Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
A CHUVA E O BOM TEMPO . CI

EXCESSO DE OPINIÃOParte UM - 23.06.2019

- As leis da natureza dizem que independentemente do estatuto parental, todos nascem pelo mesmo local: -Nus e ateus…

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

cacu6.jpg  Entretido com a rega de minhas verduras espalhadas por aí a eito e sem jeito, salsa com jindungo e hortelã mais hortenses e boldo ao lado do doutorzinho, venho aos solavancos entre o tempo dado ou esquecido das nove tomas de rega, escrever algo entre o muito que desejo escrever antes que as ditas pensadas nuvens se esfumem num aquecimento ou puro esquecimento; Meus pensamentos por via de não o serem caligrafados ou psicografados de forma instantânea como o café mocambo, provocam atraso a tantas e, tantas estórias que me dá dó não o serem, contadas, xinguiladas! Nestas alturas queria mesmo ser um ET, carregar num botão só pensado e, logo num repentinamente, ver afluir como uma flor as notícias do T´Ching…

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Umas inventações criam mofo no baú do meu sótão, outras surgem e logo desaparecem como obra do chifrudo com quem nem simpatizo que as leva para as catacumbas. O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos num Um Ukulu esquecido por muitos e, a propósito, para não ficarem aturdidos. Sim! Ficarem com ataques de asma e ou até caspa. Porque Charulla se afastou para parte incerta defuntando-se com seus dois elles, levando com ele sua sabedoria para a terra, tal como as sementes de orégão que por aí andei espalhando a eito. Venho assim e, a bem das gentes, muito sem peneiras e de uma forma aleatória botar falas, feitas faladuras, como um banal linguajar

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A opinião e o esclarecimento são principios da maior importância para uma qualquer sociedade que se preze ao desenvolvimento. Claro que todos deveríamos ter a capacidade de opinar com conhecimento e fundamentação mas, a realidade que nos é dada observar é bem diferente; em umas, a bota não bate com a perdigota mas, outras são falsas ou demasiado facilistas para um plausível entendimento – recomendo cuidados…

saramargo3.jpg Isto leva-nos a fazer uma triagem sem contudo eliminarmos as subtilezas de cada interesse porque as facilidades imperam e outos vendem a alma ao tal diabo chifrudo para contento de sua malvadez ou e também para originar desvios ao pensamento alheio. Como manobras de diversão, andam muitos mentirosos ao nosso redor vendendo gato por lebre, criticando átoa e, outros se lhe seguem transmitindo ignorância. O partilhamento, está hoje disponível a um simples clicar e, até faz lembra as comadres da época quase medieval dum recanto interior, lugar aonde Judas perdeu as botas.

maximilano0.jpg Comadres que com sua boca de trapo faziam de mulheres sérias umas putas de baixo coturno, baixo calibre ou desclassificadas. Isto poderá verificar-se nos dias de hoje pela boca de gente que deveria ser estadista mas, que com seus propósitos nos fazem inevitavelmente numa coisa nenhuma. Nenhures que nunca aceitarei porque não me quero mentir, simplesmente e assim tão só e sozinho sem recorrer a sofismas políticos, merdosos de cheirar mal às orelhas, irritar os entrefolhos do cerebelo e olear de mau cheiro nossos pelos. Cabelos e até pintelhos… É que nestas alturas apetece-me dizer asneiras fedorentas para que toquem no ponto nevrálgico da alma.

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É mesmo uma bosta; hoje as pessoas lêem cada vez menos, escrevem cadavez (cada vez) pior e sabem cadavez menos daquilo que é importante. Apesar disso têm mais opinião sobre tudo e são especialistas nas críticas com visão de ponta, afiadíssima. As redes sociais são o espelho mais fiel disso mesmo e o palco ideal onde os ignorantes, tudo criticam, quase nem sabendo escrever. Outros, baseados nestas falas, opinam construindo uma mentira porque nem sabem que a água ferve a 100 graus Celcius. Pópilas! Fervem-nos a mioleira a troco de vaidades, tropelias, enganos, engodos açucarados de mel ou simples matumbice…

arau154.jpg As redes sociais são assim e inevitavelmente uma caldeirada de coisas más havendo no meio destas, umas muito poucas a assegurarem alguma coerência, sem essa desmedida venda de ilusões, invejas, negatividade entre outras arbitrárias. Desqualidades na mistura de sexo com religião e, como se essas suas fotografias do reviralho tipo conde de Ficalho, sempre fossem as mais credíveis – ora bolas: ir para a cama futricar até ver o São Arcanjo e depois dizer, este foi o melhor momento da minha vida; no outo dia é do mesmo e por esse desamor, assim descartam a alma em detrimento da felicidade. Cumcamano!

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Assim, numa troca de galhardetes e ou fantasias numa oportunidade de um agora, brilham sua ignorância sem saber que o Maximiliano Austríaco de nascença foi também o imperador do México e que por lá morreu encostado a um muro, fuzilado a bem da nação! Se um dia eu o T´Ching… vier a se presidente da NIASSALAND, não se admirem; já esteve mais longe! Isso! Maximiliano de Habsburgo-Lorena foi o único monarca do Segundo Império Mexicano. Ele era o irmão mais novo do imperador Francisco I da Áustria. O mesmo a quem e, em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que já há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia dos Tugas.

maximilano1.jpg Com uma poderosa imaginação, José Saramago coloca nas nossas mãos essa fricção - obra excepcional que é “A Viagem do Elefante”. Ele, Saramago fez-nos olhar a humanidade neste campo tão vasto de ironia com sarcasmo, marcas da lucidez implacável dele, combinando com a compaixão o desamor com que o autor observa as fraquezas dos homens. Sabe-se que ele também tinha um diabinho feito peluche dentro dele. Estou-me perdendo no fio enleado da meada mas, convém dizer-se a jeitos de saber mais que, aquele mesmo território aonde Maximiliano foi Imperador, foi vendido à América – vulgo USA. Creio que por um tal de Antonio López de Santa Anna, o Rosa Coutinho lá do sítio sem Tapurbana nem rio Zaire de permeio nem ter passeado numa jaula como um macaco.

saramargo0.png A Compra da Louisiana, concluída em 1803, foi negociada por Robert Livingston, durante a presidência de Thomas Jefferson, o território foi adquirido da França por US $ 15.000.000. Uma pequena parte deste território foi cedida ao Reino Unido em 1818 em troca da Bacia do Rio Vermelho. Mais desta área foi cedida à Espanha em 1819 com a compra da Florida, mas depois foi readquirida pela anexação do Texas e a Cessão Mexicana. Para terminar haverá a tecer duas importantes considerações a levar em conta: Fé e política, não se impõe nem se prescrevem porque mesmo recomendadas, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de as possuir representará a verdade. É isto a democracia!... FUI!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:00
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019
KILUNDU . VI
kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga em ALHAMBRA, assiste ao pacto de Mano-Kilombelombe com Januário. Eu já era Mano-Corvo - Uma fusão de homem com pássaro - Eu, Costa Araújo e o pássaro do tipo Kwetzal (México)...
NA LAGOA DO M´PUTO - 08.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Na estepe Alentejana

ÁFRICA7.jpg Com a sensação de começar a penetrar na minha intranquila dependência da kianda, quase que me dou conta que meu pacto de sangue com o velho de mais de talvez 394 anos, começa a borbulhar-me no cocuruto da meninge. Os seguranças de serviço levaram-nos direitinhos à única entrada exterior do Palácio Nazarie.

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Tratados como mustáfas por via da indumentária de Januário Pieter e seu guardião - lanceiro, um espanto de nos fazer sentir os maiores privilegiados. O Cipaio Kukia  Edu Mandinga muito vaidoso, banga ultra moderna fardanda de zuarte amarelo, balalaica com muitos bolsos e uma catrefada de zingarelhos pendurados à mistura com pequenos chifres de porco do mato.

angola colonial.jpg Coisas trazidas dos confins; lá duma terra chamada Mapunda e uma outra com nome de Chibia com nome de espantar pássaros xirikuatas. Cipaio Mandinga, direitinho que nem um fuso,  tudo olhava com vontade de saber. Muxuxou que era muita areia prá sua camioneta e que, teria de comer um chipe extra de memória e sistema integrado para fosforescer mais rápido na sabedoria.

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A partir daqui rodávamos a cabeça em todos os sentidos observando toda a beleza daquele conjunto palaciano com quartéis, estábulos, mesquitas, escolas, banhos, cemitérios e jardins. O escambau de coisas desanoitecidas já esquecidas ou penduradas por detrás das portas junto às muitas ferraduras de muares e outros bicharocos espinhosos ou cascarrudos.

araujo 25.jpg O Palácio dos Nazaries, é em verdade um conjunto de residências principescas sem fachada, sem alinhamento de salas, com passeios e jardins interiores de grande frescura. Pode adivinhar-se as forças ingrávidas de arcos com paredes furadas de renda; portas, janelas e arcadas por onde a luz penetra na medida certa e, aonde parece não haver gravidade. Qualquer matumbo, ali, fica espevitado da cabeça, numa de jihadar cosigo próprio...

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Foi no Pátio dos Leões, a sala privada do Sultão em que eu T´Chingange e Pieter selamos o nosso mais verdadeiro pacto de sangue. Esse cipaio Kukia Edu da Chibia que anda por aqui, até pode nem se lembrar mas assistiu direitinho com sua lança, feito Massai da Corongosa - um jardim que havia lá perto de sua casa cubata no Lubango. Uma mistura cafusa na cabeça dele que faz pena. Nunca no Lubango ouve caserna de bichos desses e, com esse nome!?

araujo 28.jpg Por medo, as pessoas passavam de largo como se nós também fossemos daqueles muitos idos anos e muito cheios de caruncho. Tínhamos em frente um belo claustro formado por muitas colunas, o lugar mais Pambu N´gila de todos os lugares aonde estivemos antes. Este sítio, era em verdade um sem número de flocos dourados caídos do Duilo.

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E, foi ali que ambos picamos o centro da palma da mão esquerda de onde saiu uma bolha de sangue. Eu T´Chingange cuspi na mão esquerda de Pieter dissolvendo-se no sangue e ele fez o mesmo na minha mão esquerda; com a mão direita, ambos acariciamos as cabeças dos leões e, eu primeiro e depois Pieter, desferimos com a direita em cutelo na mão esquerda do outro um enérgico movimento fazendo chispar sangue e cuspo no ar.
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Teve de ser ali porque o leão que pela boca deita água simboliza o Sol da qual brota a a vida. Os doze leões, são os doze Sois do Zodiaco, os doze meses que na eternidade existem em simultâneo. Eles, os leões sostêem a Kalunga como os doze torres de ferro no templo de Salomão. É este o depósito das águas celestes dessa Kalunga.

araujo17.jpg Este simbolismo único, venera a água como a pura vida e, foi ali que também, ambos choramos lágrimas de prata polindo o chão do Califa para ficarmos Manos-Kilombelombe. O Cipaio vaidoso sempre em guarda, sorria de vez em vez, inadequado para ser uma testemunha com carisma de Xi-Colono de terceira geração. Em realidade ele era mesmo um genuíno africano, embora branco, mas era! Sem nós t´Xinderes, a África fica incompleta! 

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Januário Pieter falou de que quando ficasse um antigamente, de mais tarde, eu, um mais kota, me iria recordar deste selo de Mano-Kilombelombe enquanto ele, lá na ilha da ensandeira do Kwanza, recordaria os espíritos dos M´fumos Kia-Samba e Manhanga como um minkinsi.
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Pieter recordava as minhas próprias brincadeiras com os candengues no mar da Samba, os pactos de amizade feitos a cuspo e bisgo da mulemba nos subúrbios da Lua. A Kianda Pieter sabia tudo! Sukuama!
- Deixa só, “ N´Zambi a tu bane n´guzu mu kukaiela”, Deus dá-nos força para seguir, disse eu batendo dedos no ar enxotando maus olhados.

 araujo155.jpg  Ilustrações do Mano Corvo Costa Araújo, nosso mestre (falecido recentemente...)

Glossaário:
Edu: De Eduardo Torres - Um amigo kota, poeta, prosador, branco de segunda com bitacaias nas orelhas , apátrida e vaidoso quanto baste... um amigo para sempre...
Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto Duilo: - Céu (em um amiente de espíritualidade)
kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral
Mano-Kilombelombe: - Mano-Corvo, Uma fusão de homem com pássaro do tipo Kwetzal ( México)
M´fumos : - Chefes
Kukia: - Sol, pô do sol
Samba: - Lugar ente a Quissala e Futungo (Belas da Luanda de antigamente)
Manhanga: - Bairro da Maianga, lugar de cacimba, nome antigo já esquecido.
Amazulu: - Dialeto Zulu
Minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado
Sukuama!: - Caramba!; poça!; Cus diabos; Porra!
Bisgo: - Resina de mulemba usado para apanhar pássaros,da mulembeira (árvore de grande porte que dá uns figos pequenos)
Lua – Diminutivo de Luanda
(Continua ...)an
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:23
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
MU UKULU – XX

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.04.2019 
MUXIMA DA MAIANGA . FEROMONAS DA VIDA
- Saber do passado para melhor se entender o futuro... 
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil 

zeca00.jpg Jose Santos - No M´Puto... 

luua32.jpg Não estava destinado hoje falar de FEROMONAS DA MAIANGA mas, e porque recebi uma Mokanda escrita na forma daqueles idos tempos, não resisto transpô-la para aqui porque isto era, foi o nosso Mu Ukulu da Luua. Na forma de introdução direi que mais de 99 por cento das espécies de animais, entre estes nós humanos, plantas, fungos e micróbios dependem exclusivamente ou quase, de uma série de substâncias químicas chamadas de FEROMONAS, para comunicar com membros da mesma espécie. 
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Assim agradecendo falei: Meu kamba-maior de coração invulgar num nome comum de Jose Santos, tuas amêndoas são sempre gostosas... Pena que andas sempre nos Kissama estudando os carrapatos do salalé e vires aqui mais vezes saudar teu mano! Catravês ficas na desculpa porque és meu ávilo de candengue do tempo tão antigo que nem a Joana Maluca recorda mais lá no seu cúbito do céu... Ver-te-ei com muita brilhantina na TiMatilde...
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A mokanda começa assim e no respectivamente, continua:
TONITO (soeu)......No meu mukifo, aproveito desta tua uuaba Moamba....te mando minhas amêndoas de múkua...para tu bué chupar...como nos mu ukulu dos candengue...porque os kumbu, malé dos amêndoas dos pula....Tambula conta! Xé! É meu agrado pra teu Dia de Páscoa com Ibib, teus monas teus ávilos keridos...

negritas.jpg  Teu mano ZECA nos Kissama, nos estudo pra os creme da pakassa para os salalé dos longevidade dos kota....mazé cheio dos comichão que os tuje faz bué...e borta kubata.....
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TONITO...UUABA PESSOA!!!. Tu num fica zangado com soeu porcauso do meu paragem dos escrito comentário, gosto e dos kandandu? Agora me dá n´guzu te pescar o teu peixinho os MISOSO os cacusso e botar na minha lagoa!!! 
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Te confesso....mazé cadavez os meu inama, os mãos....os n´guzo nos escrito os misoso dos face mazé é desigual do igual dos antigamente malé mesmo, porcauso os vapor nos inicio do Kurikutela butava fumaça bué! Aiué deixou de passar na cidade alta do nosso bairro da Mayanga, os território sagrado dos nossa uuabuama n´denge! 

caricocos.jpg  Então, duns tempo para cá....te digo que todos tão nos mesa dos concertação....dos sindicato nos tactoatacto, matacocommatako matacusentado! Ué! Te digo os lápis, os caneta e também os tinta qué nos tinteiro dos porcelana da Anchieta, colégio moderno, colégio João das Regras, katé os pequeno barril acabou....! Agora todos botaram essa confusão e ameaçam ir no palácio mostrar os indignação..!
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Os tuje querem mais cumbu e diz que tão sem os proveito dos fazer face nos custo dos vida. Assim, diz que nos bolso os cumbu baza logologo acabou katé num dá pra beber copinho do abafado no Rato, Morais, Hernãni da minina Alice ou no Reinaldo...!!! Malé, mesmo...

FRANCES2.jpg Cigarros francês

Então me diz..., tu licenciado katedrático do Rio Seco, Rua dos José Maria Antunes, que ainda continua a ser, se os despesa kiavuluvulu aguenta sem os produção num aumenta kiavulu....Tu sabes, o meu edição, já não tem os subsidio de produção do antigamente...! Tambula conta! Katé escapei katé os camenemene bué de vezes os dias meses anos, fazer o uafo..., porcauso os rolamento dos mutue os esferinha começou a sair, como diz os pula especializado na oficina do Baleizão do ávilo Taric..., diz que diz, ficou gripado!!! Tó lixado...
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Então, me diz só, como os quê ah vou voltar!, Ah! Há os budget assimassim e não podem na Rebita do Deve/Haver ter os massemba nas inana das barona dos bife dos profit...? Então assim num dá para aguentar os despesa .....porque os lucro baixou....porque Lello, os ávilo agora nos moda dos época vem pra fora fumar átoa os negrita, caricoco e deixa as beata pirisca no chão..., 
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Falta só mesmo átoa pra ir no kinaxixi buscar os mercearia; batatadoce, peixe seco, óleo palma, quiabos, jindungu, sal do Cacuaco, azeitonas da Leba.... Agora tu tens os meu parabéns....tu tens o teu n´guzu de torresmo de lagartinha Mopane....,e todos dias botas cada misoso bué comprido....! 

zeca01.jpeg Zeca com Mano T´Chingange  - TiMatilde

Amam´iéé! Tu como consegues ter tanto n´guzu...., os vontade de encher na Kizomba os teu misoso os escrito mais os foto bonitinha....?! Então tu "esqueleto pessoa, menos barriga de ginguba" és igual soeu!!!! Me diz só; tu fumas macanha, bebes maluve, marufu, botas gemadas de avestruz com os aguardente Pitu velho Chico 1935? 
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Temos de combinar de novo ir no Pica no Chão da Libata de granito de Póvoa de Lanhoso...., com os nosso kerido ávilos do Rio Seco...Então, faz tempo, e num quero chorar mais dos pensamento dos cagaço..., meu olhos tão seco....
BOA PÁSCOA ABRIL 2019
Kandandu Zeca 20190421
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Eu, logologo, respondi respeitosamente ligeiro de reco-reco de saudade: Tu - José Santos de um paludismo especial da Jihenda kaluanda - N´zimbos de fabricar missangas como sótumesmo sabes fabricar... que sótu sabes fazer. Te formaste na Universidade do Rio Seco da Luua. Meu mano de matar matrindindis zarolhos quando sóeramos matumbos do primeiro circulo...Aiué...

zeca5.jpgZeca fazendo banga

Vou-te falar nos finalmente: Se a cultura é uma invenção, ou uma construção de actos históricos, nós gente do Rio Seco, feito mulola, katedráticos de muitas estrelas, podemos afirmar que nossas falas, têm de ser colocadas no mausoléu sputnik do nosso Mar da Samba. Isso! Na gaveta mitologia antropológica, porque nós merecemos generalato! - Muito mais que as matubas do mais-velho de Catete. Juro! Vou te botar na estória do MU UKULU como o maior missangueiro do reino da Matamba... 
Igual a tu, só TU... um T´CHIKUKUVANDA ...

GLOSSÁRIO:

Mokanda - Carta...Kamba- amigo...Kissama- parque ou reserva animal...Salalé- formiga térmita...Catravês- então; por conseguinte...ávilo-amigo...Candengue moço, rapaz, pivete...Cúbito- lugar...Mukifo-quarto, recanto, lugar íntimo...Uuaba - assombrosa, espectacular... Moamba- condimentos, comida...Múkua- fruto do imbondeiro... kumbu-dinheiro... Malé - nenhum, nada..Xé- admiração...kandandu- saudação, abraços... N´Guzu-força, potência... Pacassa- búfalo, boi...Pula- português, do M´Puto...Baza- vai embora, foge, afasta-se...Tambula- toma atenção, anota, repara...Konta- atençaõ, ficar de olho...Missosso - conto curto, pequena estória, crónica...n´denge- carinho...espaço mítico...Mazé- expressão de talvez com admiração e dúvida... Cacussu- peixe do rio...Kurikutela- comboio fumaça a apitar, lançar fagulha...Mataco, Rabo, cú, bunda...Ué- exprssão de admiração, é possível?...Tuge-meda, excremento de pessoa...Kiavuluvulu-aumentando, crescendo,subindo...Camenemene- abandonados, relegados...Mutue - de motor com biela e segmentos...Massemba - jeito, trejeito forma de tocar... Inama, perna...Barona- mulher de destaque, m´boa...

kisan1.jpg Mopane-lagarta...Átoa- de qualqueR modo...Macanha- maconha, liamba, fumo forte, canábis...Marufu-vinho de palmeira...Libata-casa...reco-reco- raspando, instrumento de fazer barulho...Kaluanda- de Luanda...N´Zimbo-concha, bivalve sem bicho...Jihenda- saga, luta, forma de acção...Matrindindi- tipo de gafanhoto...Matumbo-burro, no sentido de inculto, tapado...Sputnik - monumento do Agostinho presidente dos mwngolês, gracioso quanto ao desplante ...Missangueiro- que trabalha com missangas...Matamba- Reino antigo de N´Dongo....T´chikukuvanda- lagarto de cores várias
Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:15
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Sábado, 20 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXV

N`ZINGA E O FALA KALADO 
de Várias Partes – 20.04.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)

massau5.jpg Ele, Fala Kalado, quis sabe de mim, do porquê de eu ter saído da Caála de forma quase abrupta. Reporta-se aos últimos dias do mês de Julho do ano de 1975. Tive de lhe explicar que tendo eu nesse então levado minha sogra a Luanda a fim de seguir para Lisboa com seu filho Honório Mestre, por pouco, não éramos fuzilados. Como assim!? Exclamou FC. Pois foi! Fomos em um autocarro da EVA - Empresa de Viação de Angola e no lugar de Muquitixe, a terra dos abacaxis, um controle de estrada mandou-nos parar. 
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Era um desses aleatórios controles que surgiram por toda a Angola e, normalmente feito por militares ou ex-guerrilheiros do movimento que era influente em essa zona. Não vou aqui dar todos os pormenores porque tu, sabes bem o que isso foi, o que isso era! Aquele, tratava-se de uma barragem montado por pseudo soldados impreparados para tal função; era um afecto ao MPLA mas, até podia ser da UNITA ou FNLA - todos se comportavam de uma forma despropositada. Era o poder a chegar impreparado e, a quem nunca o poderia vir a ter .

guerri4.jpg Estes controles eram já feitos à revelia de qualquer fiscalização por parte das autoridades portuguesas. Por vezes pediam os crachás do movimento a que pertenciam e isto era bem perigoso! Mesmo que o tivessem ninguém o mostrava por medo de reacções adversas assim fosse de quem ia connosco, ou deles. Um imbróglio de todo o tamanho e da qual nenhum de nós poderia ultrapassar por si só! Não existia legislação para isto, nem bom censo. 
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Era um "seja o que Deus quiser"! Era perigoso insinuar-se e, ou dar indicações de camarada, de irmão ou mostrar qualquer trejeito de desconformidade. Um cigarro por vezes, era uma boa oferta e, porque todos fumavam, assim se abria uma porta de boa vontade. Parece pouco mas, um cigarro poderia valer uma vida!

gurra10.jpg Foi assim que interpretei na altura porque aqueles militares de faz-de-conta estavam cheios de droga; via-se isso nos olhos, no cheiro, nas atitudes e, qualquer fagulha poderia fazer fogo. Com o autocarro estacionado na berma, mandaram descer todos os passageiros e que ficassem ali encostados na parede de uma casa recentemente incendiada. Iam fazer uma revista minuciosa às nossas bagagens!
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Felizmente que ia ali um Furriel Negro, fardado ao jeito de um qualquer tropa de então em exercício no exército, talvez saído da Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA) aonde também eu tinha andado e, este apresentou-se como sendo do MPLA, mostrou seu crachá-cartão do movimento ou algo semelhante o que resultou em reunião. 

papalagui11.jpg Fosse como fossem as falas deles resultaram em deixar-nos ir via Luanda sem revistar nada. Num toca a subir de mim para comigo e todos num aijesus, Deus nos acuda - Foi um Milagre! Mas, a partir dali, foi um choque de arrasar: Casas e carros queimados ou desventrados, tudo parecendo abandonado sem gente a mexer-se; nenhum lugar para se comer o que quer que fosse. 
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A cidade do Dondo parecia abandonada - um holocausto! Seguiu-se-lhe todas as outras terreolas com idêntico aspecto,: Zenza do Itombe, Maria Teresa, Cassoalála, Cassoneca, Calomboloca, Catete, Viana e arredores de Luanda. Ver isto, foi o princípio do fim! Dali para a frente podíamos adivinhar: iríamos ficar sem médicos, enfermeiros, veterinários, gasolina para o carro, e técnicos nas várias áreas. 

modas4.jpg Sem escolas a funcionar, sem géneros para subsistir, tudo era muito arriscado e, havendo outra saída plausível seria o mais indicado - ponderar pela segurança! E havia: O Quadro Geral de Adidos para funcionários. Foi quando o pensamento como ao sabor do ar quente, rumou para nuvens menos escuras - Largar tudo e ir para o M´Puto, a metrópole, Lisboa, aonde quer que fosse, mesmo que começando tudo de novo e como órfãos da terra.
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Por muito que amasse Angola, este amor não seria nunca comparável ao da família, mulher e dois filhos. Como eu, estavam bem mais de meio-milhão. Um cunhado mais ligado às instâncias politicas do M´Puto pois que era natural da mesma região, o Ribatejo com os oficiais de Abril, tais como Otelo saraiva de Carvalho entre outros: Metalúrgicos de pensamento de esquerda, organizados por Karl Marx ou Lenine via PCP. Avisado, o Branco de nome e tez, disse-me que saísse de Angola enquanto era tempo. Só que eu queria ficar! Mas, ele estava com a razão... 
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIV

O LIVRO ESCOLHIDO - 18.04.2019 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo... estávamos em meados do ano de 1975 - Cada qual fazia o que lhe dava na veneta desde que tivesse uma Kalash à mão... 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

guerra01.jpg Já no epilogo dum sonho chamado Angola, o ronco profundo e cavernoso do Niassa fez-se ouvir, minutos antes da meia-noite. Ao bater da meia-noite, o céu da Luua iluminava-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola. Mais a Norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, as armas pesadas faziam sangue que tingiam o rio que pensávamos ser de todos, mas não era. 
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Aquele ditado de se dizer "quem beber água do Bengo, tarde ou nunca dali saí - Angola" - uma inverdade somada com cânticos de "Angola, é nossa" e tantas outras ilusoriamente fabricadas. Mas isto foram coisas que paulatinamente foram sucedendo desde o "vinticinco" (de Abril de 74) de engano em engano por via dum livro que insurgiu um novo "Portugal e o futuro" escrito por um senhor vaidoso e tinhoso que ascendeu Nas chamas mais vermelhas que não eram as nossas.

guerri7.jpg Nos meses que antecederam o Novembro da Luua, o sol inclemente, humidade a oitenta por cento, o corpo encharcado, a camisa que se torcia e escorria suor feito água, o cheiro a catinga, a cansaço, a medo, o perigo que espreitava a cada passo, a cada instante, traziam uma pessoa em alerta permanente. 
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O medo era medido por musseque, depois por casas, depois por bairro, por rua, por bairro, por atitudes irracionais, nos prédios nas cidades do Norte do Centro e depois do Sul. Ligar o rádio era ouvir um chorrilho de raivas acumuladas, frustradas, provocando uma torrente de violência. 

guerra19.jpg Assim como um acidente de viação sem estória se resolvia aos tiros, uma simples discussão sobre futebol podia destruir um bar. Parece que já ninguém media consequências, que a moralidade era uma mandioca. O Mundo ia caindo aos poucos à nossa volta.
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Luanda estava escaldante, e a cabeça quente gerava inconsequências, insegurança generalizada, sintomas de uma sociedade à beira da loucura colectiva. O MFA, o COPLAD - Comando Operacional de Luanda, os militares oficiais Tugas, os pioneiros do Poder Popular, o MPLA, a FNLA, a UNITA e os misteriosos traidores, viciavam nossa adrenalina envenenando-nos vontades. 

guerra1.jpg Havia inconfessáveis esquemas; havia também muitos estudantes portugueses contagiados pelo espírito revolucionário, branquelas, burgueses encarando com desprezo seus patrícios. Como uma fruta de época, apodreciam as relações entre brancos e pretos, uns idiotas úteis à revolta. 
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Ainda andam muitos destes, por aqui e por ali, justificando-se por vezes com falas gastas, transviadas em subtilezas, falando com sufisma; não tendo mesmo a coragem de se explicitarem...  Se tu sabes e eu sei, cala-te tu, que eu me calarei! Trancas e ferrolhos na porta, sempre salvaguardam as aparências, provocando ainda a desordem nas cabeças de muitos outros. 

guerra22.jpg Do desespero palpável que se abatia inexoravelmente sobre Luanda, pegajoso, sujo, desorientado, também ela assim ficava numa tensão sempre crescente. Por aqueles dias, o aeroporto era um dos locais mais concorridos da Luua. O outro, era o porto da cidade - toda a gente queria sair dali para fora. 
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Durante décadas, o regime de partido único, o MPLA mantém-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje, depois de um golpe de estado e de uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Malheiro Savimbi. Os desmandos continuaram, continuam e continuarão até um dia, roubando quanto podem. Isto é actual - todos o sabem! Mas, um dia, tudo mudará!...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:17
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Terça-feira, 16 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXIV

N`ZINGA E O FALA KALADO  – 5ª de Várias Partes – 16.04.2019
Por

soba15.jpgT´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
Depois de falarmos do calor, da brisa e tempestades, um pouco por todo o lado, Fala Kalado iniciou suas confrontações: - Estás gordo, meu! Gordo e velho - já somos dois, deixa para lá! Interessante tu ainda te recordares de Kalacata!? Já andava ansioso para te rever, depois daquele encontro em São Paulo mas, os motivos ponderosos estavam escaldando. Felizmente já me libertei desta carga. Assim com um chorrilho de perguntas, afirmações e interrogações, ambos fomos sublimando nossa empatia. Curiosamente, achei-o muito sereno, aliás surpreendentemente sereno para um morto.

 

kilo8.jpg Muito de cautela perguntei-lhe: - FK, como consegues conciliar tua vida depois de reviveres de um modo assim tão vivo, tua morte. Recentemente soube que um tal de Luís Neto Kiambata, dirigente do teu defuntado MPLA da LUUA, declarações à imprensa - uma palestra sobre “A Vida e Obra de Nelito Soares”, no âmbito do 27 de Julho de 1975, que assinala a tua morte... Ele fez menção de que não chegaste a ver a independência no dia 11 de Novembro.

missosso9.jpg FK, fez todos os possíveis para não me interromper pelo que continuei: -Até recordaram o 4 de Junho de 1969, por acaso dia do meu aniversário; falaram até em Diogo de Jesus, afectos ao MPLA, de quando desviaram para a República do Congo um avião da DTA, coisa já aqui falada, a predecessora das Linhas Aéreas de Angola (TAAG). 

missosso3.jpg Precisamente na altura e neste dia comemorava os meus anos no Miconge, lugar conhecido por Sanga Planicie. Mas diz qualquer coisa! Com um enorme trejeito de desagrado ao ponto de fazer tremelicar sua orelha esquerda de plástico falou: -Pois! - Esse tal de Nélito morreu mesmo. Vais desculpar-me mas terei de ficar mesmo calado nesta matéria de recordar o que não quero lembrar e, em verdade já nem me lembro porque virei matumbola.

missosso6.jpg OK! Se queres, assim será; para mim és o Coronel Fala Kalado e não se toca mais neste periclitante assunto. É melhor! - Diz ele assim na forma de muxoxo carregado de naftalina misturada com creolina; deu para notar que era mesmo um ponto morto, morrido, defuntado. Bem! Fazia-te em Curitiba, Poconé mas, nunca aqui. Falei assim para quebrar qualquer gelo metido nas frinchas enferrujadas e ainda não sublimado em nós.

missosso4.jpg Em verdade estive naquele lugar do qual te dei um cartão que dizia. Terei de aqui recordar: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais.

missosso7.jpg É certo! É FK que retoma as falas dizendo: Esse é o lugar de contacto que ainda se mantém mas, em realidade os matumbolas kiandas de Hoji-ya-Henda e Monstro Imortal, heróis da guerra do Tundamunjila mais a Rainha N´Zinga estão descansando sua eternidade junto dos seus antepassados, em um quilombo situado perto de Poconé, capital do garimpo.

missosso12.jpg Eles fizeram questão de ali permanecer junto a seus próceres de N´Gola preservados no tempo em um estado quase puro. Ficaram em uma especial Cubata - Jango no quilombo de Urubama. Tudo porque existe ao redor muitos outros com nomes bem curiosos tais como: Aranha/ Cágado/ Campina de Pedra/ Campina - Canto do Agostinho/ Capão Verde/ Céu Azul/ Chafariz .
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E porque são tantos enumero mais alguns para teres ideia de como ficam bem acompanhados: Chumbo/ Coitinho/ Curralinho/ Imbé/ Jejum/ Laranjal/ Minadouro - Monjolo/ Morrinhos/ Morro Cortado/ Pantanalzinho/ Passagem de Carro/ Pedra Viva/ Retiro/ Rodeio/ São Benedito/ São Gonçalo/ Sete Porcos/ Tanque do Padre Pinhal/ Varal. Acho que chega, não!?

missosso11.jpg Para teu sossego e conhecimento, o Brasil tem uma Portaria, incluída no Decreto Presidencial nº 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação e reconhecimento destes quilombolas.  A referida Portaria destaca em seu artigo Art. 2° - Para fins desta Portaria consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnicos raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajectória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com formas de resistência à opressão histórica sofrida. (FCP - Portaria 98/2007) . Como vez, não poderiam ficar em melhor lugar... 
( Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:21
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Domingo, 14 de Abril de 2019
MU UKULU – XIX

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu44.jpg  Li uma tese da análise da Unicamp em Brasil e achei interessante continuar este tema sobre a instalação de uma fábrica de ferro na região da Ilamba, no interior de Angola. Na segunda metade do século XVIII, a partir do ponto de vista das sociedades africanas, as mudanças nas relações de trabalho foram bem impactantes. Acabaram assim, por deslindar haver modos de exploração do trabalho dos Ambundos, para além do da escravidão.
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O estudo das faces normativa e prática dessas transformações impostos desde a conquista, trazem para o centro da narrativa os problemas de se ser subalterno a um processo alheio à sociedade. Os representantes da elite política africana, reivindicavam seu estatuto de vassalos para denunciar abusos que sobre eles cometiam.

Mu Ukulu02.jpeg Outros aspectos das relações coloniais manifestos durante a construção da fundição de Nova Oeiras foram os conflitos em torno de minas e terras mais o controle da fabricação e comercialização de objectos de ferro. Esses recursos naturais e utensílios de ferro, tinham já para os africanos significados distintos do económico. 
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Os ferreiros e fundidores da Ilamba produziam um ferro de alta qualidade em fornos baixos, com seus instrumentos rústicos. Sua trajectória, enquanto grupo de artesãos, foi o fio condutor da pesquisa, pois permitiu compreender as disputas, e conflitos de poder. Costumes e tradições envolvendo tanto as estratégias do domínio colonial português, quanto as formas de resistência a ele. Daí a invenção de novas práticas, com elaboração de discursos articulados subjacentes à sua emancipação. 

Mu Ukulu27.jpg Nota-se que as determinações locais tiveram peso tão ou mais significativo nas decisões tomadas na sede do Império em Lisboa. As ideias surgem ilustradas na principal fortaleza colonial para marcarem esse período. Fortaleza de São Miguel, baluarte de poderio Luso. Como podem deixar agora arrefecer estes relacionamentos que determinaram a nação presente. Como podem agora desclassificar e menosprezar a gesta Lusa que também foi heróica. Aqui se forjaram ideias e ideais que simplesmente não podem ser arredados.
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Os embates entre as personagens do Sertão de Angola - sobas, os filhos, capitães-de-mato, ilamba, imbari, negociantes, pumbeiros, ferreiros e fundidores - todos, guiaram as directrizes governativas em Luanda e enfatizam, talvez sem o saber as complexas redes hierárquicas nas relações de domínio, embora o sendo no auge do negócio negreiro . 

Mu Ukulu43.jpg Por fim, na base de uma leitura das fontes que privilegia o ponto de vista africano, propõe-se uma nova interpretação sobre as narrativas dos fracassos de Nova Oeiras, considerando que os Ambundos elaboraram estratégias bem-sucedidas para manter em seu poder os conhecimentos e os benefícios que a metalurgia lhes conferia.
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Haverá dignidade na menção, porque em pleno século XX o Governo de Lisboa ainda tinha aversão a tudo o que fosse cultura em Angola. O revolucionário empreendimento de Inocêncio de Sousa Coutinho, foi liminarmente abandonado, e intencionalmente esquecido. Em Novembro de 1772, após 8 anos fecundos e únicos na governação de Angola, depois da sua partida para Portugal o que o sucedeu; o Governador António de Lencastre, simplesmente, ignorou toda a sua obra.

Mu Ukulu29.jpg  A fundição de Nova Oeiras, uma homenagem ao primeiro ministro de Portugal Conde de Oeiras depois Marquês de Pombal, acabou por se transformar num local turístico que desperta nostalgia a todos os estudiosos e desejosos de verem aquela terra como sendo de todos que nela nasceram sofrendo também tantas tragédias, abandonos e descaso ao ponto de serem relegados a coisa nenhuma. 

Mu Ukulu45.jpg Esta fundição foi a primeira em África, à frente de quase todos os países europeus. E, ainda existem canhões fundidos naquele tempo para falar verdades de trovão; a pura palavra de se dizer: A verdadeira vontade de fazer progredir Angola. Não basta dizer que a cerca de 150 km do Dondo entramos no reino da Rainha Ginga . Nossa memorias vão mais além dessa sintetica negritude que por ironia, nos querem tatuar na pele para enfatizar...

NOTA FINAL AO JEITO DE COMENTÁRIO

-Sempre vinco o direito da nacionalidade como nascimento ou por obras meritosas feitas e para Angola! Ao invés de proporcionarem este principio, os ditos angolanos "genuínos" que se dizem ser no topo da escala, desmereciam ser angolanos porque açambarcaram para além do poder a economia roubando desmedidamente.

Houvesse gente interveniente aqui que não se limitasse a dizer "esta bem" ou clicar no "gosto" para se apelar ao governo de Angola que: - Eram mais merecedores serem angolanos aqueles colonos que tanto labutaram, do que estes ladrões que açambarcaram por graciosidade de Portugal tamanha responsabilidade.

Quisesse eu ser um sociólogo, pegaria nisto para me tornar doutor por tese. Talvez Fernando Vumby na Diáspora possa pegar nesta matéria e dar-lhe o devido relevo... Ou também o professor Júlio César Ferrolho ou Edgar Neves entre outros .... GENTE DE CRÉDITOS E ACREDITADA...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:10
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Sábado, 13 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIII

De novo, estou com o nº DOIS - livro do Agualusa - A tua pele tem um cheiro estranho - cheira a sonhos... 
No Morro da Barriga... 13.04.2019 
Por 

soba001.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira. 

cazumbi2.jpeg::::224
A cadelinha, um animal mutilado sem as patas traseiras, o tronco preso a uma pequena plataforma com rodas. O meu novo amor, não é fofinha? Euclides, o jornalista benguelense diz que sim! Que se lembra do bicho ao lado de um homem gordo, em Ipanema. Encontrei-a à porta do meu prédio; a bichinha passava o dia inteiro ali, uivando, chorando que fazia dó.
:::::225
A cachorrinha tinha o nome na coleira: Maria Bonita, pode?! A moça do biquíni negro exaltando a brancura, fala: Felizmente achei você! Conversa puxa conversa e vem à baila o medo que que anda solto cheirando as emoções: - O presidente José Inácio continua preso. O Brasil mudou muito nos últimos tempos; o Comando Negro chamou a atenção do Mundo e nas eleições escolheram Bolsonaro! Espero que endireite este país - pois, que ele possa cheirar as emoções ...
:::::226
Muita desgraça junta diz. Barragens a deslizar, corpos por encontrar, chuvas a levar o o lixo pró mar, muito lixo, prédios que caem, corpos que não aparecem: Um cadáver faz muita falta; sem ele não há subsidio, não há renda, não há jurisdição. E, Jararaka desapareceu, sabes!? 

araujo169.jpg :::::227
Alguém disse que o viu a beber suco de acerola na Feira de Gravatá; mas na segunda roda de perguntas, os policias já tinha duvidas se não seria em Caruaru, na festa do Jesus de Nazaré na Nova Jerusalém. Outro foi dizendo que até conversou com ele num acampamento dos Sem Terra, no Espírito Santo; lugares bem distantes um do outro. 
:::::228
Um grupos de seringueiros tem a certeza de que o viu em Xapori, sublevando índios, numa aldeia dessas do Alto Xingu - está virando folclore disse a moça sorrindo num riso tristonho. Euclides sabe o que ela quer dizer: mula-sem-cabeça, caipora. Ela passa os dedos pelos cabelos, pelos olhos e fala em seguida 

araujo160.jpg :::::229
Vigora ainda uma espécie de desleixo socialista, sabes? Hó se sei, diz o benguelense: Como eu conheci Angola em outros tempos, quando NADA era de ninguém - e, portanto ninguém se preocupava com o que quer que fosse, NADA. 
:::::230
A moça, a brasileira, continua intensa e gloriosa, um pouco triste, diga-se mas por vezes sua voz perde o brilho, tem momentos de ausência, há uma espécie de cansaço ou de desengano, na forma de como fala no futuro. Continua a haver muitos feminicidios, muitos assaltos, muita ausência de justiça. 
:::::231
A brasileira debruça-se sobre a mesa pousando a mão na dele. Àquela hora havia mais gente a tomar o café da manhã. Que pensarão os demais clientes. Sabes do que vou ter mais saudades para além da tua companhia - Do grito da cuíca... das batucadas em caixinhas de fósforos.
:::::232
Com uma lágrima nos olhos ela disse assim sem pensar, até: - Lá em cima tem! Você acha? - Claro! Não é o Céu? E, acha que tem tapioca, banana assada com canela e açúcar ? Tem tudo diz ela como para o consolar - Até tem escolas de samba... A voz de Martinho da Vila faz-se ouvir : « Zumbi, Zumbi, Zumbi dos Palmares, Zumbi...Os grandes ideais não morrem jamais».

beldr7.jpg :::::233
Tens razão! A morte é uma bela aventura. Peter Pan! Não era ele que dizia isto? - Acho que sim, devia ser. Ele voava, lembras-te? Eu sempre quis seguir o Peter Pan. O jornalista benguelense fala pela última vez: - Tens razão - Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores
(FIM - para o livro DOIS) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:07
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019
MU UKULU – XVIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente12.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro 

Mu Ukulu48.jpg Serpa pinto e Hermenegildo  na travessia de áfrica

Cabe aqui fazermos uma pequena visita rápida à Fortaleza de S. Miguel para revermos a chamada "Lusíada do Kwanza" em um tempo muito recuado - Massangano. Fazermos a leitura dos azulejos azuis mostrando a história de Angola que foram recuperados em uma data recente. Em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador geral. Era o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal “primeiro-ministro” em Portugal. 
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A cidade de Sumbe, antiga Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho em homenagem a ele mesmo, por ser o Conde de Redondo. Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” começou, de imediato, os seus objectivos com a
ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro, pois que só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes. 

Mu Ukulu47.jpg A nova costa, pretendida por Sousa Coutinho, diz respeito à actual Costa dos Esqueletos e, abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia, perdida porque os portugueses não tiveram meios e gente para tão exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos (1678) de um frade capuchinho chamado Cavazzi e, que viveu em Angola mas, a sua ocupação estava longe de ser considerada a ideal.
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A fixação de colonos direccionou-se para os planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil por via de haver aí um clima mais propicio à sua fixação. Junto à costa tudo foi mais difícil porque as doenças dizimaram os poucos aventureiros que para lá iam. Novo Redondo era por este motivo conhecida por ser o "cemitério dos brancos".

Mu Ukulu46.jpg Sousa Coutinho, foi o único Governador a proibir a guerra do Kwata-Kwata (Agarra-Agarra), mas infelizmente, mal ele virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. Essa guerra, era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus capatazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. Kwata ainda é a palavra que se grita aos cães para agarrarem qualquer coisa.
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Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda, morria-se com escorbuto. As Delegacias de Saúde surgiram muito mais tarde tal como o começo do cultivo de hortas para daí se obterem os produtos alimentícios, verduras e, cereais nos rios relativamente próximos da cidade, o Kwanza e o Bengo. 

Mu Ukulu49.jpg Como complemento, criar estabelecimentos e grandes armazéns de víveres para alimentar a capital, uma ancestral forma de Armazéns do Povo ou grandes superfícies que surgiram após a independência, por via do escoamento de comerciantes maioritariamente brancos expulsos ou recambiados para seus eventuais destinos de origem no ano de 1975...
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E, foi naquele então que se deu início ao desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre em Benguela assim como o cobre, o sal e salitre e, até ouro. Os diamantes surgiram mais tarde originando em exclusivo de exploração a uma empresa majestática com o nome de Diamang...
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Criação das fábricas de cordoaria. Estabelecimento do presídio de Novo Redondo que se tornou no tempo, a capital da província do Cuanza Sul. Criação da manufactura de carnes secas, couros e sabões, macaco e outros. Finalmente, o empreendimento que marcou o seu mandato: a criação da fundição de Nova Oeiras, na confluência do rio Luinha com o rio Lucala, a 5 km a leste de Cassoalala.

mU uKULU42.jpg Fote presidio de Massangano

Chegou a ser extraído ferro, e exportado para a Metrópole, com grande sucesso. Trabalharam nas minas 400 africanos “livres e sem constrangimento” segundo o dizer de Sousa Coutinho. Teve o condão de ter acreditado na potencialidade dos africanos, tendo escrito: «Sempre os negros trabalharam o ferro das minas de Nova Oeiras e dos muitos outros lugares do mesmo reino; e têm tal propensão para aquele trabalho que se sobressaíram como bons ferreiros. 

Mu Ukulu45.jpg Para esta fundição, um embrião de uma futura siderurgia, se continuada, foram para Angola 4 mestres de fundição, oriundos da Biscaia mas saídos do Brasil. Estes,tiveram fins prematuros - um ano depois da chegada! Também foram para ali mestres da Bahia; este, desembarcaram em Benguela, tendo desembarcando mais tarde em Luanda quase mortos, acabaram poucas horas depois com o tal de paludismo. Mas apesar destes infortúnios a fundição prosperou. Quando Sousa Coutinho regressou a Portugal em 1772 a fundição era um sucesso.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:09
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Sábado, 6 de Abril de 2019
MU UKULU – XVII

MU UKULU...Luanda do Antigamente06.04.2019
Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn...
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil
Na Luanda antiga, após o uso das selhas surgiram os tanques de lavar roupa feitos em cimento. Eram da altura suficiente para se poder esfregar anatomicamente na rampa ondulada, a roupa que era molhado quanto baste, na bacia quadrada com água; este era colocado numa parte sombreada do quintal com telheiro ou árvore. Na parte mais baixa tinha um ralo que por meio de um tubo fazia despejar a água para o canteiro do pátio com chá caxinde, bananeiras ou plantas que tolerassem a água saponácea.

monangambé.jpg Na casa dos meus pais na Maianga, Rua Maria José Antunes, bem perto do Rio Seco, uma mulola que só levava água quando chovia, havia um destes tanques situado bem ao lado de um pombal e galinheiro, tendo como abrigo a sombra de uma mandioqueira. Havia uma mangueira que conduzia a água para um canteiro com chá príncipe ou caxinde, uma trepadeira de lufa e um alto mamoeiro.
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A grande maioria da população negra não dispunha de meios para ter o suficiente conforto; as suas cubatas não tinham água corrente no espaço habitacional, sua renda era insuficiente ou mesmo miserável. Os bairros populares começaram a surgir nos subúrbios de Luanda por iniciativas municipais mas, não dava para contemplar a grande afluência de gente do mato para a capital.

Mu Ukulu23.jpg A maioria da população luandense, maioritariamente preta dos musseques e cortiços de brancos nos arrabaldes, podia ser classificada como pobre ou remediada. De realçar que a maioria dos empregados de mesa dos cafés e restaurantes na área central de Luanda eram brancos. Eu cheguei a comprar jornais a ardinas brancos e até a engraxar os sapatos com engraxadores brancos também - em plena Mutamba.
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Houve a preocupação da administração colonial incentivar a miscigenação nestas humildes funções ocupando o branco em actividades de porteiros, contínuos, carteiros, pedreiros, coisas de escalão baixo levando até, a que visitantes de outras nações europeias criticassem tal comportamento. Tal submissão não mereceu minimamente a atenção quando da descolonização.

niassa5.jpg Como grande parte das casas não tinham rede eléctrica encanada da L.A.L., assim, nas mais modestas, o chuveiro quando não estava dentro de casa, era colocado fora dela em um canto do quintal, resguardado dos olhares curiosos pela construção de um cubículo com paredes de tijolo ou mesmo aduelas de barril. Para o banho o ritual era trabalhoso.
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A água era previamente aquecida em uma panela ou lata proveniente de azeite ou tinta que era posta em um fogão ou até uma fogueira montada no quintal com pedaços de gravetos bissapas ou chinguiços, restos de madeiras. Após aquecimento a água era derramada em um balde de chuveiro que depois ea misturada com água à temperatura ambiente.

Mu Ukulu34.jpg O chuveiro constava de um balde de chapa zincada ou mesmo lona apertada que era pendurada em uma trave ou estrutura de metal por meio de corda que corria em uma roldana. O crivo do chuveiro era metálico abrindo ou fechando por intermédio de um fio, uma torneira em latão. Era em tudo idêntica aos utensílios do geómetra Gago Coutinho quando da definição da fronteira angolana.
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A selha era outra opção para o banho, mas com a indispensável ajuda de uma caneca. Era normal em muitas casas de banho o tão familiar rolo de papel higiénico ser substituído por papel de jornal cortado em quadrados e pendurado por um arame afilado bem junto à sanita. Estes teriam de ser bem amassados para poder fazer a função com eficácia.

Mu Ukulu20.jpg Talvez só a partir de 1955 é que começaram a surgir os rolos de papel higiénico nas casas. Até então os jornais tinham a função de leitura e de limpeza. O pequeno comerciante também usava o papel de jornal para fazer embrulhos, acondicionar, feijão, milho, fuba e variados cereais. Que me lembre havia um só balneário público em toda a Luanda por alturas de 1965 a saber um que ficava no largo bem em frente dos Correios - bem perto da antiga "Porta do Mar".
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Para a lavagem de mãos e banhos usava-se os sabonetes lifebuoy e lux em substituição do sabão azul, também conhecido por "sabão macaco". Havia também o Clarim com mais potassa em sua composição. Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn... Tempos do "pinto calçudo", calcinhas ou ainda "pipi - cheio de banga"... Para agrado das "garinas"...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:23
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Quarta-feira, 27 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVIII

MIAÍ DE CIMA . CORURIPE - 27.03.2019 
Lugar aonde os índios Caetês comeram o primeiro bispo do Brasil - SARDINHA! - Também com este nome!? - estava a pedi-las...
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores … Ariano Suassuma...
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira

miai0.jpg :::::174 - O Bispo Sardinha caricaturizado pelos seus, no Vaticano
Estávamos a 24 de Março deste ano de 2019 - um dia calorento, sem brisa, nem cheiro dela! Recordo! Fui em tempos como romeiro a Juazeiro e até se deu um milagre... dele falarei lá mais para a frente. Posso adiantar que havia no meio da clareira uma mulher integralmente nua, de cabelos pretos escorridos pelas costas e até quase à cintura. De cor morena e olhos de uma grandeza impressionante que rodava sua juventude.
:::::175
Assim esbelta girava ao redor do único salão disponível; talvez uma clareira, um simples terreiro. Não pode ser! Havia bananeiras a contornar a natureza. Só poderia ser mesmo um salão de um imenso tamanho, do tamanho do Mundo. No encontro da noite com a manhã, um "bem-te-vi", despertou-me da realidade ou para a realidade. Aquela mistura maluca de seiva de cacto com jenipabo fez-me viajar por muitos e variados lugares como um supremo e eterno jogo de amor, nuvem com donzela parda do Agreste. Pópilas, era mesmo vontade de mijar! Para vocês, desconsigo mentir - acontece!...

miai01.jpg :::::175 
Foi assim que sucedeu com todos os portugueses. Os Caetês comeram o primeiríssimo bispo do Brasil com o nome de Sardinha. Pode existir assimilação mais completa, pode!? Aplicando todos os impensáveis princípios de fraternidade, Sardinha e mais de oitenta marinheiros naufragados nesta costa aonde me encontro, foram comidos depois de esbracejarem auxilio aos índios. Eu nunca li assim deste jeito uma tão tamanha fraternidade. Agora, bem que poderíamos ser, todos uma única raça: -Brasileiros.
:::::176 
Pois! Os Portugueses iniciaram este país, afinal, deixando-se jantar pelos índios. Pela quantidade foi mais que um jantar, um café da manhã com almoço prolongado e ceia lá pela noite adentro. Depois disto fomos nos comendo uns aos outros e, eu acho lindo! Mas, sabe o que aconteceu? Alguns de entre nós descobriram-se negros e desataram a reclamar da cor. De repente cada qual começou desatando seu pavio e rápidamente já eram todos a reclamar casa, bolsa família e o escambau!

guerra22.jpg :::::177 - Pioneiros do MPLA - 1975
Os negros reclamavam de que não os deixavam ser brasileiros: Jacaré por exemplo veste uma camiseta preta com a inscrição "100% Negro". Euclides, o benguelense, pensando nisto,fala missangas com o General Catiavala. Este, vestido com o uniforme camuflado do Exército Angolano, suspira: - O senhor conhece Benguela de antigamente? Eu agora vivo só de lembranças, sabe? Já somos dois! ... os passeios nocturnos à Massangarala, ao Bairro do Benfica, ao luar - Tudo era bonito naquele tempo...
:::::178
Até o Salão Azul dos cubanos e o Lanterna Vermelha, o dancing do Quioche. Sabe aonde havia a melhor quissângua de Benguela? Euclides fala, fala sem obter qualquer muxoxo, qualquer resposta audível e plausível. Um dialogo chato de se fazer. Pois eu por detrás do bairro do caminho de Ferro, quando a gente ia na escola...lembra! Sem resposta, o jornalista ia ficando no pensamento dos tamarindeiros em flor... 

guerri6.jpg :::::179
Morrendo apenas, é que tudo acaba. O carro desliza através da tarde imóvel. Ao jornalista benguelense parece-lhe que estão parados - que é a cidade que desfila diante deles - um filme mudo. O Cristo Redentor de braços abertos continua de costas. Vai se entretendo a ler as placas das lojas e restaurantes: - Mocotô de Caetês,... grão de bico com bacalhau do M´Puto,... Sardinha grelhada à Coruripe.
:::::180
Pensa em outras tardes semelhantes àquelas, no Huambo, no Alto Hama ou em Benguela, assim mesmo de quando o tempo se aquieta no silêncio vastíssimo ou no meio da poeira vermelha da picada, apenas de onde o vento vira a curva, vindo de muito longe; lugar aonde se ouve o desespero dum motor, uma GMC ou Magiros, Scânia ou até uma Ural feia de assustar crianças. O desespero de um camião na picada.

guerri2.jpg :::::181 - Soldados do MPLA - 1975 
Porém, o país que amas, talvez já nem exista mais. Neste item, pode-se-lhe adivinhar os pensamentos na perfeição. - Você não tem saudade dos passarinhos, das flores da nossa terra? Isto da "nossa" é uma forma de dizer mas, lembro-me sim, dos rabos-de-junco, dos bicos-de-lacre, das celestes,, canários viuvinhas ou dos plim-plau cantando nas acácias rubras da minha rua. Às tantas nem sei se o cara fala comigo ou se só pensa.
:::::182
Eram tempos do visgo da mulembeira que a gente punha nas figueiras, umas palhinhas a colar as patas dos bichinhos - os siripipis de Benguela. Um dia, quando voltarmos, se voltarmos algum dia, haverá ainda acácias rubras florindo nos quintais? Ou estará tudo feito um cortiço de gente entaipada àtoa. Recordo ainda a fúria que esperava por alguém numa esquina. Não importa qual a esquina e quem era! Era alguém que na Luua, escuta violento rebentamento, violento estilhaçar de vidros e, logo a seguir a massa convulsa dos jovens pioneiros que gritam ódio.

savi6.jpg:::::183 - Jonas Savimbi - morto
Gente que faz tiros, que leva as balas directamente do produtor ao consumidor. Depois! Depois surge um homem ajoelhado no asfalto. Para aqui! Um adolescente alto e magro, de bermudas, uma camiseta com o rosto de jacaré e o título de seu disco - duma canção que editou "Preto de nascença". O candengue alto e magro, de bermudas descoloridas, sapatos quede, encosta uma pistola à cabeça do gordo e, dispara...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:51
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Segunda-feira, 25 de Março de 2019
MOKANDA DO SOBA . CXLVIII
CARTA ABERTA... De T´Chassanha
Com 4 adendas de T´Chingange (t) - 20.03.2019

t´chassamba1.jpgUrbano T´Chassamba (T) - O verdadeiro comandante das FALA 

t´chingange 0.jpg- T´Chingange (t) na Diáspora  (Miai de Cima de Couripe- Brasil)

-Em ANGOLA o racismo oriundo da burrice (matumbice) é que nos remete ao estado de miséria que vivemos .Você não sabe que para ser Angolano Genuíno é primaz nascer em solo pátrio e não ser, negro, branco,mulato ou cor de rosa.Um negro que nasce na Inglaterra é Angolano? Deve ser Africano!!

:::::t2

Obrigado brigadeiro T´Chassanha, sabe-se o quanto foste um combatente pela democracia. O verdadeiro comandante das FALA. Não desista, não deixe que os outros façam o que o senhor brigadeiro deveria fazer.
:::::t3
Não deixe que os oportunistas tomem o seu lugar. O Sr. é um herói vivo. O grande problema, e deve ser dito, é a incompetência de muitos quadros dirigentes. Cada um quer apenas estar nos lugares elegíveis na lista de deputados.
:::::t4
Deixam para traz os verdadeiros filhos de Angola que deram tudo que tinham para que a Unita fosse o que é hoje. Enquanto a ambição pessoal estiver acima da ambição colectiva, não haverá mudança.

arau45.jpg CARTA DE T´CHASSANHA  Carta Aberta aos militantes da UNITA e aos Angolanos em Geral - Angola não pode esperar mais...

:::::T1
Próximo de completar dois anos de mandato, Sua Excelência o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço parece ainda não ter percebido que a sua campanha eleitoral já acabou há muito tempo. Com o país atolado na pior crise económica de sua história – herança maldita da gestão criminosa do MPLA, (não apenas de Eduardo dos Santos) – esperávamos, que o Presidente da República descesse da tribuna e começasse a governar de facto.
:t´chassamba01.jpg::::T2
Esperávamos também que assumisse o papel principal na construção de consensos com os diversos Partidos representados na Assembleia Nacional e a Sociedade Civil para as reformas tão necessárias ao desenvolvimento de Angola. Por outras palavras, uma Angola para todos os seus filhos independentemente das suas filiações partidárias; independentemente de serem pretos ou brancos.
:::::T3
Se João Manuel Gonçalves Lourenço continuar teimosamente a fazer o papel de “eterno surpreendido” perante as provas incriminatórias da gestão danosa do seu Partido ao longo dos anos, demonstra, aliás como já vai sendo notório, que a estratégia dele, consiste apenas, num acerto de contas, no seio do MPLA, matando logo à partida todas as expectativas que criou, ao nos deixar sonhar por um lapso de tempo, que estávamos perante um presidente de todos os angolanos e que dali para a frente iria exercer uma governação participativa e inclusiva.
:::::T4
Se quem tem o poder para tomar providências continuar insistindo em não fazer nada, que mude o rumo do País de facto e de jure, será muito tarde. A delapidação do património público ocorreu sempre a olhos nus e já não surpreende ninguém. É, pois, confrangedor ouvir Sua Excelência o Sr. Presidente da República, sempre com o ar mais surpreendido do mundo dizer: Isto é repugnante!

t´chassamba2.jpg :::::T5 - Drs Jonas Savimbi e Carlos Morgado

Neste particular, o seu desempenho, Sr. Presidente, não augura nada de auspicioso...Mas, como diria alguém: - aqui não há inocentes! E outros mais, acrescentam: Faz parte do ADN do MPLA!
:::::T6
Nós não acreditamos que todos sejam culpados nem que a corrupção e roubalheira façam parte do ADN de todos os do MPLA. Porém há uma verdade que tem que ser dita com a máxima frontalidade possível: Angola não é o MPLA!
:::::T7
Angola que não pode esperar mais: espera acções concretas por parte da oposição e sociedade civil para mobilizar todos os Angolanos de Cabinda ao Cunene e na Diáspora, no sentido de Angola sair, já e agora, do Eixo do MPLA. Sim! Todos aqueles que nela nasceram! A Pátria não pode continuar refém da agenda de um único Partido ad eternum.

t´chassamba3.jpg:::::T8 - Adalberto da Costa Junior

A Angola que não pode esperar mais: esperou em vão por um pronunciamento acerca de uma eventual ALTERAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO com Despartidarização do Aparelho de Estado, mas infelizmente as notícias não são as melhores, pois não se vê nos referidos discursos destaque significativo para as questões relacionadas especificamente às reformas esperadas e/ou à modernização do estado. São sempre discursos genéricos, que inviabilizam uma análise mais apurada sobre o que realmente se pretende.
:::::T8
O tão propalado programa de estabilização macroeconómica, aprovado no ano passado, além das expectativas que criou, nada de substancial gerou que se reflectisse na vida dos angolanos. Não existe, pelo menos visível, uma estratégia em que o sector privado possa substituir o papel do governo como principal empregador do País, criando assim condições para que economia florescesse ao mesmo tempo que desemprego fosse debelado pouco a pouco.

t´chassamba4.jpg :::::T9 - Jonas Savimbi

Vivemos numa alegada transição em que se apregoa a transparência, mas que em contrapartida continuamos fechados às questões essenciais de interesse do País e continuamos a ter uma Presidência da República que tem uma ascendência notória sobre os outros poderes instituídos. Alguém por esta altura ainda duvida, que a partidarização está a destruir a qualidade e a independência da administração pública?
:::::T10
Mas a Angola que não pode esperar mais: pergunta se será possível resolver este tipo de casos, sem uma oposição e uma sociedade civil fortes? A Angola que não pode esperar mais: exige da oposição uma conduta exemplar na defesa intransigente dos princípios que norteiam um Estado democrático e de Direito sem quaisquer subterfúgios, nem hesitações.
:::::T11
A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA deixe de sistematicamente alegar fraude em todas as eleições e seja suficientemente forte e tome providências para que elas, as eleições sejam organizadas de fio a pavio dentro das normas estabelecidas. Dizer que o bolo está envenenado para comê-lo em seguida não dignifica e demonstra uma falta de seriedade a toda a prova.

t´chassama6.jpg:::::T12

A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA se deixe de desculpas e sem mais delongas, humildemente, mas com firmeza se coloque na dianteira de todos aqueles, Angolanas e Angolanos que pugnam por um País Livre, Democrático e Desenvolvido.

t´chassama5.jpg:::::T13 - Samakuva e José Cat´chiungo

A Angola que não pode esperar mais: pede, suplica, implora a Isaías Samakuva que dê lugar às gerações mais jovens e que não aceite ser o empecilho que inviabilize o projecto de transformar Angola num local aprazível onde todos as angolanas e angolanos se sintam em casa. A continuada intransigência de Isaías Samakuva de não clarificar se pretende ou não manter-se à frente do Partido impede que a UNITA se organize e se transforme no instrumento capaz de conduzir todos os angolanos sem excepção à Liberdade, à Democracia plena e ao Bem Estar Social.
Catumbela, 20 de Março de 2019
Urbano  T´Chassanha


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:17
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Quinta-feira, 21 de Março de 2019
MU UKULU – XVI

MU UKULU...Luanda do Antigamente21.03.2019

Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg  Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Na Luanda antiga, as máquinas de lavar roupas eram desconhecidas e o emprego da selha ou do tanque de lavar eram acessórios indispensáveis a qualquer lar. Os barris de vinho importados de Portugal, eram cortados a determinada altura da base mantendo no mínimo duas a três aduelas de chapa de ferro para manter sua estabilidade, obtendo assim a selha usada com uma tábua solta de lavar, adicional; nesta, eram feitas as ondulações necessárias para nela se esfregar a roupa ensaboada.

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Consoante a sujeira da roupa, operações diversas eram praticadas para lhes dar o acabamento final de roupa bem lavada e cheirosa. O sabão mais usado era o azul ou branco da Congeral que todos conheciam por sabão macaco. Mais tarde surgiu a marca clarim, um sabão com outro potencial de cloro e usado na lavagem de roupa oleosa, fatos-macacos e outra de trabalhos oficinais; Era feita uma barrela ou posta a corar, sendo necessário um coradouro. Este era construído em madeira em um espaço de quintal solarengo, um quadrado do tamanho de quanto bastasse com rede de galinheiro.

Mu Ukulu32.jpg Ali era estendida a roupa a ser corada; o conjunto era suportado por caibros que apoiando no chão dando consistência ao andor de forma horizontal ou inclinada a gosto e em conformidade com a incidência do sol. Par evitar que a roupa secasse alguém da casa deveria regá-la de vez em quando, evitando que a mesma secasse ensaboada. Claro que esta tarefa era por norma feita pela mãe de família, cultura ancestral reservada à mulher que para além disto tinha a tarefa de cuidar dos filhos, assim como fazer comida para todos.

Mu Ukulu35.jpg As mulheres brancas ou de um estrato social mediano, tinham uma lavadeira que fazia este serviço por ela a troco de um salário normalmente baixo; estas, comiam normalmente do rancho da família ou levavam consigo alguma funje ou milho cozido no carolo para se alimentar; por vezes faziam-se acompanhar de um filho de tenra idade que nas costas dormitava conforme o movimento de esfrega-esfrega, da mãe. Por vezes levava mais um ou dois filhos por não ter com quem ficarem lá no musseque.

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Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha. Para que estes charutos durassem, fumavam com o lume para dentro. De quando em vez lançavam uma baforada de cheiro intenso que se impregnava nas roupas  no nariz; creio que isto afugentava os mosquitos que eram muitos lá pelos anos ou até 1950.

Mu Ukulu37.jpg O Município de Luanda, por esta altura tinha várias equipas técnicas a lançar fumo DDT por todos os bairros periféricos e também no centro da cidade; os candengues conheciam o trabalhar dos carros-do-fumo TIFA que surgiam periodicamente. As donas de casa abriam janelas e portas para que este fumo se entranhasse por tudo quanto era canto e refúgio dos pernas-longas que provocavam o paludismo.

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As roupas já secas eram recolhidas e, na varanda ou em um espaço anexo, eram passadas a ferro. Antes do surgimento da corrente eléctrica, eram usados uns ferros fundidos ou forjados para passar lençóis e, toda as outras peças de vestuário. Estes ferros na forma de uma caixa pequena de sapatos terminando em quilha como se um barco fosse; embora pequeno, tinham superiormente uma tampa pivô que permitia a alimentação com carvão vegetal que depois de acesos aqueciam a base bem mais grossa que o resto do corpo.

Mu Ukulu38.jpg Estes artefactos com uso até a metade do século XIX, tinham umas quantas aberturas para manter viva a queima dos tições de carvão e, de vez em quando a engomadeira – lavadeira soprava por aí para avivar as brasas. Sua base era bem lisa. Na tampa existia um pegador tipo asa que servia para transportar e fazer correr o ferro para a frente e para trás no acto de engomar. Havia quem usasse um abanico de mateba para assoprar as brasas em substituição do sopro que por vezes intoxicava as mucosas e os olhos provocando um choro fungoso de como quem tem uma rinite persistentemente chata.

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Nos modelos mais avançados, tipo xis-pê-tê-hó para a época, tinham na parte frontal um tipo de chaminé de boca larga, o suficiente para que ao abanar o mesmo num vaivém balançado no ar, este, entrasse pela frente mantendo as brasas ao rubro e soltasse as cinzas acumuladas. Este objecto pesado requeria do manobrador alguma habilidade no seu manuseia. Era assim usada uma chapa suficientemente arejada para os descansos e entretantos parados do artefacto. A tarefa era bem cansativa.

Mu Ukulu36.jpg Haveria que se ter em atenção não deixar as brasas cair na roupa pois que obviamente as poderiam queimar. Havia necessidade de se calcular a temperatura ideal para passar cada tipo de roupa e, a técnica empregada, era passar rapidamente o dedo indicador pela base do ferro; nesta operação deveria sempre, molhar-se o dedo, na língua – é obvio que sem qualquer cuspo a humedecer o dedo, este se poderia queimar. Por vezes até se sentia o frigir das borbulhas como coisa crocante.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:02
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CAFUFUTILA . CXXVI

ONGWEVA DO TEMPO - KIANDA ROXO20.03.2019 - 22ª Parte
Kiandas e calungas! A mesma Kianda Roxo e sua mana Oxor que nasceu em Harare nas coordenadas de 17° 50' S 31° 03' às margens do lago Chivero… 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

niassa11.jpg Sêlo da Niassalândia 

Seu António, Seu António! Era para mim, só podia! Ouvi o chamado saído bem junto à rede de Futvolei encostado à barraca da Kanoa. Ginasticando minha hidroginástica, levantei os dois braços com o punho fechado e com os polegares saídos para cima como quem diz “gosto” no Facebook – estou aqui. Era meu conhecido Álvaro, um jovem ainda, a caminho de ser coroa, que aqui vem assiduamente à praia da Pajuçara zelar pelo seu físico. 
:::::
Álvaro é filho de um português saído da cidade dos três efes – forte, formosa e fria; trata-se da Guarda nas alturas da Serra da Estrela, Beira Alta. Nesta minha praia, quando não apareço, dizem-me: Anda sumido cara!? Cheguei – digo com o polegar levantado – Tudo bem, beleza! Cheguei chegando -Tudo jóia! Já à sombra do chapéu verde e branco e bem sentado no sítio habitual, sempre no furo mole da areia, fronteira da maré de lua minguante, acompanho a azáfama do pescador de cerco de nome José Santiago.

kimbo 0.jpg José Santiago que para além de jangadeiro também é pescador de maré rasa, surge de bicicleta vermelha pela areia molhada. Esta bike é bem sofisticada pois que tem artefactos pouco convencionais com dois pneus extras aparafusados nas partes dianteira e traseira. Na parte de trás situa-se um bidom de secção quadrangular de cor azul e dentro dele, Seu José retira uma rede de uns 40 metros de comprimento e talvez dois de largo.
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Depois de estabilizar a bike por meio dum suporte feito zingarelho de não enterrar na areia, retira a tal rede que enrolada ao seu jeito fica com os dois paus dos estremos da dita cuja bem montadas em seu ombro, assim feito lombo, tal o tamanho da carga. Espeta um dos paus na beirada, água pelo joelhos e vai andando em circulo mar adento largando o bagulho de rede de nylon. Em cima, tona de água, pode ver-se as missangas feito bóias esparsas e pelo certo, o outro lado mais pesado roçará o chão muito cheio de sargaços.

kianda03.jpg Depois de quase fechar o circulo espeta o segundo pau e começa a barafustar com a água: enquanto salpica o espelho de água vai-se aproximando do centro parecendo enchutar algo. Trata-se de afugentar os peixes para assim ficarem aprisionados na rede. Carrega tudo isto embrulhado e desmancha o monte com mestria, fazendo sair de repelão as algas aprisionadas na rede. Ora apanha alguns peixes, ora pouco trás mas, sempre parece dar-lhe para o sustento.
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Pude observar que nesta tarefa era ajudado por dois seres de algum volume e um tanto gelatinosos como as medusas, também conhecidas por alforrecas ou águas-vivas assim muito semelhantes a cavalos marinhos de grande porte. Eram duas sereias – kiandas que de um e outro lado faziam deslizar o cerco da rede de forma mais célere. Acreditem ou não eram as perpetuas kiandas Roxo e mana Oxor, já nossas conhecidas por via de tantas vivências aqui contadas.

kianda3.jpg Uma relação que já vem da praia de Guaxuma e em outras paragens distantes como os lagos ao longo do vale do Rift tais como o lago Niassa de onde são originárias,Tanganica, os estuários do kwanza e rio Kongo ou Zaire. Isto é tão fantástico que fiquei na dúvida de se José Santiago as via assim como eu, porque outros, sei de antemão que não as viam. Sei porque isto se tem passado em outras paragens tais como os lagos Victoria e o Eduard no Uganda. Lá terei de falar com a minha empregada Mery de Campala acerca disto. 
:::::
Hoje mesmo e a propósito falei com o jangadeiro Santiago sobre se as via ao que me respondeu: Dôtor…faz tempo que elas andam por aqui. Mais ninguém as vê a não ser eu e graças a Deus, tudo ficará assim porque é Ele que assim quer – mas ninguém acredita, sabe! – por isso nem falo!... Ele, Santiago, também não ficou a saber que eu as via e, assim vai ficar…Quando levo turistas às piscinas do recife, acrescenta, são elas também que enxotam os peixes coloridos até eles. 

kianda5.jpg Uma belezura! Ganha-se pouco mas a vida corre, graças a Deus. Ficam encantados dando-lhe miolo de pão; um paraíso! Disse. Estas ilhas em realidade são parte do recife que provoca a calma espelhada nestas águas da praia. Fiquei muito contente de as ver por aqui – fico sempre! Pena não termos por perto o Zé Peixe a completar o quadro da “kalunga”. Num jeito de seriedade lá terei de pedir à sereia- kianda feita gente Assunção, que faça um quando o mais fiel possível disto para que os anais da estória não passe ao lado.
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Na ultima parte do mussendo, 15º episódio, falei do porquê esta kianda Roxo de Guaxuma andar assim tanto de um para outro lado irrequieta, sem saber no consciente desta sua dupla vida, compartilhando xispanços de tinta com particular maestria e, do porquê das cores cibernéticas confundindo-nos com holografias psicorroxas. Um dia pedirei a M. J. Sacagami que as defina ao seu geito astrofísico… Mas, já sabemos que nasceu às margens do lago Chivero. Aqui recordo de novo para que não haja duvidas em futuros arquivos.

roxo69.jpgSabemos que sua mãe, também kianda de tez negra foi Redufina Kabasa Tsvangirai que se umbigou com um tal de Morgan Tsvangirai. Que nasceu em Harare nas coordenadas de 17° 50' S 31° 03' às margens do lago Chivero, lugar que fazia fronteira com a fazenda farm de MorganTsvangirai seu pai. Que por via da política teve de abandonar aqueles paragens deslocando-se para o Kwanza, ali bem perto de Massangano, lugar de muita magia por ser um pambu-n´jila especial com Muxima. Talvez ela agora, eu se encontra na Luua, se veja kianda no Mussulo depois dum repasto de catato, o tal mopane especial…FUI!
(Continua…) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:58
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Segunda-feira, 18 de Março de 2019
MOKANDA DO SOBA . CXLVII

ANGOLA DA LUUA XLVIII - TEMPOS PARA ESQUECER – 17.03.2019
Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, sentado na praia de Pajuçara, ouvi um sussurro de voz: -Ainda contínuas de pé!?… Era Tiago Rebelo, o autor do “Último ano na Luua”. 
- Estava a pensar em ti, disse-lhe numa sobressaltada estranheza…
Por

soba15.jpg T´ChingangeNo Nordeste do Brasil
Tiago Rebelo é o autor “ de “O Último Ano em Luanda”. Efectivamente pensava em publicar o epílogo de seu livro em BOOKTIQUE e, assim terá de ser por via deste desassossegado encontro mas, desta feita inserido nesta MOKANDA. Olhando as cordas de chuva a despejar no horizonte azul pensei: - É estranho pensar, de que nunca fomos os donos daquela rua, daquela cidade, daquele bairro, daquele país! Pois! Quem ouvisse os discursos de Agostinho Neto ou um qualquer quadro de destaque do MPLA, verificaria sem esforço no prevalecer das palavras de ódio contra os brancos, ovambos ou afectos à UNITA.

tiago1.jpg Também é estranho que todos se virem para o outro lado (até o presidente de todos os portugueses), peidando completamente à vontade esquecimentos profundamente adormecidos. Um mundo de sonâmbulos que só falam a dormir! Antes de se escafeder, ainda lhe disse: - O teu romance da Luua é muito real, vou ter de copiar teu epílogo porque a dizê-lo eu, seria igualito ao teu! Foi quando uma abelha escura esvoaçou em frente ao meu nariz deixando um cheiro a áfrica, um misto de formiga cadáver com lavanda (só poderia ser o Tiago). 

tiago2.jpg NOITE DO ÚLTIMO DIA EM LUANDA NO ANO DE 1975: - Estão todos presos – ouviu o comandante das FAPLA dizer: - Não estão nada presos – retorquiu Antero, adoptando um tom autoritário logo a abrir as hostilidades. – Eles são portugueses e vêm comigo para bordo. – Quem disse? – Assanhou-se o comandante (um antigo cabo refractário do exército tuga). – Digo eu, que sou capitão do exército português. – Você já não manda nada aqui. 
:::::
- Mando, mando. A Independência só entra em vigor à meia-noite. Até lá, o senhor vai libertar estas pessoas e ordenar aos seus homens que se retirem desta base. Estamos entendidos? Não estavam. Formalmente, Antero teria razão, mas na prática o comandante das FAPLA tinha as suas ordens e elas eram muito específicas no que se referia a ocupar a base naval que os portugueses haviam abandonado. 

rev6.jpg O ronco profundo e cavernoso dos motores do NIASSA fez-se ouvir minutos antes da meia-noite daquele onze de Novembro. Levantava ferro. Nuno recolhera à enfermaria do navio assim que embarcara, mas depois insistira em subir ao convés para assistir à partida e ver Luanda pela última vez. Agora, ali estava em silêncio, um braço por cima os ombros de Regina, uma mão apoiada na amurada. A frota seguiu para norte em comboio. Ao bater da meia-noite, o céu de Luanda iluminou-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola.
:::::
Mais a norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, os fogos das armas pesadas era a sério. Nuno e Regina testemunharam a batalha na linha da frente, vendo o céu iluminar-se com explosões no horizonte, como se fosse uma noite de trovoada. Silva Cardoso tinha-se sentido impotente para resolver os últimos acontecimentos; seus subordinados estavam de mãos dadas com o MPLA. Tudo continuaria a ser assim… Nuno desviou os olhos para Regina e viu o rosto dela iluminar-se com os clarões, também mantinha sim, um sorriso agradecido. Estamos vivos! 

silas2.jpg Naquele mês de Novembro, o MPLA venceu a batalha de Luanda e, com a logística militar portuguesa e dados do reconhecimento terrestres e fornecimento de armamento pesado, com a ajuda das topas cubanas e o apoio bélico da União Soviética, neutralizou a FNLA e empurrou as topas sul-africanas e zairenses para fora de Angola. 
:::::8
Durante décadas, o regime de partido único manteve-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje a um golpe de Estado e a uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Savimbi (Sua localização foi denunciada por via de utilização de um sofisticado celular ofertado por seus amigos americanos…).

niassa0.jpg Para a estória, ficaram anos de combates, as negociações de paz mal resolvidas (a preceito de Portugal, diga-se) e as eleições patrocinadas por mediadores internacionais, cujos resultados pouco ou nada valeram para acabar com o conflito armado. Lembro-me bem, em Muquitixe já tinha visto as estrias duma kalashnikov! E o soldado ébrio segurando a arma de forma desajeitada deu-me o alerta final! Vai-te embora branco… Esta não é a tua terra! E quem vai dizer o contrário com um canhangulo nos olhos… 

cos3.jpg A maior vitima dos erros da descolonização conduzida com leviandade pelos responsáveis portugueses, da intervenção militar de potências mundiais e regionais a pedido de Portugal e, finalmente, do egoísmo inveterado dos governos angolanos, foi sempre o povo, o qual, com guerra ou sem guerra, continua a soçobrar numa miséria e numa violência nunca vistas nos quase quinhentos anos de soberania portuguesa em Angola. O Niassa e o Uíge, acabaram por virar ferro velho, vendidos a peso pelo preço de saldo - muitas vidas, uma faustosa desilusão.
(Continua…)
O Soba T´Chingange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:48
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Sexta-feira, 15 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVI

-Este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua** - 15.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange ...(ADENDAS). No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 

 2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

:::::154valentina3.jpg Euclides, o jornalista benguelense sai aturdido do Clube Francês, lugar da conferência de imprensa com negociações. Nesta zona libertada pelo CV – Comando Vermelho, Ernesto, o motorista, espera-o estendido de costas no passeio, uma garrafa de whisky servindo-lhe de almofada, as mãos cruzadas sobre o ventre. Nestes dias tumultuosos já quase não circulavam táxis nas ruas da zona Sul do Rio, zona libertada para o Comando Negro.

:::::155*

(O Rio estava a passar por uma situação muito parecida com a Luua do ano de 1975, tempo do Poder Popular com intervenção dos Pioneiros, uma Criação dos Comunas Tugas como Rosa Coutinho e outros FDP, para Angola e, que resultou na fuga dos gwetas colonos – O medo aqui tal como lá, dissuadia o cérebro… Foi o que eu, relator anotei por ter ouvido e, que não vem escrito neste Zumbi que tomou o Rio.)

angola4.jpg:::::156 - Eu gostava de ser negro – diz o jornalista benguelense. Na sua voz melancólica pressente-se um arrebatamento que é nele pouco comum: - Sou sincero. Gostava de se um Leopold Senghor, um Aimé Sesaire ou mesmo Sam Nujoma. Gostava de saber dançar como um negro, ao som da música de Louis Armestrong… Entretanto a cidade ia ficando anoitecida; sombras remexem-se ao redor num bailado de espectros. Ao longo da praia, de quando em quando, as fogueiras tremelicam a escuridão. São as luzes dos soldados do morro; do CV – Comando Vermelho.

:::::157

Nas esquinas das ruas o lixo acumulado desprende um fedor insuportável. À medida que se aproximam da linha da frente da Glória – Frente Leste, surgem mais fogueiras, em pleno Calçadão multiplicando-se em número de homens armados. Um grupo de guerrilheiros com aspecto muito jovem, pioneiros afro-ameríndios-descendentes (de indígena do continente americano) manda parar o carro. Apontam a lanterna para o rosto de Ernesto: - Onde tu tá pensando que vai?

IMG_20170721_124807.jpg :::::158 - Euclides mostra a carteira de jornalista. Estende-lhe uma nota de cinquenta reais. Seguem. Quinhentos metros à frente a estrada, está cortada por pneus, rolos de arame farpado, uma cancela improvisada. Cinco ou seis carros aguardam na fila a vez para passar. Do lado de cá, formou-se uma feira livre, com gente a assar frango, em largas grelhas de ferro, a vender pasteis e cachorro-quente, cerveja fria e água - uma por três reais e duas por cinco.

:::::159

Vários jovens candengues, quase todos com uma metralhadora ao colo, estão sentados no asfalto diante de uma televisão. Há gente a jogar às cartas como se nada se passasse de anormalidade.  Do outro lado o rugido de um gerador, fazia-se ouvir por detrás dos mukifos, um zumbido que parecia meter pregos mas, que davam luz em holofotes resplandecendo dezenas de carrinhas da Policia, ambulâncias e quatro blindados.

dia143.jpg :::::160 - Euclides, o benguelense jornalista, salta do carro. Sabe que embora a fila de carros seja curta, a negociação de paz entre o Governo Estatal e do Rio com o Comando vermelho, pode demorar. Dois soldados do morro discutem com um policial. Escassos metros os separam. Toda uma vida parada num ritual de passagem: - Nós não somos o inimigo, não, malandro. Tu és bem pretinho, tu és um fodinha, feito agente… Com fobia de ser mulato, o benguelense ouvia já na dúvida de se era bom ser assim – um preto*.

:::::161

- Calma aí! Sou negro mas não sou bandido não. Trabalho duro. Não me meto em baderna (amigo de farra, considerado um inútil, desclassificado…*). Um outro policial, um tipo muito alto, rosto coberto por um capuz preto, apenas com uma estreita abertura para os olhos, aproxima-se do primeiro segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido. O soldado do Comando Negro provoca: - Vais ser sempre um pau mandado do branco!? Se liga, meu, tu tá combatendo tua própria gente. Não ouviu o que o teu chefe Weissmann anda dizendo, não? O cara quer mandar todos os crioulos para África…

moka31.jpg :::::162 - O CV contínuo: - Teu chefe gweta vai ter de encontrar um barco do tamanho do Brasil… Dito isto ri com gosto levantando o punho esquerdo desenhando um “C” e o direito fazendo um “V”*. Euclides fica na dúvida pensando - este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua**… E, assim no meio destas periclitãncias vê que o policial encapuzado reage enraivecido. Grita com um forte sotaque gaúcho, voz roca de muito “chá-mate”*: - Está rindo de quê seu banana!? Vou aí e quebro a tua cara, sua bicha*!...  

:::::163

Bartolomeu Katiavela surge nesse momento, vestido com o uniforme de general do Exército angolano, repreende o rapaz. O policial governamental volta-se contra ele: - E tu, porque não vais fazer a guerra no teu país? Katiavala enfrenta-o. Está ali tão firme, tão íntegro, tão prepotente, que parece ter sido aparafusado ao chão. Entretanto ainda ouve o outro a dizer: - Quanto dinheiro esses filhos da puta*, esses marginais estão te pagando? A voz de Katiavala, límpida e sem esforço, assim como a de Net King Cole, sai com decibéis, sotaque coimbrão, acima do ronco do gerador Honda: - Porque não tira essa mascara? – Assim como está, parece um bandido.

( Continua…)   

Notas: *Item da autoria de T´Chingange; **gweta é branco; cangundo é branco de baixa condição, do musseque…

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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Sexta-feira, 8 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXV
TEMPO DE CINZAS – MALAMBA é a palavra – 07.03.2019
Marcelo do M´Puto ganhou a alcunha de Tio Celito na primeira vez em que esteve na Luua, na tomada de posse de João Lourenço, em 2017. Regressa agora para consolidar a reputação e a normalização luso-angolana. Tomara que seja…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Foi a 15 de Janeiro do ano de 2007 que eu e minha sobeta consorte, passamos a noite na Residencial Camões, bem perto da praça com o mesmo nome da cidade de Lisboa e, mesmo em frente da Embaixada do Brasil aonde iríamos obter o visto de residência permanente. Ficamos na Rua do Poço, um lugar em que os criados escravos e as escravas negras, do fim do século XIX levavam em baldes a merda e o mijo de seus nobres senhores moradores neste Bairro Alto de Lisboa, para um tal poço.

poço1.jpg Mas, esta rua é muito antiga! Antes disto e exactamente a 13 de Novembro de 1515 – século XVI, ou seja trezentos e muitos anos antes desta minha dormida em Lisboa, pode ler-se em arquivos da Torre do Tombo em uma carta regia de D. Manuel I escrita em Almeirim e dirigida à cidade de Lisboa, sobre a necessidade de se construir um poço para depositar os corpos dos escravos mortos. Salientava que haveria que se evitar a todo o custo os tão habituais surtos epidérmicos.

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As barricas de penicadas do século XIX, eram despejadas neste poço ou directamente no Rio Tejo. No ar daquele então, havia um constante cheiro nauseabundo de merda e coisas putrefactas. O panorama era todo muito igual em Paris, em Londres, Madrid ou Roma. Esta é uma das razões porque os franceses têm dos melhores perfumes do Mundo. As pessoas não tinham o hábito de se lavar com frequência.

poço2.jpg Basta recordar a Catedral de Santiago de Compostela aonde desde a idade média se juntavam peregrinos idos de toda a Europa. O Bota-fumeiro gigante balouçando no átrio principal-altar da Catedral, era nem mais nem menos para fazer desaparecer o cheiro nauseabundo que acompanhava os viajantes. Hoje, não podem imaginar o fedor que soprava por entre aqueles antigos prédios das muitas cidades, do estrume acumulado nas travessas, becos com matilhas de cães mordiscando restos como se abutres fossem; também das centenas de carroças despejando toneladas de excrementos que por ali iam sendo pasto de milhares de moscas com milhões de bactérias.

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D. João VI fugiu para o Brasil com sua corte levando consigo muitos inúteis nobres que viviam à sombra da linhagem. As moscas através do tempo mudaram bastante, mas há outro tipo de bosta nos dia de hoje, a dos comportamentos, da falta ou descuido dos políticos de alto coturno - o de não se manter o desejado nível de seriedade ou aprumo no trato entre nações que deveriam fluir tranquilidade. Terei de mencionar a falta de decoro nas relações diplomáticas fazendo de casos menores como o da JAMAICA uma empolgante notícia e, aonde ambos os países, Angola e Portugal terão de se sair envergonhados.

modas0.jpg Um pela descabida prepotência e o outro pela falta de decoro subestimando-se de forma pouco enaltecedora. O Portugal de hoje com um governo tripartido e descrente e a Angola actual do MPLA, desrespeitadora de princípios básicos de solidariedade. Se não houver comportamento de estadistas, se prevalecer a bajulação encardida de hipocrisia o quanto baste, quebrando algum do nosso orgulho, sempre subsistirá raspas de azedume. Nas bocas do povo surgem comparações com países de quarto mundo – é a JAMAICA mas poderia perfeitamente ser o Haiti… Angola e Portugal, no correr do tempo e consonante a evolução e relacionamentos em princípios sociais, não podem alinhar nesta diapasão de acasos destemperados.

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Pode concluir-se que a ignorância de muitos, apazigua os espíritos duns quantos que se submetem, que se subestimam, que quase se poem de joelhos a pedir desculpas – desculpas indevidas! Haja paciência! Esta é outra merda - uma empobrecida quietude, morna quanto baste para aquietar expectativas de mudança. Triste realidade de submissão com fantasmas fabricados num passado: Angola – Portugal… quanta desilusão!

saramargo03.jpg Diz a carta de D. Manuel I, que os escravos eram mal sepultados e, muitos seriam mesmo lançados (...)"na lixeira que está junto da “Cruz da Pedra” a Santa Catarina (actual Rua Marechal Saldanha) que está no Caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos, ou para a praia onde ficavam à mercê da voracidade dos cães.

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Para evitar as deletérias consequências de tantos cadáveres não sepultados, achava o Rei, "que o melhor remédio será fazer-se um poço, o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais conveniente, no qual se lançassem os ditos escravos" e para ajudar a decomposição dos corpos, dizia ainda que se deitasse " alguma quantidade de cal virgem" de quando em quando.

poço6.jpg Tal medida seria cumprida pela Câmara que o teria mandado fazer no referido caminho para “Santos”, descendo a actual Calçada do Combro conhecido por "Horta Navia" (nome de uma divindade indígena após a ocupação Romana). A actual localização perdeu-se, mas a aproximação geográfica do antigo Largo do Poço Novo (actual Largo Dr. António de Sousa de Macedo) ao fundo da Calçada do Combro, nome que já nos aparece na segunda metade de “quinhentos”.

poço5.jpg Com as novas posturas do século XXI, ficamos na expectativa de não existir entre países irmãos, a tristes relações de estado originando um sintoma da maior frustração, para quem dali saiu com um tão grande sentimento de injustiça pela descolorida descolonização. Neste enredo carnavalesco de relações internacionais não podem agora à semelhança da idade média cagar-se no orgulho parecendo ser a dado momento a merda dum cenário, um enredo nada agradável a reviver para reforçar nosso desenraizamento ou um simples alheamento.

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:08
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Domingo, 3 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XV

“Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas, trauteei!? Reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo – Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. - 03.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

agualusa2.jpg :::::144 

Eram 5.55 horas deste dia. O telefone tocou!... Preparava-me para ir à Praia da Pajuçara - deposito a xicara de café Santa Clara ainda muito quente no balcão de granito preto. Surpreso pela hora tão matinal e com o carnaval a desfilar na televisão tão cheio de cor no sambódromo de São Paulo penso: Quem será!? Vou atender pensando ser a Margarida a dizer que afinal, mesmo depois de passar a noite na refrega do samba do Jaraguá, sempre vai à praia. Atendo com um alô, alô! … Num espanto de quase susto, ouço: Sou o José Agualusa, o dono do Zumbi!... E, segue-se um espaço descolorido em cima dum branco fosforescente… Caramba é ele, o próprio! - Mas que prazer, disse assim meio tremendo de emoção com um formigueiro nos gémeos das quinambas. O José Agualusa!?

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Mas que prazer, repeti de forma escusada, meio encafifado e, ainda tendo na cabeça a musica “Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas,… trauteei!? Não! Diz Agualusa meio a rir-se de meu titubear feito bobagem de susto!  Não, diz ele do outro lado da linha… (uma pequena pausa, creio que um gole de whisky, dum surdo e insuspeito gluk…gluk…) É para te agradecer pela propaganda que tens feito do meu livro do Zumbi!   

agualusa1.jpg :::::146

Também para te desejar um bom carnaval!... Estou em Curitiba num “Work Shop literário” e ontem vi alguém que tu descreves nas tuas mokandas do Kimbo! Também na Kizomba! Alguém que anda por aqui a farejar negócios - reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo, disse isto como se eu apreendesse a mensagem vendo a figura. Não sei do que falas nem de quem falas! Disse eu, muito verdadeiro na surpresa. Nem tampouco conheço quem tenha uma orelha postiça. Pois, eu assim disse: - Não sei de quem falas amigo? Ele, o Agualuza, tinha sido meu vizinho lá no Huambo, podia dar-me a estas íntimas aproximações… Afinal quando ele cresceu, eu estava na Caála (Robert Williams).  

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Resposta rápida: Do teu personagem Coronel Fala Kalado, o morto vivo! Pópilas… (eu, no discurso directo) nem sabia que assim era! Às tantas até tem uma perna de pau que vira metralha ou catana em casos de periclitãncias e, eu sem saber. Pois é! O cara andou por aqui rondando. Não fosse eu saber de vossas relações e nem te iria perturbar a esta hora! Assim, como quem demonstra estar muito ocupado e após um Hic…Hic… xuk…xuk…krás…krás disse: - Fui! E, foice, digo foi-se mesmo!

fala1.jpg:::::148

E, eu que fazia o Coronel emérito das FALA estar bem perto de Poconé a traficar armas em troca de pó feito chocolate de canábis lá para os lados da Bolívia. Assim confuso, resolvi desvendar um pouco mais de sua escrita matrix das guerrilhas do Morro da Rocinha, lendo e relendo sem conseguir atinar na quietude do desassossego. Como é que descobriu meu telefone deste mukifo? Coisas por desvendar. E, que quereria ele dizer-me com esta descrição do cara ter na cara uma cicatriz bem por debaixo da orelha esquerda que era falsa. Vou-te contar (disse de mim para comigo mesmo!)

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RIO DE JANEIRO, IPANEMA, CLUBE FRANCÊS, NOITE – Na zona do CV – Comando Vermelho; Euclides, o jornalista, levanta a voz: Ouviste o que te disse? – Ouvi. O Presidente baicou… (morreu…) - E não te interessa? Francisco Palmares franze as sobrancelhas. Toda a sua atenção está concentrada no grande mapa da sala de comandos. Coloca e retira alfinetes. Desenha círculos a tinta vermelha em redor de determinadas posições. Enlaça os dedos e estala-os. Finalmente volta-se para o jornalista: - Então o velho baicou? Morreu como? – Faleceu durante o sono, enquanto fazia a sesta, ele era do tempo em que ainda se fazia a sesta. Ataque cardíaco. Foi Monte quem o encontrou… (parecem referir-se ao JES, o dono d´Angola)

matrindindi1.jpg :::::150

- Monte? O nosso amigo tem um talento especial para encontrar defuntos… Diz isto distraído e retoma o trabalho. O destino de Angola já não o entusiasma. Euclides senta-se numa cadeira. Abana a cabeça. Afaga perplexo o farto bigode. Aborrece-o o alheamento do outro: - Pensei que te agradaria a notícia. A morte do Velho vai abrir caminho para a democracia plena. O regime está a viver os seus últimos dias. Se a vossa aventura tiver um final feliz, entendes?, se o Governo aceitar as vossas condições … (este governo, é referente ao Brasil do tempo do PT - José Inácio, ainda liberto…) Pois tu não entendes, coronel?!...

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Se o José Inácio amnistiar toda a gente, podes depois regressar à Luua (Luanda). Francisco Palmares enfrenta-o de novo. Desta vez olha-o com intensidade. Pousa a mão nos ombros dele. Euclides sente-lhe a febre. Uma serena tristeza: - Eu já não volto meu kota. Não terei a alegria de morrer na Luua. Primeiro porque encontrei o meu destino. E depois, talvez nem se chegue a um acordo com o Governo (de novo o Brasil), talvez não haja um final feliz. A coisa aqui está a ficar preta (feia)… - O que dizes? Tu sabes que temos problemas…

araujo53.jpg :::::152

Começa a faltar comida na cidade e, como dizia a minha avó, em casa que não tem pão todos ralham e ninguém tem razão… Há divisões no movimento (do CV-Rio - Comando Vermelho), tem gente que quer assaltar os supermercados, os armazéns…Está a ser difícil lidar com algumas pessoas… O jacaré!?... Olha, por exemplo, o Jacaré. Muito destes mwadiés não têm formação politica. Em Angola vivemos um processo semelhante, não foi?, em setenta e cinco, quando o partido do M decidiu recrutar o lumpens (?),  a bandidagem dos musseques, gente habituada a fazer tiros… Mas não eram militares, faltava-lhes a disciplina… (refere-se aos pioneiros e outros desclassificados). E a seguir, ainda por cima, para saldar a dívida, deram-lhe cargos de responsabilidade… (de cabos fizeram generais num piscar de olhos).

café da avó1.jpg :::::153

- Pareces o teu pai… O meu Pai? O erro do meu pai, kota, aquilo que o perdeu, foi nunca ter sido capaz de passar das palavras aos actos. Democracia plena em Angola? Não, não penses nisso. Vai ficar tudo na mesma. (já Agualusa feito osga, estava a ver o filme bem afrente, com o laranja JL…). Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. Como assim? – Em Angola talvez seja possível derrubar o regime, mas não vai mudar nada. Aqui (Referia-se ao Brasil), ao contrário, podemos até perder esta batalha. Mas, depois da nossa derrota, acredita, nada será como antes. Mesmo derrotados, teremos vencido.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:08
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Sábado, 2 de Março de 2019
MU UKULU – XV

MU UKULU...Luanda do Antigamente02.03.2019

Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos, símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

muralha10.jpg Ainda como adenda a livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1910 em Angola e zonas de influência. O lingote era vertido em nó de caniço, uma forma manejável de um metal pesado, monetário ou não. No entanto a forma cilíndrica, ou vergalhão, era a mais espalhada pela África austral, tal como o material para a confecção de manilhas na forma de mutsuku, os “cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo”.

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Cada manilha era equivalente a 133 gramas de metal, o preço de uma enxada de ferro. Os tamanhos mais pequenos deste lingote, lembram as orelhas de um martelo: foi um tal Bent que primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruinas do Zimbabué em Fort Victoria e, de que Hall and Neal em 1903 encontraram o molde feito em talco xistoso, na estação de U’Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e “um jogo de bolinhas de talco xistoso”.

Mu Ukulu30.jpg Outros 12 moldes conhecem-se de Elizabethville e da Zâmbia; 21 espécimes foram encontrados por António Joaquim da Rocha “em Gwengue, junto ao rio Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva”, província de Manica e Sofala em Moçambique.

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A cruzeta era em tudo igual à cruzeta dos povos primitivos da Europa. Os mutsuku já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional quando os Venda bantos ali chegaram no século XVIII. Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena – mineiros do estanho do Rooiberg, distrito de Waterberg no Transvaal – em moldes cavados em areia ou talco xistoso.

Mu Ukulu19.jpg Lombongo – De libongo, nome dado em Angola ao “paninho” tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em N´Gola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de cinco reis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o autor, o termo é crioulo, derivado do kimbundo m’ilambongo, “uma quantidade de imbonge” (sing. m´bonge, ou ‘bongue’) coisa de contar, como o nó do caniço.

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Significa hoje, simplesmente, “dinheiro”. Macuta – do kimbundu makuta, plural de likuta, o nome quicongo dos célebres “panos”, tecidos de fibras vegetais que correram como moeda em Angola até 1694. A partir deste ano, correram principalmente moedas de 10 reis produzidas para “o Brasil e Guiné”, querendo ‘Guiné’ dizer todas as possessões portuguesas.

mucu2.jpg As macutas, com o dístico “África Portuguesa”, só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do marquês de Pombal. Conheceram, porém, uma grande distribuição no reinado de sua filha D. Maria I. Houve emissões em 1783 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata; 1 macuta, em cobre), 1784 (6 e 4 macutas, em prata), 1785 (1, ½ e ¼ macuta, em cobre), 1786 (1 e ½ macuta, em cobre), 1789 (12, 8, 6 e 4 macutas, em prata; 1, ½ e ¼ macuta, em bronze) e 1796 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata portuguesa correndo em toda a costa ocidental de África.

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As macutas foram desvalorizadas 50% sob o regente D. João, em 1814 (carimbadas nas missões até 1816), e não tiveram novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria foram de novo desvalorizadas em 20%, mas houve novas emissões em 1848-51 e em 1853. Sob D. Pedro V houve emissões das moedas de ½ macuta (1858) e de 1 e de ½ macuta (1860).

mucuisse.jpg No reinado de D. Luís I houve um ensaio de nova moeda para Angola: as moedas de 20, 10 e 5 reis de 1886 substituiriam as macutas, mas nunca foram produzidas. Assim, as macutas correram em Angola até à implantação da República em 1910, durante, portanto, 148 anos e 9 reinados.

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A terminar esta longa conversa sobre dinheiro na forma de n´zimbos, depois caurins, mais tarde panos libongo, colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes de cingir a garganta ou os pulsos de mulheres e homens, fazendo realçar o ébano da cútis, acabamos nas macutas e angolares. Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

mucu3.jpg De salientar que no Bié, a principal unidade de troca para alimentos e quaisquer outros produtos, exceptuando o marfim os escravos, era o pano. Cada pano media uma jarda, equivalente a 14 mm e, cujos múltiplos eram: a beca com duas jardas, o lençol com quatro jardas e a quirana com oito jardas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:31
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
MISSOSSO . XXXIII

N`ZINGA E O CAVALO ALADO – 4ª de Várias Partes – 23.02.2019
Rodando a bobine em paratrás, voltei às notícias de Brazaville: Há quase 55 anos atrás desse tal de Nelito - Fala Kalado, receber instruções de Che Guevara 
Por

soba15.jpg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
O curioso desta estória é de que em vez de andar para a frente anda para trás pois que só assim entenderão o que vem mais lá para diante e, que eu próprio nem sei! Nelito Soares* foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974. Os registos são dúbios embora pense que teria sido um ano depois naquelas lutas de kwata-kwata aos dois movimentos genéricos de Angola. Era assim que estavam e estão conotados os pensamentos burgueses da Nomenclatura actual dos criadores dos “Pioneiros”

che guevara1.jpg Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro que agora é revelado a T´Chingange por Dreke, o médico Cubano que acompanhou "Ramón" até à Republica Popular do Kongo. "Esta é a história de um fracasso" importado por Cuba com a sua solidariedade internacionalista e, que muitos nem sabem porque, ou não querem saber, ou porque se estão nas tintas.
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É assim que Che Guevara, inicia o seu relato sobre o movimento guerrilheiro que ajudou a organizar na República Democrática do Congo, em 1965, um supositório chamado de MPLA antes de ser morto na selva boliviana. A estória que me foi contada está registada no livro “Passagens da Guerra Revolucionária” que se tornou em nossos tempos em apenas uma nota de rodapé em minúsculas letras.

che0.jpg Na biografia do líder guerrilheiro Che Guevara de nome Ramón, surge numa outra perspectiva nas palavras de Victor Dreke. Este General aposentado com mais de oitenta anos, foi subcomandante do médico argentino, o Ché, na primeira operação cubana de apoio aos movimentos de libertação africanos.
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Ché Guevara, prestigiado pela actuação na suposta “LCB - Lucha Contra Bandidos” entre os anos de 1959 a 1965, ficou assim como coisa ensombrada conhecido no combate a opositores financiados pela CIA. Nestas coisas sempre surgem americanos a confundir nossas verdadeiras estórias; os mestres da “Intelligentsia” no disfarce e os maiores troca-tintas impingindo-nos grafitis como sendo as verdadeiras estória do Mundo. 

cuba libre1.jpeg Pois então, não foram eles que ofereceram um rádio com tecnologia de ponta e que levou à morte de Jonas Savimbi no ano de 2002!? O Mundo não sabe porque não quer saber. Dreke servia no Exército Central, na cidade de Santa Clara, quando recebeu uma proposta que o levaria a África. Aceitou participar sem saber do que se tratava. 
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O pedido veio directamente de Fidel Castro: comandar uma missão especial e recrutar 100 jovens soldados que seguiriam para um destino ainda desconhecido! Eles surgiriam no momento certo! No envelope havia passaportes falsos, missivas diplomáticas e dólares verdes com a esfinge de George Washington, cabeça grande - "Havia uma instrução importante: deveriam ser negros, bem negros". 

eseves2.jpg Dr. Dreke achou aquela referência racista mas já habituado a tropelias conta hoje com algum desencanto entremeada com picara graça. E, repete por várias vezes: - Isto decorreu na embaixada de Cuba, em Bruxelas. Mas, antes, o veterano frisa: -Quem aceitava, deveria dizer à família que iria para um treino na União Soviética, edecéteras e tal que não é para aqui chamado. Isto passasse na “Isla- lugar de El Pinar”. Esta descrição confunde os lugares e de repente, misturando Bruxelas com El Pinar lança-me em dúvidas periclitantes. Mas a coisa dada não se deve reclamar; isto para mim já era uma grande notícia.
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Durante algumas semanas, os cem homens prepararam-se numa zona de mata sem acesso a energia eléctrica recebendo visitas frequentes de Fidel. Na véspera da partida, uma surpresa: Ele, Dr. Dreke militar, foi informado de que não estaria mais à frente da operação. Por ordem de Fidel, daria lugar a um comandante de nome Ramón, de quem o experiente militar nunca ouvira falar.

moka23.jpg -"Pensei que fosse um soviético, porque éramos poucos comandantes naquela época, e eu nunca tinha ouvido falar de Ramón algum. Achei estranho, mas aceitei sem relutar", comenta Dreke. Vou ter de deixar o resto da estória para mais tarde pois que a polícia aqui do Bairro da Pajuçara no Nordeste brasileiro já fechou o trânsito na rua - não demora, irá passar o “Pinto da Madrugada” na orla da avenida, o calçadão. 

guerri4.jpg O Carnaval aqui, é assim meus amigos! Fiquem aí sentados. O Fala Kalado um ex-falecido de nome Nelito Soares* e hoje Coronel, vai andar com o Che num lugar perto de Ponta Negra chamado de Luvungi da RPC- República Popular do Congo lá para trás nos anos de 1964 ou 1965. É aqui que encontra o Jonas Savimbi, um negro bem negro e, os rumos, lentamente, viram azimutes. Ainda não tenho bem a exacta certeza de como tudo acontece mas e como diz Murphy, o que tiver de ser, assim será…
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Nota* Nelito Soares era funcionário da Imprensa Nacional de Angola – Cidade Alta da LUUA…
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:58
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIII

 COMUNICADO DO CV -  Comando Vermelho -19.02.2019

O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube militar de Luanda - CML
O ano dos COMUNICADOS em Luanda . 1975 
Escrito por – José Eduardo Agualusa
Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

araujo 25.jpg Pude ler nas páginas 232 e 233 do livro de Agualusa uma réplica da proliferação de COMUNICADOS à imprensa de então no ano da Luua em 1975 e em Angola - emanados do COPLAD, do MFA, da FUA dos MOVIMENTOS de libertação para tranquilidade de toda a população. Foi de uma tranquilidade de espanto – a guerra do TUNDAMUNJILA…Sem aquela inquietude de afligir o próximo, ou ficar num estranho silêncio, esperamos as mudanças no tempo e suas modas adaptando-nos ao luto de preto, que faz muito tempo atrás era branco. 
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Eu quis saber do porquê de cada homem ou de cada mulher, nascer com a verdade dentro de si e só para si! Assim e, porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Angola foi uma mentira, uma farsa, uma gigantesca farsa…

agualusa1.jpg Julho de 1975 - Em Muquitixe estive encostado a um muro velho com minha sogra idosa! Fazia o percurso de Nova Lisboa (Huambo) para Luanda. Não se sabia o que poderia sair daqueles drogados que revistavam o autocarro aonde seguíamos. Podíamos ter sido ali, metralhados, como num filme de revolução, cuja morte parece sempre surgir junto a um já esburacado muro! Isto simplesmente, não aconteceu. Ninguém se culparia e nem haveria de jurar a alguém! Parecia não haver esse tal de alguém; simplesmente, assustador! 
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Ouve combates no morro do Rio de Janeiro do Brasil e do livro do Zumbi: Mas que porra é aquela? Jararaca fala à imprensa em negociações! Vai dai elaboram um COMUNCADO «O Comando Negro exige do governo federal: 
Ponto 1 – Uma ampla amnistia para os soldados sob sua direcção, (* -trata-se dos revoltosos do morro) aqueles que estão detidos, e todos os heróis que desceram hoje dos morros para combater a escravidão.
Ponto 2 – A imediata demissão do ministro da Defesa, general Mateus Weissmann.
Ponto 3 – Uma indemnização simbólica a todos os brasileiros de ascendência africana e um pedido público de desculpas pelos séculos de exploração e opressão.
Ponto 4 – A introdução de um sistema de cotas para afrodescendentes, nunca inferior a quarenta por cento, não apenas nas universidades e repartições públicas, mas também para cargos superiores na Polícia e no Exército, e candidatos a deputados estaduais e federais.
Ponto 5 - Durante as negociações com o Governo todas as unidades das Forças Armadas estacionadas no Rio de Janeiro devem recuar para fora das fronteiras do Estado e não interferir.»

mocanda11.jpg O dirigente do Comando Negro veste uma camiseta do Clube Militar de Luanda. Jorge Velho reconhece os símbolos- o punho negro, a metralhadora, a estrela amarela sob fundo vermelho (* - A variante da Luua tinha uma roda dentada e uma catana em diagonal) -, porque já os viu inúmeras vezes em bandeiras e cartazes ou pintadas nas paredes das favelas (* - musseques), mas é incapaz de decifrar a sigla, CML.
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Jararaca, tem ao pescoço um colar de missangas vermelhas e negras… Olha de frente para o mundo. Conclui solene e desafiador: «Estamos voltando hoje uma página na História do Brasil. Este país nunca mais será igual. Bom dia, Liberdade!» Cala-te. Ouve-se alguém a gritar: «Corta, porra, corta logo!» (* -eram imagens para a TV). Ele levanta-se e a imagem desaparece. Surge uma fotografia com o clássico cartão postal, com o Pão de Açúcar em primeiro plano (* - fim de citação ao livro…).

cabo ledo3.jpg Poderíamos perfeitamente dizer que assim se passava no dia-a-dia da Luua nos anos de 1974 e 1975, a Emissora Oficial de Angola a dar comunicados atrás de comunicados. Com eles soaram as cantigas de permeio recordando os heróis de Valódia, Monstro Imortal que os pioneiros cantavam nas ruas vezes sem conta; nas ruas de todas as cidades! Olhando o passado víamos ali “Nossos versos de Carnaval”. Entretanto havia filas quilométricas de refugiados que em alguns casos eram escoltados pelas tropas portuguesas e também do MPLA numa já perfeita parceria de zelo de Estado.
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Era criado ao acaso um autêntico corredor entre as cidades do Centro e Norte até Namacunde, no extremo sul do “Sambódromo Estado de Angola”- ao longo da estrada principal. A falta de gasolina, água e alimentos tornava-se cada vez mais dramática pela carência. Trocavam-se contos ao desbarato por tambores de gasolina. A tropa portuguesa assistia agora à fuga de milhares de ex-colonos e naturais com um sentimento de impotência, coisa confrangedora para alguns – não tanto para outros.

louva7.jpg Não haveria desculpas para essa corja de militares de aviário, os cérebros do Concelho da Revolução e muitos civis que se ufanavam deste feito como sendo exemplar. Puta que os pariu! Prometi recordar estas tristes passagens, tempo de tão mau augúrio para um Império que ruiu da pior forma, sem dignidade; tudo feito por empedernidos fanáticos que a troco de uma centelha ideológica empederniam-se num regime despótico e anárquico entregando as gentes ao descaso, aos entretantos …Ou mato, ou morro!

Nota* - Esclarecimentos de T´Chingange
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:24
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
MISSOSSO . XXXII

N`ZINGA E O CAVALO ALADO3ª de Várias Partes 19.02.2019

Rodando a bobine em paratrás, voltei às notícias de Cabinda: Há quase 50 anos atrás - A 04 de Junho de 1969, três kaluandas desviaram um DAKOTA DA DTA – Divisão dos Transportes Aéreos de Angola pertencente aos SPCTFA – Serviços de Portos e Caminhos de Ferro e Transportes de Angola, para Brazaville

Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)

Porque sou da MAIANGA da LUUA, tenho de aqui referir a fonte da notícia no Blogue MORRO DA MAIANGA. Pois na busca da origem do Coronel FALA KALADO, com quem me deparei nos terminais UM e DOIS de Guarulhos de São Paulo do Brasil, conforme o já descrito, fui ao meu baú da “Torre de N´Zombo” recolher dados que num repentemente surgiram na minha cuca. No dia dos meus anos, a 04 de Junho de 1969 e estando em Serviço Militar no quartel de MICONGE, antiga Administração de Sanga-Planície, tenho conhecimento de um desvio de avião com destino a Brazaville.

angola6.jpeg O cartão de rico timbre, que mantenho comigo diz no canto superior esquerdo: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito das FALA), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais. Indica três telefones, um deles com o DDD da cidade e estado – CUIABÁ.

Memória - Há quase 50 anos um avião da DTA era desviado para o Congo-Brazaville. Foi no dia do meu aniversário, como iria esquecer estando eu naquela selva do Maiombe com o posto descrito pela rádio como Furriel Mike! Verdade que tudo fiz para isso, mas desaconteceu! Afinal, o 4 de Junho, que também faz parte da trajectória da libertação e independência em Angola, simplesmente ninguém refere este acontecido! É o kamba Reginaldo Silva do MM que o diz.

araujo1.jpg Os factos que são para aqui convocados aconteceram há quase 50 anos, quando os angolanos afectos ao MPLA, Loló Kiambata, Nelito Soares* e Diogo de Jesus desviaram para o Congo-Brazaville um avião da DTA, a predecessora da Via Airlines TAAG. O 4 de Junho de 1969 é mais uma data esquecida pelos que fazem a história oficial de Angola e, de acordo com as suas conveniências político-partidárias.

Como é evidente a história oficial não tem nada a ver com a história real de Angola e dos angolanos que ainda não está elaborada, sendo muito difícil que o venha ser, enquanto a partidarização da nossa sociedade se mantiver como a orientação maior do próprio Estado que é o que tem acontecido… A data que marcou uma das mais espectaculares e mediáticas acções de luta contra o colonialismo português entrou para a história com o significado desmerecido; o esquecimento!

DTA1.jpg Numa altura em que Angola e os angolanos já não queriam mais viver sob domínio colonial português, não se compreende que o 4 de Junho de 1969 nunca tenha merecido a importância devida por parte da direcção do MPLA, porque foi uma iniciativa saída da sua base clandestina da Luua. Pois assim, apanhou completamente de surpresa os “camaradas” no bombom de Brazaville.

A informação que a PIDE fez circular pelas mais altas esferas da governação Tuga da época, referia que “no dia 4/6/69, pelas 15.30, o avião C-3 matrícula CR-LCY, da DTA, da carreira Luanda/Sazaire, com 5 tripulantes e 12 passageiros a bordo, foi obrigado a mudar de rumo para Ponta Negra. Tal acção foi levada a cabo por três criminosos armados, a saber: -LUÍS ANTÓNIO NETO, o “Lóló”, solteiro, estudante, nascido a 4/11/ 47, natural de Luanda.

DTA2.jpg A informação em letra romana continua: -DIOGO FERNANDES JACINTO LOURENÇO DE JESUS, solteiro, funcionário do Laboratório de Engenharia de Angola, nascido a 2/11/942, natural de Luanda, filho de Jorge Jacinto de Jesus e de Ana Lourenço de Jesus e residente em Luanda e, MANUEL CAETANO SOARES DA SILVA, solteiro, funcionário da Imprensa Nacional de Angola, filho de Luís Gomes Soares da Silva e de Isabel Luciana Soares da Silva e, residente em Luanda.”

Ainda de acordo com esta informação “ o assalto teve início a meio do percurso Ambrizete/Sazaire, quando Manuel Caetano Soares da Silva entrou bruscamente na cabine de pistola em punho e intimou a tripulação a seguir para Brazaville. Ao mesmo tempo, o Luís António Neto, de frente para os passageiros, ostentava uma GMO, (granada de mão ofensiva) fazendo menção de lhe tirar a cavilha de segurança.

DTA3.jpg Nesta altura, porém o passageiro Mário Gameiro envolveu-se em luta para lhe tirar a granada, sendo auxiliado pelo radiografista Luís Torres e Arménio Mata, 1º subchefe da PSP. Entretanto, o assaltante Diogo Fernandes Jacinto Lourenço de Jesus, que se encontrava na retaguarda dos passageiros, ordenou a Luís António Neto, o “Lóló”, para lançar a granada, sublinhando a ordem com dois tiros de pistola que perfuraram o tecto do avião”.

Dos três kamundongos nacionalistas que participaram nesta acção de luta contra o colonialismo português, apenas Luís Neto Kiambata se encontra vivo, tendo Diogo de Jesus e Nelito Soares*, que por ironia do destino, foram mortos pelas tropas Tugas e poucos anos depois em circunstâncias distintas.

arte3.jpg O Diogo de Jesus, foi atingido por um obus no leste de Angola antes de 74 e o segundo, Nelito Soares* foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974. Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro entre o T´Chingange e o tal de FALA KALADO nos aeroportos Internacional e do Terminal Doméstico numero DOIS de Guarulhos. E, foi, e ainda o é graças ao “Morro da Maianga” que consegui descortinar um pouco mais a minha alhada…uma meia inventação.

DTA4.jpg Nota*: Esta é uma estória inventada no que concerne às mentiras… Só com o tempo se descortinará a verdade dessa morte do Nelito Soares, o mesmo FALA KALADO do  MISSOSSO. Quanto ao Coronel, creio que aparecerá nos próximos episódios…

O Soba T´Chingange com o Morro da Maianga (meu bairro…)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:07
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XII

O Último Ano em Luanda . 1975 – UMA TERRA A FERRO E FOGO - 16.02.2019

Escrito por - Tiago Rebelo

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

booktique00.jpg Andei neste reencontro com os livros do criado mudo entre as páginas 360 e 363 do romance de Tiago Rebelo e, do que li posso garantir que não é propriamente um romance. É a realidade já aqui descritas por mim em Mocandas do Soba e, mais ou menos com a suficiente cordialidade em entender o impossível, a MERDA DA DESCOLONIZAÇÃO. Aos portugueses do Ultramar, não obstante tratarem-se, na sua maioria, de modestas famílias que ganhavam a vida nas indústrias, nos serviços ou na agricultura, tinha-se colocado o rótulo de colonialistas exploradores, por via da propaganda dos sectores radicais de esquerda que dominavam o governo de Lisboa.

Eles, os radicais de esquerda que eram mais que muitos e, que ainda o são (estamos em Fevereiro de 2019) queriam e, assim foi, deixar Angola nas mãos de Moscovo. Os brancos ultramarinos não estavam definitivamente, nas boas graças da opinião pública portuguesa. Desamados pelo MFA, desconsiderados por Lisboa, sentiam-se abandonados por todos e, até mesmo por familiares directos; este triste fado tem andado a ser cantado como um “desfado”, tratado como coisa pouca mas assim, não o foi!

moka17.jpg Em Luanda apenas um punhado de bravos efectivos do COPLAD, fieis ao Alto-Comissário, defendia a vida e os bens dos portugueses. Na Avenida Brasil e na dos Combatentes da Luua, as principais sedes dos movimentos foram destruídas entre si, a tiro e, com elas, os edifícios onde se situavam, alguns com dezenas de apartamentos trespassados por balas perdidas, por tiroteio assassino e negligente. O último grito em armamento eram os canhões sem recuo contra viaturas blindadas.

Os pseudo guerrilheiros do MPLA, sempre criativos em assuntos bélicos, davam uma nova utilidade a esta arma visando o seu poder de fogo para literalmente demolirem as sedes politicas dos movimentos rivais a saber, UNITA e FNLA. Os estragos, como se poderá imaginar, eram astronómicos, e punham em perigo milhares de civis. Na população branca, dissolvera-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.

moka18.jpg Esta batalha, a de Luanda, não se cingiu somente à capital. Alastrou por todo o Norte com desmandos brutais num preparado plano de tundamunjila pelos comandos Tugas do MFA aos brancos. Os brancos sem amas, sem apoio, sem a mínima hipótese viram-se numa de “ou mato, ou morro”. Como formigas salalé e em desordem fugiam com algumas imbambas daqui para ali mas e, principalmente sempre para Sul e, ou a Capital.

Assim, os últimos portugueses no Interior de Angola, formando comboios de carro puseram-se a caminho da Luua, atravessando perigosas picadas e outras estradas aonde pululavam guerrilheiros de faz-de-conta impregnados de muito ódio ao branco; muito cheios de vingança e com a cabeça cheia de fumo, liamba e bebidas desinibidoras, faziam a seu bel-prazer a justiça ocasional. Por dá-cá-aquele-palha, um cigarro, uma cerveja, um qualquer cobiçado traste, podia ser motivo de morte.

moc2.jpg Assim e correndo grandes perigos, procuravam o lugar de embarque na já tão falada ponte aérea; num desespero e abandonando tudo, fugiam simplesmente daquele inferno. Era o que preconizava Rosa Coutinho e seus guedelhudos do MFA - os urubus ou corvos, como queiram; Tropa fandanga nunca reconhecida traidora pelos muitos governantes de Portugal no após 1975. Com três semanas de combates arrasadores, nunca o MPLA acudiu aos apelos de Paz faltando a todas as reuniões do comando unificado da Luua. A Emissora Oficial de Angola era simplesmente ignorada pelo MPLA.

O MPLA venceu a Batalha de Luanda expulsando a UNITA e a FNLA com a inequívoca ajuda do glorioso MFA do M´Puto. Em verdade a Batalha de Luanda resumiu-se ao duelo entre MPLA e a FNLA, enquanto os soldados e militantes da UNITA, sem armas para retaliar, se tinham simplesmente resignados a fugir. Os que não puderam fugir, foram simplesmente massacrados aos milhares (maioritariamente negros mas e também, alguns brancos). Recordem-se do massacre na sede Pica-Pau em que abateram homens quase desamados, mulheres e muitas crianças…

silva p0.jpg Onde quer que uma pessoa se encontrasse escutava o inevitável fragor dos combates, o rebentamento de obuses e também, observar no céu colunas de muito fumo. O medo sentia-se no ar! Camionetas passavam com feridos e mortos em direcção ao hospital e à morgue largando rastos de sangue pelo asfalto; Tem-se agora a certeza de ter sido de propósito para provocar o pânico entre os brancos. Está escrito! Mas, sempre haverá muitos dizendo ter-se esquecido; que talvez não tivesse sido tanto assim; sempre a tentar lavar o sarro de tanta hipocrisia. Sinto-o!

Mas, não obstante tanto esquecimento, confirma-se ter sido o MFA o principal comando de tudo – o autor da logística! A bandalheira do exército do M´Puto estava institucionalizada. Nas ruas da Luua viam-se soldados regressados do Norte de Angola sem qualquer aprumo, barbas desgrenhadas, ao estilo de Ché Guevara, o revolucionário do estilo, da época. Época nada digna. Os brancos estavam entregues a si próprios; ando a remoer o passado para não me deixar consumir por rancores inúteis… Ou mato, ou morro!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:05
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019
MU UKULU – XIV

MU UKULU...Luanda do Antigamente15.02.2019

Entre Monomotapa e Catanga corriam entre as classes dominantes dessa região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu26.jpg Tomando como base o livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1693, moedas-mercadoria que vigorariam desde a chegada dos portugueses à Ilha da Mazenga ou das Cabras e, que nos dias de hoje se chama somente de a ilha de Luanda. Será por assim dizer uma adenda a complementar o que se sabe daquele sistema monetário controlado pelos reinos de N´Dongo e Kongos e outros, em África.

Mu Ukulu25.jpg Em sequência temos os zimbos, n´jimbu, pequenas conchas, propriedade do rei do Congo que apareciam por toda a costa de N´Gola mas com os mais belos exemplares colhidos na ilha de Loanda pelos m´bikas às ordens dos chefes m´fumos. Estes, mergulhavam na contra costa da ilha retirando-os por meio do arrastamento com cestos estreitos e compridos chamados “cofos”. Dos mesmos eram recolhidos os zimbos que podiam totalizar em média e por cofo, uns dez mil.

No correr do tempo foram surgindo outros meios de permuta tais como o sal, a cera, o cobre, os panos ou libongos, marfim, mel silvestre, as cruzetas e os escravos saídos das guerras entre tribos e depois entre estes e mercadores negreiros. Mas, sabe-se por ensaios numismáticos-arqueológicos que entre Monomotapa e o Catanga corriam entre as classes dominantes desta região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA, (ref.ª de Octávio de Oliveira na revista Notícia do ano de 1966).

Mu Ukulu27.jpg A palavra banta HANDA significa clã entre os ovimbundo e outros povos de Angola; por outro lado, Octávio de Oliveira refere que Leo Frobenius, explorador e fundador da etnografia belga, chamava aos mesmos objectos “handacreuse”, que poderá ser heterografia da palavra flamenga handelkruis, “cruzeta de comércio” ou “cruzeta de cobre”, uma provável origem deste termo.

Quanto ao sal era retirado das minas com o auxílio de escopros e cinzeis nas regiões de entre o baixo Kwanza e o médio Cuango aonde viviam os ambundos, falantes de língua kimbundo. Extraiam este cloreto de sódio das terras da Kissama, do Libolo, da baixa de Cassange e junto aos rios Quionga e Lutoa. Estas minas que eram controladas por chefes, sobas locais, consideravam o sal da Kissama como sendo de qualidade superior aos dos baixios da costa.    

Mu Ukulu28.jpg Teremos de falar de cruzetas ou lingotes indo à raiz da palavra Jimbamba - Palavra crioula e, referida pelo autor, Octávio de Oliveira como formada de jimbo, o nome dado em kimbundo à cíprea angolana (o zimbo, que corria até ao Catanga como moeda) - quantidade de zimbos, coisa de valor. Acrescente-se que o termo perdura no português falado em angola como “imbamba”, os pertences de alguém. Jimbo – do kimbundo yimbu, do Quioco N´zimbu, moeda; palavra que deu origem a jimbamba.

Curioso é o de referir que quando o governador Henrique Jaques de Magalhães fez circular esta primeira moeda em Angola, já ali corriam moedas de 20 e 10 reis – situação que originou um motim entre a soldadesca brasileira situada na guarnição de Luanda. Os luchazes eram hábeis na confecção de manilhas, usavam o cobre que os lobares lhes levavam da Lunda para permutar com cera.

Mu Ukulu29.jpg O mais característico destes objectos foi a “lucana-bua-mwano” que circulou em N´Gola e no Kongo, peça com configuração da Cruz de Santo André com tamanho e espessura variadas. Foram produzidas e usadas a partir do século VIII e, utilizadas como moeda de troca em permutas comerciais, pagamento de impostos, tributos ou alambamento por uniões matrimoniais de umbigamento. Circularam por toda a África até finais do século XIX.  

Depreende-se do trabalho de pesquisa em referência que o lingote de cobre africano ocorre em três formas: a barra cilíndrica, o “H longo” em forma de astrágalo – o “jogo das pedrinhas” – o objecto monomotápico assim denominado por Theodore Bent em The Ruined Cities of Mashonaland, e a cruzeta. E, nesta busca surge o Lerali - uma barra cilíndrica de 45 cm de comprimento com um cone de 160º tendo numa extremidade decorações protuberantes em forma de chifres.

Mu Ukulu23.jpg Libongo foi o nome que veio a ser dado em kimbundo ao “paninho” tecido originário do Loango ou palmeira-bordão, semelhante ao “paninho do congo” ou likutu que circulou como moeda no princípio do século XVII; acrescente-se que é palavra do kimbundo calunda lu m´bongu,”moeda – m´bonge”. Um libongo valia 5 réis em 1695. O libongos de N´Gola dividiam-se em “bongós, sangos e infulas” enquanto os do Kongo eram chamados de “panos lim´kundis. Os panos conhecidos por sambu ou nollolevieri, tinham a condição de objecto-moeda e serviam apenas para vestir os nobres africanos.  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:23
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019
N´GUZU. XXIX

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL 13.02.2019

Angola e os Quilombos – CASAS DE ZUNGU E BATUQUE …

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Zungu – uma palavra de evidente origem africana com significados nas línguas bantos, deriva do nome “casas de angu”. Era nas casas de ANGU onde escravos e libertos buscavam acolhida com alimento barato e ligado às suas tradições alimentares. No início do século XX, as quitandeiras reuniam em torno do seu tabuleiro o ANGU; desta forma simples iam organizando os chamados refeitórios “casas de angu” ou “casas de zungu”.

zungu0.png Uma postura municipal da cidade do Rio de Janeiro publicou pela primeira vez no ano de 1833, século XIX, a proibição destas casas conhecidas e vulgarmente chamadas de zungu e batuque. A penalidade para além da multa estabelecia era de oito dias de prisão para os donos ou chefes destas casas; em casos de reincidência poderia o prazo aumentar para trinta dias. Pode dizer-se ser naquele tempo, que era nestes lugares que se fermentavam as “makas” tal como hoje se designam.

Segundo as autoridades responsáveis pela segurança pública, tempos marcados pela instabilidade política no período regencial, permitia-se avaliar o perigo dessas casas para a ordem esclavagista. Por via da conjuntura de uma corte frágil, anulava-se assim e á partida, eventos sugestivos à revolta de massas populares. Podemos perfeitamente comparar estes lugares de zungu com improvisadas cantinas em lugares de muitos trabalhadores braçais verificáveis um pouco por toda a Luanda, os chamados estaleiros a construção civil, quando do surto de desenvolvimento e, a partir de meados do século XX.

zungu1.jpg Os jornais brasileiros desse então expressavam apreensão, aliadas aos preconceitos que as elites políticas e letradas nutriam em relação aos ZUNGUS. Estes lugares eram associados a barulhos, bebedeiras e falatório, desordens e rixas de negros com prejuízo para os patrões, fazendeiros ou comerciantes fubeiros dos musseques, favelas ou cortiços. Portanto, não seria muito diferente da gestão colonial em Angola pelas administrações; estou a recordar-me do chefe POEIRA que estava no mando do posto Administrativo de Belas.

Podia assim considerar-se este conjunto social como cortiços de negros ande se reuniam vagabundos ou gente dada às imoralidades. No século XIX as casas de zungu começaram por ser importantes espaços criados por escravos, libertos e livres pobres como lugar de convívio, busca de trabalho mostrando indícios de uma maior autonomia com melhoria de vida a substituir o quadro de cativeiro e exclusão. Ali poderiam encontrar abrigo temporário, base para fugas longas, hospedagem e solidariedade.

zungu2.jpg Logicamente que na união de vontades, surgia a diversão, o jogo, a festa, a rebita, o forró, não raro o consolo religioso de um pároco mais foito a acudir às aflições quotidianas. Todo o zungu tinha obviamente a cumplicidade senhorial no encobrimento a escravos não alforriados. Também na já flácida dominação escravista, muitos senhores liberavam seus escravos para folgarem à noite e até dormirem fora.

Em algumas regiões do Brasil, como Pernambuco ou Pará, próximo a estes lugares de “casas de zungu” foram identificadas manifestações clubistas definidas por folcloristas, capoeiristas e, ou linguísticas sob a denominação de “calogi”. Nos musseques envolvendo Luanda, capital de Angola observavam-se manifestações idênticas, lugares aonde gentes do povo de raça negra se embebedavam com aguardente, vinho do M´Puto, T´chissângwa, kimbombo ou uma qualquer bolunga de preço mais conveniente.  

zungu3.jpg Negreiros, funantes, pombeiros, fazendeiros e fubeiros quer no Brasil quer em Angola, foram deixando rasto contado por séculos e sobas e, escritos de padres, missionários, aventureiros ou administrativos. Estima-se em mais de cinco milhões de pessoas transladadas de 1519 a 1867 como escravos, para o Brasil e, a uma média anual de 12 500 almas. A quarta parte morria entre a captura e o porto de embarque ou na travessia do Atlântico.

Numa qualquer duna de São Luís do Maranhão, ou no interior de Poconé de mato Grosso do Norte, gente encarquilhada na idade, ainda hoje, se sentam no terreiro que cultivam os oxalás, ou orixás; negras deitando fumo pelas orelhas, ou jogando búzios, antigos n´zimbos de seus passados kotas, ou caurins dos Pais de Santo falando banto em imaculado branco ou linguarejando ao deus N´zambi ou até N´Kulukulu, levando-nos a ver o forró numa qualquer aguarela tropical. A lavadeira que andava em áfrica, lá na Luua com meu filho M´fumo Manhanga fumava assim um troço de tabaco com a cinza e fogo para dentro; dizia assim: -Patrão, é para durar!

O Soba T´chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:42
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2019
N´GUZU . XXVII

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL11.02.2019

Angola e os Quilombos... Cabe aqui referir a dança kizomba de hoje, que não é mais do que fingir o acto de praticar o coito…

Por

soba15.jpg T´Chingange . No Nordeste brasileio

Zumbi, nasceu livre em terras do Nordeste em 1655 e morreu a 20 de Novembro de 1695. Em homenagem a todos os negros que lutaram para se libertar do jugo da escravidão o Brasil considerou este dia como Feriado Nacional “ O dia da Consciência Negra”. No final do século XVI as terras Pernambucanas eram das mais prósperas das novas colónias portuguesas. Havia 66 engenhos na região e, e no litoral funcionava já toda uma estrutura que permitia o escoamento dos produtos da terra. A cidade de Recife a cada dia que passava, ficava mais organizada e urgia pôr ordem lá no lugar da “Cerca dos Macacos”, acabar com os mocambos daqueles guerrilheiros com características de luta bem definidas e com algum enquadramento nas chefias.

Aqueles fujões, usavam um tipo de flexa, zagaia, lança ou um cajado nodoso em tudo semelhantes com as usadas pelos gentios junto à costa dos Dembos em Angola. Homens e mulheres usavam enfeites de muito capricho feitos em argolas com metais trabalhados na bigorna. Tatuavam o corpo com cortes de estiletes afiados no peito, braço e até nos lábios e língua. As mulheres furavam as orelhas para nelas introduzir argolas de coco ou missangas. No lábio superior e nas abas do nariz introduziam enfeites de marfim, à semelhança do uso na região de Matamba, Kassange ou Kuvale.

kilo8.jpg ZUMBI O HERÓI DA CONSCIÊNCIA NEGRA - As tatuagens eram um uso habitual das terras de N´Gola para serem reconhecidos, dar a saber a todos qual a sua ascendência, era a sua cartilha de identificação. Recordar que a escrita era de pouco uso e a história passava de pais para filhos por transmissão oral. Por este motivo faziam e ainda usam reunir junto à mulembeira ou mulungu, uma árvore frondosa e nobre por nela se abrigarem as assembleias do povo, sanzala, mocambo ou kimbo.

Nos kimbos melhor organizados há uma casa aonde se reúnem para fazer tertúlias, falar com os mais-velhos Kotas e saber para poder transmitir aos vindouros. A essa casa grande, normalmente aberta e circular, chama-se Jango. Nos aglomerados urbanos surgem os musseques (favela do Brasil) e, quando muito reúnem-se numa casa de assembleia, salão social, clube ou missão duma qualquer igreja (as mais normais são: a igreja Evangélica, a Igreja do Corpo de Deus e do Sétimo dia). Também é de salientar o conhecimento da cura através de plantas do mato, coisa que os quimbandas faziam nas suas terras de origem por saberem já usar unguentos, chás e sempre o exorcismo em obediência ao deus N´Zambi.

kilo7.jpg Nas artes de batuque, o bate pé da dança em círculo tipo a que se veio a chamar de xanxado no tempo do cangaço; a umbigada da massemba e trejeitos que vieram a resultar no merengue e semba brasileiro moderno, sempre com muito erotismo, estímulo à procriação. Há registos duma dança marcada por umbigadas com movimento de ancas acompanhadas por batuque, violas ou violões a que chamaram de lundu. Dizer-se por isso que os negros apesar da dura lei de escravidão, não haviam perdido o gosto pelas danças.

Muito recentemente, tivemos a lambada, o kuduro e a tarraxinha. O lundu consistia num movimento particular das partes inferiores do corpo, movimento que os europeus de então não sabiam imitar, mais por ser considerada indecente do que por outro qualquer motivo. Cabe aqui referir a dança kizomba de hoje, que não é mais do que fingir o acto de praticar o coito num estilo de harmonia a que dizem ser uma forma de arte!

kilo5.jpg Xiiiii! Nossos avôs diriam que também seria uma dança de sem vergonhice, dança de pretos sem decência. Háka! Patrão não fala assim! Mas em verdade podemos até ver nestes movimentos alguns trejeitos de fandangos, chulas com requebro de ombros com folclore com referências de roda, movimentos de mataco, bunda, passos ondulados e engraçados como o merengue.

E, podemos ter violas, cavaquinhos, bandolins, flautas, urucungos, uma espécie de berimbau com marimbas e quissanjes a juntar ao estalar de dedos e o bater de palmas ritmadas. E, isto faz parte dos fados, das chibas ou polcas e modinhas entrelaçadas em brincadeiras circenses a culminar no maxixe. Tudo isto muito repleto de movimentos coreografados no acaso do gosto e banga da Luua, tal e qual como na aldeia dos macacos dos Palmares ou festa de roda da Muxima do Kwanza com saltos de capoeira de bassula ou esquindiva.

kilo4.jpg Vale a pena referir a luta da bassula, finta ou esquindiva utilizada pelos pescadores imbindas do Kongo (Cabindas e Boma do N´Zaire), os Muxiloandas da ilha da Mazenga (também conhecida por ilha das cabras pelos antigos Tugas) na baia de Loanda e Mussulo (Kaluandas ou Camundongos) na região dos Dembos. Tudo isto, muito semelhante com a capoeira com passos de dança a esconder truques e quedas de luta.

 A bassula da foz dos rios Dande, Bengo e Kwanza, no brasil derivou para a Capoeira, uma forma de dança para ludibriar o patrão fazendeiro e usar a ginástica de dança como luta do dá e larga sem agarrar ou usar a força do adversário com suaves e mágicos “toques de bassula“ ou “toque de finta” como eu próprio fazia em tempos de candengue num lugar chamado de Maianga ou Manhanga da Luua, lugar de águas e cacimbas boas…

 (Continua…..)

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:18
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019
MU UKULU . XIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente05.02.2019

Diz Luis: -Tive também o privilégio de ter como explicador na disciplina de Matemática o escritor, ensaísta e etnólogo Óscar Ribas.

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

selos1.jpg O T´Chingange, por aqui anda esticando os ossos, construindo a cada passo uma estória ao seu modo; um mussendo, um missosso e, entre Ave Marias encavalitadas de prefácios que se baralham, num logologo esquecido e, vem outro e mais outro muxoxo como que cumprindo ordens dos espíritos de quem risca na areia em sinais do cho-ku-rei, ou sei-he-ki e outros símbolos indecifrados saídos da Luua. Assim, na Pajuçara de Maceió do Brasil, um lugar nobre e muito cheio de adrenalina, vou ler em voz alta um extracto de Luís Martins Soares na primeiríssima pessoa. Em verdade, fanei suas falas na página dos Amigos da Maianga, nosso Bairro

Mu Ukulu0.jpg Extracto do meu livro "Mu Ukulu Luanda de Antigamente" - Bairro da Maianga - Nasci no Bairro da Maianga, no dia 8 de Julho de 1934, no começo da Rua António Barroso, sentido quartéis, lado esquerdo; existiam ali umas casas enfileiradas de construção antiga e, foi numa delas que nasci. Com o avançar do progresso, foram mais tarde demolidas para no local ser edificado um edifício de apartamentos. Mais abaixo quem descesse a Rua no sentido do Regimento de Infantaria e do lado oposto havia uma grande horta murada conhecida por Horta do Raposo.

Para afugentar os intrusos da sua propriedade o dono tinha eficazes grandes cães de guarda e serventes que além de cuidarem da horta, também eram guardiões. Perdi as contas das vezes que juntamente com amigos da minha idade saltávamos o muro para roubar goiabas e sape-sape. Algumas vezes o guarda incitava os cães a perseguir-nos e então era aquela correria infernal que terminava após transpormos o muro.

maian10.jpgTenho, ainda hoje, lembranças desse tempo na forma de cicatrizes provocadas pelos cacos de vidros sendo pisados pelos pés descalços. Mais tarde moramos (ano de 1940) perto da mercearia do senhor Álvaro Dias dos Santos também na Rua António Barroso. O meu pai era proprietário de duas casas e teve como inquilinos um casal com dois filhos cujos nomes eram o Arquimedes, que mais tarde foi agrimensor e o Mário António Fernandes de Oliveira aluno brilhante do Liceu Nacional Salvador Correia que se destacou como escritor e poeta - já falecido em Portugal no ano de 1989.

Tive também o privilégio de ter como explicador na disciplina de Matemática o escritor, ensaísta e etnólogo Óscar Ribas. Aos 36 anos de idade ficou invisual, mas apesar desse problema, ajudou-me bastante com as suas explicações particulares. Morava no Bairro da Maianga perto da linha férrea numa casa modesta. Havia uma estação dos Caminhos-de-Ferro perto do Largo da Maianga conhecida por Estação da Cidade Alta. (Ficava bem perto da Bracarense, do Colégio Moderno e no bem conhecido largo do Sinaleiro da Maianga).

Mais tarde devido a vários factores relacionados com a venda das casas fomos morar no mesmo Bairro em uma casa de madeira com uma grande horta, com mamoeiros e, aonde eram cultivadas hortaliças - depois de colhidas eram dispostas num tabuleiro que o servente (monangamba) com ele apoiado na cabeça percorria o bairro vendendo de porta em porta. O produto da venda tinha como destino o pagamento do salário dele de servente e, para ajudar a pagar as despesas da casa pois que o salário que o meu pai auferia como subchefe da Polícia era insuficiente.

maianga0.jpg Normalmente aos domingos, a família levantava-se cedo e, devidamente municiados com um farnel, íamos a pé até à Praia do Bispo atravessando a Horta do Hospital, terreno em mato, situado por detrás do Hospital Maria Pia. No extremo do morro da Praia do Bispo, uma pedra banhada pelas águas do mar era o local ideal para os adeptos de piqueniques que como nós, ali faziam trampolim para os mergulhos, diga-se, um local de muitos afogamentos. Junto á orlas marítima e no sopé do morro, viam-se alinhadas algumas cubatas de pescadores com os n´dongos (canoas) encalhados na areia.

Na década de 40, na Maianga antiga, havia uma maior concentração da população de origem europeia. Embora existissem poucos moradores negros, posso afirmar que não era notória segregação entre brancos e pretos pois era praticamente inexistente! No quadrilátero formado pela Rua de António Barroso e Rua Cinco de Outubro até à Rua de Guilherme Capelo já havia um traçado das vias definido com casas de construção feitas de alvenaria, mas no restante do Bairro e nas traseiras do Hospital Maria Pia até à Praia do Bispo as casas eram dispersas.

may1.jpg Aquelas casas, surgiam ao gosto do proprietário, sem qualquer projecto arquitectónico nem plano urbanistico; a maioria delas não tinha instalação eléctrica nem rede de águas e eram construídas de pau-a-pique, de barro - adobe mas, também de madeira e zinco. Os acessos eram em terra-batida havendo vários carreiros de pé posto; recordo a muita dificuldade de neles transitar, principalmente no período das chuvas tropicais. Nesse então, ainda podíamos ver embondeiros dispersos, mangueiras, matebeiras e cajueiros.

Muitas vezes e após uma chuva intensa a criançada deslocava-se até o Rio Seco, que realmente era rio de águas caudalosas somente no período das chuvas. Quando assim acontecia, era ver os candengues brincando com as águas barrentas e em torrente vindas das barrocas situadas bem defronte dos Regimentos de Infantaria e Artilharia dando de frente para a Avenida do General Norton de Matos e, onde existia uma Estação de Tratamento com depósito elevado.

missosso2.jpeg Esta avenida assim como parte da Rua de D. António Barroso era em terra. As barrocas entre estes limites foram mais tarde urbanizadas para nelas ser implantado o moderno Bairro Alvalade. Por detrás do Hospital ficava uma grande área conhecida por Horta do Hospital, onde não havia vestígios de plantações, a Samba e as Cacimbas. Na Maianga, perto do morro Catambor, existia uma cacimba conhecida por “Maianga do Povo” de construção antiga; provavelmente construída entre 1641 e 1648, quando da gestão Holandesa (Mafulos). Esta tinha acesso ao interior por uma escada que desemboca em um piso aonde podíamos admirar a água captada dentro dela - um gosto salobro. Muita gente humilde da periferia, abastecia-se dessa água.

Outra cacimba conhecida por “Maianga do Rei”, ficava bem perto da Praia do Bispo; apesar de ter passado perto dela várias vezes, nunca tive curiosidade de me aproximar para a observar. Um tiro de canhão, até onde fosse audível, anunciava à população que era meio-dia para acerto de relógios e paragem das ave-marias - hora do almoço. Alguns estabelecimentos fechavam portas reabrindo mais tarde. Assim era a nossa Luanda nos finais de 40.

selo12.jpg No cimo das Barrocas, local dos quartéis da Companhia Indígena, lá pelas 22 horas ouvia-se o toque de recolher. O toque de clarim pelo corneteiro era acompanhado por algum tempo pelos tambores. Era hora dos candengues irem para a cama, em verdade um toque de horas para toda a população do bairro. O céu, de vez em quando, era varrido pela luz de holofotes potentes como que esquadrinhando o espaço aéreo; creio, serem exercícios obrigatórios que perduraram após a segunda guerra mundial e também como referência para os barcos de guerra, fundeados na Baia de Luanda.

Na estação da Cidade Alta, na Maianga após a travessia da Rua Guilherme Capelo, sentido dos Musseques, mais tarde Maternidade e Igreja Sagrada Família, existia um túnel onde algumas vezes com outras crianças nos aventuramos dentro dele. Era do desactivado ramal do Caminho de Ferro de Luanda via Malange. Na Rua António Barroso a única padaria existente de nome Aliança abria as portas de manhã que, depois fechava e reabria na parte da tarde. Os postos de venda dos papos-secos surgiram anos mais tarde. A padaria fabricava e vendia somente pães contrariamente ao que acontece nos dias de hoje em que para além de pão servem cafés, fazem pasteis e assam leitões.

Luís Martins Soares

(Continua…)

Compilação de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:17
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019
MISSOSSO . XXXI

N`ZINGA E O CAVALO ALADO – 2ª de Várias Partes

- A onze mil metros de altitude em um Boing A.340 - 31.01.2019

Rodando a bobine em paratrás, voltei a Ot’chakáti, a Oschikango da Namibia, e a Ondjiva, antiga Pereira D´Eça …

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Dia vinte e dois de Janeiro. Ainda em Guarulhos, Aeroporto Internacional de S. Paulo esperando as malas vindas do M´Puto no carrocel nº 3, voo TAP, continuei a olhar para o grupo de três homens e uma mulher no carrocel ao lado, um voo vindo de Johannesburg. Não tive dúvidas de que aqueles eram efectivamente Hoji-ya-Henda e Monstro Imortal, heróis da guerra do Tundamunjila mais a Rainha N´Zinga. Fantasmas ou não, tinham corpo com olhos e tudo o mais como um qualquer de nós.

O outro matulão, mulato de feição e de estatura gigante, mirando bem a t´xipala dele não me era totalmente desconhecido. Havia qualquer coisa a dizer-me que já tinhamos estado juntos algures na Namíbia. De início não me pareceu mas, fiquei olhando especado para ele a fim de tirar duvidas e foi quando se virou de frente que me deu um vaipe de lampejo; era ele! O tal que fugiu morto pela fronteira de Namakunde. Mais tarde explico como foi esta cena passada entre a Caála e a Chibia.

n´zinga.jpg Também me reconheceu! Agora tinha a certeza, era ele! Com a minha insistência no olhar, ele dissimuladamente fez um aceno meio escondido, levou a mão à boca e com os dedos indicador e polegar, correndo pelos lábios fechados e como se ali tivesse deslizando um zipe. Era uma nítida indicação para eu ficar mudo e calado. Acenou de costas para os demais com a mão direita, movimentos curtos de baixo para cima repetidos com vice-versa para que me mantivesse ali; Kinga aí pá! Pois ali fiquei!

Suavemente e em surdina afastou-se do grupo, levou a mão esquerda ao bolso, tudo muito suave na dissimulação e aproximando-se de mim, sem nada dizer meteu-me um cartão no único bolso da minha camisa. Nem ele nem eu falamos e, assim fiquei relampejando surpresa sem saber ao certo o que dali poderia advir. Juro que ainda fiquei um pouco nervoso esperando que algo de pior pudesse acontecer. Tinha agora compenetrado a ideia de que este artista era um quase mágico.

fala4.jpg Tanto assim que em mente, já ensaiava a forma de me defender, se por esquindiva ou por bassula mas, seus gestos foram tão cândidos que esfumou meus receios. As minhocas em meu turbilhão de raciocínio estavam entorpecidas e, muito curioso por ler fora de vistas o que diria seu cartão-de-visita. Surpreendeu-me tal astucia, de tudo fazer com tanta destreza dissimulada; seus kambas de viagem de nada se aperceberam porque entretanto o matulão curibota, pegou um carro de apoio, desses de transportar bikwatas com malas e, de novo se acercou deles sem levantar vislumbre de dúvidas.

Assim sozinhado, comentei para mim, só em pensamento: - Tu que conferenciaste com uma mamba negra de Belize no Mayombe, que fumaste cigarros caricocos com um pássaro no lugar da Manhanga de Luanda, que pulaste o poço de Ot´xicoto Lake com MacGyver e que morreste pela segunda vez na curva da morte de Kalukembe, também estás preparado para tudo. Para quê esse nervosismo!? Tentei acalmar-me...

fala0.jpg Defraudado por minha própria lentidão no raciocínio, rodando a bobine em paratrás voltei a Ot’chakáti, a Oschikango da Namibia, e a Ondjiva, antiga Pereira D´Eça e, recordei que a poucos quilómetros a Norte de Tsumeb, encontrei o angolano MacGyver, zelador do buraco de sonho Otjikoto. Foi a partir deste tocador de baladas enlatadas que se proporcionou o encontro entre nós.

Tudo começou por este furtuito encontro mas havia reminiscências escondidas que pouco a pouco foram aflorando; vamos ter tempo para escalpelizar esta maka, creio! Recordo que MacGyver preto de nascimento, tinha uns olhos visgosos, que tocando com gula a vida de simpatia numa velha viola, encantando gasosas extras aos fujões e turistas.

monteiro9.jpg Pois, os turistas do buraco Otjikoto, porque eram escassos, requeriam atenção desdobrada. Tenho quase a certeza que foi aqui que conheci este curibota saído de Angola, um militar fugido da UNITA depois de morto. Posso explicar mais tarde este sucedido mas agora desesperava para poder ler o cartão que fazia arder meu coração. Estupefeito pelo rápido curriculum dos ácaros da minha vida daquele então, pestanejava incredulidades entre as brumas lembradas.

Foi naquele lugar distante de tudo, na terra do nada, junto a um poço de fundura desconhecida, a subir e a descer na maré dos oceanos que zuni uma pedra nas suas águas que por três vezes chispou a toalha lustrosa da serena água. Viver, é lembrar mas, quando a memória nos atormenta, os minutos compridos a parecerem horas, moendo e, moendo como uma dor ciática, nos arrepia a memória.

poluição.jpg A caminho do terminal dois dos voos domésticos de Guarulhos, pude vê-los a fazer o check-in no Sector E; a placa por cima do balcão indicava o voo IATAN para Cuiabá; isto fica em Mato Grosso do Norte! Que irá esta gente da pesada fazer para Mato grosso? Será que vão só ver a Chapada do Guimarães? Aqui tem coisa!? Já bem recostado no Boing A.320 da Avianca, cinto posto a caminho de casa, pude ler o cartão misterioso. O mesmo tinha uma ponta quebrada como era de boa norma antiga para desejar o reencontro.

Pois o cartão de rico timbre, dizia no canto superior esquerdo: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais. Tinha a indicação de três telefones, um deles com o DDD da cidade e estado. Quase tinha a certeza de estar a seguir uma tramóia de avultadas proporções. Nem sei se lhe telefonar porque quem tem cú, tem medo e eu não tenho rabo de lagartixa. Mas, algo terei de fazer para saber o enredo, pois!... Iremos ver…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:33
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Domingo, 27 de Janeiro de 2019
MISSOSSO . XXX

N`ZINGA MONTADA NUM CAVALO ALADO1ª de Várias Partes

- A onze mil metros de altitude em um Boing A.340 - 27.01.2019

Não há palavras para vos descrever o que senti quando vi a assombração lá no alto - sobre as nuvens…

Por

soba15.jpg T´Chingange (No Nordeste brasileiro)

A bordo de um avião A.340 andando a mais de 800 quilómetros à hora e, já nos céus do Brasil, risco meu itinerário no caderno amarelo número onze; tudo isto a fim de manter viva a gravura da memória. Com uma esferográfica bic vermelha, destaco aqui o pensamento para me recordar que afinal, não sou o fim de mim. Quissondeando sobre muitas picadas e com o nascimento de meus dois rebentos em anos já distantes, revejo-me neles na continuação.

E, porque não sou só ossos dispersos, sem o sono a pegar, luzes enfraquecidas, penso em kimbundo da Luua recordando as falas de nossa terra, também da deles, meus filhos e filhos dos outos também; assim repeti “ki tuexile tu ngó ifuba iatujunkura” - ainda não somos só ossos dispersos, “ifuba yetu iokune kala jimbuta” - Nossos ossos serão semeados como sementes…

favla1.jpg Recordando assim as falas de Luandino Vieira no Livro dos guerrilheiros, fortalecido nas almofadas dos tempos que virão, mancho a palavra nas pintas da pele de onça, porque nelas, a chuva não as tirará. Sinto-os na sombra da minha frente e, no escuro de mim mesmo, tenho a lâmpada da asa piscando o escuro do céu lá fora, num acende e apaga com uma temperatura de menos 45 graus centígrados.

Assim no quizango, feitiço no livro de capa amarela, recordo os mwadiés camundongos fingindo ser sapientes e, que só mostram o Sputnik de Agostinho Neto num jeito de perfumar seu ranço seboso, engraxando as cores de seu aparos sem conseguir dizer nada que relembre sua caligrafia de verdade.

ximbica2.jpg Sem saber explicar como é o cheio do peixe podre, da fuba azeda e até azeite de palma feito por um branco cangundo, mesmomesmo de ordinário sem educação. Assim muxoxando feito mabuba, com o indutor a queimar o induzido, afagando minha onça, libambo minhas jimbumbas de guerra pra libertar meu ilundo. Como é então? Pergunto-me!

Assim só mesmo sou uma árvore cheia de música que caminha e assobia todos os pássaros de sua folhagem – Assim, assobiando nos passarinhos vi fora da vigia, janela do Boing A.340 fazendo raviangas ao redor das luzes de Minas Gerais um cavalo branco no alvorecer dum dia coberto de nuvens brancas. Será? Foi? Disse assim só no pensamento.

luandino2.jpg Era um cavalo branco alado, branco como as flores do cafeeiro, também como todas as outras nuvens. Nele, no cavalo, vinha escanchada a rainha N´Zinga feita palanca. Nas penas longas das asas podia ler TAAG - Transportes aéreos de Angola. Sacudi meu sono, minha penumbra de sonho e perguntei ao meu parceiro Sundinho de nome, o tal agente turístico da Star que leva curiosos a ver os chimpanzés dorso de prata na Republica Centro Africana, e Quénia.

Será possível!? O quê? Fala Sundinho estremunhado! Vi a rainha N´Zinga montando um cavalo alado aqui ao lado, disse! Caramba - teus sonhos são perigosos, disse ele. O que tu viste, foi uma miragem com a contraluz do dia a nascer! Dorme, que o teu mal é sono, disse assim de forma quase definitiva. Olha, olha, falei para ele afastando-me um pouco do buraco janela.

hoji1.jpg Só vejo a luz deste Boing a pestanejar, nada mais! Olhei e também desta feita, nada mais vi do que isso! Como é que isto foi acontecer, logo comigo que sempre sou tão verdadeiro! Foi quando Sundinho veio com uma nova ainda mais surpreendente: - N´Zinga ainda não morreu, quersedizer disseram-me que vive nas Arábias e, que de vez em quando vai até ao Rio de Janeiro fazer palestras a incitar ou conciliar os moradores do morro. Hum! Será?... Fiz assim como o RF, que se diz um genuíno kaluanda!

Vive sim! Rodeada de xi-colonos, fiotes e fiéis kicongos fingindo serem os Boko Haram, afirmou definitivamente Sundinho… Agora sim, posso apagar meu desenho, dormir e esquecer as falas do seminarista camundongo RF, me coloco no desenho, lá onde ele me mandou. E, assim sacudido, saltei do coxilo em salto de onça.

n´zinga.jpg E, foi quando estevávamos para levantar as malas no carrocel três que reparei na figura de três homens e uma mulher esperando malas no carrocel quatro vindo do Além. Só poderia ser! Assim admirado cutuquei meu companheiro de tranças rosqueiras. Estás a ver o mesmo que eu? Perguntei em voz pequenina de medroso e apontando para o grupo não distante de nós. Não são quem eu penso que são, serão!? N´Zinga, Hoji-ya-Henda, Monstro Imortal e um outro matulão desconhecido de mim.

Não pode ser! Resposta imediata mas de todo inconclusiva. Sundinho afinou a vista; semicerrou o assombro juntando-o ao espanto e falou: Mas, que parecem ser, lá isso parece! Claro que só poderiam ser fantasmas pois que em períodos bem diferentes tiveram destaque na história de Angola.  Assim meio aturdido relembrei seus nomes: José Mendes de Carvalho, mais conhecido pelo nome de guerra Hoji-ya-Henda, um comandante das FAPLA morto em combate e Jacob João Caetano, popularmente conhecido como Monstro Imortal que fez parte do chamado Fraccionismo do 27 de Maio. O outro personagem, era-nos totalmente desconhecido.

congo00.jpg Afinal, parece que os mujimbos que ouvimos lá teriam razão de ser: Que um grupo organizado de famosos chefes e guerrilheiros de Angola estavam a incutir vontades independentistas nos morros do Rio e nas demais favelas do Brasil. Isto, teremos de averiguar! Disse assim neste tom a Sundinho! Pois! Lá terá que ser - retorquiu. Tal como Luandino, muitas vezes, anestesio-me de incultura para entender a sapiência dos outros! Atiçar as labaredas - Não se admirem de ler vulgaridades saídas de mim porque é assim que nos desentendemos! Mesmo a dormir, ué … a onça continua a mexer a cauda…

(Continua…)

HPIM1302.JPG GLOSSÁRIO:

Quissondeando: - busca, fazer zig-zag como a formiga kissonde; Quizango: - feitiço; Mwadié:- Senhor com poder de decisão; Camundongo: -, natural de luanda, rato; Muxoxando: - fazendo estalidos entre a língua e o palato, trejeito de expressão; Cangundo: - branco ordinário ou sem educação; Libambo: - Corrente, escravos em fila, presos na mesma corrente; Jimbumbas: - tatuagens, marcas de reconhecimento do uso gentílico; Mabuba: Cachoeira, água em queda, figurativo de muito choro; Ilundo: - espírito; Ravianga: esquindiva, finta, fuga habilidosa; Boko Haram: grupo de guerrilheiros de cariz muçulmano, radicais perigosos; Coxilo: De cochilar, dormência, sonâmbulo.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:23
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Sábado, 26 de Janeiro de 2019
MUXOXO . LIV

VIDAS MÁGICAS DO MU UKULU – HUM … AIIUÉ

FÁBRICA DE LETRAS DO KIMBO – 21.01.2019

As aventuras não têm tempo, não têm princípio, nem fim - estão num dia atrás do outro...

Por

soba15.jpgT´Chingange – Em ALAGOAS  do Brasil

As verdades são sempre multifacetadas, metaforizadas com rigor de paradoxos, às vezes sim e outras não. No mundo imperfeito, também muito redondo nos silêncios, acho melhor nem referir o nome do patrão da Banda porque as circunstâncias medrosas não permitem que abra uma nova frente de guerra sem haver razões independentistas. Hum! Com uma noite de permeio entre os dias, sempre descubro novos pedaços de infinito. Às vezes no papel de T´Chingange, quase acredito que eu mesmo, seja um conto contado, só por mim e para mim. Destilando existência, imaginar estórias, misturar convivências com a natureza.

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Em 2002, transladei-me de férias para Luanda com saudade de comer maboques de Viana e tamarindo do meu antigo quintal na Rua Dr. José Maria Antunes que ainda mantem esse nome na cidade da Luua do país da banga. Logo no primeiro dia em mês de Maio, percorri a Marian Nguabi, António Barroso de outros tempos. Fiquei na Rua da Maianga, um quintal com um embondeiro cercado de chapas rosnantes e tambores espalmados de onde saia um ruído agudo.

maianga do araujo.jpg O esmerilador, amigo do meu amigo Massa, o bate-chapas, pelas seis da manhã começava a ganir; era ali que reparavam uma boa parte da frota de carrinhas táxi dos candongueiros luandinos, kamundongos ou kaluandas. Ficar num quintal assim, com esculturas de clássicos despidos, esqueléticos poisos de galináceos, patos e gansos terroristas, é um privilégio da maior cotação; até havia um pinguim do Cabo perito na condução dum NSU parecido com uma cafeteira, o volante era seu, quase todo o  tempo; era um NSU indefinidamente verde.

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A casa ainda esburacada da guerra recente, do meu amigo Xico curibota, zelador de mambos, era um quintal de carcaças velhas, DKVês, Chevroletes, Fordes, Dodges, Urais, GMCês, Unimogs e bielas ao destempero, enferrujadas até o tutano do veio, pintadas de merda branca da feliz bicharada. Ali só não havia máquina de fazer arcos-íris.

maianga0.jpg Recordando "edecéteras" vi-me a percorrer toda a velha Maianga, subir às acácias da rua vinte e oito de Maio para espreitar os filmes do clube Malhoas, vuzumunando os cipaios que não queriam ver macaco em cima das árvores a ver filme de borla. Zorba, estava sempre por perto, cowboiadas era o que mais gostava de ver e, tudo corria bem enquanto o cipaio não abanava a árvore; uma noite caí em cima desta autoridade e descomposto, o tipo desbivacado, nem tempo teve de puxar pelo cassetete. E nós, maleducados do Prenda e Katambor, riamos que nem perdidos, fazendo pouco do polícia com cofió.

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Velhos tempos. Tempos do velho Pestana que nos dava borlas de entrar no cinema depois do primeiro intervalo. Nesse Maio de 2002 andava à procura duma qualquer felicidade, mesmo que fosse de kazucuteiro gerando negócios de escapes, bielas, cambotas, chassis e, coisas de atravessar qualquer chão sem lei regulamentar, refastelar-me no Mussulo entre kotas gordos de ricos e gente gira do mundo cósmico, desfrisadas m´boas e homens-a-fingir, feitas zebras, nem preto, nem branco, simplesmente sem cor.

maianga9.jpg Há um ano atrás e para comemorar a amizade de muitos anos, um antigo Visconde do Mussulo, senhor de Cienfuegos, conhecedor de todas as cartilhas da guerrilha e adjacências, vanguardista mangonheiro, ofertou-me uma planta de maboque. Foi a mais significativa prenda que recebi nos últimos tempos. Uma coisa viva. Disse-me que a semente foi trazida pelo Embaixador do Kacuacu, Jonas Boniboni.

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Sendo mazombo de Angola na criação e, vivendo entre astucias enganosas e superstições intestinas, falo e penso como se fosse um africano preto na cor, captando como um íman as feitiçarias das memórias feitas tradição. E, hoje numa conversa puxa conversa fomos até longe, naquelas conversas de botar fora porque, ou nunca chegam ou já se foram. E falamos das coisas do mundo actual, das artimanhas que nos arranjam para dar volta ao miolo. Desta vez escorregamos nas falas indo longe num sentido e outro do tempo, ou seja, assim mesmo, para trás e para a frente.

coycoy3.jpg Pois sendo eu feiticeiro t´chingange lá terei de vos contar que na minha primeiríssima geração, também e em delírio de voar, fiz experiências com asas de palha, atirando-me de medonhos penhascos a imitar as modernas asas delta. Com asas mecânicas às costas abanava-me só átoa até me esborrachar lá embaixo e, até ao dia que me esqueci de ser pássaro.

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Pois, surgindo com os olhos esbugalhados, também naquele jeito curibota, sem pestanas e ar trocista meu amigo, O Visconde do Mussulo da Luua, hoje surgiu assim do nada, na curva do parafuso, fazendo banga no seu BMW, duzentos e tantos cavalos de cilindrada, bem perto do ninho da gaivota, melhor da cegonha e, lá me mantive comentando isto e aquilo como já disse e, enquanto falava cismei em dizer-lhe mas nada disse. Fiquei calado! Hum! Aquele maboque que me ofertou, não era pé de maboque. É mesmo uma planta do mato sem classificação e, com espinhos. Pois! Não tive como lhe dizer, só ficou mesmo a vontade…

luua24.jpgGlossário

banga – estilo do kaluanda, calcinha; mulembeira – árvore ou figueira de grande porte, de onde se extrai o visgo; kota – mais velho, idoso; Mussulo – ilha a sul de Luanda; kazucuteiro- bandalheiro, dado a embustes; curibota – manobrador de interesses, bem cotado em mexericos; haca! – exclamação por admiração, espanto em Umbundo (generalizado por toda a Angola); Kinaxixi – mercado de Luanda (Património arquitectónico de raiz colonial, destruído recentemente); mambos – muxoxos, problemas, coisas de boatos; kamba - companheiro, camarada; candongueiro - taxista faz-de-conta, carrinha de caixa aberta ou fechada que dá boleia a troco de gasosa – uma quinhenta, kumbú, dinheiro vivo, o chapa; mangonheiro - gente que só gosta de jiboiar, preguiçoso mesmo.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:36
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2019
MU UKULU – XII

MU UKULU...Luanda do Antigamente15.01.2019
Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! Háka…
Por

soba0.jpegT´Chingange – No M´Puto

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil 
África e particularmente Angola, tem de escrever a sua própria narrativa, precisa de se pensar ancorando-se em dados credíveis e coerentes, fazer uma triagem do que está mais aquém ou além do real, excluindo os característicos inchaços de quem está no mando, de quem coloca as virgulas no texto alterando o contexto. É sabido que África cresceu num cenário de crise global, que Angola passou por uma história de permanentes sobressaltos na fase de Colónia, ou Província Ultramarina do M´Puto mas, seu crescimento foi visível nesse entretanto - cresceu!
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É sabido que da turbulência Colonial, das rusgas com cipaios, do agarra preto, das filas de gente descalça e, em fila, levados à força ao trabalho gerido pelas administrações, administradores e chefes de posto ficaram marcas dolorosas; dos contractos para as roças de café ou algodão e, que após a guerra dos cipaios, veio a guerra das matas com G3 e kalashnikoves com Luanda sempre em crescimento. Da psico ou psicossocial, da guerra do kwata-kwata até à das matas e das catanas, veio a libertação com monacaxitos, bazucas, canhões com e sem recuo e o tundamunjila - t´chindere. 

mux1.jpg  Em todo este trajecto com muitas mortes, muitas armas poderosas, Loanda, Luanda ou a Luua, foi a charneira de tudo e de todo o comando, de todas as tragédias, convulsões e, de todas as sequelas para nela sobreviver. E, porque cada um tem sua própria visão, que muitas vezes até é ficcionada, para se chegar ao miolo substancial de cada lugar, musseque, bairro de cada cidade ou qualquer kimbo, teremos de somar ou subtrair narrativas defensoras de interesses que lhe são adjacentes, justapostos adjectivados nas fantasias empoladas que por vezes, muitas vezes, são alheios à fidelidade dos factos. 
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Queiramos ou não, foi em Luanda que mais se sentiram as mudanças; também é verdade que esse crescimento não foi nem é, ainda, qualitativo. Luanda, não é só mutamba! Não se tem gerado empregos suficientes, os níveis de pobreza continuam elevados e a dependência das matérias-primas contínua em alta. No Mu Ukulu, Luís Martins Soares descreve Luanda como a sentiu, como a viveu, sem aumentar ou diminuir as lentes de sua objectiva.

luanda4.jpg Falando dos usos e costumes da sua, nossa Luanda, Luís Soares diz assim: - ainda me recordo da mulher negra luandense sentada na esteira de loandos ou de mateba, no banquinho feito de galhos de mulembeira junto à porta, catando piolhos da cabeça do candengue ou mesmo de adulto. Estendendo a vista pelos arredores via as aduelas de barril num arranjo de quase átoa a definir seu quintal, intercalando esta foto de grande angular, gente com falas em kimbundo, passam-se horas e horas na cavaqueira, dizendo nada, mesmo!
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Junto, as roliças crianças de peito luzidio brincam nos loandos com carros feitos de coco, com latas de sardinha de rodas de caricas de cerveja cuca ou casca de múkua ou mesmo de pau-binga trazido por seu pai da lagoa do Lifune aonde pesca cacussos. O loando é assim um tapete de junco de caule macio de espessura de mais ou menos de dois centímetros entrelaçados, que eram depois ligados uns aos outros com fio de matebeira ou de sisal trazido lá da fábrica da Cotonangue.

maful1.jpg  Esse mesmo de amarrar a farinha de bombó, fuba ou do saco de batatas doces trazidas de Belas. Pois! Era assim uma arte feita tapete espalmado num rectângulo de um metro e meio de comprimento por oitenta centímetros de largura. Háka, era mesmo um acessório sempre presente nas nossas reuniões de quintal logo a seguir ao jantar, botando conversa fora com os vizinhos, mujimbos que corriam na boca de muita gente.
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Enquanto isso com falas esdrúxulas de sundiameno, sacana mesmo ou topariobé e muitos muxoxos intercalados de asneiras com comentários de roubos e falcatruas, que até entrava o árbitro comprado lá no futebol do M´Puto. Com nomes variados de filho-da-caixa e muitos edecéteras chamando de bois aos quadrúpedes e cabrões; os candengues de chinelas de dedo enfiadas no pé e descalços até ao pescoço, ranhosas e com o umbigo saído das barrigas inchadas, esgaravatavam no pó a fazer vrrruuummm para desenterrar.

luua11.jpg O mais velho cozinheiro do senhor Ildefonso, só ali quietinho no seu canto, ouvia na sua serena idade dando longas chupadas no seu matope. Ele, mais-velho, só biscatava as falas com um cachimbo feito de nó de tamarindo e, ria de vez em quando, baforando pró ar sua sapiente sabedoria de século. O kota misterioso que não contava as coisas direito, para não ser chamado nas razões do patrão gordo saído dum lugar chamado de Porca Da Murça. 

massau5.jpg Ele não podia falar assim átoa do patrão que tanto de guloso só comia mesmo lagosta suada ou garoupa das pedras … dizia com frequência depois de nada dizer: - Vou dizer mais o quê? Luanda, aiué… Com a certeza de que a verdade se irá impor por si, ainda que por algum tempo impere o discurso fantasioso, o que queremos por ora e aqui na Luua, é esquecer os aspectos das guerras…
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:07
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VI

- Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo…

 Arqueies tipos! - Vocês!  - 10.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Lagoa do M´Puto

agualusa1.jpg54 - O pessimismo é um luxo dos povos felizes. Quem o diz é um kamba nascido no Huambo chamado de José Eduardo Agualusa em Dezembro do ano de 1960, bem perto da Caála, lugar aonde morei por algum tempo, trabalhando às ordens do presidente do Município chamado de Casimiro Gouveia com a alcunha de caluviaviri. Aqui, refiro Agualusa porque faz parte da minha lista do BOOKTIQUE. Até cheguei a ter uma xitaca com nemas junto à pedra do Alemão mas, deixa para lá, a guerra do tundamunjila a levou……

55 - Irei escalpelizar seus escritos pela razão de tal como eu, andar por aí escrevendo crónicas e livros que muito me fazem borbulhar o cerebelo do lado bombordo. Enquanto eu ando com um imbondeiro às costas, ele sempre se faz acompanhar de cadernos com linhas, um micro-ondas Ipad e uma catrefada de canetas de várias cores. Só que tem uma grande diferença, ele ganha bom kumbú e eu nem cheta… Acho que sempre leva um casal de osgas de estimação e olhos oblongos e enviesados, com quem cavaqueia longos tempos. É delas que recebe inspiração, pode isto ser?

agualusa2.jpg 56 - E, é sobre um antigo Coronel do Ministério da Segurança de Estado de Angola que tudo se desenvolve. Já morto, fugindo às armadilhas da guerra com um amor de hiena, percorre agora seu tormento das memórias vendendo armas aos sublevados do Morro da Barriga do Rio. Quer à viva força levar a descolonização ao Brasil mergulhando a fundo nos incêndios dos morros cariocas. Foi ali, no lugar aonde os candengues brincam com kalashnikoves AK-47, numa sacada a ver-se o Rio estendido até o Cristo Rei, que o ouvi dizer: -A guerra enche os bolsos a muita gente. Bom! Isso não parece ser novidade para ninguém…

57 - Nesta análise, tenho a ajudar-me um jornalista de nome Euclides muito hábil a complicar as respostas que sendo fáceis as engravida só para se vingar das peripécias vividas em África e muito especialmente naqueles tempos perturbadores da guerra do kwata-kwata, do foge branco t´chindere, senão estripo-te. O raro disto é a de que também foi polícia do Estado, um supranumerário de confiança. Bom! Tudo isto acontece inspirado na saga dos fujões pretos, escravos dum qualquer coronel que num golpe de audácia fogem para os quilombos dos Palmares. Até poço sentir o bafo dos cães de fila soprando e babando ranho por aquelas matas procurando os gentios entre as coroas-de-frade e picos kilométricos.

zumbi6.jpg 58 - Francisco Palmares o coronel angolano, o morto-vivo, recordando a fúria de Zumbi, quer tomar o rio dando lugar de destaque aos negros; diz que Zumbi voltou para tomar o Rio. Nós angolanos, somos optimistas – os pessimistas já se suicidaram todos! É Euclides que assim fala sem se recordar do nome desse homem que assim falou lá para trás no tempo; acontece ser assim quando se encontra em dificuldades.

59 - Euclides fala com o Coronel como se fossem amigos de há muito tempo, e eram mesmo: - Vi-te na feira, escondido atrás de uma barraca, disseram-me que morreste e agora!? As coisas mudaram muito desde que tu morreste! O que vocês fizeram não tem perdão, diz Euclides. Eu sei; eu sei! Diz Palmares ao seu assombrado amigo. Aquilo escapou ao nosso controle, foi longe demais…

ANGOLA10.jpg 60 - Ficam muito tempo em silêncio. Finalmente o Coronel fala: - Tu estavas na delegação provincial. Tenho a certeza. Numa de falas tu e, agora eu, Euclides, o jornalista repentinasse: Como conseguiste escapar? - Escapar!? Eu não escapei. Tu viste que não,… estiveste no meu enterro!… De sobrancelhas carregadas e pigarreando, foi dizendo.- O Cunha deu-me um milongo que me deixou a dormir, acho até que morri, mesmo! Depois organizou aquele fantástico funeral, enterrou-me e, logo a seguir, desenterrou-me.

61 - Passei a polícia de Fronteira em Namacunde com o meu próprio passaporte dois dias depois de enterrado e, ninguém deu por nada. Incompetentes! Os teus colegas, graças a Deus! São todos incompetentes, repetiu… Ficamos aqui a saber que Euclides também tinha sido da polícia porque logologo o Coronel afirma com trejeitos de gozo: Tinha a certeza que me seguirias até aqui - Um polícia nunca o deixa de ser… polícia!

coroa de frade.jpg 62  - O medo veio até mim sabes, diz Euclides o ex-polícia e agora jornalista. Os camaradas fraccionistas faziam a sua autocritica, pediam perdão ao povo, assim publicamente e, depois eram fuzilados. Bom! Também naquela altura, sabes, as pessoas arriscavam a vida por um leitão assado. Estava farto de comer arroz de mabanga – quando penso nisso até me dá vómitos.  Como não fugir… como fez o Isomar, T´Chingange, o Vumby e tantos outros. Francisco Palmares lembra-se da Luua: - Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo… Aqueles tipos, ué! - Vocês!

63 - Vocês destruíram tudo, assim fala de dedo em riste o ex-polícia da nomenclatura. O Coronel olha-o ofendido; abana a cabeça. Esquece… Eu não tenho já nada a ver com a pátria; pátria ou morte, o escambau. Quase nada. Sou empresário, tenho negócios aqui… Negócios? Sente-se um muxoxo prolongado de Euclides. Olha, os outros compram barato aqui no Brasil, levam cuecas e cabeleiras postiças, sandálias e lençóis de cama para venderem caro na Luua. Eu, faço o contrário, compro barato em Luanda e vendo caro aqui. Sou besta!? Caramba… O que é que compras barato em Luanda para venderes caro no Brasil? Interroga o ex-polícia em voz de falsete? A coisa promete meus ávilos…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:56
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Sábado, 5 de Janeiro de 2019
MU UKULU . XI

MU UKULU...Luanda do Antigamente – 05.01.2019
Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! - Em 1887 e por três anos, a Luua era iluminada por candeeiros a gás…
Por

soba15.jpg T´Chingange – No M´Puto

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil 
Em 1847, incluindo os edifícios públicos, a cidade de Luanda contava com 144 casas com primeiro andar, 275 casas térreas e 1058 cubatas feitas em taipa. Era em verdade uma cidade de degredados, uma política embrionária de desenvolvimento forçado com cerca de cinco mil habitantes; Sendo um lugar de passagem para o resto do continente africano o viajante podia usufruir de perto de cem tabernas, pelo que os viajantes a qualificavam de moralidade duvidosa.
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Em 1889, o governador Brito Capelo inaugurou um aqueduto a partir da lagoa Kinaxixi que forneceu a cidade de água potável por alguns anos abrindo assim caminho para o grande crescimento de Luanda. Mais tarde e a partir de 1928, com o regime de excepção em Portugal, intensifica-se o envio para esta colónia os descontentes com o Estado Novo; Luanda passa a ser assim mais utilizada como colónia penal.

baleozão0.jpg Em 1930, Luanda tinha um pequeno cais de cabotagem com apenas 400 metros e uma profundidade de três metros. Os passageiros tinham de usar um embarcadouro flutuante. A capital estava mal servida e, em 1934 começou a ser construído um cais "em cimento armado para quatro navios ao mesmo tempo". Apesar desta ampliação, a infra-estrutura ainda não dava resposta às necessidades da economia angolana de então.

baleozão01.jpg Em 1930, no porto das Kipacas do Bungo, foram desembarcadas cerca de 50.00 toneladas de carga e, exportadas um pouco mais de 17.000, sobretudo café e sisal. Em 1932, já as medidas governamentais da Metrópole, visavam promover as exportações e travar as importações. Neste ano, o porto de Luanda recebeu um pouco mais de 37.000 toneladas de carga tendo sido exportadas cerca de 25.000. 
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Dos anos de 1930 a 1950, Luanda teve um espectacular crescimento; com 60.000 habitantes em 1940, passou para 140.000 naquele ano de 1950. Em 1960 já eram 225.000 passando para o dobro em 1968 sendo já notória a percentagem de brancos. Foi pouco depois de 1950 que começaram a circular pela cidade uns homens vestidos de branco conduzindo à mão uns carros e gritando: Há baleizão!

baleozão1.jpg Era da cervejaria e sorveteria do Baleizão situado perto da Fábrica de Sabão e bem perto da antiga calçada dos enforcados que dava acesso à cidade alta e ao Palácio do Governador, de onde saiam estes monangambas vendendo sorvetes, gelados de sabores variados e cores atractivas metidos em cones de bolacha crocante. Estas figuras eram bem características daquela cidade de então conhecidas no Brasil como camelós.

baleozão00.jpg Era nesta sorveteria que uma grande parte da população ia fazer uso da esplanada, beber uns finos ou os chamados canhãngulos de cerveja Cuca, Skol, Eka ou Nocal. Eram famosos seus saborosos cachorros quentes. Tomando a brisa da baia, ali se passavam horas com amigos da pândega nos finais de dia ou depois de se sair já noite duma das muitas salas de espectáculos, dos coqueiros a ver futebol ou a luta live do conhecido empresário Lobo da Costa. 

biker0.jpg Pedia-se uma cerveja e a acompanhar sem pagamento extra, serviam uns jakinzinhos fritos, tremoços, jinguba, dobradinha com jindungo ou mesmo pedaços de polvo tipo escabeche. Bom! Saia-se dali já jantado, eram horas de ir a casa tomar um banho, encontrar-se com os amigos no cine Miramar, Nacional ou Restauração e depois voltar ali ao Baleizão ou à Biker para refrescar o esqueleto.

baleozão8.jpg O Baleizão fundado pelo Sr. José Maria Aparício e seu filho Tarique, estava localizado no Largo Infante D. Henrique, local de passagem para ilha, ponto de encontro para depois da farra, ponto de partida e chegada das reuniões do clube, lugar aonde se levava a sogra, a miúda ou a mulher para experimentar uma guloseima diferente. Podia encontrar-se ali o pintor Neves e Sousa batendo papo com o radialista Sebastião Coelho ou outras figuras publicas que hoje deixam saudade na memória.

luis14.jpg Também por ali paravam fumadores inveterados, dedos e bigodes marcados pela nicotina amarela ou ruiva; e eram marcas que agora recordamos ser como o Zig-zag, o Francês, AC, Delta, Negritos, Caricocos ou Delfim. A Fábrica de Tabacos Ultramarinos – FTU prosperava pela certa, pois a maioria dos caluandas eram fumadores em grosso. Antes de avançar pela visão mais moderna da Luua terei de recordar que para lá da Luua tudo era mato, assim o dizíamos.

bessangana2.jpg Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! Mas aqui bem perto ficava o lugar aonde antigamente se refugiavam os escravos fujões, era aí o seu primeiro refúgio. Em kimbundo refúgio é ingombota, e essa acção de ali se esconderem, pois assim ficou baptizado o local. Quando passou a ser habitado as pessoas diziam que moravam na n´gombota e os portugueses corromperam a expressão adicionando o “I” tendo ficado em Imgombotas, do jeito actual.
Nota: Alguns itens foram recolhidos na NET.
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:09
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Domingo, 23 de Dezembro de 2018
MU UKULU – X

MU UKULU...Luanda do Antigamente23.12.2018

- Em 1887 e por três anos, a renovada Luanda é iluminada por candeeiros a gás…

Por

soba15.jpgT´Chingange – No M´Puto

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Loanda não poderia parar no tempo e, vários eventos contribuíram para o seu crescimento com inerente progresso e, é assim dada abertura do Mercado da Quitanda no ano de 1816; em 1825 é criado o Observatório Meteorológico João Capelo na parte alta da cidade no caminho descendente para a Fortaleza, da Calçada dos Enforcados, a Rua da Praia e o lugar dos coqueiros situado bem no fundo das barrocas, lugar de esconderijo de gente desavinda em cubatas mal-amanhadas.

Os Bombeiros são constituídos como a Companhia dos incêndios no ano de 1844. Os caminhos-de-ferro de Luanda SPCTFT começam a fazer ligação com o interior indo até Malange, no ano de 1861- o início de uma importante cidade. É aberto o mercado do Peixe ou Praça do Falcão no ano de 1862 e logo a seguir são construídas as instalações do Correios, dando seu início em 1865 e, três anos mais tarde, 1869, é aberto ao público o Jardim da Cidade Alta, bem próximo do Palácio do Governo mais um conjunto de edifícios governamentais com casamatas-quarteis, guarida das forças de segurança ao palácio.  

luua8.jpg Se voltarmos lá atrás ao ano de 1848 teremos de ter algum cuidado com as carroças de água a passarem ruidosamente na esquindiva, com os aguadeiros em mangas de camisa fazendo fífias aos transeuntes, de pernas arregaçadas, invadindo as casas senhoriais e dependências públicas, enchendo potes e banheiras. Do palácio da Dona Ana, as muitas portas e janelas a gemer as armaduras perras para faze entrar o sol. Uma voz tisica e aflautada duma serviçal “mucamba”, saindo pela varanda cantando em falsete algo parecido: lámbaixo está o tiro-liro-liro, lámcima está o tiro-liro-ló.

A construção do Hospital Maria Pia tem o seu início no ano de 1883 e, é instalada a sucursal do Banco Nacional Ultramarino, o primeiro banco emissor desde 1865; os telefones interurbanos surgem a seguir no ano de 1884 com a inauguração do cabo submarino no ano de 1886. Este cabo submarino era a ligação ao mundo com incidência central em Lisboa do M´Puto. A Biblioteca Municipal tem início no ano de 1873.

araujo65.jpg Uma preta velha, vinda da Praça do peixe - Praça do Falcão, vergada pela imensa quinda de mateba e loandos, em direcção à rua do Casuno apregoava em tom arrastado: “Tem cachucho fresco, tem roncador e garoupa, kixibis barato”. As crianças nuas, de pernas tortas por cavalgar às ilhargas da mãe, cabeças luzindo ao sol, ventres amarelentos e crescidos, guinchavam correndo numa brincadeira de kwata-kwata empinando-se nas habilidades

O abastecimento de água é concretizado a partir do rio Bengo, em 1889 que, anteriormente era assegurado pelos “poços da Maianga”. Segundo Ilídio do Amaral, chegamos ao último quartel do século XIX com “ruas tortuosas, abertas nos areais que se acumulavam, sobretudo, na parte baixa, depositados pelas enxurradas da estação chuvosa”. Entre 1887 e por três anos, a renovada Luanda é iluminada por candeeiros a gás.

dy8.jpg Um ou outro branco, levado na necessidade de sair, atravessava a rua, limpando o suor da testa, um vermelho afogueado, um lenço grande da mesma cor e muito enrolado, metido sem jeito no bolso do paletó. Os cães estendidos na sombra dos umbrais, pelas calçadas sombreadas, mordendo o ar, as moscas, ou rosnando aos candengues antes do chute de pé descalço.

Ao longe ouvia-se apregoar na praça “arroz de Itália, mangas, fígado, rins e coração, tudo à mistura. Nas esquinas das quitandas, fermentava ao calor um cheiro acre de sabão macaco, azul e outras cores; das tabernas um cheiro de aguardente, cachaça do m´Puto e vinho tinto baptizado, carapau frito, enguias e sardinhas em barricas de sal ou azeite, mais toucinho e azeitonas com um suave cheiro de louro e alho.

nzi4.jpg O caixeiro assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, coçando o seu espalmado pé descalço; olhava de soslaio o cipaio com seu cofió vermelho e, que passava encafifado em maus pensamentos porque zunia um pau feito cassetete; assim prá frente e de lado, rilhando o dente barafustava muxoxos imperceptíveis de sundiameno e topariobé. Ai-ué, vai ter maka, mesmo!

Circulavam quitandeiras muito gordas, rebolando os grossos quadris trémulos e as tetas opulentas; Também senhoras brancas com guarda-sóis rendados, seguidas dos moços carregando imbambas e bikwatas. Os moços de recados avultavam seus paletós de zuarte pardo manchados nas espáduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. No Maculussu os negreiros passavam em revista os candengues escravos que ali estavam para se levados às instalações da Dona Ana nas Portas do Mar.

junho2.jpgNa quitanda da Fazenda entre pilhas de caixotes de cebolas e batatas chegadas da Metrópole, discutia-se o preço, o prego do algodão, a taxa do açúcar e tarifa das transacções. Gordos negociantes tratavam de embarrilar uns aos outros, pediam ou ganhavam segundo muita manha, própria de gente de negócios; trocavam chalaças em plena confiança de amizade. Um pouco mais abaixo da Mutamba leiloeiros mulatos, cantavam em voz alta o preço das mercadorias abrindo as vogais nas mil macutas, nos mil angolares ou mal-reis. Era a quentura natural, como um zunzum grosseiro de feira.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:09
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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2018
MU UKULU – IX

MU UKULU...Luanda do Antigamente29.11.2018

Havia muito de angolano nas casas feitas com a cal de mabanga, os forros feitos de bordão…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Começo com uma ressalva, para corrigir o que foi dito no Mu Ukulu-VIII. A Barragem das Mabubas sobre o rio Bengo, só foi inaugurada no ano de 1954 e não no ano 1948, conforme diz João Pinto que ainda candengue, ali viveu quando seu pai para ali foi trabalhar, entre os anos de construção entre 1949 e 1954. Antes de se dar continuidade ao desenvolvimento social de Luanda segundo o descrito no livro de Luís Soares, vamos aprofundar alguns conhecimentos da agora grande Luanda, porque quem não é kimbundo irá perguntar o que significa maianga entre outros nomes e lugares toponímicos...

ÁFRICA3.jpg Consultando escritos de José Kaliengue, poderei mencionar que Maianga significa poço de água. Havia a maianga do povo junto ao Clube 1º de Agosto e, cujo avanço urbanístico anárquico, relegou para ruinas; aonde agora é o rio seco era um rio a valer, molhado, que desaguava numa lagoa que era a Lagoa dos Elefantes no actual bairro da Samba e, onde desembocava. Este rio desaguava numa lagoa antes de dar para a baía de mar raso que ali existia.

Aquela era a lagoa dos elefantes, porque era frequentada por estes. Quando os portugueses ali chegaram, e durante muito mais tempo, viam-se por ali elefantes; no decorrer do tempo, estes foram-se refugiando na actual Reserva da Kissama. O que hoje se conhece por Morro dos Veados foi, até ao séc. XVIII, o Morro dos Elefantes, está escrito em mapas, só que estes, foram diminuindo em número. E, foi já no séc. XX, que o Morro dos Elefantes passou a chamar-se de Morro dos Veados.

muralha6.jpg Uma grande parte da população não sente qualquer relação com o espaço e com as coisas e, também porque não foram alertadas pela nova elite na sua preservação. A não existência de um ordenamento desses lugares; a construção arbitrária e sem qualquer tipo de controlo, originou perdas como valor turismo e sequentemente o económico. Um património difícil de recuperar.

A baía é uma das razões para o nascimento da vila e depois, cidade europeia de Loanda. Foi ela por via de sua topografia circundante que determinou a sua criação; Fundamentalmente por uma estratégia de defesa, mar fundo e lugar de abrigo às caravelas aos ventos dominantes e mar bravio na costa aberta de sua ilha da Mazenga; só mais tarde surgiram outros critérios pela criação de um centro urbano expandindo-se com mercados, estradas, porto de mar ou caminhos-de-ferro.

Mu Ukulu0.jpg Note-se que, já nessa altura, finais do século XIX, faltava água em Luanda; isso mantém-se até aos nossos dias. Rios e baías sempre foram um elemento importante na história duma qualquer cidade e Luanda não foge deste conceito. Depois há uma parte importante dessa história que também pertence aos angolanos, e que não dá para apagar! Embora como sendo a parte sofredora, contribuiu para a história: O do comércio dos escravos que já foi aqui superficialmente abordado.

As fortalezas, apesar de símbolos de opressão também pertencem aos angolanos; queira-se ou não José Kaliengue tem razão ao afirmar isto! As igrejas são outro elemento que, não fazendo parte da cultura original, passaram depois a fazer parte da vida das pessoas. Havia muito de angolano nas casas feitas com a cal de mabanga, os forros feitos de bordão, um material altamente isolante e que permitia manter as casas frescas.

miss6.jpg Não deve ainda existir sinais de tectos de bordão nas casas velhas de Luanda; também este processo saiu da cultura local. A Igreja do Carmo, estava assim construído até meados do século XIX. Estas edificações existem e, foram feitas com mão-de-obra de caluandas. Agora teremos de recordar o que era na palavra “MU” como sendo coisas do antigamente, mas também uma árvore no dialecto kimbundo. Mutamba é a árvore do tamarindo, árvore que a mutamba não tem.

Posso imaginar nas largas varandas da baixa da Luua e bem junto ao Carmo, as damas brancas comodamente sentadas com requebros de etiqueta, gestos cheios de conveniência, risos de boca fechada, olhares por debaixo das pálpebras mais um leque nos lábios e o dedo mindinho levantado com galanteria chamando o senhor prior. Não muito longe uma mulher negra na esteira de luandos ou de matebeira, num banquinho ou na soleira da porta catando piolhos na cabeça do candengue.

o poço do rei2.jpgTambém homens humorados, o chapéu de couro preso ao pescoço por uma correia, a camisa de algodão cru por fora das calças de zuarte, arregaçadas no joelho, o pé descalço, curto e espalmado, peito liso com cor luzidio de escuro ou cor de cedro á mostra, braço nu e grosso transportando uma viola ordinária feita de lata. Senta-se bem junto daquela mulher catadora, dedilhando as cordas metálicas e, cantando um repenicado linguajar de brincadeira…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:01
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
MUJIMBO CX

CICATRIZES DO TEMPO - Mujimbo é boato em kimbundo; diz-se por aí… 23.11.2018

Por

soba0.jpegT´Chingange em Johannesburg

Com fúteis caprichos de escritor avulso, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros recolhendo feitos e lendas do passado. Sim! O futuro de um mundo surreal, tentando compreender melhor a essência dos acontecimentos. Também observo agora, já kota mais-velho, estar num joguete de tantos portais desconhecidos.

Sendo mazombo de Angola na criação e, vivendo entre astucias enganosas e superstições intestinas, falo e penso como se fosse um africano preto na cor, captando como um íman as feitiçarias das memórias feitas tradição. E, é aqui neste hiato que o tempo me leva ao era uma vez, no tempo que não tinha minas nas picadas; a gente ainda andávamos descalços de medo.

luandino1.jpg Vistas as coisas, não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Neste tempo daquele agora, ele, era um guerrilheiro de nome Makongo, amigo de Luandino, cheirava o chão, mata e ar, mas sempre queria se vanguardiar.

Por três vezes o voo da mina, por perto ou por longe, ele se cambalhotava no pó. Se diz que nessas horas ouvia-se sempre o piado do holococo (águia) voando muito alto. Nossos pés xacatavam (arrastavam) ligeiros por trilho aberto na mata ou mesmo picada da roça. Então, foi num dia, o rio calado de poucas águas, foi mesmo lá aonde lhe comeram num jacaré o camarada Vutuka.

cabinda6.jpg Foram eles mesmo que escreveram assim neste livro dos guerrilheiros quando a noite estava de gasalhar uma lua nova, na escuridão. Kimoanga Paka assim sem mais nem porquê falava do seu filho; ele estava comigo assentado em seus calcanhares, a velha carabina ao alto. Atirou uma pedrinha, o rio assustou, parou.

-Kene Vua?  Eu sofro… É assim que Luandino descreve numa mescla de testemunho e ficção, arrastando-nos por uma viagem marcada pelo risco, quebrando a sintaxe convencional, incorporando neologismos com expressões em quimbundo, abismos antigos, passados naquele tempo contemporâneo. Kene Vua o Sem Azar morreu na picada.

CABINDA3.jpg Um dia em Cabinda, numa companhia do M´Puto, num lugar chamado de Miconge, a caveira de Kene Vua, carcomida pelo Kissonde, na beira dum fiote, chamou-me nomes de vergonha: -Tu vais poder nunca lavar tua catinga de geração! Assim mesmo, assustei-me. Ali do meio da mata, perseguindo turras que eram guerrilheiros como eu, do outro lado. Eu, branquela, fiquei cismando do susto.

Recordo que naquele entretanto os kissonde, subiu por mim acima, picando matubas e tudo, foi quando aquela caveira do Kene Vua, pareceu-me de vingança, foi mesmo, piscou-me o olho e ainda se via nele, na caveira, medo de acordar outro medo. Claro que isso assim falado, nenhuma mata ia poder nunca lavar, era mesmo catinga de geração.

kalu1.jpg Kene Vua! Vê!... Posso ver ele levantar-se, feito quizango (feitiço), deu um passo só e tirou no ar flor e folhas num pequeno pau de quimbuma. Esfregou suas mãos, cheirou; mastigou. E cegou meus olhos com sua mão perfumada. Vida de pessoa devia de cheirar bem. Como flor, sempre.

Kene Vua apareceu-me mais tarde em sonho dizendo algo meio arrependido de quando falou na catinga de geração: Tu, também vais ser angolano pela tua participação nos conhecimentos, nasceste debaixo dum cajueiro, plantaste beleza feita espiga de milho debaixo das quifuacassas! Quifacassas!? Nem sei bem o que isso é!...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018
MU UKULU . VIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.11.2018
A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente, separava os luandenses entre portugueses…
Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil 
A iluminação pública de Loanda, começou por ser com azeite de jinguba no ano de 1839; seguiu-se-lhe o gás até o ano de 1897 e a petróleo até 1900 – fim do século XX; só a partir de 1938 é que a electricidade passa a ser de uso generalizado em edifícios públicos, creio que primeiro com geradores e, em 1948 através da Barragem das Mabubas construída no rio Bengo - data de sua inauguração. Foi a partir da década de 40 que se notou alterações profundas na gestão do território por parte das autoridades de Portugal.
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A entrada em serviço da barragem das Mabubas mudou radicalmente o perfil das actividades económicas nas regiões de Luanda e Dembos. A Luanda nova tem início na década de 40 do século XX, tornando-se num centro de administração e de poder colonial - um processo de transferência da cultura imperial, mudança de suas teses ideológicas, económicas e até culturais.

mabumbas2.jpg Na consequência de um melhor controlo da população, surgem espaços de resistências e autonomias por parte da população local. A pesquisa sobre estes espaços urbanos constituiu como um campo próprio de estudos que, não cabe aqui desenvolver. No ano de 1937 a nova Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Luanda composta por personalidades das várias áreas que administram a cidade, mudam a toponímia alterando nomes e recriando novos espaços.
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Em 1930 as Ingombotas estão inseridas nos limites da cidade mas o Maculusso, ainda se considera musseque. Em 1940 as casas em zinco com quintais com goiabeiras mamoeiros e mangueiras, dão lugar ao moderno Bairro do Café. O Bairro Operário surge como um musseque organizado, mas fora dos limites da cidade de então. As Ingombotas, dentro do perímetro urbano, ainda era habitada por muitas famílias de origem europeia (branca) e africana.

luanda5.jpg Esta cidade de Luanda, que paulatinamente abandona sua escrita com o “o”, é um autentico laboratório em suas transformações sociais. O Maculusso ainda não urbanizado e outros musseques periféricos, apresentam ordenamento caótico de cubatas intercaladas com casas de adobe ou em tijolo cobertas na maioria com zinco. Em alguns quintais surgem a aduelas de barris que até ali serviram para armazenar o vinho chegado do M´Puto.
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Pequenas hortas surgem de permeio com as casas onde se cultivam couves, alfaces e hortelã, tomateiros, goiabeiras, mangueiras e tamarindos para consumo próprio ou para se vender o excedente nas quitandas. Na região das Kipacas, junto à base da falésia, entre esta e o porto, por via de ali existir argila boa, surgem cerâmicas para fabricação de telhas e tijolos com altas chaminés.

cipaios.jpg A chegada em massa dos portugueses nos anos quarenta, por via de uma nova política da Metrópole do M´Puto, na ocupação das colónias, provoca um novo desenho demográfico na cidade com a expulsão da antiga elite crioula das zonas centrais como o Bairro das Ingombotas já mencionado. Por este motivo surge o Bairro Operário originando um cenário com tensões sociais e mesmo raciais que se avolumam no tempo.
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O aumento significativo de portugueses, concorreram com a elite letrada local – crioulos, novos assimilados e os nativos nas várias actividades económicas. Sendo assim, estas alterações com a inerente separação entre uma cidade branca e uma cidade negra e periférica, originaram lados opostos. Era já latente nesta contestação uma restea de emancipação encoberta ou sob reptícia.

luis50.jpg A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente separava os luandenses entre portugueses, assimilados e indígenas. Este estatuto fora criado como uma forma de organizar o trabalho dos nativos, mas também como um instrumento paramilitar. 
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O estatuto de cidadão legal e civilizado, tinha sido instituído durante a República entre os anos de 1910 e 1921 retirando aos crioulos indígenas esse estatuto; uma iniciativa bem difícil de ser vencida, para um qualquer se tornar em um assimilado. A própria organização social metropolitana instalada em Luanda, criava entraves da elite letrada nativa a cargos administrativos.

luua12.jpg Havia temor de rebaixamento dos europeus em face dos nativos. É mais ou menos por estas alturas que surgem referências a documentos oficiais chamando aos brancos naturais de Angola como sendo brancos de segunda. Em verdade nunca vi isto num papel oficial mas, prefiro deixar isto no campo do provável…

Nota: Tomar em conta, ser este texto como um complemento ao livro de Mu Ukulu ressalvando situações sociais naquela Luanda de então… 
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:55
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
MU UKULU – VII
MU UKULU...Luanda do Antigamente16.11.2018
Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Os dias de feiras especiais no mercado da Quitanda e arrabaldes que se estendiam pelo largo da alfândega, eram gritados pelo burgo por pregoeiros que circundavam pelo burgo, um ordenamento caótico, cubatas intercaladas com casas de adobe ou de tijolo cobertas com zinco e quindas erguidas com aduelas de barris; pequenas hortas de permeio com couves, tomateiros, alfaces e hortelã em cercas protectoras de chinguiços e debaixo de mangueiras.

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O pregoeiro com voz sonante de leiloeiro subia à cidade Alta a dar conhecimento de novas remessas chegadas do M´Puto, tais como iroses de escabeche, sardinha em sal moura, favas ou vinho generoso da Galafura, pois era por ali que se concentravam as famílias de posse e, assim percorria seu circuito de passagem pelo Observatório Meteorológico João Capelo, descendo aos Coqueiros pela calçada dos Enforcados.

Mu Ukulu14.jpg E, chegada a ocasião, já depois do Pelourinho fazia uma paragem técnica para estimular a voz com aguardente de Monchique, repetindo já de forma murcha os pregões de saldo até chegar à Quitanda das mutambas. Ali se vendiam fazendas de algodão de tecidos coloridos mais sarja ou linho de cor branca. Até os ricos ociosos que iam para ali encher o dia, metiam conversa com os caixeiros, peritos em contar anedotas vestidas com calções de brim.

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Naquele lugar das mutambas, até os próprios vadios desempregados faziam cera, aparentando estar cumprindo diligências de prontidão. Já era escuro quando este laborioso cantador de saldos chegava ao Largo Bressane Leite, e por ali ficava algum tempo cheirando a acidez das frutas iluminadas pelo candeeiro de praça e, à luz de óleo de jinguba.

Mu Ukulu13.jpg Naquele outro dia apregoado, viam-se deslizar pela Quitanda imponentes e monstruosos abdómens, capitalistas decerto à procura de chouriços e presuntos seguidos por monangambas, mocambos sem alforria para levar os embrulhos; cabeças escarlates tapadas a chapéu de cortiça, gotejando suor por debaixo das orelhas, bocas com bigodes dilatados e retorcidos e, distribuindo mesuras com falas mansas às damas que cobertas de cambraia e rendados os olhavam de soslaio.

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Tendo esta visão numa varanda larga e sem forro no testo do tempo, deixo ver as ripas e os caibros que sustentam as telhas, a sociedade num assim com uma bela vista sobre a Baía de são Paulo de Loanda com um aspecto mais ou menos tropical. Pitoresco e de calor húmido, como se tudo fosse um amplo quintal; longo e muito cheio de tamarindos, mamoeiros e pitangueiras. Um lugar de preguiça, diga-se; ao fundo uma máquina de costura Wilson, uma das primeiríssimas em meu uso na costura do tempo.

Mu Ukulu12.jpg Desta varanda posso ver as Portas do Mar da Luua e cheirar catinga na segunda metade do século XIX. Ficam em frente à Alfândega, uma zona com gente a correr de manhã à noite; um porto de embarque de escravos - um local histórico aonde podia acontecer toda e qualquer revolta. Quando embarcava, “o escravo não sabia para onde ia - ia para o Kalunga”. O infinito feito mar iemanjá, como se fala em Angola e Brasil. Pois! Havia ali, revoltas e suicídios.

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O palácio de Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, a negreira, chegou a ter um quintalão em frente à escadaria. Por ali passaram milhares de escravos. Eles saíam dali directamente para o embarque nas Portas do Mar, com destino à Kalunga. Os cálculos da Atlantic Slave Trade dizem que entre 1501 e 1866, aproximadamente, 5,7 milhões de escravos saíram dos portos de áfrica para as américas.

Mu Ukulu11.jpg Angola, foi uma das grandes fontes emissoras de comércio de escravos desde o século XV até o terceiro quarto do século XIX. No domingo de 13 de Maio de 1888, dia comemorativo do nascimento de D. João VI, foi assinada por sua bisneta Dona Isabel, e Rodrigo Augusto da Silva a lei que aboliu a escravatura no Brasil. Só neste então é que Porto Galinhas do Brasil deixou de receber oficialmente escravos idos de áfrica. Mas, havia fugas ao regulamentado. Ainda por alguns anos e até fins do século XIX chegavam peças humanas de contrabando.

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No Brasil, os pregoeiros iam às roças anunciar que tinham chegado galinhas ao porto. Era uma forma de enganar as autoridades do reino perpetuando a venda de gente. E, é por este motivo que Porto Galinhas, um lugar de veraneio brasileiro é assim chamado. Dona Isabel sancionou a Lei Áurea, na sua terceira e última regência, estando o Imperador D. Pedro II em viagem ao exterior, às três horas da tarde do dia 13 de maio de 1888.

dia141.jpg O Brasil foi o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravatura. O último país do mundo a abolir a escravidão foi a Mauritânia, somente a 9 de Novembro de 1981, pelo decreto n.º 81.234 - Há somente 37 anos. Seis anos depois da independência de Angola a 11 de Novembro.

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Quanto valia um escravo? Não se sabe ao certo, mas diz-se que o preço era feito de acordo com os negociantes. Quem vendia? “Os comandantes militarem, negociantes negreiros como a Dona Ana, administradores, o próprio governador, que tinha tropas e a própria igreja.” Em 1846, o Brasil conseguiu o 1º orçamento super da gestão do Império. É a partir destes dados oficiais que podemos tirar alguma conclusão.

rio11.jpg Nessa época, uma saca de café era comprada por 12 mil-réis e um escravo comum era cotado a 350 mil-réis. Portanto um escravo valia em média entre vinte a trinta sacas de café. Os escravos que eram hábeis em carpintaria, fundição maquinista etc., valiam 715 mil-réis - o dobro. E, porque Loanda de então era uma cidade esclavagista, muito do negócio corria com essa dinâmica o que, levou muitos sectores da sociedade a dizer no após abolição da escravatura: “Vamos viver do quê, se não produzimos nada?”

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:33
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
MU UKULU – VI
MU UKULU... Luanda do Antigamente 15.11.2018
Os Talatonas por ordem dos padres e outros negreiros, geriam os cipaios no comércio dos escravos… Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

No período de 24 de Agosto de 1641 a 15 de Agosto de 1648, o então forte de S. Miguel, conhecido antes por S. Paulo, em mãos dos Mafulos, passa definitivamente nesta data para a Coroa Portuguesa com a tomada pela expedição vinda do Rio de Janeiro sob o comando de Benevides. Em 1650, o comandante desta expedição Salvador Correia de Sá e Benevides nomeado Governador, é nesta função que apresenta ao Concelho Ultramarino os novos planos de fortificação de Loanda.

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O Fort Aardenburgh, assim chamado pelos holandeses, passa a ter o nome de Forte de S. Miguel e sofre algumas remodelações pela mão do engenheiro francês Pedro Pelike, nomeado por Benevides, que com ele tinha vindo. Era na cidade baixa que se centrava o comércio, lugar aonde no ano de 1770 foi edificada a alfândega. Em 1755 foi construído um grande edifício quadrangular com uma praça ao centro, uma grande cisterna, o quartel do Esquadrão de Cavalaria e a igreja que veio a ser Sé, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

luis11.jpg Neste então surgiram passeios públicos a unir a Praça do Pelourinho com a praça e mercado denominados de Quitanda Pequena ligando com a extensa praia de meia milha de extensão e, ladeada de casas nobres. O principal mercado de Loanda a que se chamou Quitanda Grande ou simplesmente Quitanda, foi construído em 1818 por ordem do Vice-almirante Feo e Torres.

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Para defesa da cidade de Loanda são mandadas fazer três fortalezas e dois fortes. São elas a Fortaleza de S. Miguel, a fortaleza de S. Pedro da Barra e a Fortaleza de S. Francisco do Penedo bem no meio da baía e, para defender a entrada das embarcações. As estações ou cacimbas públicas eram fornecidas com a água das Maiangas do Rei, conduzidas em carros das Obras Públicas.

ana2.jpg Posso aqui, transladar-me para a cidade de S. Luís do Maranhão do Brasil para descrever bem à maneira de Aluísio de Azevedo e naqueles anos findos do século XIX (1870) o que se passava no seio da cidade de Loanda. Não seria muito diferente descrever o que se passava na Calçada dos Enforcados ou no Largo do Pelourinho, Coqueiros, Ingombotas ou Maculusso após a construção do cemitério público do Alto das Cruzes.

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Os escravos eram guardados por cipaios e talatonas ao serviço de padres e negreiros em currais ou cercas na área das Ingombotas, esperando pelo embarque para o chamado Novo Mundo. No Kinaxixe era frequente aparecerem leões e onças para beberem ou darem caça a manadas de antílopes… Pode tentar ver-se a quitandeira, balaio na cabeça, rebolando os grossos quadris trémulos e também as tetas opulentas; o quitandeiro cochilando sua preguiça morrinhenta.

luis20.jpg Também os caixeiros vestidos de caqui ou sarja com manchas de suor nos sovacos. Os correctores de escravos examinando à plena luz do sol, os negros que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhe com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos.

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Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à Alfândega. Pela Igreja do Carmo passaram milhares de escravos, muitos vindos do interior. A relação da Igreja Católica com a escravatura era comercial; “a Igreja também precisava de escravos para permutar - em toda a parte, houve esta ligação fatal. O próprio Vaticano queria fazer evangelização utilizando os escravos, como cristãos - era um dos meios”.

zem4.jpg Loanda era uma cidade esclavagista. A Igreja do Carmo construída no século XVII, foi um dos lugares marcantes da Rota da Escravatura. Após o abandono da moeda antiga o n´zimbo, começaram a usar uma moeda viva - os homens. Havia ali um quintalão de escravos - era a reserva ou o “banco central. Estas peças humanas eram trocadas por outros produtos necessários ao clero - um exemplo da articulação da Igreja com o tráfico de escravos que sempre tentam amenizar.

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Dona Ana Joaquina dos Santos Silva (1788-1859), mulata de Luanda, bisneta por linha paterna de uma negra forra, foi uma das maiores escravocratas da Angola do século XIX. Era uma mulher poderosa em Luanda, filha de um português e de uma angolana. Conseguiu construir um palácio à altura dos meios de um estado, podendo assim ver-se a potência financeira que ela tinha. O enorme edifício que hoje funciona como o Tribunal Provincial de Luanda, bem na baixa da cidade, substituiu aquele palácio original.
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:51
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
MU UKULU – V

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.11.2018

O tempo dos Mafulos ou Holandeses… Os Talatonas geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus…

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

Esta companhia sediada em AmsterdãoCompanhia Holandesa das Índias Ocidentais afirma-se aqui em N´Gola com alguma dificuldade”. Por decisão do conselho de administração constituído por 19 membros, nomeiam em 1637 Johann Moritz Von Nassau-Siegen governador das possessões holandesas no nordeste brasileiro.

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Este Von Nassau tinha a concessão de monopólio de comércio no Caribe e da América do Norte, para o tráfico de escravos dirigidos ao Brasil. Tudo isto para diminuir a competição espanhola e portuguesa. Tempos bem conturbados, sem uma ONU, sem UNICEF e sem Tribunal Internacional! Cada país decidia de sua livre vontade o que lhe aprouvesse! Com o objectivo de participar directamente do tráfico negreiro, Nassau, o governador de Pernambuco com sede em Olinda, decidiu em maio de 1641, enviar uma expedição para ocupar Loanda, principal porto de escravos da África Ocidental para o Brasil.

ÁFRICA1.jpg Era evidente que queriam a seguir, conquistar Benguela, São Tomé e Axim da Guiné e outros entrepostos comerciais de origem lusa, deixados um pouco ao acaso pela administração espanhola. As fortalezas e presídios de Muxima, Massangano e Cambambe, foram marcos político-militares na conquista do reino do N´Gola, e sua perpetuação, consolidando assim a civilização portuguesa; tudo à custa de muita abnegação, diga-se!

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Inglaterra e Holanda pretendiam assenhorar-se do mundo retaliando os Espanhóis e logicamente Portugal com suas possessões em África, entretanto nas mãos dos Filipes I, II e III e, por sessenta anos, a partir de 1580. Foi assim e, a partir de Olinda no Brasil, que tudo foi fomentado na tomada de São Paulo da Assunção de Loanda pois que, era para ali que ia o grande fluxo de escravos idos da costa angolana para fazer andar as culturas e engenhos do assucar.

albuq1.jpg É ali, no Brasil, que tudo começa nesta relação de holandeses com a N´Gola de então. A história não pode ser relegada agora para um outro plano porque e, nesta sequência, sem a natureza, não haveria seres humanos; sem florestas e fitoplâncton, organismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética, não haveria ar suficiente para respirar.

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E, se não houvesse fungos, não haveria antibióticos; se isto não tivesse sucedido com os Tugas, a Angola de hoje seria bem diferente e muito pior do que a maior parte dos países africanos. As cidades e civilização, só existem porque temos disponíveis culturas selectivas que nos dão frutos, caules e sementes comestíveis. Portugueses e até Holandeses fazem parte deste caldo aonde ficaram raízes de alambamento ou umbigamento.

VanDun2.jpg As relações entre Portugueses e Jagas dos Dembos, Kissama, Manhanga e Matamba são parte integrante duma cultura. Uma grande novidade era o uso de sapatos feitos em couro de tiras entrelaçadas e, que mereceu atenção especial por parte dos camondongos, caluandas alforriados que assim passaram a proteger seus gretados pés. Descortinar isto, é como  abrir hoje, uma loja virtual.

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E, é aqui que Balthasar Van Dun, oficial da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas entra na chama do passado. Sabe-se que quando o almirante holandês da Companhia das Índias Ocidentais tomou Luanda, os portugueses fugiram todos para Massangano, e por ali permaneceram durante a ocupação, até à chegada do luso-brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides, que reconquistou a Fortaleza de S. Miguel, na baía de Luanda em 1648.

luis01.jpg Originalmente, a construção desta Fortaleza tinha para além da defesa de naus ancoradas na baía, também em vista a defesa das redes comerciais de mercadorias tais como cera, peles, dentes de marfim, pedras preciosas mas, e especialmente da venda de escravos às Américas, como posto avançado na garantia do porto de Muxima e, presídio de Massangano, que a monarquia portuguesa utilizava como local de degredo.

VanDun.jpg Alguns dos degredados que estiveram presos por algum tempo, destacaram-se mais tarde como cidadãos de carreira, uns como funcionários do reino e outros como comerciantes. A luta pela independência do Brasil saiu-lhes pelo cano com as estrias invertidas. O Van Dun Mafulo, já depois da tomada de Loanda por Benevides, ficou por ali mantendo uma função dupla, a de militar e a de negociador de escravos com os descendentes de N´Gola Kilwanje.

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Quis a estória que nessa missão dupla e de também negociador com os portugueses, ficar por ali com uma prole de filhos mazombos e pardos. Os negócios sempre suplantam as políticas e, eis que eram os próprios portugueses que vendiam escravos a este inimigo holandês de origem, um súbdito de Maurício de Nassau. Pois acreditem ou não a actual ministra da Justiça de Portugal, Francisca Van Dunem desde 26 de Novembro, vem desta prole de gente.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:46
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