NAS FRINCHAS DO TEMPO
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3529 – 16.12.2023
“Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”
Às margens do Cubango - Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018
Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto
Os meios aéreos para fazer chegar a Luanda os refugiados do Lobito, Benguela e Moçâmedes, sendo insuficientes, o Comando Naval arranjou meios marítimos para fazer chegar a Luanda os cerca de 250 mil cidadãos brancos (maioritariamente) mas, tendo também milhares de mestiços e negros; enfim! Seguiam todos aqueles que o desejassem!
Na vinda ou ida dos refugiados de um para outro lado (como kissondes) mas e, principalmente para os lugares de embarque da Luua, praticamente não havia triagem; o controlo era precário. Nunca pude entender esta falta de cuidado na logística das coisas. Não havia tempo para decidir de quem estava ou não nas condições de perseguido, refugiado ou o que quer que fosse.
Não importava ser-se quem era e de onde vinha ou do porquê de estar ali. Era tudo ao monte e fé em Deus num sofrível seja o que Deus quiser, aos magotes com o natural berreiro e choros de adultos e crianças, ordens e contra ordens desencontradas ou nem tanto. Cães, gatos e outros animais de estimação foram largados ao descaso como heresia apócrifa!
Era mesmo um Adeus dado aos trambolhões às coisas, à casa, ao carro chevrolette, ao motor da GMC a fazer de gerador, dos gansos guardadores, mais o pavão e as galinhas fracas debicando miudesas debaixo do DKV. Ele, Deus, era só uma questão de fé interior, a vontade de querer e acreditar, mas Ele não surgiu a muitos; a lei da vida e da morte era um traço disforme, desfeito em cotão a confirmar que só somos enquanto somos, uma ilusão!
Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muitos mais; mas aqui não havia fracos ou fortes, só deprimidos… Num repentemente viramos escarro, nada ou ninguém - triste; cada qual cuspia para onde quer que fosse que nem monandengues. E entre estes, até surgiam rufias catadores de desaconchegos, gente do MPLA usando prepotência.
Aqueles rufias, para além dos cigarros, exigiam com um extremo desprezo tudo o que lhes aprouvesse, pedindo relógios ou valores para se ficar sem dissabores nesta hora de partir; uma forma de pressionar o medo ou resquícios de ódios. Havia uma restea de ordem por alguns militares de Nossas Tropas mais conscientes! Valha-nos isso porque nem todos viam este desmando na forma do PREC, dos guedelhudos do M´Puto às ordens do diabo.
As leis, as atitudes, o MFA, nossos patrícios do M´Puto, os generais de aviário, mesmo que absurdas, já nos parecia tornarem o impossível em admissível e hoje, que penso muito e rezo pouco, recordo isto, procedimentos sem que ninguém averiguasse as diferenças aturdidos por pudor. Pudor, palavra complicada de entender - qual pudor qual quê!? Era um acaso feito lei, ali…
E, a frio, ora marcial ora uma prepotente aberração feita de coisa feito gente, drogados no cérebro, nas kinambas ou nos calcanhares. Nesse então, nós gente desavinda, podíamos ver já a força da crise com roubos subtraídos pela lei dos homens, pelas nossos guardiões militares com seus amigos, nossos algozes – o MPLA, sem lei - nem velha nem nova ou tampouco ordinária ou arbitrária, nenhuma! Um salve-se quem puder! Mas, ainda há quem use paninhos de flanela para amenizar o inadmissivel…
(Continua…)
O Soba T´Chingange
T’XIPALA DO M´PUTO - UM JACARÉ NO CAMINHO
FALAS, SÓ ÁTOA
Mau-olhado - Crónica 3417 – 08.06.2023
Por T´Chingange (Otchingandji) no mukifo do Conde do Grafanil
Desfragmentando o meu disco a fim de dar arrumo a todas as mokandas, cheguei a uma amalgama de inventações que o passado escorregou no fermento duma história de diáspora, que não quer ficar esquecida. Meus pais iam ver seu amigo Boni Boni; amigo, era assim mesmo que também me tratava! Ele, o branco mais preto da Catumbela, falando, em prosa, em gíria e na contraluz do discurso directo, arrevesava os verbos do seu jeito jeitoso. Foi quando, numa altura que só chovia, chegamos ao rio Catumbela que tinha jacarés pra caramba, parecendo pedras com olhos reluzentes.
Eram tantos que por volta de 1949, eu ainda era um pivete candengue, após chegar vivendo uma enchente; vou contar mais ou menos do jeito que eles lembram: “Os Bonis”, conhecidos de meus pais e, que no tempo foram ficando amigos, até que tiveram de fugir em um dia, às águas barrentas com jacarés boiando só átoa. A casa com o nome de “SANTI” feita de adobe ao jeito de taipa com ripas cuzadas e barro chapado com mão; vi que por isso mesmo, não resistiu à enxurrada naquela que era a “travessa da verdade”, que logologo ali, chamei de jacarelândia do Boni…
Foi ali mesmo, na Catumbela, no húmido bafo de crocodilos, casa de taipa esfolada, que lhe nasceu o filho mais velho, filho do velho Bonifácio, Boni Boni Torrado, trespassando de três gerações. “M´bika a mundele, mundele ué” (Filho de escravo, escravo é). Bem-disposto, Boni candengue, filho do pai dele, agita no tempo e conta do mais velho pai, bem na forma de como o quer lembrar... Seu herói, usava a filosofia pulverizada, chispando fora o supérfluo – é este filho pivete que já homem diz para mim, sacudindo a chave de grifes de apertar tubos e porcas do seu bedford…
Ele seu pai herói, vou-te-falar, tinha uma bomba tipo FLIT que lhe fabricava ideias – que até fazia arco-íris mesmo por cima das carcaças de geleiras e cambotas na mistura com pistões pintadas de cagadelas brancas marca gaivotas; isso mesmo, um arco-íris como aquele negócio que aparece no céu na chuva cacimbada! Juro (eu próprio) que nem acreditei mas, só fingi, que sim senhor, credito mesmo! - A vida tem os seus segredos, diz ele, Boni filho, no café boteco junto do largo Maria Neno Ovava, enquanto sorve um copito de s’bell, do verdadeiro Whisky da Catumbela.
Os dias passaram na maré de guerras crispadas de recentemente, até que, a independência chegou num repentinamente, os amigos foram bazando de forma dramática; a confusão chegava do sul, do norte e, muitos outros lados; viu-se e desejou-se fazendo das tripas coração para fugir de tudo, mano. É o Boni filho contando!
Nem tudo pode ser mau todo o tempo, concluiu antes mesmo de contar nem sei o quê de seu fim. O que vai acontecer de ruim na vida da gente só pode mesmo ser para melhorar! Que é isso; falas de quê? Ele, melhor, o pai dele só falou no sobreviver, que ia misturando umas quitetas, arroz e folha de mandioca, que o Kamba fintador Cadimbinha trazia do Alto Liro nas horas menos dramáticas entre os intervalos de fogo cruzado; Xis versus Ypson e, desentendia tudo na vice da versa.
Há pois, os búfalos do Sul passaram por ali com tudo, mais bazucas, sabes? Estava mesmo confuso mas entendi, coisas de guerra que também vivi, sim senhor… Foi quando das falas já nem entendi se era o Boni Pai se o Boni Filho. Mas, nem interrompi, deixei só. Teve de usar uma pópia musculada pois, nos contratempos de muito para além dum problema que, surgiam noutro e, na confusão então não tinha sentido. Tudo se tornou maka, mas diferentementemente. Tudo ficou por demasiado na confusão de maka e, no café aonde vendia s´bell whisky da Catumbela, num havia mais. Surgiram t´xipalas novas de muitos lados; o controlo de tudo foi ficando cheio de pequenos ferimentos, adoecendo mesmo. Num dia teve mesmo de fugir à frente dum barulho de tanques de guerra, saiu derramando seu código genético na areia.
Já no fim da restinga do Lobito, carregado de medo, a brancura da pele tornou-o reaccionário – e, ele nem sabia o que era isso! Bom! Passados uns anos ouvia na rádio - “morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou o chocalho mexe com ela”. Assim lembrando o onze de Novembro de 2005, já no M´Puto, 30 anos após o dia da independência, diz ele: “ a bela mulata remexendo… Deixando requentar o feijão no tacho... Na Catumbela”… Na Catumbela?! Nessas cantigas da mututa da libertadura, basou, apanhou o barco e foi para Elvis Bay – só ele mesmo…
Haka! Já era ele mesmo meu amigo Boni Filho, falando: Agora não tem mais cana-de-açúcar, nem s´bell; a própria fábrica do açúcar da Cassequel é um montão de ferro velho e a praça do Império do Lobito, tem uma traineira encalhada no meio; A restinga é só mesmo aquele barco empoleirado, fim dos Tugas. Bonifácio Filho, caçador de catuitas, recorda versando e prosando aqueles tempos de fisga, do antigamente. Como meu pai falava: Se o Xicaça me topava, gritava para o ouvir... Ah! Seu Chiquinho Catava, desta vez, não se vai rir!... É o Boni filho a recordar – o kota Boni, meu pai morreu, faz tempo. E, afinal no Catumbela rio continua correndo chuva, molhada, “Nas claras águas de cacimbo, o rio dilata-se na paisagem de cana sacarina, palmeiras de dendên, e bimbas de copas nas águas. Ficou só um “havemos de voltar” -“bichinha danada, minha camarada do emepelá”
O fim acabou assim mesmo, só átoa – Háka…
:::::
Bibliografia – Catumbela, terra de jacarés de António Gonçalves Rodrigues (o Bonifácio Boni, pai)
Glossário
M´bika a mundele, mundele ué - o escravo de branco também é branco; jacarelândia – abundância de jacarés no rio Catumbela e vila do mesmo nome, na travessa da verdade; Maria Neno Ovava – praça pública com obra escultórica alusiva à musa e água situada em frente aos Correios da Catumbela; S´bell – marca de Whisky muito apreciada pelos Sul-africanos; bimba – árvore de beira-rio de 3 ou 4 metros de altura, tronco mole de extrema leveza, usada para construir jangadas; quitetas – amêijoas, berbigão; Kamba – amigo como irmão (Kimbundu); fintador – dado a truques; búfalos – referente ao batalhão invasor da A. do Sul; catuitas – pássaro bico de lacre (bico vermelho); Tuga – Português; Haka! – Exclamação (Umbundo); emepelá – MPLA, movimenta emancipalista e implicacionista…
O Soba T´Chingange
ANGOLA - País quitanda… O Boss Tuga “Mwangolizado” ou “Chinozado?”
QUITANDA: Venda, mercearia, cuca-shop, tasca, boteco, bazar, quiosque.
As escolhas de
Temer instabilidade em Angola é assumir falta de democracia
Eddy, Imperialista, cubano anti Fidel, é meu amigo; bonacheirão como é, trata de mangar com tudo o que ė situação anormal na Luua; proprietário de uma viatura chevrolet, levou-a a uma oficina, o motor ‘soluçava’ quando em marcha “como se estivesse constipado”; conhecedor da ‘moleza’ e irresponsabilidade das oficinas auto dos manos mwangolés, preteriu as oficinas “chinocas”. Orgulhosamente, afirma que seu carro sendo imperialista, nenhum chinoca comunista o poderia consertar…Eddy anti Fidel foi à oficina de um Tuga recentemente expatriado do Puto que segundo o cartaz na fachada do edifício, era especialista de ponta de tal marca. Vai doer mas a viatura vai ficar impecável sussurrou para os botões da sua camisa Jeep… A viatura, foi “colocada” na referida oficina de ponta em Novembro do ano passado com a promessa de que 15 dias depois estaria como nova.
Uma semana depois o Eddy passou pela oficina, “só para matar saudades do carro” – surpresa: a viatura estava no mesmíssimo sítio em que deixara, coberta com uma “desprestigiante” manto de pó. O Tuga, ouvindo a reclamação do Eddy cubano, com um vozeirão chamou o “Chico” para limpar a referida e move-la para “o consultório”… Eddy fez saber ao Tuga que pretendia no mês seguinte viajar para o Lubango em negócio… o Tuga assegurou-lhe que com toda a certeza e certezinha, a viatura estaria “porreiramente” a seu serviço nessa altura… Dias depois recebe um telefonema da oficina a solicitar a sua comparência. Foi-lhe dito que a peça “Xis” tinha que ser substituído…Que a peça Ypson com mais a mão-de-obra dava um total de usd 1.500. Eddy cumprir com a “notificação” desembolsando o kúmbu ao tuga. Saiu dali gemendo, bufando mesmo! … Ah! Tuga Imperialista; mas, cafuzo das ideias sacudiu-se das bitacaias. Porem, ao dar uma volta de saudade à viatura, notou que uma das portas estava cheia de sulcos que não existiam e um dos piscas traseiros rachado… Descontente Eddy, chamou a atenção do Tuga, ao que de novo o tranquilizou afirmando: “a viatura vai sair daqui nos trinques”…
Como a oficina se mantinha silenciosa e, já cansado de andar a pé, dirigiu-se em Dezembro à dita cuja… Na bendita oficina foi-lhe dito que o Tuga, teve que se deslocar ao Huambo para atender um assunto urgente, pelo que retornou ali uma semana depois!... Uma semana depois soube que o tipo se encontrava na “Tugalândia”…O especialista de ponta Tuga retornou na segunda semana de Janeiro… Após o retorno deste, Eddy o imperialista armou um barraco de todo o tamanho, que se não fosse ali primeiro mundo… epá, cum-camano, porra, porque se fosse ali o terceiro mundo, corria sangue… Zangado até os tornozelos, de cuca quente, dizia que este mambo evoluía perigosamente para o segundo mundo, que seria só esticar o braço, puxar a culatra, e malhar no focinho do Tuga… mandá-lo p´ra mais além do terceiro mundo.
Eddy, cansado do imperialismo, tratou de exigir o serviço a todo o vapor; tal feito, foi-o na velocidade da luz… semana seguinte o Tuga "ainda" chateado com o cubano (já rotulado de comunista), chamou-o para pagar o serviço (?!) e finalmente retirar a viatura que tudo estava nos “trinques” melhor que a quisaca… Eddy barafustou: - E os usd 1.500 hein? Tuga, argumentou colocar mais isto & mais aquilo, então… resultou um acréscimo de Usd 800 ao valor inicial retorquindo com certo escárnio: - isso ė ridículo, achas usd 1’500 muito dinheiro?!.. Eddy desembolsou o ‘papel’ ao maldito Yanque, porem, alguns dias depois, o motor manifestou a mesma “dor” que o fez levar ao mesmo Tuga… Os riscos na porta mantinham-se e o vidro do pisca colado. Eddy somente no mês passado, teve a viatura pronta, mas, para isso teve de a levar em camião alugado a Luanda. Tudo isso aconteceu no Lobito… Moral da história – Estoria!?... Pura realidade!...
As escolhas do Soba T´Chingange
ANGOLA - FLORES DE ACÁCIA PARA MATILDE – 2ª de 2 Partes
Por
Dy – Dionísio de Sousa (Reis Vissapa)
Uma homenagem a uma das mais belas cidades de Angola e à ternura dos amores adolescentes - LOBITO
O crepúsculo chegou os candengues partiram deixando a praia vazia dos seus risos contagiosos. Levei-a para casa no pensamento e a sua figurinha singela povoou-me os sonhos e a noite, fazendo-me madrugar e caminhar alvoraçado para a baía, Pelo caminho roubei às acácias viçosas um punhado de rubras flores. – Flores de acácia para Matilde. - Dei-lhas depois de ouvir da boca tentadora o seu nome. Olhou-me com doçura e os nossos dedos tocaram-se entrelaçando-se com ternura quando as recebeu. Corremos a praia de mãos dadas e amámo-nos na cumplicidade cálida das águas da baía. Desde esse dia nunca mais a vi. Perguntei aos candengues e fiquei a saber que trabalhava para o Sr. Torres. O Sr. Torres era um advogado solteirão com mais trinta anos que ela; atravessara o equador em busca do El Dorado. Quando finalmente descobri a sua morada tinha partido para Luanda levando-a consigo.
Entramos no ambiente fosforescente de um cabaré da baixa de Lisboa já a noite ia adiantada. O meu amigo Fonseca tinha dado início à sua despedida de solteiro num restaurante de luxo e entre aperitivos, vinho e digestivos, a euforia tinha-se instalado nas cabeças de todos nós. Ia casar com a filha de um padeiro abastado da Beira Alta. - Agora é que vou ser colonizador. – Disse-me com cinismo. Também devias casar-te, a vida de solteirão é uma boa trampa, arranja mas é uma gaja rica e deixa de ser tolo. – Tu estás é tonto das ideias. – Estou muito bem assim. - Repliquei convicto.
Foi quando as meninas disponíveis começaram a vir para a mesa do Fonseca, que reparei nela. Estava numa mesa a um canto contemplando o fundo de um copo, um vestido ousado e os lábios gritando batom. A voz de Manzanero brotava melancólica dos altifalantes interpretando “Te Adoro”. Sorriu com ternura quando lhe dei a rosa surripiada da jarra de vidro da mesa ao lado e murmurei baixinho na sua orelha “Flores de acácia para Matilde”. Dançamos agarradinhos “ Olhos Negros “ e “ Piel canela”. Levei-a dali para fora. Afinal o Fonseca tinha razão a vida de solteiro é uma trampa.
Reis Vissapa
As escolhas do
Soba T´Chingange
ANGOLA - FLORES DE ACÁCIA PARA MATILDE – 1ª de 2 Partes
Por
Dy – Dionísio de Sousa (Reis Vissapa)
Uma homenagem a uma das mais belas cidades de Angola e à ternura dos amores adolescentes - LOBITO
Aquela paixão germinou sob uma palmeira na Baía do Lobito. De manhãzinha cedo lá ia eu para aquele lugar paradisíaco construído por Deus num momento de inspiração sublime. Um espelho de água deslumbrante abria-se perante os meus olhos. Até mesmo as calemas que esporadicamente martirizavam a estreita língua de terra do lado do mar alto, perdiam a sua ferocidade na ponta da restinga tranquilizando-se com a quietude das águas da baía. Calcorreava as areias refrescadas pelas temperaturas baixas da madrugada, colhendo conchas e búzios empurrados pela maré para a praia e encostava estes últimos às orelhas para ouvir os murmúrios do mar. As primeiras jangadas com os mastros inclinados e as velas emprenhadas pelas brisas matutinas faziam-se à faina fazendo lembrar um bando de pelicanos rasando a água. Na imensa baía os vapores mugiam as suas sirenes avisando da sua presença. O sol despontava no Compão e recortava-lhes as silhuetas dourando a água em seu redor. Como tartarugas gigantes os enormes cargueiros com nomes feiticeiros de terras longínquas ronronavam acostados ao cais aguardando que os esguios guindastes começassem a resolver-lhes as entranhas retirando cargas preciosas e colocando no seu lugar lingotes de cobre vindos da Rodésia distante. O cheiro a alcatrão e maresia penetrava-me as narinas e fazia-me sonhar aventuras mirabolantes noutros lugares e então navegava o mundo no convés de paquetes com estandartes estranhos.
Um enorme bloco de betão esverdeado pelas águas jazia adornado no meio da água e as gaivotas, os garajaus e os maçaricos tinham-no transformado no seu lar, substituindo a tripulação alemã daquele navio de guerra invulgar, que o abandonara ali ferido e agonizante. De regresso à minha palmeira preferida refastelava-me na areia morna e alternava os mergulhos na água tépida com o sol e a sombra. Contemplava os candengues brincando de futebol com uma bola de meia na areia molhada, enquanto outros lançavam as linhas de pesca nas águas tranquilas roubando-lhes peixes prateados que ficavam a estrebuchar na praia. Volta e meia maçaricos e garajaus mergulhavam em flecha na baía e emergiam com a mesma velocidade carregando no bico as suas vítimas, que transportavam para longe, para o lado dos morros onde se podia lobrigar a espuma alva resultante do fustigar das ondas nos seus costados.
O entardecer aproximava-se quando um dia ela apareceu tímida como uma gazela que vai beber ao charco. Os negros olhos contemplando a quietude da baía e as pernas elegantes, cor canela contrastando a areia pálida. Uma saia de chita vermelha cobria-lhe as ancas roliças e o colo esguio emergia de uma blusa branca. Caminhava com a alegria de um passarinho deixando atrás de si um rasto de pezinhos delicados marcados na areia. De vez quando apanhava um seixo e atirava-o á água, rodopiando como uma bailarina sobre si própria. Os candengues olharam-na sorridentes enquanto caminhou até á ponta da restinga e no regresso passou por mim sem dar sinal de ter dado pela minha presença. O sol moldava-lhe os contornos quando se perdeu ao longe por entre as casuarinas e as palmeiras.
As escolhas do
Soba T´Chingange
AS ESCOLHAS DO EMBAIXADOR DO KAKUAKU - Boni
"Advogado de Nova Orleans. Brilhante!"
Boniboni na Kizomba
Banco é banco em todo lugar ! Seus administradores só vêem $$$$$...e não pensam...
PEDIDO DE EMPRÉSTIMO
Um advogado de Nova Orleans pediu um empréstimo em nome de um cliente que perdera sua casa quando do furacão Katrina e queria reconstruí-la. Foi-lhe comunicado que o empréstimo seria concedido logo que ele pudesse apresentar o título de propriedade original da parcela da propriedade que estava a ser oferecida como garantia. O advogado levou três meses para seguir a pista do título de propriedade datado de 1803. Depois de enviar as informações para o Banco, recebeu a seguinte resposta:
AngolaBela - Mirangolos
"Após a análise do seu pedido de empréstimo, notamos que foi apresentada uma certidão do registro predial. Cumpre-nos elogiar a forma minuciosa do pedido, mas é preciso salientar que o senhor tem apenas o título de propriedade desde 1803. Para que a solicitação seja aprovada, será necessário apresentá-lo com o registro anterior a essa data."
Irritado, o advogado respondeu da seguinte forma:
"Recebemos a vossa carta respeitante ao processo nº 189156. Verificamos que os senhores desejam que seja apresentado o título de propriedade para além dos 194 anos abrangidos pelo presente registro. De facto, desconhecíamos que qualquer pessoa que fez a escolaridade neste país, particularmente aqueles que trabalham na área da propriedade, não soubesse que a Luisiana foi comprada, pelos E.U.A à França, em 1803.
Na rota dos Mirangolos - Miró
Para esclarecimento dos desinformados burocratas desse Banco, informamos que o título da terra da Luisiana antes dos E.U.A. terem a sua propriedade foi obtida a partir da França, que a tinha adquirido por direito de conquista da Espanha. A terra entrou na posse da Espanha por direito de descoberta feita no ano 1492 por um capitão da marinha chamado Cristóvão Colombo, a quem havia sido concedido o privilégio de procurar uma nova rota para a Índia pela rainha Isabel de Espanha.
A boa rainha Isabel, sendo uma mulher piedosa e quase tão cautelosa com os títulos de propriedade como o vosso Banco, tomou a precaução de garantir a bênção do Papa, ao mesmo tempo em que vendia as suas jóias para financiar a expedição de Colombo. Presentemente, o Papa - isso temos a certeza de que os senhores sabem - é o emissário de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e Deus - é comumente aceito - criou este mundo. Portanto, creio que é seguro presumir que Deus também foi possuidor da região chamada Luisiana.
Deus, portanto, seria o primitivo proprietário e as suas origens remontam a antes do início dos tempos, tanto quanto sabemos e o Banco também. Esperamos que, para vossa inteira satisfação, os senhores consigam encontrar o pedido de crédito original feito por Deus. Agora, que está tudo esclarecido, será que podemos ter o nosso empréstimo? "
O empréstimo foi concedido.
Boniboni
RECORDAÇÔES ANGOLA
fogareiro da catumbela
aerograma
NAÇÃO OVIBUNDU
ANGOLA - OS MEUS PONTOS DE VISTA
NGOLA KIMBO
KIMANGOLA
ANGOLA - BRASIL
KITANDA
ANGOLA MEDUSAS
morrodamaianga
NOTICIAS ANGOLA (Tempo Real)
PÁGINA UM
PULULU
BIMBE
COMPILAÇÃO DE FOTOS
MOÇAMBIQUE
MUKANDAS DO MONTE ESTORIL
À MARGEM
PENSAR E FALAR ANGOLA