Sábado, 23 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CXC

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXVII

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS” – CAMPANHA ELEITURAL CONFLITUOSA…

Crónica 320822.10.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam…      

Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

1 ::::: No Gabão, em Libreville, Jonas Savimbi, Líder da UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola, José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola e Omar Bongo Ondimba reuniram-se dando as mãos e segundo o jornalista Carlos Albuquerque que fez a cobertura. A Savimbi foi-lhe proposta o lugar de Vice-Presidente e após este ter aceitado informalmente, a nomenclatura do MPLA, de imediato afirmou que haveria dois vice-presidentes: Um indicado pelo MPLA e ele, Savimbi que ficaria em segunda linha na hierarquia…. Só lhe restava recusar! O MPLA, sempre foi assim; inventam coisas tão diabólicas que nem lembram ao diabo…

Na óptica das probabilidades, haverá aqui uma situação incrível, pois que Savimbi poderia ter sido o primeiro Presidente de Angola eleito. Se ele tivesse aceitado, a realização da segunda volta das presidenciais, em 1992, nada nos garante que não tivesse ganho, ou mesmo, perdendo, nada nos diz que numa nova votação, saísse vencedor mas sempre o seria, uma perigosa suposição…

2 ::::: Estando a dias do termo da campanha eleitoral, a Conferência Episcopal Angolana, difunde uma mensagem intitulada “As portas da II República “. Nela, os bispos sublinham que “a Igreja não tem de apresentar nenhum candidato”, exortando ao voto consciente: “ Não devem merecer a preferência dos cristãos os que violam os direitos humanos e os que dilapidam os bens públicos, seja por que via for”. A UNITA entende que a mensagem é tendencialmente favorável ao governo do MPLA.

Ao mesmo tempo da intervenção do bispos na política, a UNITA dirige insultuosos ataques à representante das Nações Unidas Margaret Anstee, acusando-a de “estar comprada pelo MPLA, com diamantes e mercúrio”. As mulheres de Luanda, com blusas da OMA, saem à rua em defesa dos bispos e da própria Anstee. Numa grande manifestação, exigem “ a consciência democrática e perdão sem violência”, para que seus filhos cresçam numa Angola nova, sem luto, dor e lágrimas”.  

3 ::::: Passados já uns cinco anos dos recontros da Batalha do Cuíto Cuanavale o é dado a conhecer pelo toxicologista criminal belga Dr. Aubin Heyndrickx, o uso de gases na guerra. Ele, estudou supostas evidências, incluindo amostras de "kits de identificação" de gás de guerra encontrados após a batalha em Cuito Cuanavale, alegando que "não há mais dúvida de que os cubanos estavam usando gases nervosos contra as tropa Jonas Savimbi" - As tropas cubanas foram neste então acusadas formalmente de terem usado gás nervoso contra as tropas da UNITA durante a guerra civil.

O envenenamento por aquele agente nervoso leva a contracção de pupilas, salivação profusa, convulsões e micção e defecação involuntária, sendo que os primeiros sintomas aparecem segundos após a exposição. A morte por asfixia ou parada cardíaca pode ocorrer em minutos devido à perda do controle do corpo sobre os músculos respiratórios e outros. Os agentes nervosos também podem ser absorvidos através da pele, exigindo que aqueles que provavelmente sejam submetidos a tais agentes usem uma vestimenta completa, além de um respirador. Os agentes nervosos são geralmente líquido insípidos de coloração que varia entre o incolor e o âmbar e podem evaporar para um gás. Os agentes sarin e VX são inodoros; o tabun tem um odor ligeiramente frutado e o soman tem um leve odor de cânfora.

4 ::::: Na década após 1990 as mudanças políticas no exterior e vitórias militares em casa permitiram ao governo fazer a transição de um Estado nominalmente comunista para um Estado tendencialmente democrático. A declaração de independência da Namíbia a 21 de Março de 1990, eliminou a ameaça ao MPLA da África do Sul, quando a SADF se retirou de lá. O MPLA aboliu o sistema de partido único e rejeitou o marxismo-leninismo no terceiro Congresso do MPLA em dezembro, mudando formalmente o nome do partido de MPLA-PT para MPLA.

Com sua riqueza em petróleo e diamantes, Angola é como uma grande carcaça inchada com os abutres girando no alto. Os antigos aliados de Savimbi estão mudando de lado, atraídos pelo aroma da moeda forte". Savimbi também expurgou alguns dos membros da UNITA, que ele pode ter visto como ameaças à sua liderança ou como questionadores de seu curso estratégico. Entre os mortos no expurgo estavam Tito Chingunji e sua família em 1991. Savimbi negou seu envolvimento no assassinato de Chingunji e culpou os dissidentes da UNITA.

5 ::::: Um observador oficial escreveu que nas primeiras eleições em Angola, havia pouca supervisão da ONU, que 500 mil eleitores da UNITA foram desprivilegiados e que havia 100 assembleias de voto clandestinas. Savimbi enviou Jeremias Chitunda, vice-presidente da UNITA, a Luanda para negociar os termos do segundo turno. O processo eleitoral fracassou em 31 de Outubro, quando tropas do governo em Luanda atacaram os camados de rebeldes. Os sucessos militares do governo em 1994 forçaram a UNITA a negociar pela paz. Em Novembro de 1994, o governo havia assumido o controle de 60% do país.

6 ::::: Savimbi chamou a situação de "crise mais profunda" da UNITA desde a sua criação. Estima-se que talvez 120 mil pessoas tenham sido mortas nos primeiros dezoito meses após a eleição de 1992, quase metade do número de baixas dos dezasseis anos anteriores de guerra. Ambos os lados do conflito continuaram a cometer violações generalizadas e sistemáticas das leis de guerra, sendo que a UNITA, em particular, foi culpada de bombardeios indiscriminados de cidades sitiadas, o que resultou em um grande número de mortos civis. As forças do governo do MPLA usaram o poder aéreo de maneira indiscriminada, resultando também em várias mortes de civis…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:27
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXIX

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXVI

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS”CAMPANHA ELEITURAL CONFLITUOSA…

Crónica 320517.10.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – São estes que agora governam…                                                                                                                                        

Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

:::::1

Os chamados “três dias das bruxas” são referentes aos sequentes dias a 30 de Setembro de 1992, imediatamente após se saberem os resultados “fraudulentos” das eleições; estes eventos de matança aos homens da UNITA ocorreram até 1 de Novembro, já aqui descritos na parte XXIV desta “Angola da libertação”. Teria de haver uma segunda volta para as presidenciais para saber-se qual o verdadeiro vencedor e, segundo a óptica governamental com aconchavos internacionais, mas esta volta nunca se chegaria a realizar …     

:::::2

Em Setembro de 1992, três meses após a visita do Papa João Paulo II, no Huambo mais de uma centena de homens da UNITA fortemente armados “estacionam” frente à casa de Savimbi. A CCPM (Comissão Conjunta Político-Militar), interfere. A UNITA virá a dizer que são homens “da segurança pessoal de Savimbi”, mas a CMVF (Comissão Mista de Verificação e Fiscalização do Cessar-fogo), apura que o contingente e respectivo material bélico, havia entrado na cidade sem conhecimento da UNAVEM.

:::::3

Neste meio tempo, Luanda (e todo o país) estava pejada de um dispositivo policial desmesurado, como se tratasse de um estado de sítio - coisa a que os luandenses já não estavam habituados depois da guerra civil - dadas as preocupações com o acto eleitoral dos dias 29 e 30 de Setembro, para que tudo corresse bem. E correu. Correu muito bem, dada a afluência às urnas ter ultrapassado os 70% só no primeiro dia. O povo queria a paz e acreditava que a poderia conseguir pelo voto. Mas Angola, não era só Luanda.

:::::4

Os votos foram contados, mas a UNITA não concordando, exigiram a recontagem, pois os primeiros resultados deixavam de fora a possibilidade de uma segunda volta das presidenciais a Savimbi. Os acontecimentos precipitaram-se e Savimbi teve de fugir de novo para o Huambo levando atrás de si uns esperançosos 40% nas eleições com os dados viciados, segundo a UNITA. Lendo o Expresso do M´Puto: Savimbi ficou à espera por um curto tempo no Huambo e mais tarde, no seu refúgio da Jamba. Savimbi aguardava agora a marcação da segunda volta, que o levaria ao cume das suas aspirações.

:::::5

No terreno, à medida que decorria a campanha eleitoral, tropas da UNITA tomam posições no Centro/Sul de Angola, expulsando o MPLA de vários municípios. No Norte, em Caxito, soldados da UNITA envolvem-se com a polícia; em Benguela, a UNITA ataca uma caravana do Fórum Democrático de Angolano, ambos os incidentes causaram dezenas de feridos na população civil. No caso de benguela, a UNAVEM concluiu que “houve provocação por parte dos dissidentes e uma reacção exagerada por parte da UNITA”. Em Luanda a FNLA condena veementemente a agressão sofrida por Baptista Fula, seu membro, brutalmente agredido por militares e militantes da UNITA.

:::::6

Claro que sempre se verificou por parte das instâncias internacionais um certo acomodamento às visões do comportamento dos elementos afectos ao MPLA, o lado “governamental” por estes terem os donos da opinião com sua máquina da informação lubrificada de seu lado, dizendo o que mais lhe interessava; prosseguindo uma logística concertada de denegrir sempre a UNITA. Os posteriores conhecimentos dos factos vieram a confirmar em como a permanente contra-informação e métodos dissuasores das instituições e polícias de inteligência treinadas por peritos oriundos da cortina comunista.

:::::7 

Por via das eventuais mudanças políticas faz-se revisão da lei constitucional - Lei Nº 23/92 de 16 de Setembro, alterando a de Março de 1991, destinando-se principalmente à criação das premissas constitucionais necessárias à implantação duma democracia pluripartidária. Um cumprimento referido quando da assinatura a 31 de Maio de 1991 nos Acordos de Paz para Angola. É desta feita, a primeira vez na história do país, que levam à realização às eleições gerais multipartidárias assentes no sufrágio universal directo e secreto.

:::::8

O maior incidente da campanha eleitoral foi a captura, pela UNITA, de onze elementos da guarda pessoal de Eduardo Dos Santos. Savimbi justificaria que o comportamento de seus homens lhe foi “tardiamente comunicado”. Ainda em Setembro, chega a Lisboa uma queixa informal da UNITA, sobre o envolvimento de uma empresa portuguesa de distribuição alimentar, sediada no Porto, presumivelmente envolvida no fornecimento de material de guerra à Polícia anti-motim angolana - os 30 mil “NINJAS” do MPLA (assim foram chamados), treinados pelos espanhóis.

:::::9

Não houve grande desenvolvimento sobre o caso, assim como quase nada foi explicado, acerca do cargueiro “Cecil Lulo”, tripulado por dinamarqueses e filipinos, ostentando pavilhão das Bahamas e operado pela empresa dinamarquesa J. Pulsen, localizada no porto de Ponta Delgada nos Açores. O mesmo tinha um carregamento de armas, segundo se consta embarcadas numa base militar dos EUA – Estados Unidos da América e, com destino a Angola. Tudo que é descortinado no tempo, o é, de uma forma que surpreende, como tudo acontece numa altura tão crucial na tão desejada PAZ…

:::::10

A guerra de 27 anos pode ser dividida aproximadamente em três períodos de grandes combates - de 1975 a 1991, 1992 a 1994 e 1998 a 2002 - com períodos de paz frágeis. Quando o MPLA alcançou a vitória em 2002, mais de 500 mil pessoas morreram e mais de um milhão foram deslocadas internamente. A guerra devastou as infra-estruturas de Angola e danificou gravemente a administração pública, a economia e as instituições religiosas do país. Esta guerra terá de o ser, considerado um conflito por procuração da Guerra Fria, já que a União Soviética e os Estados Unidos, com seus respectivos aliados, prestaram assistência às facções em luta.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:12
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXVIII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXV

DEPOIS  DOS ”OS 3 DIAS DAS BRUXAS” CAMPANHA CONFLITUOSA…

Crónica 320108.10.2021 - A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

Por: T´Chingange, em Cantanhede do M´Puto

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Após o 11 de Novembro de 1975, as casas abandonadas em Luanda maioritariamente pelos brancos, são entregues a “amigos” do MPLA e aos amigos dos amigos ou assim supostos; por toda a Angola se verificou o mesmo procedimento – fábricas, complexos desportivos, armazéns de géneros, bombas de gasolina, literalmente, tudo passou para a gestão do MPLA. Personalidades angolanas terão recebido apartamentos no Kilamba por terem apoiado o MPLA na campanha para as eleições gerais em Angola. Estas pessoas tiveram acesso privilegiado às casas mas, sendo propriedade do estado por confisco, supostamente, teriam de as pagar (digo eu…).

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Por tantas dúvidas no ar, tantas medidas arbitrárias, umas torpes outras sem explicação plausível, levam os jovens de agora a pedir explicações. Nos dois anos de 2019 e 2020 e, no actual 2021, protagonizam inéditas manifestações, estipulando como que uma espécie de moratória ao executivo angolano, antes de voltarem às ruas, uma e outra vez, pedindo eleições livres e sem batota, eleições municipais e o fim da mordaça e do estado policial, ditatorial na verdadeira versão da palavra; uma cleptocracia, um governo cujos líderes corruptos usam o poder político para se apropriar da riqueza de sua nação, com o desvio ou apropriação indevida de fundos do governo às custas da população em geral.

:::::3

Uns, declarados opositores, são pressionados, coagidos ou assediados, outros desaparecem misteriosamente e ainda outros são presos por se expressarem em desfavor do MPLA que se protagoniza como sendo eles, o país. Nas eleições parlamentares, a UNITA obteve uma votação de mais de 30%, portanto expressiva, mas que ficou aquém das suas expectativas. Nas eleições presidenciais, os cerca de 42% obtidos por Jonas Savimbi impediram que José Eduardo dos Santos, presidente em exercício que reuniu 59% dos votos, obtivesse na primeira volta a maioria absoluta, do modo que, pela legislação então em vigor, teria sido necessária uma segunda volta.

:::::4

Esta, não se chegou a realizar, porque a UNITA declarou de imediato que tinha havido fraude nas eleições presidenciais, e retomou as suas actividades militares - enquanto os deputados eleitos pela UNITA assumiam as suas funções de forma regular. A seguir a uma fase de êxitos militares, por exemplo a tomada temporária da cidade do Huambo, a UNITA passou a perder terreno de maneira dramática, devido ao reforço maciço das FAA (Forças Armadas de Angola), em pessoal, formação e equipamento, no essencial financiado pelas receitas do petróleo.

:::::5

Em paralelo, constitui-se uma dissidência da UNITA, designada "UNITA Renovada" e liderada por um dos deputados, Eugénio Manuvakola; esta corrente era a favor do abandono da luta armada e de uma concentração sobre a luta política. No fim dos anos 1990 era patente que a UNITA tinha perdido o combate, em termos militares. Perseguido por uma unidade das forças governamentais, Jonas Malheiro Savimbi é morto em Fevereiro de 2002. Segundo o jornal Público (do M´Puto): Jonas Savimbi morreu "de arma na mão", como "um militar", numa emboscada das Forças Armadas Angolanas (FAA), numa sexta-feira à tarde, junto ao rio Luio, sudeste da província do Moxico, ao fim de cinco dias de perseguição pelo mato. "Sete tiros foram suficientes para o abater". Foi assim que o brigadeiro Wala, na qualidade de dirigente da "força mista que matou o líder da UNITA", resumiu o fim de Savimbi aos jornalistas presentes no local em que o corpo foi exibido.

:::::6

Ano de 2002 - Após a sua morte, a UNITA tornou-se num partido civil e abandonou a luta armada. No congresso da fundação do partido, onde a UNITA Renovada e outros elementos dissidentes foram reintegrados, Isaías Samakuva foi eleito presidente. Concorrendo às eleições parlamentares de Setembro de 2008, a UNITA obteve pouco mais de 10%, tornando-se num partido com poucas condições para exercer funções efectivas de oposição. Em 2012, esta situação levou à saída de uma dos seus mais destacados dirigentes, Abel Epalanga Chivukuvuku que fundou um novo partido, CASA (Convergência Ampla de Salvação de Angola).

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Apesar desta perda, a UNITA aumentou muito significativamente, de cerca de 80%, nas eleições realizadas em 2012, duplicando o número dos seus deputados, enquanto a CASA obteve respeitáveis 6% com 8 deputados - constituindo-se, deste modo, uma oposição parlamentar significativa ao MPLA. Nas eleições de 2017, a UNITA quase duplicou outra vez o número de acentos no parlamento, saindo de 32 para 51 deputado, sendo que a CASA-CE passou de 8 para 6 deputados.

:::::8

A UNITA que tem tentado sempre demonstrar democracia interna realizando congressos de 4 em 4 anos, é hoje, o principal partido opositor ao partido que forma o governo afirmando-se como uma verdadeira alternativa a este. A morte de Savimbi também se reflectiu na mudança ideológica do partido, deixando o nacionalismo de esquerda e o socialismo humanitário (correntes maioritárias até então). Este facto alterou o espectro do partido, que, de situado mais a centro-esquerda, passou a um movimento sem ideologia dominante.

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Segundo Jofre Justino, o partido terá assim várias correntes, sendo a dominante, direitista, capitaneado por Isaías Samakuva. As demais correntes do Galo Negro seriam a da esquerda, dirigida por um general do terreno; e a do centro, capitaneada por Abel Chivukuvuku (que acabou por romper com a UNITA e formar um novo partido). O XIII Congresso da UNITA, realizado entre os dias 13, 14 e 15 de Novembro de 2019 foi o mais renhido da sua história, em relação à disputa da presidência.

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Concorreram 4 candidatos, todos eles dirigentes de proa do partido, como o diplomata Alcides Sakala Simões, na altura secretário para as relações internacionais, o deputado e académico José Pedro Katchiungo, na altura também vice-presidente da bancada parlamentar, José Abílio Kamalata Numa, um destacado General na reserva, o jornalista Manuel Raul Danda, na altura vice-presidente do partido e o Eng.º Adalberto Costa Júnior, então presidente da bancada parlamentar, que veio a ganhar as eleições, com pouco mais da metade dos votos. A UNITA é hoje composta por uma direcção coesa liderada por Adalberto Costa Júnior, Arlete Leona Chimbinda, primeira mulher a chegar ao cargo de vice-presidente do partido e Álvaro Daniel.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:22
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXVII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XXIV

”OS DIAS DAS BRUXAS” – CAMPANHA CONFLITUOSA…

Crónica 3198 – 28.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

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Por: T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

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Logo no dia a seguir à partida do Papa João Paulo II de Angola a 10 de Junho de 1992, MPLA e UNITA envolvem-se em violento combate verbal, só apaziguado com a interferência de Herman Cohen. No segundo dia da campanha eleitoral, soldados da UNITA atacam o governo provincial de Kuito. Os governamentais reagem. O incidente salda-se em 20 militares e 10 civis mortos. No mesmo dia, no Huambo, numa emboscada à caravana automóvel de Kundy Paihama, director de campanha do MPLA, falece o secretário provincial da juventude do MPLA e cinco pessoas ficam feridas com gravidade.

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Estes acontecimentos, motivam um comunicado dos observadores internacionais e membros da missão das Nações Unidas UNAVEM II, condenando a atitude do MPLA e da UNITA -Convém esclarecer que a UNAVEM I, fiscalizou a retirada das tropas expedicionárias cubanas. A 8 de Setembro de 1992, Eduardo dos Santos e Savimbi acordam no princípio da criação de um governo de unidade nacional, independentemente do resultado das eleições. Comprometem-se na extinção dos seus exércitos, antes do escrutínio. Dez dias depois aquele comprometimento, avisado pela sua representante em Angola, Margaret Anstee, Butros-Ghali envia um relatório ao Conselho de Segurança da ONU, denunciando que apenas 41% das forças armadas do governo da UNITA tinham sido desmobilizadas e apenas 19% das forças armadas unificadas tinham sido constituídas.

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O mesmo documento sublinha que o ritmo da desmobilização foi mais rápido do lado das forças governamentais – 54.747 soldados, correspondentes a 45%, contra 7.257 soldados da UNITA, correspondendo a 24%. Toda esta movimentação de vontades fica conspurcada pela má-fé de ambas as partes que não confiam em suas próprias sombras pois que sempre vem ao de cima mais de 10.000 mortes de partidários da UNITA e da FNLA que foram assassinados pelas forças do MPLA, principalmente dos grupos étnicos ovimbundos e bacongos.

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Os “3 DIAS DAS BRUXAS” sempre é relembrado com as mortes de muitos membros proeminentes da UNITA como Jeremias Chitunda, Elias Salupeto Pena e Aliceres Mango, entre muitos outros. Dia 30 de Outubro de 2021, completam-se 29 anos sobre o massacre iniciado a 30 de Outubro de 1992 na capital angolana, Luanda. Recorde-se: De 29 e 30 de Setembro de 1992 diz Filomena Lopes líder do Bloco Democrático, partido da oposição angolana: “foram naturalmente três dias horríveis", data em que se interrompeu o processo de paz em Angola. Fui apanhada de surpresa, sobretudo numa altura em que se tentava encontrar soluções políticas para o problema.

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Filomena diz: - “Matava-se tudo. Matavam-se todos os que tivessem alguma ligação com a oposição. ”Milhares de apoiantes e até dirigentes da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) são assassinados em Luanda e em outras localidades do país. Também há vítimas da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). “É a primeira vez, na história da guerra civil angolana, que políticos morrem em combate”, escreve o jornalista Emídio Fernando no livro Jonas Savimbi, “No Lado errado da História”.

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Até hoje - 2021, permanece por esclarecer quem ordenou o massacre. O número de vítimas também nunca foi confirmado, mas estima-se que tenham morrido entre 10 mil e 50 mil pessoas. Outros gráficos, baseadas em números da Igreja Católica, estimam que foram mortos de 25.000 a 40.000 partidários da UNITA e da FNLA. Números que Mário Pinto de Andrade, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contesta: “Acho que, às vezes, a comunidade internacional empola. Houve uma manipulação desses resultados. Eventualmente fala-se das pessoas que morreram pela UNITA, mas também morreu muita gente pelo lado do governo. A UNITA quando ocupou o Uíge matou muita gente do MPLA e quando ocupou o Huambo, fez o mesmo.”

:::::7

Nem o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos, nem o seu adversário, Jonas Savimbi, da UNITA, conseguiram maioria absoluta nas presidenciais. Mas, a segunda volta nunca se realizou. A guerra civil reacendeu-se com o massacre e, prolongar-se-ia até quatro de Abril de 2002. O massacre dizimou muitos membros dos grupos étnicos Ovimbundu e Bakongo, historicamente tidos como adversários do MPLA. O jornalista e analista político Orlando Castro afirma que, nessa altura, o MPLA tentou “neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime”.

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“Foi uma nova tentativa de decapitar a UNITA. Orlando Castro conta: "Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA”. Essa prática vem-se verificando até aos dias de hoje segundo muitas versões contadas aqui e ali, em livros ou crónicas nos jornais e redes sociais e, até por gente fugida ao sistema que sempre acusam o MPLA na utilização de venenos para eliminar parceiros ou amigos considerados insuspeitos. Quem lê o “Fórum de Liberdade” nas redes sociais de Fernando Vumby exilado na Alemanha, um antigo elemento da DISA - a polícia política do governo de Agostinho Neto, fica com os cabelos em pé.

:::::9  

O tema ainda é tabu em Angola e desconhecido por muito jovens. Daí a importância de uma boa estratégia de reconciliação, desde que não se branqueie a verdade, defende Orlando Castro: “Estes massacres são os mais visíveis, quer o de 27 de Maio de 1977, quer o de 1992, são os mais visíveis pelo número de vítimas, mas o MPLA tem muitas outras histórias porque ao longo da guerra – embora a UNITA obviamente também tenha cometido grandes erros – o MPLA, até pelo poder militar que tinha, massacrou muita gente inocente.

:::::10

Os jovens não conhecem esta história. E, a paz e reconciliação em Angola nunca se conseguirão com base na mentira”. Mário Pinto de Andrade recorda: “ninguém pode negar a História, mas tem de se falar com realismo. Apesar de Angola ter um grande potencial em recursos hídricos, nem toda a gente tem acesso a água e energia no país. O governo angolano quer mudar isso e está também aberto a cooperar com Portugal; assim se falava a em Outubro de.2012; o que mudou mesmo foi  o ressurgir de novas formas de roubar ao erário publico destroçando paulatinamente a economia e levando o povo ao desemprego, sobrevivendo da forma triste em rebuscar nas lixeiras, caixotes de lixo e coisas nauseabundas que só abutres praticam…  

(Continua…)

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:53
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Quinta-feira, 16 de Setembro de 2021
KAZUMBI . LXX

MOKANDA DA LUUA – KAPIANGO AIUÉ - Luanda do Mu Ukulu Era uma vez...

- Crónica 3194 – 16.09.2021  - Kinguilas, as fugitivas da Independência - IV de IV – Crónica esquecida na espera da fila bicha do malembelembe do KAPOSSOKA…

kapara1.jpg

Por soba k.jpgSoba T´Chingange no AlGharb do M´Puto

LUUA DOS VELHOS TEMPOS… A Baixa de Luanda, sem a Marginal não teria norte, já não tem o Porto Pesqueiro frente ao Banco Nacional, nem o Mercado Municipal. Mas ainda tem a Alfândega, a Marinha e a Polícia, convivendo com arranha-céus dignos de um Abu Dabi, com auto-saneamento e auto-energia, onde vivem ou trabalham exemplares da classe alta burocrática, despachando com tranquilidade os expedientes, porque aqui não há pressa para nada.

Para o interior, as ruínas dos armazéns do Minho, onde as senhoras brancas iam comprar tecidos e vestidos, um mundo que se extinguiu, só sobrou o Mabílio Albuquerque que vende “coisas”. A Baixa de Luanda é um extenso e intenso “musseque”, tudo está ocupado, parece que as poucas árvores poluem, cortam-se, ocupam lugares que podem ser rentabilizados pelos miúdos vindos do fim do mundo e que tomaram conta das ruas durante o dia, arrumando e lavando os carros, com “puxadas” de água gratuita da EPAL.

Rainha N'Zinga, a estátua, enorme, jaz à entrada da fortaleza, à espera que os arranha-céus do Kinaxixi, onde eu já vi uma grande lagoa com uma mafumeira e um majestático mercado de frescos verdadeiros, vindos das hortas da cintura de Luanda, sejam pagos, um dia, um dia, como os portugueses dizem, de “são nunca”.

kissan2.jpg Avenida Rainha N'Zinga, que podia ser uma metrópole, mas que em dias de enxurradas se transforma em rio lamacento, lançando água na Baía, rua da dança capoeira dos domingos à tarde, dos candongueiros para os “congolé”, das zungueiras em frente da Sé, que deixou se ser Sé, mas mantém a travessa, vendendo fruta, tamarindos, maçãs da índia, loengos, gajajas, caju, mangas, mulheres sem sorriso sentando no fio do muro ou na pedra para endurecer os interiores, fugindo, fugindo dos fiscais da Administração, submissas, a sua mente se organizou há muito, netas dos rusgados dos cipaios do chefe do posto Poeira.

As galerias Kibabo abriram onde era a antiga, luxuosa e branca Versalhes, agora também dirigidas por brancos, um mundo de compra e venda de tudo: plásticos baratos, pequenos empregos que mal dão para apanhar o candongueiro. Mas a actividade comercial atraiu também um enxame de rapazes sujos, de cabelos com trancinhas a ficar russas, que enfrentam tudo e todos os poderes para ficarem na porta, pedindo esmola para o pão ou para os pais ou para outras coisas.

kissan4.jpg Há muito, muito tempo, a Baixa era apropriação de uma parte da população branca. A população negra vinha dos bairros, a pé ou de autocarro, trabalhar nas fábricas, nas lojas e nas casas. Muita gente passava a correr pela pensão Fomentadora, no Kinaxixi, para comer uma grande sandes de peixe frito e uma grande caneca de café muito açucarado. Coisas Pré-Históricas.

No dia da Independência, no próprio dia, a Baixa transfigurou-se, parecia não existir, nem uma só alma nas ruas, sentia-se medo pela solidão, tinha sido o mundo dos brancos, que de repente foram embora.

Quem primeiro se apropriou nos novos tempos da Luanda africana foram os “regressados do Zaire”, invadiram tudo, criaram a venda parada no chão das ruas, não era raro encontrá-los na Mutamba, de manhã, em pijama, na rua. Todo o mundo queria sair dos bairros e viver na cidade do asfalto. Mas era um mundo estranho, não era do povo, era algo que se plantou ali, vindo de fora.

kissan6.jpg Ué... Que futuro? Sem transportes públicos, sem uma malha comercial digna desse nome, sem saneamento básico conhecido, com escassos minimercados, sem um mercado de frescos, nem sequer uma livraria digna desse nome, a Baixa, e sobretudo a sua parte central, a extensa avenida Rainha N'Zinga é a parente pobre da Marginal, reconstruída e embelezada pela Independência.

Aí coexistem as classes mais altas e as mais baixas, como dois mundos intocáveis. A degradação do entaipado prédio do antigo “Diário de Luanda” contraria os arranha-céus de vidro, que parecem redomas extraterrestres numa Luanda que precisa de ar, de vento, de céu. Nos becos, também há becos e contrabecos desaguando na Rainha, mil negócios silenciosos. A liamba instalou-se num trono de que não abdica, imperando nos lados dos degradados Coqueiros, outrora coqueluche dos brancos.

banco de angola1.jpg Há um plano director, dizem, mas tudo tem plano director em Angola, tudo tem “desiderato” e tudo vai acontecer “brevemente”. O futuro é, pois uma incógnita, como o “X” de uma equação simples, mas que se complica pela incompetência, pelo laxismo, pela corrupção transversal à sociedade. Por trás de um aparente modernismo, toda esta vasta zona, outrora “chique”, alberga centenas de milhares de pessoas em cada canto, casebres construídos dentro de outros casebres.

Já não há terminal de autocarros digno desse nome na Mutamba. O poder agora é dos candongueiros e dos “corolas”, pão e cerveja de muitos lares. Em plena Rainha N'Zinga, sim, funciona a “Mutamba”, na esquina frente à Embaixada da Guiné, candongueiros de e, para os subúrbios. Tentaram “colocar” mini-autocarros, mas só os vi um dia.

koisan5.jpg O que vai acontecer a tantos edifícios degradados no tempo colonial? Como será a cidade de Luanda daqui a 20 anos? O futuro a quem pertence? Quem agarra nele com coragem e sem medo? Os “velhos luandenses” estão em risco de extinção. Em seu lugar, uma multidão dessincronizada de jovens, “por enquanto jovens”, imigrantes, vindos de todo o lado, que de Luanda só sabem que têm de ganhar o pão nosso de cada dia e, utopicamente, um emprego...

FIM

T´Chingange na Diáspora dos AlGharb´s  do M´Puto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:23
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXXI

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XVIII

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… FRACCIONISTAS DO 27 DE MAIO DE 1977

- Crónica 318803.09.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – A independência era para isto!? - Nós e os mwangolés…

botas de tabaibos.jpg

Por soba k.jpg  T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Em crónicas anteriores fiz referência à proclamação da Independência unilateral do MPLA do 11 de Novembro de 1975 como tendo sido no Largo Diogo Cão mas, em verdade, foi no início da Estrada de Catete, um largo com descampado bem perto do cinema Império e da antiga Escola Industrial de Luanda. Consultando um artigo de Gabriel García Márquez, extraído da 53ª edição da revista Tricontinental, de 1977, dá como início da primeira etapa da “Operação Carlota”, a cinco de Novembro, seis dias antes daquele pronunciamento por Agostinho Neto.

O autor Garcia Márquez, conclui com a derrota das forças que invadiram a nação angolana e o início da retirada gradual das tropas cubanas, em 1976, quando parecia que tudo tinha concluído. Contudo, tal como acordaram os presidentes Fidel Castro e Agostinho Neto, um número mínimo de tropas ficou em Angola para garantir sua soberania. A situação começou a complicar-se, e a luta se intensificou de novo, mais uma vez a África do Sul interveio, de maneira que se iniciou uma nova etapa da “Operação Carlota”, que concluiu só 14 anos depois, com a derrota definitiva dos sul-africanos e UNITA; o último soldado cubano retornou no mês de maio de 1991.

socie4.jpg Numa declaração oficial, os Estados Unidos revelam a presença de tropas cubanas em Angola, em Novembro de 1975. Calculavam que tinham sido enviados cerca de 15 mil homens. Três meses depois, durante uma visita breve a Caracas, Henry Kissinger disse em particular ao presidente Carlos Andrés Pérez: “Parece que nossos serviços de informação estão muito deteriorados porque só soubemos que os cubanos iam para Angola quando já estavam lá mesmo”. Contudo, nessa ocasião corrigiu que a cifra enviada por Cuba era de 12 mil homens. Naquele momento em Angola havia muitos soldados, especialistas militares e técnicos civis cubanos, muito mais do que Henry Kissinger supunha.

O primeiro contingente era composto de 4.000 homens que aumentaram rápidamente para 18.000. Em 1976 já eram 36.000 e em 1988 já totalizavam 55.000 quando da Batalha de Cuíto Cuanavale, o maior confronto militar da Guerra Civil Angolana, ocorrido entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988. O local da batalha foi na região do Cuíto Cuanavale, província de Cuando-Cubango, onde se confrontaram os exércitos de Angola (FAPLA) e Cuba (FAR) contra a UNITA e o exército sul-africano. Foi a batalha mais prolongada que teve lugar no continente africano desde a Segunda Guerra Mundial. Os cubanos saíram em 1991, enquanto a Guerra Civil Angolana teve continuidade até o ano de 2002. As baixas cubanas em Angola totalizaram cerca de 10.000 mortos, feridos ou desaparecidos.

mocanda33.jpg A DISA, a polícia política da altura do chamado “28 de maio”, alusão ao período logo após o 27 do golpe, sob a direcção de Ludi Kissassunda e Onambwée, tendo como principais executantes António Carlos Silva, Carlos Jorge, Pitoco, Inácio Osvaldo, Eduardo Veloso, Norberto Castro Pereira, Margoso, José Maria, Manuel Carmelindo, José Vale, Nascimento, Domingos Cadete, Victor Jeitoeira, Cristian André, José Baião, João e Henrique Beirão, Zeca França, José Baião, Júlio Rasgado, Miguel de Carvalho, entre outros, prende, tortura e mata sem qualquer controlo.

As cadeias ficam sobrelotadas; os presos são alvo de todo o tipo de sevícias: espancamentos com martelos, paus, barras de ferro, soqueiras, cintos, chicote, pedaços de mangueira cheios de areia, mesas, bancos, cadeiras, bancos; violentamente amarrados com os braços atrás das costas até perdem a sensibilidade dos braços e mãos; suspensos e deixados cair no chão, com os braços e as pernas amarradas; queimados com pontas acesas de cigarros, também um torniquete colocado na cabeça e, que à medida que é apertado, causa fortíssimas dores e a perda de consciência; choques eléctricos nos genitais, etc, etc… A imaginação dos algozes não tinha limites em sua bestialidade. O sangue corre às golfadas como um mar, os gritos de dor dos seviciados são insuportáveis…

mocanda31.jpg Ainda do relatório da Amnistia Internacional: - “ Segundo prisioneiros que foram enviados para um campo de “reeducação” em Calunda na Província do Moxico, muitos outros prisioneiros foram sumariamente executados, morreram à fome ou foram alvejados ao tentarem fugir – tiro ao alvo, dizem. A última execução em massa de pessoas presas em conexão com a tentativa de golpe e, que foi pelo menos, de 15 pessoas, terá ocorrido a 23 de Março de 1978. Alguns dos prisioneiros foram condenados à morte ou à prisão por um tribunal especial, mas nenhum foi submetido a nada que se assemelhasse a um julgamento imparcial.”  

O governo angolano negou alegações feitas em carta aberta por um partido politico, de que 30 mil pessoas haviam desaparecido durante os anos de 77 e 78, em consequência da Revolta dos Fraccionistas. Limitou-se a admitir “excessos” declarando compartilhar “ a legitima preocupação dos familiares das vítimas, interessadas em saber o que acontecera aos seus parentes”. O governo angolano disse ainda que talvez fosse criada uma comissão para tratar do assunto”. Em realidade, nada foi feito e, as indicações posteriores de gente desgarrada do processo e, despeitada com seus superiores, declarou no exílio da diáspora, aquele número ser de 80 mil…

mocanda32.jpg Ainda no ano de 1978, os rodesianos fizeram um ataque ao campo de refugiados da ZAPU de Joshua N´Komo, em Boma, Sul de Luena, onde foram massacradas centena de pessoas. Em um ataque ao Lubango no ano de 1979, por bombardeamento feito pelos sul-africanos, morrem 612 pessoas. Este foi também o ano do “massacre de Cassinga” quando militares sul-africanos atacam um campo de refugiados namibianos, chacinando 1.200 pessoas; e da morte,   em Moscovo , de Agostinho Neto, cujo corpo regressa embalsamado a Luanda. Na exéquias fúnebres, em quase histeria colectiva as pessoas gritam “mataram nosso Netinho”. Referiam-se aos soviéticos, mas a verdade é que Neto sofria de incurável cancro de fígado por via de tanto “chivas regal” – implodiu por dentro, simplesmente!… 

Na presidência de Angola, sucede o eng.º José Eduardo dos Santos, nascido no musseque Sambizanga, de pai pedreiro e mãe doméstica, foi aluno do Liceu Salvador Correia de Sá. Formou-se em engenharia de petróleos em Baku, ex-URSS, sendo a princípio contestado pelos radicais do MPLA, especialmente por ter decidido congelar todos os processos de condenações à morte; posteriormente aboliu a pena de morte em Angola. Sabe-se sim, por via de muitas denúncias que sofisticaram a forma de eliminar inimigos ou gente inconveniente com venenos de sofisticada elaboração entre outras formas dissimuladas… Entretanto a guerra continua com a UNITA fixada na Jamba – Cuando / Cubango…  

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:08
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2021
KANIMAMBO - LXXV

* União, Ousadia, Talento e Loucura * 

Crónica 3187 de 01.09.2021 - O Mundo está feita um manicómio, noé?!

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Por   soba k.jpgT'Chingange no AlGharb do M'Puto

Certa vez, um senhor foi visitar um amigo médico que dirigia um manicómio. Ao chegar, foi recebido pelo amigo. Este mostrou-lhe as dependências de seu hospital. Após visitarem as acomodações e principais salas de tratamento, chegaram a uma porta com um vidro, de onde podiam observar o pátio em que os internos tomavam banho de sol e se socializavam.

Enquanto conversavam, dois homens se desentenderam e começaram a agredir-se. Vendo isso, o director do hospital pediu licença e foi até eles para separá-los e apaziguar a contenda. O amigo ficou surpreso com a coragem do médico ao vê-lo apartando a briga.

cubo 10.jpeg Quando ele voltou, o visitante perguntou intrigado: “Amigo, você não tem medo de entrar no pátio sozinho para separar duas pessoas brigando? Não tem medo de que os demais se unam em defesa dos colegas e avancem sobre você?”

O médico então respondeu: “Não, não tenho medo; sabe por quê? Porque os LOUCOS NUNCA SE UNEM” A união é uma característica de pessoas mentalmente sadias. Não é à toa que Satanás, o Diabo feito capeta, gosta de separar amigos, casais, colegas de trabalho e, principalmente, as pessoas que acreditam em Deus.

roxo92.jpgAR  - O inimigo não está interessado enquanto manobra o TALENTO, numa sociedade ou o que uma igreja contenha, desde que consiga manter as pessoas separadas. No entanto, treme quando dois ou três se unem em nome de Jesus...

Pouco antes de enfrentar a cruz, Cristo pediu em oração: “Rogo para que todos sejam um, Pai, como Tu estás em Mim e Eu em Ti. Que eles também estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste”

Observe que Jesus não pediu que seus discípulos, fossem mais talentosos e educados. Ele pediu UNIÃO. Isso deveria fazer-nos pensar. Deus é maior do que nosso egoísmo ou qualquer espírito de separação que exista entre nós. Ele espera que você/nós, sejamos unidos às pessoas de seu convívio, reflectindo o amor verdadeiro...

dia167.jpg Quanto a OUSADIA, Elias era humano como nós. Ele orou fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e meio. Orou outra vez, e os céus enviaram chuva, e a terra produziu os seus frutos... Alguns personagens bíblicos foram tão corajosos que nos fazem sentir insignificantes. Um deles é Elias. A Bíblia afirma que, certa vez, ele suplicou a Deus que não chovesse sobre a terra, e foi atendido. “E não choveu sobre a terra durante três anos e meio".

Orou outra vez, e os céus enviaram chuva. ”Como poderíamos comparar-nos a um profeta que fez um pedido ousado a Deus e ainda assim foi atendido? Em primeiro lugar, é preciso notar que Elias pediu a Deus que não enviasse chuva. Por que ele fez esse pedido específico? Israel estava adorando Baal e acreditava que o regime de chuvas e a fertilidade da terra dependiam dessa divindade.

dia01.jpg Assim, o profeta, interessado em provar a inexistência do falso deus, pediu que o Deus verdadeiro retivesse a chuva, demonstrando Seu poder sobre todas as coisas. Outro ponto importante está no advérbio de modo utilizado para modificar o verbo “ORAR”. Tiago diz que Elias orou “fervorosamente”. Deus quer que oremos com essa intensidade. Jesus disse que, se insistirmos, o Justo Juiz nos ouvirá...

Finalmente, o verso diz que “Elias era humano como nós”. O profeta não era um super-herói da fé, mas alguém que tinha lutas, dores, sonhos, decepções, tentações, vitórias e fracassos como também temos. Ainda assim, depositou toda a sua confiança em Deus, por isso foi honrado por Ele. Portanto, não fique surpreso com a história de Elias.

mano corvo.jpgCA - Ela, a história, simplesmente nos mostra que poderíamos e podemos alcançar muito mais vitórias espirituais se formos ousados em nossas petições. A experiência do profeta demonstra que todo aquele que oram com fé, fervor e de acordo com a vontade de Fé, será ouvido e atendido...

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:51
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Terça-feira, 31 de Agosto de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXX

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XVII

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… FRACCIONISTAS DO 27 DE MAIO DE 1977

- Crónica 3186 – 27.08.2021 - “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – A independência era para isto!? - Nós e os mwangolés…

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Por   soba k.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Sem a preocupação gramatical, com o sujeito cutucando o verbo mais o predicado…, sem a métrica do fado, uma emergência confusa deste tempo pandémico, sem a rima versejada, a metáfora triste e saudosa, bonançosa quanto baste mas, de alma torturada…, sem pátria idolatrada, jogando búzios na zuela do feitiço do tempo, com algum esforço intelectual, remexo nas panelas do esquecimento de N´Gola!

Muito me convenço da inutilidade das bagatelas que nos preenchem o dia, por isso relembro o passado recente e longínquo para espairecer ressarcimentos que ainda podem chegar; que deveriam já ter acontecido mas, neste capítulo de descolonização as coisas só desacontecem - vou esperar deitado porque as kinambas, andam roídas pelo salalé. Sem ser convocado, assisto avulso só por assistir, às periclitãncias do socialismo, tendo até medo de comentar disparates grosseiros. Assim sendo, só poderei responder com muxoxos malcriados, refugiando-me atrás do balcão de minha modesta venda de vaidades.

kafu35.jpg Vamos situar-nos a 27 de Maio de 1977 e, em um após as insistências da URSS a Agostinho Neto a fim de aderir ao marxismo-Leninismo, o que veio a consumar-se com a criação do MPLA-PT. Não obstante Neto continua uma pedra no sapato do regime soviético, que na altura era chefiado pela “tróica” de Nicolau Podgorni/Kossinguine/Brejnev. Quatro homens da ala esquerdista do MPLA lideram um golpe de estado contra Agostinho Neto. Foram eles: Bernardo Alves - Nito, Jacob Caetano – “Monstro Imortal”, José Van Dunem e o Comandante Bakaloff.

O episódio é conhecido por Revolta dos Fraccionistas - “dos Frac´s” na linguagem popular. Num discurso após o golpe, Neto afirma que por detrás da rebelião, estivera “ uma embaixada estrangeira em Angola”. Para os analistas políticos não restaram dúvidas em apontar de forma comedida o embaixador Kalilnini como sendo o autor intelectual do episódio. Já dominando os pontos chaves na Capital – Luua, como a emissora de rádio, o golpe aborta porem, mercê da rápida intervenção militar cubana ao lado de Neto. “Monstro imortal”, armado com uma metralhadora, entra no Palácio da Cidade Alta de Luanda, com o propósito de dar ordens de prisão ao presidente angolano; assim não foi, porque Neto, estava no Futungo de Belas…

kalunga1.jpg Monstro Imortal é preso de imediato. Na onda posterior de repressão, são presos, torturados e passados pelas armas na forma sumária, seguindo-se-lhe milhares de pessoas, incluindo os mentores do golpe, depois de serem sujeitos a dolorosa tortura física. Conta-se que a Nito e a Monstro Imortal, lhes foram arrancados os olhos, ainda em vida. O último relatório da Amnistia Internacional sobre o golpe de 27 de Maio relata o desaparecimento de prisioneiros – “Noite após noite, durante os meses seguintes, ambulâncias e outros veículos saíam da prisão de Luanda e de outras cidades”.

monstro1.jpg Hermínio Escórcio, chefe do protocolo da presidência, descreve mais tarde como sucederam as manobras dessa revolução: “ Na manhã do dia 27 estava em casa quando me apercebi que a Rádio Nacional de Angola – RNA, havia sido tomada. Fui para o meu gabinete no Palácio e de lá telefonei para o Futungo de Belas (Presidência da República) mas de caminho pude avistar o Onambwé e o Delfim de Castro que, dentro de um tanque, se dirigiam para as instalações da RNA, onde já estava no ar o programa radiofónico “kudibanguela”. Depois da retomada da RNA fui o primeiro dirigente a lá entrar”. 

Continuando: “saí da rádio e fui até à Avenida Lisboa para ver se havia rastos de sublevação. Liguei o Neto, disse-lhe que estava tudo calmo e, ele prontamente afirmou: “Então posso ir até aí!” Disse-lhe que por uma questão de segurança, talvez fosse melhor ficar pelo Futungo. Dito isto, acrescentou que ia chamar a imprensa para fazer o ponto da situação.  Mal sabia ele que o Saidy Mingas, o Eurico e o Garcia Neto já tinham sido mortos. Também desconhecia que alguns comandantes haviam caído em emboscadas montadas pelos Fraccionistas à 9ª brigada. Neto, quando soube de tudo isto, ficou completamente transtornado”.

kani4.jpg Neto vai à televisão e proclama o salvo-conduto para o banho de sangue: “Não haverá contemplações…Certamente não vamos perder tempo com julgamentos”. Os fuzilamentos sumários passaram logo a ser norma. Convêm dizer aqui que os cubanos após retomarem a Rádio Nacional, abrem fogo sobre todos os amontoados de população que eventualmente estavam ao lado dos revoltosos e, acto contínuo retomam o controlo das cadeias. Mila Coelho, mulher de Rui Coelho fuzilado a 2 de Junho de 77 e, que na altura era chefe do gabinete do Primeiro-Ministro Lopo do Nascimento, conta assim: “ Esperava Rui, vindo de Argélia e a 1 de Junho com a tragédia do 27 a decorrer, notei nele muita intranquilidade. No dia seguinte, dois de Junho, vieram buscar-nos a casa”.

“Dois soldados armados de metralhadora, exigiram que fôssemos com eles. Levaram-nos para o Ministério da Administração Interna aonde permanecemos toda a tarde, sentados em um banco corrido. Nessas horas falamos pouco; estávamos horrivelmente destroçados. Era já noite quando nos foram buscar; meteram-nos num cubículo escuro e pela madrugada levaram-nos para a Cadeia de S. Paulo.  A separação de homens para um lado, mulheres para o outro afastou-nos definitivamente um do outro para nunca mais nos virmos”…

namib3.jpg Nos fios de gastas crenças, tão corcovado, tão enrodilhado em suas macias filosofias de mineiro de volfrâmio, recordo meu pai Manuel, embebido, travado e suspirando baixinho, revendo sua miúda indecisão de viver, vendendo volfrâmio a Hitler para sobreviver. Um dia de repente, com um trejeito de esforço, endireitou-se emperrado e cresceu! E, falou: - Amanhã vou à Companhia Colonial de Navegação inscrever-me - Vou para Angola! E, foi… Ora sucede que neste 27 de Maio veio da Luua inchado de porrada e com uma bala nos joelhos; esperei-o no Aeroporto da Portela de Lisboa. Seguro por duas muletas parecia um Cristo! Tirou essa bala e, não mais voltou… Impôs-se assim uma forçada regra de vida: - A liberdade de sermos saudáveis ou morrer por coisas impensáveis…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:29
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXIX

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XVI

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… OFENSIVA NGOUABI - Crónica 318422.08.2021

- “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes” – A independência era para isto!? -Nós e os mwangolés…

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Por tonito16.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Ainda anda por aqui e ali no M´puto e Diáspora, muita gente com quem temos amizade e que dão um encolher de ombros às lembranças de então, de há 46 a 47 anos atrás. A força de esquecer dos retornados, refugiados e afins, foi mais que muita e, ao ponto de até esquecerem o nome da lavadeira, da rua aonde moravam e até do cachorro e coisas que se fracturaram no tempo em sonhos de altas falésias com muitos e assombrosos pesadelos. Eu passei a ser Cidadão do Mundo nascido por opção a bordo do Niassa - um Niassalês. Sonhos de mirar o passado pelas estrias de uma kalashnikov, AK 47 entre outras, aquelas de tambor ultra revolucionário e até das G3 dadas pela NT (Nossas Tropas) aos bandalheiros e pioneiros do MPLA. Uma grande parte dos “tinhas*”, até se tornou comunas militantes; outros são socialistas envergonhados…

dachala1.jpg Prometi a mim mesmo não me enganar continuando a ser eu próprio peneirando as opiniões, gerindo silêncios e, mesmo no exterior de Angola, fiz trabalho fiel por quem acreditava ser o futuro em Angola. Saí da UNITA mas, ela continua comigo pois recordo grandes nomes com quem tive o privilégio de trabalhar como Carlos Morgado, Kalakata, Alcides Sakala, José Kachiungo Marcial Dachala ou Adalberto Júnior entre tantos e tantos. Tive e continuo a ter com orgulho de exibir, um galo em cerâmica que sempre ficou agarrado à lapela do meu terno de azul diplomático, oferta como se assim o fosse: um louvor medalhado, por essa gentil pessoa com o nome de Sakala que então representava a UNITA em Portugal, sendo eu coordenador da Zona Sul do M´Puto… 

Só a partir do 11 de Março de 1976 as coisas começaram a tomar outro rumo. Tive a sorte de ser colocado pelo IARN como destacado ADIDO (Ex-funcionário dos SPCFTA e Câmara da Caála em Robert Williams), em um município, tendo na presidência um elemento do MDP-CDE do Ribatejo, que tudo tentaram para me levar para as tomadas de “montes” no Alentejo – Era o PREC em curso. Nesta descrição andarei um pouco mais à frente e atrás para inserir o essencial dos problemas que afectavam milhares de seres como eu e, em iguais circunstâncias; gente que quis esquecer e, que acabou mesmo por assim ser… Perturbado com os punhos no ar e assembleias a toda a hora, em terra de Otelo Saraiva, zarpei, bazei, fugi de licença ilimitada rumando para a Venezuela de Andrés Peres…

dachala2.jpg Mas e, voltando a Angola e a Fevereiro de 1976, deparamos com o rápido avanço do MPLA com cubanos para a tomada do Lobito e Benguela à UNITA e Soyo, a antigo Santo António do Zaire no Norte, à FNLA. A República Popular de Angola é admitida na ONU e reconhecida por vários países. Portugal seria o 88º membro a reconhecê-la. Neste mesmo mês, o comité político da UNITA abandona Huambo e inicia a retirada par Sudeste, com cobertura de uma coluna Sul-africana. Savimbi está no Leste e inicia, juntamente com duas mil pessoas, aquilo a que se veio a chamar a “Longa Marcha”. O líder da UNITA, Jonas Savimbi, viria a atingir o Cuelei, a 28 de Agosto, milhares de quilómetros percorridos, apenas com 79 resistentes.

Curiosamente, um erro táctico do próprio MPLA catapulta a UNITA, em 1976, para o palco internacional. O sucedido conta-se em poucas palavras: pouco depois da tomada do Huambo, o MPLA organiza no Sul de Angola, a “aldeias modelo” em que nada parece faltar mas, esquece-se das muitas aldeias em redor, de pobreza extrema. Perto de Vila Flôr a cerca de 40 km do Huambo, na noite de sete para oito de Setembro de 1976, Canhala foi cercada, atacada e saqueada pelo povo das aldeias miseráveis limítrofes, que não poupou a vida àqueles  que pactuaram com o plano engendrado pelo governo de Luanda.

dachala3.jpg Não podendo admitir o erro, o MPLA atribuiu aos “fantoches da UNITA” a responsabilidade pelo massacre; quando, na verdade, a UNITA se encontrava desmantelando para Sudeste. Até final de 1976, embora desfalcada, a UNITA resiste a três operações dos cubanos e MPLA “Tigre” no Leste; “Kwenda” a Sueste; “Vakulukutu”, no Cunene. Neste ano, Savimbi envia para Marrocos 500 homens que, a coberto do apoio do Hassan II, recebem treino militar – em Março do ano seguinte, no 4º Congresso da UNITA, estes homens são nomeados comandantes do exército semi-regular da UNITA.

À coligação MPLA/cubanos juntam-se tropas congolesas com um total aproximado de 10 batalhões que passam a actuar no Centro/Sul de Angola, praticando a politica de terra queimada, na qual ficou a ser conhecida por “Ofensiva Ngouabi”, de Marien Ngouabi , presidente do Congo e que, em Setembro de 76, visitou oficialmente Angola. Entre as aldeias mártires da “Ofensiva Ngouabi”, contam-se Quissanquela, Capango, T´Chilonga, T´Chiuca e Mutiete. Nesta última, foi sumariamente executada toda a população masculina.

dachala4.jpg Acompanhando as notícias de Angola pelas notícias internacionais, passei quase seis anos na Venezuela trabalhando na Barragem Raúl Leone do Guri situada na grande área do Amazonas entre os anos de 1977 a 1982; uma gigantesca obra situada no Rio Caroni, um afluente do grande Orinoco. Tive a felicidade de ter como Presidente um senhor de alta postura, um verdadeiro estadista chamado de André Peres, antecessor ao Herrera Campins e ao ditador chamado de Hugo Chaves. Nesse então Venezuela era um paraíso, havia pleno emprego, paz e harmonia.

Naquele lapso de tempo, convivia com gente saída de Angola, topógrafos, grueiros e gente de todas as aptidões; uma obra que mantinha 18.000 trabalhadores de 82 nacionalidades. Em nossos encontros e farras falávamos da Angola distante e, ao som dos merengues e cantares de Paulo Flores ou Bonga e até Minguito batíamos o pé levantando pó no pé de serra. Primeiro, meu trabalho era o de projectar e implantar estradas por toda a Venezuela ao serviço de uma empresa italiana e mais tarde como chefe de departamento de topografia e projectos inerentes àquela grande barragem.

palops1.jpg A guerra civil angolana eternizava-se. Agostinho Neto, o medíocre poeta e Presidente de Angola por um acaso, tendo consciência do problema social, tenta uma abertura política, como modo de se libertar do cada vez mas fechado domínio soviético que estrangulava a olhos vistos o MPLA. Neste âmbito, encomenda uma sondagem para um possível acordo de paz com a UNITA. Em 1977, a embaixada soviética em Luanda é dirigida por Arnold Kalinini. Conhecem-se as pressões que o embaixador exerceu sobre Agostinho Neto, no sentido de o levar a adoptar o marxismo-leninismo. O presidente Neto resiste. Num discurso desse mesmo ano, afirma que “o MPLA deve continuar a ser um partido aberto a todas as correntes nacionalistas angolanas”. Mas, acaba por aceder em Dezembro de 77, transformando o MPLA em PT, Partido do Trabalho, realmente de cariz marxista-leninista.

Notas*: Tinhas – Cognome de alguns retornados por sempre repetirem: “ Lá, eu tinha” – Se era verdade para muitos , a maioria, não o era para os faroleiros que diziam ter o que nunca tiveram…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:13
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXVIII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XV

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… Crónica 318115.08.2021

-Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”… No meio do desespero, viria a confirmar-se o quanto era perigoso ter americanos como amigos…

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Por soba k.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Na Avenida Brasil, que dá para o musseque Marçal, havia ali perto uma sede da FNLA; até era considerada uma das sedes mais importantes mas a “porrada” também ali chegou com toda a cagança de militares nervosos. Na Vila Alice o Chico, amigo meu e do Zorba, punha-se deitado na varanda da casa para gravar o tiroteio, entre a F.N.L.A. da Avenida Brasil, no Marçal e o M.P.L.A. no António José de Almeida na Vila Alice. Parecia uma guerra de brincar mas, no tempo o cheiro do sangue, as carrinhas que passavam com mortos para a morgue ou sei lá, para onde fizeram nosso miolo ter medo. Era esse o propósito. Mandar os brancos para o M´Puto.

Em Luanda, os combates começavam do nada com trocas de tiros de armas ligeiras entre a sede do MPLA e a da FNLA. A casa do Zorba chegou a ter 46 buracos de bala na parede do quarto do sexto andar. Um dia ele espreitou - eles nem sequer levantavam a cabeça para ver onde atiravam; era mesmo só àtoa levantavam a arma acima do muro e despejavam o carregador. Quem é que com raciocínio podia ficar indiferente a isto. Rosa Coutinho, Melo Antunes e toda a pandilha tinham congeminado isto muito bem. O medo vai fazê-los sai! Terão dito os filhos da peste…

preto4.jpg Entretanto, nas horas daqueles dias a vida não valia um vintém; tudo ficava ao sabor da sorte. Nestas aflições sem controlo visível, surge a figura de Gonçalves Ribeiro batendo-se pela criação de estruturas àquela que se veio a chamar de “ponte aérea” e, que só se resolveu em pleno quando mais de cinco mil pessoas se juntaram no Largo fronteiro ao Cinema Miramar da Luua pedindo a todas as embaixadas que mandassem transportes aéreos ou marítimos a tirar-nos daquele inferno.

Um dia, a FNLA montou antiaéreas no terraço do prédio, e virou-as para baixo, em direcção à sede do MPLA. Avisaram o pessoal do prédio que era melhor ir embora, não se responsabilizavam pelo que pudesse acontecer e, a coisa aconteceu! E, lá foram embora, para casa de familiares que moravam no Maculussu. Quando o MPLA descobriu donde estavam, a maka recrudesceu com monacaxitos e o escambau! Tudo que tinham de destruir foi usado sem mais nem porquê.

pal4.jpg No dia seguinte, Zorba, quando lá voltou, o apartamento já tinha sido atingido por um roquete. Nos dias seguintes, o prédio iria ficar completamente destruído. A FNLA desde algum tempo, mesmo antes da assinatura formal do cessar-fogo com o Exército português, havia metido muita gente na capital, vinda de Kinshasa - Quadros políticos e tropa que falava em francês com sotaque de bumbo dos matos. Não falavam português, e pelo comportamento, eram já donos do pedaço, arrogantes, mais parecendo um exército de ocupação. A coisa não lhes saiu bem; isto já foi parcialmente contado lá atrás nas mokandas mas, não é demais relembrar.

Mês da Independência – Novembro de 1975, e da invasão zairense ao Enclave de Cabinda. O MPLA proclama a República Popular de Angola, no antigo Largo Diogo Cão, bem à entrada do Porto de Luanda. A FNLA e UNITA unem-se no projecto da edificação da República Democrática de Angola (RDA), com a capital na antiga Nova Lisboa (Huambo). Ainda hoje, nas chancelarias internacionais analisam aquela Angola dividida fazendo comparação entre as Coreias do Norte e do Sul.

Gonçalves Ribeiro.jpg Teremos de recordar aqui de forma sucinta o que foi a “Ponte LUALIX” que veio a suceder com a supervisão de Gonçalves Ribeiro, o pai da ponte. A CIA dizia nesse então que Lisboa não tinha um suporte adequado no terreno que lhe permitisse evacuar mais de trezentos mil brancos ainda no território, nem para manter os voos no ar. Era verdade! Mas também havia aqui pressões para em troca da ajuda, Costa Gomes retirasse o vermelho Vasco Gonçalves do governo. E, foi isso que veio a acontecer!

Aquele antigo internado na casa dos malucos, sector militar de Luanda andava esbracejando demais naquele M´puto desvairado de liberdade - Um Tigre de papel! Mas, em verdade, os americanos não dão nada de borla, teria de haver algo na cartola do tio Sam. Jogaram uma rolha e Costa Gomes agarrou-se àquela bóia, pois então, dava jeito! Os retornados, foram em verdade, a moeda de troca; com um só porrete mataram dois coelhos como se diz! Portugal inundado de retornados anticomunistas, vinha mesmo a calhar nesta hora (…ano de 1975). E, o mundo observando estas manobras com o abutre Carlucci a dar palpites ao estado português através de Mário Soares e outros desclassificados diplomatas de cordel que iam ficando agraudados de poder e dinheiro, pois!...

pombinho10.jpg P -Bom! Na N´Gola, as FAP já nem dispunham de bases aéreas para nos escoar; falo na primeira pessoa porque estava lá! Os confrontos permanentes entre todos os movimentos impediam o funcionamento dos aeródromos como o de São salvador, Cazombo, Maquela, Togo, Gago Coutinho, Cuíto Cuanavale e N´Riquita; Henrique de carvalho, Malange, N´Dalatando e Carmona já só tinham estruturas reduzidas, quase sem uso por falta de segurança e equipamento de apoio.  

A RDA de Savimbi, falha. No dia da tomada de posse, Holden Roberto e alguns de seus convidados, entre os quais jornalistas e um elemento da embaixada americana em Kinshasa, levantam voo de Carmona (Uíge), rumo a Huambo aonde chegam ao início da noite. A pista do aeroporto estava às escuras. O avião sobrevoa várias vezes a cidade, mas Jonas Savimbi não permite que este aterre, mesmo sabendo que o aparelho podia não ter combustível para o regresso, com a agravante de não poder abastecer em nenhum outro aeroporto, já nesse então em áreas controladas pelos governamentais.

Este relatório que Holden Roberto descreveu mais tarde, poderia ter custado a vida a dezenas de pessoas. Assim, Jonas Savimbi, viria a proclamar sozinho, a República Democrática de Angola. Comentaristas, viriam a chamar a esta como sendo a República Negra Democrática de Angola. Poucos dias depois, a UNITA envolve-se em confrontos com os militares da FNLA ali estacionados, acabando por expulsá-los da Cidade do Huambo.

pombinho9.jpgP - A invasão de Cabinda contou com a participação de mercenários franceses ao lado da FLEC – Frente de Libertação do Enclave de Cabinda, hoje dividida em várias facções e, segundo se consta, subsidiados por algumas companhias petrolíferas que operavam no Enclave e, um batalhão do exército zairense, portador de artilharia pesada. Os invasores foram combatidos e escorraçados pelas FAPLA do MPLA e cubanos, quando aqueles, estavam prestes a tomar  a Cidade de Cabinda.

Estamos em Dezembro de 1975. Cuba desencadeia a “Operação Carlota” que fez desembarcar em Angola sete mil militares deste país caribenho. O Senado norte-americano aprovou a “Emenda Clark”, que impede ajuda militar dos Estados Unidos da América à UNITA e FNLA. Viria mais uma vez a confirmar-se o quanto era perigoso ter os americanos como amigos; eles, sempre viriam seus interesses confirmando-se “americanos, são os amigos mais perigosos que se pode ter” – assim foi!

3 Ilustrações de Pombinho ( assinaladas com P)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:09
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Domingo, 15 de Agosto de 2021
KWANGIADES . XXXV

MOKANDA DO ZECA - NO MEU ANTIGAMENTE DA VIDA – Tou magrinho, bué triste nos loando muxima iami... já não posso ir na jihenda da Malta do Cú Tapado - Crónica 3180 (do Kimbo) - 13.08.2021Sexta Feira ... Kwangiades: - Derivado das musas do kwanza

ZECA MAMOEIRO.jpg

As escolas da kizomba   kimbo 0.jpgCom Jose Santos AGO 2021

TONITO UUABA! Aiué k Mano ué! A Jihenda tua é brasa de fogareiro de mama..., e pousado no meu kintal do uuabuama lugar do Rio Seco da Maianga! Tuas FALAS mexe comigo e sacode o meu salalé...! Eu, ando nos desgosto Mptukp pessoa trato dos cautela sekulu uafo ué átoa...! Nos passado dos tempo já bwé passado dos feitiço Malamba..., Le perdi os meu jeito nas minha fala e tenho andado nas minha fugas pelas barrocas..., por causa do ximba do kissonde...!

Tou magrinho, bwé triste nos loando muxima iami..., os xipala tem dentro andorinha que faz ninho, os auditório tem tugi reco-reco que não descansa e o tugi é finório..., os meu mano cristalino bwé catrapisca caté parece os pala catrapisca dos antigo VW no beulando pela Mutamba no galar os kilumba dos destino Maximba 3 para os Choupal..., dos mwadié cafezeiros e dos biacos controladores, dos mambo..., de copos de Sbell e de pratinhos de alumínio com jinguba.

zeca02.jpeg Tou proibido de comer atoa kifufutila por causa do coisa Colocolo... Só sopinha da horta do Miguel das Barbas feita na hora de "tasquinha" e peixinho; matona, cacusso, tainha..., e na chapa quente..., e, que nadam num encurralado de celha gigante de misturinha alimento que faz crescer atoa sem N´denge..., e, lellu, caro pra xuxu..., Tu vê só, agora os esperto dos merceeiro licenciado, que lellu pula-pula na berrida e também nos termo dos macroeconomia...

Quando nos Mu Ukulu num queria de saber katé bem dormia..., no colchão de espiga de milho, tinha chevrollet cheia dos atrozes e, agora t´xé tudo como manda a sapatilha...colchão Pikolin..., bruto jeep com tracção bwé decores e para passar por covas e subir picadas..., no lugar de pesca de truta, tordos arraçados e galinhas virgens de mato..., e, agora que acorda muito cedo por caso de aulas e bem nos distancia inventado pelo pula dos confinsna...

zeca01.jpeg Então, catravês ele aprende os orçamento, os despesa os lucro os ponto de equilíbrio satisfação dos budget, que no analisar, se tudo cobre bem e dá pra ajudar os economia, mas tabuada dos nove muito falha os resultado, os regra dos três dos simples, os equação dos segundo grau que dá bwé comichão... Ah! Não tambulakanta, muito embirra com os leitura dos estatística...

Os percentage dos curva sobe e desce, que diz que parece a linha, que vem do Bungo para a cidade Alta do uuabuama da Luua mesmo e, saudoso kurikutela... A tua prosa, o teu missosso é escola, é cultura..., e já tão longa...A tua obediência, o teu prazer diário de divulgar e levar até nós é extraordinário..., e que lá de cima do algodão N´Zambi te abençoe... Katé meu k mano e te acautela do tugi...tu e a IBib...

Araujo194.jpg Ximbicando n´dongu nos cânticos de bela kianda feita kapota, logologo no camenemene do Baleizão e, sob o olhar das palmeiras da Marginal, eu axiluanda como no tempo dos mafulos, dei com o sonho na praia de Loanda…! Aquele lugar que consolava o meu kituku de dilulu; minha kalunga. FUI!

:::GLOSSÁRIO: Atu/mutu - pessoas/a; Axiluanda - antigos pescadores de Loanda; Berridavam - fugiam; Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kapiango – roubo; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol nascente; N« dandu – parente; N´dongu - canoa; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Mafulos - Holandeses; Mayanga - Maianga, um dos bairros antigos de Loanda; Trumunu - jogo de bola de trapos; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama - maravilhoso Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores; mafulos – holandeses; Ximbicar – remar com bordão; Kapota – galinha do mato; kurikutela – comboio vagaroso;k mano – mano do coração; Tambulakonta – toma atenção, cuidado; Um Ukulu – Do antigamente; Baleizão – gelado, picolé; Pikolin – Colchão de molas;matona – peixe da bahia da Luua; Luua – Diminutivo de Luanda;  Colocolo – Corona Virus; kifufutila ou kafufutila – perdigotos ao comer e falar ao mesmo tempo; Sbell – Wisky da Catumbela, cachaça; tugi – merda; maxima – autocarro, bus, machimbombo; Choupal – Cabaré, can-can, Bataklan; Xipala, T´Xipala – foto; Jihenda – luta , labuta; seculo – mais velho, idoso; Mtukp – M´Puto k pariu, Portugal; mwadié – brango, goeta, xindere (perjorativo);uafo – morte, morreu; Malamba – palavra; átoa – de qualquer maneira; Kissonde – formiga grande; ximba – bicho; beulando – passeandoo abandono…

ZECA 20210808



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:08
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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2021
KAZUMBI . LXVIII

MOKANDA DA LUUA – KAPIANGO - Luanda do Mu Ukulu… Era uma vez … O temp ruge.

Da Luanda actual - Crónica 317709.08.2021

- Kinguilas, as fugitivas da Independência - II de IV

kinguila01.jpg

Por tonito17.jpgT´Chingange no AlGharb do M´puto

Do BCI não é o urinol da esquina, que não funciona, nunca funcionou. Importado a peso de ouro do Brasil, a “casa de banho” faz parte de outras talvez centenas espalhadas pela cidade que nunca funcionaram. Ninguém conhece os contornos do negócio, apenas se sabe que nunca funcionaram, nem se conhece ninguém que tenha lá dentro urinado. O Rialto já não existe, só ficaram as saudades dos apetitosos pregos com jindungo e os finos tirados com a pressão exacta. Em seu lugar, recentemente, foi construído um alvo Monumento ao Soldado Desconhecido.

Os jovens não sabem o que isso seja, imaginam, segundo me disse um deles na rua, ser um soldado sem registo de nascimento. Ali ao lado estão os Correios, já centenários, mas de que ninguém parece tirar utilidade. Perguntámos a um jovem, vagabundeando por ali, o que são os correios. Ele olhou, tranquilo e respondeu muito sereno “não sei, pai”. Ninguém sabe nada, aqui nesta cidade. Também não precisam de saber. O tempo parou, sitiado entre a madrugada das 6 horas e o pôr-do-sol das 18 horas, vaivém, a cidade se povoa e despovoa, aqui se faz tudo, mas ninguém é daqui, as pessoas desabitam aqui, por isso não há tempo.

kinguila0.jpg As kinguilas, fugitivas da Independência e da puliça, andam nos extremos da extensa avenida N´Zinga ou Ginga dominadas pelo banco estatal BPC, a agência Kaponte e a agência lá do fundo perto do Eixo Viário, ao lado da Unitel. Ninguém sabe o que é Kaponte, os jovens, desempregados, não sabem nada, não lhes diz respeito. Mas Kaponte pode ser uma pequena ponte, aquela ponte que liga à Praia do Bispo e onde se mataram, dizem, brancos desesperados com dívidas ou com desamores, naqueles tempos remotos antes do setentaecinco, tudo junto…

Lá dentro do BPC, para onde os mais velhos espreitam, diz-nos o jovem M´Bambi, nunca há sistema nos computadores, especialmente, reforça, depois das 14h - 14h30. Os funcionários querem ir para casa e não toleram mesmo, ser retardados por clientes sem dinheiro, mas com problemas complexos deles, de primos e tios que obrigam a consultas demoradas. Lá fora, um mundo mudo, ninguém fala, toda a gente parada sentando-se onde pode ou polindo esquinas…

kinguila5.jpg É o mundo das kinguilas, as cambistas de rua, as verdadeiras bancárias do sistema, que também vendem recargas da Unitel, são dezenas largas de mamãs opulentas, vigilantes, carregadas de kwanzas e de divisas, inexistentes nos Bancos. Usam um balaio de mateba ou de plástico colorido; cada uma usa sua própria cor. A operação “Transparência” não lhes toca, parecem da família, tudo mancomunado com a grande máquina de lavar dinheiro; as purificadoras do sistema com adestramento no antigo “tira biquíni!” e mais suprimentos e até complementos do tal tão falado de “Roque Santeiro”. Um ar adstringente com cheiro a maboque derramado com mistura de tamarindo…  

kinguila3.jpgSó dão berrida nas pobres zungueiras que povoam a Baixa durante o dia, sempre com um olho aqui outro ali, já estrábicas, tipo ciganas na Europa, prontas a correr em defesa da mercadoria. São as fugitivas da esquindiva, da finfia com finta no aprendizado da Independência.

Mas é também o mundo dos pensionistas, centenas, ou milhares todos os dias desde manhã cedo, ainda quase escuro e ao som dos primeiros pio-pio dos agora raros pardais, seres ainda vivos se abeirando do óbito, tentando ver se a pensão já caiu…

O tempo clareou obscuridades trazendo o lixo na corrente da estória que os  fez junto com os saídos de Angola involuntárias marionetes – a tal de dipanda do tundamunjila. Podia já ter esquecido todo este assunto, um tema deprimente para muita gente e descendentes matutos de mescla escura com mazombos e virgula no entretanto mas, eu mesmo prometi não esquecer este lado negro em terra que por via da descolonização se branqueou… O dólar tem de ser com o tal George de cabeça grande. O próprio George Washington

kinguila1.jpg Num aiué, todos os mitos em torno da “Nação de N´Gola”, as coisas mudam na percepção independente, tudo mudou mesmo muito nos anos da dipanda. Na Luua num repente também passou a ter também pretos de primeira e de segunda só que não querem que isto se saiba por ser assim muito tão cruelmente cruel. A preocupação com a etnogénese podia e pode ser muito bem motivada com a preocupação na degenerescência racial, da “eugenia positiva”, tem mwangolés de primeira e gente de chinelo do pé, tipo rafeiros mas isto, nunca passarão dum tal mito de que África dos trópicos de Capricórnio nunca vai querer analisar com profundidade …

(Continua…)

T´Chingange do kapiango na Diáspora dos AlGharb`s  do M´Puto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:13
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MOKANDA DO SOBA . CLXXVII

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XIV

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… Crónica 3176 07.08.2021

-Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”… Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo.

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Por   soba k.jpgT´Chingange, no AlGharb do M´Puto

A coluna da FNLA consegue atingir Caxito, onde é dizimada com a entrada em acção dos “Órgãos de Staline” aos quais os angolanos passaram a chamar de “Mwana Caxito”- filhos de Caxito; exactamente por terem sido utilizados pela primeira vez, na capital do Bengo. Esta arma capaz de disparar simultaneamente vários morteiros, foi construída no tempo de Staline, permitindo aos russos resistirem contra os alemães na Segunda Grande Guerra Mundial. Nesse então ganhou o nome de “katiusha”- querida Katia, palavra de código utilizada entre os comandantes das frentes. Nos EUA, chamam-lhe “Tio Sam”. 

Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo. A 9 de Março de 1975, no M´Puto, Spínola foi informado por oficiais amigos da operação matança da páscoa, um plano do Partido Comunista Português e os militares mais radicais do COPCON e da 5ª Divisão, apoiados pela União Soviética, para realizar uma campanha de assassinatos políticos, onde Spínola e seus apoiantes constavam como alvos, como parte de um golpe de estado para tomar o país. 

mocanda21.jpg O herói do monóculo e pingalim e luvas de coiro preto chamado de Spínola, escapa-se de helicóptero para Talavera de La Reina, em Espanha levando com ele a valentia que num repente enferrujou na apatia medrosa, com mofo e atitudes encardidas de vergonha. Entregues ao acaso, na Luua, as Forças Militares dum exército que deveria ser de conjunto, ao invés de apagar o fogo como o deveria ser, ateavam ainda mais os incêndios. Lopo do Nascimento mentia com todos os dentes dando força ao tal exército popular do seu MPLA – “victória ou morte” – Aiué, Nossa Senhora da Muxima nos acuda!...

As FAPLA, atacaram e destruíram com blindados o quartel da FNLA em Kifangondo. Ninguém se insurgiu neste uso de blindados! Deveriam ser apreendidos pelas N.F. mas, ou as ordens se perderam no caminho ou lhes faltou coragem para actuar. Podemos acreditar em tudo porque nada foi feito! Era mais fácil desconhecer tal gravidade. Lobito, Benguela e Sá da bandeira eram agora as cidades refugia dos deslocados de guerra idos do Norte, Malange Luanda, Uíge e muitas outras localidades.

mocanda31.jpg A etnia branca rotulada de colonos, já não acreditava nos nacionalistas; desesperavam por não ver a situação normalizar. Não dava para esperar! As escolas já não funcionavam, os dispensários médicos iam ficando sem gente capacitada, as instituições iam ficando desertas de gente com poder de decidir. O “lar do Namibe” uma cooperativa de construção comunicou-me que já tinha direito à tal casa mas, esta carta por ali ficou em cima duma estante a desaguardar num tempo que se esfumou.

Em Outubro de 1975, no dia 23, militares sul-africanos praticam a primeira invasão de Angola, dominando uma faixa ao longo da fronteira com a Namíbia, de modo a travar os movimentos das tropas da SWAPO, então apiadas por Luanda. A Organização de Unidade Africana tenta desesperadamente a reconciliação, enviando a Luanda uma missão que propõe um governo de unidade nacional. Tinha todos os condimentos para o fracasso e assim foi porque o MPLA já tinha as linhas de seu programa estabelecidas. Os generais de aviários progressistas portugueses já tinham delineado o trajecto por forma a levar o MPLA à posição cimeira na governação do território.

mocanda32.jpg Face à situação, quatro presidentes africanos reúnem-se numa mini-cimeira em Dar-Es-Salaam, capital da Tanzânia, país surgido da fusão das antigas Tanganica e Zanzibar. Nenhum acordo é conseguido. Julius Nyerere da Tanzânia e Samora Machel de Moçambique, defendiam o domínio do MPLA de Neto sobre Angola.  Kaunda da Zâmbia e Sir Seretse Khama do Botswana, eram partidários de um governo de unidade nacional que incluísse representantes da FNLA e UNITA.  Era chover no molhado…

O PCP da metrópole da colónia, "tentou a sua sorte para poder desempenhar um papel determinante na evolução do país. "A verdade é que a descolonização de Angola estava a ser executada. "Mas, uma facção dos comunistas, pressionados pela URSS, queria controlar o processo". Em Angola, as N.T. já nem saíam dos quarteis! Tinham sim um enorme desejo de serem rendidos e regressar à Metrópole do M´Puto. Nem pareceria ser relevante acudir a casos graves em defesa de gente Lusa. As teses do PCP vingavam em Portugal e Angola. Os novos mandantes a reboque deste PCP mudariam funcionários, quadros e militantes com acções reais no terreno. Preparava-se mais uma cimeira no Quénia mas ninguém acreditava nisto; Nem os próprios intervenientes!

spi3.jpg  Nas três primeiras semanas de Junho a FNLA e MPLA tinham aprisionado mais de duzentas pessoas, a maioria brancos, nalguns casos com seus familiares. Os edifícios públicos eram simplesmente ocupados pelos Movimentos; coisa sem lei nem roque! A cintura à volta de Luanda erguida pelo MPLA era uma realidade! E, tinha gente treinada na Metrópole propositadamente preparada para fazer parte deste MPLA; militares pagos pelo M´Puto e inteiramente destacados naquele Movimento como se dele fossem, com fardamento próprio do MPLA. Ainda ninguém trouxe isto às claras porque o sigilo estava por demais resguardado e, só alguns oficiais o sabiam.

mfa1.jpg O selo mentiroso do M´Puto

Nakuru era folha morta! “Numa situação de guerra em Angola, como e a quem se ia entregar a sua governação?”. – Era o próprio Silva Cardoso, Alto-Comissário, que se interrogava falando baixinho para que os demais ouvissem. Neto reclamava a saída deste! Ele queria que assim fosse e, isto era o bastante! A maioria dos oficiais portugueses andava a assobiar ao vento! Triste ironia desta nítida má-fé e, de quem ainda anda por aí recebendo benesses e até medalhas de bom comportamento.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:09
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Quinta-feira, 5 de Agosto de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXVI

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XIII

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… Crónica 3174 05.08.2021

-Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”… “A guerra, que matou e estropiou tantos, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas e prepotentes”

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Por   soba15.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Em Abril de 1975 Jomo Keniata organiza a Cimeira de Nakuru no Quénia, na qual a UNITA, MPLA e FNLA acordam na formação de um exército nacional único. Neste mesmo mês Savimbi chega a Luanda. Cerca de dois meses depois, o MPLA destrói um quartel da UNITA na capital., chacinando militares e civis ali bivacados – este episódio ficou conhecido por “MASSACRE DO PICA-PAU”, nome do bairro que albergou o quartel. Definitivamente o MPLA, pelas ordens de Rosa Coutinho, o cunhado de Agostinho Neto, não queria nenhum dos outros Movimentos intervenientes no “ACORDO DE ALVOR” em Luanda. Eu direi que este foi o mais escandaloso “DESACORDO” na estória recente que envolve países dos PALOPS.

picapau1.jpg Em Julho de 1975, começa a batalha pelo controlo de Luanda. MPLA e FNLA envolvem-se em violentos confrontos que originam a expulsão dos homens de Holden Roberto da capital, muitos deles zairenses com fardas do ELNA. O MPLA com ajuda das “NT - Nossas tropas - Tugas”, em logística e armas, utiliza todos os meios para combater a FNLA, incluindo a calúnia e mentiras absurdamente irreais como chamar antropófagos aos militares deste movimento. Vísceras supostamente retiradas das casas dos dirigentes da FNLA foram exibidas…

Coisa mais macabra, até parece mentira e, decerto não virá nos anais da estória contada por medíocres historiadores da praça Lusa. Assaltaram o Laboratório do Instituto de Medicina Legal de Luanda para retirar órgãos humanos e propagandearem a seguir em muitos posters, que a FNLA era um bando de antropófagos, que comiam fígados e corações de gente – Uns canibais, afirmavam eles! A médica responsável pelo Laboratório deu à língua e, misteriosamente desapareceu. Algum tempo depois foi encontrado um cadáver feminino calcinado pela cal, possivelmente o seu. Tudo valia para lançar o terror e, principalmente à população branca… Naqueles tempos da Luua, todos faziam o que lhe dava na gana com a “Kalash” na mão, saltando no tempo do tempo…

picapau6.jpg Sem definir datas ou horas exactas com gente impreparada e, miúdos “pioneiros” faziam querer tomar o controlo de tudo e, por modos de provocar a fuga de brancos e assimilados, mazombos como eu… A lei, a ordem, a justiça eram coisas quase inexistentes ou anedóticas pela pior das negativas… Um retrocesso ao tribalismo com todas as nuances, tudo muito carregado de misticismo e crenças de quimbandas ou sobas analfabetos e sem o mínimo de preparação para gerir o que quer que fosse.

Melo Antunes, Mário Soares e outros encarnados na vermelhidão, decerto lá nos areópagos internacionais, não dissertavam conversas destas com Kissinger porque para estes, tanto se lhe dava que fosse assim ou assado, logo que tivessem o controlo do ouro negro – o petróleo já a sair pelo tubo ladrão da Golf Oil Americana. Alguns de nós, manietados de todo, a tudo assistíamos martelando caixotes, rilhando o dente sem mais poder fazer, pois nossos magalas do M´Puto ajudavam as hordas de pseudo-revolucionários e, até ajudavam a pilhar nossas casas. Foram vistos e filmados nas avenidas Brasil e Combatentes a roubarem em dia claro…

picapau8.jpg Já não havia médicos em Luanda, eram escassos ou desactivados. Os géneros de primeira necessidade faltavam. Os assaltos a armazéns eram constantes e as cadeias de abastecimento não funcionavam – Era a candonga a funcionar. As filas nas padarias eram formadas a partir da uma da manha com sapatos, tijolos e marcas indicadoras de tal e tal pessoa. Um troca-me isto por aquilo e as bolachas num repentemente desapareceram, tal como a farinha e compotas – permutas de tudo o imaginário, uns roubados outros esticados daqui e dali formando um esquema nunca pensado. O bivalve chamado de mabanga, só usado para isca de pesca, passou a ser comido com arroz; a fome era negra… Num repente rebentava aqui e ali no meio dos bairros citadinos granadas de morteiro. Via-se o levantar de pó, terra e trastes, sei lá mais o quê!?

Um aiué; salve-nos Nossa Senhora da Muxima que os homens andam loucos, embalando corotos, fazendo caixotes, fazendo de carregadores, fazendo a estiva no porto de luanda e candongando coisas e pedras chamadas de feijão branco como salvaguarda, um aí Jesus que isto, como vai ser e, davam voltas em si mesmo ate tontear, para esmoer a fúria. As “NT -Nossas tropas” tinham ordens para ajudar na desordem! A raiva subia-nos em vapores com cheiros inexplicáveis…Era o medo, tal como tinha sido previsto pelo pai do terror chamado de Rosa Coutinho…

negro3.jpg E, quanto aos novos supostos dirigentes tinhamos muitos receios. Dos três líderes nacionalistas, era Savimbi o mais inteligente, o mais hábil e o mais forte politicamente para uns; também para mim – também o mais conotado com os militares portugueses no antes da Abrilada. O Agostinho Neto, cunhado do Rosa Coutinho era um desclassificado poeta, umas merdas escolhido para ser o chefe da nação. Os políticos da nova vaga vermelhusca do PREC não se cansavam de repetir isto e aquilo sobre Jonas Savimbi e sua colaboração com os militares antes do “vinticinco” de 74.

Para o MPLA, era incontestavelmente seu líder Agostinho Neto, um medíocre poeta com formação universitária em Coimbra – O homem escolhido pelos generais e afins do MFA (Dizem agora, ter sido o menos mau!). Quanto a Holdem Roberto não tinha solida formação política, era um fraco e facilmente corrompido; dependia de Mobutu e dos americanos de uma forma sorrateira mas sobejamente conhecida e, rastejante! Nos muitos dias insólitos daqueles tempos, na meditação actual, encontro factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem. A UNITA também se retira de Luanda para o Huambo, antiga Nova lisboa. O MPLA fica dono e senhor da capital, a Luua.

gurra10.jpg Em Outubro de 1975, desembarcam supostamente os primeiros cubanos que passam  apoiar o MPLA contra a FNLA tal como o combinado entre Fidel de Castro e Otelo Saraiva de Carvalho, o pseudo-herói do VINTICINCO de Abril, conhecido como a rebelião dos capitães. Diz-se que já havia em Angola e Congo Brazaville cubanos em treinamento para ultimar sua entrada em Angola antes do 11 de Novembro. Esta força foi em ajuda ao MPLA contra a FNLA; esta força que avançava para tomar Luanda, uma coluna na qual se incluíam mercenários de várias nacionalidades, portuguesas incluídas tal como Santos e Castro um oficial superior; também havia um elevado número de zairenses - sete ingleses, dois americanos, um cipriota, um escocês e um sul-africano são feitos prisioneiros e num julgamento sumário, mais tarde, foram fuzilados…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:37
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXV

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIAXII

INDEPÊNDÊNCIA DIVIDIDA Crónica 3172- 31.07.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”…

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Por   soba k.jpgT´Chingange, no AlGharb do M´Puto

A “Ponte LuuaLix” tem a participação de varias companhias de aviação tais como a soviética Aeroflot que se dispuseram a retirar um grande número de gente que até ali, só atrapalhava as directivas do MPLA. A criação do Quadro Geral de Adidos na Metrópole - Lisboa, veio acelerar o processo de escoar este elevado número de gente que detinha o controlo da Administração; tudo pensado para provocar a debandada. Era forçoso retirar os brancos pois seus lugares de direcção, teriam de ser ocupados pelos novos senhores. “Branco vai para a tua terra” era o que mais se podia ouvir, nas ruas, nas escolas e aonde quer que o fosse e se estivesse…

fotografo1.jpgEnquanto o controlo de Luanda se fazia ouvir pelo crepitar das armas, “desperdiçando” milhares de balas tracejantes para o ar, com o intuito claro de amedrontar a população acossada por comunicados das rádios ao serviço do MPLA, em Nova Iorque, o ex-agente da CIA Philipe Agee e o jornalista Steve Weisman, denunciam que a “Central” destinara 32 milhões de dólares “para apoiar o anticomunismo em Angola”. Os primeiros cubanos desembarcam no “país”. Uma coluna da FNLA, com mercenários e seus guerrilheiros, é derrotada às portas de Luanda.

Sul-africanos praticam a primeira invasão da Província do Cunene. A UNITA inicia a fuga para Sudeste. A República do Zaire invade o Enclave de Cabinda. O futuro estava terrivelmente comprometido. A 11 de Novembro festejam-se as duas independências no país que Portugal colonizou por quatro séculos, mas de onde nunca retirou o grosso da fatia das suas riquezas. O MPLA proclamou a República Popular de Angola em Luanda e, a UNITA e FNLA uniram-se no projecto da República Democrática de Angola, que veio a falhar. Antes de se falar da Batalha de Luanda, vai aqui recordar-se de forma breve a estória a partir de 18 de Junho do ano de 1974.

fuga6.jpg Nessa data, Silvino Silvério Marques é nomeado governador de Angola. Cerca de um mês depois, é substituído por Roa Coutinho, como Alto-Comissário. O “almirante vermelho” foi exonerado em Janeiro de 1975, sob pressão da UNITA e da FNLA, que o acusavam de beneficiar o MPLA. Neste meio tempo Rosa Coutinho traçou toda a trajectória para o MPLA alcançar a victória; foi ele o mestre das políticas que se seguiriam fornecendo àquele movimento todo o tipo de armas armazenadas nos paióis, mais logística e facilidades consideradas de “traição à pátria mãe” e aos outros dois movimentos que faziam parte do famigerado “Acordo de Alvor”.

A 27 de Julho de 1974, em Lisboa, Spínola reconheceu “o direito à independência dos territórios africanos”. Entretanto Joaquim Pinto de Andrade, fundador e presidente de honra do MPLA, adere à “Revolta Activa”. O Congresso, que visava a união das três facções do MPLA, fracassa. A caminhar muito rápido para a Batalha de Luanda, em Janeiro de 1975, dão-se três acontecimentos, a saber: Cimeira de Mombaça, Quénia, onde o MPLA, FNLA e UNITA acordam no reconhecimento mútuo; Acordos de Alvor que fixam a datam da independência para 11 de Novembro do mesmo ano; tomada de posse do Governo de Transição quadripartidário.

fuga8.jpg Em Fevereiro de 1975, a facção Agostinho Neto, dissidente do MPLA, expulsa de Luanda os membros da “Revolta do Leste”. Daniel Chipenda, seu presidente, vê-se forçado a aderir à FNLA. Pela primeira vez, entra em acção apoiando Neto, o “Pode Popular” uma criação do sempre presente Rosa Coutinho que, mais tarde é constituído na ODP – Organização de Defesa Popular, uma cópia politizada à esquerda, constituída por civis, OPV – Organização Provincial de Voluntários, de civis enquadrados por oficiais do Exército e que, na prática, funcionava nos territórios ultramarinos como uma milícia de defesa. Esta criação engloba os “pioneiros” enquadrados por guedelhudos do M´Puto que lhes dão treinos com armas de madeira a fingir metralhadoras.

Em Kampala, o presidente da OUA, idi Amim, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça. Em Pereira D´Eça o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta por ser esta região afecta à UNITA.

fuga7.jpg Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas. Manuel Resende Ferreira disse neste então: -Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam. Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito criaram ali uma zona de segurança. São estes os heróis esquecidos, soldados de Portugal que abandonam o exército comunista Português para protegerem cidadãos e, lutar contra a anarquia comunista. E, que foi feito do Tenente Fernando Paulo?

As feras foram largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! Tarde piaste! E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? As NT - Nossas Tropas já não eram nossas. Davam cunhetes, canhões e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina… O MPLA tendo como mentor Rosa Coutinho, na Luua inventava a maka! Inventava os pioneiros! Depois o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a victória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito…

gad2.jpg As makas organizadas com o objectivo de criar o caos, originar pancadaria e depois a vitimização já tinham características de sofisticada mentira; meter tudo no barulho, pressionar psicologicamente e criar condições de favorecimento por parte dos militares do MFA, as NT, o CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário…Já se fazia tudo às claras. Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Neto; que era difícil de o classificar politicamente como um comunista ortodoxo! À coisa dada (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Com estes laivos de poeta, Neto, dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto. Bem feito, cambada! Alguns não gostaram…

(Continua…)

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:50
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Sexta-feira, 30 de Julho de 2021
CAZUMBI . LXVII

MOKANDA DA LUUA – Luanda do Mu Ukulu, era uma vez . I de IV

A realidade da Luanda actual. Crónica 3171 – 30 de Julho de 2021

Mu Ukulu02.jpeg

kimbo 0.jpgAS ESCOLHAS DO KIMBO

Publicado a 5 de Outubro de 2019… Fonte Jornal de Angola

Ao domingo, entre o largo do Baleizão e a Lello, a avenida Rainha N´jinga, antiga avenida dos Restauradores, transforma-se numa pista. Apesar da sua proximidade com a principal esquadra da Polícia Nacional, a larga via não é patrulhada nem possui qualquer sinalética horizontal, num vasto percurso, nem passadeiras para peões. Quando cai a noite, um grande troço mergulha na escuridão por ausência de iluminação pública, mas ao lado do degradado e agora entaipado Baleizão a iluminação funciona sempre em quatro postes, dia e noite. No lado oposto, há troços sem iluminação, que só surge lá no fundo, nas imediações da empresa francesa Total. Não é raro ver-se, aos domingos, carros e motorizadas a alta velocidade e jovens a patinar nas faixas, tudo num zigue-zague despido de temor no meio de centenas ou milhares de jovens que vão ou vêm da Ilha a pé e passam rapidamente pela “cidade” ao encontro dos seus bairros.

Mu Ukulu52.jpg É a rua que liga a Fortaleza de S. Miguel, hoje Museu Militar, e anfitriã do centro comercial Fortaleza, ao centro da cidade. A encosta da fortaleza já foi poiso de macacos nos tempos idos do colonialismo e a rua que a circunda lugar de namoro romântico. O centro de Luanda onde imperam os altaneiros e novéis prédios da Sonangol, em vias de ser privatizada, a antiga livraria Lello, hoje fantasmagórica, o largo da Portugália, onde os portugueses faziam câmbio paralelo, com as suas duas árvores-avós, o prédio da Biker - ainda com alguns serviços, como a Foto N´gufo, e com um “restaurante típico", fechado com chapas e onde ratos e insectos convivem com o povo real que aí almoça por mil kwanzas, num ambiente “apocalíptico” -, que já albergou mesas de snooker e ambiente de tertúlia de jornalistas, outros tempos, pré-históricos, de que não restam escritos. Ali ao lado destruíram o largo e edificaram dois blocos de vidro com dezenas de andares, onde trabalha uma classe burocrática nacional-expatriada.

Mu Ukulu46.jpg Mas a grande avenida não se detém, na esquina onde era a Sonylândia e hoje é um banco, estreita-se, a Moviflor portuguesa substituiu o luxuoso Quintas & Irmão, cujo dono permaneceu na Independência, mas viu a sua casa ocupada ilegalmente, e o fundo da rua desemboca no Eixo-Viário, uma obra feita pelo colonialismo português, que liga o Kinaxixi à Marginal e ao Miramar, hoje quase toda castanha e sem verdura, com iluminação aqui e ali. As árvores começaram a ser arrancadas em 1975, quando começou a faltar o carvão para cozinhar, e o Largo do Ambiente é frio, nada acolhedor, quase escuro e sem presença humana. Eixo-Viário do antigo Benfica de Luanda do Victorino Cunha, onde os portugueses plantaram verdura nas barrocas e a Independência construiu arranha-céus da Sonangol e de outras empresas estatais majestáticas.

Mu Ukulu49.jpg Os abandonados e degradados edifícios coloniais, com janelas com persianas, são na maioria “fantasmas” mudos e quietos, desafiando o futuro da capital. Um mundo novo. Os colonos foram embora e o Estado tomou conta das suas propriedades, expropriou e começou a vender a si próprio ao desbarato. Os elevadores foram destruídos e transformados em contentores de lixo, os corrimãos das escadas desapareceram, divisões e mais divisões foram construídas sem qualquer plano ou segurança para albergar familiares vindos dos bairros e do mundo rural, nada oferecido, tudo pago. Os quintais foram apropriados por quem chegou primeiro e transformados em autênticas “pensões residenciais” surreais, com divisões precárias e sujas alugadas a bom preço, 40-50 mil kwanzas mensais, porque estão na cidade e Luanda é a cidade mais cara do mundo.

Os quintais, ou melhor, os cubículos mukifos, também são alugados ao dia às zungueiras para guardarem as mercadorias que não conseguem carregar para os seus casebres nos bairros. Mas não só, os quintais são pontos de grande tráfego comercial, sobretudo, de bebidas alcoólicas, quem os detém há mais tempo usufrui de tudo o que pode acrescentar dinheiro sem muito trabalho. Os terraços não existem. Em seu lugar surgiu uma miríade de cubículos, muitos de chapa, sem água e quase sempre com luz puxada de gatos e paga mensalmente a alguém, alugados por quem chegou primeiro ao prédio e se diz “dono”. O luandense é manso. Quando lhe falam “o dono”, se cala, se ajoelha, submisso, e paga, mesmo que o dinheiro não seja o seu, e depois diz em voz baixa “está mal”.

Mu Ukulu51.jpg Sem árvores… Só se encontram árvores com troncos muito grossos, sinal de longa vida, árvores coloniais, no Largo do Atlético, hoje largo sem nome definido, mas que 44 anos após a proclamação da Independência continua a celebrar a batalha de Ambuíla, que ditou a perda da soberania do Reino do Congo e a decapitação do rei, cuja cabeça foi transportada para a ermida da Nazaré, na Marginal, que este ano comemora 355 anos. Um largo agora fechado e em obras sem prazo. As vendedoras dizem-me que passou para a propriedade do banco BCI, "se apropriaram", diz-me um jovem que todos os dias me pede dinheiro para comer.

(Continua…)

O Soba T´Chingange (o relator)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:20
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Sábado, 24 de Julho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXIV

ANGOLA DA LIBERTAÇÃO - XI

- A INDEPENDÊNCIA DIVIDIDA… Crónica 3169 - 22.07.2021

-Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”…

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Por   t´chingange2.jpgT´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Com botas de michelin ponta de ferro, calções de ganga, camisola de flanela e chapéu quico com os big-five, curto o calor do dia enquanto o sol se põe a pique com uns agradáveis vinte e dois graus no zénite. Ao cair da noite os chacais miam não muito longe e até posso ver seus olhos amarelos quando dirijo o farolim da varanda em sua direcção. As noites têm sido escuras, o céu fica todo a descoberto e posso ver com perfeição as estrelas do cruzeiro do Sul.

No M´Puto os ratos saiam das tocas! As divergências na CCPA - Comissão Coordenadora do Programa em Angola, atingiram seu clímax! A linha progressista partia nozes com o nariz! Entretanto, Otelo Saraiva de Carvalho chegava ao seu gabinete COPCOM com a prometida ajuda de Havana ao MPLA. Este militar, visto como o novo Ché Guevara, encontrava-se em Cuba desde o dia 21 de Julho para assistir no dia 26 à celebração do ataque ao quartel de Moncada. Isto era o que se fazia constar para não se depararem com embaraços diplomáticos em relações internacionais. Mas, afinal como é que Costa Gomes, o presidente de todos os portugueses alinhava nisto!? Lá iremos…

kianda05.jpg No M´Puto o ordenado mínimo nacional era de 3.300 escudos. Apesar disso os cinemas enchiam-se para ver dois filmes até então censurados: “Bob e Carol” e “A grande farra” Nestes dias em Angola era a aflição, fazendo caixas e caixotes a prever a debandada pelo “ forçado abandono”. Vejam bem esta grande preocupação de nossos “manos metropolitanos” que no M´Puto viam filmes incentivadores de ”Swing” - uma suposta terapia de grupo de todos na cama curtindo o sexo em conjunto – um novo tipo de relacionamento com os quatro, fazendo uma orgia para combater a velha moral. Uma coisa de levar as mãos à cabeça num “balha-me Deus”…

No M´Puto andava-se muito a pé pois que a gasolina estava racionada, devido ao embargo de petróleo pelos países árabes e, em retaliação ao apoio de Portugal aos Estados Unidos, aliados de Israel na guerra do Yom Kippur. Os jornais esgotavam-se rapidamente e, nos cafés e esplanadas falava-se do derrube iminente do regime, comentava-se o livro do general Spinola “Portugal e o Futuro”. Lançado a 22 de Fevereiro de 1974, também esgotou rapidamente. Existiam siglas políticas para todos os gostos: MIRN, LUAR, MRPP, MDP-CDE, e edecéteras. Fizeram-se saneamentos nas empresas. Foram os anos das fugas para o Brasil e de vendas ao desbarato das vivendas do Estoril e Restelo.

guerra12.jpg Silva Cardoso o Alto-Comissário depois do Acordo de Alvor, era constantemente atacado pelo MPLA em comunicados via rádio e panfletos por não ser suficientemente revolucionário. Afirmavam que já não servia à revolução Angolana. Em dado momento, Silva Cardoso perante a constante insistência do MPLA de que teria de ser substituído, sugeriu à Direcção do mesmo movimento que classificassem o seu sentido de revolução ao referirem claramente que os brancos não eram queridos em Angola; isto para que assim, Lisboa evacuasse essa etnia alvo de “um ataque sistemático” por eles. Era só um jogo de palavras para fazer actuar o CR do MFA de Lisboa…

Havia apropriação abusiva de veículos e instalações pertencentes ao Estado; já havia dificuldade em distinguir se aquele organismo antes estatal o era efectivamente, ou não. Em Malange quase toda a população civil se refugiara no quartel das NF e, em N´Dalatando verificou-se o total abandono de todas as lojas e residências que foram alvo de pilhagem pela população africana apoiada por elementos das FAPLA, forças armadas do MPLA.

Agostinho Neto, escudado pelo apoio militar de Brejnev, do marechal Tito e de Fidel de castro, já não necessitava de ser afável com grande parte dos militares portugueses; alguns, poucos deram-se conta mas, já era tarde para fazer marcha-à-ré. O MPLA iria liquidar os outros dois Movimentos fazendo tábua rasa da presença portuguesa e dos acordos que tinha estabelecido com todos. Neto era um salafrário e já era demasiado tarde para recuar o processo. Entretanto, na confusão de Angola e pelas suas estradas os angolanos fugiam levando apenas malas com roupa, fugindo das fazendas para as cidades.

spi3.jpg Famílias portuguesas, brancos de condição, alguns com três gerações de filhos africanos, como formigas kissonde tresmalhavam-se à procura de uma solução; uns iam para sul, outros para este e até para o Norte até que a PONTE- AÉREA começou a pairar como sendo a solução mais válida. Diversas companhias de aviação tais como a soviética Aeroflot, dispuseram-se a retirar este grande número de gente que, até então laborava em normalidade. Também ouve aqui, em Angola, saneamentos, ocupações selvagens, marchas silenciosas e “manif´s” de júbilo para milhares de negros a receberem Agostinho Neto e Jonas Savimbi.

Municípios foram ocupados formando comissões administrativas desastrosas, Liceus a serem ocupados por jovens guedelhudos brancos e negros de carapinhas ornadas com tranças, copiando Ângela Davis que personificava o movimento “black power”. A euforia transformou-se em crescente preocupação, com discursos agressivos dos supostos “pais da independência” e luto ditado pelo crepitar das armas na batalha pelo controlo de Luanda. Costa Gomes, conhecido popularmente por “o rolha”, aceitou a demissão de Silva Cardoso nomeando interinamente Alto-Comissário Ferreira de Macedo, o homem que Rosa Coutinho e a CCPA queriam para este cargo.

silva p0.jpg Este General e mais outro chamado de Carlos Fabião e um outro major de nome Canto e Castro iriam a Luanda estudar a situação. Nesta altura, as notícias eram desconexas e o tempo comia as palavras de ordem ventilando-as em desordens. Ninguém entendia o que se passava e quando sabia já aquilo que parecia ser, tinha alterado para coisa-outra. Não havia como gerir este estado de coisas pois o descomando era verificado naquele agora. Tudo se configurava para a fuga e neste entretém de ordens e alterações a estas, começa a configurar-se a “Ponte LuaLix”. Diversas companhias de aviação tais como a soviética Aeroflot dispuseram-se a retirar este grande número de gente que até ali só atrapalhava as directivas do MPLA. “Branco, vai para a tua terra” era o que mais se podia ouvir…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 04:35
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Terça-feira, 20 de Julho de 2021
MALAMBAS . CCLXI

N'ZAMBI ... TEMA EM EXECUÇÃO, PORQUE AINDA ESTOU EM CONSTRUÇÃO...

FALAR POR FALAR - Crónica 3168 - 20.07.2021

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Por:   soba0.jpeg T'Chingange - no AlGharb do M'Puto

N'ZAMBI tem o mesmo nome de Deus mas só pode ser nomeado por quem o conhece e sabe amar na plenitude. A mim sempre me foi interdito, um apócrifo por parte de mãe, pai, terra, mar e até ar. E, porque simplesmente já nasceu assim e depois, no estudo do pai-nosso, encafifado na sacristia, os quadros ali pendurados, acho que até metiam medo ao menino Jesus Messias. Suponho por isso, bem ser um ET, pois li e ouvi relatos desconsiderados por apócrifos...

O espaço, Kalunga, as árvores que falam com assobios de vento; falas de velho cego contando viagens, olhando o pequeno cesto de adivinhação, apalpando o tempo com suspirosas lamúrias. Vou vos dizer: Minhas falas têm um passado fermentado nos dias de futuro, de por-viver, porque nasci num tempo que ainda não o era. Isto parece loucura mas, meu tio do lado de mãe que era Nosso Senhor por alcunha, destinou-me às viagens só sonhadas por ele porque nunca, que eu saiba, saiu de sua terra feita kimbo de barro chapado nos ripados. Taipa de atados com lianas de chinguiços do mato, matebas...

araujo49.jpg Andei, com meus próprios pés no mundo inteiro, pelos pequenos caminhos que se rasgaram para mim; na guerra eram fiotes, carreiros ou pistas. Com a onça aprendi a colocar no chão um pé diante de um outro, com passos de sumaúma, sem barulho e sempre na fila do pirilau. Desconsegui voar, mas mantive sonhos de penas e uma boca em forma de bico, para colher da madrugada as gotas cacimbadas da noite, e mel silvestre, único alimento de muitos dias de peregrinação só mesmo de imaginação porque as abelhas ferram, não sei se o sabem...

Morri na Curva e renasci várias vezes, deixando o corpo fermentar nesta fala da vida que agora uso, por vezes sem vírgula e às vezes tudojunto. Com esta fala e as mãos percebi-me um T'Chingange sem cajado de nobreza, assim mesmo de feitiço, nem menino, nem mabeco, noutra fala de kandengue: exerci todo o poder da terra e agora o que me sobra é a impossibilidade da morte, garantida por uma mutopa cheia e fumegante, mais uma taça de sangue das minhas próprias verrugas feitas uvas.

ÁFRICA13.jpg O T'Xipilika avisou:- Este menino não é gente... Mas meu coração é, ainda! Uma vez, quando uma seta turra encontrou ninho no meu peito, provei o coração para não morrer. Sabia a nada feito pedra, dura como ela, como a dos túmulos seca e enervada com a terra do Panguila, do Bengo e Icolo mais outros Kifangondo e Fundas, tudo água de cu-lavado, preparado mulato dos morros de Catete e mais a montante do rio, também chamado de Zenza, com nascente no Planalto do Uíge, passando por Quiculungo e Samba Caju…

Minha mãe Arminda Loureiro, preparou-me mal para mudar o curso das coisas, criando-me com o leite das nossas cabras, chamadas de chibitas e deixando-me à solta quando já era no tempo de mokandar, bebia nas directas tetas das cabritinhas pois, do produtor directo ao consumidor... No respectivamente, recebi o mukuali sagrado, com o qual me perdi na submissão aos velhos e à tradição. Com dendém e barro vermelho segurei a vida por entre os dedos, gritei todos os gritos e, entreguei minha singularidade ao espírito mais branco e assim foi, vim coradamente esbranquiçado, um mwadié, mulungu e t'chindere num país futuramente alheio de mentiroso... Tudo mesmo de só fingir.

baú3.jpg Branco mesmo de mwene-putu de um país longínquo, de tanto que nem se via, nem sentia! Ué! Tio Kaluviaviri me disse que esse espírito era o DIABO feito gente de assustar minino... Construí e desconstrui depois e antes da minha vida ficar estória no  torno dum punhal com nome de catana. Assim a guardei numa capa chamada de bainha, feita de pele de crocodilo e, na esperança de ali sempre ficar - embainhada. E, todas as gargantas se ousaram usar, só de gritos contra mim próprio... Porque a noite era escura, as pessoas ficaram talqualmente escuras e tudo mesmo escureceu. Um dia tracei dois caminhos: um em direcção à mata, o outro voltado ao morro.

Por este, encontrou o mukuali grande na direcção e, então num vou fazer como, vi-me nas agruras de decidir: Ou MATO ou MORRO! Agora que a cinza cobriu as guerras, tudo ficou como num mar de palha, quersedizer numa vinha-d’alhos no jeito banho maria oraipronobis e, vamos ver como termina para saber como é que fica, que ninguém mesmo, te darão ouvidos na hora e na morte - ámen. Teus gemidos ficam altos como o riso da hiena, o latido agudo do mabeco na confusão de se chorar, se rir ou até cacarejar pois que até o galo feito prosperidade entra na contenda... Teus, meus, nossos gemidos são o eco quebrado de palavras que já não existem. Verdade mesmo!

ÁFRICA4.jpg Ninguém te ouviu, te ouve, nem ouvirá... Nem mesmo a coruja com uma espada afiada. O mukuali sagrado que precisas para morrer, não regressa - vais ter de viver meu! O destino nem é teu! Pópilas. Karamba, por cima de nossas cabeças caem as gotas da maldição com Ruína, Ruína, Ruína das cinzas da cidade! Grito, Grito, Grito de raiva enraivecida! Choro, Choro, Choro das lágrimas dos crocodilos! Estás lixado, tramado, vais morrer sozinho, e morto, ué, não vais poder cuidar do teu próprio enterro. T'Xipilika e KaluviaviriI tinham suas razões. Filhos-da-caixa! Estragaram minha defuntação...

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:26
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Domingo, 18 de Julho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXXIII

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - X

Crónica 3166 - 17.07.2021“SE BEM ME LEMBRO” - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha, mesmo não sendo “preto”… Afinal, não o era e, continuo “branco”…

O carro de fumo da lua2.jpg

Por soba002.jpg T´Chingange, no AlGharb do M´Puto

Ainda mergulhado na embriague do passado, o meu amigo Camundongo, Comando do Maculussu de outros passados, tem uma lança no estandarte da Kizomba e, assim, foi seu baptismo na cubata de Albandeira do M´Puto e, mesmo sem se lhe ver os cascos, os dentes, as unhas e as orelhas fizemos dele um afinadíssimo preto. Afinal tinha mesmo bitacaias nas orelhas! Tratando-o por tu, mandei-o pentear macacos com afinidades ao MPLA. Mas, no finalmente, ele, tal como eu, vivia e vive ainda no Ontem com quase 50 anos de intervalo…

O mwadié mulungo, continua um hoje cohabitando com os Mucubais - um sonho perene cheio de cacimbo pelas manhãs e, com aquela tremulina das quenturas tropicais que fazem tremelicar dedos. Enfim! Só que, eu tenho as coisas contadas de outro jeito, sem aquelas bravatas de Kifangondo aonde roubaram as culatras dos ”tirabikines”… Ondulando assim miragens das anharas, pasto de facocheros, mabecos e bandos de galinhas do mato feitas capotas, arranhando seu disco partido – tou fraca, tou fraca, estou fraca, conto sem lhe dar bola, a minha estória! Ué…

toledo20.jpg Kafundanga Neves é seu nome de branca alvura. Refém do seu ADN penetra na vida um dia de cada vez, penosamente candongando chinguiços como num conto insuficiente; Sendo assim, passo a contar meu capítulo. O padre António de Araújo Oliveira, um fervoroso defensor da UNITA, só o foi até tomar conhecimento de alguns crimes na Jamba. Em 1973, Savimbi volta a quebrar o segundo pacto com os Tugas, atacando de surpresa a guarnição de Santar em Moxico… As “NT – Tropa do M´Puto” reagem àquele ataque. O general Bettencourt Rodrigues é retirado de Angola para substituir o general Spínola na Guiné.

O novo comandante da Zona Militar do Leste, general Ferreira de Macedo, passa a atacar a UNITA sem piedade. Em Agosto, depois da realização do seu 3º Congresso em Lungwé-Bungo, a UNITA dispersa seus homens da guerrilha pelo Cuando-Cubango. O maior ataque daquele movimento contra os portugueses, é saldado em 19 baixas do lado das “NT -Tugas” no lugar de Alto Kuito N´honga, já depois do VINTICINCO de Abril de 1974, apanhando desprevenidas as novas tropas, magalas guedelhudos com a cabeça cheia de devaneios comunistas e, com a “vitória é certa” no cocuruto da mona.

zeka1.jpg Assim chegados a 1974, o Exército português, domina totalmente o território angolano já dotado de magnificas estradas construídas dela JAEA e Engenharia Militar. O território dito Ultramarino estava dotado de todas as infraestruturas como escolas com ensino para todos, universidade, hospitais, carreira aéreas e rodoviárias unindo todas as cidades e domínio administrativo. Havia também uma rede sanitária de apoio às muitas pecuárias de Norte a Sul e uma pesca e agricultura florescentes; Angola estava nos países do topo em África, com uma boa situação económica e, fornecendo à Metrópole os bens essenciais para manter sua economia em crescendo.

Lisboa estava em condições de negociar o futuro, algo que, anos antes, havia sido defendido por Kenneth Kaunda, ao enviar a Salazar um manifesto pedindo “uma solução multirracial para Angola” e contestando as teses integralistas que defendiam Portugal do Minho a Timor. Assim e abruptamente o ano de 1974 e 1975 é vivido com intensidade em Lisboa e alguma apreensão em Luanda. O Tempo diz-nos que se Portugal tivesse aceita aquela intermediação de Kenneth Kaunda, muito possivelmente a história de Angola seria outra. Entra-se assim em um outro capítulo: A INDEPÊNDENCIA ADIVIDIDA.

zeka15.jpg Em Lisboa desmantelava-se a PIDE. A televisão enche as cabeças do cidadão com novas ideologias e, os angolanos brancos a cada dia que passa, sentem que aquelas políticas do MFA precipitam a normalidade da vida em toda Angola e, em especial sua capital – Luanda. Começa aqui a “odisseia dos retornados” - saber como dar solução a uma nova vida largando tudo e todos. Começam aqui as noites mal dormidas com pressão e afastamento de nossos supostos irmãos do M´Puto. Estávamos sendo paulatinamente destinados ao abandono. As notícias chegadas de Lisboa até nós na dita “Província Ultramarina” eram por demais alarmantes; os comunistas tinham tomado as rédeas do comando na Metrópole – estávamos fritos! Trata de fazer caixotes e pôr passaportes em dia…

A 29 de Novembro de 1975, forma-se a DISA, Direcção de Informação e Segurança de Angola, Polícia política do MPLA, formada pelos soviéticos e alemães do Leste. A UNITA viria a criar a BRINDE – Brigada de Informação e Defesa, treinada pelos Sul-Africanos. O preparo de ambas as criadas instituições com gente autónoma era simplesmente nula. Os angolanos estavam a ser jogados às feras e da Metrópole sabia-se: A TV, iniciava as suas emissões ao meio-dia com desenhos do Pato Donald e do Rato Mikey, preenchendo as tardes com a Telescola. O saudoso Vitorino Nemésio acalentava os serões semanais com o programa “Se bem me lembro…”.  

luis33.jpg Nicolau Breyner e Simone de Oliveira subiam ao palco do Teatro Monumental do Saldanha, com a peça “ A menina Alice e o inspector”. Amália continuava suas viagens em digressão pelo mundo; o fado era levado ao Japão que, sem entender patavina de português, deliciavam-se com as farpas e lamúrias do canto nacional. No Parque Mayer, o Capitólio anunciava a estreia de Marco Paulo.  Em Angola abundavam as canções de intervenção do Rui Mingas com “porrada se refilares!” e peixe podre, fuba ruim com edecéteras de fazer raivas e makas – estávamos feitos!...

No M´Puto os guedelhudos e barbudos surgiram aos milhares a imitar o Ché Guevara, juntando-se no Coliseu dos Recreios, “hippies” aplaudindo de punhos fechados, bem ao jeito do símbolo do PS e entre pensamentos de Lenine com Marx e Mao, surgindo os desaparecidos Zeca Afonso e Ary dos Santos em espectáculos organizados pela Casa da Imprensa e, com as direcções das gentes ditas vanguardistas afectas ao Partido Comunista do Álvaro Cunhal. Em Angola numa ida de Zeca Afonso a Nova Lisboa, actual Huambo, a multidão era tanta para ver o Zeca Afonso que eu, fui literalmente rodado no ar para poder entrar no pavilhão descoberto. Nesta altura eu, que pertencia ao Comité da Caála da UNITA com o cargo de Secretário de Relações Públicas, fui convidado e, lá fui em minhas tarefas…

(Continua...)

O Soba T´Chingange    



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:42
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXX

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - VII

Crónica 3160 - 01.07.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha… Afinal, não o era e, juro que não o sabia… Não lembra ao diabo que passou também a ser satanás e, eis que, Joseph Desirée do Zaire, passa a chamar-se Mobut N´Guendu Kukuwa Zabanga Sese Seko…

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Por   soba002.jpgT´Chingange, no Algharb do M´Puto

Jogando búzios relembro agora, muitos anos depois, a Luanda Capital de Angola Província colonial, para mim o centro do mundo de então. Tempos em que a Mutamba era o centro de tudo! Bem perto ficava o lugar aonde antigamente se refugiavam os escravos fujões, o seu primeiro refúgio. Em kimbundo refúgio é ingombota, e essa acção de ali se esconderem, pois assim ficou baptizado o local. Quando passou a ser habitado as pessoas diziam que moravam na n´gombota e os portugueses corromperam a expressão adicionando o “I” tendo ficado em Imgombota, do jeito actual.

E, é assim que darei continuação ao tema “DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA”. Em Março de 1964, Jonas Savimbi, Tony da Costa Fernandes, N´Zau Puna e o advogado Paulo Tjipilica, anunciam na capital zambiana, Lusaca, um novo movimento independentista: A União Nacional para a Independência Total de Angola – UNITA. Quatro meses depois, na reunião da OUA no Cairo, Savimbi afirma em clara alusão aos Estados Unidos da América, na altura apoiantes de Holden Roberto: “-Demito-me das minhas funções, que são do interesse do povo angolano e dos objectivos dos países irmãos.” Recorde-se que era até aqui, ministro do GRAE com o cargo de Ministro dos Estrangeiros…

negritas.jpg Savimbi recebe então uma proposta do MPLA, visando a criação de uma “Super-direcção Nacional de Luta” que incluiria membros de todos os movimentos já formados. Este concorda e escreve um texto de denúncia contra Holden Roberto, distribuído na reunião do Cairo mas, imprevisivelmente, parte para a China com mais onze companheiros aonde frequentam a Academia Militar de Nanquim. A partir de 1966/67, Mao Tzé-Tung passa a fornecer apoio militar à UNITA, então expulsa da Zâmbia por ter atacado um comboio do Caminho de Ferro de Benguela – CFB.

De facto, Jonas Savimbi havia abordado com o presidente Kaunda que a UNITA não atacaria os comboios do CFB que escoavam o minério zambiano para o porto do Lobito; a economia da Zâmbia dependia muito desta exportação. Por Savimbi não ter cumprido este acordo, quando se preparava para entrar clandestinamente em Angola a partir da Zâmbia, Kaunda manda-o prender. No decorrer da guerra colonial o portugueses aproveitaram habilmente esta situação e, conforme as conveniências, passam a fechar a linha férrea, atribuindo a paralisação a ataques feitos pela UNITA e MPLA; desta forma Kaunda ficou manietado às vontades do M´Puto.

Mu Ukulu57.jpg Com o apoio americano, no ano de 1965, o sargento Josp Desirée toma o poder no Zaire e instaura a “lei da autenticidade”. Absurdamente obriga os zairenses com nomes europeus a adoptarem nomes africanos. Não lembra ao diabo que passou também a ser satanás e, eis que, Joseph Desirée passa a chamar-se Mobut N´Guendu Kukuwa Zabanga Sese Seko. Este nome significa ser “o rei das árvores, dos rios, dos céus”. Não vem daí mal ao Mundo porque eu próprio, sendo relator destes acontecimentos tomei o nome de Soba T´Chingange com nascimento no vapor Niassa - portanto um Niassalês…

Neste ano de 1965, sob o comando de Jacob Caetano com o pseudónimo de guerra de Monstro Imortal, guerrilheiros do MPLA saem de Brazaville, atravessam o terreno hostil de Mobutu e pelas barreiras postas pela topa portuguesa ao longo da fronteira e, infiltram-se na riquíssima região dos Dembos, onde passam a praticar emboscadas na apelidada “estrada do café” – Luanda, Caxito, Carmona (Uíge). Chegam mesmo a atingir o Ucua e a Funda, muito próxima de Luanda.

monstro5.jpgmonstro1.jpgnito1.jpg Monstro Imortal, viria mais tarde a liderar juntamente com Bernardo Alves – “Nito”, José Van Dunen e o comandante Bakaloff, o golpe 27 de Maio de 1977 na tentativa de derrubar Agostinho Neto do poder (assunto a ser recuperado mais à frente). No auge da guerra-fria, com o Zaire de Mobutu transformado em centro de estratégia norte-americano, não somente para a África subsariana mas, de todo o continente. A ex-URSS e países do Leste redobram o seu apoio ao MPLA, apesar de Neto ter tentado apoios para a sua causa em países ocidentais.

Nesse ano de 1965, Che Guevara encontra-se com Agostinho Neto em Brazzaville. Desse encontro resultou a ajuda militar cubana às FAPLA – Força Armadas Populares de Libertação de Angola do MPLA. Pouco depois, onze oficiais cubanos entram em Cabinda, em uma coluna comandada por Pedalé, Nicolau Spencer e Chipenda. São atacados pela tropa portuguesa junto a Buco-Zau mas, eles e os cubanos escapam, permanecendo no enclave até final de 1966; de realçar aqui que nestas ocorrências, passaram a ser recordados pela sua indisciplina, dentro e fora do movimento...

mud22.jpg Em Março de 1966 no local de Mwangai, a UNITA realiza o seu primeiro Congresso. Em Dezembro, os homens de Savimbi atacam Cassamba e, no dia de Natal, Vila Teixeira de Sousa, actual Luena. Ao início da actividade militar da UNITA, o MPLA, responde com a abertura da Frente Leste, tendo o primeiro combate contra as tropas portuguesas ocorrido em Lumbala no saliente de Cazombo. O primeiro comandante da Frente leste foi Hoji ia-Henda, sobrinho de Mendes de Carvalho e, viria a perder a vida em Abril de 1968 no ataque a Caripande.

Em Setembro do mesmo ano, na mesma região e perto de do rio Lueji, num ataque helitransportado pela tropa Tuga, morre o médico Américo Boavida, o “Kimbanda”, nome de guerra, palavra que no dialecto kimbundo significa médico. Em resposta o Exército português instala no Bié o Grupo de Cavalaria nº 1 (CCAV 1), chamados regularmente por “Dragões” e, que foi reforçado no ano de 1970 com o primeiro Esquadrão Operacional a cavalo. Quase em simultâneo o MPLA cria a Norte, a chamada 4ª Região Político-Militar na região das Lundas para reforçar a 1ª Região dos Dembos que se mantinha bastante isolada. No Leste, ocorreram todos os acontecimentos que originaram a cisão do MPLA, a qual perdurou até 1975. Daniel Chipenda, então comandante militar do MPLA, passa a liderar esta cisão, que originou a fragmentação do MPLA tornando-o pouco expressivo em sua acção de guerrilha…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:03
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Domingo, 27 de Junho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXIX

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - VI

Crónica 3159 - 27.06.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha… Afinal, não o era e, juro que não o sabia…

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Por soba0.jpeg T´Chingange, no Algharb do M´Puto

Jogando búzios na zuela do feitiço, com algum esforço intelectual, remexo panelas de caldeirada da estória, muito me convencendo da inutilidade das bagatelas que nos preenchem o dia-a-dia, refugiando-me atrás do balcão de minha modesta venda de vaidades. Metendo num pão que vai ao forno os trocadilhos e chouriço e, enquanto espero, vejo os estudos feitos por organizações internacionais que apontam uma estatística mundial como havendo 300 milhões de pessoas, de todas as idades, com depressão, considerando ser este o mal do século…

Algum tempo atrás, desconhecia que podíamos fechar o tempo dentro de casa e, atazanado, comecei a beber dez gotas de cannabis para truncar as vicissitudes misturando o gosto estranho com kefir, um pouco de café pilão e um pouco de mel com um ou dois croissants para entulhar a malga. E assim, lá pela tarde, na kúkia do sol, meto também num pão tipo da avô os trocadilhos com chouriço, por vezes morcela, a fim de sentir algum prazer de viver matabichando resiliências e, outros desmandos com tantas maleitas sociais.

Mu Ukulu56.jpg Escrevo isto olhando para as roupas manchadas do tempo a abanar no quintal com os pássaros charnecos e melros a alegrar-me com seus voos, saídos de uma árvore gigante de meu vizinho alemão da Alemanha que também saiu de Angola, tal como eu. E, lá estão as duas máscaras que foram lavadas com sabão macaco, encharcando-se do sol tão necessário para queimar azedumes e bichezas, sem saber ao certo quanto tempo o capeta diabo pode ficar naquela superfície de pano definhado pelo hálito do hábito. Estamos no ano de dois mil e vinte e um e, a cinquenta e nove anos do surgimento em Angola do Movimento chamado de FNLA.

Nestas contingências relembro o Janeiro do ano de 1962, em que surge a FNLA. No exterior de Angola, os movimentos pró-independência desencadeiam forte campanha contra o M´Puto – Portugal, que segundo dados da Cruz Vermelha Internacional, denunciam a existência de quase meio milhão de refugiados angolanos no Congo, Zaire e Zâmbia. Em Dezembro de 1962, Agostinho Neto assume a presidência do MPLA em Leopoldeville, actual Kinshasa, durante aquela que foi a 1ª Conferência Nacional. Joaquim Pinto de Andrade, no final da década de 60, chanceler da Arquidiocese de Luanda, era nesse então o presidente de honra do Movimento, mantendo-se no cargo até 1973.   

mud7.jpg Neto, cria o “Grupo Tlemcem”, nome da cidade argelina, onde fizeram recruta os primeiros guerrilheiros do MPLA. Portugal por via desta postura, cria os Comandos, Tropas Especiais, Grupos Especiais e Grupos Especiais Pára-quedistas. Acontece que em Junho de 1963, o MPLA debate-se com problemas graves, entre os quais a expulsão de Viriato da Cruz, “por actos de indisciplina tendentes a minar a unidade”. Este, viria a falecer em Pequim, dez anos depois. Nesse então ocorre dentro do embrionário partido perseguições e prisões aos seus membros e apoiantes na República do Zaire, por ordem de Cirille Adoula, então primeiro-ministro e apoiante de Holden Roberto.

Aqueles acontecimentos levam o presidente ganês N´Krumah, a organizar uma conferência de “reconciliação e unidade”, na qual participam o MPLA, UPA e PDA (Partido Democrático Angolano). Holden Roberto abandona as discussões fundindo a UPA com o PDA dando assim origem à FNLA – Frente de Libertação Nacional de Angola, que mais tarde é apoiada no GRAE – Governo da República de Angola no Exilio e ELNA – Exército de Libertação Nacional de Angola.

savimbi1.jpg O MPLA reage patrocinando a criação da FDLA – Frente Democrática de Libertação de Angola. Esta criação morreu à nascença, pois que nem sequer foi apoiada pela Organização de Unidade Africana – OUA. Em Junho de 1963, o MPLA abre a Frente de Cabinda sob o comando militar de Manuel Lima, o operacional político de Agostinho Neto, Iko Carreira, Hoji-ia Henda, Lúcio Lara, Aníbal de Melo e Daniel Chipenda. A guerrilha do MPLA de imediato entra em confrontações com a FNLA. Este Movimento, estava apostado em evitar o avanço do MPLA no Enclave Norte de Cabinda, parte integrante de Angola.

Há um episódio de que Holden Roberto jamais poderá lavar as mãos pois que tendo aprisionado várias guerrilheiras em um ataque a uma coluna do MPLA, estas virão a ser fuziladas sumariamente numa base da FNLA, em Kinzuzu da República do Zaire. E, é em 1963 que Jonas Malheiro Savimbi surge como Ministro dos Estrangeiro do GRAE. Holden Roberto, envia Savimbi a Moscovo, na mira de obter apoio para a FNLA, mas o objectivo fracassa. É nesta altura que Jonas Savimbi começa a ser notado como uma figura carismática, de um grande poder dialéctico, diplomático e de grande força persuasora.

mud20.jpg Na capital soviética Savimbi acusa peremtóriamente Álvaro Cunhal de ter bloqueado todas as suas diligências; Álvaro Cunhal, tudo fez para tirar de cena Savimbi. O encontro de Savimbi com Gamal Nasser é também anulado por via da intervenção contra, do líder do PCP – Partido Comunista Português. Lembrar-se que neste então Nasser dominava a senda Politica internacional, especialmente por ter imposto a nacionalização do Canal de Suez, na qualidade de chefe supremo das Forças Armadas da extinta República Árabe-Unida.

niassa6.jpg Savimbi, como Ministro do Estrangeiro do GRAE, terá dito a Nasser que os israelitas treinavam militarmente a FNLA apesar de saber que aquele, era inimigo de Israel e que apoiava Holden Roberto. Depreende-se haver já alguma dissidência entre os elementos da FNLA pois que no ano de 1964 o Chefe do Estado-Maior do ELNA, José Kalundungo, abandona o movimento acusando Holden Roberto de “não favorecer a verdadeira unidade nacional, quando ataca os irmãos de luta”. Nesta mesma altura as cúpulas políticas do GRAE acusam o seu Ministro da Guerra, Alexande Tati, de pretender organizar um golpe contra Holden. Tati entrega-se com um numeroso grupo de homens ao Exercito Português passando a lutar com estes contra os demais movimentos nacionalistas, no intuito de apaziguamento com formação de um governo próprio para o Enclave de Cabinda por força e conforme o Tratado de Simulambuco (actual FLEC).  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:47
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Sexta-feira, 18 de Junho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXVIII

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - V

Crónica 3158 - 18.06.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha… Afinal, não o era e, juro que não o sabia… 

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Por   soba0.jpegT´Chingange, no Algharb do M´Puto

O ano de 1961, ficando a uma distância de sessenta anos, convêm relembrar mesmo de forma sucinta o que aconteceu na Colónia chamada de Província de Angola. O padre Franklin da Costa que não concordava com a politica colonial e, que foi mais tarde bispo do Lubango sofreu dissabores por admoestação ao longo de sua vida pastoral pela PIDE, tendo o militar operacional Neves Bendinha, nesse então, morrido às mãos dessa policia na Cadeia de S. Paulo de Luanda. Os intelectuais Belarmino Van-Dúnen, Noé Silva Saúde, Francisco Santana e Virgílio Sotto-Mayor foram presos e condenados, cumprindo pena no Campo Prisional do Tarrafal. Naquele período de entre 04 a 12 de Fevereiro de 1961, disse-se haver entre mortos e feridos e de parte a parte, um total de cinco mil …muilas3.jpg A Fortaleza de S. Pedro da Barra e a Cadeia de S. Paulo, encheram-se de presos. Pinto de Andrade foi desterrado para a ilha do Príncipe e Agostinho Neto é envido, primeiro para Lisboa e, mais tarde para Santo Antão e Santiago de Cabo Verde; Aqui, Neto, continuou a exercer medicina sob vigilância policial; viria a ser transferido para o Aljube e libertado no ano de 1962 com a condição de ficar com residência fixa em Portugal de onde consegue fugir clandestinamente com a família, refugiando-se em Leopoldville.

O ataque da UPA contra os fazendeiros brancos do Norte de Angola, abrangeu uma faixa extensa que vai desde a fronteira com o Congo Zaire até bem perto de Luanda, a maior parte do Distrito do Congo, Províncias do Uíge e Zaire, uma parte do Cuanza Norte e a região de Nambuangongo. Centenas de brancos e trabalhadores Bailundos, contratados, são barbaramente assassinados, incluindo mulheres e crianças. Nem os missionários escapam a esta onda contando-se entre estes os bem respeitados padres Lázaro e Pedro João; o primeiro morto na povoação de Pângala e, o segundo, na Damba.

mud23.jpgNo ataque a Quitexe, então Concelho de Ambaca com sede em Camabatela, foram assassinadas várias crianças. Podem ver-se muitas fotos com seus corpos seminus ou nus, retalhados por catanas; fotos que correram o mundo indignando na forma tão violenta de fazer terrorismo. A violência destes acontecimentos de quinze de Março e sequentes dias, motivou dos bispos angolanos, a publicação de uma “Exortação Pastoral” condenando as acções de terror de um e outro lado, apelando às autoridades não esquecerem as leis de justiça e caridade por forma a aproximar os homens e não originar um crescendo de inimigos. O texto da Pastoral enviado para Lisboa a ser publicado no jornal “Novidades” é desautorizado a sua publicação…

Salazar, detém a pasta da Defesa, por via da tentativa de golpe de Estado por Botelho Moniz. É neste então que prefere o tão propalado discurso em que diz: “ para Angola, rapidamente e em força”. Inicia-se imediatamente o envio regular, por via aérea e marítima. O primeiro contingente de militares embarca no navio Niassa, no cais de Santa Apolónia, em Lisboa. O império português estava ameaçado de morte como nunca em cinco séculos e, a resposta possível foi o envio imediato de um corpo expedicionário. O envio acontece a 21 de Abril, em reacção ao levantamento supostamente do MPLA em Luanda e aos massacres da UPA no Norte.

mugi4.jpg Ninguém imaginava que a guerra duraria mais de uma década terminando logo após o vinticinco de Abril de 1974. No cais de Santa Apolónia, em Lisboa, as famílias juntaram-se para a despedida aos militares. Estes embarcaram em fila ordenada no Niassa e da amurada gritavam "Viva Portugal". O Diário de Notícias de 22 de Abril dava honras de primeira página ao embarque das tropas. "Aclamando Portugal e o exército e cantando o hino nacional partiu ontem para Angola uma força expedicionária" - era o título, mostrando optimismo sobre uma rápida solução do conflito. Só que a Guerra Colonial duraria até esse ano de 1974, e seria combatida em três frentes africanas – Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Entretanto na rádio cantava-se “Angola - é nossa”

Hoje, pode encontrar-se em Portugal, mais de 300 monumentos dedicados aos que combateram por um país que estava condenado a ser de novo só europeu. Angola e mais quatro nações africanas de língua portuguesa, são hoje independentes mas, terei aqui de me focar só a Angola a rainha do Império Luso. Os paquetes Niassa, Santa Maria, Vera Cruz, Pátria e Infante D. Henrique levam sucessivos contingentes sendo recebidos euforicamente pela população branca em grandiosos  desfiles ao longo na Avenida Marginal de Luanda com o nome de Diogo Cão e agora, com o nome de Avenida 4 de Fevereiro… Na Angola de 1961, a situação é crítica; cidades, vilas e pequenos lugares do Norte são saqueadas pelos guerrilheiros chamados por “Turras”, diminutivo de terroristas. Estes Turras, à sua passagem, destruíam as estruturas das fazendas de café, que até então eram o principal abastecedor do mercado internacional. Até 1974 saiam daí 330 mil toneladas por ano; hoje que são passados sessenta anos, esta produção decresceu para números muito inferiores.

mud26.jpg Pode ler-se actualmente (ano de 2021) que a produção do café ainda contínua irrisória e longe de alcançar lugares cimeiros em África, em particular, e no mundo em geral, devido ao fraco investimento e falta de políticas concretas para os produtores, segundo especialistas em agronomia. Em consequência do fraco investimento neste sector, tem sido variável e nivelada por baixo, comparativamente ao tempo colonial, período em que a Colonia, foi o terceiro maior produtor mundial desse “bago vermelho”. Voltando àqueles tempos em que aquela era a minha terra – assim o pensava, o Ministro do Ultramar Adriano Moreira desloca-se com frequência à Colonia adivinhando-se mudanças.  

O Governador Silva Tavares é substituído pelo General Venâncio Deslandes que acumula o Comando-Chefe das Forças Armadas. Face aos acontecimentos na Baixa de Cassange, o Ministro Adriano Moreira põe fim à desumana política da cultura compulsiva do Algodão e sua venda obrigatória à “Cotonang”. O general Deslandes inicia a retomada do Norte de Angola em Junho de 1961, pelo posto de Lucunga. Em Novembro, Deslandes anuncia o apaziguamento do Norte, saldado por 121 baixas de militares oriundos do M´Puto. Em Dezembro de 61, já se encontrava em Angola mais de 30 mil soldados magalas do M´Puto. Em 1966 já eram 60 mil e, em 1974 chegaram a mais de 65 mil. Diga-se que as guerrilhas do MPLA e FNLA eram quase inexistentes no ano de 1974 mas, urdia-se pela calada e, no M´Puto outras diligências singularizadas pelo Partido Comunista e suas células com mistura de traidores…

mud29.jpg As comunidades corporativas e intelectuais da Província em consonância com uma boa parte significativa de grande parte de comerciantes conceituados como Venâncio Guimarães, chegaram a propor a Venâncio Deslandes um golpe do tipo de Ian Smith da Rodésia tornando o território independente ou com uma autonomia progressiva mas, não houve a vontade necessária para tal. Perdeu-se uma grande oportunidade de mudar o rumo em Angola de uma forma controlada a favor de gente que se veio a revelar desclassificada, impreparada e ladra. Recorde-se que Ian Douglas Smith, foi um político, fazendeiro e militar que serviu como primeiro-ministro da colónia britânica da Rodésia do Sul entre 13 de Abril de 1964 e 11 de Novembro de 1965 e depois primeiro-ministro da Rodésia, depois da Declaração Unilateral de Independência, em 11 de Novembro de 1965, até 1 de Junho de 1979.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:47
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Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXVII

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - IV

Crónica 3157 – (08.06.2021) – 14.06.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha… Afinal, não o era e, juro que não o sabia… 

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Por   soba0.jpeg T´Chingange, no Algharb do M´Puto

Antes que me esqueça relembro: Ano de 1975 - A 9 de Julho, após três semanas de violentos combates, a FNLA é expulsa de Luanda, e Jonas Savimbi pede protecção ao Exército português ordenando aos seus apoiantes que deixem a capital - a LUUA. Foi neste então que recrudesceu o som do martelar: “tá, tá, tá" e, por toda a Luanda de noite e de dia a mente restolhava-se inibida de vontade, fazendo caixotes. Para mim, o porto de Luanda estava longe! Nada veio, nem as fotos de casamento na Sagrada Família.

moka25.jpg Deus, O Nosso Senhor, também andava distraído por muitos outros lados - de nada valia gritarmos “Valha-me-Deus” porque definitivamente todos estavam condenados, antes mesmo de qualquer definitivo julgamento. Em Muquitixe, terra dos ananases, já tinha visto as estrias duma Kalashe (kalashnikov)! E o soldado ébrio do MPLA segurando a arma de forma desajeitada deu-me o alerta final! Podia também ser um soldado da FNLA ou UNITA mas, assim me calhou: -Vai-te embora branco… Esta não é a tua terra! E quem vai dizer o contrário com um canhângulo nos olhos… 

Naquela mensagem messiânica de António Nunes Frade do Bondo da Baixa de Cassange podia ler-se: “Maria, a deusa protectora dos negros, a verdadeira deusa, há muito que anda preocupada com o sofrer dos angolanos e, assim, resolveu aparecer em Cassulo – Cuenda (…)”. Aquela santa por sinal era negra, talvez uma réplica de nossa Senhora da Aparecida… “Para que as balas das armas dos tugas não sejam mortíferas, é necessário vestir panos amarrados à cintura com uma trança de capim “caxinde” e, no pulso, uma pulseira do capim “seno”. Dá que pensar nesta misticidade, práticas usuais nos mentores de cariz religioso. 

monstro6.jpg Os protestos no velho Reino do Cassange tiveram origem na resistência à administração colonial anos antes mas, a 4 de Janeiro de 1961, na Baixa do Cassange, norte de Angola, os negros que trabalhavam nos campos de algodão iniciaram uma greve lançando a que foi chamada a “Guerra da Maria”, nome de um dos instigadores, António Mariano. Os protestos iniciaram-se à volta de Tembo Aluma, na proximidade do posto administrativo de Mangano e espalharam-se desta zona fronteiriça até ao coração do distrito de Malange.

mud11.jpg A Baixa de Cassange foi apaziguada pela Companhia de Caçadores Especiais, que ficou célebre pelas represálias exercidas naqueles dias que levou o arcebispo D. Manuel Nune Gabriel a comentar: “A acção dos militares, exaltada por alguns dos elementos da população citadina, lançou o terror nos arredores de Malange e, outros pontos do distrito, contribuindo param uma onda de ódio. O clima de medo e desconfiança originou mortes que só a irreflexão, podem explicar mas não justificar” 

A inconsciência foi tal que, não se tomaram em consideração as características dominadoras e guerreiras da tribo dos Maholos, habitantes da Baixa de Cassange, que já quando da pacificação portuguesa do século anterior se revelaram elementos dificilmente domináveis e extremamente perigosos. No dizer do General Fernando Pinto de Resende, Comandante da 2ª Região Aérea, pode ler-se: “Fizemos deles agricultores de algodão, claro que à força, e agora estamos nós a bombardeá-los do céu”

moka23.jpg Os agricultores africanos, uns 150.000 em 35.000 famílias, eram coagidos a cultivar o algodão em parcelas de terrenos designados para tal. Não havia salários para este trabalho e no final de cada campanha os africanos eram obrigados a vender o algodão à Cotonang e à Lagos & Irmão, a preços fixos, abaixo dos do mercado, num valor 5 a 6 vezes menor do que o preço mundial. A lucrativa economia do algodão na região era baseada nesse cultivo obrigatório, produzindo cerca de 5.000 toneladas por ano. Em empresas semelhantes, como a Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), os trabalhadores ganhavam um salário abaixo do de subsistência e os accionistas obtinham resultados extraordinários pelo seu investimento.

A “cultura do algodão era uma exploração infame dos indígenas; portanto, geradora do maior antagonismo para com este tipo de trabalho obrigatório (lucro de 400$00 por ano nas piores áreas...), Para o agricultor, quando tinha o infortúnio de perder toda a cultura, recebiam zero por um ano de trabalho. Este é apenas um exemplo das muitas vilanagens que a tribo branca com a anuência do governo do M´Puto fazia à tribo negra”. Claro que a grande maioria de colonos e mazombos estavam à margem de todas estas arbitrariedades, diga-se! Os protestos iniciaram-se à volta de Tembo Aluma, na proximidade do posto administrativo de Mangano e espalharam-se desta zona fronteiriça até ao coração do distrito de Malange.

mud9.jpg Na madrugada de 04 de Fevereiro de 1961, em Luanda, “supostamente o MPLA” ataca a Casa de Reclusão, Esquadra da Policia Móvel e cadeia de S. Paulo sob a alçada da PIDE, com a intenção de libertar presos políticos, entre os quais Domingos Magalhães Paiva e Agostinho Mendes de Carvalho, politico e escritor, usando o pseudónimo de Uanhenga Xitu. A 11 do mesmo mês, repete-se o assalto. O Cónego Manuel das Neves entre outros esteve na organização destas acções permitindo que debaixo do altar da Sé Catedral se escondessem catanas.

Este diria mais tarde: “É suicida combater com catanas, mas romper-se-á assim o mito de que todos estamos satisfeitos com os portugueses”. Era suicida combater com catanas e ele, sabia-o na perfeição. Era óbvio que por esta via quereria criar mártires por forma a provocar um levantamento mais generalizado na sociedade luandense e, mais propriamente entre os moradores dos musseques, gente da periferia, que paulatinamente ia ficando mais focada para a luta de libertação. Em paralelo com a notória sublevação era já elevada a condição cultural da sociedade citadina. Em resposta a toda eta sublevação, as autoridades, distribuíram espingardas “Mauser” à população branca da capital e arredores…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:18
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Sábado, 5 de Junho de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXVI

ANGOLA – DA LIBERTAÇÃO À INDEPENDÊNCIA - III

Crónica 3156 – 03.06.2021 - Na libertação e independência de uma terra que pensava também ser minha… Afinal, não o era e, juro que não o sabia… 

cipaio001.jpg

Por soba24.jpg  T´Chingange, no Algharb do M´Puto   

E, porque não sou só ossos dispersos, penso em kimbundo da Luua recordando as falas de nossa terra, também da deles, meus filhos e filhos dos outros também; assim repeti “ki tuexile tu ngó ifuba iatujunkura” - ainda não somos só ossos dispersos, “ifuba yetu iokune kala jimbuta” - Nossos ossos serão semeados como sementes… Assim no quizango, feitiço do livro de capa amarelecida, recordo aos mwadiés camundongos fingindo ser sapientes, que só mostram o Sputnik de Agostinho Neto, o que já passou! Assim, num jeito de perfumar ranço seboso, engraxando as cores sem conseguir dizer nada de novo, relembro caligrafias antigas. Falei!

O MAC - Movimento Anti Colonial, integrava membros estudante de todas as colónias portuguesas. Em 1960, autoridades políticas e militares do M´Puto, efectuam reuniões de emergência à porta fechada, no Comando da Região Militar, temendo a possibilidade de um ataque armado ao Norte de Angola, ainda nesse ano. A ordem pública era mantida nas cidades, pela Polícia de Segurança Pública; nas povoações do interior de menor importância, pelos cipaios às ordens das autoridades administrativas.

cipaios.jpg O Exército regular, então composto por cinco mil africanos e mil e quinhentos europeus, aquartelavam-se nas principais cidades - Luanda, Lobito, Nova Lisboa, actual Huambo, Sá da Bandeira, actual Lubango e pouco mais. Em 1960, a PIDE – Policia Internacional e Defesa do Estado, volta a prender Agostinho Neto, no seu consultório de Luanda. Como consequência o povo da Circunscrição vizinha de Icolo e Bengo, organiza uma manifestação de protesto em Catete, a escassos quilómetros da capital, a terra natal de Neto. Era eu nesse então, estudante na Escola Industrial de Luanda tendo como companheiro de turma Avelino Said (Dias) Mingas que mais tarde viria a ser o primeiro-ministro das Finanças, um dos criadores da moeda Kwanza - Angola.  

Naquela manifestação de Catete, a multidão é metralhada originando daí 30 mortos e 200 feridos. Conta-se que no seguinte dia se inicia o ataque a Icolo Bengo originando a destruição de várias aldeias. A prisão de Agostinho Neto motiva o MPLA, então aquartelado na Guiné-Conacry, a propor negociações a Portugal. Em resposta, 29 activistas do Movimento são fuzilados no pátio de uma prisão; simultaneamente, o general Monteiro Libório assina o “Primeiro Plano de Acção Psicológica do Comando Militar de Angola”.

cipaio4.jpg Em Dezembro de 1960, Mário Andrade, Viriato da Cruz e Américo Boavida, face ao fracasso negocial com Portugal, comunicam à Câmara dos Comuns de Londres, ”passarem à acção directa”, supostamente em nome do MPLA e por via destas manobras internacionais, no mesmo mês de Dezembro o Conselho de Segurança da ONU deixa de reconhecer as Provinciais Ultramarinas como sendo parte integrante de Portugal. Foi talvez a primeira pedra a ser lançada ao charco do processo descolonizador do “Império Luso”. Por via destas movimentações, o MPLA anuncia a sua primeira direcção no exterior formada por Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz Hugo de Meneses, Lúcio Lara, Azevedo Júnior, Matias Miguéis, Eduardo Santos, Daniel Chipenda e França N´Dalu.

Eduardo Santos foi médio de futebol da equipa da Associação Académica de Coimbra que não obstante ter passado para a “Revolta Activa” conjuntamente com Daniel Chipenda e França N´Dalu assistiu como cardiologista Agostinho Neto até à sua morte. A figura de Agostinho Neto, jamais teve unanimidade dentro do movimento anticolonial. As fortes divergências que teve com Viriato da Cruz, em 1963, levaram Neto a torturá-lo e humilhá-lo diariamente numa prisão, somente saindo (quase morto), por intervenção de aliados externos da Argélia e China.

mud14.jpg Outra figura que questionou fortemente Neto, foi Matias Miguéis, sendo que este acabou morto após humilhantes torturas ordenadas por Neto, em 1965; foi enterrado vivo somente com a cabeça para fora, onde lhe jogavam secreções ao mesmo tempo em que recebia golpes. Historiadores, como William Tonet, apontam que nem mesmo os portugueses cometeram tais atrocidades. Houve graves conflitos internos no MPLA que puseram em causa a liderança de Agostinho Neto.

Entre estes, o mais grave consistiu no surgimento, no início dos anos 1970, de duas tendências opostas à direcção do movimento, a "Revolta Activa" constituída no essencial por elementos intelectuais, e a "Revolta do Leste" com Daniel Chipenda, formada pelas forças de guerrilha localizadas no Leste de Angola; estas divisões foram superadas num intrincado processo de discussão e negociação que terminou com a reafirmação da autoridade de Agostinho Neto.

mud10.jpg Seguindo a cronologia dos acontecimentos, em Janeiro de 1961, a capital angolana fervilha de jornalistas que aguardam a chegada do paquete “Santa Maria”, tomado de assalto por Henrique Galvão. Semanas depois, as atenções desviam-se para os três acontecimentos que marcaram o início da luta armada e, que conduziu à independência: A Revolta na Baixa de Cassanje de “4 a 11 de Fevereiro” e, “ a “15 de Março”. Impulsionados pela UPA, a Revolução na Baixa de Cassanje iniciou-se no posto do Milando da Circunscrição de Holo e Jinga, alastrando às circunscrições vizinha de Bondo e Bângala.

mud15.jpg Simão Toco, fundador do “Tocoismo” pertencente à igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, por ter influenciado aquela onda de terrorismo, foi desterrado para os Açores com residência fixa naquela congregação. Milhares de trabalhadores abandonaram seu trabalho nas fazendas algodoeiras que alimentavam a empresa monopolista “Cotonang”; armados de paus, canhangulos, catanas e azagaias, matam gado e destroem outros bens de brancos. Estes acontecimentos são relatados pelo “missionário” António José Nunes Frade que constam dos arquivos da Administração da Circunscrição de Bondo e Bângala do Distrito de Malange…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:47
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLXIII

HÁ 47 ANOS TEVE INÍCIO UMA LIMPEZA ÉTNICA - 18.04.2021

Crónica 3141O HOLOCAUSTO PORTUGUÊS ACONTECEU!  E, porque estamos a 7 dias do VINTICINCO na Pátria do Socialismo…

– Nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios) -3ª de 3 partes

mocanda25.jpeg

Por soba24.jpg T'Chingange - No Al-Gharb do M'Puto

O Relatório Final da Comissão de Peritos estabelecido conforme a Resolução 780 do Conselho de Segurança das Nações Unidas* definiu a limpeza étnica como sendo: “Uma política propositadamente concebida por um grupo étnico ou religioso, para remover a população civil de outro grupo étnico de uma determinada área geográfica, através de meios violentos ou que inspirem terror”. As evidências e as provas de crime são tantas que, não restam dúvidas de que a descolonização da África Portuguesa foi uma limpeza étnica da população branca, promovida pela União Soviética com o total apoio dos partidos da esquerda portuguesa: - PCP e PS.

O regime instaurado em Portugal a 25 de Abril de 1974, tudo tem feito para esconder estes crimes contra a humanidade pelos quais é directamente responsável promovendo por isso e, a propósito, o mito de que a Revolução dos Cravos foi uma “revolução sem sangue”. Por outro lado, passados que são 47 anos, ainda não ouve um alto dignatário do Governo do M´Puto que mencionasse este desaire e, pedisse desculpas pelo facto de isto ter sucedido duma forma tão trágica.

GUERRA39.jpgRetornados e, ou refugiados, mereciam no mínimo ser ressarcidos desta verdade sem penalizar as instituições dos países, ex-colónias que formam a CPLP, porque em verdade, todos eles dos PALOPS, mal ou bem, fizeram o seu papel. Portugal foi e, ainda é o único incriminado nestes graves desaires da história, deitando por terra todo o anterior brilho de suas epopeias pela verdadeira falta de estadistas no comando de todo o processo. Um número significativo dos responsáveis pela limpeza étnica ocorrida na África Portuguesa ainda vive e, alguns dos partidos responsáveis até têm assento parlamentar.

Todos estes elementos criminosos já deveriam ter sido escorraçados da vida política nacional e os responsáveis julgados em Portugal ou então, deportados para o Tribunal Penal Internacional aonde deveriam, enfrentar julgamento. Só entendendo tudo isto é que os portugueses poderiam compreender o fanatismo da esquerda e dos regimes sucessivos até chegar ao actual em promover essa mentira do mito da tal “revolução sem sangue” com todo o ridículo folclore, todos os anos encenados nas celebrações do 25 de Abril. Os responsáveis e co-responsáveis pela limpeza étnica dos portugueses brancos em África continuam a colocar seus cravos encharcados de sangue inocente na lapela. Com grande tristeza o afirmo: celebrando uma das maiores tragédias da história de Portugal e da humanidade…

GUERRA27.jpg Esta imunda campanha de falsidade da história com branqueamento de crimes contra a humanidade que conta com o apoio da pseudo “elite de Abril”, infiltrada nas escolas, universidade, fundações e observatórios, com quase todos os meios de comunicação de massas, é simultaneamente um exemplo de desespero em que o actual regime se encontra. Em verdade tudo isto não passa de uma gigantesca campanha de desinformação sustentada pela maioria da classe jornalística, política e universitária que, continua a fazer “vista grossa” á limpeza étnica, a que os brancos foram sujeitos na África e aos posteriores massacres da população civil negra.

Os supostos “movimentos de libertação”, passados que são 47 anos dessa tragédia, regrediram de tal modo que conseguiram até colocar seus territórios, Angola, Moçambique e Guiné a níveis de miséria económica e social – Situação actual sofrível, se a compararmos com a evolução que então se verificava, sob alçada da Administração Colonial. É só ler o que ocorre nos dias de hoje para se concluir que não estão em situação de prosperidade; seu povo, assim o reclama! Um bando de desclassificados governantes, ladrões e corruptos que só olham para seu umbigo – os barrigas cheias! Os responsáveis por toda esta loucura genocida, seja em Portugal ou na diáspora, poderão sim escapar à justiça dos homens mas, tenho a certeza que ao julgamento da história não escaparão. Pois, quanto aos “revolucionários de Abril”, que a consciência lhes pese – e, a terra que os cobrir também. Certamente que não fugirão para além dos pesadelos de culpa, ao juízo do grande e último juiz!

fuga7.jpg Nas horas daqueles dias a vida não valia um vintém; tudo ficava ao sabor da sorte. Nestas aflições sem controlo visível, surge a figura de Gonçalves Ribeiro batendo-se pela criação de estruturas àquela que se veio a chamar de “ponte aérea” e, que só se resolveu em pleno quando mais de cinco mil pessoas se juntou no Largo fronteiro do Cinema Miramar da Luua pedindo a todas as embaixadas que mandassem transportes aéreos ou marítimos a tirar-nos daquele inferno.

Isto veio a acontecer com a supervisão de Gonçalves Ribeiro, o pai da ponte “LUALIX”. A CIA dizia nesse então que Lisboa não tinha um suporte adequado no terreno que lhe permitisse evacuar mais de trezentos mil brancos ainda no território, nem para manter os voos no ar. Era verdade! Mas também havia aqui pressões para em troca da ajuda, Costa Gomes retirasse o vermelho Vasco Gonçalves do governo. E, foi isso que veio a acontecer! Este antigo internado na casa dos malucos, sector militar de Luanda andava esbracejando demais naquele M´puto desvairado de liberdade. Ele que tinha tirado água da cacimba da Maianga com um cesto de vime! Como podia estar bem do juízo! Justificaram-no depois que estava a fingir para se livrar da operacionalidade perigosa. Tigres de papel! Mas, em verdade, os americanos não dão nada de borla, teria de haver algo na cartola do tio Sam. Jogaram uma rolha e Costa Gomes agarrou-se àquela bóia, pois então, dava jeito!

fuga1.jpg Nós, retornados, fomos em verdade, a moeda de troca; com um só porrete mataram dois coelhos como soe dizer-se! Portugal inundado de retornados anticomunistas, vinha mesmo a calhar nesta hora (…ano de 1975). E, o mundo observando estas manobras com o abutre Carlucci a dar palpites ao estado português através de Mário Soares e outros desclassificados diplomatas de cordel que iam ficando agraudados de poder e dinheiro, pois!... Bom! Na N´Gola, as FAP já nem dispunham de bases aéreas para nos escoar; falo na primeira pessoa porque estava lá! Os confrontos permanentes entre todos os movimentos impediam o funcionamento dos aeródromos como o de São salvador, Cazombo, Maquela, Togo, Gago Coutinho, Cuíto Cuanavale e N´Riquita; Henrique de carvalho, Malange, N´Dalatando e Carmona já só tinham estruturas reduzidas, quase sem uso por falta de segurança e equipamento de apoio.

Em Luanda encerravam vários consulados como o Britânico, Australiano e outros que o estariam prestes a fazer. Só neste então a Metrópole com seu CR tomou pela primeira vez “consciência da gravidade”. Costa Gomes e Vasco Gonçalves começavam a ser acossados pela Imprensa Internacional! Numa parede do M´Puto no bastião comunista de Torres Novas e Riachos, terra natal de Otelo Saraiva, podia ler-se escrito pelos anarquistas: “Otelo Saraiva de Carvalho, que lindo nome tens tu, tira o vê de Carvalho e mete o resto no cú”.

fuga11.jpg

Nota*: Ver documento – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇOES UNIDAS – Relatório Final da Comissão de Peritos Estabelecido Conforme a Resolução 780 do Conselho de Segurança (1992). 27 de Maio de 1994.

 Link: http://www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=S/1994/674

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:38
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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2021
MOKANDA DO SOBA . CLIX

MEUS KITUCUS (mistérios) … O FUTURO é uma batata com dois fios nela espetados dando musica através de auriculares espetados nas orelhas via FM ou 5G…  

Não sei se voltarei a passear nas ruas da Luua (Luanda)... Crónica 3098 – 07.01.2021

Por

soba0.jpeg T´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento algarvio

luanda6.jpg Não sei se voltarei a passar nas ruas da Luua que me viram crescer porque, também minha passada irá entristecer na recordação, do que foi e já não o é e, porque também nenhuma segurança terei sobre tudo e sobre coisa nenhuma que preside aos tempos de agora  que por dá cá aquela palha, se ateia a mente queimando os fusíveis do curral e dos coiros. Lembrar o tempo em que presumivelmente - o fui, feliz, desleixando-me na compreensão das muitas infelicidades alheias.

Embarquei para o M´Puto sem o querer, pela inquieta, medonha ou desolada guerra do tundamunjila. A terra do futuro ficou adiadamente tardia na vontade, nos feitos e trejeitos, adaptando-me aos frios, sarando a ferida interior com pústulas feitas vulcões, comendo uma sandes na “Tendinha” de Lisboa do Rossio, um panado ou posta de bacalhau e um penalti (um copo de vinho tinto) enquanto me inteirava de notícias chegadas da Luua e de Angola em geral…

maianga0.jpg A terra do futuro ficou adiada sarando-me nas crostas de novas feridas por via duma guerra demasiado esticada; o futuro já não mais seria ali. Ele, o futuro foi ficando encrustado nessas cascas de ferida, cicatrizes, um misto de bactérias e ou vírus permutando-se nos entrelaçados de infecções encrespadas em mutações e acordos ora capitalistas, ora comunistas com senda de regras cada vez mais internacionalistas e tratados imcompridos...

Neste discorrer eu, ia virando caruncho de farinha atrofiado nas evidências e, sem direito a suspiro. Aquele pedaço de tempo exigia um modo de sobrevivência numa sociedade de um salve-se quem puder e, usando uma indigência com coisas esdrúxulas. Nessas vindas da ponte aérea “LuuaLix” todos os dias iam chegando refugiados envoltos em um enorme vazio! Com isto fomos todos obrigados a ganhar consciência sábia de entender o VAZIO da verdade – o VAZIO das pessoas!

luua16.jpg Passando por Lisboa até Istambul e no lugar aonde Judas perdeu as botas, soprava (ainda sopra) um vento descuidado a indicar-nos que a tal “idade do ouro com segurança” e qualidade de vida tinha desfalecido. A Haga Sophia da antiga Constantinopla também se tornaria numa vulgar mesquita com emparedados mosaicos bizantinos a dar-nos conta que o Mundo era um sítio em permanente convulsão.

E, lá, aonde até o rosto esguio, macilento de Nosso Senhor fora tapado pelo barro com cal originando o cafelo denunciador de que ali, aonde oravam a Cristo o Messias, era agora aonde se curvavam a Alá… E, de um dia para o outro, nosso futuro, viajando-se de um para outo continente, de uma e outra cidade, tudo fica trancado, trancafiado, parado paradinho, de mãos lavadas e até os pés varridos de poeiras alheias, de um quarto em quarto de horas para eliminar uma praga invisível.   

luanda1.jpg Assim, limpo e escovado, experimento comprimidos roscofes saídos de latas de formicidas, coisas arsénicas e creolinas numa empreitada de me manter imune e, o maldito do bicho ruim não me reconhecer na exactidão. Consoante a pessoa se ri, a gente (nós) se acha de voltar aos passados escolhendo as peripécias avaliáveis porque, viver assim entalado entre um era num era, viver, fica um descuido prosseguido. Pelo sim pelo não, também tenho umas bolachas amarelas de quinino para entorpecer as abelhudices, rejuvenescendo em mim este malvado “tempo de ir e vamos”…

acácia rubra3.jpeg Hoje em dia, já nem me queixo do passado com missangas da Luua porque o futuro vive repetindo o repetido e assim escorregadio sem conseguir tirar sombra dos buracos não há margem para remorder remorsos. Assim entrançado com espinhos e restolho, todo o dia de pijama, relembro o tal velho coronel, senhor também fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas, pele de boi já muito encardida, esfolada, olhando para o infinito, babando-se pelo canto esquerdo descaído, todo enfolipado lá na Luua, Rua Vintoito de Maio da Maianga…

O velho oficial estrelado, insensível ao cérebro abanado por uma trombose, com a lentidão das coisas graves e titubeadas com muxoxos, parece que fala – Hum, pois, não sabe; a kalashnikov, os turras, a febre do poder… E, na febre da maresia, eram bolas de trapos, meias surripiadas do pai a cheirar a sulfato de peúga! Mas, o que é que tem a ver o cú com as calças? Estão a ver o filme? É isso mesmo: Ache que não ache, toda a saudade é uma espécie de velhice…

Nota: Publicada em KIZOMBA do FB em 04.01.2021

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:26
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2020
XICULULU . CXXIX

NOVOS AMIGOS - Ando encafifado com uma máquina de fazer “alegria” chamada de Ximbica*

Crónica 3088 – 04.12.2020

Por

soba0.jpegT´Chingange - No M´Puto

relogio sem.jpg “Tudo é tudo, nada é nada”; “quatro ou quatro e meio, não chega a cinco” tal como o vinticinco de Abril não foi como o vinticinco de Novembro do M´Puto. É difícil haver consenso do que fazemos individualmente tal como o é para um Estado ser decente. Se não houver transparência, a corrupção superará as normas de bom entendimento e neste mistério de encobrir o nevoeiro com cacimbo, os socialistas têm-se revelado muito bons na matéria.

ximbica.jpg Mas, se a politica nos separa, não se fala mais nisso, melhor será passarmos ao futebol do Benfica ou falamos de Madre Tereza de Calcutá porque entre piadas e amuos sempre iremos revigorar os percursos no sentido ou ao contrário dos ponteiros do relógio. Pois assim terá que o ser porque é impossível dar uma definição da alma, pois que esta, não é uma entidade concreta mas, abstracta.

ximbica01.jpg Não é matéria, é energia - mas também não é energia física. É energia divina, um pedacinho de um qualquer deus dentro de nós. Sufragando os doces reis e rainhas dum ano que quase finda, próximo das passas dum ano novo que chega, é sempre emocionante ler as mokandas de amigos mesmo que tenham nomes estranhos como Lusakidilu e, de falas genuínas, kamba duma Luua com um Rio Seco a que eu chamo de “mulola” porque só ali passa água quando chove!

Dum Rio que só o é na lembrança antiga que se quer sem fungos nem cacos velhos ou águas saponáceas a fazer desenhos entre as mais escuras, saídas dos tubos ladrões. Posso acrescentar que o último protótipo dessa máquina é parecido com uma foice a sobrepor uma catana! No fundo vermelho e roda dentada, pode ler-se a marca dela: Ximbica…

araujo119.jpg E ximbicar é assim: - Tu pegas no bordão, atiras canoa na água, entras e encostas a ponta do pau no fundo do mar kalunga, fazes força e, a canoa anda. Depois continua - Ah! Quersedizer, tu remas - Ué! Remas!? Essa palavra ainda não sei? Não me disseste dela! Eu, ximbico a canoa. T´aprendeste, munanga?

Aprendi, sim, ando ximbicando pela vida muito no lentamente, trabalhando músculos desconhecidos, que não fazem parte da anatomia, Eu e Lusakidilu ficamos amigos, trocando bordões por novas palavras. O mar, gentil, a calunga, pôs jeito no nosso ximbicar; aprendi, sim, ando ximbicando pela vida disse-me ele na última mokanda via Facebook. Um amigo tem sempre missangas para enviar, assim o queira, por apitos ou estalidos ou mesmo muxoxos com ou sem cacimbo ou trovoada de chuva grossa! A tal máquina…

Notas: Ximbica*: Rema; Luua: Luanda; M´Puto: Portugal; Kamba: Amigo; Kalunga, mar e seus mistérios ou kitucus…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:55
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Sábado, 7 de Novembro de 2020
A CHUVA E O BOM TEMPO . CXIV

MEDITAÇÃO DE T'CHING

Cronica 3077 - Nós e, o deserto... 06.11.2020

Por

soba24.jpg T'Chingange, no Algarve do M'Puto

step6.jpg É na escola do deserto que aprendemos as mais profundas lições de vida. Já tive oportunidade de atravessar o Calahári e senti a profundidade dessa vastidão; senti um milagre acontecer quando o carro que conduzia foi deslocado não sei como para o lado certo, evitando um acidente de morte e, éramos cinco - a família mais um...

A palavra hebraica para deserto é midbar e tem a mesma raiz da palavra dabar, que é “falar”. Isso é muito interessante, porque o deserto é um lugar em que a Natureza fala... Não vem mal ao mundo, dizer que a Natureza é Deus...

nauk01.jpg Revendo o tempo antigo, Moisés sabia bem do que estava falando, porque passou muito tempo no deserto. Não sei explicar direito mas, meditando nas distâncias sem vivalma, um qualquer de nós se sentirá confuso feito um pequeno grão de areia, um nada na imensidão, uma ilusão...

Você já deve ter escutado falar que a vida de Moisés foi dividida em dois períodos de 40 anos. Ele passou 40 anos aprendendo com os homens no Egipto: 40 "desaprendendo" no deserto e aprendendo com a Natureza; 40 conduzindo um povo difícil e obstinado pelo deserto. Portanto, ele passou 80 anos no deserto. Eu, pouco mais que 8 X 8 dias...

nauk9.jpgO Eterno nos leva ao deserto para nos humilhar, nos provar e nos dar entendimento tal como a Moisés que sabia bem do que estava falando... No deserto, o silêncio é tão profundo que somos capazes de ouvir a própria respiração. Ali, a Natureza consegue cativar nossa atenção para as coisas mais simples. Lá você aprende a calar-se e, ficar a sós esperando para ouvir o que ela lhe quer dizer.

Eu, ia a uns 180 kms em contramão, estrada de areia com terra quase feita pó e, naquela recta a perder de vista surge outro carro. Terra solta de difícil manobra de direcção e, inexplicavelmente sou levado para a esquerda, lugar certo na condução. Não sei como - aconteceu!

nauk3.jpg Agora, tantos anos passados, relembro o deserto como sendo o lugar da acção de Deus na vida de Seus filhos; assim leio e, assim recordo! Para Moisés, o propósito é nos deixar humildes. Algumas vezes, a Natureza tem que passar a rasteira em uma pessoa a fim de que ela seja capaz de olhar para cima.

0 destino põe-nos no deserto para nos refinar e não para nos destruir. Será este o Deus a que chamo de Natureza? No deserto, Moisés teve que aprender que não era ninguém. E, a partir daí também eu, senti isso mesmo. No Egipto , Moisés  achava que era alguém importante, respeitado, admirado.

nauk2.jpg Ele passava, e todos se inclinavam diante dele. Ovelhas não fazem isso; diz-se até que elas são animais pouco inteligentes. No deserto, ele teve que aprender a viver com pouco. Suas roupas luxuosas que usava nas cidades não combinavam com a simplicidade de seu novo trabalho de pastorear.

Se você está passando hoje por um deserto, provavelmente também pensarará “Não aguento mais isso!” - Entretanto, será bom não perder de vista a principal lição do deserto:  *0 destino põe-nos no deserto para nos refinar e não para nos destruir*

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Nota: O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos,  Mu Ukulu esquecido no tempo... 

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:40
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Sábado, 24 de Outubro de 2020
KWANGIADES . XXXIV

COQUEIROS DA LUUADe quando a Malta do Macoco, lutava contra o inimigo comum, a Malta do Cú Tapado  -  20.10.2020

NO MEU ANTIGAMENTE NA VIDA - Crónica 3072 (do Kimbo)

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

Por: Carlos Pinho(*)  (Folha 8)

coqueiros3.jpg Naquele tempo, lá na primeira metade da década de 1960, na cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, sim já naquele tempo, Luanda se escrevia com “u”, pois que no atrás do tempo em que Loanda se escrevia com “o” ainda era mais lá no antigamente na vida e eu ainda não tinha existência. Pois nesse meu antigamente, em que era monandengue, ia lutar de espadachim lá nas Barrocas dos Coqueiros, eu e os meus kambas colegas de bairro, todos nós candengues, nós, a Malta do Macoco, lutávamos contra o inimigo comum, a Malta do Cu Tapado.

O termo Cu Tapado não tem nada de ofensivo, era um pequeno bairro adjacente ao Bairro dos Coqueiros, lá numa rua que era e é um beco sem saída, ou dito numa língua mais fina, um “cul-de-sac”. E nessa luta a ressuscitação era imediata e os inimigos, eram no final, irmãos. Pois naquele tempo, nós eramos heróis espadachins, não havia nem brancos nem negros nem mestiços, mas apenas nós e eles, os da Malta do Macoco e os da Malta do Cu Tapado. Havia apenas a irmandade dos espadachins, carrinhos e trotinetas de rolamentos, que competiam rua abaixo antes, da polícia nos dar uma berrida.

coqueiros 1.jpg E, eu tinha ainda a minha “chica”, calão luandense (caluanda) para bicicleta. Uma BSA comprada na Casa Americana, edifício que é hoje uma universidade privada que certamente nunca dará aos seus alunos as alegrias que me deu a minha “chica”. Eu trocava passeios na minha “chica” por corridas de trotinete ou de carros de rolamentos. Eramos putos da rua numa irmandade feliz e multirracial. Naquele tempo eu aprendi a nadar lá na praia da Corimba que fica lá para os lados da Samba. Praia com pé até dizer chega, onde só perneta se afogava.

Ah! Naquele tempo! Criança não tem maldade, só sonhos pueris. Colocávamos calção de banho quando chovia e sentávamos no meio da enxurrada barrenta que vinha lá das Barrocas dos Coqueiros. Aí a polícia não nos dava berrida, os chuis fugiam da chuva. Mas a vida prega-nos partidas, cerca de dez anos depois, numa tarde de um domingo, julgo que dia 20 de Outubro de 1974, já nos meus 20 anos, passeio a pé ao longo da Praia da Corimba, lá para os lados na Samba, com a morte na alma. Fazia mentalmente o meu adeus à minha querida Angola, pois já adivinhava que esta iria passar por meio século de guerras, ódios, maldições, danações…

baú3.jpg Pessoa amiga me avisou, vai-te daqui ou acabas em vala comum. E foi verdade! Grande parte da minha geração acabou em valas comuns por mor do 27 de Maio de 1977 e do grande timoneiro do MPLA. O tal genocida que é uma referência para uns tristes mentecaptos. Foi aí, nessa tarde de domingo de 20 de Outubro de 1974 que aprendi, na minha alma, lá dentro dela mesmo, mesmo, mesmo, o verdadeiro significado do ditado quimbundo, “dor de desgosto é pior que dor de facada”.

Hoje, olho para trás e lembro-me recorrentemente da música do Duo Ouro Negro, “Amanhã” e então de mansinho choro baixinho só para mim:

“Amanhã,

Peço ao meu lema que faça com que eu volte

A morar na terra amada que me viu nascer

Quero chegar de madrugada

Para ver o sol raiar

Quero chegar de madrugada….. hoo

Para ninguém ver, se eu chorar”

baleozão00.jpg No próximo dia 26 de Outubro de 2020, faz 46 anos que vim viver para Portugal. Nem eu sem bem porquê, mas contínuo à espera de Angola. Angola que se dizia ser uma promessa de futuro, mas que é unicamente uma certeza de um passado infinitamente sofrido. Quanto a futuro nem sonhá-lo, quanto mais vê-lo, mesmo que fosse ao longe. Mesmo que fosse de bem longe! Aqueles, a quem foi entregue o destino do país, que se consideravam uma referência porque, segundo eles, na mata tinham lutado por algo melhor, foi-se a ver, não passaram (e não passam) de um bando de malfeitores, que lutadores dos maquis, nada tinham (e nada têm). Com efeito, os verdadeiros lutadores caíram no esquecimento e alguns dos mais significativos foram inclusivamente varridos na paranóia pós 27 de Maio de 1977.

baleozão7.jpg Acho que há por lá uns ex-combatentes que vão recebendo uns tractorzitos. Quem tomou o poder em Angola foram aqueles que em tempo de luta já se passeavam por Brazzaville e Kinshasa e capitais europeias, curtindo o dinheiro que devia ser para a luta no terreno. Só que arranjaram um terreno mais bem simpático só para eles. Certamente que não pertenceram nem à Malta do Macoco nem à Malta de Cu Tapado, nem a qualquer das outras “Maltas” que, naquele tempo, pululavam por Luanda. Ou se porventura tivessem pertencido, degeneraram em patifes e carniceiros. Soubéssemos nós então, e as espadeiradas teriam sido mais fortes.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Escolha do Soba T´Chingange  Niassalês da mulola do Rio Seco… Kamba kiami ami! Mungweno… E. afinal, o que está ruim, pode mesmo, piorar...



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:42
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXIV

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte IV de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3045

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpg As escolhas do Kimbo

Por

Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

sónia2.jpg Em Tsumeb, um novo acampamento, as mesmas barracas de campanha. Mas a comida era melhor, assim como o tratamento que recebíamos. Ficamos pouco tempo. Conseguimos ser aprovados na seleção, graças a meu futuro cunhado e por eu ter começado a servir como intérprete. Benditas aulas de inglês.

Mudamos de campo outra vez. Fomos para Grootfontein, mais próximo a Pretória. O campo era um presidio que estava sendo desativado. Restavam lá uns 3 ou 4 presos, todos idosos. O presidio era formado por várias casernas e eles nos separaram. Tinhamos refeitório com mesa e bancos, e a comida era surpreendente. Imagine, senhor, que comemos até sobremesa de maçã caramelada no forno. É que os presos eram os cozinheiros. Fiz amizade com um deles. Tinha 65 anos e estava preso há 30 pelo assassinato da esposa num acesso de  ciúme. A filha não o visitava. Depois que saí do campo e ele da prisão, fui à casa dele. Era um homem gentil – como pudera fazer aquilo? Mistérios do coração humano que jamais saberei.

suku2.jpg Continuei sendo intérprete junto à assistente social e ao diretor do campo. Meu futuro cunhado arrumou emprego numa fazenda. Meu namorado logo sairia, mas eu era menor de idade e não poderia deixar o campo. Estava dificil para minha mãe. Ir para Portugal estava fora de questão, dado o desprezo com que nos tratavam. Eu e Zé decidimos casar. Minha mãe passou a ser minha responsabilidade (acredita que até hoje ela fica muito zangada quando lembra disso?). E assim, no dia 6 de novembro de 1975, casei dentro de um presidio que funcionava como campo de refugiados. O diretor e a assistente social foram nossos padrinhos.

kuito8.jpg Os soldados que tomavam conta do campo fizeram uma cotinha e pagaram a nossa festa e a lua de mel num hotel na cidade. O casório teve bolo, vestido de noiva e tudo, viu? O Jeep do exército nos levou ao hotel. Os soldados ficaram dentro do Jeep vigiando para que não fugíssemos. De madrugada, acordei com dor de ouvido. Na recepção não havia remédios, as farmácias só vendiam medicação com receita. Os soldados me levaram para o hospital, onde fui atendida. Ao voltarmos para o campo, os soldados contaram para todo mundo a aventura. Não escapamos à gozação geral: “Nem os ouvidos poupaste à miúda, Zé?”

kuito2.jpg Casada pelas leis sul africanas, no dia 11 de novembro casei na Igreja e duas semanas depois casei novamente no consulado português. Em menos de um mês casei três vezes. Felizmente, com o mesmo homem. E assim deixei minha terra. Um ano na África do Sul foi suficiente para sabermos que lá não era o nosso lugar. Além da cultura muito diferente, começavam a ocorrer ali os mesmos episódios violentos que havíamos testemunhado em Angola. Decidimos mudar. Escolhemos o Brasil, país que desde minha pré-adolescência eu sonhava conhecer.

Partimos para Portugal a fim de cuidar da burocracia. No dia 7 de fevereiro de 1977 zarpamos num navio italiano rumo a Santos, onde desembarcamos dez dias depois. Eu estava com seis meses de gravidez.

fuga8.jpg A imensa maioria dos brasileiros nos recebeu de braços abertos, principalmente as pessoas mais humildes. Alguns, mais abastados, nos tratavam friamente, mas nunca fomos hostilizados. Aos poucos aprendi a amar a terra nova, a querê-la a ponto de ficar amuada quando falam mal dela. Percorri este Brasil quase todo, conheci cada lugar que nem tens idéia, senhor. Andei por picadas, atravessei pontes que eram apenas duas tábuas paralelas, morrendo de medo que elas quebrassem e o carro despencasse. Comi queijo de coalho em casebres de gente mui simples e coração enorme. Ah, senhor, que país maravilhoso é esse teu Brasil!

Descasei, casei de novo.

Quando a  saudade dava botes sobre a gente, o Walter fazia a muambá. Comprava cachos de dendê e tirava o óleo em casa mesmo. Era o único jeito de ficar igualzinho ao de Angola. Aqui as frutas são praticamente as mesmas que tínhamos, a temperatura  e as praias também, mas não é a minha casa, entendes senhor? Aqui eu me sinto bem, mas falta o cheiro da minha terra, falta o cacimbo e a silhueta única do imbondeiro em meio à névoa.

guerri3.jpg Há uma ausência que não consigo definir. Tudo tão igual, mas ao mesmo tempo diferente. Talvez a gente seja mesmo filho de nosso chão, não sei. Parece que nesta paisagem familiar falta a alma da minha terra, a casa que posso realmente chamar de minha.

Eis-me aqui, senhor, aos 60 anos, com três filhos e dois netos brasileiros. Sou feliz, bem sabes, mas a saudade é bicho traiçoeiro: quando a gente menos espera, ela surge, arrepiando a pele, cravando as unhas na carne, abrindo ocos no peito. Recolho então minhas lembranças, as músicas e fotos de minha terra, e choro. Mansamente.  Angola ainda vive em mim. Como tatuagem de alma."

FIM

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:04
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXII

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte II de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3043

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

Por

Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

fuga10.jpg Meu pai só vi duas vezes. Na primeira eu tinha seis anos e ele me levou pra passar o dia na casa dele e conhecer sua esposa e filhos. A segunda vez foi aos 16 anos. Ele me encontrou na rua, na garupa da moto de um amigo e repentinamente se lembrou que era pai. Mandou eu descer e ir pra casa, que filha dele não andava de moto. Ah, meu Senhor, filho mal havido nem sempre engole sapo – anote aí. Disse-lhe que não era meu pai, que não passava de um reprodutor. Depois disso nunca mais o vi. Tudo o que sei dele é que vive em Portugal.

A vida em Angola enchia de festa meu coração adolescente. Com os Escoteiros Marítimos da Praia do Bispo acampei em ilhas e praias distantes, participei de paradas militares, visitei hospitais e presídios. Com grupo de dança folclórica Rancho da Casa do Minho dancei em campeonatos e apresentações. Vi o nascer do sol na praia da Ponta da Ilha, andei de moto nas dunas da praia do Sol e acampei na paradisíaca ilha do Mussulo. No Baleizão comi prego no pão com Coca-Cola. Nos bares à beira da praia comi santola, camarão, peixe no molho de dendê, muamba com pirão de milho. Eu nem sabia, senhor, que fabricava as lembranças mais caras. Um dia elas seriam os retalhos coloridos da minha colcha de saudades.

fuga11.jpg Tudo mudou em abril de 1974. Angola ansiava pela justa independência. Estávamos numa entressafra de tranquilidade. O terrorismo de 1960 quase não existia mais. Os guerrilheiros tinham sido rechaçados pelas tropas portuguesas. Porém, com as mudanças na política de Portugal, tudo mudou nas colónias lusitanas na África. Grândola Vila Morena deu a senha para os cravos florescerem nas armas. Marcelo Caetano caiu. O socialismo venceu em Portugal: Álvaro Cunhal, Mário Soares e seus camaradas, agora no poder, apoiaram a independência e o Movimento Pela Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto e patrocinado pela ex-URSS, Cuba e Alemanha Oriental. Mas no país existiam também a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, apoiada pela França e pela Bélgica; e a União Nacional pela Independência Total de Angola, de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos. Os dois grupos não aceitaram os favores de Portugal ao MPLA.

Iniciou ali, senhor, a grande guerra civil que devorou o meu país por três décadas. A violência aumentava a cada dia. Balas perdidas, rajadas de metralhadora, morteiros de bazuca e granada passaram a ser rotina. Quantas vezes, tínhamos que nos jogar no chão, dentro da sala de aula ou de cinema? Lembro de um dia em que Jesus Christ Superstar estava na tela enquanto eu, deitada no chão no cine Tivoli, ouvia as balas assoviarem sobre a cabeça.

Era difícil para todos, mas quem tinha pele branca, como eu, caiu em um limbo. Eu não era colonizadora, nem exploradora. Era uma adolescente angolana, pobre e agora considerada inimiga. Em meados de Março de 1975, começamos a cumprir o toque de recolher. A partir das 16h, brancos não podiam andar nas ruas sob pena de serem presos ou mortos por grupos guerrilheiros. Estes não eram mais chamados terroristas e sim aclamados como heróis da libertação. Havia assassinatos de homens brancos todo santo dia. As mulheres sofriam mais: eram seviciadas antes de morrer. Minha mãe rendeu-se ao medo: em Junho daquele ano me mandou para Nova Lisboa, onde tínhamos familiares e as coisas estavam mais tranquilas.

fuga13.jpg Muitas famílias estavam fugindo do norte do país e indo pra a nossa região, onde recebiam apoio da Cruz Vermelha Internacional para deixarem o País com destino a Portugal ou à África do Sul. Comecei a trabalhar como voluntária num dos postos da Cruz Vermelha. As caravanas do norte se multiplicavam. Eram tantas, que houve dias em que não dormíamos. Engolíamos pedaços de pão enquanto limpávamos ferimentos, distribuíamos comida e dávamos informações. Quando conseguíamos parar por alguns minutos, encostávamos o corpo nas caixas de alimentos e dormíamos em pé mesmo.

fuga9.jpg A multidão rugia em desespero. Gente à procura da família, gente abatida e sem rumo. Derramavam grossas lágrimas, lamentavam-se em alta voz pelos parentes mortos, pelos bens perdidos, pelas emboscadas às caravanas. O bicho homem é bruto, meu senhor.

Lembro muito bem, ainda hoje, de uma caravana. De um dos carros desceu uma família atacada na estrada. A mãe tinha uns olhos perdidos e carregava o filhinho no colo. Seu choro era um chicote que arrancava lascas da gente e tingia de cinza o vasto mundo. Implorava que lhe salvássemos o menino, mas ele, senhor, já estava morto. Nesse dia, lembro-me bem, rompi com Deus. Reneguei-o. Era bem certo que nenhum ser supremo e bom poderia criado tal humanidade perversa e tanta dor a fustigar as costas dos inocentes.

(Continua…)

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:30
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Terça-feira, 28 de Julho de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLVII

TEMPO DE MEUS KITUCUS (mistérios). MEDITAÇÃO DO T'CHING...

SOB A LUZ DA LUA, na LUUA... Crónica 3041 28.07.2020

Publicada em KIZOMBA a 24 de Julho de 2020, e agora, complementado…

Por

soba0.jpeg T´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento

banco de angola1.jpg Ontem, dia 23 de Julho de 2020, visitei a página social dos Kaluandas no Facebook e, fiz um reparo acerca do edifício do Banco de Angola, uma construção magnífica dos anos 50 de século passado tendo então afirmado que os construtores daquela obra tiveram de regressar ao M'Puto quando do 11 de Novembro de 1975, sem poderem trazer essa obra de arte no bolso...

Que seria bom que os mwangolés reconhecessem esse labor colonial e deixassem de retaliar os milhares de ex-colonos na generalidade, pois que estes, aí deixaram um vasto património... Para surpresa minhas, todos referiam a foto com adjectivos de lindo, belo e edecéteras singelos sem nada mais dizerem e, eis que em seguida seu administrador faz um reparo sem sentido, apagando o meu comentário, no qual, referia algo de histórico! Referia a criação da moeda Kwanza por Said Mingas (Avelino dias Mingas)…

banco de angola2.jpg Achei um despropósito pelo que, concluí ser esta página, uma das muitas de lavar a imagem ao desgoverno com mais de 45 anos – o MPLA…Terei aqui de referir ser este modo de publicitar fotos de Luanda uma desajeitada forma de engraxar os homens do candomblé do MPLA dando ao povo uma imagem enganosa. Uma página feita, provavelmente por gente que só quer agradar aos ditos donos daquilo e, daí, tirar proveito ou "gasosa" de sua bajulice ou lambujice! Claro que só mostram o lado vistoso, sabendo nós a precária e decadente situação dos bairros da periferia e antigos musseques no que concerne a infraestruturas minimamente satisfatórias.

Assim, apreciar, interpretar e entender o significado de obras de arte nem sempre é uma tarefa simples para quem se programou num objectivo de agradar; tudo depende do contexto! Às vezes, é preciso que se tenha conhecimento da perspectiva, ideias e pontos de vista do autor, a fim de entender o que ele quis expressar em um quadro, uma foto, uma obra como o "Kinaxixi" por exemplo. Um património referenciada nos canhenhos da arquitectura mundial e, que simplesmente foi demolida por este governo, para dar lugar a uma torre - coisa de puro negócio de cambalacho!

banco de angola3.jpg Lembro-me de ter lido, tempos atrás, um relato sobre um grupo de estudantes que foi levado por uma professora a um museu de arte. A certa altura da visita, algumas alunas pararam interessadas em analisar detalhadamente um belo quadro pintado a óleo. Pareciam confusas e sem entender a beleza da obra. Percebendo a perplexidade delas, a professora levou-as a um lugar específico da sala e explicou: “Meninos, este é o ponto a partir do qual o pintor deseja que olhemos aquele quadro.”  

Dali, os alunos puderam captar toda a beleza da pintura que não tinham conseguido ver quando estavam em cima dela. Tal e qual como o tempo que nos leva a descrever muitos anos depois as coisas que no comum daqueles dias, eram normais no labor dum território com as instituições funcionando com a dignidade requerida. Meu pai trabalhou naquele edifício quando se passou a usar Kwanzas em substituição dos escudos angolares e, que eu saiba, seu nome não consta num qualquer painel. Talvez conste o de Said Mingas, meu colega de carteira na Escola Industrial de Luanda e, durante anos! O Avelino Dias Mingas! Com a revolução inverteu o Dias em Said, procedimentos emancipativos, pois!…

banco de angola4.jpg Só que meu pai branco saiu de lá com uma bala no corpo via M'Puto por via do 27 de Maio de 1977! As paredes, as fachadas, as fotos, nada disso mostram! Muitas vezes, o quadro da vida de um imóvel torna-se obscuro, tornando-se até difícil de ser entendido e apreciado por observadores limitados como o é a maioria de nós. Mas, se falarmos, as esquinas a nós afectas, ventilam segredos! Isto acontece quando em meio a dificuldades e problemas não conseguimos ver a mão do Artista, o feitor da coisa e a partir do projecto, aplainando paredes, encastelando tijolos, nivelando superfícies, contornando obstáculos, harmonizando contrastes depois de levantar seus andaimes.

O banco de Angola, é o edifício que melhor simboliza a arquitectura do Estado Novo de feição neoclássica portuguesa; impõese não só pela sua arquitectura mas também pela monumentalidade, grandiosidade e riqueza. Foi concluído em 1956 e projectado pelo arquitecto Vasco Regaleira, que o identifica da seguinte maneira: " idealizou-se um edifício que arquitectonicamente se integrasse na época setecentista, e dar exemplo das condições da nossa tradicional adaptada à colonia… O hall de entrada tem uma escadaria monumental em mármore e colunas jónicas, que sustentam um tambor e cúpula. O seu interior é decorado com azulejaria que representa a chegada dos portugueses aos reinos do Kongo e de N’gola. Do ponto de vista simbólicoexpressivo, o edifício tem um grande impacto visual. Situase na Avenida 4 de Fevereiro nº 135169…

banco de angola5.jpg Assim, como gravando na tela uma história possível de ser entendida, somente do ponto de vista da eternidade como é o caso do Banco de Angola e, aonde meu pai queimava cédulas com palancas, pontes, silos e estradas a culminar um ciclo! E, miseravelmente, mijam agora em cima do historial do que foi e já não o é! Não o é agora, relevante apreciar a tela da existência sem descrever sua integridade. A vida inteira deve ser orientada e observada do ponto de vista desse ângulo do tempo para ser possível entender muito do que nos afecta no aqui e agora e, na natural sequência dum passado.

Sendo assim e tendo Deus como a suposta fonte de luz, sob seu brilho poderemos só nele, ver a luz da verdade, da esperança, da confiança e da certeza quando tudo nos parecer periclitante e escuro com paradigmas perniciosamente confusos da ingratidão! Não é sob a óptica embaçada de nossos entendimentos ou das nossas filosofias humanas que iluminaremos todos os detalhes que nos deixam perplexos diante da vida. Tomemos por exemplo a perca da nacionalidade angolana, tendo-se lá nascido! Isto não estava escrito nesse acordo do Alvor! Pois então, lá teremos de meter o dedo na ferida buscando essa luz da ilógica enquanto nos submetemos às mãos modeladoras dos artistas feitos políticos; desses que modelam muito mal nosso barro! Nossa vida - Obra de torpitudes... com uns monangambas a bajular suas excelências…

O Soba T'Chingange, no M'Puto...



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:35
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLIV

MEUS KITUCUS (mistérios) . JANELAS PARA A VIDA

Crónica 3033 - N´gana N´Zambi, não vale a pena morrer de véspera01.07.2020

Publicada em Kizomba a 29.06.2020 - N´gana N´Zambi – Meu Senhor

Por

soba002.jpgT´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento ( …de onde sopra o vento)

zanzi9.jpg Que cena: Um senhor fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas olhando para o infinito de Cascais, prédio comprado com Angolares a fingir de Macutas com palancas a pastar o capim das anharas. Babando-se pelo canto esquerdo descaído, insensível ao cérebro abanado por uma trombose. Com a lentidão das coisas graves e titubeadas com muxoxos – Hum, pois, não sabe; a kalashnikov, os turras – coisas antigas do vinticinco do M´Puto…

E, eram bolas de trapos, meias surripiadas do pai a cheirar a sulfato de peúga e permanganato de potássio dos armazéns do Bungo! Lembranças de quando ainda estudava que o Ali Babá era lenda antiga com ladrões feitos moiros, muçulmanos das mil e uma noites. A puta da guerra intercalava-se com as vidas de quando mais puto, ainda era kandengue; de quando fazia trumunos nas bananeiras do Malhoas, um sítio esquecido dum rio que só o era quando chovia – Rio Seco, aiué… Bem! Depois, revolucionou-se a fazer panfletos contra as coisas ultramarinas, juntou-se com a foice e o martelo no M´Puto e entre picardias e fumaças de burundanga daquele tempo, espezinhou-se numa intiphada ferindo até o próprio pai…

mai1.jpg Intiphada com giad pela libertação de sua terra predicando avanços sociais porque, aquilo da exploração tinha que terminar! E, terminou, faz tempo mas, a guerra continua, sempre! Às vezes, lá na Luua, rebentava tiroteio, eram rajadas pulando no espaço, de luz tracejantes nas noites cálidas tal qual como o Ché fazia em “El Pinar de Cuba” e, toda a gente fugia para o centro do medo, parte central da casa… Depois voltava tudo ao seu lugar. Se estavam na bicha, começavam os muxoxos atrás da parede e entre mujimbos sabia-se que alguém teria morrido.

Eram combates com tiroteios aonde o que era, já tinha sido, a vida não corria no setentaecinco – fugia! Mais e mas, edecéteras e entretantos… Que é feito do cambuta chambeta zarolho filho da peste? – Acho que lerpou! Assim mesmo no simplesmente e no presente do defuntado, sem gerúndio. Foice! Agora, o irmão do Fala Kalado, confinado no seu prédio do M´Puto, nem se apercebe que a guerra do Tundamunjila já acabou e, diz coisas que nem batem na bota da perdigota.

Interpretando a natureza contraditória do Mundo que hoje forçosamente tem uma motivação sanitária pelo COVID 19, não será permitido cuspir para o ar, nem para a água da praia de Carcavelos porque a gente, a vida da gente, anda muito subjectiva. Isso! O que se passa no espírito ou no pensamento resulta das percepções pessoais, assim como o ponto, que vira virgula sem direito a interrogação. Afinal, seremos todos uniformemente naturais usando um relógio sem ponteiros e, divididos entre o ontem e o hoje sem o antes-de-ontem…

maian10.jpg Hoje, o agora é muito mais importante que todas as outras farras; uma janela muito ampla com a distância e a proximidade purificadas num se calhar e, com um Deus de silêncio a fiscalizar. Tambulakonta!? De novo voltamos a confirmar que o sentido que nos leva a qualquer participação cívica, não é igual para todos! Quem andou feito cigarra despifarrando seus proventos, agora forma fila para se socorrido com uns pastéis de Belém, tortas de Cacilhas, batatas fritas de Alcabideche e rufadas de Tomar ou Pasteis de Tentúgal.

O ideal seria estarmos todos a olhar porque pode ser-se mal julgado e até ser preso por ter cão ou por não ter! Pois! Uns fogem do problema, outros há, que os problemas são sempre os outros. E, então nem sabemos como ficar, estando na casa toda ela feito medo, falando com o frigorífico, a torradeira e a avenca de folha larga tirada da casa da vizinha - porque sua dona, não a pode regar; está em Almada bem por debaixo da mão do Cristo Rei rezando o terço e mandando santinhos para todos os amigos…

Naqueles tempos de CONFINAMENTO 75 – DA LUUA, houve quem andasse semanas a comer bananas, e outros, comendo arroz e ração para gato ou cão, ou mabanga da Samba aonde espetaram um Sputnik. Ele, o Kafundanga Zungueiro, diz até que a guerra do tundamunjila não foi assim aquela coisa hedionda... O senhor fardado com o pijama às riscas, ex-Coronel do “M”, ouve esta descrição abanando a  cabeça ora para os lados ora assim-assim para cima e para baixo! Será que se lembra das diabruras que fez lá no vírus do “Vitória ou Morte”…

mocanda32.jpg Só que ouvíamos relatos, de gente que era morta de maneira bárbara, dizia-se que a FNLA matava com certos requintes, praticava antropofagia e edecéteras. Afinal eram só frascos roubados pelo “M” no Instituto de investigação para incriminar os zairocas fenelas. Não era mesmo para meter medo! Nem um vampiro iria gostar desta coisa macabra, comer corações sem sal, nem pimenta, nem jindungo onoto!... Luanda estava empestada de guerrilheiros, uns bem fardados e sabendo distinguir uma G3 de uma Kalashe e sabendo aonde ficava o gatilho mas, outros nem sabiam o que eram as estrias do artefacto… Tudo aquilo e agora, caramba, outras viroses…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:45
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Sábado, 27 de Junho de 2020
CAZUMBI . LVIII

CINZAS NO M´PUTO - ”A CHUVA BATE NA PELE DO LEOPARDO, MAS NÃO TIRA AS SUAS MANCHAS, NEM VICIOS”. Andamos com o credo na boca, motivo do COVID 19 que à revelia, faz tempo, trilha nossa vontade19.06.2020 no FB

Crónica 3032 - 27.06.2020 no Kimbo Lagoa - Cazumbi é feitiço ou mau-olhado em Kimbundu

Por

soba16.jpg T´Chingange – No Sul do M´Puto; Al-Garbe

burundanga1.jpg Flor da Borundanga - Tem kazumbi

Ando a esquecer o passado - Será que tomei essa coisa de borundanga - Uma droga  extraída da Datura Stramonium, uma planta ornamental de flores brancas em forma de sino, vulgarmente conhecida como trombeta ou trombeteira, bastante comum na Espanha e na América Latina. Lá iremos porque tenho uma coisa destas no meu quintal..Óh folha do diabo...

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O Mundo necessita de nós para respirar e por isso as autoridades de saúde pública fazem a lei de forma rápida na mira do boteco das bifanas abrir quanto antes, pois que a economia tem de correr, também porque o socialismo é muito bom a lidar com o dinheiro dos outros – o nosso! Recordar agora o exercício de minha mãe Arminda equilibrando o orçamento do lar, fazendo comícios às galinhas na capoeira coberta a zinco lá na Rua José Maria Antunes numero vinte e dois na Maianga da Luua.

araujo63.jpg Um prédio com arcos construído no rigor da salubridade colonial, na casa dos fundos a dar para o pátio da cantora Sara Chaves, quase mesmo no início do Catambor. Lugar que nem sabíamos que não era nosso porque eramos brancos de pele e colonos de condição. O tempo tratou de nos dar a seguridade dos hipócritas filósofos que falam com as latitudes e algoritmos dos rumos de cada qual como fossem os senhores do outro, que tu não és daqui, vai para a tua terra fazer semeaduras e tratar da casa do senhor teu feitor…

Dona Arminda, sozinha falando com rispidez com as poedeiras pedreses num canto do fundo do quintal, logo a seguir ao tanque de selha e depois da mandioqueira que só dava sombra: - Ou vocês põem ovos ou corto-vos o pescoço - vão prá panela fazer de cabidela! E, elas punham ovos grandes! A vizinhança só queria os ovos da dona Arminda porque pareciam mamões da Luua. Sim! Isto decorria numa rua do bairro Maianga com cheiro a acácias rubras e zumbido permanente de cigarras, um calor de trópico.

eleutero4.jpg O dinheiro que Dona Arminda fazia, dava decerto para comprar um peixe-espada à quitandeira que sempre parava naquele número de rua e, aonde apregoava do seu jeito jeitoso, chamamento do peixié sinhola – tá fresquinho, compra só! A vida assim gerida de toma lá dá cá compara-se aos governantes do M´Puto que não também não fazem milagres sem ovos; Eles, vindouros daqueles outros descolonizadores, andam cansados…

Inventando regras a definir como e por onde andar por forma a agradar à velha carência dos recursos nacionais, incentivam o pessoal a ir ao café, ao teatro, aqui e ali e até à praia notando-se que estimulam da forma que julgam mais certa para e, como as galinhas começarem a chocar ovos, fazer omeletes, pataniscas e trespassá-las em dinheiro porque senão ficamos à rasca. Ainda se tivéssemos uma colónia, se tivéssemos colonos, se e, mais se…

AMADEU3.jpg Um esforço para desentorpecer a apatia amarelada dos rostos encafifados num desespero entorpecido dos galináceos - eu, tu, ele, nós, vós, eles – todos! A realidade que ninguém conhecia é bem complexa ao ponto de tornar rapidamente os cabelos brancos por tantos ansiolíticos tomados por quem tem esse cariz de ambição – de ser governante; com tanto nada e tão pouco incerto, muito fica por explicar na inactiva justiça, na improvisação da educação…

Muito fica por explicar prever e acudir incêndios das matas, repensar num interior desvalido e o crescer de palpites tendo o improviso como sorte dum instinto. Tudo isto com comentadores cambutas, longos e oblongos a zurzir à perna inflacionando sortes e azares como se tivessem o futuro na ponta dos dedos ou o tivessem comido por inteiro com arrotos de carapau frito bebido com morganheira tinto ou verde Casal Garcia…

onça1.jpg Foi neste então que recordei aquele mítico provérbio africano ”a chuva bate na pele do leopardo, mas não lhe tira as suas manchas” aonde para além da onça, do leopardo e da chita existem a hiena e o mabeco que também as têm. Bom! Agora que sou zebra noto ocorrer-me o mesmo fenómeno em manter as riscas mas agora, mesmo que chova ou faça sol, acontece um outro pormenor – também me embranqueceram no decorrer do tempo…

As riscas irregulares das verdadeiras zebras são para fazer com que o leão fique tonto ao persegui-las perdendo a noção e desequilíbrio. O facto de todas correrem em simultâneo causa o efeito psicadélico e, o que era, fica turvo com tantas riscas a se moverem. Às tantas as ordens variam conforme o desequilíbrio pois! Fique em casa ou, saia e vá às compras, movam-se mas, há um mas: não desconfiem átoa. A natureza ensina muito a quem se detém a observar os mistérios tão perfeitos dela…

zumbi00.jpg É por estas e outras que uma grande parte das pessoas com quem vou tendo contacto, sentir-me desiludido! Posso até perguntar ao mundo e para quem me lê, que interesse poderá ter no dizer de lindas ou ortodoxas de alguém com falas tão cheias de façanhas agigantadas, quase-quase de soberba superioridade. Para quê? Fica tudo assim como uma nítida imagem de uns tantos petulantes que não perdem a oportunidade de afectar as minhas sensibilidades, os meus cheiros, as minhas impressões como se fosse um desmilinguido…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:05
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Domingo, 21 de Junho de 2020
KWANGIADES . XXXIII

UMA T´XIPALA ANTIGA  . Parte da minha lenda – 19.06.2020

O sol tem ondas de ferroadas quentes que machucam na ida da vinda de nossos dias  - Crónica 3031

Por

tonito15.jpgT´Chingange – Nos Al-Garbes do M´Puto

T´XIPALA: - Fotografia, cara, rosto, personalidade, carácter 

maian7.jpg Fugindo de criaturas maléficas invulneráveis aos sentimentos alheios, registei os meus afastamentos em vídeos e, entre dezenas de cassetes e, de-quando-em-vez, revejo os bafos de boa sorte nos ousados e longínquos sítios de África sobretudo aqueles aonde surge a alma de um evento, alguém ou alguma coisa transparecendo essência vital, uma longa fila de órixes caminhando sem destino no topo de uma alta duna do Namibe, Sossusvlei ou Naukluft, uma verdade de beleza como transparência espiritual.

Figuras rarefeitas, diluídas na essência dum ar que tremeluza no calor da miragem, também do que se pode ver em uma folha de Outono ou na textura de uma velha casca de árvore com um lagarto pré-histórico camuflado. São formas escorregadias da realidade guardadas em meus armários que preenchem o quase-tudo do grande nada de minhas vivências.

sussuvlei1.jpgAo observá-las com verdadeira atenção, transformam-se em centenas de momentos sagrados, só meus. E, sempre na busca de uma vida interessante, aventureira, apaixonada e diferente, rumei a África procurando-me entre anharas, savanas e desertos de longas e altas dunas, lugares do cu-de-judas ou terras do fim-do-mundo sem os banais pormenores das urbes, grandes metrópoles com gente empoleirada até ao céu; África de exotismo quanto baste com coisas e animais incomuns.

Lugares de sermos confundidos como caçadores de elefantes por tanto pó salobro das tortuosas picadas, expostas ao sol impiedoso; ao calor abrasador dos dias e dos frios cacimbos húmidos a envolver noites com manto de espesso escuro; bem perto uma hiena parece chorar ao redor de uma carcaça fedorenta, carniça de vida sobrevivente.

naukluft1.jpg Lugares aonde a adrenalina delira em pavor loucos, inundados e imundos de situações fatídicas, substituindo o ar dos pneus por capim cortante. A coragem indomável de conhecer a África profunda, surgia-me naturalmente desde que ainda moço me tornei kandengue ao devorar um cacho de bananas oferecido por meu tio “Nosso Senhor” vindo do M´Puto, ao som dos apitos dos vapores “Mouzinho e Uige” da Companhia Nacional de Navegação.

Com meu pai colono de papel passado e creditado na tal CNN e, assim, crescido na idade, não foi necessário beber kat´chipemba com pólvora, uma mistela incendiária que deixa as entranhas em chamas para enfrentar os matos com coragem. Nestas voluntárias tarefas de aventura com aflição, os vómitos de radicais experiências foram surgindo entre bichos cambulando cacimbos com marufo de kassoneira, ofertas de N´zambi e gente com vestes de loando, amuletos reluzentes, tilintando seus toucados e penduricalhos nos artelhos; de muitos, por demais, zingarelhos.

IMG_20170727_132146.jpg Então, falando com meus botões nas frinchas dos tempos, neste mundo confuso, serei sempre um genérico cidadão ou um sem-terra por não me poder definir como genuíno nessa escolha; assumidamente, não pertenço a lugar nenhum. A minha terra biológica deixou-me ao deus-dará e, até meus sonhos penalizam o recordar dos tempos em que a vida se expressava com fluida vivacidade. Daí ter renascido como Niassalês do bojo de um vapor que o tempo também enferrujou – NIASSA…

Fazendo dela e no agora, uma miragem chamada de N´Gola, na noite passada entrei numa sonhada toca grande mais parecendo uma galeria de mina abandonada e, vendo sair dum buraco lateral uma nuvem de pó para ali me dirigi e, foi de lança em riste que piquei de morte um lobo zombando de mim. Deu um uivo esquisito e por ali ficou prolongado no próprio sangue. Nesse instante, apercebendo-me de algo estranho atrás de mim, virando-me, deparei comigo mesmo, uma imagem nítida de quando rapazola, usava calças com um cinto de fivela enorme. Imaginem só, um chefe de quinas da Mocidade do M´Puto…

luis15.jpg Assim como uma foto amarelecida no tempo, estava pontilhado de minúsculas cagadelas de mosca de sexo indefinido. O penteado com o risco ao meio parecia ter brilhantina de óleo de cedro, daquele que faz brilhar as madeiras dos imóveis mas, eu não era nenhuma escultura de pinho nem de pedra e nem vi caruncho ou salalé enfarinhando vestimentas ao seu redor. Não é normal lembrar-me dos sonhos mas este ficou grudado na testa ou no templo da alma, esse olho do além que paira nas cúpulas das catedrais.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:15
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Sexta-feira, 27 de Março de 2020
KWANGIADES . XXXII

MOKANDA DO ZECA  - As falas do baú de Zeca – 27.03.2020

FALAS BONITAS AI.U.É…. Crónica 3008

Por

zeca1.jpg José Santos - O Senhor do Koilo - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco da Maianga. Tornou-se ali professor katedrático e agora lecciona no M´Puto quando não fica com o catolotolo… Kwangiades: - são as musas, kiandas ou kalungas do Kwanza

kimbo 0.jpg As escolhas de T´Chingange ... No Nordeste brasileiro - (TONITO era seu nome de candengue da Luua)

Só mesmo nós no catravês do ximbico da Luua…

lua1.jpeg Tu mereces TOTEM..., teres todos na tua volta...! Pessoa Igual sabido neste minha vida de Lellu de bué de salalé..., num conheço pessoa de igualmente igual..., dos teu predicados, que cheira a katinga de África, que a deixa ficar, diz é Amuleto.., de T'Chingange! Tu és espécie de chão de poeira em extinção pelo avanço do alcatrão do Mundele de expropriação de exploração..., dos mano dos licenciado.

Alembamento kiavuluvulu cumbu!!! Tu és pessoa do fantástico..., que N' Zambi na tua koka bem Sabe o que as tuas fala, fala mesmo, que são as fala de ÁFRICA, que bué acredito que também te protege, que quando tem O Cambotermo te quer fazer mal, Ele bota Grito de protecção..., num precisa não, desse tocos dos musculus de elevação nos ramos do Imbondeiro...! Sim, te protege, desde esses tempo dos Pés Descalço, que avilo Kandengue coleccionava na sombra da Mulemba, santinhos e beijava crucifico de verdade...!!! Uaué!

lua7.jpg Tambula conta! Ele ficava do mais O Mufulame yê!!! Amam'ééé! O que tu divulgas nas tua malamba no teu jeito único de Rio Grande de nado de teu MUXIMA e igual ao meu..., que bué mazé é abraço.., .e, é laço de capim do nosso kuuaba Rio Seco N´denge Yetu, do território sagrado do Poço da Mayanga do Rey..., e de Vata de beija mão.., do kapiango do N`zimbu... úi.

Para comprar lancha de bordão para ir nas Kilumba..., do afamado bairro da kazukuta do Rio Seco..., da Praia do Bispo, Samba, Mussulu, Xicala, Ilha da Cazanga..., também dos cheiro dos mamilo da kianda dos baixinho de celha morninha (Baía)..., de bué pirão, torresmo de Jacaré do Panguila, também dos tuqueia mais do t´chissipa..., de Mopane dos Herero, de estufado do peixinho dos mais saboroso de África, os Cacussu..., uau!

arau162.jpg Do Mu Ukulu de lagoa de manos que de único matumbo jeito, os acariciava..,. tratava os mona espelho..., para não os perder, antes nos deixar no bandozinho crescer em liberdade de água do mais saudável, a água do Bengo de então..., nos dizer dos nome cientifico dos Mundele biológico do kalunga..., o tratar no saudável.., pópilas mano!

Num ter nunca o extinção pelo tuji do aspirador..., de não ser levado para as celha de cimento dos moderno criação atoa de jimbolo com os fermento, os glúten, os sacarose, pastilha nos bué rápido crescer engordar barrinha de escamas fraquinhas, barbatanas-guiador, e barbatanas leme..., Ai.iu.é, mesmo…

luua10.jpg Ser feliz fazer os seus filhos na sua kubata de folhas de chá Príncipe do fundão que vai buscar no parar a respiração e trazer na kapanga da barbatana peitoral... PARA TI, QUE MUITO TE ADMIRO E QUE MAIS VIDA EM DIANTE O N´ZAMBI NO SEU OLHADO DO KOIILO TÃO BEM TE PROTEGE!  ZECA2020030123H50 NA MINHA KUBATA

GLOSSÁRIO:

Luua - Luanda (diminutivo em gíria) Mocanda - carta;  Mu Ukulu - Do antigamente; Atu/mutu - pessoas/a; Axiluanda - antigos pescadores de Loanda; Berridavam - fugiam; Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kapiango – roubo; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol (nascente); N´dandu – parente; N´dongu - canoa; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Trumunu - jogo de bola de trapos; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama - maravilhoso Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores… Totem - monumento; Lellu – de cigano; katinga- suor, transpiração; Mundele, T´Chindele – branco; tuji – merda, excremento; Alembamento – casamento; kiavuluvulu – muito, por demais; ávilo – amigo;  Kandengue – jovem, rapaz, pivete; Uaué!- Admiração; Tambula – atenção, ficar atento; Mufulame yê!!! Amam'ééé! – coisas do catolotolo; kuuaba – adorável; capiango - roubo; N`zimbu – Buzio, dinheiro; Vata – chefe, grande m´fumo; Kilunda – lugar; Kazucuta: Trambiqueiro, aldrabão, mentiroso, faz manigância; kianda – Sereia; jimbolo – bolo com farinha de mandioca; Kubata – casa de taipa; Kapanga –protecção; Koilo - Céu



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:33
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Sábado, 8 de Fevereiro de 2020
PARACUCA . XXXIV

MULOLAS DE TEMPOS DORMIDOSNão é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar! KIRK DOUGLAS, MORREU08.02.2020

Por

soba0.jpeg T´ChingangeNo Nordeste brasileiro

john0.jpg Entre o entender e o poder do crer lá tive que pagar o condomínio com taxa extra pensando nesta atrasada escrita sobre a morte aos 103 anos do meu amigo Kirk Douglas. Foi no dia seis deste mês de Fevereiro que recebi a notícia directamente dos USA, assim sentado e, sentado fiquei tacitunando-me nas minhas antigas alegrias; alegrias alargadas nos folgados dias de crescimento mazombo da Luua, a capital de Angola.

Relembro o cine Colonial no tempo em que nós nas bancadas também eramos artistas, utentes e autores dumas muita odisseias de participação ao vivo e no escuro; beatas voando como foguetes de alegria por coisa alguma e nenhuma. Um assistente despertava o Kirk duma tocaia de surdina feita emboscada num: - Olha na tua trás, meu! E, num repentemente Douglas virava-se na tela grande e, uma flexa era enfiada bem no coração do bandido, o mau da fita que logo morria, ou fingia! Filme é filme…

john2.jpgAcho que foi no filme “O arco e a flexa” mas, até que pouco importa porque as cowboiadas eram por demais concorridas e, isto era tão usual que sempre saia bagunça de está calado meu grunho e mais de filho da mãe para cima. Eu bem que lhe avisei, dizia o artista espectador exaltado do feito, saltando e estrebuchando em saltos contentes. Um espectáculo de ver! Só mesmo no Colonial Cine de São Paulo de Assunção da Luua.

Claro que estas cenas sucediam com as cowboiadas de John Wayne ou Jack Palance. Cowboiadas de cinco estrelas com o som de pum-pum dos tiros da Rifle Winchester que deram depois lugar às cowboiadas spaghetti do tipo italiano, com Giuliano Gemma aonde os tiros já soavam de txi-pum, txi-pum assim, com eco estriado para além do cano e fazendo nossos mambos de muita demasiada banga ninita e fécula.

john7.jpg Coisas de candengues, de afoitez que se vadiam em fantasiados momentos, muito fartos em invencionices; criacionices só verdadeiras na raiz das falsas almas. E, porque as pessoas não ficam sempre iguais, vão-se no tempo determinando com as mentiras ensinadas e aprendidas na vida como verdades. E, a melhor forma de o dizer é usando nossos termos polifónicos e de só átoa, diacríticos, palavrões que nem sabíamos existirem nas nossas falas.

Ui! - O que a vida me ensinou dá para o gosto, o desgosto e até o contragosto mas o Kirk, sempre foi colocado ao redor dos meus kitucus (mitérios). Enfim! Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir… Nós, com nossos ídolos, limpávamos os ventos que não tinham ordem para respirar e os demais, nós desrodeávamos fazendo esquindiva…

john8.jpg Se não acreditam nestas divagacionices, pulem outro filme! Porque, foram as "20.000 Léguas Submarinas", Spartacus e Ulices entre muitos outros. Posso também recordar o Gregory Peck dos canhões de Navarone, o John Wayne em duelo ao pôr-do-sol e mais edecéteras; Clinton Eastwood, um ator, cineasta produtor  famoso pelos seus papéis de duro em filmes de ação com rifle de repetição. Nossa cultura nesse então era mesmo só do cinema, da praia e farras de quintal; nos intervalos escorregávamos nas ladeiras de asfalto da Luua com nossos carros formula um de rolamentos …

Um dia tal como eles, velhos ídolos, nossas veias farão seus preparos finais. Mas não será por isto que nos aninharemos numa tristeza triste; tristeza de uma raça de homem que o Kirk mais não verá, porque deixou de ser um exorcista do circo, um trapezista. Assim num dia esbarrancaremos nos limbos esfiapados dum vento nesse arrumo de veias, ora quente, ora frio, ora se desfrizando no ar duma exaltação de vida que despairece.

john6.jpg Pois! Que despairece inchada de amor; é assim: -Um dia mesmo que nascido com sol, teremos de conhecer o significado sem requerer desse futuro por conhecer. E, todos ficam assim permanecidos de duvidando de como será até que chegue o tal de seria… Todos seremos legítimos coitados em um tal dia de pororoca (encontro de vagas, rio e mar…) com ou sem arrepio…

fotografo1.jpg A vida é um negócio muito perigoso! E agora, nem me falem de bancos! Porquê? Ora bem - O banco é uma instituição, um negócio que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro! - Pois por tudo isto ando demasiado desconsolado, sabe! Disse eu pra continuar falas comigo mesmo, só pra esquecer o Kirk, meu antigo heroi…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:15
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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2020
KALUNGA . VI

MOKANDAS XINGUILADAS

- A DOENÇA DA DEMOCRACIA E A ECONOMIA DA CORRUPÇÃO – 03.02.2020

- Xinguilar: Palavra angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais de Nkisi/Mukisi.

Por

soba24.jpg T´Chingange – Desde o Nordeste brasileiro

n´tundo2.jpg Undenge ami mu moamba – já passou! Agora que todos falam, que todos partilham despilfarros dos milhões alheios, gostaria de ter uma conversa com meu amigo General Emérito FK, retirado das manobras de engenharia financeira, nas trocas e baldrocas mais os desvia na forma de roubo capiangado na sua cada vez mais longínqua N´Gola. Falo claro, da já muito badalada Isabel dos Santos a filha do presidente “Edu da ínclita geração”, segundo na linha do tempo e primeiro na forma de roubos qualificados.

Isabel dos Santos a mulher mais rica de África, assim se tornou por mágica de expontânea vontade e a partir do nada. Agora muito cobiçada, dizem e desdizem como se tudo fosse um equívoco de devaneio mas, descrito por ilustres personalidades do M´Puto e não só, como uma odisseia levada a cabo por uma respeitável e inteligente senhora engenheira.

Falas impregnadas de numa pegajosa e conspurcada subalternidade e, com vistas demasiado largas para não se vislumbrar as muitas irregularidades. Tudo muito natural nas habituais práticas de governação em África mas que em Angola tomou foros de um poder nunca visto, imaginado ou mesmo adivinhado. Anseio a presença deste meu amigo General Emérito Fala Kalado pelo facto de também ele ser perito nestas pisadas agrestes…

n´tundo1.jpg Falcatruas iniciadas em candengue num estágio único de saltar hortas para roubar gajajas, sape-sape, maças da índia e goiabas; roubo de formação, um estágio primário em que também participei, diga-se… Em idos tempos de colónia de quando o kumbú era tão por demasiado caro que sempre dizíamos de kitare malé. Isso!

Nesses idos tempos em que nem nunca falávamos em milhões; esse mesmo em que havia brancos e negros trabalhadores morando de vizinhos, carpinteiros, serventes, comerciantes ou funcionários raspando a vida do mesmo jeito: trabalhando! Tempos em que os jornalistas escreviam nos jornais. Jornais que eram até de muita importância, de valia quase vital porque nesse então.

Naquele nosso velho tempo os jornais tinham três funções: leitura, limpeza do fiofó ou para embrulhar nas mercearias o feijão, milho, fuba ou qualquer outro tipo de cereal; tempos em que nem se pensava numa tal de AZAE, reguladora de quase tudo no M´Puto. Eram tempos de banga de um estilo muito próprio. Um tempo em que Deus comia escondido atrás de um nem sei quê, e o diabo saia por tudo quanto era canto lambendo pratos.

namib3.jpg Tempo em que as palavras picavam em mim uma grande gastura mas que só o tempo deu justa noção nesse pensar desconjuntado. Tempo ainda de antes de surgir o transístor e andar na praia com o rádio colado na orelha pra fazer furor entre os amigos “pitos calçudos” da Luua; bangar mesmo… Assim botando tudo numa caixinha de sapatos junto com fotos, bilhetinhos de amores e mambos que o tempo desexistiu porque, sim, porquê!?

Ora! Porque era novo e o inferno já era velho só que não sabia mesmo, nem mesmo lhe podia adivinhar. Oh! Ngana Nzambi! Numa de lama, kapiango pés de patranha, engenhosa máquina infernal, Mwangolè edificam-se em poleiros de nossos antigos celeiros. Ué-ué! Agora muito provido de ideias, de noções de ruindades ate entrelaçadas nos restolhos, de conceitos assim, escapulo-me entre espaços, nos chinguiços do tempo que nunca chegaram a madrugar.

nauk11.jpg Porquê? Ora porquê, porquê! Porque a vida é muito perigosa. Ximbicando n´dongo feito canoa nos cânticos de bela kianda feita kapota assento-me naquele lugar que consolava naquele então o meu kituku de dilulu; minha kalunga. Assim, eu esbanjado na noção do tempo e muito farto, cheio de “excessos de ideias” que assim ficou desse jeito: Num tempo em que tudo desaconteceu! Esse filho da mãe, esse mesmo de General FK só está assim de calado miudinho com seus matrindindes saídas da Welwitschia Mirabilis.

nauk01.jpg Terei de ir a Garanhuns de Pernambuco e sentir de perto esse novo segredo que me trás encafifado… Na Welwitschia Mirabilis, que ele chama de N´Tundo com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos. E, aqui está o busílis, há uns pequenos escaravelhos que são atraídos do nada até elas; escaravelhos do género de matrindindes, que levou o FK a os explorar e retirar deles, algo precioso! Vou ter de descobrir – malembelembe…  

:::::

GLOSSÁRIO

Mwangolé – Que manda em Angola, os donos do pedaço; Banga: estilo;  Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kumbú: dinheiro; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Kapiango – roubo; Kapota. Galinha de Angola; Kianda - sereia; Kituku - mistério; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, Undenge ami mu moamba - minha infância de muamba.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:40
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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020
A CHUVA E O BOM TEMPO . CIV

TEMPO DE CINZASMEDITAÇÕES DO T´CHING 01.02.2020

No último dia do BREXIT… Se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

angola colonial.jpg Afinal, a libertação por entrega de Angola no onze de Novembro de 1975, serviu a quem? Se serviu ao povo como seria lógico, nada do que acontece hoje nos levaria a depreender que passados que são 44 anos e picos, o que mudou na vida da maioria, não dá para se notar na qualidade de vida; Mas, então porquê? Porque a independência, serviu e continua a servir um sem fim de cidadãos que se firmaram como elite - uma gangue que com sua duvidosa integridade, gerem a Nação.

Eles são oficiais generais, juízes, gestores de entidades públicas mais afins e governantes em geral que se auto elegeram (sem o aval do povo). Se existe uma nomenclatura de gente dita capaz, deveria agora e no ano de 2020 ser visível o estado da Nação Independente com as condições requeridas, de sempre se estar melhor do que no tempo em que era colónia, certo! No ensino, na agricultura, na economia em geral, na  vialidade e na forma de governação.

angola na moda1.png É lícito perguntar agora: - Afinal para além de mudarem o visual na capital com atropelos ao património, diga-se, o que é que mais fizeram de Cabida ao Cunene na forma de melhoria no dia-a-dia das pessoas? A reposta é um quase-nada se levarmos em consideração o grande potencial da riqueza soberana de Angola. Agora há gente incompetente que simplesmente baralha as normas de decência; o Mundo está estupefacto e, os que nada dizem é por incesto de interesses com compadrio aberrantemente nojento – caso do M´Puto com gente que se diz ou pretende ser ilustre; até admirada. Não é de espantar agora que a antiga metropoke, o M´Puto, seja a terceira foça corrupta da Europa...

ANGOLA7.jpg E, se foi para formarem uma elite de gangues no sentido de explorar as riquezas à revelia dos interesses do povo não se justificaria na prática a mudança de mãos pelo simples motivo de a grande maioria não se rever nisto! Ficou-se livre da canga colonial mas, e agora… Agora e antes podemos verificar uma usurpação sistemática às riquezas que deveriam ser quinhão de todos.

E, o povo não se pode rever nisto, no descaso e procedimentos que a todos mancham e, também porque o Mundo diz e muito bem: Eles não são capazes - os cabos de guerra ficaram oficiais, os auxiliares viraram directores, os advogados venderam ao desbarato sua já fraca reputação, os políticos floresceram na mediocridade. E, os que nada dizem, pensam!

araujo42.jpg As sequelas económicas foram proporcionando uma muito periclitante senão ultrajante qualidade de vida para o angolano – com mágoa o digo! Posto isto, o povo deve debelar-se por forma a substituir de raiz todo esse mal que o MPLA de forma premeditada, e sofismadamente ardilosa e sistemática numa orgânica ultra mafiosa, fez crer ser o Deus da salvação; ou nós ou o fim, como se não houvesse alternativa mais credível no panorama nacional. Um puro engano!

Rosa Coutinho e Melo Antunes entre muitos outros, agentes do comando intitulado de “descolonização” não mais fizeram do que a entrega de um manancial de riqueza a uns quantos filhos da mãe postos a propósito à frente dum governo previamente escolhido. Quem? O MPLA! A descolonização, posta assim e na prática sequente foi uma farsa pura feita falácia trabalhada a contento pela corja de políticos portugueses, provocando uma guerra e proporcionando um despropositado saque com sequelas ainda por apurar.

ANGOLA10.jpg As chaves de Angola foram entregues a quem não estava preparado para ser porteiro quanto mais tutor. Todos, sem excepção fomos enganados de forma vil ou torpe. Posto isto faz-se destas falas, um documento apócrifo mas sentido, para consciencializar quem com direito e com a requerida capacidade, derrube o governo na terceira geração de ilegalidade na pessoa de JL. Deste simples modo “declaro” a rebeldia total a fim de ultimar esta tirana postura de governação.

E, que seja reconhecido como “Libertador” do hacker (nome giro) Rui Pinto, indevidamente preso no M´Puto – Chega de mordaças! João Lourenço, o presidente da burlesca trupe em terceira geração, até se poderá regenerar se, se anuir a esta mudança com um mas, sem nunca poder chegar a “Santo”.

chaves0.jpg Nisto de uma Angola-de Faz-de-Konta, convêm relembrar aos mwangolés ressalvarem de culpas tinhosas os que de forma inesperada tiveram de sair do território como se fossem os maiores tiranos naquele ano de 1975. Nenhum suposto “chicote” de capataz branco, feriu tanto Angola como o que estes algozes do mando fizeram e, ainda fazem. É tempo de se aclararem mentiras e palavrórios mal usados ao longo destes 44 anos depois das metralhas cantarem a ”vitória ou morte” no largo Diogo Cam. Nunca falei tão certo como agora (tarde piaste…)…

Do Soba T´Chingange         



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2020
MUXOXO . LVIII

KIBOM. IV - Quem viaja, necessita de mala ...NOÉ!?

- Divagações do T'Ching - 28.01.2020

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

an2.jpeg Ao viajar, é importante ter uma mala para carregar a bagagem; convém que seja boa porque os tombos são mais que muitos. Fiquei a saber que a mala mais cara deste nosso mundo vale quatro milhões de dólares! É a chamada mala de “Diamantes das 1.001 Noites”... NOÉ, desconhece...

Tem o formato de um coração e vem cravejada com 105 diamantes amarelos, 56 diamantes cor-de-rosa e 4.356 diamantes transparentes. Todo metal dessa bolsa é feito de ouro puro de 18 quilates. Para sua confecção foram necessários 10 artesãos, dedicando quatro meses de trabalho exclusivo,NOÉ!?

arau44.jpg O resultado final é uma bela obra de arte que, até agora, ninguém ousou comprar. Pelo que sei nem Isabel dos Santos a comprou; Nem Manuel Vicente! Creio que nem sabiam mas, às tantas aqueles diamantes saíram de N'Gola, NOÉ!?

A minha é o contrário dessa; mesmo demasiada mixuruca para ser mencionada neste entretém feito estória. É daquelas compradas em saldo, com rodinhas gastas de tantos embarques e desembarques, riscada nos topos e lastimosa no aspecto.

eseves2.jpg Distingo-a porque tem uns quantos laçarotes da Bahia amarrados em seu fecho; desses com variadas cores que se põem no pulso para dar sorte nas ousadias de orixás e oxalás e talvez o xiritung da xirgósia mais o xogum... NOÉ!?

Na alça tem mais uma fita verde fosforescente de escandalosa para que a possa reconhecer na esteira do aeroporto. Para mim, o que realmente importa é o que vai dentro da mala; os queijos disfarçados de prendas e prendas na forma de figos ou chouriços, coisas inofensivas, NOÉ!?

papalagui11.jpg Na vida verdadeira da gente também é assim. Não importa parecer um cidadão valioso se o seu interior é vazio e sem aquela coisa que nos identificam nos valores morais ou mesmo tudo ali ser oco - isto é quase uma metáfora NOÉ!?

Preencha por isso sua vida de boas coisas como se sempre viajasse! Que tal uma lista exclusiva de itens imprescindíveis para sua viagem? NOÉ dirá: Prepara-te pois para tua viagem pro Céu, isso, pró espaço! É isso, NOÉ!?

ong5.jpeg Se for o caso, junte à Bíblia de viagem um bom livro para os demais entretantos. Leve todas as informações do roteiro a fim de ser mais feliz em seus caminhos. Siga os conselhos da gente experiente, todos não serão demais! A sabedoria dos mais velhos, normalmente mostram detalhes de como ir pelos melhores caminhos. Mas, lembre-se que existe um NOÉ...

Tenha presente que na vida, ou você puxa os outros para cima, ou os outros puxarão você para baixo. Fique esperto e siga sempre este princípio porque nem sempre o interesse dos outros batem certo na bota com a perdigota... NOÉ!?

step6.jpg Creio que com um azar do caraças, foi isto que sucedeu com Rui Pinto, o herói actual do pedaço e no M'Puto aonde os larápios são também mais que muitos, com nomes de Santos e Espíritos. Este Rui puxou a brasa à sua sardinha pedindo uns kumbús e, viu-se com um cardume de tubarões...NOÉ!?

Esqueça-se daquilo que Deus já esqueceu dando cobertura aos Espíritos e aos Santos... mas, sorria mais porque um qualquer dia a coisa acontece! Já aconteceu! Seus, nossos dentes, não existem somente para mastigar couve-flor. Temos de os ranger se vez em quando, NOÉ!?

rui1.jpg Com uma mala cheia dessas coisas, valores, ela pode não ser a mais cara, mas, sem dúvida, será a mala mais valiosa ou justa do mundo... JUSTIÇA... Cá para mim este Rui Pinto tem sim, de ser condecorado! Isto termina em 13 para lhe dar sorte, NOÉ!?

T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:31
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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