Minha vida é mesmo um rosário de encontros e desencontros, dizia isto à kianda Januário Pieter que sem se espantar ria só átoa de meu espontânea grito de liberdade sempre condicionada aos desaires da política para onde quer que fosse ou aonde estivesse. Lá na Cidade de Bolivar, as baratas e ratos eram os nossos mais próximos vizinhos. Pázadas de cucarachas eram varridas para o barranco próximo que dava para as traseiras muito cheias de restos despejados a eito… elas voavam e entravam por tudo quanto era canto e recanto, frincha e afins mal caiados. E, o Rio Orinoco ali tão perto.

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No M´Puto, na Venezuela, no Brasil, em Namíbia ou África do Sul e até no escambau aonde judas chorou desesperado com todos nós, mortais filhos da peste que nunca o deixam em descanso. E também em África aonde o ontem fica cada vez mais distante e, o que então era proibido, hoje já o não é. Lugares aonde agora predomina a gasosa e fundamentalmente a postura governamental de BLACK EMPOWERMENT; Isto quer dizer uma política substituição do negro em detrimento do branco.

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Vou vos contar, mas isto não tem por onde se pegar! O branco tem de investir e, quando da necessidade de contratar gente tem por lei de dar trabalho em primeiro lugar ao negro em detrimento de um outro e de outra cor bem melhor preparado para exercer uma qualquer função. Se isto não é racismo selectivo digam-me então o que é? João Miranda disse estar já habituado a este relacionamento; Em tudo há um equilíbrio disse: – Nós, comerciantes, sempre temos de coabitar e ceder benesses às autoridades, um dia é um pneu, em um outro é uma bateria ou umas grades de cerveja de gasosa a troco de tranquilidade.

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No final sempre será o povo a pagar por eles, os que mandam; Os tempos mudam rapidamente e para alguns é de consequências pessoais e psicológicas dramáticas. Na administração Sul-africana os brancos funcionários foram substituídos pelos negros, mandados para casa sem a necessária subsistência aos anos vindouros. Pois! Agora os funcionários bóheres que não acautelaram suas economias, andam a jogar bolas nos robotes, semáforos como os palhaços do circo, para subsistir ao abandono social do novo estado de Pretória.

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Vá-se lá entender a pedagogia de produzir surpresas em novas experiências sociais como esta tão desagradável. A Kianda Pieter mantinha-se ausente neste nosso bate-papo. Olhava de soslaio no ar rarefeito de sua áurea de sabedoria vendo os bois a pastar do lado de Angola, a outra margem que dava para o Dírico. E, num repentinamente fala: - Essa concepção de racionalismo opõe-se à filosofia que professa que as ideias se deterioram quando aplicadas às coisas e procedimentos, depois vem a ineficácia com sequente deterioração na coisa pública e privada.

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Pópilas! Januário falou certo como nem meus amigos sociólogos costumam dissertar. Na contraluz da sorte como se estivesse no “Empera´s Palace” de Johannesburg ouvi o grito de “bingo” quando só me faltavam três números dos nove escolhidos. Era a pizza margarita, ainda fumegando que chegava da cozinha da Dona Elisabette; Meu estômago já titubeava uns gargarejos que subiam ao esófago - esta gente aqui em Sud’África não almoça!?

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O conhecimento da realidade moldada pelas teorias modificam-se assim como numa paisagem vista num nascer ou em um pôr-do-sol, uma kúkia que se confunde pela ordem das razões e nem sempre na teoria adequada. Um bingo! A ordem das razões, valorizam a ordem dos factos em detrimento do bem social. Não há maior religião do que a verdade! Com este pensar de Dalai Lama na cabeça e passeando por África, vi gente branca, (também negros) a pedir nos semáforos, nos parques de estacionamento, um pouco por todo o lado. Trazia na minha mochila palavras de apreço mas, jamais as poderei usar aqui no bom sentido!

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Passeio por terras idílicas que contrastam suas belezas, doirados e arredondados montes com seu verde, flores de Augrabies, penedias com secura e ainda o azul do mar; dos sargaços bailados em meus sonhos como ondas aonde se pode ver o redondo do horizonte nublado por ideias e ideais torpes de governantes perpétuos. Mas estando eu num planalto africano e a mais de 1600 metros de altitude pude em conversa saber que a áfrica fica a cada dia que passa, mais longínqua para os brancos. A estas apreciações Januário Pieter nada diz; na sua qualidade de super-star kianda, não entra nesses detalhes minoritários.

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Levei a cabo a travessia desde Cape Town até à Cidade de Maputo, antigo Lourenço Marques. Passando por Windhoek, Walvis Bay, Victória Falls, Lago Kariba no Zambeze, Tete, Beira, Chimoio, Macia-Bilene e por fim Maputo no ano de 1999. Mas, foi aqui na região da Ovambolândia que atravessei ilegalmente o Cubango numa tosca jangada construída sobre seis tambores. Só queria mesmo pisar o outro lado do sonho e foi quando me encontrei com um velho bosquímano do lado de Angola que fiquei a saber que meu sonho se tornaria lenda. Em uma casa de taipa, um kota costureiro, curtia com serena quietude sem portas nem janelas em chão de areia e, num ar que ziguezagueava frescura entre panos garridos. Não sei como aqueles panos chegavam ali e, saídos do Kongo, talvez um estoque antigo dum Tuga! Na rua de terra, os galináceos picavam reflexos de lama em gaiolas de pau entrelaçado à sombra de velhas acácias. Homens pesarosos, refilavam merdas, só por refilar, descarregavam um velho camião bedford. África, andava por aqui agarrado ao medo da sua sombra. Por vezes, era assim com coisas banais que ocupávamos as vírgulas do nosso tempo no lugar do Mukwé…

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

mlibize kariba1.jpg GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mwadié – Branco; Cucaracha- barata; Kúkia – Sol, pôr do Sol; Mujimbo – boato, diz-que diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato;  Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Tambulakonta – Toma nota, fica atento; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:50
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Sábado, 28 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVII 28.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OTJOZONDDJIUPA DO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos– Perto do Okavango, em Fiume- estado livre,  dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga… Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Andando por terras da Namíbia e antes de chegar ao Rundu, pernoitei no “Estado Livre de Fiume”, uma fazenda quase tão grande como o original Fiume, uma terra situada na Europa, que já foi Italiana, já foi Croata e, desde 1947, pertence à Iugoslávia. Pois isto parece irreal em África mas aconteceu! Dado que os homens para tudo querem explicações, eu também quis saber um pouco da história do lugar aonde passei a noite de 29 de Dezembro de 2014 - cinco anos atrás; surpreendi-me, pois que a este lugar com 14 km2 foi dado o nome de Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.  

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Ora bem, Fiume foi uma cidade-estado da história contemporânea, que existiu entre 1920 e 1924, actual cidade de Rijeka, na Croácia pelo tratado de Paris e integrada na Jugoslávia no ano de 1947. Este Fiume Lodge e Game Farm, mantêm sua excêntrica soberania ostentando a bandeira da Croácia de forma simbólica. Com metade da área daquela parcela europeia tinha Jorn Gresssmann, um jovem alemão como zelador-mor de uns quantos habitantes khoisans residentes e uns quantos turistas ocasionais que por ali chegaram. Por uma noite fui um fiumano…

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Os demais habitantes são bichos tais como girafas, elands, kudus, orixes, zebras, springboks e avestruzes entre outros de mais pequeno porte como a capota. Tive de abrir três portões até chegar ao conjunto de lapas, chalés bem ornamentados e cobertos a capim do okavango formando um complexo de apartamentos e um outro conjunto formando a recepção, bar, restaurante e cozinha. Entre o bloco de serviços e os chalés lapa em forma oval está disposto um agradável jardim com grama e plantas exóticas ornamentais enfeitando o conjunto com piscina, d´jango de descanso, lugar de braseiro e árvores de porte bonito autóctones. 

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É deveras curioso encontrar assim vastos territórios com uma aparente autonomia especial! Já deparei com isto às margens do Orange com um território chamado de Orândia com moeda própria, bandeira e outros requisitos de gestão diferente do resto do país; do espaço casino de Sun City e Pilanesberg com um estatuto especial e do espaço Farm Parys- Free State às margens do rio Vaal perto de Potcheftsroom.

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Em realidade Fiume Lodge e Game Farm é um oásis no meio de um nada, oceano verde de espinheiras, acácias e muitas outras árvores como a tão conhecida amarula e, da qual é de suas bagas extraído o melhor licor do mundo. Até este núcleo habitacional, tive o cuidado de ir a passo de morrocoi - tartaruga tendo-me desviado de um cágado passeando ao longo da picada. A receber-nos lá estava Jorn desfiando seu austero calendário; deu-nos dez minutos para início do jantar que impreterivelmente era servido às sete horas.

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E, foi muito agradável este início da noite, nós comendo um jantar supimpa, deliciando-nos entre outros acepipes com carne de gnu e de eland fechando com creme de manteiga escocesa, assim ao jeito de baba de camelo. Mas, o mais admirável era podemos ver dali através duma larga vitrina os muitos kudus que ali vinham beber entre avestruzes e springboks como se sentissem obrigação de se exibirem a nós. Foi mais um fim de dia com surpresa inesperada, um “enjoy you stay” no requinte da sempre agradável Windhoek lager.

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Mas e voltando à estória daquele espaço, sabendo que entre os cidadãos de Fiume de etnia italiana, um grande número emigrou por motivos étnicos já quase nos finais da segunda guerra mundial; também para fugir às ideologias de Hitler e suas perseguições aos judeus com outras razões ideológicas, que hoje nos causam forte repulsa. E, sendo a Namíbia um território colonial alemão, aqui fundaram suas "Comunas Livres de Fiume no Exílio" e, à qual aderiram numerosos fiumanos; surgir assim de aqui, um território colonial mais brando nas questões politicas, penso eu, neste nome e, num lugar tão distante.

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Tenho a dizer que a todas as perguntas que me possam fazer, não poderei dar todas as respostas porque nem sempre as estórias e lendas, conservam alguma relação com os factos, transformando-se até em puras fábulas, que será o caso de uma Croácia de 14 km 2 em pleno mato na terra do nada, para satisfazer um sonho de alguém fugido da guerra. A tempo de eu ver o principio do nada, tomei o breakfast às sete horas do outro dia confirmando o legitimo cuidado do Free State, uma simbólica herança, um perfeito sonho de um primogénito em terra de nome bizarros como Omatako, Okavarumendu, Otjssondu, Okakamara, ou Otjinoko. Já só restavam 440 km para chegar à Andara do Okavango.

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Estando já com João Miranda de Mukwé relembrando tudo o que vi no Fiume, aventei a hipótese de se nós saídos de Angola, os brancos maioritariamente, tivéssemos um espaço assim em uma qualquer parte do Mundo, Amazónia na cidade de Fordilândia, um Vale do Vaal em Potcheftsroom ou Okavando, numa área como a do Khaudum National Park, aqui bem perto, talvez hoje pertencêssemos a um “Free State”. Isso é muita areia para minha camioneta, diz-me João Miranda. O Mundo não reconheceria tal coisa! Ou reconhecia? Também creio que não, mas seria bem melhor! E rematei: - Os filósofos, necessitam tanto da morte como das religiões porque, filosofar é aprender a morrer entorpecido.

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Para todos os efeitos, sempre seriamos uns carcamanos brancos a rever os cheiros e sabores de áfrica dos negros. Não é isso o que sempre dizem! Dos slogans dos dois países, Portugal e Angola dissipadas as verdades, ouvidos os verdugos, definitivamente a Vitória ficou para alguns e a Morte para os demais. A gadanha da morte feito catana, para muitos, chegou antes do tempo. Por isso a necessidade de filosofar e, porque no consciente do povo subjugado- NÒS, fica a repulsa, nojo, repugnância e asco de governantes que se perpetuaram imerecidamente no poder…

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

okakau1.jpg GLOSSÁRIO: Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Rundu, – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Potcheftsroom – Cidade sul africana; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Undenge ami mu muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:09
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Sexta-feira, 27 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVI27.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos antes e depois do século XX – No rio Okavango, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga… Nossas vidas têm muitos kitukus… um uuabuama da Dipanda*

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Indiferente ao tempo e às nossas vidas, estando num lugar chamado Algarve do M´Puto ou Miranda do Mukwé na Namíbia ou em Chaves de Trás-os-Montes, a maioria do povo bushmen – khoisan, o povo mais antigo do Mundo, continuará a viver em choças, cubatas ou libatas cobertas a capim e, em pequenos aglomerados; por vezes estes sítios encontram-se a centenas de quilómetros de distância da cidade mais próxima. Para sua execução juntam uma boa quantidade de paus direitos e de alguma flexibilidade que depois são curvados e enterrados no solo pelas extremidades.

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Estes são amarrados ao centro com mateba ou outras raízes que se rasgam dos caules, uma tira de casca retirada de uma árvore ou arbusto, mas e, também raízes soltas da areia e, que entrelaçada dela fazem cordame. Atravessando eu o Karoo a Sul do Botswana, no Kagalagedi Transfontir Park, cruzei com khoisans avermelhados e secos de pele, só com uma tanga e taparabo. Nem sei como conseguem aguentar tamanho frio que faz de noite naquele deserto aonde até o vento, nem se vê bulir. A temperatura baixa drasticamente assim que o Sol se põe, podendo ir abaixo dos zero graus.

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Depois de passar Askham ainda na África do Sul e, na estrada R31, pude apanhar um susto quando olhei para o conta-quilómetros e vi o ponteiro demasiado baixo; fiz contas e roguei que encontrássemos uma bomba de gasolina mas, nadica de nada, nem carros a cruzarem comigo! – Estamos tramados, disse ao resto dos passageiros, minha mulher, a enfermeira Tilinha e meus dois filhos na idade da felicidade. Não devia ter dito nada porque de repente todos estavam a fazer figas para que a gasolina desse até o purgatório; Desligando o carro nas descidas e balanceando-o na mente, Nosso Senhor, meu tio que está no Céu ajudou e bem até avistarmos a milagrosa bomba do cú do Mundo e onde Judas perdeu as botas…

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Creio que foi na Via C16 e perto de Aroab da Namíbia que respiramos fundo e de alívio pelo néctar do Nissan 1600. Nosso destino era o cruzamento de Keetmanshoop não muito distante da linha do Trópico de Capricórnio. Percorrendo o deserto do Karoo africano, normalmente vêem-se milhares de acácias com espinheiras do tamanho dum lápis mas, aqui elas eram escassas; havia sim, tufos de arbustos secos junto às pedras, pedregulhos e pedrinhas junto com cactos ressequidos, talvez e em um ou outro sítio a tal planta chamada de shoba…

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Podia ver em 350º, perto e longe morros suaves de um e outro lado da estrada mas, nada de casas, vestígios de gente. De muitos em muitos quilómetros víamos entre um tufo de vegetação, muxito verde, um moinho de vento, daqueles de retirar água do subsolo mas nem gado, nem animais selvagens – um desespero lunar com o calor a desprender-se em ondas do chão. Nestas condições de apaziguar rijezas adversas do mundo, relembro a minha própria singularidade ainda não totalmente definida fazendo-me também num seixo redondo no meio do nada – estou feito ao bife!

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Assim feito seixo embrutecido que rebola no tempo só quando levado pela enxurrada duma mulola penso nas finas e longas varas que formam os arcos daquelas cubatas choças dos bosquímanos, arcos que progressivamente ficam maiores até chegar ao chão. Paus tipo verguinhas mais finas e, que são amarrados aos outros mais grossos na vertical como se fossem os meridianos dum mapa feito mukifo. Na choça é deixado um pequeno rectângulo por forma a permitir a sua entrada e saída – é a porta! Dentro destas terão quando muito umas cabaças de água e umas poucas peles para se agasalharem; não pode ser muita tralha porque em curtos espaços de tempo, mudam de local – seguem o rumo da caça, da sobrevivência, da água e pouco mais para seu sustento.

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Os seus instrumentos são mesmo bem escassos; têm lanças com ponta de ferro como nossos primitivos ascendentes que envenenam com a banha de um verme que apanham ainda em casulo. Chegam a matar girafas com o uso de sua astucia e seu modo felino de andar na mata, pé ante pé e sempre nas mesmas pegadas sem fazer estalar qualquer tronco seco. É mais vulgar usarem lanças e arcos de flechas, transportando mantas para suportarem o frio já referido das noites que chega a graus negativos. Seus pratos são feitos de abóboras e os copos de massala ou maboque. São óptimos pisteiros e conhecedores de raízes cheias de água que espremem para vasilhas ou ovos de avestruz.

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Assim falando com Miranda na borda do Okavango, naqueles dias longos e quentes recordamos vidas e coisas depois das tarefas de todos os dias de malembelembe. Coisas de nossas caixinhas do tempo, muitas fotos, falando até dos bilhetinhos de amores, agora sem mambos nem rancores enferrujados ou bolorentos… Nestes estados de kotas, coleccionamos saudades com se fossem cromos engraçados da caricatura de Matateu, Yauca, do Zé do Telhado ou do Lampião e do Mandrak, mais o Homem de Borracha e o Fantasma. Neste tempo de estupor, terra do fiado “civilizado”, de sem respeito, currículo suspeito, como diz meu amigo Zeca: Oh! N´gana N´Zambi! Hoje nem quero falar da “Batalha do Kuito”…

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Estando eu no Reino Xhoba, reino sem rei com cerca de 100.000 súbditos, pertença de vários países de África não posso deixar de falar deles. Gente de palhotas coma a altura certa de uma pessoa no seu centro. Com tão pouco, pensamos loucuras que nem lhes passa a eles pela cabeça e, naturalmente devem ser felizes pois amam, kohisam e têm filhos e falam estalidos ou gesticulam sons guturais com guinchos e expressões milenares que nos fazem reflectir: -Os sentimentos mais genuinamente humanos sucumbem nas cidades; nelas existem milhares, milhões de seres que se tumultuam num sempre desejar sem nunca se fartarem, padecendo incessantemente de desilusão, de desesperança ou derrota sem se poderem libertar do bacalhau, do pastel de Nata e da televisão comandada por gente gira – gays e afins…

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E, Miranda do Mukwé ri-se que nem um perdido com os meus perfumosos linguajares, meus dissabores e muitas contrariedades dizendo: Tu não és deste Mundo! Deixa lá, eu também não sou - Ambos, somos lendas, remata! Undenge ami um moamba… E, Elisabette, sua esposa, dona das xirikwatas, ri-se com o riso mais lindo da savana. Enredos de uma sociedade de tradições, preceitos, etiquetas, cerimoniais, praxes, ritos e um sem fim de serviços e vaidades. Redobrando famílias, o homem vê na cidade a base de toda a sua grandeza e, em verdade, só nela tem a fonte de toda a sua miséria…

Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

araujo65.jpgMáscara de Costa Araújo

GLOSSÁRIO: Askham - povoação da África do Sul; Aroab, Keetmanshoop - Povoação da Namíbia Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Maka – confusão, rixa, alvoroça; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Xirikwata – pássaro que come jindungo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Undenge ami um muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada...

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:11
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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIV 21.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus…

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soba15.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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TEMPOS PARA ESQUECER – Sentados no alpendre da casa do Mukwé, totalmente feita com madeira de primeira das matas do Cubango, e ainda no século XX, olhando o rio Cubango (Okavango), ao sabor de um café colhido, secado, torrado e moído no local, eu e João Miranda conversávamos sobre a terra de que fomos obrigados a abandonar. Eramos ambos da mesma opinião: Muitos dos “libertadores de 75” os mwangolés de hoje, sonhavam com a casa, o lugar de director, o carro, os privilégios e as posições dos colonos que vendiam peixe frito ou carne seca lá no mato.

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Por vezes em muxoxos, referiam também ficar com a mulher do colono – um desvario alimentado pela midia do M´Puto, pelo MFA e seus generais da mututa. Em Angola “conquistaram” isso, a independência e, tornaram-se piores do que os colonos…Em Kampala, o presidente da OUA, Idi Amim Dada, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP- MFA de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça.

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Em Pereira D´Eça (a actual Onjiva) o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta por ser esta região afecta à UNITA - um povo Ovambo ou Ovibundo. Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas ali sediadas e uma declarada provocação ao Movimento da UNITA. Manuel Resende Ferreira disse neste então: -Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam (uma população maioritariamente branca e assimilados).

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Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito criaram ali uma zona de segurança à revelia de seus comandantes do MFA. O comportamento da UNITA teve forçosamente de mudar de táctica e, seu posterior comportamento no Lubango e áreas do Sul que, levaram a desconsiderar tanto o Movimento como o seu Presidente Jonas Savimbi que por ali esteve em tempos de estudante.

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São aqueles os heróis esquecidos, soldados de Portugal que abandonam o exército comunista Português para protegerem cidadãos e, lutar contra a anarquia comunista. Eu e Miranda ressaltamos bem esta nossa postura; mas, quem éramos nós para vaticinar e politicar a enviesada saída do M´Puto pelos homens que antes tinham sido heróis, como esse do Spínola da banga desmedidamente parva e até caricata, usando luva, monóculo tipo Eça de Queirós, botas de montar lustradas e um pingalim – fetiches de túji que também por vaidade o levou a escrever isso de “Portugal e o Futuro”.

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E, que foi feito do Tenente Fernando Paulo? Pensando nele demo-nos conta que era o fim do império colonial. E isso, nós (Eu e João Miranda) queríamos que acontecesse sim! Mas, e mais mas, tão seguidos mostraram de forma paulatina as feras sendo largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! Tarde piaste! Momentos de muita inocente incerteza; abandonar tudo, entregar a chave do carro ao jardineiro da casa, o cão pastor alemão à Mariana, uma exemplar serviçal ao nosso serviço, na Caála, no Kuito, um qualquer lugar com picada de acesso. E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? Talvez Brasil!? Quem sabe – Austrália ou Argentina!

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As NT - Nossas Tropas, já não eram nossas, davam cunhetes, canhões, paióis inteiros e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina, Nakuru… Mostravam ao MPLA abertamente as fotos aéreas em progressão do “inimigo”; davam-lhe as coordenadas, organizavam planos de voo com dados de meteorologia e até furtavam casas aos colonos e afins em apoio ao MPLA: Isso! Saque dos haveres de colonos que saíam desordenadamente de suas casas, abandonando tudo.

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Uma frieza ímpar na história de Portugal. O MPLA da Luua inventava a maka! E, eram makas sobre makas, paralisações descabidas. Inventavam os pioneiros que eram trabalhados em marcha no esquerdo e direita por jovens estudantes do M´Puto! Estudantes que regressados à Metrópole tinham passagem administrativa garantida; o tal de PREC. Depois o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a vitória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito… Tudo era planificadamente certíssimo! Melo Antunes, Rosa Coutinho e uns quantos mais que ainda não deram à sola pró álem.

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As makas organizadas com o objectivo de criar o caos, originar pancadaria e depois a vitimização com características de sofisticada mentira; meter tudo no barulho, pressionar psicologicamente e criar condições de favorecimento por parte dos militares do MFA, as NT, o CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário. Às tantas, já se fazia tudo às claras. Até o Idi Amim Dada se dava conta de tudo isto! Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Neto (era só mesmo para agradar àquele diplomata da USA…).

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Esse cérebro guia dos demais, chamado de Melo Antunes, foi dizendo a Kissinger que era difícil de classificar politicamente Agostinho Neto como um comunista ortodoxo! Agostinho Neto, à coisa dada (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Mas, que grandes mentirosos! Neto, com laivos de poeta (diga-se de baixo coturno…), dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto, quando em verdade, tudo teve destes (traidores…) Mas que pulha! Bem feito, cambada! Alguns não gostaram, diga-se… Assim e com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos…

fuga3.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Banga – estilo, vaidade excessiva; Tuji – excremento, merda; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Mututa – da bosta, de ralé; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Kapooto – Vinho bolunga feito a martelo, de fermentação rápida com pilhas de lanterna; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Domingo, 22 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XII17.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

 mocanda8.jpg  :::::98

Percorrendo os muxitos da África com a família, passando por tantos desertos, um mundo a perder de vista e cidades desconhecidas do mundo, subimos para norte até o Rundu na margem do Cubango e seguir mais tarde para lá de Catima Mulillo às margens do rio Zambeze. Nós, uns gwetas com olhos de águia, íamo-nos tornando mwatas na interpretação das terras do fim-do-mundo conciliando no antes e no agora daquela região de Okavango. De novo revisitamos as mulembas de N’Zambi com os kambas daqui, mais dali, ouvindo suas falas de espanto. Mostraram-nos aquele arbusto parecido com rebentos novos de loureiro de onde cortam umas varas para introduzir na boca dos sobas ovambos defuntados. Se apontei seu nome, deve estar agora a zunir-me por tal esquecimento

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Sim, lembrei! Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho gorduroso de envolver manteiga no lugar do Mukwé; ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas, águas que dão cheiro à terra fantasiando nossas lembranças – um cheiro difícil de descrever – só mesmo cheiro de chuva. E, foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo.

mocanda41.jpg :::::100

João Miranda, um chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de sua fuga de Angola. Que depois veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1975. Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Disse após longas falas como dando um finalmente àquele passado, falando virgulas desse conturbado tempo. Este lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido empresário, amigo de San Nujoma.

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Este quase lendário homem, pouco a pouco recorda com raspas de esquecimento propositado peripécias e, ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda; Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes. No meio dum rio longínquo chamado Okavango podíamos admirar dum e doutro lado deste, a exuberante verdura, alguns vestígios da base daquela que foi o Batalhão Búfalo nº 32 da África do Sul que é agora uma reserva com esses mesmo nome inserida no Bwabwata National Park.

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No mapa pode ler-se no lugar do Omega Um, Military Ruins – lugar aonde chiam segredos de ferrugem abandonada, coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes, chifres de elefntes e muita aventura em frente dos olhares de hipopótamos. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola. Seguimos viagem rumo a Nascente deixando esta gente que como nós, saíram dessa imensidão de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, Land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.

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Com jeito de filosofia, assim foi dito por Elizabete Miranda sua esposa. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo. Uns salvaram-se na cobardia, outros ficaram heróis chamando a si toda a petulante força de seu poder. O povo – ai.iu.ééé, ficou assim mesmo, pobre! Relembro nestes milhões de espinheiras ressequidas de para além de Okahanja, e Divundo atravessarmos terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá, longe por quilómetros de distância. Casas de colmo ou zinco tendo como sombra as acácias espinhosas; as mesmas que dão sombra aos muitos bichos, felinos dormindo com moscas a perturbar sua paz.

mocanda38.jpg:::::104

Ficou-nos bem ciente que podemos sobreviver aos idiotas e até gananciosos que nos governaram nesses lapsos de tempo e, aqui estamos nós velhos resistentes, a retemperar ideias com a heineken lager beer, balouçando o tempo em uma balsa do Nunda Lodge. Cientes de que não podemos sobreviver à traição gerada dentro de nós, que fomos no tempo assistindo ao movimento de traidores que não o pareciam ser, um deus-me-livre dos mortais, cohabitando com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pêlo. Lugares muito diferentes de Ovambo aonde os guetos não juntam brancos com pretos.

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Sucede que um dia e a convite de João Miranda, assisti bem na margem do rio Okavango (Cubango) a uma reunião de empresários e militares presidida por San Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no N´donga Linena River Lodge, dele desceu um velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser feito de um distinto pau, o mesmo de entalar nos dentes depois de morto. Com seus pés e olhos grandes, caminhou em direcção às autoridades locais, depois veio cumprimentar os convivas e suas visitas aonde me encontrava.

mocanda42.jpg :::::106

Foi muito agradável em suas palavras, sua característica de humilde, postura e atitude. Naquela reunião, referiu a guerra que grassava do outro lado do rio – Angola. Pediu que não dessem guarida aos militares da Unita, tendo mesmo dito aos militares com estrelas que os ripostassem com fogo de morte. Ele era o líder do povo do Sudoeste Africano, (Ovamboland People's Organization) e eu, um cidadão disfarçado de turista caçador de elefantes. Tenho uma foto deste cumprimento, por aí!

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Soubesse ele que eu era um responsável coordenador da Unita no exterior e, teria apontado o dedo em minha direcção. Em realidade era um turista como tantos outros e, nada havia em concreto sobre a minha pessoa a não ser muxoxos escutados pela contra-informação, sem o peso necessário para me apontarem algo. Bem! Também N´Zambi era meu amigo! Assim não sucedeu embora as estruturas de informação e inteligência pudessem saber de algo; minha missão era ver os pontos de reabastecimento à Jamba a partir da Namíbia. O tempo fez diluir estas contrariedades de estar sob escuta mas ficou bem presente o que disse: “Unita soldiers crossing the river, fire on them”; No M´Puto, José Pedro Cachiungo, tinha-me feito advertência de poder ter algumas contrariedades e, mesmo sem salvo-conduto meu comportamento foi de singela observação… Têm mais kitucus mas, o melhor é ficar só assim mesmo!

etosha2.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo… 

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:57
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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017
KWANGIADES . XXIX

NAS TERRAS DO FIM-DO-MUNDO - T´CHINGANGE NO OKAVANGO

Kinga só patrão! Kwangiades são as musas do Kwanza…

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Nos muitos dias insólitos, encontro factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem! A maior parte das vezes são traduzidos com cheiros de África catingados, que não sendo exóticos de todo, são dos mais genuínos perfumes como o cheiro das primeiras chuvas que salpicam a terra da savana no kalahári.

monteiro7.jpg Sucede que um dia e a convite de João Miranda, assisti bem na margem do rio Okavango (Cubango) a uma reunião de empresários presidida por San Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no Ndonga Linena River Lodge, dele desceu um velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser de distinto pau…

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Com seus pés e olhos grandes, caminhou em direcção às autoridades locais, depois veio cumprimentar os convivas e suas visitas aonde me encontrava. Foi muito agradável em suas palavras, sua característica de humilde, postura e atitude. Naquela reunião, referiu a guerra que grassava do outro lado do rio – Angola. Pediu que não dessem guarida aos militares da Unita, tendo mesmo dito aos militares que os ripostassem com fogo de morte.

monangambé.jpg Ele era o líder do povo do Sudoeste Africano, (Ovamboland People's Organization) e eu, um cidadão disfarçado de turista caçador de elefantes. Soubesse ele que eu era um responsável coordenador da Unita no exterior e, teria apontado o dedo em minha direcção. Assim não sucedeu embora as estruturas de informação e inteligência pudessem saber de algo; minha missão era ver os pontos de reabastecimento à Jamba a partir da Namíbia.

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O tempo fez diluir estas contrariedades de estar sob escuta; José Pedro Cachiungo fez-me a advertência de poder ter alguma contrariedade e mesmo sem salvo-conduto meu comportamento foi de singela observação. Para todos os efeitos, era um carcamano branco a rever os cheiros e sabores de áfrica na região Ovambo; usar os olhos, os ouvidos e fotos, seria minha tarefa de xirikwata tal como aquele pássaro comedor de jindungo.

MIRAN3.jpg Para além de ter visto coisas do meu agrado, guardei em mim as falas que ouvi de patrícios e carcamanos embebidas em um tempo que se pretendeu esquecer e, que se colaram a cuspo no subconsciente para não ferir susceptibilidades. O que ficou preso ao meu cerebelo gustativo foi aquele café cheiroso servido a escassos metros da corrente do rio Cunene. Nunca mais esqueci esses momentos de alegria, conversa solta, alegre com estórias, anedotas e bizarrices passados com Dona Elizabete que falava com o gentio com estalidos e João Miranda, o patrão do kimbo.

IMG_20170720_125720_BURST010.jpg Mas a mentira mais descarada que ali ouvi foi a de Oliveira, um amigo que conheci e que ia e vinha até o Mucusso, aonde estava umbigado. Pois um belo dia pensou ter morto uma zebra e, estando a abrir a mesma, depois de separarem seu couro com um rasgão ao longo da barriga, qual é o espanto de num entretanto de distracção ela, a zebra, levantar-se e fugir com as peles a dar a dar batendo-as, como se asas fossem. Esta peta, ouvida com atenção ficou-me entalada na mente ate hoje…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:47
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Terça-feira, 1 de Agosto de 2017
MUJIMBO . CVII
NAS FRINCHAS DO MEU BAÚ . 01.08.2017 - Guetos, somos todos nós, brancos e pretos - José Eduardo dos Santos é um homem banal. Não provoca a ninguém um virar de pescoço quando entra num salão...
Frincha : É a ranhura do tempo...
Por

soba10.jpgT´Chingange

Entre dúvidas escondidas no pormenor de factos conhecidos, dou-me conta que as frinchas, mostram versões velhas a que eu não forço ao pormenor para não suscitar ranhuras com os gigabites alheios, referindo tão-somente o que me parece ter lógica porque, por mais que nos esforcemos, há coisas que sempre ficam na charneira do mujimbo, do boato.

okakau1.jpgAgora que vai haver eleições em Angola, recordo que Jonas Savimbi, sempre recusou o abandono da luta pelo que achava certo, não escolhendo cenários de exílio dourado como outros o fizeram e, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou no seio de sua terra, sua pátria,digo eu num propósito de dialogar com as duvidas de muitos.

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A ela, Angola, tudo deu sem nada tirar, ao contrário de outros com contas, palácios e mansões no exterior e o desperdício de gastos, assim como a compra de um relógio de 500 mil euros por um filho do Edu, o plenipotenciário presidente. Um filho que só se baba de prepotência sem nunca ter trabalhado em algo visível; que nada fez em prol do povo! Fisicamente Savimbi morreu mas, seu espírito está em toda a parte, mesmo fora de Angola! Alguém em seu nome continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma de ser e de estar! Li algures que está enterrado em um humilde cemitério de Luena.

brig4.jpg Um amigo meu do Okavango no seu jeito enigmático de sempre deixa uma prega solta na minha costura frinchada disse: -Ele está vivo! Algures num lugar palaciano e bem protegido; aquilo de sua morte foi uma farsa muito bem engendrada pelas grandes potências. Vejam só o que a mente humana pode arquitectar (penso eu)? O que viram em fotos é uma tramóia muito bem-feita, um sócio de Savimbi e, não é certo saberem aonde ele foi enterrado para evitar um rodopio de peregrinos, disse este meu kamba. Desacreditei disto com um muxoxo fingido de consentimento.

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Não acredito nesta sua versão, disse eu por fim, não tem lógica porque mostraram o corpo dele em várias posições e eu até pude referir em tempos que ele se teria matado pois que na foto de Grande Reportagem do M´Puto podia ver-se um furo em seu queixo do lado direito. Era ele sim! Ele era destro! Rematei em termo definitivo! Meu amigo, deu de ombros assim como dizendo que cada qual ficava com a sua opinião. Não forcei a nota mas, ando matutando em sua fricção; acontece hoje tanta coisa estranha!?

kunene1.jpg As nossas conversas rebrilhando nas águas do Kubango vespertinavam com a kúkia (pôr-do-sol) bem no horizonte angolano e, por detrás de seus brilhos Andamos para trás ou para a frente de forma aleatória e por serem já coisas diluídas nos cacimbos e kiangalas, podemos ornamentar os factos com ausência de espanto; de só mesmo matando o tempo, de só falar ! Recordamos a muita diplomacia lodosa, de quando Jonas Savimbi chamou «garoto» ao então ministro Durão Barroso Esse que esteve no comando da UE.

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Por seu turno, também recordamos quando João Soares, numa entrevista ao semanário Expresso, classificou os dirigentes angolanos como «um bando de cleptócratas»; talvez ele mantenha essa opinião, só que agora com mais fortes razões de o serem! E, as relações escondidas, que o Dr. Soares seu pai já defuntado, manteve confidenciais durante muito tempo, em virtude de «não querer que isso fosse do conhecimento da Internacional Socialista e, onde o movimento da UNITA não era reconhecido».

kunene.jpg Esclarecedor! De quando Mário Soares de visita às Seychelles, em 1995, em conversa informal com os jornalistas, após o jantar, falou de Angola (que visitaria oficialmente no ano seguinte) e sobre os líderes em confronto, emitindo esta opinião: «José Eduardo dos Santos é um homem banal. Não provoca a ninguém um virar de pescoço quando entra num salão. Enquanto que Jonas Savimbi tem uma presença esmagadora! É um verdadeiro líder africano!». Tarde piaste, digo de mim para mim mas, e aqui corroboro com ele! Disse eu ao meu amigo Mac Guiver de faz-de-cota, que me olhou sem espanto!

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Da minha conversa com Mac Guiver, nunca pretendi recolher dados comprometedores com ele e, sempre o vi como um bigfive que nada mais fez do que dar continuidade à sua vida, tal como o fazia na Chibia, do outro lado do Kubango mas, sempre me pareceu ser um profundo conhecedor de todos estes relacionamentos de fronteira.

kunene2.jpg Estava escrito nesta frinchas que a Jamba era o centro nevrálgico alfa no tráfico de marfim, diamantes e madeiras preciosas. Savimbi teve de recorrer a este património mas, o governo mwnagolé da Luua, despilfarrou muito mais em proveito seu, dos filhos e de toda a nomenclatura. Agora, mais kota, recordo que as interrogações ente eu e Mac Guiver faz-de-conta, sucumbiram em sorrisos, um indício de quem sabe, mas desconhece, perpetuando uma amizade de cavandelas...

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:57
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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015
MISSOSSO . XX

ANGOLA . A MÃO DE DEUS no rio dos elefantes. Não há palavras para vos descrever o que senti ali acocorado entre os dedos Dele -  1ª de 3 partes

Por

DY0.jpgDy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa) - Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

dy7.jpg Alguém muito especial disse-me que eu tenho um coração mestiço. Para esse alguém este conto e naturalmente para todos os que gostam de ler os meus contos. Ao chumbar pela segunda vez no exame do sétimo ano a minha saudosa mãe colocou um ponto final na minha vida de cabulice e vadiagem. - Acabou a rebaldaria não queres estudar vais trabalhar que isto não é a casa da Joana. Cocei a moleirinha perante aquele ultimato e não tive outro remédio desatei à procura de emprego. Depois de duas tentativas falhadas por atrasos consecutivos à hora de vergar a mola entrei para a Brigada dos Rios.

dy8.jpg Acho que além do facto de me ter posto neste vale de lágrimas a coisa que mais agradeço à minha progenitora foi por via daquela sua decisão ter passado os melhores anos da minha vida nesses serviços. Conheci o sul de Angola desde a foz do Cunene até ao Luiana, aquela pontinha do território angolano onde o Cuando e o Cubango atravessam para o território Namibiano em direcção ao famoso delta hoje patrimônio mundial.

dy9.jpg A instituição hidrográfica iniciou a sua actividade sob o comando de um oficial da marinha. Homem duro, militarista que desde o princípio dirigiu o grupo de trabalho civil à boa maneira militar. Com ele vieram de Portugal, motoristas, mecânicos, desenhadores, hidrometristas sem curso e de natos em Angola entrei eu e o caçador guia Monteiro Ferreira natural do Cuchi, grande amigo que muito me ensinou sobre o mato africano o seu fascínio, os seus perigos e segredos imemoriais.

dy11.jpg Era impossível deixar de sentir a forma quase discriminatória como fui tratado inicialmente, quase como um parolo ou uma criatura de condição inferior. Com andar do tempo toda aquela gente acabou por se aperceber que em Angola havia bons topógrafos, magníficos mecânicos capazes de resolver uma situação complicada com um bocado de arame, sabão para tapar buracos no radiador ou duas malas de peixe a servirem de macaco, e que não éramos propriamente macacos.

(Coninua...)

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:25
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Terça-feira, 19 de Maio de 2015
FRATERNIDADES . LXXXIII

EU E MERYL STREEP. Às margens do Cubango, no Divava Okavango Lodge e Spa envoltos num verde paradisíaco.

Por

soba0.jpeg T´Chingange

div00.jpg Uns tempos atrás quando eu ainda era um galã de corpo inteiro, tinha todo o cabelo, não tinha pintas escarafunchosas pelo corpo e era poliglota, estabeleci uma amizade com Meryl Streep. Ela andava disfarçada em gente comum sem paparrazes em terras de áfrica bem no Okavango em um resort de 5 estrelas chamado Divava, um especial lugar de sarar as feridas do corpo e da mente. Eu, simplesmente apalpava as medidas da natureza do Senhor, daquelas alheias ao homem e, foi no envolvente verde daquele paraíso que ela me disse coisas que não mais esqueci. Eu ouvi embevecido e a elas, as plalavras, fiquei preso, fascinado. Para quem só ia desopilar e ver os demais animais da natureza eu, deslumbrei-me demais naquele palafito do Divava Resort em terras do Divundo. Do que ela me segredou tento lembrar-me da forma que me parece mais verossímil.

div01.jpg Olhando o outro lado da Faixa de Caprivi ela falou bonito: -Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Eu, timidamente com meu chapéu de caçador desbotado a tapar-me o semblante, fiquei todo ouvidos. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular, disse ela. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Queria ficar sempre por aqui e, fez-se uma longa pausa.

div1.jpg Pareceu-me ter engolido em seco, se chupou algo, terá sido um caroço de tarmarindo porque fez um esgar engelhado não muito habitual. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Ao dizer isto para mim, um quase desconhecido fiquei embevecido; mas era por isso que ela desabafava para mim tão só e carente; sinceramente, tive pena dela e vi o quanto as pessoas célebres têm destes comuns problemas; partiu-me o coração, ainda anda partido!

div2.jpgE, continuou falando comigo que feito só olhos e orelhas, fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas. Talvez eu, um tratador de hipopótamos estagiário, fosse para ela forma de espanejar angústias, claro que muito diferentemente do hipopótamo que para marcar suas posses expande sua caca ao redor. Mas voltemos a Meryl Streep na primeiríssima pessoa: - Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais.

div4.jpgE acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência. Posso dizer-vos em segredo que neste entretanto, deixei cair uma descuidada lágrima; ela vendo isto, abeirou-se e deu-me um beijo no rosto. Durante uma semana não lavei minha cara do lado direito porque dela desprendia-se um cheiro de alfazema celestial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:31
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Quarta-feira, 11 de Março de 2015
MALAMBAS . LXXV

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Guetos, somos todos nós, brancos e pretos …

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba0.jpg T´Chingange

sava4.jpg No decorrer da guerra civil que se seguiu após os gritos de Agostinho neto em Luanda, MPLA é o POVO, o POVO é o MPLA e, a LUTA…CONTINUA, assim foi por longo tempo. “Durante esses longos anos, quantidades indefinidas de pedras preciosas, milhares de animais liquidados, elefantes e rinocerontes, milhões de toneladas de madeira foram traficadas de Angola, serradas em tábuas numa serração pertencente à InterFrama, em Bwabwata. Milhões de árvores foram derrubadas nas savanas do Cuando Cubango para traficar madeira, uma catástrofe ambiental sem precedentes e que também ficou sem castigo."

sava1.jpg Parte dos diamantes viajavam no avião de Joaquim da Silva Augusto, considerado um dos homens mais ricos da África do Sul. Tinha uma cadeia de supermercados e um grande armazém no Rundu, cidade fronteiriça com Angola tendo o rio Okavango de permeio, ponto de partida para os abastecimentos logísticos à UNITA. No rasto das memórias lembra-se que “foram liquidados 100.000 elefantes para ajudar a financiar a guerra”. As presas dos elefantes e os chifres dos rinocerontes foram armazenados na Jamba. As máfias colocavam o marfim em Hong Kong, os diamantes em Pretória e na Europa e a madeira preciosa na Namíbia.

sava7.jpg Os turistas da Jamba, entre os quais a família Soares, e os seus “embaixadores”, entre os quais um comerciante português, Arlindo Manuel Maia, dono de uma empresa de transportes em Joanesburgo com “filial” no Rundu. Outro comerciante nestas lides de contrabando, era José Francisco Lopes, com escritórios no Rundu e, tido como multimilionário. Isto que já se tornou público, poderia até ser falado com meu amigo João Miranda do Mukwé mas, a propósito, não quis penetrar em periclitantes caminhos respeitando a ética de quem sempre me recebeu de braços abertos, um homem do mato que me merece todo o respeito; em suma direi que simplesmente não quis bulir com antigos constrangedores fantasmas.

sava3.jpg A Environmentand Animal Welfare explicou que o contrabando de marfim se fazia através da Faixa de Caprivi. O coronel Breytenbach teria denunciado isto: “descobri uma máfia que contrabandeava  dentes de elefante e chifres de rinoceronte, diamantes, madeira e droga”. Uma catástrofe ambiental sem precedentes."

(Fim do tema guetos…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:02
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2015
MONANGAMBA . XXV

CICATRIZES DO TEMPOFaz parte da herança termos em nós as antigas culpas de Adão e Eva 

- 1ª de 2 Partes

 Por

soba 0.jpg T´Chingange

mona0.jpg Terminei de ler o livro do evangelho segundo Jesus Cristo na versão de Saramago; melhor dito, comi-o ao longo de muitos dias, lendo e relendo, mastigando devagar até digerir por completo a dialéctica que muitos dizem dar cólicas de barriga e no cérebro. Porque foi suave a leitura, não tive nenhum desarranjo e, talvez porque entretanto fui comento uns tabaibos, alimento predilecto do Xirikwata (Thirikuata), um pássaro do sul de Angola que tem cabeça negra e uma popa vistosa. Um pássaro com penas amarelas nas asas e com um cantar de feitiço na forma de Sacanjuere do Huambo; enfim, um fantasma que sempre aparece encantando-me e até inspirando-me a escrita. É provável que seja Januário Pieter a minha kianda espirito na forma de pássaro! Tão longe do seu habitat habitual leva-me em crer ser uma kianda matumbola em terra da Namíbia. Escuto-o enquanto os soldados de Roma juntam os pés de Jesus, rei dos judeus martelando um único e comprido prego artesanal.

mona3.jpgRefere no livro de Saramago ser desta forma como medida economicista, pois que nesse então os pregos eram forjados, aquecidos e batidos com macetas até ficar com forma pontiaguda e suficientemente cumpridos para tal efeito. A cruz foi erguida entre duas outras com dois moribundos já pregados a elas; estes choravam com entrecortados gritos sustentados na cruz da mesma forma de Messias. Neste final de vida e com apena trinta e três anos Jesus, rei dos Judeus, filho de Deus e de Maria quis ir para o reino do Pai abandonando os demais que dele fizeram a figura principal no mundo conhecido como o Crescente Fértil, Samaria, a Mesopotâmia Galileia ou Vale do Jordão; terras de Jerusalém e Palestina; terras que ainda continuam nessa antiga convulsão.

mona4.jpgMesmo que tantos se indignem com esta forma de escrita do Nobel escritor, sabemos ser verdade que morreram e morrem ainda nos dias de hoje muitos cristãos passados que são 2015 anos. Estando eu em terras aonde os pais dos pais não eram conhecedores de Cristo, terra de kamessakeles, Hereros, Makankalas e Bosquímanos, gerações milenares em geral e, fico entre o limiar do absurdo no pensar sem charneira de que tantas e cruéis mortes por decapitação continuem em prática. Sempre comparo estas duas culturas e não chego nunca a uma conclusão! Será que tenho esta propensão a ser um eterno matumbo (burro)! De como as torturas de inquisição, novas formas de cultura que originaram templos, santuários, ermidas, leis e peregrinações mantendo as crenças, as parábolas, lendas, profecias, rezas e ordenações a que ninguém é permitido fazer todas as perguntas e, a que ninguém pode dar todas as repostas.

Monangamba - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:18
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS LXXI

OKAVANGO - Nos ocultos mistérios do canto Xirikwata

Xirikwata é um pássaro do Cuango Cubango

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

mal0.jpgDas muitas anotações e escritos em registos de memória de meu safari Xirikwata por Namíbia, ficaram por publicar textos e, já longe dali, recordo as gentes maravilhosas que me proporcionaram dias de Xirikwata. Assim irei chamar para lembrar as falas de Elisabeth Miranda que com entrecortados risos, muito recordava seus passados dias do outro lado do rio Okavango, um lugar chamado de Dirico, em Angola. Estando eu no alpendre de soalho e tecto em madeira da Guest House Willtotop de Vanda Potgieter, pude repensar em fim de tarde os últimos dezoito dias percorridos entre Okavango na Faixa de Kaprivi e os desertos de Swakopmund passando as quenturas agrestes dos morros de Ozakos e Kiribib.

mal01.jpgMilhões de espinheiras ressequidas de Okahanja, terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá longe por quilómetros de distância, situadas debaixo de acácias; Farmes quase invisíveis aonde só o depósito de água ou o moinho de vento se vêm tremelicando nas onduladas quenturas; rodando ao vento vindo por detrás dos morros da Costa dos esqueletos, chiam segredos de ferrugem mal oleada em permanente lamúria de vida. Pode ver-se orixes e avestruzes bordeando as áridas terras aonde até o deus-me-livre dos mortais, tem de coabitar com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pelo dum careca. Lugares muito diferentes da região Ovambo ao Norte aonde os guetos juntam brancos com pretos.

mal02.jpgFoi possível reconhecer em mim neste roteiro cinco marcas de destino, uma surpresa, uma curiosidade, saudade, benevolência e alguma temeridade. Também senti um desassossego de excitação inquieta nos porquês mal respondidos e, que só África nos transmite; há fogos em guerrilhas escondidas com vinganças incompreendidas, queixas e gemidos, quiçá chorando nova dores, quebrando os hábitos dum quotidiano em noites de espaços perdidos. O que foi e, como foi que aconteceu, é uma ideia que sempre nos acode e adianta ao acontecido. África é imprevisível na soma de angústias, incêndios com sinais de pavor, traficâncias com segredos de podridão.

mal03.jpegO que fica! Talvez um efeito de milagre no renascer da fé e o amor que podem muito; embora saibamos que nem sempre a fé e o amor juntos, tudo podem! Deus não se vai fiar em qualquer um, por muito boas que sejam a recomendações. Esta temeridade, advém de coincidências da África, de guerras subterrâneas do poder, do branco e do preto, das coisas que dão zebra; coisas dos últimos e antigos tempos e embora seja cruel deixar os kotas velhos sem resposta porque as pessoas, genericamente, não escolhem as sombras que têm e, também porque o amanhã não pertence a ninguém! Isto acontece! Em África tudo é possível.

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:23
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LXX

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Quando tudo nos ultrapassa no tempo, apalpamos as medidas da natureza, sarando as feridas da mente e do corpo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpg T´Chingange

cu0.pngNas longas e quentes tardes do Kavango eu e João Miranda deitávamos conversa fora na companhia de frescas cervejas taifel, heineken lager ou windohek lager beer recordando coisas já conhecidas sem nunca formular perguntas embaraçantes. Das ligações perigosas recordou-se o que nesse tempo era dito da família Soares do M´Puto pelo jornal oficial de Angola nos momentos mais quentes da guerra com a Unita e, em que Mário Soares é injuriado: “É mesmo um boelo (burro, em kimbundo) esse bochechas. Nem vergonha tem naquela kalanga (cara) por tão grandes desavergonhices que estampam o seu mau carácter e maldade.

cub02.jpgO ministro angolano da Comunicação Social, Hendrick Vaal Neto, acusava Mário Soares e seu filho João (na altura presidente da Câmara de Lisboa) de «beneficiarem do tráfico de diamantes». Entretanto a UNITA chamava de “criminosos de guerra” a Almeida Santos, António Guterres, Jaime Gama e Durão Barroso. Em 1988, no Palácio de Belém, Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, agracia com a Ordem do Infante Dom Henrique o empresário Horácio Roque, cuja mulher, Fátima Roque, acompanha Savimbi num périplo por vários países. Só em 1992, pela primeira vez, é que João Soares se demarca de Savimbi ao certificar-se de que este mandara fuzilar os dirigentes da UNITA Tito Chingondji e Wilson dos Santos.

cub3.jpgEm politica, mesmo aqueles de quem se pensa serem estadistas, cada dia é um novo dia, tendo outros interesses por detrás daquilo que nos parece ser verdadeiro! Entretanto continuando a conversa, já depois da guerra acabar, João Miranda é convidado a abrir um estabelecimento na capital do Kuando Kubango, Menongue mas, depois de concretizar o envio de géneros de primeira necessidade para um super mercado, vê-se na periclitante situação de ficar sem nada pois que os senhores da nomenclatura local, cada qual tratou de se apetrechar desordenadamente, remetendo o pagamento para o estado, uma coisa assim parecida como um saque.

cub01.jpgDisto, nada vim a receber! Disse Miranda já muito habituado a estas truculências de dirigentes mwangolés. Como tudo é tão feito em cima do joelho, disparo eu, confundido na ética de ordem e progresso e, sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas! Isto é mato, amigo! Rematou Miranda como um finalmente àquele dia…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:44
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015
MALAMBAS . LXIX

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Quando tudo nos ultrapassa no tempo, apalpamos as medidas da natureza, sarando as feridas da mente

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu.jpg T´Chingange

ana maria 15.jpgLá atrás em Andara do Okavango, a uns 1250 quilómetros de distancia, tentei dizer ao meu amigo João Miranda, o chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério, que não fizesse da minha imperfeição sentença, nem de suas façanhas virtudes, porque tudo nos ultrapassa no tempo e, porque o passado tem a cada segundo um novo agora na conjugação. Fui e vim em paz e, ali permaneci por catorze maravilhosos dias, acolhido como um príncipe que na companhia de sua princesa evitaram dispersar-se nos trilhos das interrogações; fora de portas respeitando-nos em mútuos silêncios evitando até, alvitres.

africa16.jpgMesmo naquele lugar de fim do mundo e sem profetas, deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda, o quase lendário homem da mata, pouco a pouco recorda peripécias ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda, fazendo parte do batalhão Búfalo da África do Sul. Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes. E, que apenas os homens da FNLA foram cumpridores na gestão dessas áreas que tinham sob sua protecção.

kuito 1.jpgQuanto à UNITA, só fez desacatos em actos de selvajaria, mortes sumárias, muita desordem e falta de comando aliada ao tribalismo e racismo, um procedimento contrário e até desnecessário ao que seu líder Jonas Savimbi preconizava. Este pormenor de procedimento, verificou-se mais drástico na região do Lobito por questões de mando com gente impreparada para esta tomada; pessoalmente desconhecia esta gravidade. A Batalha de Cuito Cuanavale ocorreu entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de março de 1988. Foi a batalha mais prolongada que teve lugar no continente africano desde a Segunda Guerra Mundial; foi também o ponto de viragem decisivo na guerra que se arrastava há longos anos originando a aceitação dos Acordos de Nova Iorque, dando origem à resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU. Esta decisão originou a independência da Namíbia e o fim do regime de segregação racial vigente na África do Sul.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:57
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Domingo, 25 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LX IV

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Apalpando as medidas da natureza, sarar as feridas do corpo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Deixando-me ficar deitado na rede e no d´jango ao lado do Okavango, suspendo os pés de fora gozando a frescura do rio que salpicando-se na correnteza continua sua marcha levando seu divino liquido, seu divino cuspo a untar terras, cobrir vastas regiões do delta do Okavango no Botswana matando a sede a milhares de seres “big five”, e outros menores, sarando suas feridas, originando novas crias, novas vidas, um encontro de verdades, de sobrenaturalidade, lugar de sentidas ausências, de solidão com chilreios e urros, heranças de barulhos com pesadelos e pensamentos obsessivos.

:::::

 Porque estou eu aqui, fugido de casa como uma condenação sem definitiva ou suficiente salvação como que, simplesmente a sarar as feridas do corpo, dilatando no tempo as intenções de filhos, seus anseios, sua felicidade, a permanência com o varão primogénito, suas indecisões, turbulências e devaneios, apalpando as medidas da natureza do Senhor, daquelas alheias ao homem e, porque cada um tem de viver o seu destino procurando os carreiros por onde se levar e, para onde há-de levar suas acções, suas palavras sem certificados ou procurações de intenção e pretensão.

 Sem comentários descabidos ou ácidos como de quem já se presume saber de tudo e recordando que não precisamos de andar nós à procura de Deus se Ele estiver decidido a encontrar-nos, num pois sim, num pois não, nenhuma salvação é suficiente se qualquer condenação for definitiva. E, um dia após o outro, sempre tudo muito igual ao ontem e anteontem, sem os espírito sossegado num lugar do amanhã, porque voa de nós e paira, e ora longe, ora perto sem posição, sem costas nem frente, numa ânsia que se atola no pensamento. A dor de dentes surge, incha, dói, toma-se antibióticos, anti-inflamatório, aspro, gengibre, alhos, uma dor da frente, dor nas costas por dentro e por fora, uma dor sem fímbria, um isso passa!

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:50
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXIII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . No rio Okavango, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga, odor em tudo igual a todas as outras catingas…

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Em busca da verdade, muitas vezes acontece-nos não fazermos perguntas por ainda não estarmos preparados para ouvir as respostas e nem sempre o é assim porque simplesmente, por vezes sentimos medo a elas; podemos enumerá-las ou até suspirá-las mas, todo o ser humano em alguns momentos de sua vida têm coisas boas e outras más que se enfileiram ao jeito de missangas atrás uma das outras, um rosário do tempo e através dele que como um terço, rezamos ou fingimos rezar porque como se diz, atrás do tempo vem o tempo e depois da tempestade vem a bonança.

 E, porque se diz que a justiça é cega, surda e muda, pelo que se sabe também anda meia calçada e meia descalça para fingir que agrada a humildes descamisados e ricos encoirados. Mas, pelo sim pelo não, usamos amuletos da sorte para nos enganarmos nas figas, no corno, na meia lua, na estrela de David penduradas ao pescoço ou uma ferradura velha de burro ou cavalo, pendurada do lado detrás da porta de entrada de nossas casas. Por via de duvidas também usamos amuletos da sorte na forma duma nota de dólar, um santinho, uma qualquer nossa senhora da aparecida mais responsos escondidos em forros de malas e maletas. Até uma vagem envernizada de feijão maluco serve para o efeito! O místico junta-se com a Cruz e o Cristo numa caixa, asfixiando-O o tempo todo e, sempre picado em sua coroa de medonhos espinhos com um credo na ponta das falas, um cuzcredo (!?) com interrogação e exclamação juntas.   

 No meio da algazarra das palavras, dos apelos, dos gritos ou cânticos, haverá sempre uma insatisfeita curiosidade, perguntas sem respostas ou maneiras mentirosas de dizer a verdade; verdade que nem sempre achamos lógica ou patética nem sempre merecedora de ser levada ao cutelo ou ao fogo da veracidade porque, simplesmente nós não somos guardiões nem usamos beber do crime no rio da vida. Amolecendo a preguiça num chinxorro, rede a trinta metros do rio Okavango ou Cubango, do outro lado Mucussu, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga, odor em tudo igual a todas as outras catingas dos negros corpos de África.

 E, assim, aqui estou de livre e espontânea vontade como um emigrante e muito enfeitiçado pelas gentes acolhedoras; gentes que como eu, saíram dessa imensidão dos matos de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo.

O Soba T´Chingange    



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:40
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015
MALAMBAS . LXII

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo

MALAMBA: É a palavra.

Por

soba eu 2.jpeg T´Chingange

 Aos velhos será cruel deixá-los privados de respostas e será de bom senso até, não se lhes fazer perguntas de passados não amistosos porque dos muitos dias, das muitas noites, das muitas injustiças pode sem se querer saírem à luz do tempo a mostrar as gigantescas presenças de feridas mortais. E, daí abrirem-se gavetas com choros ranhosos, ou mesmo gavetões, com ossários feitos pó. Que importância terá, saber-se agora e, aqui em terras do fim do mundo se a mulher de Lot em Sodoma, ao olhar para trás se transformou em sal-gema ou sal marinho ou, até saber se a embriaguez de Noé, foi de vinho branco ou de vinho tinto; os kotas mais-velhos daqui nunca ouviram falar dessas coisas e, afirmam que os pais dos pais deles, nem nunca falaram em Jesus de Nazaré.

  Peneirando no tempo as ténuas memórias, dos acontecimentos, apagando os rastos dos passos que aqui nos trouxeram, sempre acabamos por remover os ossos do passado e, mesmo espreitando pelo postigo da memória antropológica só graças à debilidade desta desejamos até, fazer de tudo um romance condescendente sem alvoroçar espeleólogos, ou os espíritos com malévolas insinuações, esquecendo as leis não cumpridas guardando os preceitos dos paleontólogos rebuscados na terra da promissão, por etnólogos e outros afins descobridores de pegadas, cheiros encarquilhados misturados com iões ou densidade molecular dos anos na leitura de carbono e edecéteras complicadíssimos.    

 Baloiçando-me no d´jango da Kikas Vanda Miranda Potgieter, muito perto da árvore m´vuluvulu do kavango, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços do povo Ovambo. Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito só sua; e até, muitos haverá, que não acreditam que seja aquela a sua verdade. Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade.

Nota bibliografia; contêm esboços de pensamento a partir do evangelho de Saramago

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:54
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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