Sábado, 7 de Novembro de 2020
A CHUVA E O BOM TEMPO . CXIV

MEDITAÇÃO DE T'CHING

Cronica 3077 - Nós e, o deserto... 06.11.2020

Por

soba24.jpg T'Chingange, no Algarve do M'Puto

step6.jpg É na escola do deserto que aprendemos as mais profundas lições de vida. Já tive oportunidade de atravessar o Calahári e senti a profundidade dessa vastidão; senti um milagre acontecer quando o carro que conduzia foi deslocado não sei como para o lado certo, evitando um acidente de morte e, éramos cinco - a família mais um...

A palavra hebraica para deserto é midbar e tem a mesma raiz da palavra dabar, que é “falar”. Isso é muito interessante, porque o deserto é um lugar em que a Natureza fala... Não vem mal ao mundo, dizer que a Natureza é Deus...

nauk01.jpg Revendo o tempo antigo, Moisés sabia bem do que estava falando, porque passou muito tempo no deserto. Não sei explicar direito mas, meditando nas distâncias sem vivalma, um qualquer de nós se sentirá confuso feito um pequeno grão de areia, um nada na imensidão, uma ilusão...

Você já deve ter escutado falar que a vida de Moisés foi dividida em dois períodos de 40 anos. Ele passou 40 anos aprendendo com os homens no Egipto: 40 "desaprendendo" no deserto e aprendendo com a Natureza; 40 conduzindo um povo difícil e obstinado pelo deserto. Portanto, ele passou 80 anos no deserto. Eu, pouco mais que 8 X 8 dias...

nauk9.jpgO Eterno nos leva ao deserto para nos humilhar, nos provar e nos dar entendimento tal como a Moisés que sabia bem do que estava falando... No deserto, o silêncio é tão profundo que somos capazes de ouvir a própria respiração. Ali, a Natureza consegue cativar nossa atenção para as coisas mais simples. Lá você aprende a calar-se e, ficar a sós esperando para ouvir o que ela lhe quer dizer.

Eu, ia a uns 180 kms em contramão, estrada de areia com terra quase feita pó e, naquela recta a perder de vista surge outro carro. Terra solta de difícil manobra de direcção e, inexplicavelmente sou levado para a esquerda, lugar certo na condução. Não sei como - aconteceu!

nauk3.jpg Agora, tantos anos passados, relembro o deserto como sendo o lugar da acção de Deus na vida de Seus filhos; assim leio e, assim recordo! Para Moisés, o propósito é nos deixar humildes. Algumas vezes, a Natureza tem que passar a rasteira em uma pessoa a fim de que ela seja capaz de olhar para cima.

0 destino põe-nos no deserto para nos refinar e não para nos destruir. Será este o Deus a que chamo de Natureza? No deserto, Moisés teve que aprender que não era ninguém. E, a partir daí também eu, senti isso mesmo. No Egipto , Moisés  achava que era alguém importante, respeitado, admirado.

nauk2.jpg Ele passava, e todos se inclinavam diante dele. Ovelhas não fazem isso; diz-se até que elas são animais pouco inteligentes. No deserto, ele teve que aprender a viver com pouco. Suas roupas luxuosas que usava nas cidades não combinavam com a simplicidade de seu novo trabalho de pastorear.

Se você está passando hoje por um deserto, provavelmente também pensarará “Não aguento mais isso!” - Entretanto, será bom não perder de vista a principal lição do deserto:  *0 destino põe-nos no deserto para nos refinar e não para nos destruir*

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Nota: O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos,  Mu Ukulu esquecido no tempo... 

O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:40
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Sábado, 24 de Outubro de 2020
KWANGIADES . XXXIV

COQUEIROS DA LUUADe quando a Malta do Macoco, lutava contra o inimigo comum, a Malta do Cú Tapado  -  20.10.2020

NO MEU ANTIGAMENTE NA VIDA - Crónica 3072 (do Kimbo)

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

Por: Carlos Pinho(*)  (Folha 8)

coqueiros3.jpg Naquele tempo, lá na primeira metade da década de 1960, na cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, sim já naquele tempo, Luanda se escrevia com “u”, pois que no atrás do tempo em que Loanda se escrevia com “o” ainda era mais lá no antigamente na vida e eu ainda não tinha existência. Pois nesse meu antigamente, em que era monandengue, ia lutar de espadachim lá nas Barrocas dos Coqueiros, eu e os meus kambas colegas de bairro, todos nós candengues, nós, a Malta do Macoco, lutávamos contra o inimigo comum, a Malta do Cu Tapado.

O termo Cu Tapado não tem nada de ofensivo, era um pequeno bairro adjacente ao Bairro dos Coqueiros, lá numa rua que era e é um beco sem saída, ou dito numa língua mais fina, um “cul-de-sac”. E nessa luta a ressuscitação era imediata e os inimigos, eram no final, irmãos. Pois naquele tempo, nós eramos heróis espadachins, não havia nem brancos nem negros nem mestiços, mas apenas nós e eles, os da Malta do Macoco e os da Malta do Cu Tapado. Havia apenas a irmandade dos espadachins, carrinhos e trotinetas de rolamentos, que competiam rua abaixo antes, da polícia nos dar uma berrida.

coqueiros 1.jpg E, eu tinha ainda a minha “chica”, calão luandense (caluanda) para bicicleta. Uma BSA comprada na Casa Americana, edifício que é hoje uma universidade privada que certamente nunca dará aos seus alunos as alegrias que me deu a minha “chica”. Eu trocava passeios na minha “chica” por corridas de trotinete ou de carros de rolamentos. Eramos putos da rua numa irmandade feliz e multirracial. Naquele tempo eu aprendi a nadar lá na praia da Corimba que fica lá para os lados da Samba. Praia com pé até dizer chega, onde só perneta se afogava.

Ah! Naquele tempo! Criança não tem maldade, só sonhos pueris. Colocávamos calção de banho quando chovia e sentávamos no meio da enxurrada barrenta que vinha lá das Barrocas dos Coqueiros. Aí a polícia não nos dava berrida, os chuis fugiam da chuva. Mas a vida prega-nos partidas, cerca de dez anos depois, numa tarde de um domingo, julgo que dia 20 de Outubro de 1974, já nos meus 20 anos, passeio a pé ao longo da Praia da Corimba, lá para os lados na Samba, com a morte na alma. Fazia mentalmente o meu adeus à minha querida Angola, pois já adivinhava que esta iria passar por meio século de guerras, ódios, maldições, danações…

baú3.jpg Pessoa amiga me avisou, vai-te daqui ou acabas em vala comum. E foi verdade! Grande parte da minha geração acabou em valas comuns por mor do 27 de Maio de 1977 e do grande timoneiro do MPLA. O tal genocida que é uma referência para uns tristes mentecaptos. Foi aí, nessa tarde de domingo de 20 de Outubro de 1974 que aprendi, na minha alma, lá dentro dela mesmo, mesmo, mesmo, o verdadeiro significado do ditado quimbundo, “dor de desgosto é pior que dor de facada”.

Hoje, olho para trás e lembro-me recorrentemente da música do Duo Ouro Negro, “Amanhã” e então de mansinho choro baixinho só para mim:

“Amanhã,

Peço ao meu lema que faça com que eu volte

A morar na terra amada que me viu nascer

Quero chegar de madrugada

Para ver o sol raiar

Quero chegar de madrugada….. hoo

Para ninguém ver, se eu chorar”

baleozão00.jpg No próximo dia 26 de Outubro de 2020, faz 46 anos que vim viver para Portugal. Nem eu sem bem porquê, mas contínuo à espera de Angola. Angola que se dizia ser uma promessa de futuro, mas que é unicamente uma certeza de um passado infinitamente sofrido. Quanto a futuro nem sonhá-lo, quanto mais vê-lo, mesmo que fosse ao longe. Mesmo que fosse de bem longe! Aqueles, a quem foi entregue o destino do país, que se consideravam uma referência porque, segundo eles, na mata tinham lutado por algo melhor, foi-se a ver, não passaram (e não passam) de um bando de malfeitores, que lutadores dos maquis, nada tinham (e nada têm). Com efeito, os verdadeiros lutadores caíram no esquecimento e alguns dos mais significativos foram inclusivamente varridos na paranóia pós 27 de Maio de 1977.

baleozão7.jpg Acho que há por lá uns ex-combatentes que vão recebendo uns tractorzitos. Quem tomou o poder em Angola foram aqueles que em tempo de luta já se passeavam por Brazzaville e Kinshasa e capitais europeias, curtindo o dinheiro que devia ser para a luta no terreno. Só que arranjaram um terreno mais bem simpático só para eles. Certamente que não pertenceram nem à Malta do Macoco nem à Malta de Cu Tapado, nem a qualquer das outras “Maltas” que, naquele tempo, pululavam por Luanda. Ou se porventura tivessem pertencido, degeneraram em patifes e carniceiros. Soubéssemos nós então, e as espadeiradas teriam sido mais fortes.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Escolha do Soba T´Chingange  Niassalês da mulola do Rio Seco… Kamba kiami ami! Mungweno… E. afinal, o que está ruim, pode mesmo, piorar...



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:42
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXIV

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte IV de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3045

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpg As escolhas do Kimbo

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Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

sónia2.jpg Em Tsumeb, um novo acampamento, as mesmas barracas de campanha. Mas a comida era melhor, assim como o tratamento que recebíamos. Ficamos pouco tempo. Conseguimos ser aprovados na seleção, graças a meu futuro cunhado e por eu ter começado a servir como intérprete. Benditas aulas de inglês.

Mudamos de campo outra vez. Fomos para Grootfontein, mais próximo a Pretória. O campo era um presidio que estava sendo desativado. Restavam lá uns 3 ou 4 presos, todos idosos. O presidio era formado por várias casernas e eles nos separaram. Tinhamos refeitório com mesa e bancos, e a comida era surpreendente. Imagine, senhor, que comemos até sobremesa de maçã caramelada no forno. É que os presos eram os cozinheiros. Fiz amizade com um deles. Tinha 65 anos e estava preso há 30 pelo assassinato da esposa num acesso de  ciúme. A filha não o visitava. Depois que saí do campo e ele da prisão, fui à casa dele. Era um homem gentil – como pudera fazer aquilo? Mistérios do coração humano que jamais saberei.

suku2.jpg Continuei sendo intérprete junto à assistente social e ao diretor do campo. Meu futuro cunhado arrumou emprego numa fazenda. Meu namorado logo sairia, mas eu era menor de idade e não poderia deixar o campo. Estava dificil para minha mãe. Ir para Portugal estava fora de questão, dado o desprezo com que nos tratavam. Eu e Zé decidimos casar. Minha mãe passou a ser minha responsabilidade (acredita que até hoje ela fica muito zangada quando lembra disso?). E assim, no dia 6 de novembro de 1975, casei dentro de um presidio que funcionava como campo de refugiados. O diretor e a assistente social foram nossos padrinhos.

kuito8.jpg Os soldados que tomavam conta do campo fizeram uma cotinha e pagaram a nossa festa e a lua de mel num hotel na cidade. O casório teve bolo, vestido de noiva e tudo, viu? O Jeep do exército nos levou ao hotel. Os soldados ficaram dentro do Jeep vigiando para que não fugíssemos. De madrugada, acordei com dor de ouvido. Na recepção não havia remédios, as farmácias só vendiam medicação com receita. Os soldados me levaram para o hospital, onde fui atendida. Ao voltarmos para o campo, os soldados contaram para todo mundo a aventura. Não escapamos à gozação geral: “Nem os ouvidos poupaste à miúda, Zé?”

kuito2.jpg Casada pelas leis sul africanas, no dia 11 de novembro casei na Igreja e duas semanas depois casei novamente no consulado português. Em menos de um mês casei três vezes. Felizmente, com o mesmo homem. E assim deixei minha terra. Um ano na África do Sul foi suficiente para sabermos que lá não era o nosso lugar. Além da cultura muito diferente, começavam a ocorrer ali os mesmos episódios violentos que havíamos testemunhado em Angola. Decidimos mudar. Escolhemos o Brasil, país que desde minha pré-adolescência eu sonhava conhecer.

Partimos para Portugal a fim de cuidar da burocracia. No dia 7 de fevereiro de 1977 zarpamos num navio italiano rumo a Santos, onde desembarcamos dez dias depois. Eu estava com seis meses de gravidez.

fuga8.jpg A imensa maioria dos brasileiros nos recebeu de braços abertos, principalmente as pessoas mais humildes. Alguns, mais abastados, nos tratavam friamente, mas nunca fomos hostilizados. Aos poucos aprendi a amar a terra nova, a querê-la a ponto de ficar amuada quando falam mal dela. Percorri este Brasil quase todo, conheci cada lugar que nem tens idéia, senhor. Andei por picadas, atravessei pontes que eram apenas duas tábuas paralelas, morrendo de medo que elas quebrassem e o carro despencasse. Comi queijo de coalho em casebres de gente mui simples e coração enorme. Ah, senhor, que país maravilhoso é esse teu Brasil!

Descasei, casei de novo.

Quando a  saudade dava botes sobre a gente, o Walter fazia a muambá. Comprava cachos de dendê e tirava o óleo em casa mesmo. Era o único jeito de ficar igualzinho ao de Angola. Aqui as frutas são praticamente as mesmas que tínhamos, a temperatura  e as praias também, mas não é a minha casa, entendes senhor? Aqui eu me sinto bem, mas falta o cheiro da minha terra, falta o cacimbo e a silhueta única do imbondeiro em meio à névoa.

guerri3.jpg Há uma ausência que não consigo definir. Tudo tão igual, mas ao mesmo tempo diferente. Talvez a gente seja mesmo filho de nosso chão, não sei. Parece que nesta paisagem familiar falta a alma da minha terra, a casa que posso realmente chamar de minha.

Eis-me aqui, senhor, aos 60 anos, com três filhos e dois netos brasileiros. Sou feliz, bem sabes, mas a saudade é bicho traiçoeiro: quando a gente menos espera, ela surge, arrepiando a pele, cravando as unhas na carne, abrindo ocos no peito. Recolho então minhas lembranças, as músicas e fotos de minha terra, e choro. Mansamente.  Angola ainda vive em mim. Como tatuagem de alma."

FIM

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:04
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2020
CAZUMBI . LXII

MOKANDA ANTIGA - ODISSEIA ANGOLA . Parte II de IV - AGOSTO DE 1975

Crónica: 3043

Emocionante. Uma crónica maravilhosa para os meus amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul. Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto kalahári e Costa dos Esqueletos…1975 - 2020

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

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Sónia1.jpg Sonia Zaghetto

fuga10.jpg Meu pai só vi duas vezes. Na primeira eu tinha seis anos e ele me levou pra passar o dia na casa dele e conhecer sua esposa e filhos. A segunda vez foi aos 16 anos. Ele me encontrou na rua, na garupa da moto de um amigo e repentinamente se lembrou que era pai. Mandou eu descer e ir pra casa, que filha dele não andava de moto. Ah, meu Senhor, filho mal havido nem sempre engole sapo – anote aí. Disse-lhe que não era meu pai, que não passava de um reprodutor. Depois disso nunca mais o vi. Tudo o que sei dele é que vive em Portugal.

A vida em Angola enchia de festa meu coração adolescente. Com os Escoteiros Marítimos da Praia do Bispo acampei em ilhas e praias distantes, participei de paradas militares, visitei hospitais e presídios. Com grupo de dança folclórica Rancho da Casa do Minho dancei em campeonatos e apresentações. Vi o nascer do sol na praia da Ponta da Ilha, andei de moto nas dunas da praia do Sol e acampei na paradisíaca ilha do Mussulo. No Baleizão comi prego no pão com Coca-Cola. Nos bares à beira da praia comi santola, camarão, peixe no molho de dendê, muamba com pirão de milho. Eu nem sabia, senhor, que fabricava as lembranças mais caras. Um dia elas seriam os retalhos coloridos da minha colcha de saudades.

fuga11.jpg Tudo mudou em abril de 1974. Angola ansiava pela justa independência. Estávamos numa entressafra de tranquilidade. O terrorismo de 1960 quase não existia mais. Os guerrilheiros tinham sido rechaçados pelas tropas portuguesas. Porém, com as mudanças na política de Portugal, tudo mudou nas colónias lusitanas na África. Grândola Vila Morena deu a senha para os cravos florescerem nas armas. Marcelo Caetano caiu. O socialismo venceu em Portugal: Álvaro Cunhal, Mário Soares e seus camaradas, agora no poder, apoiaram a independência e o Movimento Pela Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto e patrocinado pela ex-URSS, Cuba e Alemanha Oriental. Mas no país existiam também a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, apoiada pela França e pela Bélgica; e a União Nacional pela Independência Total de Angola, de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos. Os dois grupos não aceitaram os favores de Portugal ao MPLA.

Iniciou ali, senhor, a grande guerra civil que devorou o meu país por três décadas. A violência aumentava a cada dia. Balas perdidas, rajadas de metralhadora, morteiros de bazuca e granada passaram a ser rotina. Quantas vezes, tínhamos que nos jogar no chão, dentro da sala de aula ou de cinema? Lembro de um dia em que Jesus Christ Superstar estava na tela enquanto eu, deitada no chão no cine Tivoli, ouvia as balas assoviarem sobre a cabeça.

Era difícil para todos, mas quem tinha pele branca, como eu, caiu em um limbo. Eu não era colonizadora, nem exploradora. Era uma adolescente angolana, pobre e agora considerada inimiga. Em meados de Março de 1975, começamos a cumprir o toque de recolher. A partir das 16h, brancos não podiam andar nas ruas sob pena de serem presos ou mortos por grupos guerrilheiros. Estes não eram mais chamados terroristas e sim aclamados como heróis da libertação. Havia assassinatos de homens brancos todo santo dia. As mulheres sofriam mais: eram seviciadas antes de morrer. Minha mãe rendeu-se ao medo: em Junho daquele ano me mandou para Nova Lisboa, onde tínhamos familiares e as coisas estavam mais tranquilas.

fuga13.jpg Muitas famílias estavam fugindo do norte do país e indo pra a nossa região, onde recebiam apoio da Cruz Vermelha Internacional para deixarem o País com destino a Portugal ou à África do Sul. Comecei a trabalhar como voluntária num dos postos da Cruz Vermelha. As caravanas do norte se multiplicavam. Eram tantas, que houve dias em que não dormíamos. Engolíamos pedaços de pão enquanto limpávamos ferimentos, distribuíamos comida e dávamos informações. Quando conseguíamos parar por alguns minutos, encostávamos o corpo nas caixas de alimentos e dormíamos em pé mesmo.

fuga9.jpg A multidão rugia em desespero. Gente à procura da família, gente abatida e sem rumo. Derramavam grossas lágrimas, lamentavam-se em alta voz pelos parentes mortos, pelos bens perdidos, pelas emboscadas às caravanas. O bicho homem é bruto, meu senhor.

Lembro muito bem, ainda hoje, de uma caravana. De um dos carros desceu uma família atacada na estrada. A mãe tinha uns olhos perdidos e carregava o filhinho no colo. Seu choro era um chicote que arrancava lascas da gente e tingia de cinza o vasto mundo. Implorava que lhe salvássemos o menino, mas ele, senhor, já estava morto. Nesse dia, lembro-me bem, rompi com Deus. Reneguei-o. Era bem certo que nenhum ser supremo e bom poderia criado tal humanidade perversa e tanta dor a fustigar as costas dos inocentes.

(Continua…)

Sonia Zaghetto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:30
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Terça-feira, 28 de Julho de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLVII

TEMPO DE MEUS KITUCUS (mistérios). MEDITAÇÃO DO T'CHING...

SOB A LUZ DA LUA, na LUUA... Crónica 3041 28.07.2020

Publicada em KIZOMBA a 24 de Julho de 2020, e agora, complementado…

Por

soba0.jpeg T´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento

banco de angola1.jpg Ontem, dia 23 de Julho de 2020, visitei a página social dos Kaluandas no Facebook e, fiz um reparo acerca do edifício do Banco de Angola, uma construção magnífica dos anos 50 de século passado tendo então afirmado que os construtores daquela obra tiveram de regressar ao M'Puto quando do 11 de Novembro de 1975, sem poderem trazer essa obra de arte no bolso...

Que seria bom que os mwangolés reconhecessem esse labor colonial e deixassem de retaliar os milhares de ex-colonos na generalidade, pois que estes, aí deixaram um vasto património... Para surpresa minhas, todos referiam a foto com adjectivos de lindo, belo e edecéteras singelos sem nada mais dizerem e, eis que em seguida seu administrador faz um reparo sem sentido, apagando o meu comentário, no qual, referia algo de histórico! Referia a criação da moeda Kwanza por Said Mingas (Avelino dias Mingas)…

banco de angola2.jpg Achei um despropósito pelo que, concluí ser esta página, uma das muitas de lavar a imagem ao desgoverno com mais de 45 anos – o MPLA…Terei aqui de referir ser este modo de publicitar fotos de Luanda uma desajeitada forma de engraxar os homens do candomblé do MPLA dando ao povo uma imagem enganosa. Uma página feita, provavelmente por gente que só quer agradar aos ditos donos daquilo e, daí, tirar proveito ou "gasosa" de sua bajulice ou lambujice! Claro que só mostram o lado vistoso, sabendo nós a precária e decadente situação dos bairros da periferia e antigos musseques no que concerne a infraestruturas minimamente satisfatórias.

Assim, apreciar, interpretar e entender o significado de obras de arte nem sempre é uma tarefa simples para quem se programou num objectivo de agradar; tudo depende do contexto! Às vezes, é preciso que se tenha conhecimento da perspectiva, ideias e pontos de vista do autor, a fim de entender o que ele quis expressar em um quadro, uma foto, uma obra como o "Kinaxixi" por exemplo. Um património referenciada nos canhenhos da arquitectura mundial e, que simplesmente foi demolida por este governo, para dar lugar a uma torre - coisa de puro negócio de cambalacho!

banco de angola3.jpg Lembro-me de ter lido, tempos atrás, um relato sobre um grupo de estudantes que foi levado por uma professora a um museu de arte. A certa altura da visita, algumas alunas pararam interessadas em analisar detalhadamente um belo quadro pintado a óleo. Pareciam confusas e sem entender a beleza da obra. Percebendo a perplexidade delas, a professora levou-as a um lugar específico da sala e explicou: “Meninos, este é o ponto a partir do qual o pintor deseja que olhemos aquele quadro.”  

Dali, os alunos puderam captar toda a beleza da pintura que não tinham conseguido ver quando estavam em cima dela. Tal e qual como o tempo que nos leva a descrever muitos anos depois as coisas que no comum daqueles dias, eram normais no labor dum território com as instituições funcionando com a dignidade requerida. Meu pai trabalhou naquele edifício quando se passou a usar Kwanzas em substituição dos escudos angolares e, que eu saiba, seu nome não consta num qualquer painel. Talvez conste o de Said Mingas, meu colega de carteira na Escola Industrial de Luanda e, durante anos! O Avelino Dias Mingas! Com a revolução inverteu o Dias em Said, procedimentos emancipativos, pois!…

banco de angola4.jpg Só que meu pai branco saiu de lá com uma bala no corpo via M'Puto por via do 27 de Maio de 1977! As paredes, as fachadas, as fotos, nada disso mostram! Muitas vezes, o quadro da vida de um imóvel torna-se obscuro, tornando-se até difícil de ser entendido e apreciado por observadores limitados como o é a maioria de nós. Mas, se falarmos, as esquinas a nós afectas, ventilam segredos! Isto acontece quando em meio a dificuldades e problemas não conseguimos ver a mão do Artista, o feitor da coisa e a partir do projecto, aplainando paredes, encastelando tijolos, nivelando superfícies, contornando obstáculos, harmonizando contrastes depois de levantar seus andaimes.

O banco de Angola, é o edifício que melhor simboliza a arquitectura do Estado Novo de feição neoclássica portuguesa; impõese não só pela sua arquitectura mas também pela monumentalidade, grandiosidade e riqueza. Foi concluído em 1956 e projectado pelo arquitecto Vasco Regaleira, que o identifica da seguinte maneira: " idealizou-se um edifício que arquitectonicamente se integrasse na época setecentista, e dar exemplo das condições da nossa tradicional adaptada à colonia… O hall de entrada tem uma escadaria monumental em mármore e colunas jónicas, que sustentam um tambor e cúpula. O seu interior é decorado com azulejaria que representa a chegada dos portugueses aos reinos do Kongo e de N’gola. Do ponto de vista simbólicoexpressivo, o edifício tem um grande impacto visual. Situase na Avenida 4 de Fevereiro nº 135169…

banco de angola5.jpg Assim, como gravando na tela uma história possível de ser entendida, somente do ponto de vista da eternidade como é o caso do Banco de Angola e, aonde meu pai queimava cédulas com palancas, pontes, silos e estradas a culminar um ciclo! E, miseravelmente, mijam agora em cima do historial do que foi e já não o é! Não o é agora, relevante apreciar a tela da existência sem descrever sua integridade. A vida inteira deve ser orientada e observada do ponto de vista desse ângulo do tempo para ser possível entender muito do que nos afecta no aqui e agora e, na natural sequência dum passado.

Sendo assim e tendo Deus como a suposta fonte de luz, sob seu brilho poderemos só nele, ver a luz da verdade, da esperança, da confiança e da certeza quando tudo nos parecer periclitante e escuro com paradigmas perniciosamente confusos da ingratidão! Não é sob a óptica embaçada de nossos entendimentos ou das nossas filosofias humanas que iluminaremos todos os detalhes que nos deixam perplexos diante da vida. Tomemos por exemplo a perca da nacionalidade angolana, tendo-se lá nascido! Isto não estava escrito nesse acordo do Alvor! Pois então, lá teremos de meter o dedo na ferida buscando essa luz da ilógica enquanto nos submetemos às mãos modeladoras dos artistas feitos políticos; desses que modelam muito mal nosso barro! Nossa vida - Obra de torpitudes... com uns monangambas a bajular suas excelências…

O Soba T'Chingange, no M'Puto...



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:35
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2020
MOKANDA DO SOBA . CLIV

MEUS KITUCUS (mistérios) . JANELAS PARA A VIDA

Crónica 3033 - N´gana N´Zambi, não vale a pena morrer de véspera01.07.2020

Publicada em Kizomba a 29.06.2020 - N´gana N´Zambi – Meu Senhor

Por

soba002.jpgT´Chingange - (Ot´chingandji) - No Sul do M´Puto – Barlavento ( …de onde sopra o vento)

zanzi9.jpg Que cena: Um senhor fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas olhando para o infinito de Cascais, prédio comprado com Angolares a fingir de Macutas com palancas a pastar o capim das anharas. Babando-se pelo canto esquerdo descaído, insensível ao cérebro abanado por uma trombose. Com a lentidão das coisas graves e titubeadas com muxoxos – Hum, pois, não sabe; a kalashnikov, os turras – coisas antigas do vinticinco do M´Puto…

E, eram bolas de trapos, meias surripiadas do pai a cheirar a sulfato de peúga e permanganato de potássio dos armazéns do Bungo! Lembranças de quando ainda estudava que o Ali Babá era lenda antiga com ladrões feitos moiros, muçulmanos das mil e uma noites. A puta da guerra intercalava-se com as vidas de quando mais puto, ainda era kandengue; de quando fazia trumunos nas bananeiras do Malhoas, um sítio esquecido dum rio que só o era quando chovia – Rio Seco, aiué… Bem! Depois, revolucionou-se a fazer panfletos contra as coisas ultramarinas, juntou-se com a foice e o martelo no M´Puto e entre picardias e fumaças de burundanga daquele tempo, espezinhou-se numa intiphada ferindo até o próprio pai…

mai1.jpg Intiphada com giad pela libertação de sua terra predicando avanços sociais porque, aquilo da exploração tinha que terminar! E, terminou, faz tempo mas, a guerra continua, sempre! Às vezes, lá na Luua, rebentava tiroteio, eram rajadas pulando no espaço, de luz tracejantes nas noites cálidas tal qual como o Ché fazia em “El Pinar de Cuba” e, toda a gente fugia para o centro do medo, parte central da casa… Depois voltava tudo ao seu lugar. Se estavam na bicha, começavam os muxoxos atrás da parede e entre mujimbos sabia-se que alguém teria morrido.

Eram combates com tiroteios aonde o que era, já tinha sido, a vida não corria no setentaecinco – fugia! Mais e mas, edecéteras e entretantos… Que é feito do cambuta chambeta zarolho filho da peste? – Acho que lerpou! Assim mesmo no simplesmente e no presente do defuntado, sem gerúndio. Foice! Agora, o irmão do Fala Kalado, confinado no seu prédio do M´Puto, nem se apercebe que a guerra do Tundamunjila já acabou e, diz coisas que nem batem na bota da perdigota.

Interpretando a natureza contraditória do Mundo que hoje forçosamente tem uma motivação sanitária pelo COVID 19, não será permitido cuspir para o ar, nem para a água da praia de Carcavelos porque a gente, a vida da gente, anda muito subjectiva. Isso! O que se passa no espírito ou no pensamento resulta das percepções pessoais, assim como o ponto, que vira virgula sem direito a interrogação. Afinal, seremos todos uniformemente naturais usando um relógio sem ponteiros e, divididos entre o ontem e o hoje sem o antes-de-ontem…

maian10.jpg Hoje, o agora é muito mais importante que todas as outras farras; uma janela muito ampla com a distância e a proximidade purificadas num se calhar e, com um Deus de silêncio a fiscalizar. Tambulakonta!? De novo voltamos a confirmar que o sentido que nos leva a qualquer participação cívica, não é igual para todos! Quem andou feito cigarra despifarrando seus proventos, agora forma fila para se socorrido com uns pastéis de Belém, tortas de Cacilhas, batatas fritas de Alcabideche e rufadas de Tomar ou Pasteis de Tentúgal.

O ideal seria estarmos todos a olhar porque pode ser-se mal julgado e até ser preso por ter cão ou por não ter! Pois! Uns fogem do problema, outros há, que os problemas são sempre os outros. E, então nem sabemos como ficar, estando na casa toda ela feito medo, falando com o frigorífico, a torradeira e a avenca de folha larga tirada da casa da vizinha - porque sua dona, não a pode regar; está em Almada bem por debaixo da mão do Cristo Rei rezando o terço e mandando santinhos para todos os amigos…

Naqueles tempos de CONFINAMENTO 75 – DA LUUA, houve quem andasse semanas a comer bananas, e outros, comendo arroz e ração para gato ou cão, ou mabanga da Samba aonde espetaram um Sputnik. Ele, o Kafundanga Zungueiro, diz até que a guerra do tundamunjila não foi assim aquela coisa hedionda... O senhor fardado com o pijama às riscas, ex-Coronel do “M”, ouve esta descrição abanando a  cabeça ora para os lados ora assim-assim para cima e para baixo! Será que se lembra das diabruras que fez lá no vírus do “Vitória ou Morte”…

mocanda32.jpg Só que ouvíamos relatos, de gente que era morta de maneira bárbara, dizia-se que a FNLA matava com certos requintes, praticava antropofagia e edecéteras. Afinal eram só frascos roubados pelo “M” no Instituto de investigação para incriminar os zairocas fenelas. Não era mesmo para meter medo! Nem um vampiro iria gostar desta coisa macabra, comer corações sem sal, nem pimenta, nem jindungo onoto!... Luanda estava empestada de guerrilheiros, uns bem fardados e sabendo distinguir uma G3 de uma Kalashe e sabendo aonde ficava o gatilho mas, outros nem sabiam o que eram as estrias do artefacto… Tudo aquilo e agora, caramba, outras viroses…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:45
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Sábado, 27 de Junho de 2020
CAZUMBI . LVIII

CINZAS NO M´PUTO - ”A CHUVA BATE NA PELE DO LEOPARDO, MAS NÃO TIRA AS SUAS MANCHAS, NEM VICIOS”. Andamos com o credo na boca, motivo do COVID 19 que à revelia, faz tempo, trilha nossa vontade19.06.2020 no FB

Crónica 3032 - 27.06.2020 no Kimbo Lagoa - Cazumbi é feitiço ou mau-olhado em Kimbundu

Por

soba16.jpg T´Chingange – No Sul do M´Puto; Al-Garbe

burundanga1.jpg Flor da Borundanga - Tem kazumbi

Ando a esquecer o passado - Será que tomei essa coisa de borundanga - Uma droga  extraída da Datura Stramonium, uma planta ornamental de flores brancas em forma de sino, vulgarmente conhecida como trombeta ou trombeteira, bastante comum na Espanha e na América Latina. Lá iremos porque tenho uma coisa destas no meu quintal..Óh folha do diabo...

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O Mundo necessita de nós para respirar e por isso as autoridades de saúde pública fazem a lei de forma rápida na mira do boteco das bifanas abrir quanto antes, pois que a economia tem de correr, também porque o socialismo é muito bom a lidar com o dinheiro dos outros – o nosso! Recordar agora o exercício de minha mãe Arminda equilibrando o orçamento do lar, fazendo comícios às galinhas na capoeira coberta a zinco lá na Rua José Maria Antunes numero vinte e dois na Maianga da Luua.

araujo63.jpg Um prédio com arcos construído no rigor da salubridade colonial, na casa dos fundos a dar para o pátio da cantora Sara Chaves, quase mesmo no início do Catambor. Lugar que nem sabíamos que não era nosso porque eramos brancos de pele e colonos de condição. O tempo tratou de nos dar a seguridade dos hipócritas filósofos que falam com as latitudes e algoritmos dos rumos de cada qual como fossem os senhores do outro, que tu não és daqui, vai para a tua terra fazer semeaduras e tratar da casa do senhor teu feitor…

Dona Arminda, sozinha falando com rispidez com as poedeiras pedreses num canto do fundo do quintal, logo a seguir ao tanque de selha e depois da mandioqueira que só dava sombra: - Ou vocês põem ovos ou corto-vos o pescoço - vão prá panela fazer de cabidela! E, elas punham ovos grandes! A vizinhança só queria os ovos da dona Arminda porque pareciam mamões da Luua. Sim! Isto decorria numa rua do bairro Maianga com cheiro a acácias rubras e zumbido permanente de cigarras, um calor de trópico.

eleutero4.jpg O dinheiro que Dona Arminda fazia, dava decerto para comprar um peixe-espada à quitandeira que sempre parava naquele número de rua e, aonde apregoava do seu jeito jeitoso, chamamento do peixié sinhola – tá fresquinho, compra só! A vida assim gerida de toma lá dá cá compara-se aos governantes do M´Puto que não também não fazem milagres sem ovos; Eles, vindouros daqueles outros descolonizadores, andam cansados…

Inventando regras a definir como e por onde andar por forma a agradar à velha carência dos recursos nacionais, incentivam o pessoal a ir ao café, ao teatro, aqui e ali e até à praia notando-se que estimulam da forma que julgam mais certa para e, como as galinhas começarem a chocar ovos, fazer omeletes, pataniscas e trespassá-las em dinheiro porque senão ficamos à rasca. Ainda se tivéssemos uma colónia, se tivéssemos colonos, se e, mais se…

AMADEU3.jpg Um esforço para desentorpecer a apatia amarelada dos rostos encafifados num desespero entorpecido dos galináceos - eu, tu, ele, nós, vós, eles – todos! A realidade que ninguém conhecia é bem complexa ao ponto de tornar rapidamente os cabelos brancos por tantos ansiolíticos tomados por quem tem esse cariz de ambição – de ser governante; com tanto nada e tão pouco incerto, muito fica por explicar na inactiva justiça, na improvisação da educação…

Muito fica por explicar prever e acudir incêndios das matas, repensar num interior desvalido e o crescer de palpites tendo o improviso como sorte dum instinto. Tudo isto com comentadores cambutas, longos e oblongos a zurzir à perna inflacionando sortes e azares como se tivessem o futuro na ponta dos dedos ou o tivessem comido por inteiro com arrotos de carapau frito bebido com morganheira tinto ou verde Casal Garcia…

onça1.jpg Foi neste então que recordei aquele mítico provérbio africano ”a chuva bate na pele do leopardo, mas não lhe tira as suas manchas” aonde para além da onça, do leopardo e da chita existem a hiena e o mabeco que também as têm. Bom! Agora que sou zebra noto ocorrer-me o mesmo fenómeno em manter as riscas mas agora, mesmo que chova ou faça sol, acontece um outro pormenor – também me embranqueceram no decorrer do tempo…

As riscas irregulares das verdadeiras zebras são para fazer com que o leão fique tonto ao persegui-las perdendo a noção e desequilíbrio. O facto de todas correrem em simultâneo causa o efeito psicadélico e, o que era, fica turvo com tantas riscas a se moverem. Às tantas as ordens variam conforme o desequilíbrio pois! Fique em casa ou, saia e vá às compras, movam-se mas, há um mas: não desconfiem átoa. A natureza ensina muito a quem se detém a observar os mistérios tão perfeitos dela…

zumbi00.jpg É por estas e outras que uma grande parte das pessoas com quem vou tendo contacto, sentir-me desiludido! Posso até perguntar ao mundo e para quem me lê, que interesse poderá ter no dizer de lindas ou ortodoxas de alguém com falas tão cheias de façanhas agigantadas, quase-quase de soberba superioridade. Para quê? Fica tudo assim como uma nítida imagem de uns tantos petulantes que não perdem a oportunidade de afectar as minhas sensibilidades, os meus cheiros, as minhas impressões como se fosse um desmilinguido…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:05
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Domingo, 21 de Junho de 2020
KWANGIADES . XXXIII

UMA T´XIPALA ANTIGA  . Parte da minha lenda – 19.06.2020

O sol tem ondas de ferroadas quentes que machucam na ida da vinda de nossos dias  - Crónica 3031

Por

tonito15.jpgT´Chingange – Nos Al-Garbes do M´Puto

T´XIPALA: - Fotografia, cara, rosto, personalidade, carácter 

maian7.jpg Fugindo de criaturas maléficas invulneráveis aos sentimentos alheios, registei os meus afastamentos em vídeos e, entre dezenas de cassetes e, de-quando-em-vez, revejo os bafos de boa sorte nos ousados e longínquos sítios de África sobretudo aqueles aonde surge a alma de um evento, alguém ou alguma coisa transparecendo essência vital, uma longa fila de órixes caminhando sem destino no topo de uma alta duna do Namibe, Sossusvlei ou Naukluft, uma verdade de beleza como transparência espiritual.

Figuras rarefeitas, diluídas na essência dum ar que tremeluza no calor da miragem, também do que se pode ver em uma folha de Outono ou na textura de uma velha casca de árvore com um lagarto pré-histórico camuflado. São formas escorregadias da realidade guardadas em meus armários que preenchem o quase-tudo do grande nada de minhas vivências.

sussuvlei1.jpgAo observá-las com verdadeira atenção, transformam-se em centenas de momentos sagrados, só meus. E, sempre na busca de uma vida interessante, aventureira, apaixonada e diferente, rumei a África procurando-me entre anharas, savanas e desertos de longas e altas dunas, lugares do cu-de-judas ou terras do fim-do-mundo sem os banais pormenores das urbes, grandes metrópoles com gente empoleirada até ao céu; África de exotismo quanto baste com coisas e animais incomuns.

Lugares de sermos confundidos como caçadores de elefantes por tanto pó salobro das tortuosas picadas, expostas ao sol impiedoso; ao calor abrasador dos dias e dos frios cacimbos húmidos a envolver noites com manto de espesso escuro; bem perto uma hiena parece chorar ao redor de uma carcaça fedorenta, carniça de vida sobrevivente.

naukluft1.jpg Lugares aonde a adrenalina delira em pavor loucos, inundados e imundos de situações fatídicas, substituindo o ar dos pneus por capim cortante. A coragem indomável de conhecer a África profunda, surgia-me naturalmente desde que ainda moço me tornei kandengue ao devorar um cacho de bananas oferecido por meu tio “Nosso Senhor” vindo do M´Puto, ao som dos apitos dos vapores “Mouzinho e Uige” da Companhia Nacional de Navegação.

Com meu pai colono de papel passado e creditado na tal CNN e, assim, crescido na idade, não foi necessário beber kat´chipemba com pólvora, uma mistela incendiária que deixa as entranhas em chamas para enfrentar os matos com coragem. Nestas voluntárias tarefas de aventura com aflição, os vómitos de radicais experiências foram surgindo entre bichos cambulando cacimbos com marufo de kassoneira, ofertas de N´zambi e gente com vestes de loando, amuletos reluzentes, tilintando seus toucados e penduricalhos nos artelhos; de muitos, por demais, zingarelhos.

IMG_20170727_132146.jpg Então, falando com meus botões nas frinchas dos tempos, neste mundo confuso, serei sempre um genérico cidadão ou um sem-terra por não me poder definir como genuíno nessa escolha; assumidamente, não pertenço a lugar nenhum. A minha terra biológica deixou-me ao deus-dará e, até meus sonhos penalizam o recordar dos tempos em que a vida se expressava com fluida vivacidade. Daí ter renascido como Niassalês do bojo de um vapor que o tempo também enferrujou – NIASSA…

Fazendo dela e no agora, uma miragem chamada de N´Gola, na noite passada entrei numa sonhada toca grande mais parecendo uma galeria de mina abandonada e, vendo sair dum buraco lateral uma nuvem de pó para ali me dirigi e, foi de lança em riste que piquei de morte um lobo zombando de mim. Deu um uivo esquisito e por ali ficou prolongado no próprio sangue. Nesse instante, apercebendo-me de algo estranho atrás de mim, virando-me, deparei comigo mesmo, uma imagem nítida de quando rapazola, usava calças com um cinto de fivela enorme. Imaginem só, um chefe de quinas da Mocidade do M´Puto…

luis15.jpg Assim como uma foto amarelecida no tempo, estava pontilhado de minúsculas cagadelas de mosca de sexo indefinido. O penteado com o risco ao meio parecia ter brilhantina de óleo de cedro, daquele que faz brilhar as madeiras dos imóveis mas, eu não era nenhuma escultura de pinho nem de pedra e nem vi caruncho ou salalé enfarinhando vestimentas ao seu redor. Não é normal lembrar-me dos sonhos mas este ficou grudado na testa ou no templo da alma, esse olho do além que paira nas cúpulas das catedrais.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:15
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Sexta-feira, 27 de Março de 2020
KWANGIADES . XXXII

MOKANDA DO ZECA  - As falas do baú de Zeca – 27.03.2020

FALAS BONITAS AI.U.É…. Crónica 3008

Por

zeca1.jpg José Santos - O Senhor do Koilo - Impregnado de paludismo duma especial estirpe kaluanda, Zeca colecciona n´zimbos das areias dum chamado de Rio Seco da Maianga. Tornou-se ali professor katedrático e agora lecciona no M´Puto quando não fica com o catolotolo… Kwangiades: - são as musas, kiandas ou kalungas do Kwanza

kimbo 0.jpg As escolhas de T´Chingange ... No Nordeste brasileiro - (TONITO era seu nome de candengue da Luua)

Só mesmo nós no catravês do ximbico da Luua…

lua1.jpeg Tu mereces TOTEM..., teres todos na tua volta...! Pessoa Igual sabido neste minha vida de Lellu de bué de salalé..., num conheço pessoa de igualmente igual..., dos teu predicados, que cheira a katinga de África, que a deixa ficar, diz é Amuleto.., de T'Chingange! Tu és espécie de chão de poeira em extinção pelo avanço do alcatrão do Mundele de expropriação de exploração..., dos mano dos licenciado.

Alembamento kiavuluvulu cumbu!!! Tu és pessoa do fantástico..., que N' Zambi na tua koka bem Sabe o que as tuas fala, fala mesmo, que são as fala de ÁFRICA, que bué acredito que também te protege, que quando tem O Cambotermo te quer fazer mal, Ele bota Grito de protecção..., num precisa não, desse tocos dos musculus de elevação nos ramos do Imbondeiro...! Sim, te protege, desde esses tempo dos Pés Descalço, que avilo Kandengue coleccionava na sombra da Mulemba, santinhos e beijava crucifico de verdade...!!! Uaué!

lua7.jpg Tambula conta! Ele ficava do mais O Mufulame yê!!! Amam'ééé! O que tu divulgas nas tua malamba no teu jeito único de Rio Grande de nado de teu MUXIMA e igual ao meu..., que bué mazé é abraço.., .e, é laço de capim do nosso kuuaba Rio Seco N´denge Yetu, do território sagrado do Poço da Mayanga do Rey..., e de Vata de beija mão.., do kapiango do N`zimbu... úi.

Para comprar lancha de bordão para ir nas Kilumba..., do afamado bairro da kazukuta do Rio Seco..., da Praia do Bispo, Samba, Mussulu, Xicala, Ilha da Cazanga..., também dos cheiro dos mamilo da kianda dos baixinho de celha morninha (Baía)..., de bué pirão, torresmo de Jacaré do Panguila, também dos tuqueia mais do t´chissipa..., de Mopane dos Herero, de estufado do peixinho dos mais saboroso de África, os Cacussu..., uau!

arau162.jpg Do Mu Ukulu de lagoa de manos que de único matumbo jeito, os acariciava..,. tratava os mona espelho..., para não os perder, antes nos deixar no bandozinho crescer em liberdade de água do mais saudável, a água do Bengo de então..., nos dizer dos nome cientifico dos Mundele biológico do kalunga..., o tratar no saudável.., pópilas mano!

Num ter nunca o extinção pelo tuji do aspirador..., de não ser levado para as celha de cimento dos moderno criação atoa de jimbolo com os fermento, os glúten, os sacarose, pastilha nos bué rápido crescer engordar barrinha de escamas fraquinhas, barbatanas-guiador, e barbatanas leme..., Ai.iu.é, mesmo…

luua10.jpg Ser feliz fazer os seus filhos na sua kubata de folhas de chá Príncipe do fundão que vai buscar no parar a respiração e trazer na kapanga da barbatana peitoral... PARA TI, QUE MUITO TE ADMIRO E QUE MAIS VIDA EM DIANTE O N´ZAMBI NO SEU OLHADO DO KOIILO TÃO BEM TE PROTEGE!  ZECA2020030123H50 NA MINHA KUBATA

GLOSSÁRIO:

Luua - Luanda (diminutivo em gíria) Mocanda - carta;  Mu Ukulu - Do antigamente; Atu/mutu - pessoas/a; Axiluanda - antigos pescadores de Loanda; Berridavam - fugiam; Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kapiango – roubo; Kianda - sereia; Kituku - mistério; Kúkia – sol (nascente); N´dandu – parente; N´dongu - canoa; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Trumunu - jogo de bola de trapos; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama - maravilhoso Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores… Totem - monumento; Lellu – de cigano; katinga- suor, transpiração; Mundele, T´Chindele – branco; tuji – merda, excremento; Alembamento – casamento; kiavuluvulu – muito, por demais; ávilo – amigo;  Kandengue – jovem, rapaz, pivete; Uaué!- Admiração; Tambula – atenção, ficar atento; Mufulame yê!!! Amam'ééé! – coisas do catolotolo; kuuaba – adorável; capiango - roubo; N`zimbu – Buzio, dinheiro; Vata – chefe, grande m´fumo; Kilunda – lugar; Kazucuta: Trambiqueiro, aldrabão, mentiroso, faz manigância; kianda – Sereia; jimbolo – bolo com farinha de mandioca; Kubata – casa de taipa; Kapanga –protecção; Koilo - Céu



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:33
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Sábado, 8 de Fevereiro de 2020
PARACUCA . XXXIV

MULOLAS DE TEMPOS DORMIDOSNão é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar! KIRK DOUGLAS, MORREU08.02.2020

Por

soba0.jpeg T´ChingangeNo Nordeste brasileiro

john0.jpg Entre o entender e o poder do crer lá tive que pagar o condomínio com taxa extra pensando nesta atrasada escrita sobre a morte aos 103 anos do meu amigo Kirk Douglas. Foi no dia seis deste mês de Fevereiro que recebi a notícia directamente dos USA, assim sentado e, sentado fiquei tacitunando-me nas minhas antigas alegrias; alegrias alargadas nos folgados dias de crescimento mazombo da Luua, a capital de Angola.

Relembro o cine Colonial no tempo em que nós nas bancadas também eramos artistas, utentes e autores dumas muita odisseias de participação ao vivo e no escuro; beatas voando como foguetes de alegria por coisa alguma e nenhuma. Um assistente despertava o Kirk duma tocaia de surdina feita emboscada num: - Olha na tua trás, meu! E, num repentemente Douglas virava-se na tela grande e, uma flexa era enfiada bem no coração do bandido, o mau da fita que logo morria, ou fingia! Filme é filme…

john2.jpgAcho que foi no filme “O arco e a flexa” mas, até que pouco importa porque as cowboiadas eram por demais concorridas e, isto era tão usual que sempre saia bagunça de está calado meu grunho e mais de filho da mãe para cima. Eu bem que lhe avisei, dizia o artista espectador exaltado do feito, saltando e estrebuchando em saltos contentes. Um espectáculo de ver! Só mesmo no Colonial Cine de São Paulo de Assunção da Luua.

Claro que estas cenas sucediam com as cowboiadas de John Wayne ou Jack Palance. Cowboiadas de cinco estrelas com o som de pum-pum dos tiros da Rifle Winchester que deram depois lugar às cowboiadas spaghetti do tipo italiano, com Giuliano Gemma aonde os tiros já soavam de txi-pum, txi-pum assim, com eco estriado para além do cano e fazendo nossos mambos de muita demasiada banga ninita e fécula.

john7.jpg Coisas de candengues, de afoitez que se vadiam em fantasiados momentos, muito fartos em invencionices; criacionices só verdadeiras na raiz das falsas almas. E, porque as pessoas não ficam sempre iguais, vão-se no tempo determinando com as mentiras ensinadas e aprendidas na vida como verdades. E, a melhor forma de o dizer é usando nossos termos polifónicos e de só átoa, diacríticos, palavrões que nem sabíamos existirem nas nossas falas.

Ui! - O que a vida me ensinou dá para o gosto, o desgosto e até o contragosto mas o Kirk, sempre foi colocado ao redor dos meus kitucus (mitérios). Enfim! Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir… Nós, com nossos ídolos, limpávamos os ventos que não tinham ordem para respirar e os demais, nós desrodeávamos fazendo esquindiva…

john8.jpg Se não acreditam nestas divagacionices, pulem outro filme! Porque, foram as "20.000 Léguas Submarinas", Spartacus e Ulices entre muitos outros. Posso também recordar o Gregory Peck dos canhões de Navarone, o John Wayne em duelo ao pôr-do-sol e mais edecéteras; Clinton Eastwood, um ator, cineasta produtor  famoso pelos seus papéis de duro em filmes de ação com rifle de repetição. Nossa cultura nesse então era mesmo só do cinema, da praia e farras de quintal; nos intervalos escorregávamos nas ladeiras de asfalto da Luua com nossos carros formula um de rolamentos …

Um dia tal como eles, velhos ídolos, nossas veias farão seus preparos finais. Mas não será por isto que nos aninharemos numa tristeza triste; tristeza de uma raça de homem que o Kirk mais não verá, porque deixou de ser um exorcista do circo, um trapezista. Assim num dia esbarrancaremos nos limbos esfiapados dum vento nesse arrumo de veias, ora quente, ora frio, ora se desfrizando no ar duma exaltação de vida que despairece.

john6.jpg Pois! Que despairece inchada de amor; é assim: -Um dia mesmo que nascido com sol, teremos de conhecer o significado sem requerer desse futuro por conhecer. E, todos ficam assim permanecidos de duvidando de como será até que chegue o tal de seria… Todos seremos legítimos coitados em um tal dia de pororoca (encontro de vagas, rio e mar…) com ou sem arrepio…

fotografo1.jpg A vida é um negócio muito perigoso! E agora, nem me falem de bancos! Porquê? Ora bem - O banco é uma instituição, um negócio que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro! - Pois por tudo isto ando demasiado desconsolado, sabe! Disse eu pra continuar falas comigo mesmo, só pra esquecer o Kirk, meu antigo heroi…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:15
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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2020
KALUNGA . VI

MOKANDAS XINGUILADAS

- A DOENÇA DA DEMOCRACIA E A ECONOMIA DA CORRUPÇÃO – 03.02.2020

- Xinguilar: Palavra angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais de Nkisi/Mukisi.

Por

soba24.jpg T´Chingange – Desde o Nordeste brasileiro

n´tundo2.jpg Undenge ami mu moamba – já passou! Agora que todos falam, que todos partilham despilfarros dos milhões alheios, gostaria de ter uma conversa com meu amigo General Emérito FK, retirado das manobras de engenharia financeira, nas trocas e baldrocas mais os desvia na forma de roubo capiangado na sua cada vez mais longínqua N´Gola. Falo claro, da já muito badalada Isabel dos Santos a filha do presidente “Edu da ínclita geração”, segundo na linha do tempo e primeiro na forma de roubos qualificados.

Isabel dos Santos a mulher mais rica de África, assim se tornou por mágica de expontânea vontade e a partir do nada. Agora muito cobiçada, dizem e desdizem como se tudo fosse um equívoco de devaneio mas, descrito por ilustres personalidades do M´Puto e não só, como uma odisseia levada a cabo por uma respeitável e inteligente senhora engenheira.

Falas impregnadas de numa pegajosa e conspurcada subalternidade e, com vistas demasiado largas para não se vislumbrar as muitas irregularidades. Tudo muito natural nas habituais práticas de governação em África mas que em Angola tomou foros de um poder nunca visto, imaginado ou mesmo adivinhado. Anseio a presença deste meu amigo General Emérito Fala Kalado pelo facto de também ele ser perito nestas pisadas agrestes…

n´tundo1.jpg Falcatruas iniciadas em candengue num estágio único de saltar hortas para roubar gajajas, sape-sape, maças da índia e goiabas; roubo de formação, um estágio primário em que também participei, diga-se… Em idos tempos de colónia de quando o kumbú era tão por demasiado caro que sempre dizíamos de kitare malé. Isso!

Nesses idos tempos em que nem nunca falávamos em milhões; esse mesmo em que havia brancos e negros trabalhadores morando de vizinhos, carpinteiros, serventes, comerciantes ou funcionários raspando a vida do mesmo jeito: trabalhando! Tempos em que os jornalistas escreviam nos jornais. Jornais que eram até de muita importância, de valia quase vital porque nesse então.

Naquele nosso velho tempo os jornais tinham três funções: leitura, limpeza do fiofó ou para embrulhar nas mercearias o feijão, milho, fuba ou qualquer outro tipo de cereal; tempos em que nem se pensava numa tal de AZAE, reguladora de quase tudo no M´Puto. Eram tempos de banga de um estilo muito próprio. Um tempo em que Deus comia escondido atrás de um nem sei quê, e o diabo saia por tudo quanto era canto lambendo pratos.

namib3.jpg Tempo em que as palavras picavam em mim uma grande gastura mas que só o tempo deu justa noção nesse pensar desconjuntado. Tempo ainda de antes de surgir o transístor e andar na praia com o rádio colado na orelha pra fazer furor entre os amigos “pitos calçudos” da Luua; bangar mesmo… Assim botando tudo numa caixinha de sapatos junto com fotos, bilhetinhos de amores e mambos que o tempo desexistiu porque, sim, porquê!?

Ora! Porque era novo e o inferno já era velho só que não sabia mesmo, nem mesmo lhe podia adivinhar. Oh! Ngana Nzambi! Numa de lama, kapiango pés de patranha, engenhosa máquina infernal, Mwangolè edificam-se em poleiros de nossos antigos celeiros. Ué-ué! Agora muito provido de ideias, de noções de ruindades ate entrelaçadas nos restolhos, de conceitos assim, escapulo-me entre espaços, nos chinguiços do tempo que nunca chegaram a madrugar.

nauk11.jpg Porquê? Ora porquê, porquê! Porque a vida é muito perigosa. Ximbicando n´dongo feito canoa nos cânticos de bela kianda feita kapota assento-me naquele lugar que consolava naquele então o meu kituku de dilulu; minha kalunga. Assim, eu esbanjado na noção do tempo e muito farto, cheio de “excessos de ideias” que assim ficou desse jeito: Num tempo em que tudo desaconteceu! Esse filho da mãe, esse mesmo de General FK só está assim de calado miudinho com seus matrindindes saídas da Welwitschia Mirabilis.

nauk01.jpg Terei de ir a Garanhuns de Pernambuco e sentir de perto esse novo segredo que me trás encafifado… Na Welwitschia Mirabilis, que ele chama de N´Tundo com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos. E, aqui está o busílis, há uns pequenos escaravelhos que são atraídos do nada até elas; escaravelhos do género de matrindindes, que levou o FK a os explorar e retirar deles, algo precioso! Vou ter de descobrir – malembelembe…  

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GLOSSÁRIO

Mwangolé – Que manda em Angola, os donos do pedaço; Banga: estilo;  Dilulu - de sabor amargo; Kalunga - mar; Kumbú: dinheiro; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Kapiango – roubo; Kapota. Galinha de Angola; Kianda - sereia; Kituku - mistério; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, Undenge ami mu moamba - minha infância de muamba.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:40
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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020
A CHUVA E O BOM TEMPO . CIV

TEMPO DE CINZASMEDITAÇÕES DO T´CHING 01.02.2020

No último dia do BREXIT… Se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

angola colonial.jpg Afinal, a libertação por entrega de Angola no onze de Novembro de 1975, serviu a quem? Se serviu ao povo como seria lógico, nada do que acontece hoje nos levaria a depreender que passados que são 44 anos e picos, o que mudou na vida da maioria, não dá para se notar na qualidade de vida; Mas, então porquê? Porque a independência, serviu e continua a servir um sem fim de cidadãos que se firmaram como elite - uma gangue que com sua duvidosa integridade, gerem a Nação.

Eles são oficiais generais, juízes, gestores de entidades públicas mais afins e governantes em geral que se auto elegeram (sem o aval do povo). Se existe uma nomenclatura de gente dita capaz, deveria agora e no ano de 2020 ser visível o estado da Nação Independente com as condições requeridas, de sempre se estar melhor do que no tempo em que era colónia, certo! No ensino, na agricultura, na economia em geral, na  vialidade e na forma de governação.

angola na moda1.png É lícito perguntar agora: - Afinal para além de mudarem o visual na capital com atropelos ao património, diga-se, o que é que mais fizeram de Cabida ao Cunene na forma de melhoria no dia-a-dia das pessoas? A reposta é um quase-nada se levarmos em consideração o grande potencial da riqueza soberana de Angola. Agora há gente incompetente que simplesmente baralha as normas de decência; o Mundo está estupefacto e, os que nada dizem é por incesto de interesses com compadrio aberrantemente nojento – caso do M´Puto com gente que se diz ou pretende ser ilustre; até admirada. Não é de espantar agora que a antiga metropoke, o M´Puto, seja a terceira foça corrupta da Europa...

ANGOLA7.jpg E, se foi para formarem uma elite de gangues no sentido de explorar as riquezas à revelia dos interesses do povo não se justificaria na prática a mudança de mãos pelo simples motivo de a grande maioria não se rever nisto! Ficou-se livre da canga colonial mas, e agora… Agora e antes podemos verificar uma usurpação sistemática às riquezas que deveriam ser quinhão de todos.

E, o povo não se pode rever nisto, no descaso e procedimentos que a todos mancham e, também porque o Mundo diz e muito bem: Eles não são capazes - os cabos de guerra ficaram oficiais, os auxiliares viraram directores, os advogados venderam ao desbarato sua já fraca reputação, os políticos floresceram na mediocridade. E, os que nada dizem, pensam!

araujo42.jpg As sequelas económicas foram proporcionando uma muito periclitante senão ultrajante qualidade de vida para o angolano – com mágoa o digo! Posto isto, o povo deve debelar-se por forma a substituir de raiz todo esse mal que o MPLA de forma premeditada, e sofismadamente ardilosa e sistemática numa orgânica ultra mafiosa, fez crer ser o Deus da salvação; ou nós ou o fim, como se não houvesse alternativa mais credível no panorama nacional. Um puro engano!

Rosa Coutinho e Melo Antunes entre muitos outros, agentes do comando intitulado de “descolonização” não mais fizeram do que a entrega de um manancial de riqueza a uns quantos filhos da mãe postos a propósito à frente dum governo previamente escolhido. Quem? O MPLA! A descolonização, posta assim e na prática sequente foi uma farsa pura feita falácia trabalhada a contento pela corja de políticos portugueses, provocando uma guerra e proporcionando um despropositado saque com sequelas ainda por apurar.

ANGOLA10.jpg As chaves de Angola foram entregues a quem não estava preparado para ser porteiro quanto mais tutor. Todos, sem excepção fomos enganados de forma vil ou torpe. Posto isto faz-se destas falas, um documento apócrifo mas sentido, para consciencializar quem com direito e com a requerida capacidade, derrube o governo na terceira geração de ilegalidade na pessoa de JL. Deste simples modo “declaro” a rebeldia total a fim de ultimar esta tirana postura de governação.

E, que seja reconhecido como “Libertador” do hacker (nome giro) Rui Pinto, indevidamente preso no M´Puto – Chega de mordaças! João Lourenço, o presidente da burlesca trupe em terceira geração, até se poderá regenerar se, se anuir a esta mudança com um mas, sem nunca poder chegar a “Santo”.

chaves0.jpg Nisto de uma Angola-de Faz-de-Konta, convêm relembrar aos mwangolés ressalvarem de culpas tinhosas os que de forma inesperada tiveram de sair do território como se fossem os maiores tiranos naquele ano de 1975. Nenhum suposto “chicote” de capataz branco, feriu tanto Angola como o que estes algozes do mando fizeram e, ainda fazem. É tempo de se aclararem mentiras e palavrórios mal usados ao longo destes 44 anos depois das metralhas cantarem a ”vitória ou morte” no largo Diogo Cam. Nunca falei tão certo como agora (tarde piaste…)…

Do Soba T´Chingange         



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2020
MUXOXO . LVIII

KIBOM. IV - Quem viaja, necessita de mala ...NOÉ!?

- Divagações do T'Ching - 28.01.2020

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

an2.jpeg Ao viajar, é importante ter uma mala para carregar a bagagem; convém que seja boa porque os tombos são mais que muitos. Fiquei a saber que a mala mais cara deste nosso mundo vale quatro milhões de dólares! É a chamada mala de “Diamantes das 1.001 Noites”... NOÉ, desconhece...

Tem o formato de um coração e vem cravejada com 105 diamantes amarelos, 56 diamantes cor-de-rosa e 4.356 diamantes transparentes. Todo metal dessa bolsa é feito de ouro puro de 18 quilates. Para sua confecção foram necessários 10 artesãos, dedicando quatro meses de trabalho exclusivo,NOÉ!?

arau44.jpg O resultado final é uma bela obra de arte que, até agora, ninguém ousou comprar. Pelo que sei nem Isabel dos Santos a comprou; Nem Manuel Vicente! Creio que nem sabiam mas, às tantas aqueles diamantes saíram de N'Gola, NOÉ!?

A minha é o contrário dessa; mesmo demasiada mixuruca para ser mencionada neste entretém feito estória. É daquelas compradas em saldo, com rodinhas gastas de tantos embarques e desembarques, riscada nos topos e lastimosa no aspecto.

eseves2.jpg Distingo-a porque tem uns quantos laçarotes da Bahia amarrados em seu fecho; desses com variadas cores que se põem no pulso para dar sorte nas ousadias de orixás e oxalás e talvez o xiritung da xirgósia mais o xogum... NOÉ!?

Na alça tem mais uma fita verde fosforescente de escandalosa para que a possa reconhecer na esteira do aeroporto. Para mim, o que realmente importa é o que vai dentro da mala; os queijos disfarçados de prendas e prendas na forma de figos ou chouriços, coisas inofensivas, NOÉ!?

papalagui11.jpg Na vida verdadeira da gente também é assim. Não importa parecer um cidadão valioso se o seu interior é vazio e sem aquela coisa que nos identificam nos valores morais ou mesmo tudo ali ser oco - isto é quase uma metáfora NOÉ!?

Preencha por isso sua vida de boas coisas como se sempre viajasse! Que tal uma lista exclusiva de itens imprescindíveis para sua viagem? NOÉ dirá: Prepara-te pois para tua viagem pro Céu, isso, pró espaço! É isso, NOÉ!?

ong5.jpeg Se for o caso, junte à Bíblia de viagem um bom livro para os demais entretantos. Leve todas as informações do roteiro a fim de ser mais feliz em seus caminhos. Siga os conselhos da gente experiente, todos não serão demais! A sabedoria dos mais velhos, normalmente mostram detalhes de como ir pelos melhores caminhos. Mas, lembre-se que existe um NOÉ...

Tenha presente que na vida, ou você puxa os outros para cima, ou os outros puxarão você para baixo. Fique esperto e siga sempre este princípio porque nem sempre o interesse dos outros batem certo na bota com a perdigota... NOÉ!?

step6.jpg Creio que com um azar do caraças, foi isto que sucedeu com Rui Pinto, o herói actual do pedaço e no M'Puto aonde os larápios são também mais que muitos, com nomes de Santos e Espíritos. Este Rui puxou a brasa à sua sardinha pedindo uns kumbús e, viu-se com um cardume de tubarões...NOÉ!?

Esqueça-se daquilo que Deus já esqueceu dando cobertura aos Espíritos e aos Santos... mas, sorria mais porque um qualquer dia a coisa acontece! Já aconteceu! Seus, nossos dentes, não existem somente para mastigar couve-flor. Temos de os ranger se vez em quando, NOÉ!?

rui1.jpg Com uma mala cheia dessas coisas, valores, ela pode não ser a mais cara, mas, sem dúvida, será a mala mais valiosa ou justa do mundo... JUSTIÇA... Cá para mim este Rui Pinto tem sim, de ser condecorado! Isto termina em 13 para lhe dar sorte, NOÉ!?

T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:31
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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2020
MU UKULU – XXVIII

FEROMONAS DA VIDA ... CINZAS DA LUUA29.01.2020

- Saber do passado para melhor se entender o futuro...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

embo0.jpg Sentindo os sabores da nossa terra nas falas de Luís Martins e nossas lembranças, recordamos a mistura de hábitos alimentares por via das duas etnias preponderantes da N´Gola e sequente miscigenação vivenciada ao longo de muitos anos. E, porque a Luua é litorânea, o consumo de peixe no território, sempre foi elevado. A costa angolana rica em espécimes dava assim forma em abarrotar traineiras que se faziam ao mar em sua faina diária.

Recorda-se que era tanto, que dava para secar todo o excedente ou fazer farinha para utilizar como alimento para animais e, na forma de ração; também como adubo para uso da agricultura. Nesse então já na China se usava um peixe a cada árvore replantada para formar florestas - a uma pequena árvore era disposto na raiz um peixe como início de alimento ao seu crescimento.

Mu Ukulu57.jpgO peixe seco sempre foi muito apreciado pelos nativos grunhos e gwetas pelo facto de se ter tornado um costuma e, por via de ser barato no mercado das salgas espalhadas um pouco por todo o lado e ao longo da costa desde o Ambriz, passando por Luanda até Benguela e ainda mais a Sul na Baía Farta. O peixe depois de processado, estripado e escalado é posto a secar ao sol usando loandos normalmente elevados do solo por estacas.   

Este peixe já seco era depois levado em camionetas até os lugares distantes do interior na forma de fardos atados com fio de sisal ou mateba. O itinerário destas carrinhas ou camionetas podia ser-se seguido horas e dias mais tarde pelas picadas seguindo o rastro do cheiro característico que estes lançavam para o mato circundante. A partir de algum tempo as picadas começaram a ser muitas, para despistar os fiscais – posso explicar…

peixe seco1.jpg É que a dado momento o governo do M´Puto em sua governação colonial lançou um imposto sobre o peixe seco. Isto originava a candonga como concorrência e, por motivo de fornecerem preços mais competitivos aos taberneiros chamados de fubeiros instalados em locais bem isolados, competiam berrida de vida; vida que nem sempre era fácil. A extensão do território que se constituía pelos postos administrativos tornava o trabalho de recenseamento, cobrança de impostos e resolução de contendas, muito difícil e até demorado.

As insuficiências materiais, a indigência dos meios disponibilizados e a multiplicidade das tarefas acometidas aos funcionários administrativos eram factores que entravavam a máquina estatal. Ou seja, o facto do próprio corpo administrativo colonial sentir grandes dificuldades logísticas, a sua presença reduzida e isolamento físico, indiciam a incompletude do domínio colonial, agravada já a seguir à Segunda Guerra Mundial.

mucua9.jpg Em Luanda, as quitandeiras abasteciam-se no porto de pesca situado em plena marginal, Avenida de Paulo Dias de Novais e também em lugares como a Chicala, Samba, Corimba ou Bungo directamente dos pecadores que ximbicavam canoas nas águas rasas; um ou outro, metia velas triangulares feitas de sacos de farinha, aventurando-se na pesca de maiores peixes em águas mais profundas. Com a introdução da mandioca levada pelos Tugas do Brasil os pratos de peixe eram acompanhados com fuba funje, um pirão espesso feito dessa fina farinha. Para alguns dos mwangolés esta nova, será uma surpresa - melhor seria que unissem sua matumbice a estes conhecimentos…

Tudo começava com a farinha amolecida na água que já na fase final e no preparo das iguarias tropicais era cozida em água fervente e, sempre mexida de forma vigorosa com pau ou colher bem grossa a fim de desfazer os caroços do cozimento. Sempre mexendo, surgem bolhas de ar empolado que fazendo plof-plof por modo a ficar naquele aspecto pegajoso de “cola de sapateiro” conhecido entre outros nomes, também de pirão.

muralha01.jpg No sul de Angola era mais comum usarem o pirão de milho amarelo ou branco por haver aí mais condições para a cultura do milho. Depois, a esta espessa cola de funje junta-se óleo de dendém e de mãos molhadas juntando um bolo, leva-se à boca; pode ser-se mais civilizado na forma de comer usando a colher tradicional mas, o gozo de degustar não parece ser o mesmo! Isto pode ser acompanhado por aquele peixe seco passado na brasa e só depois de ser demolhado mas e, também acompanhando com carne de frango ou outra, ou mesmo miúdos de galinha ou vísceras de outro qualquer animal.

A tudo aquilo juntam-se as verduras como a abobrinha, o quiabo languinhento, folha de abóbora ou jimboa. O melhor preparo desta muamba é feito com inclusão de saca-saca picada, saído das folhas de mandioca previamente escaldada várias vezes. A isto chama-se a kizaca. Tudo isto convém ser envolto em jindungo ou onoto ao jeito de fazer transpirar no sótão da cabeça e na fronte para dar n´guzo. Para total contento é bom que se sinta na dita moleirinha essas cosquilhas, um tremer fino da musculatura.  No Brasil esta iguaria já é quase habitual na Bahia – um costume oriundo da antiga Matamba, os N´zingas e afins matumbos e matumbolas. A seguir virá o mufete, o kalulu, a kifufutila, o muzungué e a kikwanga. Será bom ter um “palhinhas” por perto a recordar momentos idos e que não voltam mais; ora para quê!? Para esfriar goelas ardentes…    

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:23
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Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019
MU UKULU – XXVII

MISSOSSOS DA VIDA... De Luanda – Sabores com falas da Nossa Terra – 18.12.2019

- Saber do passado para melhor se entender o futuro... Recordando o Século Mwata Luís Martins Soares falecido na Diáspora do Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

Por

soba002.jpg T´Chingange – No M´Puto

luis1.jpg Revi hoje as falas de Zeca Mamoeiro do tempo em que este dito cujo, senhor do Rio Seco katedrático da Maianga me via transportado em uma tipóia de loando como um makota de Ambaca. Na verdade, por vezes também me é difícil entender o que risco para todos, do que vai no meu muxima e, num linguajar que é nosso BI – Bilhete de identidade. Do meu risco, do risco dele, do nosso corpo riscado feitos de feijão maluco. E, é estranho que com tanto estudo, não cheguemos à licenciatura e, nos conformes, virarmos num repentemente sábios da estirpe do Mwata Luís Soares.

Sem já saber escrever direito e sem glossário, kimbundamos-nos na jihenda, duvidado que nem sabemos usar a pena molhada no tinteiro de Camões ou do Pessoa. Num saudosismo de matumbo feito esperto, bangamos paixão de estirpe quase extinta. Falas da Luua que caducaram num tempo que se nos alheou. É como quem lê o livro de T´Ching debaixo de um coqueiro de plástico, balouçando na rede, gozarmos nossas barrigas de Jinguba como se num acaso e num já não vale a pena.

mu ukulu15.jpg Batucando sentimentos do nosso coração abrimos adereços de bate palmas só num pula como um zulu em um só pé ao jeito de ermitão Massai. Com a RAIZ que alimenta a árvore com dedos no ar feito embondeiro, muito cavamos para contar quantos dedos são, como se arranham evitando ervas daninhas que crescem só átoa nos veios da vida. Entro assim de novo após meu prólogo com o Zeca no livro do Mu Ukulu da Luanda de antigamente peneirando no tempo as memórias, mexendo vigorosamente a fuba cozida na água fervente.

Vigorosamente com uma colher de pau desfazem-se os caroços da farinha que depois de pronta fica cinzenta no aspecto de “cola de sapateiro” pegajosa, como diria a tia Arminda. Depois come-se com bastante molho de dendém acompanhada de peixe, frango, ou outro tipo de carne, miúdos ou mesmo um verdura como a couve, a kizaca (folha de mandioca / saca-saca) ou a jimboa que nasce a eito pelo quintal regado, junto com a beldroega; tudo picado e cozido com o tal de óleo de palma.

Muamba de galinha ou peixe, servida com pirão de milho ou funje é um prato de sabor inigualável. Nesta, entra o óleo de palma tal como os quiabos, o jindungo apanhado no fundo do quintal. Mufete é um prato típico da ilha de Luanda, dos axiluandas, constituído por peixe assado na brasa como o carapau, peixe-galo, cachucho ou cacusso do rio, bombô, sumo de limão, jindungo e uma pitada de sal.

forró 1.jpg Outros pitéus gostosos são o calulu, a quiteta, o muzungué e a kikwanga, que é um tipo de bolo feito de fuba, massa de mandioca fermentada, embrulhada numa folha larga e cozida ao vapor, muito apropriada a levar em viagens por via de sua prolongada salubridade; tudo isto se podia levar ou fazer nos piqueniques debaixo de cajueiros ou mangueiras na via que nos levava ao Cacuaco, a Viana na estrada de Catete ou no caminho da Barra do Kwanza.

O radiozinho de pilhas era imprescindível para alegrar o arraial, fosse junto ao mar a ver o Mussulo do outro lado da baía ou, bem coberto na sombra da frondosa mangueira, uma ou outra cassuneira, umas quantas n´hiwas ou embondeiros. Assim poisados, haveria que tirar da arca com gelo as cucas, nocais ou ekas para refrescar as vontades; também a mission, as coca-colas e bolungas várias como a seven-up. Por vezes era o palhete feito garrafão empalhado com vinho do M´Puto tapado com rolha coberta por um gargalo coberto de gesso, um resguardo a garantir qualidade.

xiricuata5.jpg Quem não ia ao piquenique de fim-de-semana abastecia-se no Bar Bitoque perto da Mutamba. Sempre havia para os mais novos, eles e elas, os tais bailes de quintal dos bairros citadinos da Vila Alice, Ingombotas ou bairro do café e ainda muitas vezes no subúrbio rodeado de muxitos e vedados com aduelas de barril ou chapa zincada, piso de terra molhada a propósito ou cimento rapado. Era ali que se desenrolavam os confettis de bilhetinhos namoradeiros com a vigilância das respectivas mãezinhas.

Nos anos sessenta e setenta o Merengue estava sempre presente na voz de Carlitos Vieira Dias, faixas de gravação como "Ngi kalakala mivu ioso", "Pensando Conforme o Tempo"e "Kwanza" que abraçam euforia de nova angolanidade intercalada com a suavidade de Gianni Morandi, Roberto Carlos, Gigliola Cinquetti ou Frank Sinatra. Para além destes tinhamos o Bartolomeu, os Kiezos liderados pelo solo de guitarra de Marito Arcanjo entre outros…

za8.jpg Canções como "Ngandala ku nganhala ò fuma", "Varias Moças de Luanda", "Ngui mona mi kima", "Arrancando o capim" ou "Merengue do Escorrega-lo". E surge o Minguito com "Eme Ngo Kofele" e o início da música electrificada, também os solos escaldantes. Vamos então ao Marítimo da Ilha, à Vila Clotilde, ao Ferrovia, Clube Transmontano ou o Clube da Maianga. Relatos quase coloniais em palcos desconcertante, letras humoradas, mais o aparecimento da concertina. Tudo mais nos passava ao lado…

minguito1.jpg GLOSSÁRIO: Missosso – conto popular; banga – estilo; cazumbi - feitiço; loando – esteira feita de folha de coqueiro ou palmeira e atado com matebas, ximbica - rema com bordão; missanga – colar; batucam- dançam ao som do tambor; matumbo – burro, palerma; makota – chefe tribal, que tem poder; muxima – saudade, recordação; Luua - Luanda; Kicuerra: farinha de mandioca com açúcar; Axiluanda – naturais de Luanda; Tuga- diminutivo de português; Mu Ukulu – do antigamente; Mwata – velho com sabedoria; n´hiwas – árvore que se confunde com imbondeiro quando pequena; Jihenda – acção de luta, resquícios de terrorismo…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:51
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Terça-feira, 17 de Dezembro de 2019
MU UKULU – XXVI

FEROMONAS DA VIDA... De Luanda – Sabores da Nossa Terra  – 17.12.2019

- Saber do passado para melhor se entender o futuro... Recordando o Século Mwata Luís Martins Soares falecido na Diáspora do Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

Por

soba15.jpgT´Chingange – No M´Puto

peixe seco1.jpg Cada um de nós foi o que foi ou é o que é por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas. Peneirando no tempo as ténues memórias dos acontecimentos da Luua, apagando os rastos dos passos que nos conduziram à diáspora, de novo volto a remover os ossos do passado, condescendo sem alvoroçar espeleólogos ou espíritos, esquecendo as leis e acordos não cumpridos!

Baloiçando-me no d´jango da memória como se estivera junto da árvore m´vuluvulu do kavango, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços do povo Ovambo. Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito pessoal; muitos haverá até, que não acreditam que seja aquela a sua verdade.

Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Entro assim e após meu prólogo na parte principal do Mu Ukulu da luanda de antigamente peneirando no tempo as ténues ou vivas memórias dos acontecimentos; afins descobridores de pegadas, cheiros encarquilhados misturados com iões ou densidade molecular dos anos na leitura de carbono e edecéteras complicadíssimos ou sem explicação.

araujo159.jpg E, quando nos Sabores da Nossa Terra os portugueses deram início o processo de colonização, encontraram no território que deu origem a Angola, diferentes grupos sociais na forma de tribos; com sua própria identidade, diferenciavam-se entre eles por vários factores tal como a linguagem, o vestuário, formas de pentear, estilo de construção de suas cubatas, suas expressões musicais e fundamentalmente hábitos com diversificados hábitos alimentares.

A cozinha angolana sendo bem variada teve no decorrer do tempo alterações nos gostos e condimentos por via da miscigenação das várias etnias. E, porque Luanda é litorânea, o consumo de peixe sempre foi elevado. Com a chegada das traineiras em substituição dos dongos ou canoas, estas vinham abarrotadas de peixe juntando comerciantes tugas na disputa e comercialização do produto. Logo ali no porto era feita uma lota precária que separava o peixe segundo a espécime.

luua40.jpg Enquanto os peixes maiores eram destinados ao consumo local, os de menor tamanho eram arrematados para secagem nas salgas. O peixe-seco que sempre foi uma iguaria apreciada pelos indígenas por ser mais económico, paulatinamente também foi sendo consumido pelas novas gerações de brancos mazombos, talvez pelo antigo hábito de seus pais no uso do bacalhau do M´Puto. Este peixe saído da lota para a salga, depois do processo de limpeza, era escalado e posto a secar ao sol em loandos, esteira ou bases elevadas feitas com varas de pau em malha apertada.

Este peixe seco era depois de seco comercializado em fardos e levados em camiões para o interior, cidades, loja de mato, vendas ou fazendas de café com gente do contrato, nas grandes plantações de algodão e outras que iam aparecendo no correr dos anos, exploração do sisal ou plantações de ananás. Parte deste peixe era comercializado pelas quitandeiras nas ruas de Luanda e, era ouvir o pregão de pargo ou “garoupa fresca, minha senhola” e logo ali se comercializava o peixe a fritar.

Luua28.jpg E, quem já nem se lembra do cacusso de Kifangondo, peixe do rio assado com feijão de óleo de palma, pirão ou funge com o caldo do cozido. Dos piqueniques no Mussulo e, seus barcos kapossoka e kitoco a acalmar as agruras dum fim-de-semana; acalmia, sossego e paz no encanto da embriaguez de um outro mundo na voz do tempo comendo peixe grelhado, choco com tinta relançando um tempo de cazumbi perturbando no limiar do nada, num vazio dum oculto fogo ximbicado!

A agora conhecida mandioca, lá na Luua foi levada pelos Tugas passando a ser quase a principal alimentação dos axiluandas ou camundongos. O tempo fingiu que isto só foram obras do acaso mas é uma realidade com funge, pirão da fuba; a mesma farinha feita com a mandioca amolecida na água e seca ao sol. Aiiué! Saudades do bangasumo do kimbombo do marufo da cassoneira, da t´chissângwa e a bolunga de milho. Aiué Catonho-Tonho! Aiué Gajajeira! Aiué Robert-Hudson, Biker, Quintas e Irmão, Armazéns do Minho e do Bungo. Tudo na fragrância da Catinga, do Mufete, da garoupa, peixes galo, pungo, corvina e caxuxo.

luua17.jpg Que saudades dos meus tempos de candengue! Da malta com quem ia ao Cine-Colonial ver o John Wine, das beatas pelo ar e dos avisos aos heróis de cena, cuidados e “olha na tua trás” da plateia cheia de grunhos, mazombos e alguns gwetas como eu. Que saudades das sandes de peixe frito do velho Campino, e daquele seu "boteco" defronte da Farmácia São Paulo! Do Sr. Brito que tratava da "flor do Congo"! Que saudades dos doces da paracuca, pirolitos, kicuerra e kafufutila!

luua30.jpg Glossário

Luua - Luanda; loando – esteira feita de papiro (luando do rio) atado com mateba; Kicuerra: farinha de mandioca com açucar; Kafufutila: falrripos, perdigotos; gweta –branco; T´chissângwa e kimbombo – bebidas fermentadas de milho; Axiluanda, camundngos – Naturais de Luanda; Ximbicar – remar com bordão; Kapossoca e kitoco – Nomes de baco, traineiras transformadas; Loando – esteira de papiro do Lifune; Tuga- Diminutivo de português; Múcua – fruto do embondeiro; Mu Ukulo – do antigamente; Mwata – Velho com sabedoria; M´vuluvulu – árvore frondosa da beira rio do Cubango…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:03
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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
MU UKULU – XXV

FEROMONAS DA VIDA... De Luanda do Antigamente até Benguela – 16.12.2019

- Saber do passado para melhor se entender o futuro...

(Este texto já foi publicado em Kizomba a 04.09.2019 e, é agora remetido ao Kimbo para constar na Torre do N´Zombo…)

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No M´Puto

matipa-tipa.jpg Na busca de Catumbela, Lobito e Benguela ao Sul de Luanda pude recolher alguma informação através do blogue “Pensar Angola” e, na minha busca blaguista, tenho de relembrar que os blogues de antigamente eram chamados de blagues, segredos da arte de navegar usada pelos Tugas no achamento das terras. Já naquele tempo e com instrumentos singelos, os portugueses usavam a modernidade de hoje através dos ouvidores e blaguistas; gente que escutando nos portos de Cabo Verde o segredo desses ventos, nas datas de sua fúria, tempestades e as marés, assim passavam a palavra…

Aqueles olheiros e ouvidores eram investigadores espiões ao serviço de Castela dos portos de Antuérpia e praças-fortes da Holanda do comércio em expansão no Mundo! Nesta voluntariosa missão de arrumar as terras nas cartas, quase todos os dias observo a latitude a bordo e, conferenciando andamentos com o piloto fictício, dou compasso às singraduras, prevendo as léguas, a influência dos ventos e das correntes.

fuga1.jpg Espalhamos padrões com a cruz de Cristo por toda a redondeza da terra, em caravelas, naus, bergantins ou canoas, navegando à bolina, com o Siroco ou Alisado, percorrendo as costas dos mares e, neste caso concreto as de Angola, com seus rios largos e boas enseadas para ali se abrigarem. Por tudo isto, os Portugueses são os grandes culpados da globalidade de hoje. Las Casas, cronista conceituado, dito portador da verdade, confidenciou-me em sonhos, que Duarte Pacheco, antes de 1494, já tinha descoberto não só terras brasileiras como também a Flórida só que, tal não podia ser revelado pois o destino do caminho marítimo para a Índia era segredo absoluto.

A arte de navegar de hoje “via Internet” não tem nem de longe a audácia daqueles portadores, dum veículo chamado agora de globalização… Com mar cavado, perfurando os medos, ultrapassavam baixios, conquistavam terras a “uma boca não he mais de hum tiro d’arcabuz”. Com o progressivo descobrimento da costa africana, os Tugas iam-se fixando em seu litoral, fundando povoações ou feitorias e, num acto civilizacional conviviam com o gentio - Na comitiva das naus, sempre ia um padre da Igreja Católica levando a bênção do Papa, a maior figura, Juiz do Mundo e Chefe dos Reis. Um Mwata da Globália…

37.jpg Com espírito aventureiro e mercantilista portadores das ordens régias e na senda do cristianismo, as gentes lusas palmilharam como funantes as vastas regiões dos matos observando a fauna, as espécimes vegetais e modos de vida do gentio. Isto levou muitos a embrenharem-se pelo sertão tendo como armas de defesa uns arcabuzes do tipo canhangulo ou pederneira, muitos carregadores e, em fila, lá iam desbravando o conhecimento, o mel silvestre, o marfim, carne e muito deslumbramento…

Nesta busca pelo interior, é incontestável que os primeiros contactos foram-no através do Bailundo; nestas terras, comerciou o Capitão-General D. Manuel Pereira Forjaz, em 1610, seguido pouco depois pelos funantes de Benguela e Catumbela, estabelecendo-se em lugares como Caconda ou Kaluquembe. Em 1770 ou 1771, o governador Sousa Coutinho fundou a povoação de Nova Golegã, aonde se instalou um Juiz-Regente – género de Mordomo, representando o Governo do Rei junto do Soba.

candomblé.jpg Parece ter sido José Francisco da Cunha o primeiro a desempenhar estas funções; outros se lhe seguindo, com frequentes intervalos, até que, em 1885, Silva Porto, nomeado Capitão-Mor do Bié e Bailundo, estabelece definitivamente a autoridade civil naquelas paragens, com carácter de permanência. Três anos depois, é substituído por Teixeira da Silva, que vai residir para Belmonte, fixando-se mais tarde no Catape, a partir de 1891, quando se dá o desmembramento da capitania.

A 16 de Julho de 1902 é criado o concelho do Bailundo, com os postos militares do Balombo, Huambo, Luimbale, Galanga, Cassongue, Sambo e Bimbe, transformados em postos de polícia civil no ano de 1911. Em 1769, aquele já falado governador pombalino, Sousa Coutinho funda no Quipeio a povoação de Paço de Sousa. Nada se sabe quanto à sua existência, pois que deve ter sido efémera. É de crer que o primeiro regente da província do Huambo tenha sido João dos Santos Moura, em actividade nos fins do século XVIII e princípios do XIX.

kalu9.jpg Em meados deste, deixou de existir autoridade civil nesta região, o que permitiu o regresso à desordem e anarquia. Após a campanha de 1902, foi instalado na Quissala um posto militar, sob a jurisdição do Bailundo. Elevado a comando em 1909, foi em 1911 transformado em concelho. Neste mesmo ano foi também estabelecida a primeira comissão municipal. Do concelho do Huambo se desmembraram sucessivamente os da Caála (Robert Williams) mas, que se diga (primeiro, foi o Lépi), em 1922; o da Bela Vista, em 1957; e o da Vila Nova, em 1960. Em 1934, surgiu o Distrito, integrado na província de Benguela, da qual se desintegrou em 1954.

Foi ainda Sousa Coutinho o fundador da povoação de Linhares, no Galangue, em 1769, ignorando-se a identidade do primeiro regente, cuja jurisdição se estendia ao Sambo. Em 1806, Francisco Lucas da Fonseca passou a intitular-se Juiz-Regente da província do Galangue e Sambos, neste último sobado tendo sua residência e ali exercendo sua autoridade até 1821. A partir desta data, deixou o Governo de ter representante qualificado nesta região. Em 1902, foi criado o posto militar do Sambo, mais tarde transformado em civil, e posteriormente pertencente ao concelho da Vila Nova.

kalu7.jpg A fundação da Vila da Catumbela data-se em 1836, por D. Maria II, rainha de Portugal. Mas o certo é a de que o Porto do Lobito sempre teve a Catumbela como uma extensão deste porto. Ter em atenção que em 1846 foi construída a fortaleza da Catumbela (Reduto de São Pedro), que hoje é um monumento histórico. Entre os anos 1856 e 1864, começaram a surgir as primeiras fazendas, como São Pedro, Fazenda Maravilha do Cassequel, Fazenda do Lembeti, e ambas exerciam actividades relacionadas ao cultivo do algodão e mais tarde cana sacarina para o fabrico de aguardente.

Entre o Lobito e Catumbela e, antes da fundação desta, existiam povos desta localidade. Povos que se dedicavam à agricultura, ao cultivo do milho, feijão, abóbora, batata-doce e outros produtos agrícolas mas, e também à criação de gado. Em 1883 iniciou-se a construção da estrada que liga Benguela a Catumbela, cuja actividade foi concluída em 1889, e ainda em 1889, foi o ano em que construiu o actual cemitério, por José Lourenço Ferreira. A Cana Sacarina foi introduzida de forma intensiva no século XX mas, com a participação dos Cubanos na guerra civil que terminou no ano de 2002, esta cultura foi abandonada por via de sua influência; Aqui, compreende-se o interesse em Cuba gozar de privilégios com a importação do ouro branco de sua ilha no Caribe…

kafu28.jpg NOTA: Esta descrição foge um pouco ao descrito no livro de Mu Ukulu, por via de se dar a conhecer o que se passava em um todo, numa vasta Angola. Voltaremos ao livro de Luís Soares assim que for oportuno… Este texto já foi publicado em Kizomba a 04.09.2019 e é gora remetido ao Kimbo para constar na Torre do N´Zombo…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:46
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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
CAZUMBI . LVII

MOKANDAS DO REINO XINGUILA08.12.2019

FÁBRICA DE LETRAS DA KIZOMBA - “BULUNGA DO ULTRAMAR . “Nos reinos de Maconge e Huambo”

Por

soba0.jpegT´Chingange - No M´Puto

batalha01.jpg Foi no dia 23 de Novembro de 2019 e num lugar chamado de Cidade de LEIRIA do M´Puto. Assim, em terras Ultramarinas, reuniram-se em kizomba, nobres, altos dignatários e plebeus dum reino perene, liderados por um Vice-rei - D. ROBERTO DA SILVEIRA, III VICE-REI DE MACONGE; neste reino de Faz-de-conta aonde ninguém morre e, aonde os africanos se tornam brancos e vice-versa, reúnem-se vivências com recordações de peregrina amizade. Desta feita com a organização da Sobeta Maria Amália - Mali.

Por via do frio e com uma preguicite aguda só agora me dispus a relembrar aquela ida às terras lindas do Rio Liz fazendo-me uma pergunta: E, para quê peregrinar no tempo? - Para ratificar a vida! Foi deste jeito jeitoso que me vi a cantar o hino, taciturnando-me entre a malta vinda da Huila, do Lubango, prensado num texto assim cantado: -“A malta ganhou a taça, sem ter nada que fazer; quem quiser ganhar à malta tem um osso p´ra roer, roer, roer”.

Neste reino de sonho e fantasia dão-se vivas à vida, num vira, vira, regado a tinto ou espumante morganheira. Como um funante mazombo, suspeitoso e camundongo, divagarei em pensamento: Naqueles idos tempos do Diogo Cam “Se houvesse uma revolta em Angola, movida pelos colonos, não era preciso tropa para a debelar; chegava um bom orador, romântico, sentimental, que lhes  falasse de Portugal,  que todos se abraçariam com lágrimas nos olhos”.

cronicas mano corvo.jpg Foi assim o que disse Henrique Galvão no ano de 1937 em visita de soberania a Angola - “ Há quem viva de teu perfume e dent´routros matos e espinheiras rasgando-se em sonhos, por ti ruma!”. Num torpor de antigas Kizombas, paisagem do deserto Namibe agachei-me por detrás da bissapa,… era o soba Cunhangâmua que aí vinha.

-“ Há quem, nas águas de salina, se purifique em lágrimas cristalizadas por em teu ventre não cumprir sina”. Ué, no meio da farra vi-me sonhando, bebia bulunga, antes da grande caminhada para sul e, eu também ali estava a seu lado como conselheiro real em assuntos de brancos; neste agora tinha um Vice-rei de nome Silveira e senti-me com muita cagança a recordar velhos tempos.

Num repentemente, deu-lhe vontade de cuspir um pigarro encravado entre as ferraduras e os gorgomilos. Fosse eu esse tal de Cunhangâmua, a um primeiro esboço de lançar cuspo, logo um gentio se acocoraria submisso, curvando-se a jeito p´ra receber tamanha cuspidela. Parece disparatado mas, era assim que as submissões eram, ríspidas e sem lamúrias.

MACONGE0.jpg Cuspo de soba, com aquela estirpe, não podia ser desperdiçado numa terra só de pó. Cheio de honrarias, o súbdito de arrecuas balançaria a cabeça, umas quantas vezes, em jeito de agradecimento. Que mais posso fazer eu um plebeu de pé rapado nestas festas tão cheias de doutores do clero e nobres de alto coturno, senão com eles sonhar.

Da t´ximpaca soou um som forte ferindo o silêncio da planura e, bastou o soba dizer que aquele boi tinha um bom “berro” para ser anexado aos tributos, que mais atrás seguiam em caravana. Claro que estou divergindo e, em pensamentos vou até lá longe aonde as clarinetas são chifres retorcidos de boi que rasgam seu canto entre penedias e ecos de montes.

maconge01.jpg Num repentinamente, restolhando o silêncio, surgiu do mato, um T´chingange agitando um pote de barro preto e, dizendo coisas desconexas, abeirou-se do soba; de seguida, ambos se esgueiraram para trás dum muxito denso. O Kimbanda, cumprindo o ritual, tinha naquela hora de recolher, a urina do grande soba .

Neste espaço de fantasia e verdade, invadi a rota que desembocava na paliçada do Kimbo maior e, numa noite de lua cheia, aconteceu assistir à circuncisão dos candengues daquele outo arraial; crepitava o lume em ondas de cores quentes pelas palhotas quando, de uma delas, trouxeram o rapaz,… sentaram-no num cepo e, no meio de inebriante batuque, um M´fumu, auxiliar de Kimbanda, com uma pequena faca passada pelo lume, cortou o prepúcio do pénis do rapaz.

De seguida, com as bochechas cheias de álcool, borrifou para o órgão despilado. O grito mal se notou no meio da algazarrada, aquele seria um guerreiro umbundo p´ra valer! A bulunga de massambala tinha naquele dia uma mistura especial - a urina do soba Cunhangâmua! Menos mal que é mesmo só pensamento pois que bebo morganheira do M´Puto.

luua38.jpg Assim se tornariam homens de têmpera nobre. Tudo foi feito nos verdadeiros conformes, na roda da grande fogueira, batuque, sangria de boi berrante e bulunga. Na contraluz da perdida imensidão, naquela noite especial, dormi com um cafeco de feição N’nhaneca, enfeitada de trancinhas e cortes no rosto com forma de avião. Tinha cabaço,… mesmo!

Naquela outra manhã, as mulheres surgiram em algazarra, levantando os braços, chocalhando discos de lata, batiam com os pés no chão; do peito, pendiam couros, das orelhas escorridas, pesadas argolas. Festejavam! Ué,... Alambamentado no costume virei M´fumo de T´Chingange. Do Cunhangâmua ao Kuvale, a pedra do trovão, nesse tão único lugar mítico troou. Acordei aturdido às margens do Liz, um rio do M´Puto no lugar Leiria. Háka! “Há quem viva entoando nos batuques, há quem nunca esqueça o chão, os cheiros do coração”. Hoje fiquei promovido. De candengue a Kota; de kota a Século…

NOTA: -xinguilar: Palavra Angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais e Nkisi/Mukisi.

Glossário:

Bissapas - arbustos; Muxito - tufo de mato; M´fumu - chefe, homem de respeito; T´ximpaca - cacimba de água de chuva; Kizomba - festa com álcool; Bulunga - bebida suave fermentada de massambala; T´chingange - feiticeiro, cobrador de impostos e jurista auxiliar do soba; Kimbanda - médico tribal; Candengue - rapaz; Cafeco – catorzinha, menina virgem; Cabaço - virgindade; Kuvale - zona do sul (Angola); Soba - Chefe – Xissa, porra, caramba.

O Soba T`Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:33
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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019
MISSOSSO . XXXIX

EU E O FALA KALADO – APONTAMENTOS RELAXADOS

NA ILHA DO CARLITOS 9ª de Várias Partes01.12.2019

Por

soba15.jpgT´Chingange - (No Algarve do M´Puto)

soba03.jpg Naquele outro dia e de saída da ilha de Carlitos, Imaginando um jogo de xadrez, zarpamos aos esses pelas nove ilhas tropicais… Recordo que falávamos de Elias Salupeto Pena, irmão de “Ben-Ben” e outro proeminente dirigente da UNITA igualmente falecido e, que também estudou com João Lourenço, exactamente na mesma escola e época. As famílias eram amigas e professavam a mesma confissão religiosa protestante. Sequeira João Lourenço, pai do Presidente da República de Angola, era amigo pessoal de Loth Malheiro, pai de Jonas Savimbi e avô dos irmãos “Ben-Ben” e Salupeto Pena, o causador da reviravolta de Fala Kalado o Coronel com orelha de plástico.

De novo neste lugar quase secreto e, no meio de várias ilhas, repúnhamos novas e velhas falas para mantermos suficientemente activos nossos labirintos do cerebelo. Assim descontraídos e curtindo o calor e a água morna vinda das águas baixas da lagoa de Manguaba quis saber da razão de um quase enigmático telefonema de Agualusa quando me encontrava no Deserto do Naukluft da Namíbia, no outro lado do Atlântico. Sendo assim perguntei-lhe: - Tu andas desavindo com a escrita de Agualusa; que se passa ou passou? Porque me fazes essa pergunta? Replicou Fala Kalado.

Vi no semblante dele FK, que ali, havia coisa. De relance reparei que sua orelha biónica de plástico vibrou com uma intensidade do tipo vaga-lume o que me levou a ter cuidado mas, arrisquei: É que quando eu estava a entrar no balão para ver as dunas lá no Park de Sossusvlei e por via de falar em ti, ele, Agualusa enigmaticamente para mim, disse para ter cuidado. Até referiu a seguinte frase: “ Nenhum homem vale uma barata”. Claro que isto tem-me atormentado desde esse então!

amigo da onça.jpg Esse gajo escritor anda a aproveitar-se da minha lenda para escrever exactamente aquilo que andei a fazer até há bem pouco tempo, vender armas para os guerrilheiros do morro para reviver o Zumbi dos Palmares. Isso, já era! Acabou! Agora quero ficar de fora dessas trapalhadas, para além do mais os meus antigos fornecedores de armas da guerra de Angola estão-se borrifando para mim. Pois! Entrei no diálogo - o negócio do petróleo veio alterar todo esse sistema de enriquecimento rápido…

Nós estávamos aqui para curtir o tempo na companhia de gente gira e como tal entre as muitas falas com os demais amigalhaços e suas baronas, garinas empapoiladas de fio dental, divergíamos as conversas contando anedotas do burgo e das politicas bem periclitantes saindo do tubo ladrão do Supremo Tribunal e outras Câmaras muito enfeudadas no trambique cazucuta deste belo país tropical – O Brasil.

Entrelaçados na estória, esticamos as pernas na água e entre coisas pedidas ou mal contadas, coisas de Angola, fiquei inteirado por FK que numa reacção a dados de inteligência que alertavam para planos do regime angolano que levariam ao assassinato de Jonas Savimbi, Salupeto Pena o militar de quem temos falado ficou conhecido como o autor da frase “se tocarem no nosso mais velho isto vai ficar feio”. O destino dado aos restos mortais de Salupeto Pena foram objecto de versões díspares – vou-te falar; uma outra lenda.

dakota1.jpg Pópilas! Angola está repleta de lendas. Já nem si se tu mesmo eras aquele Nelito Soares que em 1969, numa quarta-feira de Cacimbo, protagonizaste, com mais dois compatriotas do BC 11 dos Gorilas do Maiombe, o desvio, para o Congo Brazzaville, de um avião comercial!? Era um Dakota que seguia de Luanda para Cabinda, com passageiros a bordo. Esse Nelito de que me falas e dizes ser, só pode se uma inventação tua, replicou Fala Kalado. Estás a ficar como esse tal de Agualusa que fala com osgas e, que me tem metido em sarilhos diplomáticos! Nem confirmo nem desconfirmo o que dizes porque euzinho, também não sei!

- Tudo isso se varreu da minha cuca, sabes! FK, disse isto com tanta convicção que fiquei disparando sinais de confusão feitos rolos de fumo invisível. Será que não é? Tal como Salupeto Pena vais ficar nas nuvens da incerteza. A versão do Salupeto que mais se realçou em círculos restritos alegava que na qualidade de familiar direito de Savimbi, teriam reencaminhado o seu corpo para fins tradicionais, num ritual que teria contado com o envio, a Luanda, de um mago oriundo da Índia, razão pela qual diz-se que o corpo do mesmo já não existe.

O desvio do Dakota da DTA, Divisão dos Transportes de Angola, antecessora da TAAG, ganhou proporções tais, que nem a censura feroz do regime colonial em vigor em Angola, como nos restantes territórios, incluindo Portugal, subjugados à ditadura, conseguiu sufocar. Soube disto quando estava num lugar chamado de Tando Zinze, bem perto da fronteira do Congo Zaire álem Catata do enclave.

maian7.jpg Lembro: - Poucas horas depois de o aparelho aterrar em Ponta Negra, era tema de conversas sussurradas em tudo o que era sítio, principalmente, em Luanda e Cabinda. Mais tarde, a “nova” chegou a toda a Angola, por via do programa radiofónico do MPLA, “Angola Combatente”, transmitido a partir de Brazzaville. No M´Puto a Dona Isabel, proprietária de um pequeno café na pequena cidade de Lagoa, que foi locutora dessa rádio durante algum tempo, confidenciou-me isto mesmo (mas, em verdade eu, já o sabia!)... Patrinichi, o empregado de origem kosovar, desta feita andava demasiado ocupado para cuscar nossas conversas…

Glossário: Bem-te-Vi – pássaro parecido com o melro; Cuscar – bisbilhotar; Dakota – Tipo de avião; Kalacata - militar da Unita; Baronas - Mulheres papudas; Garinas – miúdas, catorzinhas; Euzinho – Terminação de Eu, uma forma de dize “eu” em gíria…

(Continua… )

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:01
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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2019
FRATERNIDADES . CXXIV

REVIVENDO ALJUBARROTA - NA BATALHA- Mosteiro do Leitão - 24.11.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange – LEIRIA, junto ao rio LIZ

batalha7.jpg A Kianda Januário Pieter de Assunção Roxo

O tempo não passa pela amizade e sendo assim, depois de mais de cinquenta anos o mistério da amizade volta a acontecer entre amigos kaluandas. Amigos de escola que em tempos idos desenharam corações num tronco grosso de abraçar, um imbondeiro que agora lá na Luua não existe mais. Era um lugar de estação, aonde os comboios saiam até à antiga Matamba; numa terra que sendo nossa nos foi retirada sem modos de civilidade num lugar chamado de Vila Alice, em um pátio de escola ainda por murar.

batalha1.jpg Os tempos rugiram e nós saímos voando para outros sítios e, revivemo-los agora como se ali estivéssemos; na EIL- Escola Industrial de Luanda. Em verdade, nos tempos que correm, os amigos cada vez mais se vêem menos mas, com a ajuda e beneplácito de uma Kianda chamada Roxo aconteceu encontrarmo-nos de novo a recordar coisas, umas já velhas, outras simplesmente, apodrecidas. Nas fotos que me chegaram fiz logo uma pequena síntese do que aqui iria descrever ao jeito de missosso:

batalha01.jpg A Kianda Pieter com  T´Chingange

- Gostei e irei comentar este nosso 24 de Novembro, vésperas do 25 Libertador de 75 e num sítio nobre - Perto de aonde se deu a Batalha de Aljubarrota no Concelho de Alcobaça. Nossa luta foi contra uns danados leitões que se vieram esparramar em fatias diante de nós. Nosso Nuno Alvares, foi o António Gonçalves que relembrou suas façanhas de quando era um sapador nos gorilas do Maiombe e eu, um atirador do Tando-Zinze no Chiloango...
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Nossa formação de guerra aqui no Mosteiro do Leitão foi em rectângulo, garfos de 4 pontas e facas serrilhadas a terminar em bico de lança. Januário Pieter, a kianda lendária da Terras do Nunca, não estava mas a substitui-lo e vivinho da silva estava o herói do Caio-Guembo de Cabinda que teve de lutar aqui com uma costela dum tal mirandês feito bifalhão... A Kianda ofertou-me a sombra do fantasma de Januário Pieter em um pequeno quadro. Ofereceu também rosas vermelhas e outras com abelhas zurzindo feromonas amarelas de empatia. A batalha estava a decorrer

batalha02.jpg Sentindo assim nas lonjuras da batalha Aljubarrota o pormenor do tilintar das armas e os barões com varões pontiagudos, fincado no querer, bebemos o sangue da veia, uva borbulhante derramado conforme manda a lei da gravidade com um Jinga-Malaia a relembrar tempos de catembe e galo-cantou da taberna dos matraquilhos. Um sangue morganheira com cheiros de ventos e vapores.
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Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. Esta batalha, também era uma batalha real pois nos vimos nobres na vontade de assim querer, da nossa estória inovadora na táctica militar, permitindo que de armas apeadas fossemos capazes de vencer uma poderosa aliança – a amizade!

batalha03.jpg Calhou agora e no maior luxo de todos, aparentemente sem termos mais nada a fazer almoçarmos com amigos que há muitos anos não se viam. E, assim falando como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos, nada falhou! Na excitação de contar coisas e partilhar ninharias, disparamos novas versões como se nos estivera, e está, na massa do sangue; as risotas por piadas enfiadas em missangas, as promessas ou esperanças por realizar na cotação do Dólar com o Kwanza…

batalha2.jpg Achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição, posso concluir que o melhor que os amigos têm a fazer é verem-se cada vez mais, assim se possam ver, porque o tempo ruge. É verdade que, mesmo tendo passados mais de cinquenta anos, sente-se o prazer de reencontrar a quem já se pensava nunca mais ver… O tempo não passa pela amizade mas, a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto existe!
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:50
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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
MISSOSSO . XXXVIII
EU E O FALA KALADO – APONTAMENTOS RELAXADOS
NA ILHA DO CARLITOS – 8ª de Várias Partes22.11.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Algarve do M´Puto)

ÁFRICA11.jpg Foi uma grande e boa surpresa rever-te de perto disse a FK ainda naquela ilha do Carlitos, bem perto de Maceió em Abril de 2018. Sim! Disse ele, o Fala Kalado depois de entornar a sua décima primeira cerveja Skol, depois de ter tomado três caldinhos variados de sirí e dar umas mais de doze bufas sonoras para aliviar o "simsenhor". Tenho de recordar isto ainda recente para que se não me escapem os pormenores e sem açambarcador os cheiros variados, de fugir com a mão no aspirador de aromas.

Naquele dia de Abril, lembro o FK ter dito: A estória só nos anoiteceu! Conclui isto, dando um tremendo dum peido de assustar os “bem-te-vi”. Para eles – disse! Encabulado olhei ao redor mas, não reparei em nenhuma outra anormalidade. Nesta estória, disse eu: -Nós, sempre iremos ficar como um enigma com essa tua morte não morrida no ano de 1974… Pois assim é, assim vai ser! Cada qual tem o legítimo direito a ser uma lenda e, até poder fazer triagem dos acontecimentos, morrendo e nascendo quando lhe aprouver.

salupeta1.jpg Dirigindo-se a mim na segunda pessoa do plural FK, com o dedo em riste falou: - Tu, T´Chingange, já és uma lenda da estória; para muitos a dúvida sempre subsistirá das muitas inventações, tal como das minhas suposições emudecidas no tempo para marinar a vontade de querer e assim se ficar nas lacunas da justiça. Afinal, sou ou não sou um Fala Kalado!?

Entretanto fui deitando umas achas na fogueira: -Tu, desapareceste porque te convinha, concordavas com o Daniel Chipenda e daí ao separatismo foi um passo rápido, posso calcular até teu encontro com o homem do monóculo; sim, esse de nome Spínola com quem mais tarde te encontraste na Ilha do Sal em Cabo Verde. Posso imaginar depois a tua admiração com Jonas Malheiro Savimbi e, o teres aderido de corpo inteiro à causa. Em resposta o FK prolongou um booom titubeando-se no sibilar com eco de seu caroço de adão; se te disser que sim estou a trai-me, a inimigar-me e, o que te poço dizer é o de que foi com Salupeto Pena com quem me identifiquei.
 
Sim! Foi com este que verdadeiramente me revi; foi ele que me levou à mudança com este nome de Fala Kalado! De novo virando seu dedo em riste tipo rifle foi inventariando coisas desavindas dum tempo que só ele sabia, tu nesse então e, ainda sem patente, já eras major sem vestires farda. Referia-se a mim, T´Chingange mas, não era de todo verdade: consideravam-me por via do meu relacionamento social, sempre fui um zero feito cabo-de-guerra desconhecido.

unita01.jpg E, prefiro que assim seja porque também morri vítima de sabotagem. Tive conhecimento disso, disse Fala Kalado; creio que foi Kalakata que me referiu isso mas, também eu andava mais enrolado que papel de embrulhar chouriço saído do esterco. Cheguei a ver os destroços do teu Renault “Major” tal como dizes e desmentes lá na Curva da morte de Kaluquembe. Correu notícia de ser um pouco inaudito, tinhas um galo negro pintado no capô noé!? Verdade! Como assim, lá tive de concordar contigo – ambos temos lendas no nosso curriculum.

Nesta tarde prolongada podíamos olhar-nos na sombra alongada dos reflexos das lagoas do mangue comendo ostras com a particularidade de serem antibióticos naturais. Como assim! Interrogou o FK. Porque estas estão impregnadas de própolis vermelho, esse mesmo que é extraído pela abelha da seiva das árvores do mangue e que colocam nos bordos da entrada de seus cortiços para derrubar qualquer mal. Bem curioso! Nestes porem, tivemos a confirmação de Bento Patrinichi um multifacetado empregado do verdadeiro Carlitos.
 
Com a tarde caindo rápido Fala Kalado foi dizendo algo acerca do passado de Salupeto lá na Luua: - Na tarde em que iriam assinar os acordos que determinavam a segunda volta das eleições presidências em Angola, a cidade de Luanda entrou em “fogo cruzado”. Do hotel turismo onde se encontrava com os seus companheiros, telefonou para o seu homólogo do MPLA, o general António França “Ndalu” para tentar perceber o que se estava a passar e teve como resposta: “façam o que poder” - Logo a seguir ao contacto com general “Ndalu”, o engenheiro Salupeto Pena e os seus companheiros compreenderam que poderiam estar a premio e decidiram, abandonar Luanda em caravana rumo a Caxito onde se encontravam os generais Nbula Matadi e Abilio Kamalata Numa.

angola ginga.jpg O grupo de Salupeto pensava antes, em distribuir-se em diferentes embaixadas estrangeiras, de países onde trabalharam no passado. Porém, Jeremias Chitunda que se encontrava em Luanda a cerca de dois dias para assinar o acordo de paz, teria desaconselhado tendo os mesmos decididos saírem em coluna. Nas redondezas do mercado do roque santeiro, foram seguidos pelas forças governamentais que atiraram contra os mesmos. Salupeto Pena foi gravemente ferido e levado a uma esquadra da Policia no Sambizanga onde seria torturado até à morte, a 01 de Novembro de 1992.

salupeta2.jpg Patrinichi o empregado de origem kosovar veio de novo até nós para dizer que nossa lancha estava quase de saída, e que estava na hora de encerrar o expediente; com muitas desculpas juntamos nossos apetrechos e ainda ouve tempo de, e a caminho do cais se acrescentar às dúvidas outras informações do passado. Pois! Nosso passado é assim contado aos soluços porque ainda não há uma correlação de datas e mistérios com verdades ou mentiras absolutas.

salupeta3.jpg Sabe-se agora. De acordo com as fontes que forneceram esta informação ao Correio Angolense, Elias Salupeto Pena, irmão de “Ben-Ben” e outro proeminente dirigente da UNITA igualmente falecido, também estudou com João Lourenço, na mesma escola e época. As famílias eram amigas e professavam a mesma confissão religiosa protestante. Sequeira João Lourenço, pai do Presidente da República, era amigo pessoal de Loth Malheiro, pai de Jonas Savimbi e avô dos irmãos “Ben-Ben” e Salupeto Pena. Imaginando um jogo de xadrez zarpamos aos esses pelas nove ilhas tropicais…

Glossário: Bem-te-Vi – pássaro parecido com o melro; simsenhor – mataco, rabo, cú; Kalacata - militar da Unita (Caála)

(Continua… )
O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:42
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIX – 11.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios)

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

miran07.jpg ::::: 168

A verdade é como o azeite, vem à tona de água com o tempo; as memórias que antes eram mugimbos, tornam-se agora verdadeiras. Já a tarde se fazia noite quando eu e Januário Pieter nos voltamos a encontrar na beirada do Okavango e desta feita com João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans. Foi este o homem que chefiou esses especialistas do arco e flecha na invasão dos Sul-Africanos do Batalhão Búfalo- 32 tendo chegado às margens do rio Cuvo - Keve junto às quedas da Binda, entre a Gabela e o Sumbe… Após um pequeno estampido, um fumo feito holograma faz-se gente, e nós, num surpreendido susto, demos cada qual seu salto entornando os copos de cerveja Windhoek em nossos zuartes. Este inesperado susto deu lugar aos comprimentos perante a admiração espacial de Miranda. Tive de, muito na calma dizer-lhe ser este velho senhor uma Kianda que me acompanha desde nosso primeiro encontro em Jablines de Paris de França e quando pela primeira vez fui ao famoso parque da Disneylândia com minha neta!

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Surgindo de quando em vez, ali está ele a clarear coisas obscuras que ocorrem em nossas cabeças, coisas ainda por falar entre nós mas que ele desbravou em sua lanterna fosfórica do tempo. E sem mais nem porquê ali está ele pronto a falar connosco por via de pensamentos dúbios que normalmente vociferamos nas conversas banais. Essas coisas da arca-da-velha a fazer de vírgula nos acontecimentos. Só direi que este kota Kianda, seco de carcomidas carnes tem a bela idade de 394 anos. Como o tempo não nos rugia, recordei depois dum abraço longo e largo do tempo em que sentados em uma esplanada “Plaza Mayor” de Burgos de Espanha, ouvi Pieter descrever as descobertas feitas na sacristia do “Monastério de la Cartuja”.

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Recordo dez anos trás teres-me dito que um teu tio seguindo as pisadas de seu pai Lestienne não sei das quantas, francês, poderia escrever em um livro sobre as judiarias ainda não reveladas da estória difusa e confusa do início da reviravolta em Angola. Não me esclareceste isto nessa altura porque estavas com pressa. Também afirmaste ser isso tarefa para mercenários da escrita ou fazedores de mambos, recordas? Miranda assistia à nossa conversa sem vislumbrar peva de qual era o objectivo desta longa introdução assim sem capítulos nos preâmbulos mas, logo espevitou as orelhas quando se falou na alteração do rumo à história da guerra daquele tempo no lugar de Cabo Ledo e na praia de Sangano. Pois disse eu abrindo as duas mãos solicitando atenção Pieter! Em verdade tu (ele) falaste das meias verdades contadas por Pepetela e um tal de Tchiweka, o homem segredo conhecido por Lúcio Lara, o grande ajudante em campo do Vermelho Rosa Coutinho, o Almirante.

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Não! Não é bem assim como dizes, disse abanando seu templo reluzente de sapiência: Esse meu tio de há quatrocentos e dez anos atrás, rumou até Cádis e no Puerto de Santa Maria no Sul de Espanha embarcou à descoberta das Américas. Ele nunca esteve em África! Agora essa estória de Cabo Ledo, minha terra natal, é só minha! Fui eu que a vivi! Diz peremtóriamente para ficar claro na minha debilidade. Pois é, fiz confusão pela certa, disse eu fazendo um trejeito de muxoxo mal disfarçado para Miranda do Mukwé inclinando a cabeça na forma de dizer aconteceu… Pude ler seu pensamento: - Aguenta parceiro!

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Mas, o que é que esta Kianda de trezentos e noventa e quatro anos sabia das artimanhas do glorioso PREC - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, combinado unha com carne com o glorioso MPLA? Isso! Das coisas que desconhecíamos ao pormenor por tão bem escondido de todos. A verdade é como o azeite! Rosa Coutinho marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas pois que teve o seu início numa gaiola. Em verdade, foi Holden Roberto como patrulheiro da fronteira do Zaire que fez passear em jaula como um macaco, o Vermelho General. Bem! Isto já era do nosso conhecimento, meu e de Miranda…

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Como já disse, as aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim, são uma permanente descoberta de novos pedaços de infinito. E, Pieter descreve: - Por entre os cactos das barrocas, entre a bruma da maresia e clareando, vi centenas de militares percorrer o areal, reunir apetrechos de guerra, subir para carros do tipo unimog e galgarem a montanha da costa a caminho do quartel, uns galpões construídos lado a lado e que seriam as primeiras casernas daquela gente que vim a saber pouco depois serem Cubanos. Estávamos em fins de Julho do ano de mil novecentos e setenta e cinco.

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Mas, interrompo: - Os Cubanos, pelo que consta, só a cinco de Outubro desse ano, é que chegam a Angola. Foi o que sempre disseram quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês souberam o que Rosa Coutinho queria que soubessem. Foi na praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”; os instrutores deste equipamento sofisticado estava a ser coordenado pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville eram enviados numa primeira fase em aviões mais pequenos para a pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

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Andrei Tokarev afirmou que o seu comando enviou oficiais e sargentos que se aquartelaram em instalações abandonadas pelos Tugas: estes quarteis contornavam Luanda que em sequência das orientações do agente vermelho Rosa estavam ao abandono. Por esta altura desde Kifangondo passando por Katete, Colomboloca, Kassoalála, Kassoneca, Dondo, Massangano, Muxima, e descendo o rio até a foz do Kwanza e Cabo Ledo já estava tudo queimado: Ficaram algumas estruturas de pé para assegurar bivaque aos novos guerrilheiros e instrutores do MPLA.

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- Tudo o descrito só é possível a partir da chegada a Luanda do Vermelhão Rosa como Presidente da Junta Governativa de Angola precisamente em Julho de 1975 -Estava tudo traçado, continua Januário Peter. Rosa Coutinho, tempos antes como Alto-comissário escreve uma carta timbrada do antigo Gabinete do Governo Geral de Angola a Agostinho Neto, presidente do MPLA nos seguintes termos: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do processo: Aterrorizar por todos os meios os brancos, matando, pilhando, e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos,...” A Carta é datada a 22 de Dezembro de 1974, terminando com saudações revolucionárias, a vitória é certa, seguindo-se a assinatura, Alves Rosa Coutinho, Vice-Almirante.

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Recorde-se que a tropa Tuga, foi proibida de entrar nos musseques a fim de proporcionar “O poder popular”, simultaneamente retirando as armas em posse dos brancos. Há muitos buracos por preencher. Lúcio Lara, o “Tchiweka”, já pode desvendá-los, antes que se deturpem. Isso é verdade sim! Mas, nessa altura o assunto tinha explodido as veles de ignição de nossos medos, nossas preocupações; nossas cabeças eram uma revoada de coisas ruins…Vivi esta estória amigo Januário, disse. E, acrescentei: - O medo tomou conta de todos com ajuda da FUA, liderada por um tal chamado de Falcão, acrescento eu para a Kianda do Cabo Ledo. Falcão ou falsão? Disse João Miranda do Mukwé. Neste início de noite ficamos assim sem mais falar dos Khoisan…

miran03.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:27
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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIV 21.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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TEMPOS PARA ESQUECER – Sentados no alpendre da casa do Mukwé, totalmente feita com madeira de primeira das matas do Cubango, e ainda no século XX, olhando o rio Cubango (Okavango), ao sabor de um café colhido, secado, torrado e moído no local, eu e João Miranda conversávamos sobre a terra de que fomos obrigados a abandonar. Eramos ambos da mesma opinião: Muitos dos “libertadores de 75” os mwangolés de hoje, sonhavam com a casa, o lugar de director, o carro, os privilégios e as posições dos colonos que vendiam peixe frito ou carne seca lá no mato.

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Por vezes em muxoxos, referiam também ficar com a mulher do colono – um desvario alimentado pela midia do M´Puto, pelo MFA e seus generais da mututa. Em Angola “conquistaram” isso, a independência e, tornaram-se piores do que os colonos…Em Kampala, o presidente da OUA, Idi Amim Dada, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP- MFA de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça.

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Em Pereira D´Eça (a actual Onjiva) o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta por ser esta região afecta à UNITA - um povo Ovambo ou Ovibundo. Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas ali sediadas e uma declarada provocação ao Movimento da UNITA. Manuel Resende Ferreira disse neste então: -Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam (uma população maioritariamente branca e assimilados).

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Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito criaram ali uma zona de segurança à revelia de seus comandantes do MFA. O comportamento da UNITA teve forçosamente de mudar de táctica e, seu posterior comportamento no Lubango e áreas do Sul que, levaram a desconsiderar tanto o Movimento como o seu Presidente Jonas Savimbi que por ali esteve em tempos de estudante.

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São aqueles os heróis esquecidos, soldados de Portugal que abandonam o exército comunista Português para protegerem cidadãos e, lutar contra a anarquia comunista. Eu e Miranda ressaltamos bem esta nossa postura; mas, quem éramos nós para vaticinar e politicar a enviesada saída do M´Puto pelos homens que antes tinham sido heróis, como esse do Spínola da banga desmedidamente parva e até caricata, usando luva, monóculo tipo Eça de Queirós, botas de montar lustradas e um pingalim – fetiches de túji que também por vaidade o levou a escrever isso de “Portugal e o Futuro”.

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E, que foi feito do Tenente Fernando Paulo? Pensando nele demo-nos conta que era o fim do império colonial. E isso, nós (Eu e João Miranda) queríamos que acontecesse sim! Mas, e mais mas, tão seguidos mostraram de forma paulatina as feras sendo largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! Tarde piaste! Momentos de muita inocente incerteza; abandonar tudo, entregar a chave do carro ao jardineiro da casa, o cão pastor alemão à Mariana, uma exemplar serviçal ao nosso serviço, na Caála, no Kuito, um qualquer lugar com picada de acesso. E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? Talvez Brasil!? Quem sabe – Austrália ou Argentina!

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As NT - Nossas Tropas, já não eram nossas, davam cunhetes, canhões, paióis inteiros e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina, Nakuru… Mostravam ao MPLA abertamente as fotos aéreas em progressão do “inimigo”; davam-lhe as coordenadas, organizavam planos de voo com dados de meteorologia e até furtavam casas aos colonos e afins em apoio ao MPLA: Isso! Saque dos haveres de colonos que saíam desordenadamente de suas casas, abandonando tudo.

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Uma frieza ímpar na história de Portugal. O MPLA da Luua inventava a maka! E, eram makas sobre makas, paralisações descabidas. Inventavam os pioneiros que eram trabalhados em marcha no esquerdo e direita por jovens estudantes do M´Puto! Estudantes que regressados à Metrópole tinham passagem administrativa garantida; o tal de PREC. Depois o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a vitória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito… Tudo era planificadamente certíssimo! Melo Antunes, Rosa Coutinho e uns quantos mais que ainda não deram à sola pró álem.

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As makas organizadas com o objectivo de criar o caos, originar pancadaria e depois a vitimização com características de sofisticada mentira; meter tudo no barulho, pressionar psicologicamente e criar condições de favorecimento por parte dos militares do MFA, as NT, o CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário. Às tantas, já se fazia tudo às claras. Até o Idi Amim Dada se dava conta de tudo isto! Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Neto (era só mesmo para agradar àquele diplomata da USA…).

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Esse cérebro guia dos demais, chamado de Melo Antunes, foi dizendo a Kissinger que era difícil de classificar politicamente Agostinho Neto como um comunista ortodoxo! Agostinho Neto, à coisa dada (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Mas, que grandes mentirosos! Neto, com laivos de poeta (diga-se de baixo coturno…), dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto, quando em verdade, tudo teve destes (traidores…) Mas que pulha! Bem feito, cambada! Alguns não gostaram, diga-se… Assim e com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos…

fuga3.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Banga – estilo, vaidade excessiva; Tuji – excremento, merda; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Mututa – da bosta, de ralé; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Kapooto – Vinho bolunga feito a martelo, de fermentação rápida com pilhas de lanterna; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:13
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Terça-feira, 10 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXIV

MU UKULU... Luanda do Antigamente 10.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entenderem os futuros...

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpgLuís Martins Soares Falecido no Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

maianga do araujo.jpg Abrindo o livro Mu Ukulu na página 61, posso ler que na Luua, Luanda do antigamente, no jogo de saltar à corda, as meninas eram muito mais ligeiras que os rapazes; tinham graciosidade, leveza nas kinambas e até cantavam enquanto com um só pé ou com os dois juntos, pisavam a terra do pátio da escola ou o asfalto do largo fronteiro ao correr de casas do bairro e assim, galgando o fio grosso e normalmente de sisal balouçado por duas jovens ou candengues meninos, para um só lado faziam passar o tempo! Uma soma de intervalos, infantário, escola, família, a terra, a empresa e o abrigo da idade de kota.

O balanço, tanto podia ser para a esquerda como para a direita mas, sempre em sintonia de como se faz com a manivela de impulso, tal e qual como se fazia nos carros Ford, Bedford, Chevrolett ou Nesh naqueles modelos dos anos de 1945 a 1950. Os meninos candengues jogavam ao botão, ao pião ou à macaca; uns mais espevitados ficavam de lado a soprar vento com os olhos para ver as calcinhas das meninas, apostar de qual era a cor com confirmação da tal de Mariana ou da tal de Fátima.

mai3.jpg Depois do despois, era assim como um campeonato - quando não havia calcinhas era “bingo” pró ganhador. Todos os outros tinham de fazer de burro e levar o ganhador laureado até ao pé de tamarindo; assim, um por um, até botarem seu ar de bofes inchados daquele vento de soprar nos olhos. As brincadeiras de antigamente não faziam as crianças reféns deles como os jogos electrónicos de hoje. Sem televisão e sem computadores, rádio insípido, tínhamos jogos para nos dar mobilidade para a vida de trabalho e social; jogávamos até à noite bem adentrada e até que lá da varanda ou muro viesse um grito grosso do pai ou num esganiçado som da Tia Micas: vem para casa menina - tomar banho, fazer xixi e cama!

As esteiras de loandos ou de caniço eram peças importantes nas casas dos remediados e pobres dos arrabaldes da Luua ou dos bairros periféricos como o Bairro da Vila Alice, Vila Clotilde, Bairro do Café, Bairro da Samba, Coqueiros ou Praia do Bispo entre muitos mais e, a sempre rainha da Luua - a Maianga do Malhoas com o Almeida das Vacas a terminar no Choupal das meninas do Kan-can lá no topo da Avenida António Barroso e que hoje se chama de Presidente Marien N´gouabi cruzando o nosso Rio Seco, uma mulola que nesse então era só areia para brincar, jogar à luta livre ou futebol de fintas n´areia…

Quantas e quantas vezes dormi na varanda, estendido num loando, apanhando o fresco do mar da Samba. Naqueles tempos ainda não havia ar condicionado; era tudo à unha, um abanador de palmeira a dar-a-dar feito leque, ou um ventilador daquelas pás de tecto rodando e guinchando chring…chring…chring…Esteiras e loandos eram peças indispensáveis em uma casa da Luua e, ora servia para nos sentarmos, ora era aonde o candengue filho da lavadeira dormia enquanto sua mãe esfregava as mãos na roupa dos patrões. Por vezes o nené ficava às costas da mãe gozando do balanço com esfrega e, num bate e, roda e …Pois! Era um carrossel bem melhor que a esteira.

Mu Ukulu37.jpg Por vezes num quase sempre de costume, os vizinhos juntavam-se levando suas esteiras enroladas ou suas cadeiras articuladas com uma lona entalada a montante e jusante do sono, do abre boca, abrenuncia dum deus queira ensonado entre o bate-papo falando besteiras ou, entre longas e inspiradas dissertações, do tipo filosofias de cacaracá entre virgulas de muxoxo e cuspidelas raivosas para o pé do mamoeiro ou da árvore de mandioca. Esta, a dar sombra ao tanque de cimento ou selha com uma tábua com ranhuras feito do tipo reco-reco para roçar as cuecas acastanhadas do uso e, talvez duma amarelada bufa de sem querer, digo eu!

Comecei estas falas para recordar as farras de quintal, daqueles candengues e meninas que já com barbas e bigodes macios que nem bigodes enrolados de lontra, curtiam a semana falando daquele e tal e coisa e ou daquela garina (magana) e coisa com tal num vai daí não sei se… e como vai ser - No baile combino! Naqueles tempos de espigadissamento os candengues já com jeito de Alain Delon (Além Delon), banga no estilo de ninita, peritos ao salto da macaca, saltavam os muros para de raspão dar só um beijo na Milocas até fazer cantar os passarinhos, malditos periquitos e… num raspa que se faz tarde, um despois de só mais um… e vai daí o outro dia nascia sempre muito cheio de Sol e do lado Nascente.

Mu Ukulu34.jpg  Assim num pisca-pisca os mais novos, ouviam estórias, missossos dos mais velhos, da labuta dos seu dia, tesourando no patrão, no filho da caixa do capataz, no enrolamento das leis porque a bota não batia com a perdigota; num de estão a lixar-nos a vida eram dissolvidas nas vírgulas desportivas com cabrões e com golos fenomenais descritas ao pormenor que nem os comentaristas de hoje podem exemplificar. Já naquele tempo eram o Sporting, o Benfica mais o Belenenses. Pois! Porque sempre havia uns vocábulos mais fortes de sundiameno do árbitro e, o filho do bandeirinha, cabrão toparioba mesmo; vesgo dos olhos e sei lá mais o quê, o cambuta de merda! Já ao fresco das dez da noite, os loandos eram enrolados e seguiam seus destinos debaixo do braço e, um até amanhã…

Não nos esqueceremos dos bailes onde a farra da música a gira-discos ou até com um conjunto local pago na forma de vaquinha pelos amigos dos amigos, vizinhos e afins dominava nos fundos de quintal até lá pelas quatro da manhã; quintal alisado com cimento na sua pura cor e, mas também de terra batida, molhada para não levantar pó. Até as aduelas de barril e as chapas de zinco se curvavam ao merengue cheirado a catinga misturada com Old Spice e sabão de côco cheiroso, cuca ou nocal - por vezes Sbell na forma de bolunga de whisky da Luua feito na fábrica da Catumbela. Às tantas a mistura de cheiros já eram todas muito iguais…

Mu Ukulu60.jpg  As celhas ficavam a um canto cheias de gelo com pirulitos, canadá dry, mission, seven-up, laranjadas e cerveja. Havia sempre bolos, tortas, rissóis de camarão, bolos de bacalhau levados pelas mães que não perdiam pitada cochichando suas sempre belas filhas casadoiras e o fulano mais beltrano, filho deste e daquele, um director lá da FTU e outro neto do Deslandes, que falam ir ser governador e muitos edecéteras preenchendo num depois as conversas da semana. O ponto alto era mesmo o chás da cinco e das seis, como pretexto de colocar as noticias em dia. Tu já sabes, a Alice que trabalha na Maria Armanda (costureira de fama…) está grávida! Como é!? Pois e tal, vida da Luua era assim um diz que vai ser ou foi, há isso já é velho! Tenho de fazer a janta pró meu Zé, e lá ia a costurar ideias na mistura com seus ideais…

Sábados e domingos eram religiosamente reservados para assistir às cowboiadas e outros filmes; tudo começava nas matinés seguindo-se uma ida ao baleizão para retemperar o físico com uma girafa, canhângulo ou pata, comer um prego no pão ou uma grande salsicha enfiada num pão pré aquecido e com muita mostarda. Isso! Tipo cachorro quente mas, gigante e com o sabor do Tarik.

minguito1.jpg Minguito

Depois combinar com a malta e seguir o rumo do Marítimo da Ilha, Clube do ferrovia, Casa das Beiras ou do Minho no Largo Serpa Pinto ou no Sporting Clube da Maianga com as garinas mais lindas do planeta. Lá estava a família Araújo sentada no palanque de convivas vendendo empatia a quem viesse… E, vinham sorteios do par mais simpático, da rainha do baile com votos de canudinho, prendas ou leilões por vezes e… As meninas sentavam-se em cadeiras dispostas em mesas e nós os gandulos da farra dávamos um toque de farpela, um piscar de orelhas, um puxar de colarinho e a noite escorria numa felicidade perdida…

minguito2.jpgGlossário

Kinambas – pernas; Bingo - a sorte grande da roleta; Girafa – copo grande e esguio de cerveja; Canhângulo – copo tubular e alto com cerveja – como se fosse um cano estriado duma arma tipo pederneira, assim de carregar pregos e limalha para amaciar, como um antigo arcabuz; Pata – copo com forma de pata grossa de elefante; Luua - Luanda; loando – esteira feita de papiro (loando do rio) atado com mateba; espigadissamento - fusão de espiga com astucia; Garina – moça, menina jovem já quase mulher; Tarik – Dono do Baleizão (alcunha, creio!); Estilo ninita – uma banga de puxacarrijoduro (tudo junto), um jeito de calcinhas fazer estilo tipo pavão; Mulola – Linha de água de leito seco, que só é rio quando chove; Sbell – Wisky da Catumbela; Old Spyc – cheirinho cheiroso…

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:20
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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXIII
MU UKULU... Luanda do Antigamente 03.09.2019
FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entenderem coisas do futuro...
Por

soba0.jpeg  T´ChingangeNo Alentejo do M´Puto

luis0.jpg Luís Martins Soares – Falecido no Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

Mu Ukulu59.jpg Continuando nas recordações em forma de ongweva, surgem com um MU de Mutamba, um MU de antigamente ou um MU de árvore a saga “Pombalina” levada até Angola, colónia na governação de D. José I tendo como Primeiro-ministro José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. O Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal e, na qualidade de governador introduz reformas da maior importância naquele território ultramarino esquecido.

Convém recordar aqui que o título de Marquês de Pombal foi instituído por Decreto do Rei D. José I de Portugal a 16 de Setembro de 1769 a favor de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º conde de Oeiras, diplomata e primeiro-ministro de Portugal. É este grande estadista, comentado por muitos como tal mas, e também, contestado por muitos, que nomeia Inocêncio de Sousa Coutinho como Capitão Geral da Colónia de Angola.
 
E, é com esse seu mandante que começa uma nova política para a Colónia. Por motivos outros adversos, este embalo de visão nova, não teve a continuidade desejável mas e, entretanto este fez melhorias aos acessos às feiras existentes criando as novas feiras do Galo, Bimbe, Calandula (onde se situam as quedas do Duque de Bragança ) e Encoje.

Mu Ukulu58.jpg Foi já dito que Luanda vivia exclusivamente dos produtos que vinham rio abaixo. A cidade possuía poucos poços rasos (denominados cacimbas ou maiangas) de fracos rendimentos e água um tanto de sabor salobra. No bairro da Maianga existia um poço a que se lhe deu o nome de Poço do Rei, poço que ainda está de pé, mas vetado ao abandono entre um desadequado caserio de casas sem os requisitos modernos de habitação.

Pelo que se sabe é um recanto de abandono depósito de dejectos e demais porcaria avulso - um total desrespeito ao património que se pretende preservar. Uma nítida desatenção das gentes do mando e, que só se pode entender como um absurdo sem as políticas correctas de reordenamento e enquadramento ou requalificação urbano da Luua. Aqui e ali gente da diáspora, mostra as modernidades da banga, sem a requerida sensibilidade para o vasto e rico património legado a custo zero pelos Tugas.
 
Por maus enquadramentos e desaforadas medidas, Luanda já não tem solução; é um amontoado de prédios que para além da orla marítima são em verdade um desconjunto de boa prática urbana. Esta insensatez só é visível quando chove, quando faz vento ou quando a merda dos musseques, vem lamber os citadinos e gente que sempre se esconde num “talvez, haja esperança”. Em resumo, naqueles idos tempos e após o aterro da lagoa do Kinaxixi, a cidade era árida, recebia muita água de fora, dos rios Bengo e Cuanza. As chuvas em Luanda eram e continuam a ser escassas e mal distribuídas.

Mu Ukulu53.jpg O Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho cria as fábricas de cordoaria, estabelece o presídio de Novo Redondo (Sumbe), capital da província do Kwanza Sul, a mesma que se tornou conhecida ao Mundo por ter sido a cidade aonde o eclipse do Sol, durou mais tempo - foi em Junho de 2001. Foi criada a manufactura de carnes secas, couros e sabões com fábrica situada junto ao antigo Baleizão e prédio Tarik.

Finalmente, o empreendimento estrelado que marcou sua governação: a criação da fundição de Nova Oeiras, na confluência do rio Luinha com o rio Lucala (a 5 km a leste de Cassoalála). De aqui, chegou a ser extraído ferro, e exportado para a Metrópole, com grande sucesso; algo admirável para esta época – O primeiro empenho na construção maciça de ferro em toda a África. Chegaram a trabalhar nas minas 400 africanos “livres e sem constrangimento” segundo o dizer de Sousa Coutinho.

Mu Ukulu50.jpg Um dos muitos méritos de Sousa Coutinho foi o de ter acreditado na potencialidade dos africanos, tendo escrito: «… Sempre os negros trabalharão o ferro das minas de Nova Oeiras e dos muitos outros lugares do mesmo reino em que as há, e jamais comprarão algum ferro da Europa para as suas obras e serviços; e têm tal propensão estes povos para aquele trabalho que sobre os muitos fundidores ferreiros que conservam nas suas libatas ou povoações têm uma grande veneração pelo seu primeiro rei porque foi ferreiro, e finalmente toda aquela vastíssima região se serve do seu ferro, que jamais comprou algum aos nossos europeus…». Quem faz por esquecer isto, terá de ser apodado de hipocrisia!

Para esta fundição, um embrião de uma futura siderurgia, se continuada, foram para Angola quatro mestres de fundição, vindos do Brasil mas oriundos da Biscaia. Tiveram fins prematuros: um ano depois da chegada tinham falecido todos. Chegaram em 3 de Novembro de 1768, a 6 de Dezembro morre José de Retolaça, devido a exageros alimentares segundo o laudo mortuário, a 8 morre Francisco Zuloaga e a 29 Francisco de Chinique o chefe dos mestres. O último, José Echevarria veio a morrer um ano depois.

Mu Ukulu52.jpg A REAL FÁBRICA DO FERRO DE NOVA OEIRAS foi o maior empreendimento industrial do seu tempo na África. Deve-se ao governador e capitão general de Angola D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (de 1764 a 1772 no cargo) a obra, uma antecipação ambiciosa para a sua época e, quando os meios técnicos eram ainda incipientes. Procurou com a exploração do ferro, reestruturar a economia de Angola de modo a poder dispensar o tráfico de escravos.

Foram nesse então, criados meios de trabalho e rendimento locais que supriam o recurso forçado a tal exportação. Os que se lhe seguiram, quiseram as mordomias que curiosamente os mwangolés actuais praticam (estamos em 2019). Para que conste, Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e Conde de Oeiras foi um diplomata e estadista português de vulto. Foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I, sendo ainda hoje considerado uma das figuras mais controversas e carismáticas da História Portuguesa. Angola teve o seu quinhão embora os vindouros Lusos e mwangolés os tivessem esquecido; talvez por ignorância!
(Continua…)

Mu Ukulu57.jpg

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:21
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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXII

MU UKULU... Luanda do Antigamente – 02.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entender o futuro... Sousa Coutinho, por via do Ministro de D. José I,  começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpg Luís Martins Soares – Falecido no Brasil em Julho de 2109 - (Rio de Janeiro)

ango0.jpgAleatoriamente, abro o livro do Mu Ukulu e, aqui e ali as recordações na forma de ongweva surgem com um MU de Mutamba, feita árvore com nome de praça “rua larga e areosa” com machimbombos ou, na forma de lembranças “da Luua do antigamente”. Aqueles tempos em que Luanda ainda tinha Assunção no nome com mais de quatrocentos anos, eram de um trágico marasmo, mesmo admitindo a breve presença holandesa entre 1641 e 1649 que por ali se estabeleceram aproveitando, também, “o manancial” escravista.

Os holandeses não levavam propósitos libertários e nada acrescentou à economia angolana a não ser deixar uma prole de gente com nome menos vulgares como os Van Dunem. Eles também queriam escravos para as suas possessões em outras partes do Mundo. Os portuguese tiveram assim de se refugiar no Rio Kwanza, fortaleza de Massangano que tiveram de construir na sua margem direita. “Aqui se retempera a Alta-Lusíada” escreveria um jornalista angolano.

muxima1.jpg Mas, pulando no tempo, eis que em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador-geral. Em Junho desembarca o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal, “Primeiro-Ministro” em Portugal, a Metrópole. Sousa Coutinho era da família dos Condes de Redondo, trineto de Fernão de Sousa. Redondo é um concelho próximo de Évora. A cidade de Sumbe, cujo nome antigo era Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho e, daí o nome em homenagem ao seu fundador.

Recentemente estive em Cuba do Alentejo revendo no local as pegadas antropológicas de Cristóvão Colombo que ali nasceu e, pude verificar terem saído desta região de Portugal gente que permanece na história hodierna por via de seus feitos; entre estes está Inocêncio de Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” e, ali chegado, de imediato executou os seus objectivos: Ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro - até esse então, só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes.

moça2.jpg A nova “borda mar”, bombordo pretendida por Sousa Coutinho, dizia respeito à célebre Costa dos Esqueletos e abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia; os portugueses não tinham meios e gente para tão grande e exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos de um frade capuchinho de nom Cavazzi, que viveu em Angola por volta de 1678.

Portanto, só a partir da ida de Sousa Coutinho e, por via do Ministro de D. José I, se começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento. Bem! Logo a seguir foi votada de novo ao quase esquecimento e, até aos anos de 1885 quando da Conferência de Berlim. Preocupou-se na facilitação de colonos nos planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil. Pouco ou nada se conseguiu porque as doenças dizimaram os poucos colonos que para lá foram. O actual Sumbe era até conhecido pelo  “Cemitério dos brancos”...

coutinho1.jpg Tinha também o propósito diminuir a exportação de escravos com melhoria nas condições de transporte destes. Foi o único Governador a proibir a guerra do kwata-kwuata (Agarra-Agarra), mas infelizmente mal virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. A guerra do Kwata-Kwata era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus sequazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. O próprio gentio escravizava-se entre eles, normalmente por via de aprisionamento das guerras entre tribos. E um facto ainda bem conhecido nos dias de hoje quanto se dá ordens a um cão para agarrar algo com a fala de kwata repetida.

coutinho2.jpg Criar incentivo à imigração estrangeira para substituir as levas de degredados que não cessavam de chegar do M´Puto e Brasil; também a criação de uma agricultura auto-suficiente. Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda morria-se com escorbuto - uma doença comum nesse então, por não haver o hábito de come frutas e legumes frescos. Surtos normais nos embarcados em caravelas por ainda não existirem os métodos modernos de conservação pelo frio. Não obstante era possível cultivar todos os géneros alimentícios nas margens dos rios como o Kwanza, o Bengo  entre outros.

massangano1.jpg Estabelecimento de grandes armazéns de víveres para eliminar os ciclos de fome que atingiam a capital de Loanda, um ancestral formato dos Armazéns do Povo após a independência dada pelo MFA em 1975 ao MPLA (Movimento de Libertação de Angola), à revelia dos outros dois Movimentos e grande parte da população de regiões para além da grande Luanda com kwanza Icolo e Bengo na linha da frente.

kwanza1.jpg Também o desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre (Benguela) cobre, sal e salitre e, talvez prata e ouro, que nunca apareceram mas, que se dizia existir nos rios Lucala e kwanza. Os diamantes e petróleo por desconhecimento ainda não tinham a cobiça do mundo, nem tampouco a importância do Nióbio entre outros minerais de características especiais em uso nos aparatos de aviação espacial e na comunicação. Construção do hospital de Luanda, edifício da Alfandega, Terreiro Público e fortaleza de Benguela.

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:22
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Terça-feira, 30 de Julho de 2019
MOKANDA DO SOBA . CL

TEMPOS PARA ESQUECER - NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA

Relembrando alguns factos do SETENTAECINCO30.07.2019

“Vai para a tua terra, branco” era o que mais se ouvia na Luua de 74/75… Alguns dos heróis de túji afectos ao MPLA também deram à sola – dissimulados, claro!

Por

 soba15.jpg T´Chingange - (Otchingandji) No Alentejo do M´Puto

soba23.jpg Remexendo no meu baú encontrei o único e último documento que tenho do ESTADO DE ANGOLA e, do Governo de Transição assinado por António da Silva Cardoso – General das F.A. Trata-se de um Salvo-conduto para transitar pela Cidade de Luanda e Bairros Suburbanos. Revendo o mesmo, este refere que na condição de deslocado exercia a função de Colaborador na Comissão de Repatriamento. Está assinado pelo Alto-comissário de Angola, em Luanda, aos 29 de Julho de 1975 - Quinze dias antes do meu Voo Luualix…

Naquele então do ano de 1975, Gonçalves Ribeiro, o pai da “Ponte Luualix” fazia alarde ao mundo da periclitante situação em retirar todos os deslocados por via da descolonização, entenda-se uma anárquica guerra com vários intervenientes, movimentos emancipalistas impreparados para se governarem a si próprios. Ainda faltava ir buscar algumas pessoas a áreas aonde não havia qualquer segurança (…). Confirmo que assim era porque estando eu destacado como “adido” no Palácio do Governo da Cidade Alta da Luua, podia vivificar o que por ali se passava.

soba22.jpg Tinha por missão dar a conhecer a gente deslocada de seus sítios tais como Administradores, Chefes de Posto entre outros funcionários que fugidos dos movimentos, mais propriamente do MPLA se encontravam confinados em hotéis, pensões e afins. Preparava também as listas de embarque – Guias de Marcha sem retorno. Via telefone ou por estafeta, dava-lhes a conhecer qual a sua hora de embarque na ponte “Luualix”; para ultimarem sua presença no aeroporto ou esperar transporte ido do Palácio que os levaria ao aeroporto de Craveiro Lopes, também conhecido por Belas.

Alguns daqueles funcionários administrativos por estarem escondidos, por assim dizer, em casas de familiares eram recolhidos por um autocarro do Alto Comissariado que os transportava ao dito aeroporto. Havia promessas de morte, vinganças avulsas. Já neste início de Agosto podia ver-se milhares de famílias pernoitando de qualquer jeito junto aos seus haveres no largo frontal da zona do check-in e jardins do aeroporto, malas, caixotes e bugigangas. Ali permaneciam dia e noite cobertos com lonas presas a caixotes usando como banheiro áreas improvisadas ou as bissapas circundantes; o cheiro era nauseabundo.

guerra12.jpg Estando eu já no M´Puto com a família, ia sabendo dos efeitos de fuga lá no Ultramar. Coisas de partir o coração aconteciam como sendo coisa pouca – a frieza das pessoas, do governo, da Metrópole em um todo, afligiam-me sobremaneira. Minha revolta era imensa! No dia 4 de Agosto de 1975, na cidade da Gabela os partidos entram em confrontos e a população organiza uma caravana, com mais de duzentos veículos, acompanhados por militares portugueses e da UNITA, que com veículos e aviação fizeram escolta até a cidade de Nova Lisboa (Huambo).

O clima que já era de inferno aquecia ao rubro! O negro olhava-nos de lado e com cara de ódio pela fermentação das rádios, dos cabos que viriam as ser generais e outros que tais. Já há uma semana que tinham deixado de trabalhar para fabricarem armas artesanais. Outros recebiam-nas das mãos dos líderes políticos, dos militares de aviário do M´Puto mais os PREC para se dar início à matança um dia depois. Em meados de Outubro, o terminal aéreo de Nova Lisboa (Huambo) encerrava, e Luanda passou a receber entre quinze a vinte aviões por dia. Conto isto sem me situar no tempo ou local mas, pouco importa porque tudo estava por igual: - Descontrolado!

Os meios aéreos para fazer chegar a Luanda os refugiados do Lobito, Benguela e Moçâmedes, sendo insuficientes, o Comando Naval arranjou meios marítimos para fazer chegar a Luanda os cerca de 250 mil cidadãos brancos (maioritariamente) mas, tendo também milhares de mestiços e negros; enfim! Seguiam todos aqueles que o desejassem! Na vinda ou ida dos refugiados de um para outro lado (como kissondes) mas e, principalmente para os lugares de embarque da Luua, praticamente não havia triagem; o controlo era precário. Nunca pude entender esta falta de cuidado na logística das coisas.

guerra01.jpg Não havia tempo para decidir de quem estava ou não nas condições de perseguido, refugiado ou o que quer que fosse. Não importava ser-se quem era e de onde vinha ou do porquê de estar ali. Era tudo ao monte e seja o que Deus quiser, aos magotes na fé de Deus com o natural berreiro e choros de adultos e crianças, ordens e contra ordens desencontradas ou nem tanto. Cães, gatos e outros animais de estimação foram largados ao descaso como heresia apócrifa!

É confrangedor só de pensar em estas turbas de gente que às pressas colocaram umas peças de roupa, uns agasalhos, umas fotos de recordação e aí vão ao encontro dum desconhecido maior que o mundo. E, as despedidas de gente serviçal ou amiga, até mesmo um vizinho que por ali iam ficando; toma lá a chave do meu carro, da minha casa, cuida do gado meu amigo porque não sei quando voltarei nem se volte. Olha pelo meu cão, a aspirina mais o tarzan que ficam presos lá junto ao gerador e perto do galinheiro. Doeu e ainda dói!

moka25.jpg Era um Adeus dado aos trambolhões às coisas, ao motor da GMC a fazer de gerador, dos gansos guardadores mais o pavão e as galinhas fracas debaixo do DKV. Ele, Deus, era só uma questão de fé interior, a vontade de querer e acreditar mas Ele, não surgiu a muitos; a lei da vida e da morte era um traço disforme, desfeito em cotão a confirmar que só somos enquanto somos, uma ilusão! Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muito mais; mas aqui não havia fracos ou fortes, só deprimidos…

Sempre observei amizades incipientes desde o tempo em que os cuspidores de prata eram usuais e era admissível ou sem reparo; cuspir-se em público era feio e anti-higiénico mas agora e ali nem escarradores havia, era no barrento da terra, nosso infortúnio. Num repentemente viramos escarro, nada ou ninguém - triste; cada qual cuspia para onde quer que fosse que nem monandengues. E entre estes, surgiam os rufias catadores de desaconchegos, gente do MPLA usando prepotência com um extremo desprezo, pedindo relógios ou valores para ficar sem dissabores nesta hora de partir; uma forma de pressionar o medo ou resquícios deste.

picapau1.jpg Havia uma restea de ordem por alguns militares, Nossas Tropas mais conscientes! Valha-nos isso porque nem todos viam este desmando na forma do PREC, dos guedelhudos do M´Puto às ordens do diabo. As leis, as atitudes, o MFA, nossos patrícios do M´Puto, os generais de aviário, mesmo que absurdas, tornavam o impossível em admissível e hoje que penso muito e rezo pouco, recordo isto, procedimentos sem que ninguém averiguasse as diferenças aturdidos por pudor. Pudor, palavra complicada de entender - qual pudor qual quê!?

Nesse então, nós gente desavinda, podíamos ver já a força da crise com roubos subtraídos pela lei dos homens, pelas nossos guardiões militares com seus amigos, nossos inimigos – o MPLA, sem lei - nem velha nem nova ou tampouco ordinária ou arbitrária, nenhuma! Um salve-se quem puder! Era um acaso feito lei ali e a frio, ora marcial ora uma prepotente aberração feita de coisa feito gente, drogados no cérebro, nas kinambas ou nas matubas…Mas, ainda há quem use paninhos de flanela para amenizar o impossível…

monstro6.jpg E, muitos daqueles ali ao nosso lado a fugir do caos, tinham estado dias ou meses antes, também a fiscalizar nossas bagagens, bagulhos de sentimento a escolher os cristais, a parti-los num desdém e isto sim e isto não; Este ouro é nosso, do governo! Mas qual governo - do MPLA diziam… sim! Ao serviço do por eles chamado de glorioso MPLA… Agora, eram camuflados companheiros de viagem, de infortúnio e, já ninguém queria retaliar o que quer que fosse; uma entrega sem jeito nas mãos dum Nosso Senhor…

(Continua…)

O Soba T´Chingange - (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:59
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Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
A CHUVA E O BOM TEMPO . CI

EXCESSO DE OPINIÃOParte UM - 23.06.2019

- As leis da natureza dizem que independentemente do estatuto parental, todos nascem pelo mesmo local: -Nus e ateus…

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

cacu6.jpg  Entretido com a rega de minhas verduras espalhadas por aí a eito e sem jeito, salsa com jindungo e hortelã mais hortenses e boldo ao lado do doutorzinho, venho aos solavancos entre o tempo dado ou esquecido das nove tomas de rega, escrever algo entre o muito que desejo escrever antes que as ditas pensadas nuvens se esfumem num aquecimento ou puro esquecimento; Meus pensamentos por via de não o serem caligrafados ou psicografados de forma instantânea como o café mocambo, provocam atraso a tantas e, tantas estórias que me dá dó não o serem, contadas, xinguiladas! Nestas alturas queria mesmo ser um ET, carregar num botão só pensado e, logo num repentinamente, ver afluir como uma flor as notícias do T´Ching…

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Umas inventações criam mofo no baú do meu sótão, outras surgem e logo desaparecem como obra do chifrudo com quem nem simpatizo que as leva para as catacumbas. O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos num Um Ukulu esquecido por muitos e, a propósito, para não ficarem aturdidos. Sim! Ficarem com ataques de asma e ou até caspa. Porque Charulla se afastou para parte incerta defuntando-se com seus dois elles, levando com ele sua sabedoria para a terra, tal como as sementes de orégão que por aí andei espalhando a eito. Venho assim e, a bem das gentes, muito sem peneiras e de uma forma aleatória botar falas, feitas faladuras, como um banal linguajar

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A opinião e o esclarecimento são principios da maior importância para uma qualquer sociedade que se preze ao desenvolvimento. Claro que todos deveríamos ter a capacidade de opinar com conhecimento e fundamentação mas, a realidade que nos é dada observar é bem diferente; em umas, a bota não bate com a perdigota mas, outras são falsas ou demasiado facilistas para um plausível entendimento – recomendo cuidados…

saramargo3.jpg Isto leva-nos a fazer uma triagem sem contudo eliminarmos as subtilezas de cada interesse porque as facilidades imperam e outos vendem a alma ao tal diabo chifrudo para contento de sua malvadez ou e também para originar desvios ao pensamento alheio. Como manobras de diversão, andam muitos mentirosos ao nosso redor vendendo gato por lebre, criticando átoa e, outros se lhe seguem transmitindo ignorância. O partilhamento, está hoje disponível a um simples clicar e, até faz lembra as comadres da época quase medieval dum recanto interior, lugar aonde Judas perdeu as botas.

maximilano0.jpg Comadres que com sua boca de trapo faziam de mulheres sérias umas putas de baixo coturno, baixo calibre ou desclassificadas. Isto poderá verificar-se nos dias de hoje pela boca de gente que deveria ser estadista mas, que com seus propósitos nos fazem inevitavelmente numa coisa nenhuma. Nenhures que nunca aceitarei porque não me quero mentir, simplesmente e assim tão só e sozinho sem recorrer a sofismas políticos, merdosos de cheirar mal às orelhas, irritar os entrefolhos do cerebelo e olear de mau cheiro nossos pelos. Cabelos e até pintelhos… É que nestas alturas apetece-me dizer asneiras fedorentas para que toquem no ponto nevrálgico da alma.

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É mesmo uma bosta; hoje as pessoas lêem cada vez menos, escrevem cadavez (cada vez) pior e sabem cadavez menos daquilo que é importante. Apesar disso têm mais opinião sobre tudo e são especialistas nas críticas com visão de ponta, afiadíssima. As redes sociais são o espelho mais fiel disso mesmo e o palco ideal onde os ignorantes, tudo criticam, quase nem sabendo escrever. Outros, baseados nestas falas, opinam construindo uma mentira porque nem sabem que a água ferve a 100 graus Celcius. Pópilas! Fervem-nos a mioleira a troco de vaidades, tropelias, enganos, engodos açucarados de mel ou simples matumbice…

arau154.jpg As redes sociais são assim e inevitavelmente uma caldeirada de coisas más havendo no meio destas, umas muito poucas a assegurarem alguma coerência, sem essa desmedida venda de ilusões, invejas, negatividade entre outras arbitrárias. Desqualidades na mistura de sexo com religião e, como se essas suas fotografias do reviralho tipo conde de Ficalho, sempre fossem as mais credíveis – ora bolas: ir para a cama futricar até ver o São Arcanjo e depois dizer, este foi o melhor momento da minha vida; no outo dia é do mesmo e por esse desamor, assim descartam a alma em detrimento da felicidade. Cumcamano!

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Assim, numa troca de galhardetes e ou fantasias numa oportunidade de um agora, brilham sua ignorância sem saber que o Maximiliano Austríaco de nascença foi também o imperador do México e que por lá morreu encostado a um muro, fuzilado a bem da nação! Se um dia eu o T´Ching… vier a se presidente da NIASSALAND, não se admirem; já esteve mais longe! Isso! Maximiliano de Habsburgo-Lorena foi o único monarca do Segundo Império Mexicano. Ele era o irmão mais novo do imperador Francisco I da Áustria. O mesmo a quem e, em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que já há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia dos Tugas.

maximilano1.jpg Com uma poderosa imaginação, José Saramago coloca nas nossas mãos essa fricção - obra excepcional que é “A Viagem do Elefante”. Ele, Saramago fez-nos olhar a humanidade neste campo tão vasto de ironia com sarcasmo, marcas da lucidez implacável dele, combinando com a compaixão o desamor com que o autor observa as fraquezas dos homens. Sabe-se que ele também tinha um diabinho feito peluche dentro dele. Estou-me perdendo no fio enleado da meada mas, convém dizer-se a jeitos de saber mais que, aquele mesmo território aonde Maximiliano foi Imperador, foi vendido à América – vulgo USA. Creio que por um tal de Antonio López de Santa Anna, o Rosa Coutinho lá do sítio sem Tapurbana nem rio Zaire de permeio nem ter passeado numa jaula como um macaco.

saramargo0.png A Compra da Louisiana, concluída em 1803, foi negociada por Robert Livingston, durante a presidência de Thomas Jefferson, o território foi adquirido da França por US $ 15.000.000. Uma pequena parte deste território foi cedida ao Reino Unido em 1818 em troca da Bacia do Rio Vermelho. Mais desta área foi cedida à Espanha em 1819 com a compra da Florida, mas depois foi readquirida pela anexação do Texas e a Cessão Mexicana. Para terminar haverá a tecer duas importantes considerações a levar em conta: Fé e política, não se impõe nem se prescrevem porque mesmo recomendadas, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de as possuir representará a verdade. É isto a democracia!... FUI!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:00
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019
KILUNDU . VI
kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga em ALHAMBRA, assiste ao pacto de Mano-Kilombelombe com Januário. Eu já era Mano-Corvo - Uma fusão de homem com pássaro - Eu, Costa Araújo e o pássaro do tipo Kwetzal (México)...
NA LAGOA DO M´PUTO - 08.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Na estepe Alentejana

ÁFRICA7.jpg Com a sensação de começar a penetrar na minha intranquila dependência da kianda, quase que me dou conta que meu pacto de sangue com o velho de mais de talvez 394 anos, começa a borbulhar-me no cocuruto da meninge. Os seguranças de serviço levaram-nos direitinhos à única entrada exterior do Palácio Nazarie.

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Tratados como mustáfas por via da indumentária de Januário Pieter e seu guardião - lanceiro, um espanto de nos fazer sentir os maiores privilegiados. O Cipaio Kukia  Edu Mandinga muito vaidoso, banga ultra moderna fardanda de zuarte amarelo, balalaica com muitos bolsos e uma catrefada de zingarelhos pendurados à mistura com pequenos chifres de porco do mato.

angola colonial.jpg Coisas trazidas dos confins; lá duma terra chamada Mapunda e uma outra com nome de Chibia com nome de espantar pássaros xirikuatas. Cipaio Mandinga, direitinho que nem um fuso,  tudo olhava com vontade de saber. Muxuxou que era muita areia prá sua camioneta e que, teria de comer um chipe extra de memória e sistema integrado para fosforescer mais rápido na sabedoria.

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A partir daqui rodávamos a cabeça em todos os sentidos observando toda a beleza daquele conjunto palaciano com quartéis, estábulos, mesquitas, escolas, banhos, cemitérios e jardins. O escambau de coisas desanoitecidas já esquecidas ou penduradas por detrás das portas junto às muitas ferraduras de muares e outros bicharocos espinhosos ou cascarrudos.

araujo 25.jpg O Palácio dos Nazaries, é em verdade um conjunto de residências principescas sem fachada, sem alinhamento de salas, com passeios e jardins interiores de grande frescura. Pode adivinhar-se as forças ingrávidas de arcos com paredes furadas de renda; portas, janelas e arcadas por onde a luz penetra na medida certa e, aonde parece não haver gravidade. Qualquer matumbo, ali, fica espevitado da cabeça, numa de jihadar cosigo próprio...

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Foi no Pátio dos Leões, a sala privada do Sultão em que eu T´Chingange e Pieter selamos o nosso mais verdadeiro pacto de sangue. Esse cipaio Kukia Edu da Chibia que anda por aqui, até pode nem se lembrar mas assistiu direitinho com sua lança, feito Massai da Corongosa - um jardim que havia lá perto de sua casa cubata no Lubango. Uma mistura cafusa na cabeça dele que faz pena. Nunca no Lubango ouve caserna de bichos desses e, com esse nome!?

araujo 28.jpg Por medo, as pessoas passavam de largo como se nós também fossemos daqueles muitos idos anos e muito cheios de caruncho. Tínhamos em frente um belo claustro formado por muitas colunas, o lugar mais Pambu N´gila de todos os lugares aonde estivemos antes. Este sítio, era em verdade um sem número de flocos dourados caídos do Duilo.

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E, foi ali que ambos picamos o centro da palma da mão esquerda de onde saiu uma bolha de sangue. Eu T´Chingange cuspi na mão esquerda de Pieter dissolvendo-se no sangue e ele fez o mesmo na minha mão esquerda; com a mão direita, ambos acariciamos as cabeças dos leões e, eu primeiro e depois Pieter, desferimos com a direita em cutelo na mão esquerda do outro um enérgico movimento fazendo chispar sangue e cuspo no ar.
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Teve de ser ali porque o leão que pela boca deita água simboliza o Sol da qual brota a a vida. Os doze leões, são os doze Sois do Zodiaco, os doze meses que na eternidade existem em simultâneo. Eles, os leões sostêem a Kalunga como os doze torres de ferro no templo de Salomão. É este o depósito das águas celestes dessa Kalunga.

araujo17.jpg Este simbolismo único, venera a água como a pura vida e, foi ali que também, ambos choramos lágrimas de prata polindo o chão do Califa para ficarmos Manos-Kilombelombe. O Cipaio vaidoso sempre em guarda, sorria de vez em vez, inadequado para ser uma testemunha com carisma de Xi-Colono de terceira geração. Em realidade ele era mesmo um genuíno africano, embora branco, mas era! Sem nós t´Xinderes, a África fica incompleta! 

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Januário Pieter falou de que quando ficasse um antigamente, de mais tarde, eu, um mais kota, me iria recordar deste selo de Mano-Kilombelombe enquanto ele, lá na ilha da ensandeira do Kwanza, recordaria os espíritos dos M´fumos Kia-Samba e Manhanga como um minkinsi.
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Pieter recordava as minhas próprias brincadeiras com os candengues no mar da Samba, os pactos de amizade feitos a cuspo e bisgo da mulemba nos subúrbios da Lua. A Kianda Pieter sabia tudo! Sukuama!
- Deixa só, “ N´Zambi a tu bane n´guzu mu kukaiela”, Deus dá-nos força para seguir, disse eu batendo dedos no ar enxotando maus olhados.

 araujo155.jpg  Ilustrações do Mano Corvo Costa Araújo, nosso mestre (falecido recentemente...)

Glossaário:
Edu: De Eduardo Torres - Um amigo kota, poeta, prosador, branco de segunda com bitacaias nas orelhas , apátrida e vaidoso quanto baste... um amigo para sempre...
Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto Duilo: - Céu (em um amiente de espíritualidade)
kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral
Mano-Kilombelombe: - Mano-Corvo, Uma fusão de homem com pássaro do tipo Kwetzal ( México)
M´fumos : - Chefes
Kukia: - Sol, pô do sol
Samba: - Lugar ente a Quissala e Futungo (Belas da Luanda de antigamente)
Manhanga: - Bairro da Maianga, lugar de cacimba, nome antigo já esquecido.
Amazulu: - Dialeto Zulu
Minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado
Sukuama!: - Caramba!; poça!; Cus diabos; Porra!
Bisgo: - Resina de mulemba usado para apanhar pássaros,da mulembeira (árvore de grande porte que dá uns figos pequenos)
Lua – Diminutivo de Luanda
(Continua ...)an
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:23
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
MU UKULU – XX

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.04.2019 
MUXIMA DA MAIANGA . FEROMONAS DA VIDA
- Saber do passado para melhor se entender o futuro... 
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil 

zeca00.jpg Jose Santos - No M´Puto... 

luua32.jpg Não estava destinado hoje falar de FEROMONAS DA MAIANGA mas, e porque recebi uma Mokanda escrita na forma daqueles idos tempos, não resisto transpô-la para aqui porque isto era, foi o nosso Mu Ukulu da Luua. Na forma de introdução direi que mais de 99 por cento das espécies de animais, entre estes nós humanos, plantas, fungos e micróbios dependem exclusivamente ou quase, de uma série de substâncias químicas chamadas de FEROMONAS, para comunicar com membros da mesma espécie. 
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Assim agradecendo falei: Meu kamba-maior de coração invulgar num nome comum de Jose Santos, tuas amêndoas são sempre gostosas... Pena que andas sempre nos Kissama estudando os carrapatos do salalé e vires aqui mais vezes saudar teu mano! Catravês ficas na desculpa porque és meu ávilo de candengue do tempo tão antigo que nem a Joana Maluca recorda mais lá no seu cúbito do céu... Ver-te-ei com muita brilhantina na TiMatilde...
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A mokanda começa assim e no respectivamente, continua:
TONITO (soeu)......No meu mukifo, aproveito desta tua uuaba Moamba....te mando minhas amêndoas de múkua...para tu bué chupar...como nos mu ukulu dos candengue...porque os kumbu, malé dos amêndoas dos pula....Tambula conta! Xé! É meu agrado pra teu Dia de Páscoa com Ibib, teus monas teus ávilos keridos...

negritas.jpg  Teu mano ZECA nos Kissama, nos estudo pra os creme da pakassa para os salalé dos longevidade dos kota....mazé cheio dos comichão que os tuje faz bué...e borta kubata.....
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TONITO...UUABA PESSOA!!!. Tu num fica zangado com soeu porcauso do meu paragem dos escrito comentário, gosto e dos kandandu? Agora me dá n´guzu te pescar o teu peixinho os MISOSO os cacusso e botar na minha lagoa!!! 
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Te confesso....mazé cadavez os meu inama, os mãos....os n´guzo nos escrito os misoso dos face mazé é desigual do igual dos antigamente malé mesmo, porcauso os vapor nos inicio do Kurikutela butava fumaça bué! Aiué deixou de passar na cidade alta do nosso bairro da Mayanga, os território sagrado dos nossa uuabuama n´denge! 

caricocos.jpg  Então, duns tempo para cá....te digo que todos tão nos mesa dos concertação....dos sindicato nos tactoatacto, matacocommatako matacusentado! Ué! Te digo os lápis, os caneta e também os tinta qué nos tinteiro dos porcelana da Anchieta, colégio moderno, colégio João das Regras, katé os pequeno barril acabou....! Agora todos botaram essa confusão e ameaçam ir no palácio mostrar os indignação..!
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Os tuje querem mais cumbu e diz que tão sem os proveito dos fazer face nos custo dos vida. Assim, diz que nos bolso os cumbu baza logologo acabou katé num dá pra beber copinho do abafado no Rato, Morais, Hernãni da minina Alice ou no Reinaldo...!!! Malé, mesmo...

FRANCES2.jpg Cigarros francês

Então me diz..., tu licenciado katedrático do Rio Seco, Rua dos José Maria Antunes, que ainda continua a ser, se os despesa kiavuluvulu aguenta sem os produção num aumenta kiavulu....Tu sabes, o meu edição, já não tem os subsidio de produção do antigamente...! Tambula conta! Katé escapei katé os camenemene bué de vezes os dias meses anos, fazer o uafo..., porcauso os rolamento dos mutue os esferinha começou a sair, como diz os pula especializado na oficina do Baleizão do ávilo Taric..., diz que diz, ficou gripado!!! Tó lixado...
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Então, me diz só, como os quê ah vou voltar!, Ah! Há os budget assimassim e não podem na Rebita do Deve/Haver ter os massemba nas inana das barona dos bife dos profit...? Então assim num dá para aguentar os despesa .....porque os lucro baixou....porque Lello, os ávilo agora nos moda dos época vem pra fora fumar átoa os negrita, caricoco e deixa as beata pirisca no chão..., 
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Falta só mesmo átoa pra ir no kinaxixi buscar os mercearia; batatadoce, peixe seco, óleo palma, quiabos, jindungu, sal do Cacuaco, azeitonas da Leba.... Agora tu tens os meu parabéns....tu tens o teu n´guzu de torresmo de lagartinha Mopane....,e todos dias botas cada misoso bué comprido....! 

zeca01.jpeg Zeca com Mano T´Chingange  - TiMatilde

Amam´iéé! Tu como consegues ter tanto n´guzu...., os vontade de encher na Kizomba os teu misoso os escrito mais os foto bonitinha....?! Então tu "esqueleto pessoa, menos barriga de ginguba" és igual soeu!!!! Me diz só; tu fumas macanha, bebes maluve, marufu, botas gemadas de avestruz com os aguardente Pitu velho Chico 1935? 
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Temos de combinar de novo ir no Pica no Chão da Libata de granito de Póvoa de Lanhoso...., com os nosso kerido ávilos do Rio Seco...Então, faz tempo, e num quero chorar mais dos pensamento dos cagaço..., meu olhos tão seco....
BOA PÁSCOA ABRIL 2019
Kandandu Zeca 20190421
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Eu, logologo, respondi respeitosamente ligeiro de reco-reco de saudade: Tu - José Santos de um paludismo especial da Jihenda kaluanda - N´zimbos de fabricar missangas como sótumesmo sabes fabricar... que sótu sabes fazer. Te formaste na Universidade do Rio Seco da Luua. Meu mano de matar matrindindis zarolhos quando sóeramos matumbos do primeiro circulo...Aiué...

zeca5.jpgZeca fazendo banga

Vou-te falar nos finalmente: Se a cultura é uma invenção, ou uma construção de actos históricos, nós gente do Rio Seco, feito mulola, katedráticos de muitas estrelas, podemos afirmar que nossas falas, têm de ser colocadas no mausoléu sputnik do nosso Mar da Samba. Isso! Na gaveta mitologia antropológica, porque nós merecemos generalato! - Muito mais que as matubas do mais-velho de Catete. Juro! Vou te botar na estória do MU UKULU como o maior missangueiro do reino da Matamba... 
Igual a tu, só TU... um T´CHIKUKUVANDA ...

GLOSSÁRIO:

Mokanda - Carta...Kamba- amigo...Kissama- parque ou reserva animal...Salalé- formiga térmita...Catravês- então; por conseguinte...ávilo-amigo...Candengue moço, rapaz, pivete...Cúbito- lugar...Mukifo-quarto, recanto, lugar íntimo...Uuaba - assombrosa, espectacular... Moamba- condimentos, comida...Múkua- fruto do imbondeiro... kumbu-dinheiro... Malé - nenhum, nada..Xé- admiração...kandandu- saudação, abraços... N´Guzu-força, potência... Pacassa- búfalo, boi...Pula- português, do M´Puto...Baza- vai embora, foge, afasta-se...Tambula- toma atenção, anota, repara...Konta- atençaõ, ficar de olho...Missosso - conto curto, pequena estória, crónica...n´denge- carinho...espaço mítico...Mazé- expressão de talvez com admiração e dúvida... Cacussu- peixe do rio...Kurikutela- comboio fumaça a apitar, lançar fagulha...Mataco, Rabo, cú, bunda...Ué- exprssão de admiração, é possível?...Tuge-meda, excremento de pessoa...Kiavuluvulu-aumentando, crescendo,subindo...Camenemene- abandonados, relegados...Mutue - de motor com biela e segmentos...Massemba - jeito, trejeito forma de tocar... Inama, perna...Barona- mulher de destaque, m´boa...

kisan1.jpg Mopane-lagarta...Átoa- de qualqueR modo...Macanha- maconha, liamba, fumo forte, canábis...Marufu-vinho de palmeira...Libata-casa...reco-reco- raspando, instrumento de fazer barulho...Kaluanda- de Luanda...N´Zimbo-concha, bivalve sem bicho...Jihenda- saga, luta, forma de acção...Matrindindi- tipo de gafanhoto...Matumbo-burro, no sentido de inculto, tapado...Sputnik - monumento do Agostinho presidente dos mwngolês, gracioso quanto ao desplante ...Missangueiro- que trabalha com missangas...Matamba- Reino antigo de N´Dongo....T´chikukuvanda- lagarto de cores várias
Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:15
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Sábado, 20 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXV

N`ZINGA E O FALA KALADO 
de Várias Partes – 20.04.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)

massau5.jpg Ele, Fala Kalado, quis sabe de mim, do porquê de eu ter saído da Caála de forma quase abrupta. Reporta-se aos últimos dias do mês de Julho do ano de 1975. Tive de lhe explicar que tendo eu nesse então levado minha sogra a Luanda a fim de seguir para Lisboa com seu filho Honório Mestre, por pouco, não éramos fuzilados. Como assim!? Exclamou FC. Pois foi! Fomos em um autocarro da EVA - Empresa de Viação de Angola e no lugar de Muquitixe, a terra dos abacaxis, um controle de estrada mandou-nos parar. 
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Era um desses aleatórios controles que surgiram por toda a Angola e, normalmente feito por militares ou ex-guerrilheiros do movimento que era influente em essa zona. Não vou aqui dar todos os pormenores porque tu, sabes bem o que isso foi, o que isso era! Aquele, tratava-se de uma barragem montado por pseudo soldados impreparados para tal função; era um afecto ao MPLA mas, até podia ser da UNITA ou FNLA - todos se comportavam de uma forma despropositada. Era o poder a chegar impreparado e, a quem nunca o poderia vir a ter .

guerri4.jpg Estes controles eram já feitos à revelia de qualquer fiscalização por parte das autoridades portuguesas. Por vezes pediam os crachás do movimento a que pertenciam e isto era bem perigoso! Mesmo que o tivessem ninguém o mostrava por medo de reacções adversas assim fosse de quem ia connosco, ou deles. Um imbróglio de todo o tamanho e da qual nenhum de nós poderia ultrapassar por si só! Não existia legislação para isto, nem bom censo. 
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Era um "seja o que Deus quiser"! Era perigoso insinuar-se e, ou dar indicações de camarada, de irmão ou mostrar qualquer trejeito de desconformidade. Um cigarro por vezes, era uma boa oferta e, porque todos fumavam, assim se abria uma porta de boa vontade. Parece pouco mas, um cigarro poderia valer uma vida!

gurra10.jpg Foi assim que interpretei na altura porque aqueles militares de faz-de-conta estavam cheios de droga; via-se isso nos olhos, no cheiro, nas atitudes e, qualquer fagulha poderia fazer fogo. Com o autocarro estacionado na berma, mandaram descer todos os passageiros e que ficassem ali encostados na parede de uma casa recentemente incendiada. Iam fazer uma revista minuciosa às nossas bagagens!
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Felizmente que ia ali um Furriel Negro, fardado ao jeito de um qualquer tropa de então em exercício no exército, talvez saído da Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA) aonde também eu tinha andado e, este apresentou-se como sendo do MPLA, mostrou seu crachá-cartão do movimento ou algo semelhante o que resultou em reunião. 

papalagui11.jpg Fosse como fossem as falas deles resultaram em deixar-nos ir via Luanda sem revistar nada. Num toca a subir de mim para comigo e todos num aijesus, Deus nos acuda - Foi um Milagre! Mas, a partir dali, foi um choque de arrasar: Casas e carros queimados ou desventrados, tudo parecendo abandonado sem gente a mexer-se; nenhum lugar para se comer o que quer que fosse. 
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A cidade do Dondo parecia abandonada - um holocausto! Seguiu-se-lhe todas as outras terreolas com idêntico aspecto,: Zenza do Itombe, Maria Teresa, Cassoalála, Cassoneca, Calomboloca, Catete, Viana e arredores de Luanda. Ver isto, foi o princípio do fim! Dali para a frente podíamos adivinhar: iríamos ficar sem médicos, enfermeiros, veterinários, gasolina para o carro, e técnicos nas várias áreas. 

modas4.jpg Sem escolas a funcionar, sem géneros para subsistir, tudo era muito arriscado e, havendo outra saída plausível seria o mais indicado - ponderar pela segurança! E havia: O Quadro Geral de Adidos para funcionários. Foi quando o pensamento como ao sabor do ar quente, rumou para nuvens menos escuras - Largar tudo e ir para o M´Puto, a metrópole, Lisboa, aonde quer que fosse, mesmo que começando tudo de novo e como órfãos da terra.
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Por muito que amasse Angola, este amor não seria nunca comparável ao da família, mulher e dois filhos. Como eu, estavam bem mais de meio-milhão. Um cunhado mais ligado às instâncias politicas do M´Puto pois que era natural da mesma região, o Ribatejo com os oficiais de Abril, tais como Otelo saraiva de Carvalho entre outros: Metalúrgicos de pensamento de esquerda, organizados por Karl Marx ou Lenine via PCP. Avisado, o Branco de nome e tez, disse-me que saísse de Angola enquanto era tempo. Só que eu queria ficar! Mas, ele estava com a razão... 
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIV

O LIVRO ESCOLHIDO - 18.04.2019 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo... estávamos em meados do ano de 1975 - Cada qual fazia o que lhe dava na veneta desde que tivesse uma Kalash à mão... 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

guerra01.jpg Já no epilogo dum sonho chamado Angola, o ronco profundo e cavernoso do Niassa fez-se ouvir, minutos antes da meia-noite. Ao bater da meia-noite, o céu da Luua iluminava-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola. Mais a Norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, as armas pesadas faziam sangue que tingiam o rio que pensávamos ser de todos, mas não era. 
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Aquele ditado de se dizer "quem beber água do Bengo, tarde ou nunca dali saí - Angola" - uma inverdade somada com cânticos de "Angola, é nossa" e tantas outras ilusoriamente fabricadas. Mas isto foram coisas que paulatinamente foram sucedendo desde o "vinticinco" (de Abril de 74) de engano em engano por via dum livro que insurgiu um novo "Portugal e o futuro" escrito por um senhor vaidoso e tinhoso que ascendeu Nas chamas mais vermelhas que não eram as nossas.

guerri7.jpg Nos meses que antecederam o Novembro da Luua, o sol inclemente, humidade a oitenta por cento, o corpo encharcado, a camisa que se torcia e escorria suor feito água, o cheiro a catinga, a cansaço, a medo, o perigo que espreitava a cada passo, a cada instante, traziam uma pessoa em alerta permanente. 
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O medo era medido por musseque, depois por casas, depois por bairro, por rua, por bairro, por atitudes irracionais, nos prédios nas cidades do Norte do Centro e depois do Sul. Ligar o rádio era ouvir um chorrilho de raivas acumuladas, frustradas, provocando uma torrente de violência. 

guerra19.jpg Assim como um acidente de viação sem estória se resolvia aos tiros, uma simples discussão sobre futebol podia destruir um bar. Parece que já ninguém media consequências, que a moralidade era uma mandioca. O Mundo ia caindo aos poucos à nossa volta.
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Luanda estava escaldante, e a cabeça quente gerava inconsequências, insegurança generalizada, sintomas de uma sociedade à beira da loucura colectiva. O MFA, o COPLAD - Comando Operacional de Luanda, os militares oficiais Tugas, os pioneiros do Poder Popular, o MPLA, a FNLA, a UNITA e os misteriosos traidores, viciavam nossa adrenalina envenenando-nos vontades. 

guerra1.jpg Havia inconfessáveis esquemas; havia também muitos estudantes portugueses contagiados pelo espírito revolucionário, branquelas, burgueses encarando com desprezo seus patrícios. Como uma fruta de época, apodreciam as relações entre brancos e pretos, uns idiotas úteis à revolta. 
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Ainda andam muitos destes, por aqui e por ali, justificando-se por vezes com falas gastas, transviadas em subtilezas, falando com sufisma; não tendo mesmo a coragem de se explicitarem...  Se tu sabes e eu sei, cala-te tu, que eu me calarei! Trancas e ferrolhos na porta, sempre salvaguardam as aparências, provocando ainda a desordem nas cabeças de muitos outros. 

guerra22.jpg Do desespero palpável que se abatia inexoravelmente sobre Luanda, pegajoso, sujo, desorientado, também ela assim ficava numa tensão sempre crescente. Por aqueles dias, o aeroporto era um dos locais mais concorridos da Luua. O outro, era o porto da cidade - toda a gente queria sair dali para fora. 
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Durante décadas, o regime de partido único, o MPLA mantém-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje, depois de um golpe de estado e de uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Malheiro Savimbi. Os desmandos continuaram, continuam e continuarão até um dia, roubando quanto podem. Isto é actual - todos o sabem! Mas, um dia, tudo mudará!...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:17
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Terça-feira, 16 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXIV

N`ZINGA E O FALA KALADO  – 5ª de Várias Partes – 16.04.2019
Por

soba15.jpgT´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
Depois de falarmos do calor, da brisa e tempestades, um pouco por todo o lado, Fala Kalado iniciou suas confrontações: - Estás gordo, meu! Gordo e velho - já somos dois, deixa para lá! Interessante tu ainda te recordares de Kalacata!? Já andava ansioso para te rever, depois daquele encontro em São Paulo mas, os motivos ponderosos estavam escaldando. Felizmente já me libertei desta carga. Assim com um chorrilho de perguntas, afirmações e interrogações, ambos fomos sublimando nossa empatia. Curiosamente, achei-o muito sereno, aliás surpreendentemente sereno para um morto.

 

kilo8.jpg Muito de cautela perguntei-lhe: - FK, como consegues conciliar tua vida depois de reviveres de um modo assim tão vivo, tua morte. Recentemente soube que um tal de Luís Neto Kiambata, dirigente do teu defuntado MPLA da LUUA, declarações à imprensa - uma palestra sobre “A Vida e Obra de Nelito Soares”, no âmbito do 27 de Julho de 1975, que assinala a tua morte... Ele fez menção de que não chegaste a ver a independência no dia 11 de Novembro.

missosso9.jpg FK, fez todos os possíveis para não me interromper pelo que continuei: -Até recordaram o 4 de Junho de 1969, por acaso dia do meu aniversário; falaram até em Diogo de Jesus, afectos ao MPLA, de quando desviaram para a República do Congo um avião da DTA, coisa já aqui falada, a predecessora das Linhas Aéreas de Angola (TAAG). 

missosso3.jpg Precisamente na altura e neste dia comemorava os meus anos no Miconge, lugar conhecido por Sanga Planicie. Mas diz qualquer coisa! Com um enorme trejeito de desagrado ao ponto de fazer tremelicar sua orelha esquerda de plástico falou: -Pois! - Esse tal de Nélito morreu mesmo. Vais desculpar-me mas terei de ficar mesmo calado nesta matéria de recordar o que não quero lembrar e, em verdade já nem me lembro porque virei matumbola.

missosso6.jpg OK! Se queres, assim será; para mim és o Coronel Fala Kalado e não se toca mais neste periclitante assunto. É melhor! - Diz ele assim na forma de muxoxo carregado de naftalina misturada com creolina; deu para notar que era mesmo um ponto morto, morrido, defuntado. Bem! Fazia-te em Curitiba, Poconé mas, nunca aqui. Falei assim para quebrar qualquer gelo metido nas frinchas enferrujadas e ainda não sublimado em nós.

missosso4.jpg Em verdade estive naquele lugar do qual te dei um cartão que dizia. Terei de aqui recordar: ONG FENIX – Rua de la Paz nº 184 - Edifício LOPANA. Bem ao centro em letras quase góticas: FALA KALADO - (Coronel Emérito), tendo por debaixo em letra romana e inclinada os dizeres: Relações Internacionais.

missosso7.jpg É certo! É FK que retoma as falas dizendo: Esse é o lugar de contacto que ainda se mantém mas, em realidade os matumbolas kiandas de Hoji-ya-Henda e Monstro Imortal, heróis da guerra do Tundamunjila mais a Rainha N´Zinga estão descansando sua eternidade junto dos seus antepassados, em um quilombo situado perto de Poconé, capital do garimpo.

missosso12.jpg Eles fizeram questão de ali permanecer junto a seus próceres de N´Gola preservados no tempo em um estado quase puro. Ficaram em uma especial Cubata - Jango no quilombo de Urubama. Tudo porque existe ao redor muitos outros com nomes bem curiosos tais como: Aranha/ Cágado/ Campina de Pedra/ Campina - Canto do Agostinho/ Capão Verde/ Céu Azul/ Chafariz .
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E porque são tantos enumero mais alguns para teres ideia de como ficam bem acompanhados: Chumbo/ Coitinho/ Curralinho/ Imbé/ Jejum/ Laranjal/ Minadouro - Monjolo/ Morrinhos/ Morro Cortado/ Pantanalzinho/ Passagem de Carro/ Pedra Viva/ Retiro/ Rodeio/ São Benedito/ São Gonçalo/ Sete Porcos/ Tanque do Padre Pinhal/ Varal. Acho que chega, não!?

missosso11.jpg Para teu sossego e conhecimento, o Brasil tem uma Portaria, incluída no Decreto Presidencial nº 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação e reconhecimento destes quilombolas.  A referida Portaria destaca em seu artigo Art. 2° - Para fins desta Portaria consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnicos raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajectória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com formas de resistência à opressão histórica sofrida. (FCP - Portaria 98/2007) . Como vez, não poderiam ficar em melhor lugar... 
( Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:21
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Domingo, 14 de Abril de 2019
MU UKULU – XIX

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu44.jpg  Li uma tese da análise da Unicamp em Brasil e achei interessante continuar este tema sobre a instalação de uma fábrica de ferro na região da Ilamba, no interior de Angola. Na segunda metade do século XVIII, a partir do ponto de vista das sociedades africanas, as mudanças nas relações de trabalho foram bem impactantes. Acabaram assim, por deslindar haver modos de exploração do trabalho dos Ambundos, para além do da escravidão.
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O estudo das faces normativa e prática dessas transformações impostos desde a conquista, trazem para o centro da narrativa os problemas de se ser subalterno a um processo alheio à sociedade. Os representantes da elite política africana, reivindicavam seu estatuto de vassalos para denunciar abusos que sobre eles cometiam.

Mu Ukulu02.jpeg Outros aspectos das relações coloniais manifestos durante a construção da fundição de Nova Oeiras foram os conflitos em torno de minas e terras mais o controle da fabricação e comercialização de objectos de ferro. Esses recursos naturais e utensílios de ferro, tinham já para os africanos significados distintos do económico. 
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Os ferreiros e fundidores da Ilamba produziam um ferro de alta qualidade em fornos baixos, com seus instrumentos rústicos. Sua trajectória, enquanto grupo de artesãos, foi o fio condutor da pesquisa, pois permitiu compreender as disputas, e conflitos de poder. Costumes e tradições envolvendo tanto as estratégias do domínio colonial português, quanto as formas de resistência a ele. Daí a invenção de novas práticas, com elaboração de discursos articulados subjacentes à sua emancipação. 

Mu Ukulu27.jpg Nota-se que as determinações locais tiveram peso tão ou mais significativo nas decisões tomadas na sede do Império em Lisboa. As ideias surgem ilustradas na principal fortaleza colonial para marcarem esse período. Fortaleza de São Miguel, baluarte de poderio Luso. Como podem deixar agora arrefecer estes relacionamentos que determinaram a nação presente. Como podem agora desclassificar e menosprezar a gesta Lusa que também foi heróica. Aqui se forjaram ideias e ideais que simplesmente não podem ser arredados.
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Os embates entre as personagens do Sertão de Angola - sobas, os filhos, capitães-de-mato, ilamba, imbari, negociantes, pumbeiros, ferreiros e fundidores - todos, guiaram as directrizes governativas em Luanda e enfatizam, talvez sem o saber as complexas redes hierárquicas nas relações de domínio, embora o sendo no auge do negócio negreiro . 

Mu Ukulu43.jpg Por fim, na base de uma leitura das fontes que privilegia o ponto de vista africano, propõe-se uma nova interpretação sobre as narrativas dos fracassos de Nova Oeiras, considerando que os Ambundos elaboraram estratégias bem-sucedidas para manter em seu poder os conhecimentos e os benefícios que a metalurgia lhes conferia.
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Haverá dignidade na menção, porque em pleno século XX o Governo de Lisboa ainda tinha aversão a tudo o que fosse cultura em Angola. O revolucionário empreendimento de Inocêncio de Sousa Coutinho, foi liminarmente abandonado, e intencionalmente esquecido. Em Novembro de 1772, após 8 anos fecundos e únicos na governação de Angola, depois da sua partida para Portugal o que o sucedeu; o Governador António de Lencastre, simplesmente, ignorou toda a sua obra.

Mu Ukulu29.jpg  A fundição de Nova Oeiras, uma homenagem ao primeiro ministro de Portugal Conde de Oeiras depois Marquês de Pombal, acabou por se transformar num local turístico que desperta nostalgia a todos os estudiosos e desejosos de verem aquela terra como sendo de todos que nela nasceram sofrendo também tantas tragédias, abandonos e descaso ao ponto de serem relegados a coisa nenhuma. 

Mu Ukulu45.jpg Esta fundição foi a primeira em África, à frente de quase todos os países europeus. E, ainda existem canhões fundidos naquele tempo para falar verdades de trovão; a pura palavra de se dizer: A verdadeira vontade de fazer progredir Angola. Não basta dizer que a cerca de 150 km do Dondo entramos no reino da Rainha Ginga . Nossa memorias vão mais além dessa sintetica negritude que por ironia, nos querem tatuar na pele para enfatizar...

NOTA FINAL AO JEITO DE COMENTÁRIO

-Sempre vinco o direito da nacionalidade como nascimento ou por obras meritosas feitas e para Angola! Ao invés de proporcionarem este principio, os ditos angolanos "genuínos" que se dizem ser no topo da escala, desmereciam ser angolanos porque açambarcaram para além do poder a economia roubando desmedidamente.

Houvesse gente interveniente aqui que não se limitasse a dizer "esta bem" ou clicar no "gosto" para se apelar ao governo de Angola que: - Eram mais merecedores serem angolanos aqueles colonos que tanto labutaram, do que estes ladrões que açambarcaram por graciosidade de Portugal tamanha responsabilidade.

Quisesse eu ser um sociólogo, pegaria nisto para me tornar doutor por tese. Talvez Fernando Vumby na Diáspora possa pegar nesta matéria e dar-lhe o devido relevo... Ou também o professor Júlio César Ferrolho ou Edgar Neves entre outros .... GENTE DE CRÉDITOS E ACREDITADA...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:10
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Sábado, 13 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIII

De novo, estou com o nº DOIS - livro do Agualusa - A tua pele tem um cheiro estranho - cheira a sonhos... 
No Morro da Barriga... 13.04.2019 
Por 

soba001.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira. 

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A cadelinha, um animal mutilado sem as patas traseiras, o tronco preso a uma pequena plataforma com rodas. O meu novo amor, não é fofinha? Euclides, o jornalista benguelense diz que sim! Que se lembra do bicho ao lado de um homem gordo, em Ipanema. Encontrei-a à porta do meu prédio; a bichinha passava o dia inteiro ali, uivando, chorando que fazia dó.
:::::225
A cachorrinha tinha o nome na coleira: Maria Bonita, pode?! A moça do biquíni negro exaltando a brancura, fala: Felizmente achei você! Conversa puxa conversa e vem à baila o medo que que anda solto cheirando as emoções: - O presidente José Inácio continua preso. O Brasil mudou muito nos últimos tempos; o Comando Negro chamou a atenção do Mundo e nas eleições escolheram Bolsonaro! Espero que endireite este país - pois, que ele possa cheirar as emoções ...
:::::226
Muita desgraça junta diz. Barragens a deslizar, corpos por encontrar, chuvas a levar o o lixo pró mar, muito lixo, prédios que caem, corpos que não aparecem: Um cadáver faz muita falta; sem ele não há subsidio, não há renda, não há jurisdição. E, Jararaka desapareceu, sabes!? 

araujo169.jpg :::::227
Alguém disse que o viu a beber suco de acerola na Feira de Gravatá; mas na segunda roda de perguntas, os policias já tinha duvidas se não seria em Caruaru, na festa do Jesus de Nazaré na Nova Jerusalém. Outro foi dizendo que até conversou com ele num acampamento dos Sem Terra, no Espírito Santo; lugares bem distantes um do outro. 
:::::228
Um grupos de seringueiros tem a certeza de que o viu em Xapori, sublevando índios, numa aldeia dessas do Alto Xingu - está virando folclore disse a moça sorrindo num riso tristonho. Euclides sabe o que ela quer dizer: mula-sem-cabeça, caipora. Ela passa os dedos pelos cabelos, pelos olhos e fala em seguida 

araujo160.jpg :::::229
Vigora ainda uma espécie de desleixo socialista, sabes? Hó se sei, diz o benguelense: Como eu conheci Angola em outros tempos, quando NADA era de ninguém - e, portanto ninguém se preocupava com o que quer que fosse, NADA. 
:::::230
A moça, a brasileira, continua intensa e gloriosa, um pouco triste, diga-se mas por vezes sua voz perde o brilho, tem momentos de ausência, há uma espécie de cansaço ou de desengano, na forma de como fala no futuro. Continua a haver muitos feminicidios, muitos assaltos, muita ausência de justiça. 
:::::231
A brasileira debruça-se sobre a mesa pousando a mão na dele. Àquela hora havia mais gente a tomar o café da manhã. Que pensarão os demais clientes. Sabes do que vou ter mais saudades para além da tua companhia - Do grito da cuíca... das batucadas em caixinhas de fósforos.
:::::232
Com uma lágrima nos olhos ela disse assim sem pensar, até: - Lá em cima tem! Você acha? - Claro! Não é o Céu? E, acha que tem tapioca, banana assada com canela e açúcar ? Tem tudo diz ela como para o consolar - Até tem escolas de samba... A voz de Martinho da Vila faz-se ouvir : « Zumbi, Zumbi, Zumbi dos Palmares, Zumbi...Os grandes ideais não morrem jamais».

beldr7.jpg :::::233
Tens razão! A morte é uma bela aventura. Peter Pan! Não era ele que dizia isto? - Acho que sim, devia ser. Ele voava, lembras-te? Eu sempre quis seguir o Peter Pan. O jornalista benguelense fala pela última vez: - Tens razão - Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores
(FIM - para o livro DOIS) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:07
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019
MU UKULU – XVIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente12.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro 

Mu Ukulu48.jpg Serpa pinto e Hermenegildo  na travessia de áfrica

Cabe aqui fazermos uma pequena visita rápida à Fortaleza de S. Miguel para revermos a chamada "Lusíada do Kwanza" em um tempo muito recuado - Massangano. Fazermos a leitura dos azulejos azuis mostrando a história de Angola que foram recuperados em uma data recente. Em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador geral. Era o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal “primeiro-ministro” em Portugal. 
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A cidade de Sumbe, antiga Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho em homenagem a ele mesmo, por ser o Conde de Redondo. Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” começou, de imediato, os seus objectivos com a
ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro, pois que só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes. 

Mu Ukulu47.jpg A nova costa, pretendida por Sousa Coutinho, diz respeito à actual Costa dos Esqueletos e, abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia, perdida porque os portugueses não tiveram meios e gente para tão exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos (1678) de um frade capuchinho chamado Cavazzi e, que viveu em Angola mas, a sua ocupação estava longe de ser considerada a ideal.
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A fixação de colonos direccionou-se para os planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil por via de haver aí um clima mais propicio à sua fixação. Junto à costa tudo foi mais difícil porque as doenças dizimaram os poucos aventureiros que para lá iam. Novo Redondo era por este motivo conhecida por ser o "cemitério dos brancos".

Mu Ukulu46.jpg Sousa Coutinho, foi o único Governador a proibir a guerra do Kwata-Kwata (Agarra-Agarra), mas infelizmente, mal ele virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. Essa guerra, era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus capatazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. Kwata ainda é a palavra que se grita aos cães para agarrarem qualquer coisa.
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Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda, morria-se com escorbuto. As Delegacias de Saúde surgiram muito mais tarde tal como o começo do cultivo de hortas para daí se obterem os produtos alimentícios, verduras e, cereais nos rios relativamente próximos da cidade, o Kwanza e o Bengo. 

Mu Ukulu49.jpg Como complemento, criar estabelecimentos e grandes armazéns de víveres para alimentar a capital, uma ancestral forma de Armazéns do Povo ou grandes superfícies que surgiram após a independência, por via do escoamento de comerciantes maioritariamente brancos expulsos ou recambiados para seus eventuais destinos de origem no ano de 1975...
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E, foi naquele então que se deu início ao desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre em Benguela assim como o cobre, o sal e salitre e, até ouro. Os diamantes surgiram mais tarde originando em exclusivo de exploração a uma empresa majestática com o nome de Diamang...
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Criação das fábricas de cordoaria. Estabelecimento do presídio de Novo Redondo que se tornou no tempo, a capital da província do Cuanza Sul. Criação da manufactura de carnes secas, couros e sabões, macaco e outros. Finalmente, o empreendimento que marcou o seu mandato: a criação da fundição de Nova Oeiras, na confluência do rio Luinha com o rio Lucala, a 5 km a leste de Cassoalala.

mU uKULU42.jpg Fote presidio de Massangano

Chegou a ser extraído ferro, e exportado para a Metrópole, com grande sucesso. Trabalharam nas minas 400 africanos “livres e sem constrangimento” segundo o dizer de Sousa Coutinho. Teve o condão de ter acreditado na potencialidade dos africanos, tendo escrito: «Sempre os negros trabalharam o ferro das minas de Nova Oeiras e dos muitos outros lugares do mesmo reino; e têm tal propensão para aquele trabalho que se sobressaíram como bons ferreiros. 

Mu Ukulu45.jpg Para esta fundição, um embrião de uma futura siderurgia, se continuada, foram para Angola 4 mestres de fundição, oriundos da Biscaia mas saídos do Brasil. Estes,tiveram fins prematuros - um ano depois da chegada! Também foram para ali mestres da Bahia; este, desembarcaram em Benguela, tendo desembarcando mais tarde em Luanda quase mortos, acabaram poucas horas depois com o tal de paludismo. Mas apesar destes infortúnios a fundição prosperou. Quando Sousa Coutinho regressou a Portugal em 1772 a fundição era um sucesso.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:09
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Sábado, 6 de Abril de 2019
MU UKULU – XVII

MU UKULU...Luanda do Antigamente06.04.2019
Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn...
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil
Na Luanda antiga, após o uso das selhas surgiram os tanques de lavar roupa feitos em cimento. Eram da altura suficiente para se poder esfregar anatomicamente na rampa ondulada, a roupa que era molhado quanto baste, na bacia quadrada com água; este era colocado numa parte sombreada do quintal com telheiro ou árvore. Na parte mais baixa tinha um ralo que por meio de um tubo fazia despejar a água para o canteiro do pátio com chá caxinde, bananeiras ou plantas que tolerassem a água saponácea.

monangambé.jpg Na casa dos meus pais na Maianga, Rua Maria José Antunes, bem perto do Rio Seco, uma mulola que só levava água quando chovia, havia um destes tanques situado bem ao lado de um pombal e galinheiro, tendo como abrigo a sombra de uma mandioqueira. Havia uma mangueira que conduzia a água para um canteiro com chá príncipe ou caxinde, uma trepadeira de lufa e um alto mamoeiro.
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A grande maioria da população negra não dispunha de meios para ter o suficiente conforto; as suas cubatas não tinham água corrente no espaço habitacional, sua renda era insuficiente ou mesmo miserável. Os bairros populares começaram a surgir nos subúrbios de Luanda por iniciativas municipais mas, não dava para contemplar a grande afluência de gente do mato para a capital.

Mu Ukulu23.jpg A maioria da população luandense, maioritariamente preta dos musseques e cortiços de brancos nos arrabaldes, podia ser classificada como pobre ou remediada. De realçar que a maioria dos empregados de mesa dos cafés e restaurantes na área central de Luanda eram brancos. Eu cheguei a comprar jornais a ardinas brancos e até a engraxar os sapatos com engraxadores brancos também - em plena Mutamba.
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Houve a preocupação da administração colonial incentivar a miscigenação nestas humildes funções ocupando o branco em actividades de porteiros, contínuos, carteiros, pedreiros, coisas de escalão baixo levando até, a que visitantes de outras nações europeias criticassem tal comportamento. Tal submissão não mereceu minimamente a atenção quando da descolonização.

niassa5.jpg Como grande parte das casas não tinham rede eléctrica encanada da L.A.L., assim, nas mais modestas, o chuveiro quando não estava dentro de casa, era colocado fora dela em um canto do quintal, resguardado dos olhares curiosos pela construção de um cubículo com paredes de tijolo ou mesmo aduelas de barril. Para o banho o ritual era trabalhoso.
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A água era previamente aquecida em uma panela ou lata proveniente de azeite ou tinta que era posta em um fogão ou até uma fogueira montada no quintal com pedaços de gravetos bissapas ou chinguiços, restos de madeiras. Após aquecimento a água era derramada em um balde de chuveiro que depois ea misturada com água à temperatura ambiente.

Mu Ukulu34.jpg O chuveiro constava de um balde de chapa zincada ou mesmo lona apertada que era pendurada em uma trave ou estrutura de metal por meio de corda que corria em uma roldana. O crivo do chuveiro era metálico abrindo ou fechando por intermédio de um fio, uma torneira em latão. Era em tudo idêntica aos utensílios do geómetra Gago Coutinho quando da definição da fronteira angolana.
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A selha era outra opção para o banho, mas com a indispensável ajuda de uma caneca. Era normal em muitas casas de banho o tão familiar rolo de papel higiénico ser substituído por papel de jornal cortado em quadrados e pendurado por um arame afilado bem junto à sanita. Estes teriam de ser bem amassados para poder fazer a função com eficácia.

Mu Ukulu20.jpg Talvez só a partir de 1955 é que começaram a surgir os rolos de papel higiénico nas casas. Até então os jornais tinham a função de leitura e de limpeza. O pequeno comerciante também usava o papel de jornal para fazer embrulhos, acondicionar, feijão, milho, fuba e variados cereais. Que me lembre havia um só balneário público em toda a Luanda por alturas de 1965 a saber um que ficava no largo bem em frente dos Correios - bem perto da antiga "Porta do Mar".
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Para a lavagem de mãos e banhos usava-se os sabonetes lifebuoy e lux em substituição do sabão azul, também conhecido por "sabão macaco". Havia também o Clarim com mais potassa em sua composição. Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn... Tempos do "pinto calçudo", calcinhas ou ainda "pipi - cheio de banga"... Para agrado das "garinas"...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:23
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Quarta-feira, 27 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVIII

MIAÍ DE CIMA . CORURIPE - 27.03.2019 
Lugar aonde os índios Caetês comeram o primeiro bispo do Brasil - SARDINHA! - Também com este nome!? - estava a pedi-las...
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores … Ariano Suassuma...
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira

miai0.jpg :::::174 - O Bispo Sardinha caricaturizado pelos seus, no Vaticano
Estávamos a 24 de Março deste ano de 2019 - um dia calorento, sem brisa, nem cheiro dela! Recordo! Fui em tempos como romeiro a Juazeiro e até se deu um milagre... dele falarei lá mais para a frente. Posso adiantar que havia no meio da clareira uma mulher integralmente nua, de cabelos pretos escorridos pelas costas e até quase à cintura. De cor morena e olhos de uma grandeza impressionante que rodava sua juventude.
:::::175
Assim esbelta girava ao redor do único salão disponível; talvez uma clareira, um simples terreiro. Não pode ser! Havia bananeiras a contornar a natureza. Só poderia ser mesmo um salão de um imenso tamanho, do tamanho do Mundo. No encontro da noite com a manhã, um "bem-te-vi", despertou-me da realidade ou para a realidade. Aquela mistura maluca de seiva de cacto com jenipabo fez-me viajar por muitos e variados lugares como um supremo e eterno jogo de amor, nuvem com donzela parda do Agreste. Pópilas, era mesmo vontade de mijar! Para vocês, desconsigo mentir - acontece!...

miai01.jpg :::::175 
Foi assim que sucedeu com todos os portugueses. Os Caetês comeram o primeiríssimo bispo do Brasil com o nome de Sardinha. Pode existir assimilação mais completa, pode!? Aplicando todos os impensáveis princípios de fraternidade, Sardinha e mais de oitenta marinheiros naufragados nesta costa aonde me encontro, foram comidos depois de esbracejarem auxilio aos índios. Eu nunca li assim deste jeito uma tão tamanha fraternidade. Agora, bem que poderíamos ser, todos uma única raça: -Brasileiros.
:::::176 
Pois! Os Portugueses iniciaram este país, afinal, deixando-se jantar pelos índios. Pela quantidade foi mais que um jantar, um café da manhã com almoço prolongado e ceia lá pela noite adentro. Depois disto fomos nos comendo uns aos outros e, eu acho lindo! Mas, sabe o que aconteceu? Alguns de entre nós descobriram-se negros e desataram a reclamar da cor. De repente cada qual começou desatando seu pavio e rápidamente já eram todos a reclamar casa, bolsa família e o escambau!

guerra22.jpg :::::177 - Pioneiros do MPLA - 1975
Os negros reclamavam de que não os deixavam ser brasileiros: Jacaré por exemplo veste uma camiseta preta com a inscrição "100% Negro". Euclides, o benguelense, pensando nisto,fala missangas com o General Catiavala. Este, vestido com o uniforme camuflado do Exército Angolano, suspira: - O senhor conhece Benguela de antigamente? Eu agora vivo só de lembranças, sabe? Já somos dois! ... os passeios nocturnos à Massangarala, ao Bairro do Benfica, ao luar - Tudo era bonito naquele tempo...
:::::178
Até o Salão Azul dos cubanos e o Lanterna Vermelha, o dancing do Quioche. Sabe aonde havia a melhor quissângua de Benguela? Euclides fala, fala sem obter qualquer muxoxo, qualquer resposta audível e plausível. Um dialogo chato de se fazer. Pois eu por detrás do bairro do caminho de Ferro, quando a gente ia na escola...lembra! Sem resposta, o jornalista ia ficando no pensamento dos tamarindeiros em flor... 

guerri6.jpg :::::179
Morrendo apenas, é que tudo acaba. O carro desliza através da tarde imóvel. Ao jornalista benguelense parece-lhe que estão parados - que é a cidade que desfila diante deles - um filme mudo. O Cristo Redentor de braços abertos continua de costas. Vai se entretendo a ler as placas das lojas e restaurantes: - Mocotô de Caetês,... grão de bico com bacalhau do M´Puto,... Sardinha grelhada à Coruripe.
:::::180
Pensa em outras tardes semelhantes àquelas, no Huambo, no Alto Hama ou em Benguela, assim mesmo de quando o tempo se aquieta no silêncio vastíssimo ou no meio da poeira vermelha da picada, apenas de onde o vento vira a curva, vindo de muito longe; lugar aonde se ouve o desespero dum motor, uma GMC ou Magiros, Scânia ou até uma Ural feia de assustar crianças. O desespero de um camião na picada.

guerri2.jpg :::::181 - Soldados do MPLA - 1975 
Porém, o país que amas, talvez já nem exista mais. Neste item, pode-se-lhe adivinhar os pensamentos na perfeição. - Você não tem saudade dos passarinhos, das flores da nossa terra? Isto da "nossa" é uma forma de dizer mas, lembro-me sim, dos rabos-de-junco, dos bicos-de-lacre, das celestes,, canários viuvinhas ou dos plim-plau cantando nas acácias rubras da minha rua. Às tantas nem sei se o cara fala comigo ou se só pensa.
:::::182
Eram tempos do visgo da mulembeira que a gente punha nas figueiras, umas palhinhas a colar as patas dos bichinhos - os siripipis de Benguela. Um dia, quando voltarmos, se voltarmos algum dia, haverá ainda acácias rubras florindo nos quintais? Ou estará tudo feito um cortiço de gente entaipada àtoa. Recordo ainda a fúria que esperava por alguém numa esquina. Não importa qual a esquina e quem era! Era alguém que na Luua, escuta violento rebentamento, violento estilhaçar de vidros e, logo a seguir a massa convulsa dos jovens pioneiros que gritam ódio.

savi6.jpg:::::183 - Jonas Savimbi - morto
Gente que faz tiros, que leva as balas directamente do produtor ao consumidor. Depois! Depois surge um homem ajoelhado no asfalto. Para aqui! Um adolescente alto e magro, de bermudas, uma camiseta com o rosto de jacaré e o título de seu disco - duma canção que editou "Preto de nascença". O candengue alto e magro, de bermudas descoloridas, sapatos quede, encosta uma pistola à cabeça do gordo e, dispara...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:51
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Segunda-feira, 25 de Março de 2019
MOKANDA DO SOBA . CXLVIII
CARTA ABERTA... De T´Chassanha
Com 4 adendas de T´Chingange (t) - 20.03.2019

t´chassamba1.jpgUrbano T´Chassamba (T) - O verdadeiro comandante das FALA 

t´chingange 0.jpg- T´Chingange (t) na Diáspora  (Miai de Cima de Couripe- Brasil)

-Em ANGOLA o racismo oriundo da burrice (matumbice) é que nos remete ao estado de miséria que vivemos .Você não sabe que para ser Angolano Genuíno é primaz nascer em solo pátrio e não ser, negro, branco,mulato ou cor de rosa.Um negro que nasce na Inglaterra é Angolano? Deve ser Africano!!

:::::t2

Obrigado brigadeiro T´Chassanha, sabe-se o quanto foste um combatente pela democracia. O verdadeiro comandante das FALA. Não desista, não deixe que os outros façam o que o senhor brigadeiro deveria fazer.
:::::t3
Não deixe que os oportunistas tomem o seu lugar. O Sr. é um herói vivo. O grande problema, e deve ser dito, é a incompetência de muitos quadros dirigentes. Cada um quer apenas estar nos lugares elegíveis na lista de deputados.
:::::t4
Deixam para traz os verdadeiros filhos de Angola que deram tudo que tinham para que a Unita fosse o que é hoje. Enquanto a ambição pessoal estiver acima da ambição colectiva, não haverá mudança.

arau45.jpg CARTA DE T´CHASSANHA  Carta Aberta aos militantes da UNITA e aos Angolanos em Geral - Angola não pode esperar mais...

:::::T1
Próximo de completar dois anos de mandato, Sua Excelência o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço parece ainda não ter percebido que a sua campanha eleitoral já acabou há muito tempo. Com o país atolado na pior crise económica de sua história – herança maldita da gestão criminosa do MPLA, (não apenas de Eduardo dos Santos) – esperávamos, que o Presidente da República descesse da tribuna e começasse a governar de facto.
:t´chassamba01.jpg::::T2
Esperávamos também que assumisse o papel principal na construção de consensos com os diversos Partidos representados na Assembleia Nacional e a Sociedade Civil para as reformas tão necessárias ao desenvolvimento de Angola. Por outras palavras, uma Angola para todos os seus filhos independentemente das suas filiações partidárias; independentemente de serem pretos ou brancos.
:::::T3
Se João Manuel Gonçalves Lourenço continuar teimosamente a fazer o papel de “eterno surpreendido” perante as provas incriminatórias da gestão danosa do seu Partido ao longo dos anos, demonstra, aliás como já vai sendo notório, que a estratégia dele, consiste apenas, num acerto de contas, no seio do MPLA, matando logo à partida todas as expectativas que criou, ao nos deixar sonhar por um lapso de tempo, que estávamos perante um presidente de todos os angolanos e que dali para a frente iria exercer uma governação participativa e inclusiva.
:::::T4
Se quem tem o poder para tomar providências continuar insistindo em não fazer nada, que mude o rumo do País de facto e de jure, será muito tarde. A delapidação do património público ocorreu sempre a olhos nus e já não surpreende ninguém. É, pois, confrangedor ouvir Sua Excelência o Sr. Presidente da República, sempre com o ar mais surpreendido do mundo dizer: Isto é repugnante!

t´chassamba2.jpg :::::T5 - Drs Jonas Savimbi e Carlos Morgado

Neste particular, o seu desempenho, Sr. Presidente, não augura nada de auspicioso...Mas, como diria alguém: - aqui não há inocentes! E outros mais, acrescentam: Faz parte do ADN do MPLA!
:::::T6
Nós não acreditamos que todos sejam culpados nem que a corrupção e roubalheira façam parte do ADN de todos os do MPLA. Porém há uma verdade que tem que ser dita com a máxima frontalidade possível: Angola não é o MPLA!
:::::T7
Angola que não pode esperar mais: espera acções concretas por parte da oposição e sociedade civil para mobilizar todos os Angolanos de Cabinda ao Cunene e na Diáspora, no sentido de Angola sair, já e agora, do Eixo do MPLA. Sim! Todos aqueles que nela nasceram! A Pátria não pode continuar refém da agenda de um único Partido ad eternum.

t´chassamba3.jpg:::::T8 - Adalberto da Costa Junior

A Angola que não pode esperar mais: esperou em vão por um pronunciamento acerca de uma eventual ALTERAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO com Despartidarização do Aparelho de Estado, mas infelizmente as notícias não são as melhores, pois não se vê nos referidos discursos destaque significativo para as questões relacionadas especificamente às reformas esperadas e/ou à modernização do estado. São sempre discursos genéricos, que inviabilizam uma análise mais apurada sobre o que realmente se pretende.
:::::T8
O tão propalado programa de estabilização macroeconómica, aprovado no ano passado, além das expectativas que criou, nada de substancial gerou que se reflectisse na vida dos angolanos. Não existe, pelo menos visível, uma estratégia em que o sector privado possa substituir o papel do governo como principal empregador do País, criando assim condições para que economia florescesse ao mesmo tempo que desemprego fosse debelado pouco a pouco.

t´chassamba4.jpg :::::T9 - Jonas Savimbi

Vivemos numa alegada transição em que se apregoa a transparência, mas que em contrapartida continuamos fechados às questões essenciais de interesse do País e continuamos a ter uma Presidência da República que tem uma ascendência notória sobre os outros poderes instituídos. Alguém por esta altura ainda duvida, que a partidarização está a destruir a qualidade e a independência da administração pública?
:::::T10
Mas a Angola que não pode esperar mais: pergunta se será possível resolver este tipo de casos, sem uma oposição e uma sociedade civil fortes? A Angola que não pode esperar mais: exige da oposição uma conduta exemplar na defesa intransigente dos princípios que norteiam um Estado democrático e de Direito sem quaisquer subterfúgios, nem hesitações.
:::::T11
A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA deixe de sistematicamente alegar fraude em todas as eleições e seja suficientemente forte e tome providências para que elas, as eleições sejam organizadas de fio a pavio dentro das normas estabelecidas. Dizer que o bolo está envenenado para comê-lo em seguida não dignifica e demonstra uma falta de seriedade a toda a prova.

t´chassama6.jpg:::::T12

A Angola que não pode esperar mais: exige que a UNITA se deixe de desculpas e sem mais delongas, humildemente, mas com firmeza se coloque na dianteira de todos aqueles, Angolanas e Angolanos que pugnam por um País Livre, Democrático e Desenvolvido.

t´chassama5.jpg:::::T13 - Samakuva e José Cat´chiungo

A Angola que não pode esperar mais: pede, suplica, implora a Isaías Samakuva que dê lugar às gerações mais jovens e que não aceite ser o empecilho que inviabilize o projecto de transformar Angola num local aprazível onde todos as angolanas e angolanos se sintam em casa. A continuada intransigência de Isaías Samakuva de não clarificar se pretende ou não manter-se à frente do Partido impede que a UNITA se organize e se transforme no instrumento capaz de conduzir todos os angolanos sem excepção à Liberdade, à Democracia plena e ao Bem Estar Social.
Catumbela, 20 de Março de 2019
Urbano  T´Chassanha


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:17
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Quinta-feira, 21 de Março de 2019
MU UKULU – XVI

MU UKULU...Luanda do Antigamente21.03.2019

Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg  Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Na Luanda antiga, as máquinas de lavar roupas eram desconhecidas e o emprego da selha ou do tanque de lavar eram acessórios indispensáveis a qualquer lar. Os barris de vinho importados de Portugal, eram cortados a determinada altura da base mantendo no mínimo duas a três aduelas de chapa de ferro para manter sua estabilidade, obtendo assim a selha usada com uma tábua solta de lavar, adicional; nesta, eram feitas as ondulações necessárias para nela se esfregar a roupa ensaboada.

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Consoante a sujeira da roupa, operações diversas eram praticadas para lhes dar o acabamento final de roupa bem lavada e cheirosa. O sabão mais usado era o azul ou branco da Congeral que todos conheciam por sabão macaco. Mais tarde surgiu a marca clarim, um sabão com outro potencial de cloro e usado na lavagem de roupa oleosa, fatos-macacos e outra de trabalhos oficinais; Era feita uma barrela ou posta a corar, sendo necessário um coradouro. Este era construído em madeira em um espaço de quintal solarengo, um quadrado do tamanho de quanto bastasse com rede de galinheiro.

Mu Ukulu32.jpg Ali era estendida a roupa a ser corada; o conjunto era suportado por caibros que apoiando no chão dando consistência ao andor de forma horizontal ou inclinada a gosto e em conformidade com a incidência do sol. Par evitar que a roupa secasse alguém da casa deveria regá-la de vez em quando, evitando que a mesma secasse ensaboada. Claro que esta tarefa era por norma feita pela mãe de família, cultura ancestral reservada à mulher que para além disto tinha a tarefa de cuidar dos filhos, assim como fazer comida para todos.

Mu Ukulu35.jpg As mulheres brancas ou de um estrato social mediano, tinham uma lavadeira que fazia este serviço por ela a troco de um salário normalmente baixo; estas, comiam normalmente do rancho da família ou levavam consigo alguma funje ou milho cozido no carolo para se alimentar; por vezes faziam-se acompanhar de um filho de tenra idade que nas costas dormitava conforme o movimento de esfrega-esfrega, da mãe. Por vezes levava mais um ou dois filhos por não ter com quem ficarem lá no musseque.

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Estas lavadeiras tinham o hábito de fumar um tabaco artesanal, viscoso e de cheiro intenso que era manufacturado a partir de um entrançado de folhas de tabaco, parecido como uma rodilha. Para que estes charutos durassem, fumavam com o lume para dentro. De quando em vez lançavam uma baforada de cheiro intenso que se impregnava nas roupas  no nariz; creio que isto afugentava os mosquitos que eram muitos lá pelos anos ou até 1950.

Mu Ukulu37.jpg O Município de Luanda, por esta altura tinha várias equipas técnicas a lançar fumo DDT por todos os bairros periféricos e também no centro da cidade; os candengues conheciam o trabalhar dos carros-do-fumo TIFA que surgiam periodicamente. As donas de casa abriam janelas e portas para que este fumo se entranhasse por tudo quanto era canto e refúgio dos pernas-longas que provocavam o paludismo.

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As roupas já secas eram recolhidas e, na varanda ou em um espaço anexo, eram passadas a ferro. Antes do surgimento da corrente eléctrica, eram usados uns ferros fundidos ou forjados para passar lençóis e, toda as outras peças de vestuário. Estes ferros na forma de uma caixa pequena de sapatos terminando em quilha como se um barco fosse; embora pequeno, tinham superiormente uma tampa pivô que permitia a alimentação com carvão vegetal que depois de acesos aqueciam a base bem mais grossa que o resto do corpo.

Mu Ukulu38.jpg Estes artefactos com uso até a metade do século XIX, tinham umas quantas aberturas para manter viva a queima dos tições de carvão e, de vez em quando a engomadeira – lavadeira soprava por aí para avivar as brasas. Sua base era bem lisa. Na tampa existia um pegador tipo asa que servia para transportar e fazer correr o ferro para a frente e para trás no acto de engomar. Havia quem usasse um abanico de mateba para assoprar as brasas em substituição do sopro que por vezes intoxicava as mucosas e os olhos provocando um choro fungoso de como quem tem uma rinite persistentemente chata.

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Nos modelos mais avançados, tipo xis-pê-tê-hó para a época, tinham na parte frontal um tipo de chaminé de boca larga, o suficiente para que ao abanar o mesmo num vaivém balançado no ar, este, entrasse pela frente mantendo as brasas ao rubro e soltasse as cinzas acumuladas. Este objecto pesado requeria do manobrador alguma habilidade no seu manuseia. Era assim usada uma chapa suficientemente arejada para os descansos e entretantos parados do artefacto. A tarefa era bem cansativa.

Mu Ukulu36.jpg Haveria que se ter em atenção não deixar as brasas cair na roupa pois que obviamente as poderiam queimar. Havia necessidade de se calcular a temperatura ideal para passar cada tipo de roupa e, a técnica empregada, era passar rapidamente o dedo indicador pela base do ferro; nesta operação deveria sempre, molhar-se o dedo, na língua – é obvio que sem qualquer cuspo a humedecer o dedo, este se poderia queimar. Por vezes até se sentia o frigir das borbulhas como coisa crocante.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:02
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