Quarta-feira, 14 de Outubro de 2020
KALUNGA . XI

 

MOKANDA DO EDU

A HISTÓRIA DA VIDA - Apalpando as medidas recordadas – 14.10.2020

- Crónica 3068

Por

torres23.jpgEduardo Torres

kimbo 0.jpgAs escolhas do KIMBO.

lub2.jpg Sete anos depois. Sete anos se passaram em que eu e as minhas duas filhas viajámos até África, com destino à Namíbia aproveitando para nos deslocarmos Angola. Tivemos assim a oportunidade de voltar ao Lubango, Benguela, Lobito e Moçâmedes. Claro que encontrei diferenças, volvidos tantos anos passados, desde aquele domingo de Agosto de 1975 em que deixei definitivamente a minha terra.

Deixei desgostosamente a minha terra para garantir segurança e sustentabilidade económica à família; foi uma aventura que felizmente teve um desfecho optimizado e, até ultrapassando as minhas próprias expectativas. Encontrei diferenças suficientes para já não me identificar com aquela cidade que sempre amara e continuo a amar.

lub1.jpg Ao deixá-la, também o meu nome ligado a inúmeras moradias nos vários bairros, prédios e, essencialmente na colaboração de obras municipais, ficaria solto ao vento do tempo e das politicas de governação. Entre outras aponto o edifício do Pavilhão de Exposições, a esplanada capela à entrada da feira, Pavilhão da Tundavala, tudo projectos do arquitecto Ludovice, como urbanizações dos bairros de Sto. António, Benfica, da Serra, e outras espalhadas pela cidade fruto de sua expansão.

Sá da Bandeira, a actual Lubango, era uma cidade ordenada e limpa, porque obedecia a normas urbanísticas e de projecção de expansão futura; o que encontrei nesse então foi uma cidade desmesuradamente grande e suja, com um crescimento atabalhoado e sem disciplina. Compreende-se, devido ao acolhimento de quem fugira a uma guerra incontrolada, como incontrolada era a construção de casotas feitas a qualquer preço, em qualquer espaço vago e sem regras urbanísticas.

lub6.jpg Uma cidade que deixei com cerca de 100.000 habitantes, e que fui encontrar, segundo informação, com quase um milhão. Uma cidade envolvida por uma outra envolvente que se formara em seu redor, tornando-a grande. Manifestamente muito pouco ou nada já tinha a ver com a outra que deixara às pressas. Hoje não sei como funciona, mas penso que uma integração harmoniosa o quanto baste, não será fácil de conseguir.

Sei agora, pelos documentos fotográficos que tenho recebido, estar com um aspecto diferente para melhor do quando a visitei à sete anos (2013), Noto estar a ser recuperada, crescendo de forma mais ordenada com bairros novos bem integrados e, que o governador tem feito um trabalho merecedor da minha gratidão.

lub8.jpg E, porque no meu corpo continua a correr o sangue da terceira geração da descendência da primeira colónia madeirense, relembro o suor com dor, lágrimas e amor com que se abriu os caboucos que delinearam a cidade que viria a ser o Lubango, cidade aonde nasci. Aos velhos será cruel deixá-los privados de respostas e será de bom senso até, não se lhes fazer perguntas de passados não amistosos porque dos muitos dias, das muitas noites, das muitas injustiças pode sem se o querer, saírem à luz do tempo a mostrar às gigantescas presenças de gente que foi ferida.

lub7.jpg E, daí abrirem-se gavetas com choros, ou mesmo gavetões, com ossários feitos pó. Que importância terá, saber-se agora se a mulher de Lot, em Sodoma, ao olhar para trás se transformou em sal-gema ou sal marinho ou, até saber se a embriaguez de Noé, foi de vinho branco ou de vinho tinto se neste agora, sabemos nada poder mudar. Agora temos alternativas e até podemos ajudar sem rancor, os vindouros sem nunca esquecer os obreiros que tudo começaram a partir de singelos barracões cobertos a colmo…

ECT



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:42
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2020
MALAMBAS . CCXLVI

NAS FRINCHAS DO TEMPO … MOCANDA DO EDU

Boligrafando estórias e missossos do Lubango– 29.09.2020

Crónica 3063  - MALAMBA: É a palavra

Por

Torres0.jpg Eduardo Carvalho Torres

soba10.jpg As escolhas de T´Chingange

O meu pai... 

torres11.jpg Muito criança, ainda nem frequentava a escola, o tempo de matrícula na primeira classe era com a idade de seis anos, viajava sempre com  o meu pai em percursos relativamente curtos, como idas à Chibia,  Huila, Munhino, Palanca ou Humpata. Claro que a maior parte dessas pequenas viagens, não tão pequenas quanto  isso, devido ao estado das estradas, às viaturas cuja tecnologia ainda oferecia condições completamente diferentes das actuais, levavam tempo a fazer-se, mesmo que não surgisse qualquer imprevisto. Eu sempre fui o companheiro predilecto do meu pai. O meu irmão mais velho não andava nestas "andanças " .

Se tinha de se deslocar a algum lugar fora da cidade, meu pai lá passava por casa para ir com ele a fazer-lhe companhia. Uma das vezes que fomos à Humpata, e íamos muitas vezes, os meus pais prestavam muito apoio aos meus avós... O meu inesquecível Nash, começou aos soluços até parar, antes da estrada, que ainda não fazia parte do mapa, lugar em que se virava para a Casa Verde, do Guerra.

lubango1.jpg Existia perto do local um estabelecimento de comércio tradicional, do Sr.  Venscelau Antunes, que muito antes tivera comércio na parte geminada da casa onde eu morava; vendo a viatura parada, o senhor Venceslau veio ao nosso encontro, perguntando: então Torres, o que se passa, que isso não anda!? O meu pai, pouco preocupado, respondeu-lhe que devia ser do carburador.

Pegou na caixa de ferramentas, que não eram muitas - naquele tempo era costume dizer-se que para resolver um problema mecânico, bastava um alicate e um pedaço de arame...

Subi para o guarda lamas observando meu pai a desmontar parte do carburador, retirar os "gigleres", e desentupi-los, dar à bomba, peça importante que nunca faltava na ferramenta de apoio à viatura,  colocar tudo no lugar certo, dar ao arranque e o motor,  lá começava a tossir, roncar e até grunhir...

torres14.jpg E, lá seguiamos para a Humpata voltando mais tarde ou em outro dia sem mais percalço relevante. Angola nesse tempo era diferente; as pessoas conheciam-se...

Recordo : A Academia era a força da cidade!  Os alunos do liceu eram muitos, vindos de várias localidades, para o primeiro liceu em qualidade. Situado num clima ameno, era o preferido porque o segundo, situado em Luanda não oferecia semelhantes condições. Quando chegavam as férias, a cidade ficava despida de grande parte dessa juventude. Então, a Cidade permanecia triste até voltar o bulício da estudantada  num novo ano.

LUBANGO 1.jpg Sá da Bandeira era a Coimbra de Angola. Quando surgia alguma figura importante que se hospedasse no palácio do governo, os estudantes organizavam uma marcha à noite  com archotes acesos, a que chamavam " marcha aflambou? ". Vestidos com os casacos do avesso para evitarem sujá-los com o óleo dos archotes, marchavam em frente ao palácio; um percurso de ida e volta até à estação do C..F. M.

Uma comissão de honra estudantil apresentava-se a dar cumprimentos de boas vindas; por norma pediam uma borla para o dia seguinte - não haver aulas,  era a questão! E, geralmente era concedida. A população também se juntava à malta, acabando por ser uma noite festiva e, sempre  acompanhada pela cantoria "viva a malta do liceu..."

nasch1.jpg Eram outros tempos, os tempos de antigamente!

Nota: seleccionada para o Kimbo Lagoa com arranjos de texto por T'Chingange, o Soba do Kinaxixe, Lifune e Panguila...

ECT



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:29
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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
CAZUMBI . LVII

MOKANDAS DO REINO XINGUILA08.12.2019

FÁBRICA DE LETRAS DA KIZOMBA - “BULUNGA DO ULTRAMAR . “Nos reinos de Maconge e Huambo”

Por

soba0.jpegT´Chingange - No M´Puto

batalha01.jpg Foi no dia 23 de Novembro de 2019 e num lugar chamado de Cidade de LEIRIA do M´Puto. Assim, em terras Ultramarinas, reuniram-se em kizomba, nobres, altos dignatários e plebeus dum reino perene, liderados por um Vice-rei - D. ROBERTO DA SILVEIRA, III VICE-REI DE MACONGE; neste reino de Faz-de-conta aonde ninguém morre e, aonde os africanos se tornam brancos e vice-versa, reúnem-se vivências com recordações de peregrina amizade. Desta feita com a organização da Sobeta Maria Amália - Mali.

Por via do frio e com uma preguicite aguda só agora me dispus a relembrar aquela ida às terras lindas do Rio Liz fazendo-me uma pergunta: E, para quê peregrinar no tempo? - Para ratificar a vida! Foi deste jeito jeitoso que me vi a cantar o hino, taciturnando-me entre a malta vinda da Huila, do Lubango, prensado num texto assim cantado: -“A malta ganhou a taça, sem ter nada que fazer; quem quiser ganhar à malta tem um osso p´ra roer, roer, roer”.

Neste reino de sonho e fantasia dão-se vivas à vida, num vira, vira, regado a tinto ou espumante morganheira. Como um funante mazombo, suspeitoso e camundongo, divagarei em pensamento: Naqueles idos tempos do Diogo Cam “Se houvesse uma revolta em Angola, movida pelos colonos, não era preciso tropa para a debelar; chegava um bom orador, romântico, sentimental, que lhes  falasse de Portugal,  que todos se abraçariam com lágrimas nos olhos”.

cronicas mano corvo.jpg Foi assim o que disse Henrique Galvão no ano de 1937 em visita de soberania a Angola - “ Há quem viva de teu perfume e dent´routros matos e espinheiras rasgando-se em sonhos, por ti ruma!”. Num torpor de antigas Kizombas, paisagem do deserto Namibe agachei-me por detrás da bissapa,… era o soba Cunhangâmua que aí vinha.

-“ Há quem, nas águas de salina, se purifique em lágrimas cristalizadas por em teu ventre não cumprir sina”. Ué, no meio da farra vi-me sonhando, bebia bulunga, antes da grande caminhada para sul e, eu também ali estava a seu lado como conselheiro real em assuntos de brancos; neste agora tinha um Vice-rei de nome Silveira e senti-me com muita cagança a recordar velhos tempos.

Num repentemente, deu-lhe vontade de cuspir um pigarro encravado entre as ferraduras e os gorgomilos. Fosse eu esse tal de Cunhangâmua, a um primeiro esboço de lançar cuspo, logo um gentio se acocoraria submisso, curvando-se a jeito p´ra receber tamanha cuspidela. Parece disparatado mas, era assim que as submissões eram, ríspidas e sem lamúrias.

MACONGE0.jpg Cuspo de soba, com aquela estirpe, não podia ser desperdiçado numa terra só de pó. Cheio de honrarias, o súbdito de arrecuas balançaria a cabeça, umas quantas vezes, em jeito de agradecimento. Que mais posso fazer eu um plebeu de pé rapado nestas festas tão cheias de doutores do clero e nobres de alto coturno, senão com eles sonhar.

Da t´ximpaca soou um som forte ferindo o silêncio da planura e, bastou o soba dizer que aquele boi tinha um bom “berro” para ser anexado aos tributos, que mais atrás seguiam em caravana. Claro que estou divergindo e, em pensamentos vou até lá longe aonde as clarinetas são chifres retorcidos de boi que rasgam seu canto entre penedias e ecos de montes.

maconge01.jpg Num repentinamente, restolhando o silêncio, surgiu do mato, um T´chingange agitando um pote de barro preto e, dizendo coisas desconexas, abeirou-se do soba; de seguida, ambos se esgueiraram para trás dum muxito denso. O Kimbanda, cumprindo o ritual, tinha naquela hora de recolher, a urina do grande soba .

Neste espaço de fantasia e verdade, invadi a rota que desembocava na paliçada do Kimbo maior e, numa noite de lua cheia, aconteceu assistir à circuncisão dos candengues daquele outo arraial; crepitava o lume em ondas de cores quentes pelas palhotas quando, de uma delas, trouxeram o rapaz,… sentaram-no num cepo e, no meio de inebriante batuque, um M´fumu, auxiliar de Kimbanda, com uma pequena faca passada pelo lume, cortou o prepúcio do pénis do rapaz.

De seguida, com as bochechas cheias de álcool, borrifou para o órgão despilado. O grito mal se notou no meio da algazarrada, aquele seria um guerreiro umbundo p´ra valer! A bulunga de massambala tinha naquele dia uma mistura especial - a urina do soba Cunhangâmua! Menos mal que é mesmo só pensamento pois que bebo morganheira do M´Puto.

luua38.jpg Assim se tornariam homens de têmpera nobre. Tudo foi feito nos verdadeiros conformes, na roda da grande fogueira, batuque, sangria de boi berrante e bulunga. Na contraluz da perdida imensidão, naquela noite especial, dormi com um cafeco de feição N’nhaneca, enfeitada de trancinhas e cortes no rosto com forma de avião. Tinha cabaço,… mesmo!

Naquela outra manhã, as mulheres surgiram em algazarra, levantando os braços, chocalhando discos de lata, batiam com os pés no chão; do peito, pendiam couros, das orelhas escorridas, pesadas argolas. Festejavam! Ué,... Alambamentado no costume virei M´fumo de T´Chingange. Do Cunhangâmua ao Kuvale, a pedra do trovão, nesse tão único lugar mítico troou. Acordei aturdido às margens do Liz, um rio do M´Puto no lugar Leiria. Háka! “Há quem viva entoando nos batuques, há quem nunca esqueça o chão, os cheiros do coração”. Hoje fiquei promovido. De candengue a Kota; de kota a Século…

NOTA: -xinguilar: Palavra Angolana que significa entrar em transe em um ritual espiritual, geralmente ligado aos cultos nativos dos ancestrais e Nkisi/Mukisi.

Glossário:

Bissapas - arbustos; Muxito - tufo de mato; M´fumu - chefe, homem de respeito; T´ximpaca - cacimba de água de chuva; Kizomba - festa com álcool; Bulunga - bebida suave fermentada de massambala; T´chingange - feiticeiro, cobrador de impostos e jurista auxiliar do soba; Kimbanda - médico tribal; Candengue - rapaz; Cafeco – catorzinha, menina virgem; Cabaço - virgindade; Kuvale - zona do sul (Angola); Soba - Chefe – Xissa, porra, caramba.

O Soba T`Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:33
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Terça-feira, 26 de Novembro de 2019
FRATERNIDADES . CXXIII

ANDO ENKAFIFADO - NA PRADARIA ALENTEJANA  - 07.08.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Cuba de Colombo, no Alentejo

cubo 10.jpeg O tempo não passa pela amizade mas, a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto existe! Desta feita, eu, um caluanda da Luua, juntei-me aos Chicoronhos do Lubango a festejar nossa existência com aquele Jinga Malaia tão peculiar do Reino Fantasma de Maconge e, secundando os líderes, antes cábulas e agora doutores entre os senhores, com eles cantei. Assim só mesmo por falar como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos, revisitamo-nos na pradaria alentejana para rever outros tempos, antes dos nossos tempos!

Em plena Maianga da Luua, capital de Angola, meu pai reconfortava-se também com os amigos na taberna do Álvaro, daquele outro chamado Hernâni com uma mulemba, jogando a bisca e à sueca mais o tentilhão, Por vezes era no Simões dos matraquilhos junto ao Clube da Maianga que o urbanismo engoliu; uns malhos redondos e um escopro ao alto a fazer de alvo. Quem perdia pagava um copo de tinto ou um “Pinochet”. O Mundo dá voltas e aqui neste agora e em Cuba assim irmanados na memória, lembramos o Cristóvão que a rodeou, a terra!  Já não vi ninguém jogando à malha…

Revi ou vi, alguns em realidade, era a primeiríssima vez! O melhor que os amigos têm a fazer é verem-se cada vez que se podem ver porque o tempo ruge. É verdade que, mesmo tendo passados muitos anos, sente-se o prazer de reencontrar a quem já se pensava nunca mais ver. Saudade! Até agora nunca desconcordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição. Coisas de mais-velhos, misturando alhos com bugalhos e melancias com queijo de ovelha destas pradarias…

cuba4.jpg Ali estávamos, REINO DE MACONGE com nosso guia Valério Guerra, o Soba de Portimão do M´Puto e Barão de Capangombe, recordando em verso os tempos gemidos, o luar de guitarras e de janelas perfumadas de Maconge, suas pedras garridas e serpentinas de raparigas – marés do destino não adormecidas. Depois veio o TESTE DO SUMO D´UVA na adega “País das Uvas” rodeados de potes grandes de barro, vinho de talha e assim, fomos sendo contemplados com o verso do BAMBU.

Bambu trazido pequeno das terras de Lubango, mais propriamente do então Liceu Diogo Cão e que agora já crescido assim foi referenciado: Bambus e mais bambus / que haja mundo fora, / soleníssimo será nenhum / como onde a Academia mora, / e Academia não haver, / majestática e bela / como a da imponente Chela, / nem de presidente constará / virtude fama em anais… / nunca…jamais! De Manikongo levei uma múcua que por via da trincadeira  e dum tal de aragonês, ficou só por ali, para ser vista.

cuba9.png Os súbditos Chicoronhos do Reino de Maconge tomaram conhecimento de que para além de qualquer Tapurbana cantada por Camões e, da volta ao Mundo por Cristóvão, Colombo é Cubano! E, se porventura, alguma expedição marítima chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, na forma lenta dos séculos, este também foi o primeiro. Para nós humanos muito cheios de diplomacia, segredos e feitos enviesados sem vento de bolina sempre teremos os arranjos papais, seu significado histórico! Foi assim porque queremos que o seja e, mais nada!

Eu, soba do reino de Manikongo de nome T´Chingange, afirmo que após o achamento do Brasil por Cabral, o Império Ultramarino Lusitano foi integrado sem essas periclitantes notícias arqueológicas de mirar o osso carunchoso do nosso tempo e de nossos ancestrais através dum microscópio fantasmagórico, não certificado em nossos templos. Meu canto, meu mundo antigo, reaparece embrulhado de saudade, neste torrão embora lhe faltam as fitas da kúkia (pôr do sol)… Cativo, vestido com os meus panos, agarrado aos búzios, amuletos, à undenge ami mu Moamba, desse antigo tempo e lugar…

cuba12.jpg Assim sendo o Reino de Manikongo galardoado com o badalo de ouro mais alvissaras, do Reino de Maconge no meio deste fascínio e, porque os tempos idos sempre foram de cobiça, selamos o assunto tapando-o com azeite fino de moura tal com o tintol da talha da Aldeia de Frades e arrabaldes. Encerrando o capítulo por agora pois que o Tratado de Tordesilhas já sofreu seus andamentos e aditamentos na altura devida! Em Cucufate assim como estivesse em Meca dei três amorosas cabeçadas naqueles grossos muros como aprovação dos feitos idos por Cristóvão Colombo e Pedro Cabral.

Nesta altivez senti o dever do estímulo, da bandeira e do hino e os ricos atributos que fizeram de nós um grupo de fiéis cavaleiros das terras do Nunca. É vital para o nosso equilíbrio emocional ascender na mesma filosofia do Reino de Maconge ou Manikongo, “abraçar o vento que sopra da Leba” – Neste agora, foram os Chicoronhos que deram a bênção ao nosso portal da Globália, ”Quando se quer, o pensamento viaja por distintos lugares”. Vamos assim, contribuir com o nosso lema “o mais valioso é o direito de pensar” em liberdade de espírito.

Cuba é Vila por Alvará de D. Maria I desde 18 de Dezembro d 1872. A ocupação humana é aqui muito antiga, visível pelos registos arqueológicos que por si só provam a existência de uma civilização megalítica de 300 anos antes da nossa era. Do tempo da ocupação árabe ficou possivelmente o nome de Cuba, talvez uma corrupção da palavra árabe “coba” que significa uma pequena torre. Cá para mim prefiro acreditar que o nome Cuba, advenha das cubas de vinho que ali foram encontradas no reinado de D. sancho II aquando da sua reconquista aos mouros.  

cuba11.jpeg Nesta grande misturada, O REINO DE MACONGE com seu Sonho, lenda e fantasia em terras Ultramarinas da Europa, ceamos várias vezes na presença dos nobres e plebeus da Real República de Maconge entre nobres do M´Puto. Com lata, lábia e linha mais aprumo, tratamos assuntos de transcendência, remetendo responso às gerações que virão e, para que não se entre nesse entretém de quem foi que o foi; Após o grito de Ginga Malaia seguido ao toque do chocalho, uma grande ovação com salva de palmas a nós e a quem vier! “Há quem nunca esqueça o chão, os cheiros do coração”. Do reino de Manikongo e, para que conste na Torre do Zombo...

O Soba T´Chingange (Do reino do Faz-de-konta de Manikongo)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:51
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019
KILUNDU . VI
kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga em ALHAMBRA, assiste ao pacto de Mano-Kilombelombe com Januário. Eu já era Mano-Corvo - Uma fusão de homem com pássaro - Eu, Costa Araújo e o pássaro do tipo Kwetzal (México)...
NA LAGOA DO M´PUTO - 08.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Na estepe Alentejana

ÁFRICA7.jpg Com a sensação de começar a penetrar na minha intranquila dependência da kianda, quase que me dou conta que meu pacto de sangue com o velho de mais de talvez 394 anos, começa a borbulhar-me no cocuruto da meninge. Os seguranças de serviço levaram-nos direitinhos à única entrada exterior do Palácio Nazarie.

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Tratados como mustáfas por via da indumentária de Januário Pieter e seu guardião - lanceiro, um espanto de nos fazer sentir os maiores privilegiados. O Cipaio Kukia  Edu Mandinga muito vaidoso, banga ultra moderna fardanda de zuarte amarelo, balalaica com muitos bolsos e uma catrefada de zingarelhos pendurados à mistura com pequenos chifres de porco do mato.

angola colonial.jpg Coisas trazidas dos confins; lá duma terra chamada Mapunda e uma outra com nome de Chibia com nome de espantar pássaros xirikuatas. Cipaio Mandinga, direitinho que nem um fuso,  tudo olhava com vontade de saber. Muxuxou que era muita areia prá sua camioneta e que, teria de comer um chipe extra de memória e sistema integrado para fosforescer mais rápido na sabedoria.

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A partir daqui rodávamos a cabeça em todos os sentidos observando toda a beleza daquele conjunto palaciano com quartéis, estábulos, mesquitas, escolas, banhos, cemitérios e jardins. O escambau de coisas desanoitecidas já esquecidas ou penduradas por detrás das portas junto às muitas ferraduras de muares e outros bicharocos espinhosos ou cascarrudos.

araujo 25.jpg O Palácio dos Nazaries, é em verdade um conjunto de residências principescas sem fachada, sem alinhamento de salas, com passeios e jardins interiores de grande frescura. Pode adivinhar-se as forças ingrávidas de arcos com paredes furadas de renda; portas, janelas e arcadas por onde a luz penetra na medida certa e, aonde parece não haver gravidade. Qualquer matumbo, ali, fica espevitado da cabeça, numa de jihadar cosigo próprio...

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Foi no Pátio dos Leões, a sala privada do Sultão em que eu T´Chingange e Pieter selamos o nosso mais verdadeiro pacto de sangue. Esse cipaio Kukia Edu da Chibia que anda por aqui, até pode nem se lembrar mas assistiu direitinho com sua lança, feito Massai da Corongosa - um jardim que havia lá perto de sua casa cubata no Lubango. Uma mistura cafusa na cabeça dele que faz pena. Nunca no Lubango ouve caserna de bichos desses e, com esse nome!?

araujo 28.jpg Por medo, as pessoas passavam de largo como se nós também fossemos daqueles muitos idos anos e muito cheios de caruncho. Tínhamos em frente um belo claustro formado por muitas colunas, o lugar mais Pambu N´gila de todos os lugares aonde estivemos antes. Este sítio, era em verdade um sem número de flocos dourados caídos do Duilo.

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E, foi ali que ambos picamos o centro da palma da mão esquerda de onde saiu uma bolha de sangue. Eu T´Chingange cuspi na mão esquerda de Pieter dissolvendo-se no sangue e ele fez o mesmo na minha mão esquerda; com a mão direita, ambos acariciamos as cabeças dos leões e, eu primeiro e depois Pieter, desferimos com a direita em cutelo na mão esquerda do outro um enérgico movimento fazendo chispar sangue e cuspo no ar.
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Teve de ser ali porque o leão que pela boca deita água simboliza o Sol da qual brota a a vida. Os doze leões, são os doze Sois do Zodiaco, os doze meses que na eternidade existem em simultâneo. Eles, os leões sostêem a Kalunga como os doze torres de ferro no templo de Salomão. É este o depósito das águas celestes dessa Kalunga.

araujo17.jpg Este simbolismo único, venera a água como a pura vida e, foi ali que também, ambos choramos lágrimas de prata polindo o chão do Califa para ficarmos Manos-Kilombelombe. O Cipaio vaidoso sempre em guarda, sorria de vez em vez, inadequado para ser uma testemunha com carisma de Xi-Colono de terceira geração. Em realidade ele era mesmo um genuíno africano, embora branco, mas era! Sem nós t´Xinderes, a África fica incompleta! 

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Januário Pieter falou de que quando ficasse um antigamente, de mais tarde, eu, um mais kota, me iria recordar deste selo de Mano-Kilombelombe enquanto ele, lá na ilha da ensandeira do Kwanza, recordaria os espíritos dos M´fumos Kia-Samba e Manhanga como um minkinsi.
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Pieter recordava as minhas próprias brincadeiras com os candengues no mar da Samba, os pactos de amizade feitos a cuspo e bisgo da mulemba nos subúrbios da Lua. A Kianda Pieter sabia tudo! Sukuama!
- Deixa só, “ N´Zambi a tu bane n´guzu mu kukaiela”, Deus dá-nos força para seguir, disse eu batendo dedos no ar enxotando maus olhados.

 araujo155.jpg  Ilustrações do Mano Corvo Costa Araújo, nosso mestre (falecido recentemente...)

Glossaário:
Edu: De Eduardo Torres - Um amigo kota, poeta, prosador, branco de segunda com bitacaias nas orelhas , apátrida e vaidoso quanto baste... um amigo para sempre...
Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto Duilo: - Céu (em um amiente de espíritualidade)
kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral
Mano-Kilombelombe: - Mano-Corvo, Uma fusão de homem com pássaro do tipo Kwetzal ( México)
M´fumos : - Chefes
Kukia: - Sol, pô do sol
Samba: - Lugar ente a Quissala e Futungo (Belas da Luanda de antigamente)
Manhanga: - Bairro da Maianga, lugar de cacimba, nome antigo já esquecido.
Amazulu: - Dialeto Zulu
Minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado
Sukuama!: - Caramba!; poça!; Cus diabos; Porra!
Bisgo: - Resina de mulemba usado para apanhar pássaros,da mulembeira (árvore de grande porte que dá uns figos pequenos)
Lua – Diminutivo de Luanda
(Continua ...)an
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:23
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Terça-feira, 7 de Maio de 2019
KILUNDU . V

kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
O Cipaio Kukia Mandinga botou faladura : - O Mundo está todo esfrangalhado em toda a parte; estamos separados, mas sinto que somos feitos do mesmo loando. Ué... ele fala angolês!?.... Desta feita estávamos ainda em Granada..
NA LAGOA DO M´PUTO - 07.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto - Estepe Alentejana
Na sequência duma estória não muito antiga,  com a sensação de começar a penetrar na minha própria inconsciência, enrolando dedos e retesando músculos, cruzei o bairro mouro Albayzin bem cedo; de forma aleatória como um senhor dos caminhos minkisi cruzei ruelas estreitas de aroma de mijo ou tapetes molhados misturados com cheiros de churros.

MARROCOS2.jpg Do outro lado do vale podia ver as muralhas e torres de Alhambra. O rio Darro, corria na depressão à semelhança dos meus pensamentos que rolavam entre mulheres jitanas guapas bailando o flamengo em as mil e uma noites e, em companhia de Aladino e N´si, o guardião negro da terra. 
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Este carregado de espanta espíritos, vendia ternuras na forma de raminhos de alecrim e farrapos enternecidos de recordações. Tinha combinado encontrar-me de novo com Januário Pieter, um velho de trezentos e muitos anos e, aquele era um novo bom dia. Esta kianda itinerante da Globália, natural de Cabo Ledo, sítio distante da kalunga trazia com ele um moreno como guarda costas.

alhambra5.jpg Sempre estranhei uma kianda ter necessidade de um guarda costas sem, em verdade, ter costas! Este novo personagem tinha o nome de Cipaio Kukia Mandinga; tinha um cofió vermelho com uns laçarotes a saírem do cucuruto do boné que mais parecia um vaso invertido e, trazia não uma adaga mas, uma lança como se tratasse um guardião vindo daquela Índia imperial.
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Terei tempo para descrever este cipaio vestido de zuarte amarelo com mais detalhes mas, por agora iremos continuar a estória base do meu calendário. Na lapela do lado esquerdo tinha um escudo meio surrado com as Letras EDU. O que poço adiantar é o de que este mafarrico se dizia ser branco de segunda mas, em realidade aparecia preto que nem um tição...

alhambra4.jpg Cruzamos para Sul em ruas e avenidas modernas de patéticas angústias feitas estátuas! Íamos na busca do lugar mais próximo do "Arco de las granadas", o ponto nosso Pambu N´jila das antigas muralhas mouras; é ali que os espaços físico e e místico juntam simbis com gente de suko ou alucinados como nós.

mocanda11.jpg Na "Calle Bodegoncillo", já um pouco encalacrado, entrei em "El Pátio Riconcillo" e, busquei acento apropriado; o lugar era arejado dando para a "Plaza Nueva" podendo até, ver mais acima a "Plaza de Santa Ana". As paredes estavam cobertas de cartazes anunciando espaços de "Flamenco" e cartazes de cores amarelecidas com datas ultrapassadas de eventos tauromárqicos.

alhambra3.jpg Eram bestas de bois cornudos e esbeltos toureiros enfiados em apertados fato vistosos de lantejoulas zurzindo farpas ou bandarilhas coloridas; estavam encaixilhados em madeira sarapintada de minúsculos furos de térmitas, resquícios das pestes de Guernica.
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Foi assim já sentados com o Cipaio Kukia Mandinga que este falou pela única vez; antes só abanava sua cabeça ziguezagueando os penduricalhos do cofió. E, botando conversa de sábias palavras como que assim comesse delas num sempre mais constante do que o habitual, falou: - O Mundo está todo esfrangalhado em toda a parte; estamos separados, mas sinto que somos feitos do mesmo loando. Ué... ele fala angolês da Chibia!?

cipaio001.jpg E, continuou: - Há um grito que ximbica no nosso coração de fazer missangas. É um sentimento, uma sensibilidade, o respeito pelo ser humano que se juntam e são banda que batucam nosso coração; uma fé que se abre na kubata do nosso coração; jura mesmo patrão, diz assim desta forma encavalitada na mistura de sabedoria virando-se para Januário Pieter.
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Intransmissível! Intransferível! Ele nem quer saber quem morreu, só chora num repentinamente… Assim, preocupado com a RAIZ que alimenta a árvore - o imbondeiro, muito cava para contar quantas são, como se alimentam, se são envenenadas por ervas daninhas que crescem do nada e fazem secar os seus veios de vida. Pópilas! Ele falava coisa sem coisar o que estávamos a viver... Mas, aqui tem touros, tem touradas meu! Porque estás falar só àtoa, fingir que não és matumbo. Cala-te! Disse perenptóriamente a Kianda Pieter...

guernica4.jpgGLOSSÁRIO 
Minkisi: - Agente de ligação entre seres humanos e o físico, elementos de fogo, água, ar e terra; Jitanas guapas: - Ciganas bonitas; Aladino: O sábio árabe das lâmparinas; N´si: - Terra, o feiticeiro pintado com farinha vermelha (maiaca kianguim) que guarda os pórticos e permanece até o toque do medo, adrenalina, guardador de caminhos com saber do ontem, do hoje e do amanhã; Kianda: - Fantasma, assombração das águas das lagoas, rios e mares ou Kalungas; Kalunga: Junção de espíritos na forma de água, simplesmente água ou mar, espírito forte no reino dos mortos, divindade abstracta podendo ter a forma humana, quando alguém é levado pelo mar, foi Kalunga que lhe levou porque fez uafa, uafou (wafou= morreu); Globália. - O Mundo; Pambu N´Jila: Espaço físico em conjunção com o campo místico; Simbis: - Espírito ancestral de origem do Kikongo e àfrica central.
(Continua ...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:26
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Domingo, 7 de Janeiro de 2018
PARACUCA XXV

MOKANDA DO EDU – 07.01.2018

No tempo em que os chícharos se chamavam de feijão-frade - Uma estória contada doutro jeito

Por

soba0.jpeg T´Chingange

Não posso falar todos os santos dias em coisas menos boas e, muito menos contigo meu amigo! Tenho de distribuir carinhos mesmo que pareçam carunchosos. Se queres ficar nos trinques com tua saúde bebe bolunga de massambala, enquanto relés. Já te recomendei tremoços, o camarão dos pobres que comidos com casca fazem bem ao reumático! Kiákiákiá…. Pois! O tremoço é um alimento óptimo para o metabolismo, um conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior de nosso organismo. Só que tu não ligaste peva!

camionista1.jpg Nas histórias que podes contar da tua vivência em Angola tens de meter jindungo do bom para apaladar o gosto tropical! Não vem mal ao mundo dizer que essas terras do teu tempo de criança, das estradas poeirentas e esburacadas, ou lamacentas transbordavam de água porque se fossem quimbombo só com os vapores ficaríamos pirucas.

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Depois das tempestades tipicamente tropicais, em que os relâmpagos sulcavam o céu em várias direcções, sempre aparecia a kukia brilhando o firmamento. Aquele cheiro da terra molhada e muito cheia de cazumbi perfumada, brincava com nossas sensações de esquecer o cheiro do chícharo quando ainda nem era feijão-frade. O apetite surgia na curva da nossa vida feito funje com kiabos mais dendém nadado com tukeyas panadas ou peixinhos da horta.

camioneta 3.jpg Com a vida a resplandecer, a natureza impunha-se com suas regras para que isso acontecesse com sentido de vontade. Bom! Há assuntos dessa Angola de asfalto, de progresso, que não deixam de ser uma contradição com as carretas bóhers do tempo da minha avó natural da Madeira. Vejo-a com seu lencinho amarrado em volta as orelhas, ainda desligada do progresso mantendo a tipicidade do seu nascer.

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Tal como ela, minha avó nasceu rude, jeito não burilado como o interior das savanas, das mulolas, das picadas, daquela Angola tão grande. Andando pra trás no tempo convenço-me de que o progresso nunca virá a atingir toda sua imensidão, permitindo assim que fique este genuíno retracto de quando eu era um puto de calções de zuarte e, sem cucas. Assim, os profundos contrastes, poderem permanecer-me feitos selva com os seus profundos mistérios dos maboques, das nochas e dos nombis do Humbe.

bessangana4.jpg Claro que o progresso não se compadeceu com minhas saudades continuando a medrar no seu habitat natural. Além do mais as cidades, as vilas, as povoações ganharam direitos que não podiam ser impedidos. Mas, e tanto quanto sei, as mulolas e t´ximpacas, continuaram por lá com os direitos que a natureza do mato não pode perder.

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Quem se enterrou no barro preto, atravessou rios em jangadas, ou ficou preso nas mulolas, recorda agora o ter sido rebocado para poder sair delas, uma angústia que não se compraz com um passeio turístico por uma estrada asfaltada. Sei que muitos dos Xi-Colonos sintam prazer em relembrar isso com preferência em o fazer naquelas condições; facto que não se esquece a comparar com os tempos de hoje, em que viajar era uma 

Torres0.jpg E, havia os candongueiros a vender fardos de peixe seco levados de Baia Farta e deixando um sulco e cheiro por quilómetros já depois de ter passado. A adrenalina de sair dum lugar sem nunca saber da chegada ao contrário do que acontece hoje com uma panóplia de instrumentos com JPS e telemóvel era coisa! Horários pré-estabelecidos não eram parte do projecto; haveria que levar isso sim, umas patilhas elásticas caso o radiador furasse.

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Levar uns arames para um qualquer suposto imprevisto, umas latas de atum, panela, frigideira, arroz mais batatas para curtir as fomes que no mato são mais agrestes. Levar também uma caçadeira por-se-acaso e também para matar o bâmbi, depois cortá-lo e preservá-lo em sal. As condições de viajar mudaram radicalmente, muito por força das estruturas rodoviárias e ainda pela própria evolução tecnológica das camionetas.

tambaqui6.jpg Recordo em 2013, a ultima vez que estive em África e naturalmente em Angola, o prazer imenso que senti em viajar num four-by-four tendo o recordo daquela magiros roncadora, rompendo picadas, enxotando as capotas e afastando o capim próximo; de novo viver aquela terra de outros tempos, momentos únicos que me trouxeram à lembrança essas outras fases da minha vida e, na qual fiquei colado com grude…

Nota: usando um texto matriz do EDU – Eduardo Torres

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:09
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Terça-feira, 14 de Março de 2017
LUBANGO . III

ANGOLA - TEMPO DE CINSAS . !Porque não esqueço - Memórias do FB - 14 de Março de 2016 - Quando os heróis ficam bronze até os nomes mudam…

Por

Torres0.jpgEDUARDO TORRES - Um Chicoronho de 3ª geração

Porque não esqueço, ao invés, tenho bem presentes acontecimentos que fazem a história da minha vida. Os meus antepassados foram para Angola em condições adversas, as pessoas da primeira colónia de que faziam parte os meus bisavós Pereira, ela grávida da minha avó Vitorina, desembarcaram e tiveram de palmilhar a pé ou em condições diferentes mas pouco mais cómodas, até atingirem o planalto da Huila, no local chamado Barracões, no ano de 1885.

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O meu pai, natural de Cantanhede, embarcou para Angola como militar, desembarcando em Moçâmedes em 1917, calculo de que modo terá também alcançado o Lubango. O planalto oferecia condições diferentes, era saudável devido ao clima ser ameno, que o diferenciava de grande parte do território, agressivo, onde as doenças como a biliosa, a malária e o clima quente e húmido permitiam dificuldades de toda a ordem. Quem não estava na melhor forma física era mais sujeita a sofrer as agruras da terra; Pessoas que vinham de outras paragens, duma civilização que nada tinha a ver com esta nova realidade eram atreitas a febres e outras mazelas.

LUBANGO 1.jpgAs próprias necessidades as tornavam solidárias, porque era absolutamente necessário que isso acontecesse. Eu próprio, nascido numa época diferente, numa cidade já bem delineada, ainda usando o chafariz para abastecimento de água potável , ou o candeeiro Petromax a petróleo e velas, porque a electricidade haveria de chegar, beneficiei, mesmo assim, com todas as limitações inerentes à época , de regalias que faziam esquecer as dificuldades, já que o meu pai dispunha de uma viatura Nash, que nos permitia dar passeios ou fazer viagens em estradas difíceis.

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Autênticas picadas rasgadas na selva, nas savanas ou nas florestas, mas sempre com a possibilidade de se verem animais diversos, que constituíam uma fauna farta e admirável. Os pontões, quando os havia sobre as mulolas, na maior parte dos casos eram formados por troncos de madeira de árvores cortadas ali por perto, ou então restava o atravessar em jangadas como sucedia no Rio Cunene.

ant4.jpg Mas havia outras compensações; Angola oferecia em cada lugar, em cada momento uma surpresa já que a natureza a dotara de uma beleza impressionante, perigosa até, mas talvez por isso, desejada e admirada. No meu tempo de criança, as estradas tinha melhorado, bem rasgadas, ligando as principais cidades; contudo, constituía ainda uma aventura viajar por elas, especialmente no tempo das grandes chuvas.

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Fora destas, outras preocupações havia, como cuidar da saúde, com medicamentos caseiros, como chás, quantas vezes intragáveis. Tão pequeno era ainda, tomava um comprimido de quinino que me punha os ouvidos a zumbir, purgantes de óleo de rícino que me obrigavam durante o dia a estar a caldos de galinha sem sal ou as garrafas de litro de óleo de fígado de bacalhau, tomadas a colheres de sopa durante a época do frio.

caprand0.jpg As constipações curavam-se também com escalda pés, uma bacia com água bem quente e cinza, onde se mergulhavam os pés, para depois se enrolarem numa manta, em seguida para a cama, e transpirar durante a noite para no dia seguinte estar melhor, tomando mel, limão e rodelas de cenoura, em xarope de paladar agradável.

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Ou tricalcina, um pó branco diluído em água para fortalecer os ossos, já que água da nascente era pura demais, sem o cálcio necessário, para o efeito. Usar o permanganato e o álcool puro para as feridas, as papas de linhaça, e outras mezinhas que foram desaparecendo, quando após o final da segunda guerra surgiu a penicilina, cuja invenção permitiu outro desenvolvimento.

nash1.jpg Desenvolvimento que deu origem a outros medicamentos derivados, como as sulfamidas que desapareceram do mercado farmacêutico, e que tantas vezes e com bons resultados foram usadas em diversos tratamentos. E o quinino, umas bolachas amarelas e amargas como trevisco! A resoquina ou Kamoquina para o paludismo que nesse então eram chamadas de maleitas, como assim era conhecido no M´Puto. Tanta coisa mudou depois, mas ficará para outra altura….

EDU



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:56
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Sexta-feira, 10 de Março de 2017
MUXIMA . LXX

MEMORIAS - COISAS DO LUBANGO - Diamonds, transformadas em "Carreiras mistas de passageiros e carga"… COISAS DO MATO - Monteiro´s Hornbill…

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange - Andamos com o credo na boca, motivo de causas alheias e à revelia da nossa vontade …

torres13.jpgEduardo Torres - Um Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

monteiro ornbilll.jpgNa outra encarnação devo ter sido um pássaro da ordem dos Bucerotiformes – Tocku. Este hornbill do Monteiro (Tockus monteiro) é um pássaro Africano. É uma ave de tamanho médio com uns 45 centímetros de comprimento caracterizada por uma barriga branca, de colar preto, manchas brancas nas asas e penas de voo secundárias de cor branca. As penas exteriores da cauda longa, também são brancas.

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Estava compondo este texto do pássaro com meu nome quando me surge no écran do lado um passarão com o nome de Eduardson Torres e, com um assunto sem tema: quando quero escrever qualquer coisa, e não tenho tema para o fazer, a partir do nada invento qualquer coisa, que seja substancial, que justifique o tempo que vou usar. Pois começou assim e, continuou! Procuro escrever de lugares que conheci ou onde vivi; sítios tão diferentes uns dos outros! Aqui afinei minha astucia quando refere esta cena de falar dos outros.  

torres26.jpg Larguei a cena do Eduardson recomeçando minha descrição do pássaro: As fêmeas são menores do que os machos podendo ser reconhecidas pela pele facial turquesa. Os olhos são pretos e o bico é vermelho. Ao contrário de outras árvores, o hornbill do Monteiro alimenta-se exclusivamente de insectos e outros pequenos artrópodes. Seu habitat é a savana de espinhos secos nos campos do noroeste da Namíbia e sul de Angola.

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De novo as luzes piscando e é o EDU que continua: Pois falo de gente marcante na minha vida, muitas das vezes sem motivo aparente, mas cujo significado é uma razão forte para o mencionar. Estava aqui a pensar no meu pai e no velho Araújo. Recordo-me perfeitamente, ainda criança, ir lá à oficina para o meu pai resolver algum assunto relacionado com a viatura, por vezes era a Nash, aproveitarem para dois dedos de conversa, falar de suas figuras, de boné, óculos, corpo já ligeiramente curvada; conversas de boi dormir com umas graçolas pelo meio. Enquanto isso eu, curioso, via os trabalhos de mecânica que estavam a ser feitos entre os desperdícios impregnados de óleo.

torres11.jpg Voltando ao meu hornbill, sei que na primavera migram para a região mais a sul de Windhoek para nidificar. Era aqui que vivia o Eduardson das canetas rotring e aparos graph; um mestre em linhas feitas à mão mostrando sua habilidade, assim tão grande quanta a sua calma. Nunca falei com ele destas aves, embora saiba que coabitava com elas na Mina de ferro das secas mulolas (creio que era algo como Rocing).  

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Estas aves estão adaptadas ao ambiente árido; beber, não é uma necessidade vital para eles. Reproduzem-se no final de uma boa estação de chuvas, colocando 3 a 5 ovos branco-acinzentado, que chocam após aproximadamente 45 dias. O ninho é construído em paredões rochosos ou árvores. O hornbill do Monteiro é uma espécie endémica comum da Namíbia, com uma população total estimada em 340.000 indivíduos. Exposto isto, dedico-me por inteiro à descrição do EDU, de quando ele era um pequenote e usava aqueles calções de zuarte dum amarelo desmaiado, umas borrachas de fisga atiradeira a pender do bolso de trás.

torres27.jpg Saídos dali, o meu pai passava pela farmácia Alexandre, conversava um pouco com o proprietário, magro, de nariz adunco, óculos, bata branca, lá no seu laboratório a fazer as pomadas que se usavam na época, e depois seguíamos para a camionagem do Venâncio Guimarães ao virar da esquina, e em que o meu pai era sócio gerente. Lá encontrava os motoristas Mateus, Luís Marques, João Correia, que em cada viagem levava a sua guitarra, para a ir dedilhando, quando fosse tempo disso; uma venda do mato para os lados da Chibia…

torres29.jpg Eu ficava encantado, como ainda hoje fico, ao olhar as vermelhas Diamonds, transformadas em "Carreiras mistas de passageiros e carga", com as cabines concebidas e construídas localmente para o efeito. São recordações que perduram pelo tempo fora, lembranças de pessoas que marcaram uma época, e conhecidas por quase toda a população da cidade. É por este motivo que de quando em vez vou à Internet consultar automóveis de outras épocas, procurar viaturas de marcas diferentes que fizeram o meu encanto de criança.

EDU

Com suas memórias do Lubango e

T´Chingange com suas estórias do Mato



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:29
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017
MUXIMA . LXIX

ONGWEVA DE ANGOLA ... SAUDADE – Os comerciantes do mato e os camionistas - Angola era um cantinho doce do inferno … 

soba k.jpg As escolhas de T´Chingange

Por

torres23.jpgEduardo Torres – Um Chicoronho de 3ª geração - Deus também usava Vick VapourRub para as constipações, mais o óleo de fígado de bacalhau .

Memorias do FB - 25 de Novembro de 2015

camionista 2.jpg Normalmente, junto-me ao meu amigo e vizinho, que vive em frente ao bloco de apartamentos onde habito, cidade de Portimão; somos quase da mesma idade, ambos ex-funcionários da Câmara, ele topógrafo na de Luanda e eu desenhador, na de Sã da Bandeira. Conversamos sobre vários temas da actualidade, mas a conversa acaba sempre na ongweva dos nossos idos tempos de Angola. De um tempo antes de aparecer a penicilina, que se morria mais das infecções do que propriamente das operações, da beladona, pomada para determinados tratamentos, do permanganato milagroso no tratamento de feridas e algumas infecções. Do uso do bicarbonato de sódio para bochechar a boca, dar molho aos pés e usar no caldo verde para ficar mais verde.

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Com alguns trejeitos de muxoxos lembramos as ventosas para se tratar a pneumonia, das papas de linhaça, do famoso Vick VapourRub para as constipações, no óleo de fígado de bacalhau tomado no tempo do frio, do aparecimento do leite em pó Nido e Nestlé, das sulfamidas que tratavam tudo, e sobretudo, da vida difícil desses tempos em que os recursos eram escassos.

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E, vinha a época das chuvas em que uma viagem se tornava periclitante. Tínhamos de estar precavidos para tudo; essas viagens podiam durar um dia como de uma semana. Na Angola desse tempo vivia-se com muita solidariedade entre as pessoas. Os camionistas, neste aspecto, eram uma classe muito especial; com enormes dificuldades para fazer percursos lamacentos juntarem-se em grupo para não ficarem sós naqueles ermos de mata fechada, medonha nas noites de trovoada, um desabar do céu feito água.

camioneta 3.jpg Ou mesmo um deserto sem coisa alguma por quilómetros e quilómetros; por ter surgido um obstáculo ali ficavam dias sem poder continuar; juntos, conhecidos ou não, utilizavam seus  meios de desenrasca, usando arames, tubos e paus, as engenhocas possíveis para resolverem as panes. Tornavam-se amigos e, essa amizade simbolizava a força da união na estrada.

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As vendas do mato, eram sempre ponto de paragem obrigatório, para se beber uma cerveja, falar das novidades, por a conversa em dia. Cada um, à sua maneira, procurava ser solidário na resolução de qualquer problema. Isso enaltecia-os. Eram eles o traço de união das gentes que viviam internados no cú de judas e as outras, que viviam em lugarejos com uma igreja, um adro e três ou quatro casas de taipa e umas quantas palhotas.

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Eram o sangue vigoroso que circulava nas veias difíceis, as estradas, e que fazia bater forte o coração dessa imensa e grandiosa terra, inóspita, mas singularmente terna e apaixonante; com cheiros especiais de chuva, de pó, de cacimbo e ternuras. É uma ongweva de vivências que só desaparecerá com o tempo, com o fim do ciclo de uma vida.

nasch1.jpg Procurarei deixar bem explícito que Africa não era a terra das patacas, como muitos pensavam, porque viam os verdadeiros colonialistas bem instalados aqui no Continente, a viverem do trabalho de quem mantinha a produção das sua roças de café, do algodão, do sisal, dos administradores da Diamang e de todas as outras imensas riquezas que contribuíam para o enriquecimento do tesouro nacional.

EDU

Com umas pequenas intervenções de T´Chingange.



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:49
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017
FRATERNIDADES . CXI

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADEDevaneios nas memórias do FB - 31 de Janeiro de 2015 - A história de Angola é uma epopeia feita a caminhar, ou  em tipóia…

Por

Torres0.jpg Eduardo Torres – 20.02.2017 - Um Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade …

soba k.jpgAs escolhas de T`Chingange

NASH.jpgHá largos anos, tantos que não interessa contá-los nessa Angola imensa, onde as cachoeiras derramam água por entre rochedos seculares, em que o verde da floresta, se confunde numa só cor pela grandiosidade da sua dimensão, as savanas beijadas pelo vento formam elas a própria linha do horizonte. Vasto e longínquo, as areias, numa dança que transcende o imaginável, em constante movimento que  formam as dunas que se transferem de uns lugares para outros num deserto privilegiado por uma espécie de planta única de nome Welwitschia Mirabilis, n´tumbo em dialecto local.

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Num céu em que o sol surge brilhante e quente, céu que pode ser de azul único ou povoado de imensas nuvens negras e medonhas com os raios a cruzarem-se anunciando uma tempestade africana, pois num pedaço dessa Angola, num planalto situado na cadeia montanhosa da Chela, um punhado de homens e mulheres, desembarcados em Moçâmedes, vindos da ilha da Madeira, pérola do Atlântico e, para ali com sonho sonhos conseguirem uma nova pérola! E, conseguiram!

nauk2.jpg Num continente tão diferente da ilha que tinham deixado para trás, tão distante que já fazia doer a saudade, fortes na sua crença, valentes na sua fé, talharam-se para o sofrimento. Cavaram a terra para cultivar; para enterrar; para fazer alicerces e fizeram calos de doer até que outros homens lhe fizeram outro destino e dali saíram de novo para a diáspora. Muitos já nada tinham a ver com aquela ilha que continua bonita.

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E foi assim, temperados pela força que lhes ia na alma, pelo esforço sobre-humano que cada um tinha dentro de si, recomeçar de novo, regar a terra com lágrimas de dor, suportar injustiças que sem esforço desmobilizaram os pioneiros de antanho idos na “tentativa Feliz” um vapor que honrava o propósito com seu nome.

nash6.jpg Com o empenho habitual foram de novo à luta com outros milhares de gentes destroçadas, de novo a vontade de vencer, porque nunca iriam desistir; A concretização do sonho, primeiro num pequeno lugar, chamado Lubango, por lá ficou assim como uma duna ao sabor do vento, de outras vontades e sonhos diferentes para depois com o tempo, fazer-se novo tempo.

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Oportunidades diferentes, vontades com outras fés. Para comprovar a antiga fé, lá está a Capela da Senhora do Monte, cuja imagem com eles foram para lhes garantir a força quanto baste. Para quando ela lhes faltasse, orassem de novo para a fé não desvanecer.

maga2.jpg Surgiu uma nova realidade, uma nova urbe derivada de Sá da Bandeira, a Lubango de agora. E, aqui longe da cidade que me viu nascer, ainda me sinto orgulhoso, de fazer pare dessa historia e de ser descendente directo dessa gente com têmpera, que permitiu tornar possível uma realidade que não acaba só aqui.

carro de pau.jpg Vão longe os tempos de miúdo, naquela época em qua até o sabão azul ou macaco era importado. E, eu a aproveitava as caixas vazias para depois de desmanchadas, aproveitar a as tábuas e pregos, com o serrote e o martelo, construir as minhas camionetas, meus carrinhos de rolamentos, meus nash de fricção.

EDU

Compilação de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:57
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
LUBANGO . II

OUTROS TEMPOS 31 de Janeiro de 2015 Devaneio … Memórias do FBQuando os heróis ficam bronze  até os nomes mudam…

zorro3.jpgAs escolhas de T´Chingange

Por

Torres0.jpgEDUARDO TORRES - Um Xicoronho de 3ª geração

Há largos anos, nessa Angola imensa onde as cachoeiras derramam água por entre rochedos seculares e, em que o verde da floresta se confunde numa só cor, grandiosidade da sua dimensão, as savanas beijam ventos formando a linha do horizonte; vasto e longínquo. Uma dança que transcende o imaginário em movimento formando duna. Duna que depois se transfere de um lugar para um outro. E, num repente surge uma n´tumbo, a planta única do Namibe com o nome mundialmente conhecido por Welwitschia Mirabilis.

 nauk2.jpgNum céu em que o sol surge brilhante e quente, céu de azul único por vezes povoado de imensas nuvens negras e medonhas, raios a se cruzarem a na tempestade tipicamente africana. Num planalto situado na cadeia montanhosa da Chela, um punhado de homens e mulheres, desembarcados em Moçâmedes e, vindos da ilha da Madeira ali bivacaram suas vidas. Da pérola do Atlântico levaram sonhos de conseguirem uma nova pérola em África.

nauk7.jpg Em um continente tão diferente da ilha que tinham deixado, tão distante, com eles foi a saudade, crença forte, fé de valentia. Talhados para a sobrevivência e também a dor, obedeceram a um sonho que o tempo alimentava. E foi assim, temperados pelo esforço sobre-humano que regaram a terra com lágrimas de pioneiros, com empenho e vontade de vencer.

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E, concretizaram seu sonho! Primeiro num pequeno lugar, chamado Lubango dos barracões, depois e já com novo folgo, anseio e oportunidade em outros lugares com salubridade. E, é naquela capela da Senhora do Monte, que relembram os idos tempos de incertos dias lá da sua ilha, da côdea de pão e das levadas movendo moinhos.

 welwitschia mirabilis.jpgAquela imagem de Nossa Senhora que com eles veio para lhes dar segurança, lá estava pendurada no alto a lhes dar esse alento, que só a fé alimenta. Depois surgiu nova realidade e Lubango passou a ser Sá da Bandeira em homenagem a um político da Metrópole. Aqui, longe da cidade que me viu nascer, sinto-me cada vez mais orgulhoso de ser descendente directo de gente das mais diversas têmperas, que permitiram tornar possível um sonho que virou uma realidade que não acaba aqui.

EDU

Compilado e formatado por T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017
MISSOSSO . XXVIII

NAMIBE - Um texto de Setembro - O Etelvino ainda tinha aquela cor de frango depenado a quente - arrastava-se penosamente pela praia, como tartaruga pronta a desovar...

soba k.jpgAs Opções de T´Chingange

Por

DY00.jpg Dionísio Dias de Sousa - Dy

O Etelvino ainda tinha aquela cor de frango depenado a quente. Arrastou-se penosamente pela praia, como tartaruga pronta a desovar. O sol escaldante torrou-lhe a epiderme, e fez com saltassem escamas do peito dos pés. Tinha desabelhado de lugares frios, onde ganhara vida. Marinhou as escarpas da cordilheira da Chela, deixando para trás as areias brancas que enfeitiçavam o Atlântico e deslumbrou-se com as árvores gigantescas que se agarravam aos granitos e aos basaltos, como bruxas desgrenhadas caídas do céu.

mucu1.jpgAdmirou-lhes as formas e os frutos de sabor intenso. Dessedentou-se nas cascatas que despencavam como ninfas pelas encostas, borrifando-lhe o rosto e refrescando-lhe a pele. No ponto mais íngreme, circundou a vista pelo planalto ajoelhado aos seus pés. Sentiu-se como o patriarca Moisés divulgando a palavra de Deus.

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Deliciou-se com os riachos rasgando os prados com águas cristalinas, saltitando aqui e ali sobre rochas que gemiam música à sua passagem e manchas de arvoredo prestando-lhes homenagens, abanando as copas ao ritmo da brisa fresca, como cristãos adorando santos de procissão. Reparou nas criaturas de Deus que caminhavam as encostas com pezinhos de rola, e alegria de estrelas.

maian5.jpg Os seios desnudos abanando ao ritmo dos seus risinhos discretos, com as argolas de latão reluzindo e chocalhando ao sol nos braços e nas pernas. Murmúrios das suas bocas graciosas chegavam-lhe aos ouvidos numa linguagem ininteligível. Inspirou forte os odores selvagens e almiscarados que lhe invadiram as narinas. Abriu as asas como um condor e lançou-se ao espaço num suicídio premeditado, planando o céu em desenhos circulares, abrindo caminhos entre os flocos de algodão que caminhavam lentos em direcção ao sol.

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Mergulhou a pique em direcção ao solo e aterrou com ternura num prado de flores silvestres, onde pássaros coloridos levantavam em bandos recortando figuras no firmamento. Escolheu criteriosamente o espaço para construir o ninho. Desventrou a terra e regou-a com o seu suor. Engravidou-a com sementes de esperança e assistiu pasmado ao rápido desabrochar do pão. 

monteiro1.jpg Descansando os seus cansaços ao entardecer ao som do mungir do gado gentio de cornos enormes, onde pousavam pássaros de bico vermelho, que faziam a limpeza das suas peles de cores diversas, parecendo borrões de tinta ressaltando de uma parede. E a serenata dolente que escutava, desfazia-se em magia no poente incandescente, escondendo-se ao longe no negrume da cordilheira que o rodeava, aconchegando-lhe o corpo e a alma. E o crepúsculo envolveu-o com um lençol gigante vindo dos céus, confeccionado por anjos com linhas de tons violeta e laranja.

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Miríades de estrelas acenderam a noite e iluminaram-lhe o rosto numa magia estranha que o fez pequenino, mostrando-lhe a dimensão grandiosa da terra, que rezava na escuridão em cânticos de mil criaturas Uma conspiração conjunta contra a paz e o silêncio, numa sinfonia que começou a decifrar. Uma enorme sensação de gratidão foi envolvendo o seu dormir, e os sonhos desenrolavam-se ao sabor dos dias. A sua pele foi adquirindo a tonalidade morena das areias do deserto que palmilhara antes de subir ao planalto.

ÁFRICA8.jpg Roubando-lhe a tonalidade branca e pálida que navegara com ele do outro lado mundo. África moldava-o como o cinzel de um escultor, enrijecendo-lhe os músculos, e pintando-o com as cores do princípio da criação. Mudou-lhe a pele e o sangue e moldou-lhe um espírito novo, sem limitações de espaço ou tempo.

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E as memórias antigas esfumaram-se como o fumo das fogueiras, que ardiam ao som de histórias novas, tão antigas como o mundo. E no crepitar da lenha que vomitava chamas ao céu, deixou-se imolar em sacrifício, ao sabor das rezas das fadas e duendes de pele escura que lhe saravam a solidão.

missosso1.jpeg E é neste deslumbramento universal que se deita na esteira de caniço, e se deleita com a magia melancólica da íris que o contempla, como se fosse o único. Neste esplendor concebe uma mulher nova, moldada com o ardor de África, o fulgor das estrelas, a ternura das planícies, o mistério dos bosques, os odores das flores selvagens e a sensualidade das cascatas despencando-se fogosas num ramalhete de flores de pétalas de espuma branca: A mulata.

Reis Vissapa



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:29
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017
LUBANGO .I

ONGWEVA -  EM ANGOLA É SAUDADE - Férias na Humpata

juru0.jpgAs escolhas de T`Chingange

Por Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade

Torres0.jpg Nos meus tempos de criança, quando ia passar férias na Humpata, na casa dos meus avós, havia na entrada para a sala um caramanchão de roseiral de rosas brancas, duas grandes amoreiras e depois seguia-se um grande jardim, com muitas açucenas, lírios, roseiras, dálias e outras espécies de plantas cujas flores espalhavam um aroma que perfumava o ar.

torres20.jpg Dava prazer respira-lo sentindo aquele aroma entrar pelas narinas e perder-se nos pulmões para apaziguar a alma. O Jardim era separado da vala de água que corria junto à rua por uma vedação de arame que ligavam prumos de madeira separados igualmente em dois ou três entre si, e em cujos arames se desenvolvia uma silva de amora silvestre, que pretas ou vermelhas eram sempre saborosas.

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Longitudinalmente desenrolava-se um pomar, com um caminho pelo meio a dividi-lo, e quem caminhasse para o fim dele, iria encontrar uma grande área de terreno destinada exclusivamente à sementeira de trigo, aveia ou centeio. No pomar havia quase toda a qualidade de árvores frutíferas, desde as saborosas pêras do Natal, que maduras duravam apenas uma semana, pois logo ficavam bichadas, tipo de pêras que nunca comi em mais nenhum lugar, a não ser na Humpata e no Lubango.

luua24.jpg Havia os damascos, os pêssegos, brancos, amarelos e de salta-caroço, as ameixas brancas e vermelhas os figos brancos pingo de mel e os a que chamavam lampos, com a passarada a chilrear dando alegria ao ambiente, com as chiricuatas e os papa-figos sempre à espreita de uma oportunidade para saciarem o seu apetite.

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Depois, mais à tarde pegava na minha pequena bicicleta Ralley e pedalava pela rua, que terminava junto da igreja de S. Sebastião, numa bifurcação que era a saída para Sã da Bandeira ou para o outro lado onde ia apanhar a rua que passava à frente da propriedade do meu tio Torrinha, duas ruas paralelas que delimitavam a zona mais povoada da vila.

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Na parte de cima ficava a escola, o Posto Administrativo, a casa e o moinho do Camaco, a propriedade do Zé Pio, um cego que indicava com a precisão possível o lugar de cada árvore, os castanheiros dos ouriços, o comércio do Abrunhosa, enfim…

massau5.jpg Tempo que figurará sempre na minha memória, porque não é possível apagá-lo... A família Nóbrega era numerosa, e espalhava-se desde a fazenda de S. Januário, o Café para o fogo, a fazenda do Bartolomeu de Paiva junto dos eucaliptos. À entrada da vila havia um grande lago; recordações de hoje, como se as tivesse vivido ontem...

EDU



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:23
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017
MUXIMA . LXVII

ONGWEVA DE ANGOLA ... SAUDADE - Os chefes de Posto e os Comerciantes do Mato - A história de Angola é uma epopeia feita a caminhar, ou andar em tipóia...

tonito3.jpgAs ecolhas de T´Chingange

Por: Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade

Quando escrevo sobre factos da minha vida em África, as histórias reais vão para além de mim. Angola, tem um significado mais abrangente, porque nasci e vivi nela quarenta e dois anos, e nesse espaço de tempo que compreendeu a minha vida até chegado o momento de abandoná-la, criança ainda ouvi o meu pai contar estórias! Da forma como viviam, de uma maneira geral os Chefes de Posto, em especial porque eram colocados em locais ou transferidos para Postos sem as mínimas condições.

moc1.jpg Uma epopeia ou saga que deve ser enaltecida por quem ainda vive e a viveu e, porque seguramente será deturpada ou minimizada pelos novos senhores que a governam. Os chefes de Posto, entre outros administrativos acompanhados de familiares, a maior parte deles com filhos pequenos, sem hipótese de assistência médica e escola, estavam instalados para permutar gestão com os nativos intermediando os funantes.

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Os comerciantes do Mato, por sua vez, não viviam em melhores condições. Foi a forma encontrada de estabelecer soberania estabelecendo uma ordem social de quanto baste. Em caso de doença, na maior parte dos casos, beneficiavam esporadicamente do contacto com camionistas que transportavam mercadorias para as lojas. Hoje o funcionalismo e não só reclama das condições em seu trabalho mas estes nem sempre tinham viatura própria; pode parecer um absurdo mas assim era.

povo1.jpg Tinham a seu favor o facto de ter sido aquela, sua opção de escolha de sua colocação. O lugar onde se haviam de se instalar, segundo critérios generalizados era o de servir melhor em primeiro lugar seus interesses e segundo regras emanadas da Administração. Estabelecer também com os nativos da região condições de negócio segundo regras de reciprocidade ou concorrência. Enfim, normas de vida civilizada!

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A importância que advinha de serem pontos de ocupação, soberania em terras do fim do mundo. Naquele isolamento, era içada todos os dias a Bandeira Portuguesa que simbolizava a Ordem, a autoridade e justiça. A protecção necessária a um progresso, independentemente de ser um pequeno aglomerado populacional, kimbo ou apenas e unicamente um Posto Administrativo. Era ali a verdadeira loja do cidadão, se compararmos isto aos dias de hoje.

posto0.jpg Por assim dizer representava a presença dos portugueses nos mais variados e isolados pontos da imensidão angolana. Os sacrifícios e valentia de como encararam os momentos nada fáceis, eram corroborados por eles mesmos no enaltecimento da Fé e da Esperança, vertentes sempre presentes na defesa duma Portugalidade nem sempre presente pelo poder e lei longínqua.

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Quantas vezes e, porque lhes faltava tudo a vida ficava traduzida em morte. Na dimensão desse território, cabiam as biliosas, a doença do sono provocada pela mosca tsé-tsé, a malária e outras doenças tropicais que eram combatidas com o quinino, uns comprimidos do tamanho de hóstias, chás de plantas medicinais, e medicamentos primários, situações idênticas às dos colonos que vindos da Madeira fundaram a cidade onde nasci., Lubango.

posto1.jpg Era suficiente descer a serra até Vila Arriaga, para se sujeitar, se a sorte não fosse bastante, para se morrer de uma biliosa, como foi o caso de um dos meus melhores amigos e colegas da escola primária, filho do Secretário Administrativo da vila. Era costume dizer-se que terra de imbondeiro não era terra saudável.

posto3.jpg Até nisto, essa árvore grotesca e especial da flora de Angola, era o símbolo de se viver ou morrer, consoante a doença de que se viesse a padecer. Os climas saudáveis eram os dos planaltos mas, mesmo nestes, havia periclitantes cuidados com a saúde. Angola mudou muito desde os meus tempos de criança até a deixar. Mas, até sair nesse então, os administrativos continuavam a viver em muitos Postos isolados, em kimbos ou lugares de comércio e varejo beneficiando nos últimos tempos de acessibilidades com correio e outras condições que lhes faltavam antes, em meus tempos de menino e, eu já sou século…

torres.jpg EDU   

Compilação e formatação do soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:25
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Domingo, 3 de Abril de 2016
MUXIMA . LX

MULOLAS DO TEMPOÁfrica, é uma bênção e um veneno! Ainda em tempo de Páscoa
Por

DY00.jpg Dy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa) - Foi dele que ouvi esta frase tão marcante em nossas vidas! Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer…

dioni1.jpg Antes de mais quero agradecer a todos os que me desejaram uma Páscoa Feliz e retribuir. Relembrarei outras Páscoas como muitos de nós as vivemos. Celebramos duas datas distintas no Cristianismo. O nascimento e a morte de Cristo. Não questionando se Cristo é filho de Deus, ou não, uma coisa é certa, os seus discursos foram os mais lindos que jamais ouvimos. Se é saudade ou não, não sei. Na verdade nós tínhamos uma sociedade quase perfeita. A maioria das pessoas levava a sério as palavras do Salvador.

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As famílias eram realmente famílias. Havia nesse tempo respeito, transparência, tolerância e verdade. A ostentação, a cobiça, a manipulação, a vaidade e sobretudo a mentira não eram de forma alguma, lugares comuns. Hoje são-no. Mentir e trair vulgarizou-se. A família passou a um estatuto secundário. Do topo vêm os exemplos. Vêm de diversos canais. Não sou santo nem pregador. Não pretendo evangelizar ninguém, mas na verdade tenho saudades do tempo em que as pessoas tinham "atitude".

chicor4.jpg PÁSCOA - O céu chorara durante largas horas naquele dia quente de verão, deixando no ar aquele odor a terra molhada que aprisionaria o meu olfacto para o resto dos meus dias. Há cheiros que nunca se esquecem, o da terra regada pela chuva em África é um deles. O chão ficara atapetado de asas de salalés com os minúsculos insectos rebolando-se nelas. Acabei por perder dois e quinhentos com o meu saudoso amigo Marques Luís que apostou comigo que papava um dos bichinhos. E comeu, e eu tive de pagar, e a minha dose de “Francesinhos” ficou drasticamente reduzida.

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A Páscoa chegara finalmente e, uma semana antes tínhamos distribuído raminhos de folhas gentias na esperança que a dádiva fosse compensada com amêndoas. Como eram acessíveis e boas, especialmente aquelas modeladas em bonequinhos singelos, com olhos, boca e até chapéu em algumas delas. Tinham licor no estômago, hoje ainda há cópias mal-amanhadas das mesmas, mas caras e em nada parecidas. O retábulo com a sagrada família aterrara num nicho à entrada de casa, uns dias antes. Três peças de madeira abraçadas com dobradiças, e uma velinha que bruxuleava ao sabor da brisa matinal.

amigo01.jpg Sempre que passava por ela, persignava-me mais por temor do que por adoração. Fora educado no catolicismo o que me obrigava a respeitar Cristo e os seus progenitores. Tive de aprender as palavras do seu discurso na catequese obrigatória, palavras que se foram esmaecendo com o decorrer dos anos, acabando por se tornarem a antítese no comportamento do rebanho.

- Meninos não se esqueçam que temos de atapetar a entrada da casa para a chegada do senhor ressuscitado. Vão apanhar malmequeres silvestres, brancos e violeta e apanhem os beijos de mulata com as folhas verdes para orlar a passadeira. E lá íamos calcorreando os arredores arrecadando braçadas das singelas florinhas. Malmequer, bem-me-quer, tudo, pouco, nada
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- Maria não te esqueças de colocar a garrafa de Porto na mesinha da entrada e as tacinhas com amêndoas e os cálices, e já agora uns rissóis de camarão e croquetes, pois o tanto o padre Geraldes como o Moreira, gostam sempre de molhar o bico e morfarem um petisco. E a dita mesinha ficava engalanada com a toalha alva que a avó rendara, nos tempos em que a visão ainda era boa. A garrafa de Real Companhia Velha ficava de guarda às gulodices e eu não resistia em gatunar os pingos de tocha da tia Maricota que eram uma delícia. Mais uma persignação por este humilde pecado e ouvir a mãe gritar lá de longe. – Isso é para o padre, deixa de ser guloso. Comes mais logo. – Mas aqueles eram santificados. – Já puseram o fato do avô lá no quarto? Já sabem que ele gosta de se apresentar bem ao Senhor.

beldr7.jpg A azáfama na cozinha adensava-se com o aproximar do almoço tradicional e a caldeirada de cabrito bombardeava-me as narinas aguçando-me o apetite. – Qual é o padre que vem para este bairro Hoje? – É o Geraldes. – Respondia alguém. – Ele deixa sempre a nossa casa para o fim, para poder dar à língua mais tempo com o avô e com a avó. E a avó está a onde? – Está a tratar da sua trança. A trança da avó dava à vontade para amarrar na goiabeira do quintal e subir ao ramo mais alto. – Não se esqueçam do vinho para o Dominguinhos que ele é um apreciador de boa pinga. E se era. No final da visita pascal um grãozito já se tinha alojado na asa do saudoso sacristão.

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Tlim, tlim, tlim. Já se escutava a sineta nas casas do fim da rua. – Já lá vem o senhor padre. – Onde está o avô? – Não sei. – Acho que ainda foi ao escritório da serração. – Hoje, Domingo de Páscoa? – Já está a chegar, o Dick está ali nas escadas. – O Dick era a sombra do avô, acompanhando-o para todo o lado e coxeando tal como ele numa cópia fiel do andar. O cão haveria de morrer três dias depois da morte do avô, acompanhando-o na sua caminhada para o além. Coisas inexplicáveis.

mai5.jpg Eis que chega Jesus agonizante no crucifixo de metal. Uma bênção à sagrada família e a vela quase se apaga, Volto a persignar-me de novo como o resto do pessoal. O padre da família como era conhecido, o padre Geraldes, trás o ressuscitado nas mãos, que leva uma saraivada de ósculos nas pernas de metal. Apanho com uns pingos de água benta, borrifados a esmo com uma peça de bronze que mergulha numa taça do mesmo material. Tlim,tlim,tlim. O Dominguinhos vem atrás, traz a sineta com ele e vêm mais uns tantos que não se fazem pecos em relação aos rissóis e aos croquetes. A manhã esteve quente demais e as batas vermelhas que os encobrem deixam-nos sequiosos. Mais uma garrafa do delicioso Porto.

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- O senhor padre almoça cá connosco? – Pergunta a minha mãe. -Quem me dera, que o cabritinho cheira que é uma delícia. Mas a população aumentou e ainda temos um par de horas de visita. Passo por cá mais logo. – Diz à Irene para trazer mais rissóis e croquetes e bolos. – A Irene é a empregada lá de casa. Uma cuanhama de se lhe tirar o chapéu. – Dou-lhe o recado e persigno-me outra vez. – Esta foi baptizada por mim. – Diz o padre que tem fama de saltar amiudadas vezes o décimo mandamento, referindo-se à Irene. – Foi na missão do Sêndi, não foi? – Foi sim senhor padre Geraldes. – Confirma a Irene beijando-lhe reverentemente as mãos. – Acho que é a vez dele se persignar, mas ele não o faz. Se calhar sou eu que alimento as coscuvilhices das beatas.

povo1.jpg A velinha continua acesa, iluminando a sagrada família talhada em madeira de mucibe. O Dominguinhos prepara-se para o assalto ao terceiro copo de Grão Vasco, mas Geraldes não deixa e obriga a horda de Cristo a segui-lo rua abaixo, em direcção a outros crentes. A caldeirada cheira que tresanda. A Irene há muito pôs a mesa e o patriarca da família irá sentar-se à cabeceira para dar início às hostilidades alimentícias. 

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A família está toda reunida com as suas melhores vestes. E Cristo parte, a Páscoa como eu a conheci também parte, os malmequeres murcham nos meus campos, e a Irene? Por onde andará a Irene? O padre Geraldes morre bem longe da sua amada terra. Já não há tapetes de flores nem beijos de mulata. A velinha bruxuleante da sagrada família apagou-se. As famílias sagradas acabam-se, desvanecem-se e adulteram-se com o tempo, mas sobretudo nunca mais ouvi, tlim, tlim, tlim.
- Por onde andas tu, Cristo?
Reis Vissapa
As escolhas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:09
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2016
FRATERNIDADES . CVI

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - A felicidade - Feito olhos e orelhas fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas ouvindo a saudade dum kota amigo, com ongweva.

Por

torres.jpg Eduardo Torres Um Chicoronho de 3ª geração - Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. E, de quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no enorme planalto, aconchegados pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela.

ÁFRICA1.jpg Eu penso que cada um de nós, pensa, goza e tira proveito da felicidade, de acordo com o o modo e a ambição de ser feliz. Hoje, ao passar junto de uma tabacaria e venda de jornais, vi uma fila de pessoas à espera de vez para registarem o boletim do euro milhões. Fiquei a pensar, quantas delas mantinham o sonho de serem premiadas, talvez com um desfecho que lhes permitisse alcançar a felicidade ambicionada, através da concretização de projectos que só poderiam levar a efeito se de facto os números escolhidos correspondessem aos que haveriam de aparecer depois de a roda ditar os números.

luis17.jpg Será que a felicidade se mede pelo número de milhões de euros que se podem ganhar? Claro que eles ajudam muito, garantem possibilidades que de outro modo seriam difíceis de alcançar, mas será que a felicidade é isso? Hoje , ao olhar para o passado, de acordo com as ambições que tive, penso que fui sempre muito feliz e só tenho a agradecer à Providencia Divina a sorte que sempre tive na vida.

torres9.jpg Claro que me surgiram os chamados acidentes de percurso, especialmente como a morte de familiares, mas fora isso, o que não é pouco, eu sempre consegui vencer as batalhas com que deparei na vida. Ainda agora, ao olhar o momento em que entreguei a chave da porta da minha casa à minha irmã, sinto uma mistura de saudade e felicidade. Aquele momento, o movimento daquela entrega, entendo hoje, foi um encerrar de um ciclo de intensa felicidade, para começar outro em que teria de compreender e aprender a continuar a ser feliz, fazendo feliz toda a família.

torres12.jpg E felizmente foi isso que consegui alcançar, porque acertei nos números da felicidade, da saúde, e por ultimo, no dinheiro necessário para garantir estes bens primeiros. Como em tudo na vida, os excessos, nada garantem, podem até ser comprometedores. Não foi DEUS que criou o dinheiro, por conseguinte a dádiva que recebemos DELE, não tem preço.

torres11.jpg Se assim fosse, os ricos em dinheiro, tinham sempre saúde e felicidade, e os outros viviam sempre na amargura, na doença e na infelicidade. Em ambos os casos, separado o dinheiro, encontramos situações semelhantes. Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque ela não tem preço, do mesmo modo que a saúde não tem e, a felicidade ainda menos. Mas jogar no euro milhões e acertar ajuda muito, e isso apraz-me registar...

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:07
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Sexta-feira, 18 de Março de 2016
FRATERNIDADES . CV

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - Feito olhos e orelhas fingia ser um erudito nas psicologias ainda não desbravadas ouvindo a saudade dum kota amigo, ongweva.

Por

Torres0.jpgEduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. Sempre ouvi a minha avó Vitorina contar a verdadeira história da sua vida e dos seus familiares, quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no planalto enorme, aconchegados pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela

lub1.jpg Quando o Lubango era Sá da Bandeira, em outros tempos meu pai construiu um edifício de dois pisos, no primeiro piso estava a Casa Americana, com o Sr. Batalha como gerente e o Figueiredo como empregado; também ali funcionava a sapataria, no interior, com as respectivas áreas de apoio, e mais afastado, o terreno onde mais tarde foi construído o cinema Odeon, andava eu no 1º Ano do Liceu. Pela manhã, à saída para as aulas, era costume esperar pelos meus colegas, o Avelino Pichel Marques, algumas vezes pelo Aníbal Guedes Pinto, mais velho do que eu, pelo Aristides e o Rodrigues Costa.

lub9.jpgPelo caminho juntavam-se mais alguns, como o Honorato Vieira de Almeida, meu amigo dessas andanças, assim como o Pedro Rodrigues Garcez, e lá íamos em grupo até ao Liceu Nacional Diogo Cão. Que me lembre, frequentei sempre turmas de rapazes, até ao quarto ano; no quinto, as turmas já eram mistas. Nessa época não havia ainda campo de futebol, e os jogos, especialmente aos sábados de manhã, dia da Mocidade Portuguesa, eram disputados num terreno baldio, frente ao Grande Hotel da Huila. Mais abaixo dos bambus havia um campo de basquete, com as respectivas tabelas, para jogos entre turmas dos ciclos mais adiantados. No ginásio disputavam-se jogos de voleibol, além da ginástica bissemanal, sob a direcção do Dr. Arnaldo Correia, mais conhecido pelo lagarto.

lub3.jpg As aulas de canto coral eram dadas pelo professor Pitta Simões. Aos sábados de manhã, nós fardados com camisa verde, calção de caqui, bivaque, meias altas e sapatos, marchávamos sob o comando dos chefes de quina e os comandantes de castelo  do comando geral;  após o destroçar, realizavam-se jogos para entretimento. Recordo-me do Veraneo Jorge e do Calos Vitória Pereira serem as vozes de comando. Depois, com o passar do tempo, essa organização deixou de funcionar, julgo eu, pois a partir de determinada idade, a instrução militar começava a ser no quartel.

lub5.jpg Não posso deixar passar em claro, as marchas dos archotes e a estudantada, com os casacos vestidos do avesso, caminhando em fila na antiga Rotunda e, até ao largo da estação do C.F.M. Dar a volta de regresso, sempre cantando o hino viva a malta do liceu… quando alguma figura governativa se deslocava àquela cidade. Tal hóspede, figura pública, ficava no Palácio do Governador do Distrito e, como anfitriões lá estavam os estudantes apresentando cumprimentos de boas vindas ao Vª Exª e claro, o mais importante pedir uma "borla" para o dia seguinte.

lub7.jpg Estas borlas eram sempre concedidas como tolerância de ponto. Todo este festival era acompanhado por grande parte da população, pois sempre tinham umas atitudes teatrais que se tornaram praxes no decorrer do tempo. Havia bombos e concertinas com apitos e pandeiretas com saltos acrobáticos; e, vinham as desgarradas com palmas e cantorias de picardia à luz de faróis de carros Dodge, Chevrolet, Bedford. Sá da Bandeira era nesse então uma pequena cidade, mas uma cidade de tradição académica; por tal motivo conhecida como a " Coimbra de Angola". Outros tempos, outras gentes...

As escolhas do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:59
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Terça-feira, 8 de Março de 2016
FRATERNIDADES . CIV

EM ANGOLA ONGWEVA É SAUDADE - A história foi uma epopeia feita a caminhar, ou andar em tipóia

Por

Torres0.jpg Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Deus quando nos permitiu a faculdade de pensar garantiu-nos também o uso dessa liberdade … Por vezes também poetizo…

afon6.jpg Todos nós temos liberdade de pensamento e, temo-la porque ela é secreta. O pensamento é a maior força que temos porque é realmente livre, porque podemos pensar sem divulgarmos o que pensamos e, mesmo que isso aconteça, assim fugiremos às amarras que os poderosos criam para nos impedir o uso dessa liberdade. Eu penso segundo uma determinada lógica para encontrar uma qualquer solução, ou tenho de seguir uma lógica que me leva o pensamento a encontrar a forma adequada!

ÁFRICA1.jpg É a lógica que controla o pensamento, ou este que determina a lógica!? Eu penso com lógica ou uso-a para pensar bem? Não me resta a menor dúvida que são complementos não dissociáveis na ordem da sua importância. Acho que o pensamento é mais relevante, porque posso pensar sem necessidade de lógica, o que não a torna numa necessidade absoluta. Por ser livre, o pensamento não pode estar preso à lógica! Era um contra-senso se isso acontecesse...

ÁFRICA3.jpg Quando olho o mar, nunca consigo definir a cor, ou cores que ele tem. Aquela imensidão de água, sempre em movimento, na formação de ondas que se espraiam no imenso areal, desfazendo-se em espuma branca, tão depressa surge azul como repentinamente se torna num verde, numa mistura de cores que lembra uma aguarela pintada em completa liberdade. As cambiantes de cor, vão até ao horizonte, onde a distância e a ilusão óptica o faz confundir com o céu; essa linha de junção só é possível distinguir-se, por um ser azul e o outro apresentar uma cor indefinidamente azulada.

ÁFRICA2.jpg Gosto de olhar o mar a perder-se no longínquo horizonte, não interessado na cor que tem, porque qualquer que ela seja, transmite tranquilidade, acalma o espírito e reforça a alma. Só poderei agradecer à ENTIDADE DIVINA o privilégio de tal visão... A possibilidade de divulgar o pensamento, ou torná-lo pessoal! É um direito que me assiste, porque só quem o deu o pode tirar! Há quem pense em voz alta, mas eu não me refiro às excepções, mas sim à regra que nos é geral.

As escolhas do Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:16
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016
FRATERNIDADES . CII

ANGOLA . NUM TEMPO CINZENTO - Ongweva é saudade… Foi a recordação do mato, das picadas e das fracas...

Por

Torres0.jpgEduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - Lembrar-me a primeira vez que comi camarões, vindos de Benguela trazidos pelo meu pai num Jeep Willys...

valdir5.jpg Quando em 2013 voltei a Angola, depois de a ter deixado em 1975, fui surpreendido pelas diversas reações que senti. Em primeiro lugar, porque fui por estrada, pois parti da Namibia, e o Gary meu genro, depois de atravessarmos a fronteira do Calueque, conduziu-nós por picadas até entroncarmos na via principal, ainda antes da Chibia. Foi a recordação do mato, das más estradas que ainda tinha presente, tanto por as ter usado para poder sair de Angola, mas ainda por outros tempos do passado que estavam tão presentes e associados àqueles momentos.

torres8.jpg Foi talvez, a parte mais significativa e que me marcou fortemente. A cidade que encontrei, pelas diferenças absolutamente naturais, pareceu-me outra, muito embora a que tinha deixado continuasse a ser o marco da realidade da presença dos portugueses. Eu que a conhecia tão bem, percebi que a disciplina, a limpeza e o seu ordenamento a tinham alterado para pior, embora a sua dimensão tivesse aumentado assustadoramente.

valdir3.jpg Senti-me um estranho na terra que me vira nascer, desenvolvimento eu fora acompanhando na Repartição Técnica da Câmara. Praticamente não conhecia as pessoas! A sociedade e a vivência dela do meu tempo, sumira-se por completo. Não Deixara de ser a mesma encantadora cidade, porque a natureza não mudara a ponto de se poder alterar nesse aspecto.

vumby7.jpg Quando a deixei novamente, foi com a sensação do que ficara continuava a ser muito mais representativo sentimentalmente do que o que sobrara para trazer no regresso. E, o caminho da minha vida é longo! Quando olho para trás, para o meu passado, pelos lugares por onde andei, quando me vejo menino a brincar com uma bola de esponja ou a andar de triciclo, quando mais crescido me vejo mais orgulhoso da minha bicicleta Ralley fico; o de ter andado na escola de 1959, de compartilhar muitas vezes parte do meu pão e omelete, durante o intervalo, o contínuo meu amigo Napoleão.

lub7.jpg Quantas páginas teria de escrever para que todos os pormenores registados, na memória, de nomes, de acontecimentos que vou buscar lá atrás para viver com alento.Muitas vezes, aqui sentado, regresso ao ser criança porque me recordo de coisas quase impossíveis de lembrar, como o de em miúdo andar na vala da horta, na água com o meu amigo Sampaio, e a minha mãe a chamar-me por volta das dez da manhã para tomar uma gemada. Lembrar-me a primeira vez que comi camarões, vindos de Benguela trazidos pelo meu pai num Jeep Willys, igual ao brinquedo que o Sr. Bartolomeu de Paiva me ofereceu pelo Natal.

to0.jpg Quando ainda tão criança vi com o meu pai o filme Grande Ditador com o Charlot, as vezes que vi a Escola de Sereias com a Ester Wiliams, tão miúdo ainda o filme A viúva-alegre, o que seria capaz de escrever se tivesse paciência e capacidade para isso, dessa Angola dos anos de 1938 até à minha saída em 75! E depois, tudo o que se seguiu, até hoje, Só poderei agradecer à ENTIDADE DIVINA o privilégio de tal memória... A possibilidade de divulgar o pensamento, ou torná-lo pessoal. É um direito que me assiste, porque só quem o deu o pode tirar. Há quem pense em voz alta, mas eu não me refiro às excepções, mas sim à regra geral.

As escolhas do Soba TChingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:55
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Sábado, 9 de Janeiro de 2016
MISSOSSO . XXV

DONGUENAUM CONTO ANTIGO – Nas terras altas do Lubango--- 3ª de 3 partes

Por

DY00.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - Um Chicoronho de 2ª geração… Autor de “Ninguém é Santo” escrito para todos os Angolanos que amaram e amam a terra que os viu nascer ou crescer.

dy19.jpg A noite de Natal finalmente chegou com toda a família e não só reunida na casa do meu avô. Homem hospitaleiro que convidava e recebia toda a gente indiscriminadamente, não esquecendo aqueles que vindos do Portugal longínquo em busca da terra prometida haviam deixado para trás mulher e filhos até conseguirem a estabilidade financeira necessária para os mandar vir. Foi uma azáfama na cozinha, onde eu fiquei pespegado à espera dos alguidares onde se batiam os bolos, para lhes rapar o fundo à dedada. A missa do galo foi rezada na recente sé catedral, com cânticos e ladainha e durou aproximadamente duas horas, o que foi um martírio para os meus pés enfiados em horrorosos sapatos de verniz.

dy21.jpg Acabada a liturgia, houve lugar a uma passeata ao maravilhoso presépio edificado pelos mais devotos junto ao altar, onde o menino Jesus de louça foi osculado na anca roliça por todos os crentes. Em casa a mesa estava posta com tudo o que era bom para dar lugar à tradicional ceia. Depois de me empanturrar com pingos de tocha, castanhas de ovos e demais iguarias foi-me sugerida colocação de um sapato ao canto da sala e a retirada para o quarto devido ao avançado da hora.

dy18.jpg Foi uma noite curta, em que dormi à pressa na ânsia de ver os presentes pela manhã. O sol já havia despontado quando me levantei e corri para o lugar onde tinha deixado o sapato. Meia dúzia de carros de lata coloridos, carros de corda como eram conhecidos, onde sobressaía uma chave igual à que abria as latas de sardinhas, um cinturão negro com uma enorme fivela de latão e apliques em metal prateado, dois magníficos revolveres e uma estrela de Xerife e mais umas tantas bugigangas deixaram-me extasiado. O Menino Jesus afinal não se esquecera de mim e atendera a quase todos os meus pedidos.

dy25.jpg Sem querer acordar toda a família, peguei no cinturão e nos revólveres e abri a porta que dava para o pátio interior da casa do avô. Foi então que as patas dela assentaram no meu peito fazendo-me recuar dois passos para o interior da sala e a língua áspera percorreu-me o rosto e as orelhas provocando-me arrepios de prazer e deixando-me todo lambuzado. A minha Donguena ali estava escanzelada e suja, havia percorrido cerca de quatrocentos quilómetros até ao Lubango e agora latia de contentamento, sem rancores nem queixas. Larguei as prendas e chorei de contentamento com a cabeça encostada ao seu pelo fulvo, eriçado no dorso num remoinho de dedicação e ternura. Desde esse dia nunca mais duvidei da existência do Menino Jesus e do Pai Natal.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:16
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Domingo, 20 de Dezembro de 2015
FRATERNIDADES . XCIX

ANGOLA . NUM TEMPO CINZENTO - Ongweva é saudadeOs camionistas eram o traço de união das gentes que viviam no interior…

Por

Torres0.jpg Eduardo Torres Um Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

macu1.jpg Normalmente junto-me ao meu amigo e vizinho Sousa, que tem uma vivenda frente ao bloco de apartamentos onde vivo, somos quase da mesma idade, ambos funcionários da Câmara, ele topógrafo na de Luanda e eu desenhador na de Sã da Bandeira. Conversamos sobre qualquer tema actual, mas a conversa acaba sempre por recordar os nossos bons tempos de Angola. Quando, muito antes de aparecer a Penicilina, se morria mais das infecções do que propriamente das operações, da Beladona, pomada para determinados tratamentos, do permanganato milagroso no tratamento de feridas e algumas infecções.

macu2.jpgmacu4.jpg Das ventosas para serem tratadas as pneumonias, nas papas de linhaça, no famoso Vick para as constipações, no óleo de fígado de bacalhau tomado no tempo do frio, o aparecimento do leite em pó, das sulfamidas que tratavam tudo, e sobretudo, da vida difícil desses tempos, em que na época das chuvas para se fazer uma viagem tínhamos de estar precavidos, porque tanto podia durar um dia como perto de uma semana.

macu6.jpg A África, e neste caso especial Angola, vivia muito da solidariedade das pessoas, e os camionistas, eram uma classe muito especial nesse aspecto, pelas enormes dificuldades encontradas nas viagens que faziam, chegando a juntarem-se em grupo, por ter surgido um obstáculo que os impedia de continuar a jornada, e todos juntos, conhecidos ou não, utilizavam em conjunto os meios de que dispunham para resolverem o problema, tornavam-se amigos e essa amizade nascida de uma causa que fora comum a todos, simbolizava a força da união na estrada.

macu7.jpg Os comerciantes no mato eram sempre ponto de paragem obrigatório, para se beber uma cerveja, saber das novidades, estar a par dos acontecimentos. Todos se conheciam, e cada um, à sua maneira, procurava ser solidário na resolução de qualquer problema. Eles, os camionistas, eram o traço de união das gentes que viviam no interior e das outras, que viviam em aglomerados populacionais. Eram o sangue vigoroso que lhes circulava nas veias difíceis, as estradas, e que fazia bater forte o coração forte dessa imensa e grandiosa terra, inóspita, difícil, mas singularmente terna e amante.

macu5.jpg São recordações que só desaparecerão quando o tempo determinar no nosso fim de ciclo de vida. Enquanto isso não suceder, procurarei deixar bem explícito que Africa não era a terra das patacas, como muitos pensavam, porque viam os verdadeiros colonialistas bem instalados aqui no Continente, a viverem do trabalho de quem mantinha a produção das sua roças de café, do algodão, do sisal, dos administradores da Diamang e de todas as outras imensas riquezas que contribuíam para o enriquecimento do tesouro nacional.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:59
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015
MISSOSSO . XIX

ANGOLA . MATERINDINDI - O RUDOLFO VALENTINO DO KALUMBIRI - Para matar saudade… 2ª de 2 Partes

Por

DY0.jpg  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) - O autor de Ninguém é Santo e de África, é uma bênção e um veneno (frase)…

maian10.jpg (…) Quando cheguei às dez da noite ele já estava e encostado ao tosco balcão a beber uma gasosa. Um pouco mais ao lado numa mesinha humilde e solitária, estavam sentadas a Filomena e a sua amiga Matilde a tagarelarem qualquer coisa de cotovelos assentes no tampo de mesa deserto. Conhecia bem a Filomena lá de casa e agora com um vestido de chita grenat estava ainda mais deliciosa, com os seios a espreitarem atrevidos e umas ancas roliças que eu volta e meia roçava de contrabando quando se debruçava no tanque da roupa. – Fica quieto menino Joca que eu vou contar na tua avó que estás-me a querer apalpar. – E estava pois o corpo daquela negrinha era um pedaço de mau caminho que me povoava as noites.

onça4.jpg A Matilde sua amiga chegara há uns meses atrás da Chibia e arranjara trabalho na casa do professor Pereira para cuidar das crianças. Cara gaiata e rebolodinha com uns seios tipo bola de andebol era os encantos do Rudolfo que se imaginava a gingonçar aquelas ancas de perdição. – Já estás aqui Matrindindi? Tu não falhas um rapaz. – Fiz conversa com ele enquanto uma “Cuca” aterrava em frente aos meus olhos. – Sabes como é Joca, eu não perco uma noite de dança nem por nada. – Respondeu olhando de soslaio para a mesa onde estavam as duas raparigas na tagarelice. – Então e não vais dançar com a Matilde? – Perguntei com malandrice.

eleuterio1.jpg  – Nunca nos apresentámos Joca, e ela olha para mim como se eu fosse um marimbondo defunto. - Retorquiu desgostoso com o seu insucesso na conquista. – Olha porque não vais lá e ofereces qualquer coisa para elas, pois parece que o dinheiro por ali anda sumido. – Alvitrei. – Remexeu nos fundilhos e ouvi o tilintar das parcas moedas. – Acho que chega para oferecer uma sandwich para ela, Joca. – Concordou com um olhar esperançado. – Pois leva duas e duas gasosas que eu pago essas. Enquanto o Faneca tratava da encomenda por trás do balcão dirigiu-se à mesa e após um boa-noite com vénia indagou. – Matilde, posso-te oferecer uma sandwich? – Sandwich é a tua mãe, seu vadio, vai-te catar. Voltou desalentado e cabisbaixo para o meu lado como um káfi esfomeado.

kafu10.jpg Foi quando ouvi a Matilde perguntar à Filomena o que era mesmo essa tal de sandwich. – Tu não sabe Matilde sandwich é um casqueiro com chouriço no meio, é bom mesmo. – Háka prima se soubera eu aceitara. Pela primeira vez fui dançar um slow com a Filomena e deixei em cima da mesa delas os pães com chouriço e as gasosas. Não vou falar da Filomena que me encheu a noite mas da prima que olhava com olhos de carneiro mal morto o Rudolfo. Foi bom vê-los abraçados num tango uns minutos mais tarde. E, como dançou bem o Matrindindi nessa noite com a Matilde, e a bundinha dela remexendo a um ritmo estonteante. Tudo se perdeu anos mais tarde por razões óbvias. Deixei de ver os “Keds” fosforescentes do Matrindindi, deixei de dormir com a Filomena à socapa e da Matilde nada sei.

MONA5.jpg Estou na galeria da discoteca “Trigonometria” no Algarve, depois de espezinhar um mar de cerveja no chão e quase a iniciar uma briga com um bando de labregos que se entretinham a dizer palavrões e a arremessarem beatas para pista tendo uma delas aterrado no decote de uma rapariga. Foi quando o vi junto a uma mesa de controlo a colocar vinis e os sons do “Tchuck, tchuck” horroroso a invadirem-me os ouvidos. – Matrindindi. Gritei! – Coloca música do Kalumbiri, mano. – E ele colocou enquanto me acenava lá de longe. E eu vi o chão da rebita limpo, as pessoas ordeiras sem dizerem palavrões e os mais etilizados irem deitar água ao mar bem longe, e as ancas roliças da Matilde e os seios saborosos da Filomena e as sanduiches de chouriço perdidas sobre o balcão. Então deu-me a saudade.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:15
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015
FRATERNIDADES . XCVII

ANGOLANAS CINZAS DO TEMPO - Ongweva é saudade… A descendência

Por

Torres0.jpg Eduardo TorresUm Xicoronho de 3ª geração - "Se alguém lhe fechar a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.” - Gandhi

lub1.jpg Tenho um orgulho enorme da minha ascendência. Sempre ouvi a minha avó Vitorina contar a verdadeira história da sua vida e dos seus familiares, quando o Lubango não era mais do que um lugar aprazível no planalto enorme, aconchegado pela envolvência da cadeia montanhosa da Chela. Por ela, conheci toda a sorte de dificuldades porque passaram os seus pais, ela própria, criança ainda. E de um modo geral todos os que compunham essa primeira colónia de madeirenses, que se fixou na zona dos Barracões.

lub2.jpg Sempre confiantes na sua capacidade, enfrentaram todos os obstáculos, para conseguirem a realização do sonho que os acompanhava. Foi uma parte da vida que ela conheceu, porque ainda antes de nascer, já os seus progenitores e todos o que formavam o grupo da primeira colónia, tinham escrito seu destino; em cada pegada, em cada pedra que lhes surgia como obstáculo no caminho.

lub3.jpg A história que foi a epopeia de caminhar, ou transportados em tipóias, consoante as necessidades de cada um, a dureza de um caminho em zonas desérticas ou selváticas, numa distância longa, para chegarem a um destino quase desconhecido. Sei apenas que ela faz parte dessa história com a abertura dos caboucos de uma esperança que se haveria de transformar numa realidade enorme, regada com muito suor e lágrimas.

lub5.jpg Tudo isso me permite, orgulhosamente, dizer que pertenço à terceira geração da primeira colónia madeirense que ajudou a fazer nascer a bela cidade do Lubango, mais tarde Sá da Bandeira, para no presente, voltar de novo a ser Lubango. E é esse orgulho que sempre procurei transmitir aos meus filhos, e que eles, de certeza, não deixarão de transmitir aos meus netos...

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:33
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015
MUXIMA . XLVII

ANGOLA - Relembrar o Lubango e os macacos da Senhora do Monte… Em Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte - Á última curva, chamaram-lhe descolonização 

Por

torres.jpgEduardo Torres - Um xicoronho, branco de segunda de 4ª geração

macaco1.jpg Nos tempos vividos em Sá da Bandeira, havia dois aspectos que caracterizavam a cidade: o picadeiro na rua Pinheiro Chagas, aos domingos à tarde, e geralmente um passeio de automóvel, mais frequente, nesse dia da semana, na volta à Senhora do Monte, geralmente descendo pela estrada que passava pela Escola Artur de Paiva, no Bairro Camisão, continuar até, ao cinema Arco Íris, descer pela avenida do Liceu, desembocar na Praça da República, passar à frente do Palácio do Governo e descer pela Pinheiro Chagas, onde um mar de gente dava o seu passeio higiénico de domingo.

alhinho.jpg Por isso àquela Rua se chamava de Picadeiro; os automóveis também circulavam num percurso repetido, que da rua Dr. Loba Das Neves à Pinheiro Chagas, num passatempo extraordinariamente interessante. Era habitual, no parque da Senhora do Monte, e em especial, junto da estação de tratamento de água, as viaturas estacionarem para os seus ocupantes darem à legião de macacos que descia da serra, guloseimas que eles apreciavam, chegando a subir aos campos e tejadilhos, numa confusão, mostra do que no aproveitar é que está o ganho; esta técnica foi bem treinada no acto descolonizador.

macaco2.jpg Os animais já estávamos domesticados por força de um hábito adquirido, de que ninguém lhes fazia mal, pelo contrário, privava-se com eles pacificamente. Com a nossa saída de Angola, nós gente laboriosa e brancos de segunda de terceira geração fruto de uma macacada menos inocente… Constou-me, que os macacos em vez de receberem comida, como naturalmente estavam habituados, tinham sido comidos contrariamente à sua vontade.

mai3.jpgQuando da minha visita a Angola, foi-me dito que se procurava de novo criar esse hábito aos monos, e que uma nova geração de macacos começava a acreditar na boa intenção dos seres humanos mwangolés do mando e desmando. Num esforço de acreditar nisto, espero sentado pra ver de novo lá aonde seja, ver repetir-se aquela tradição de partilhar a natureza com os demais animais. Preservar esses bons princípios de cordialidade para regalo dos criacionistas se compararem nos tempos vindouros.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:49
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2015
FRATERNIDADES . LXXXIX

NAS CINZAS DO TEMPOEm Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte; à última curva, chamaram-lhe descolonização mas, o mundo não parou por isso….

Por

chicor0.jpgEduardo Torres

chicor01.jpg Nós, os Chicoronhos ditos de pura raça, temos a alma grande. Ela, descende daqueles pioneiros, que vindos da Ilha da Madeira ou do Brasil Imperial, em uma aventura na África desconhecida, desembarcaram, iniciaram sua caminhada a partir do deserto imenso, e seguiram para um horizonte; passado inúmeras e inerentes dificuldades surgindo nas clemências, até que vislumbraram a enorme cadeia da Chela, um planalto aonde iriam abrir os caboucos, criar as fundações de uma cidade que viria a tornar-se das mais belas cidades de Angola.

chicor1.jpg Eles próprios para cumprirem a gigantesca tarefa, tiveram de moldar o carácter, alterar os hábitos, tornarem-se empedernidos como as pedras da montanha que os envolvia, sofrer os imponderáveis do dia-a-dia. Corajosos como eram, enfrentavam de frente a luta que muitas vezes mais parecia uma guerra que tinham a vencer e, acabavam por ganhá-la. Mas atenção! Não há distinção entre o primeiros e todos aqueles que se lhes seguiram, e independentemente de serem Chicoronhos de pura raça, eram também de raça nobre, contribuindo numa junção de esforços no engrandecimento daquela cidade, a deles por pleno direito.

chicor2.jpg Porque a tinham trabalhado e amado com a intensidade, isso lhes garantiu o estatuto de serem seus cidadãos com nome bem diferenciado: -Chicoronhos! Eu não amo mais a minha terra por ter nascido lá, por ser de descendência directa dos desbravadores colonos, do que a minha mulher oriunda de Portugal, ou do meu pai que foi para lá em 1917. Não podia nem deveria haver diferenças de tratamento, porque todos éramos um todo nessa tarefa que agora quase vira mito.

chicor3.jpg Os colonos, seus descendentes, os verdadeiros fundadores, têm o direito de beneficiarem, da história que descreveram com sofrimento e, na esperança com fé; Tudo traduzida na Capelinha Branca que ainda hoje significa a força do destino. Depois, uns e outros, deixaram bem lá no alto da montanha, um CRISTO REI REDENTOR para abençoar a cidade, aos seus habitantes, aos vindouros e todos aqueles que a venham a visitar.

chicor5.jpg Ali, o horizonte sempre s torna num vermelho alaranjado, para depois começar a raiar, a bola de fogo surgir em todo o seu esplendor, anunciando o começo de um novo dia iluminando os que eram e os que virão a ser porque a vida só pára para quem morre ou quer esquecer.

CHICORONHO: Natural da cidade do Lubango, Angola; aqueles de origem branca provenientes de Portugal residentes no lubango, angola.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:20
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Domingo, 26 de Julho de 2015
MOKANDA DA LUUA . XXXVIII

 ANGOLA . GERAÇÃO CANGURUPirão com carne de caça e bolunga

Por

dyo0.jpgDy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

África, é uma bênção e um veneno.

Para todos vós que tiveram o imenso privilegio de verem zanguinhas a voar no nosso único e inigualável céu africano. Um bom Domingo para todos. Dy

dyo1.jpg A ZANGUINHA BRANCA

Era daqueles dias em que África toma conta de nós, possui-nos com intensidade e deixa uma marca para todo o sempre. Daqueles dias que faziam as minhas maiores delícias e as dos meus amigos também. E falando de amigos daqueles tempos, eram isso mesmo, amigos independentemente da sua condição, cor ou religião. A questão da cor só veio a apoquentar-me muitos anos volvidos. Na minha infância a cor era o azul cerúleo que me cobria, os malmequeres selvagens violeta e branco, as borboletas amarelas, as andorinhas alvinegras, os cardeais vermelhos e as gazelas de cor tostada e caudas brancas. Aos oito anos de idade os meus amigos não tinham cor. Não podia dizer que eram pretos, pois na raça humana essa cor não existe, não eram mulatos ou castanhos pois castanho era para mim o chocolate, e brancos de certeza que não eram, quando muito rosados como os rabos dos bebés, ou aleitados como os que haviam chegado há pouco ao continente africano, os besugos, ou encardidos como eu, que sofrera na pele os rigores do sol da Mapunda. E encardido não significa sujo, muito embora ao fim de um dia de brincadeira no mato se tornasse necessário uma barrela com sabão macaco.

dyo01.jpg Quanto aos meus amigos eram africanos como eu, uns mais escuros outros menos, e outros rosadinhos como o rabiosque do recém-nascido da Dona Ofélia. E assim chegamos às zanguinhas, aqueles passarinhos delicados de penugem negra sarapintada a bolinhas brancas, que pintavam desenhos no meu céu africano, chilreando contentes músicas que perduram nos meus ouvidos. E quando aos milhares aterravam na erva verde que despontava entre os malmequeres selvagens de folhas recortadas como filigrana, eu e os meus amigos sem cor corríamos para o local onde elas tinham poisado e de mergulho tentávamos apanhar alguma. E essa foi a minha manhã de glória, eu, o candengue mais novo da canalha alvoraçada.

dyo2.jpg Atirei-me e senti o seu corpo delicado nas minhas mãos, estrebuchando de temor. – Apanhei, apanhei. Gritou o Marimbondo alvoraçado erguendo a mão com um animal cilíndrico da cor do Alforreca que tivera menos sucesso. Era um camaleão de orelhas acastanhado. Quando reparou no bicho feioso o Marimbondo não foi de modas e atirou com o animal para a mulola do Índia. Foi a minha manhã de glória quando abri as mãos e lá estava ela. Branquinha como a cal e as pintinhas pretas glorificando-lhe a penugem. – Uma zanguinha branca. - Gritaram em uníssono os meus amigos de todas as cores. – O rato-cego apanhou uma zanguinha branca, que linda que é, nunca tinha visto nenhuma. – Exultou o Humberto o mais velho da quadrilha. – Mas é minha. – Afirmei temeroso que ma surripiassem. – E era, e levei-a para casa colocando-a numa gaiola feita de bimba de caniço, com uma latinha vazia de sardinha e repleta de massango e outra vazia de atum cheia de água fresca.

dyo6.jpg E, fiquei ali a olhar para ela no degredo com as missanguinhas negras do olhar a fitarem-me tristes. E fiquei triste perante o seu olhar suplicante de liberdade e mais triste por ela não ligar peva à comida que lhe oferecera em troca da clausura. Dormi mal e pela madrugada fui vê-la e lá estava ela, triste com o seu destino. Um bando de zanguinhas ornava o céu matutino num voar onírico. Soltei-a e vi-a partir no meu céu azul juntando-se ao bando e chilreando de alegria.

dyo5.jpg Há um dia que sofro o mesmo destino da zanguinha branca. Sou preso por ser encardido, ou cor-de-rosa; sou apelidado de tudo e mais alguma. Alguns termos desconhecia, como colonialista, caputo, ladrão, branco de merda, etc, etc. Um dos meus amigos sem cor vem em meu socorro e liberta-me, e então eu voo galgando o meu céu em direcção a um céu que nunca foi meu, e voo alto em direcção a Deus, agradecendo-lhe essa enorme dádiva de ser vivo e livre. Lembro-me então da zanguinha branca e do enorme pecado de a querer enclausurar e por muito estranho que isso vos pareça sinto-me bem, em paz com a cor, voando os meus sonhos inglórios. Despertei m sobressalto! Era mesmo só um sonho.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:47
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2015
FRATERNIDADES . LXXXVI

TEMPOS CINZNTOS A felicidade… Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque ela não tem preço…

Por

torres.jpgEduardo Torres

amigo0.jpgEu penso que cada um de nós pensa, goza e tira proveito da felicidade, de acordo com o modo e a ambição de ser feliz. Hoje, ao passar junto de uma tabacaria e venda de jornais em Coimbra vi uma fila de pessoas à espera de vez para registarem o boletim do euro milhões. Fiquei a pensar, quantas delas mantinham o sonho de serem premiadas, talvez com um desfecho que lhes permitisse alcançar a felicidade ambicionada, através da concretização de projectos que só poderiam levar a efeito se de facto os números escolhidos correspondessem aos que haveriam de aparecer depois de a roda ditar os números.

amigo1.jpg Será que a felicidade se mede pelo número de milhões de euros que se podem ganhar? Claro que eles ajudam muito, garantem possibilidades que de outro modo seriam difíceis de alcançar, mas será que a felicidade é isso? Hoje, ao olhar para o passado, de acordo com as ambições que tive, penso que fui sempre feliz e só tenho a agradecer à Providencia Divina a sorte que sempre tive na vida. Claro que me surgiram os chamados acidentes de percurso, a morte de familiares, mas fora isso, o que não é pouco, eu sempre consegui vencer as batalhas com que deparei na vida.

macaco5.jpg Ainda agora, ao olhar o momento em que entreguei a chave da porta da minha casa à minha vizinha, sinto uma mistura de saudade e felicidade. Aquele momento, o movimento daquela entrega, foi um encerrar de um ciclo de intensa felicidade, para começar outro em que teria de compreender e aprender a continuar a ser feliz, fazendo feliz todos os que me rodeiam. Foi isso que consegui alcançar, porque acertei nos números da felicidade, da saúde, e por ultimo, no dinheiro necessário para garantir estes bens primários.

valdir3.jpg Como em tudo na vida, os excessos em nada garantem e, até podem ser comprometedores. Não foi a Natureza que criou o dinheiro, por conseguinte a dádiva que recebemos dela, não tem preço. Se assim fosse, os ricos em dinheiro, teriam sempre saúde e felicidade, e os outros viveriam sempre na amargura, na doença e na infelicidade. Em ambos os casos, separando-nos do dinheiro, encontraremos situações semelhantes. Cada qual vive a vida, mas não é dono dela, exactamente porque não tem preço, do mesmo modo que a saúde não tem e a felicidade ainda menos. Mas jogar no euro milhões e acertar, ajuda muito e, isso apraz-me registar...

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:37
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2015
MOKANDA DA LUUA . XXXVII

YANKEES . AS SEMENTES DA DISCÓRDIA - TIO SAM IS WATCHING OVER YOU (TIO SAM está olhando-o) - suas manobras de bastidores

Por

DY00.jpgDy - Dionísio de Sousa (Reis Vissapa)Um Chicoronho de fina estirpe, falas aprumadas que dá gosto ler,  ouvir e mastigar no discurso directo e indirecto...

Vá lá admiradores dos yankees, leiam e lembrem-se que a nossa saída de África se deveu a manobras de bastidores americanas, com o patrocínio da organização mundial das igrejas, fundação Ford e outros quejandos. A independência de Angola sim, mas com o sacrifício dos que lá nasceram como eu, nunca.

DY1.jpgA receita de tão usada já cheira a mofo. Desde o macarthismo na década quarenta a cinquenta e com ajuda do psicótico Hoover, os americanos que de cultura tinham e têm o dólar e pouco mais passaram a ser uns perfeitos idiotas até aos dias de hoje. São tão pobres que só sabem fazer dinheiro. Para manter esta hegemonia do dólar, inventaram uma receita que até hoje infelizmente funciona. Com a capa angélica dos direitos humanos, tem semeado a discórdia ao longo de várias décadas, com ajuda de outros sócios do clube que nem sequer vale a pena dizer quem são. Dominar a comunicação e o sistema financeiro, é quanto basta para atingirem os seus desígnios. Com base nesse paradigma, fomentam-se rebeliões com grande sucesso, na Ásia, na América latina, e agora no mundo Árabe. Consequências desta receita mágica? Várias, caos social, guerra civil apoiada do exterior a quem lhes convém, destruição sem eira nem beira de propriedade e infra-estruturas. Proveitos, muitos.

DY2.jpgA manutenção da sua poderosa indústria de armamento, a colocação de governos fantoches, a apropriação hedionda de recursos de todo o tipo, a tentativa de abolição de qualquer ideologia que vise uma teia social mais justa, a criação de heróis que são exportados de Hollywood, a diabolização de quem se opõe a estes desígnios sinistros, boicotes de todo o género pela força. Neste processo arregimentam lacaios por todo o lado, em África, na América Latina, na Ásia e até na Europa e em regra em todos os cantos do globo que dão aval ao seu domínio, acabando por se deixarem escravizar e tornando-se tão débeis e dependentes que a mãozorra do Tio Sam é que dita o caminho a seguir. Ai de quem se atreva a não se ajoelhar em servilismo nojento a esta receita mágica.

dia36.jpg As palavras ditador, terrorista, comunista, anarquista e uma série delas que inventam a seu belo prazer e que condicionam e exercício da justiça social, afinal a bandeira da pseudodemocracia, são usadas com uma leviandade atroz. Resistir é difícil e a receita tem artes de manipulação das massas que são assustadoras. Podia citar aqui dezenas de países que não se submeteram a esta conjura e de líderes com algum senso de justiça, que sucumbiram a este poder tenebroso. Já fui à América duas vezes e não tenciono lá voltar nunca mais. A bandeira do cifrão é aviltante e a estupidez do povo é congénita. Olho hoje para a Grécia, berço da democracia e vejo como é fácil esganar qualquer recalcitrante. Agora nos bastidores, e atentos à voz do povo no referendo, começam a minar e manipular a voz daqueles que se sabem escravos de um sistema financeiro, mas que não podem resistir sem aquilo com que compram o pão, o acesso à saúde e à educação dos filhos.

dia39.jpg Esta minha opinião estritamente pessoal, fará com que muitos digam que eu sou antiamericano, antissemita, comunista e sabe Deus o quê mais. Nada disso, não professo qualquer tipo de ideologia, sou apenas e tão só, ferozmente contra este capitalismo selvagem que não olha meios para atingir a sua finalidade gananciosa e a manutenção das rédeas do poder mundial. Os efeitos colaterais pouco importam para esta gente. As imigrações forçadas com mortos aos milhares, a terrível constatação de existência centenas de milhares de refugiados que ainda tem de agradecer uma tenda de campanha, uma lata de água e um bocado de farinha. As cidades e aldeias de vários países destruídas pedra por pedra e mortos aos milhares. Digo não a esta sangria desatada, digo não à submissão e hipocrisia da classe política portuguesa e de tantos outros países. Espero que os Gregos sejam coerentes e digam NÃO também. Basta de tanto terror para fomentar o medo. Basta de bater palmas a gente sem escrúpulos.

doente cornos1.jpg Todo este relambório que agradará alguns e desagradará a outros, germinou na minha escrita ao dar conta de uma notícia que dizia que o departamento de estado do tio Sam trouxera a público a violação dos direitos humanos na minha terra, Angola. É óbvio que são violados como em quase todo o mundo. A influência chinesa aumentou exponencialmente na minha Angola, e tal facto desagrada a essa gente. Os motivos de se iniciar um novo ciclo de denúncia especialmente lá e agora, é que são obscuros. Sempre começou assim a receita da desestabilização. Semear a discórdia, mandar a revolta para rua e iniciar uma primavera de destruição a curto prazo. Tenho lá família, tenho lá amigos e amo aquela terra, mas parece-me que o Tio Sam está a preparar mais uma ofensiva de terror, para colher como sempre chorudos dividendos. BASTA.

Reis Vissapa

As opções do Soba T´Chingange

 


 

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:36
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
MISSOSSO . XIV

UM CONE DE KAFUFUTILANo rio Mapunda, com o Bitacaia e quimbalas de noxas e de mirangolos...

A AVÓ MILOCAS - Nas bingas de Catumbela - 2ª de 2 Partes

Por

Dy0.jpg Dy (Reis Vissapa, vulgo Dionísio de Sousa)

Dy5.jpg Em ambas o açúcar desempenhava o papel principal sendo que a quifufutila tinha como ingrediente a farinha de pau, e a Paracuca a ginguba. Eram cuidadosamente embrulhadas em cones feitos com restos do jornal “ A Huíla “ onde moravam os poemas singelos de Manuel de Resende e João da Chela. Um dia precisei dos serviços urgentes da avó do Bitacáia pois a comichão no dedo grande tornara-se insuportável, o que indiciava a presença de um inquilino indesejável. Pela mão do meu amigo Lucas fui visitar a Milocas. A casa tinha o asseio e a humildade de uma capelinha e a velhinha mirrada que me recebeu com um sorriso bondoso e os carrapitos empinados surpreendeu-me pela doçura que emanava da sua figura franzina.

KAFUFUTILA.jpg Preparou cuidadosamente a agulha queimada a álcool e com imensa perícia retirou o parasita do pé que repousava no seu colo, sem que qualquer dor me tivesse apoquentado. Quando se ausentou por uns momentos, reparei no jornal que deixara aberto em cima do sofá e onde se podia ler no canto superior direito uma poesia do João da Chela. Quando voltou à sala trazia um recipiente com Cafufutila dois pratos e duas colheres. – Julguei que ia fazer cones para a gente levar. – Comentei olhando o jornal. – Não esse ainda não li. - Fiquei meio encabulado mas não regateei o prato de farinha de pau misturada com açúcar que ela me estendeu.- Avó quando é que o Lucas vai para escola? Limitou-se a sorrir sem nada responder.

bitacaia0.jpg As aulas começaram em Janeiro, e até ao seu início fui cliente assíduo da avó Milocas e das suas iguarias e nunca mais voltei a ver o Bitacaia apregoar bolos pela cidade. Foi ele que me reconheceu um dia destes. A última vez que o vira, acabara com êxito o segundo ciclo dos Liceus, e a avó quando partiu para o além deixou-lhe a casa e dinheiro suficiente para completar os estudos. Entrámos os dois no Metro e fiquei a saber que se tinha reformado como professor do básico e preparava-se para publicar um livro de poesia. – Olha lá e para quando prevês o lançamento? – Para breve- Qual é o título da tua obra? “ CAFUFUTILA” !!!!!!!!

MISSOSSO: Conto de raiz popular que em Angola teve seu criador e percursor o escritor Óscar Ribas. Neles, há diálogos com espíritos, calungas ou kiandas e animais que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015
MISSOSSO . XIII
UM CONE DE KAFUFUTILA No rio Mapunda, com o Bitacaia e quimbalas de noxas e de mirangolos....
A AVÓ MILOCAS ...  Nas bingas de Catumbela - 1ª de 2 Partes

Por

Dy0.jpgDy (Reis Vissapa, vulgo Dionísio de Sousa)

mira4.jpgSe havia algum culpado por eu ter arranjado uma terceira avó foi o Bitacáia e mais ninguém. O casal Pereira tinha deixado o litoral Lobitango no fim dos anos quarenta por razões de transferência e promoção, algo que acontecia no funcionalismo com uma certa assiduidade. Este novo marco na vida do meu progenitor, deu origem a uma alteração radical ao meu quotidiano. De um dia para o outro transitei das areias mornas da Praia do Lobito, concretamente praia do C.F.B. para os píncaros da Chela deixando para trás as vendedoras com quimbalas repletas de cadelinhas e corvinas, as imponentes casuarinas que namoravam o mar, as fabulosas marés vermelhas que faziam dar à costa toneladas de peixe, e os troncos de bimba empurrados pelas águas do Catumbela e que serviram de boia nas minhas primeiras braçadas de aprendiz.

 

mira1.jpg Também as enormes Garraths gemendo manobras nos carris que sulcavam as traseiras da nossa casa, trazendo o minério para o porto do Lobito, e as corridas até à ponta da restinga, acompanhando os grandes paquetes como o Mouzinho de Albuquerque e o Lourenço Marques ao entrarem na baía, que passavam tão rente que quase se lhes podia tocar com as mãos, tudo isso desapareceu do meu horizonte de menino, deixando-me acabrunhado e desolado num lugar chamado Mapunda. Não fora o Bitacáia, o meu trauma teria atingido proporções catastróficas. Substituir a imensa baía pejada de vapores onde os meus pais compravam chocolates nos cabeleireiros de bordo pelo rio Mapunda, quimbalas de noxas e de mirangolos e bagres de pele de veludo com bigodes, não foi pera doce, até ao dia em que conheci a avó Milocas com os seus carrapitos espetados, fazendo lembrar morros de Salalé numa colina.

 

mira2.jpg A estatura enganadora da Milocas era um terço de qualquer avó normal mas a sua genica ultrapassava o inimaginável. Solteirona inveterada tomara a seu cargo o quitandeiro Lucas Camate, órfão de pai e mãe e vulgo conhecido por Bitacáia. Este neto adoptivo calcorreava as ruas da cidade escoando as guloseimas que saíam do forno de lenha da avó Milocas e que faziam as delícias da garotada. Um dia explicou-me a razão da sua alcunha. Uma bitacáia alojara-se no pé e fizera um ninho tão grande que quase foi necessário a Milocas amputar-lhe o dedo grande para retirar aquela prole comichona deixando um buraco onde cabia um berlinde. O neto da Milocas nunca deixava o tabuleiro atingir o limite, e ficávamos sentados a contar histórias diversas, eu descrevendo-lhe o Catumbela e o dia em que os jacarés foram empurrados pela correnteza e deram à costa Atlântica e ele a falar-me das cheias do Mapunda que escavavam as margens junto à casa da avó quando das grandes chuvas. Nessas alturas sobravam sempre uns pacotes de quifufutila ou Paracuca, duas das muitas guloseimas confeccionadas pela Milocas, e que comíamos á sua revelia.

(Continua...)

MISSOSSO: Da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundu. Óscar Ribas foi o seu criador e percursor. Neles, há diálogos com espíritos, que falam, riem e até fazem pouco dos mortais, superstições e crendices que fazem parte da cultura dos povos Bantus…

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:01
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2015
FRATERNIDADES . LXXXI

ANGOLARelembrar o Lubango e a Chibia - Em Angola todas as picadas têm uma fatídica curva da morte…

Por

torres.jpgEduardo Torres

Á última curva, chamaram-lhe descolonização

cristo rei lubango.jpg Quando ainda criança, minha avô contava-me histórias do seu passado, e eu, sentado, com as mãos apoiando o queixo, ouvia-a embevecido, quantas vezes pensando ser o protagonista daquelas aventuras dum passado longínquo, em que as dificuldades e as necessidades andavam juntas. Saber como ela aprendera a fazer contas, a ler, sem escola, porque na época havia outras prioridades, e a cultura mesmo básica, estava renegada para segundo plano; desbravar caminhos, estabelecer contacto com os nativos, sua animosidade, ir vendo o nascimento de uma povoação através da abnegação dos ditos xi-colonos, delinear ruas, definir as casas feitas de adobe.

nash0.jpg Trabalhar na imagem trazida com fé da longínqua Madeira e, a que deram o nome de Nossa Senhora do Monte, serem fortes na luta que nascia com o aparecer do sol, e acabava com ele no ocaso. Tarefa árdua no nascimento de um povoado que viria a ser o Lubango de hoje. Mais tarde e já casado, quando ela ia passar uns dias a minha casa, continuava a gostar de ouvir as suas recordações; um passado que continuou sempre presente. Sentia nela uma pontinha de orgulho de ter nascido com os caboucos daquela cidade.

dia29.jpg Nos tempos em que eu era miúdo, a Chibia, tal coma Humpata, tinha um certo fascínio, a começar pela viagem em cerca de 44 quilómetros; por uma estrada térrea e algo esburacada, perigosa em algumas situações, como a subida íngreme do Rio Capitão, onde havia falecido o comerciante João Ricardo; isso sucedeu devido a um acidente numa velha Bedford. Percorridos alguns quilómetros e, após termos deixado para trás a tortuosa e antiga estrada do Bairro de Sto. António, lá estava a curva da morte, assim chamada pelos muitos acidentes e mortes ali registados.

nash1.jpg Em angola todas as estradas ou picadas têm uma fatídica curva da morte. Viajando na poeira ou na lama, consoante a época, acabava por aparecer a Chibia, com a conhecida Pensão Camões, paragem obrigatória. Depois disso, íamos nós à procura das deliciosas tangerinas, enormes, doces, sumarentas, como não havia em mais nenhum lugar na Huila. Eram famosas as tangerina da Chibia, como não o eram menos, as laranjas do Zé Padre, na Huíla.

nash2.jpg Era o ex-libris de ambas as localidades não muito distanciadas uma da outra, mas qual delas a mais famosa e conhecida; uma pelas tangerinas, a outra pelas laranjas. Gostava de percorrer aqueles pomares enormes, saciar-me com a qualidade de fruta de que estava a beneficiar de acordo com o local onde me encontrasse, e depois iniciar a viagem de regresso no velho carro Nash, com o saco repleto de tangerinas que fariam as delícias da família enquanto durassem. E quando surgia a oportunidade, voltávamos à Chibia, vila de gente hospitaleira, de que guardo gratas recordações.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:17
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014
MISSOSSO . X

ANGOLA . LUBANGOIr ao mato era um acto quase solene mas, havia o feijão maluco mais a surucucu a respeitar.

Por

    Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

IR AO MATO

- Hei, Salmonela, vou ali para trás daquela goiabeira desentupir a canalização, cuidado não vires para lá a chifuta, que não quero apanhar com uma pedrada no mataco. Na minha meninice este pedido feito a alguém que tivesse ido connosco caçar passarinhos era sacramental, ainda para mais que o meu amigo Salmonela era vesgo do olho esquerdo. Em verdade vos digo, que lá na minha terra, o Lubango, ir ao mato era um ato solene e que exigia uma dose de coragem bastante dilatada. Pessoalmente não acredito que exista alguém à face da terra, ou mesmo a fazer tijolo nas terras do kaparandanda, que nunca tivesse passado por essa experiência verdadeiramente sublime de defecar no mato, mas que havia risco lá isso era indubitável. A escolha de uma goiabeira obedecia aos critérios normais, exigíveis para tal prática.

saurimo6.jpgEm primeiro lugar, essa bendita árvore dava-nos a possibilidade de reflorestarmos sem grande dispêndio, a área adjacente e em segundo porque renovávamos a flora intestinal com as sementes necessárias, para novas atitudes ecológicas. Era um humilde prazer que não obrigava ninguém a passar horas esquecidas num centro comercial para aquisição de qualquer bugiganga made in China. O dinheiro era absolutamente irrelevante e sobretudo não enchíamos os bolsos dos glutões das finanças. Mas claro que não há bela sem senão, e antes de nos agacharmos com o rabo ao léu debaixo da árvore escolhida, era necessário verificar com cuidado se os vestígios do nosso antecessor já tinham sido dizimadas pelos escaravelhos “ Empurra Caca “, ou se, no tempo da chuva pelos t´chicocolos de mil pernas.

tchi3.jpgPor outro lado a questão fundamental do papel, esse instrumento absolutamente necessário à higiene final. Quem é que, enquanto catraio levava um rolo de papel higiénico para caçar passarinhos? Era absolutamente impossível, pois os bolsos dos calções iam literalmente atulhados de seixos para serem usados na funda da fisga. Sendo assim, o melhor era verificar previamente, a existência de algum arbusto com folhas suficientemente largas, para o substituírem. Outra precaução fundamental, era analisar com conhecimento, se nas vissapas em redor não havia feijão maluco, pois aí sim, ao falharmos esta premissa, ficava o caldo entornado e tínhamos de correr como lebres para a mulola mais próxima para aliviarmos a comichão e o ardor nas nádegas. Além de tudo isto o que já não é pouco, evitar não confundir tanto quanto possível, folha de tabaibeira, com folha de mamoeiro, o que se tornava absolutamente catastrófico.

tabaibos 2.jpgEm Portugal, esse costume maravilhoso de ir ao mato perdeu-se nas brumas da liberdade, e eu que fui estigmatizado por esse epíteto infame de “ Retornado”, sem nunca ter cá estado e culpabilizado de ter trazido para o país, aqueles bichinhos pequenos conhecidos por “ Ide Amines “, e de tomar banho todos os dias, senti-me imensamente pobre por ter perdido esse hábito ancestral. Além de tudo isto, sinto um desgosto enorme em não poder ir caçar passarinhos, com o meu amigo negro, o Salmonela. No entanto, tento colmatar estas perdas com passeios matutinos pelos pinhais e eucaliptais da minha zona. Acreditem ou não, tenho deparado com sinais evidentes de que algum “Retorna” importou para este país esse hábito, mas para desgosto meu, absolutamente adulterado. Senão vejamos, goiabeiras são totalmente inexistentes e o campo de escolha alterna, entre carcaças de frigoríficos, fogões desventrados, tapetes velhos, colchões com nódoas estranhas, entulho das obras, latas de tinta vazias e benza-a-Deus, até já encontrei uma porca inchada e podre, e um saco cheio de gatos asfixiados.

raizes.jpgCom a chegada do consumo e da modernidade, verifiquei que o papel higiénico é utilizado em profusão, juntamente com guardanapos, lenços de papel, e nos casos mais dramáticos sacos de cimento. De tal forma disseminados nas proximidades do advento, que quando das neblinas da madrugada, fico sempre com a esperança que El-Rei D. Sebastião surja daquele caos infernal a desembaraçar-se das ligaduras com que os mouros o envolveram. Quanto ao artigo propriamente dito é verdadeiramente calamitoso, e ando cá a matutar o que é que os portugueses comem, para dar origem aquelas coisas horrendas e ainda por cima sem as tradicionais sementes de goiaba, que afinal contribuiriam em muito para a beneficiação da paisagem. - Olha lá, não te atrevas a ir ao mato para trás daquela carcaça de Fiat Punto, hoje é Domingo dia de caça e vi passar para aqueles lados um coelhinho pequeno e estão pelo menos cinquenta e dois caçadores de camuflado escondidos por detrás daquela montanha de carcaças de televisão. – Disse-me uma vozinha débil, que se não tivesse a certeza que ele está lá longe, nas terras do kaparandanda ia jurar que era o Salmonela.

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:53
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Domingo, 12 de Outubro de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXX III

ANGOLA . GERAÇÃO CANGURU Nos rigores do sol da Mapunda…

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

Para todos aqueles que tiveram o imenso privilegio de verem zanguinhas a voar no nosso único e inigualável céu africano.

dy50.jpgEra daqueles dias em que África toma conta de nós, possui-nos com intensidade e deixa uma marca para todo o sempre. Daqueles dias que faziam as minhas maiores delícias e as dos meus amigos. Falando de amigos daqueles tempos, eram isso mesmo, amigos independentemente da sua condição, cor ou religião. A questão da cor só veio a apoquentar-me muitos anos volvidos. Na minha infância a cor era o azul cerúleo que me cobria, os malmequeres selvagens violeta e branco, as borboletas amarelas, as andorinhas alvinegras, os cardeais vermelhos e as gazelas de cor tostada e caudas brancas. Aos oito anos de idade os meus amigos não tinham cor. Não podia dizer que eram pretos, pois na raça humana essa cor não existe, não eram mulatos ou castanhos pois castanho era para mim o chocolate, e brancos de certeza que não eram, quando muito rosados como os rabos dos bebés, ou aleitados como os que haviam chegado há pouco ao continente africano, ou encardidos como eu, que sofrera na pele os rigores do sol da Mapunda.

map1.jpgE encardido não significa sujo, muito embora ao fim de um dia de brincadeira no mato se tornasse necessária uma barrela com sabão macaco. E assim chegamos às zanguinhas, aqueles passarinhos delicados de penugem negra sarapintada a bolinhas brancas, que pintavam desenhos no meu céu africano, chilreando contentes músicas que perduram nos meus ouvidos. E quando aos milhares aterravam na erva verde que despontava entre os malmequeres selvagens de folhas recortadas como filigrana, eu e os meus amigos sem cor corríamos para o local onde elas tinham poisado e de mergulho tentávamos apanhar alguma; essa foi a minha manhã de glória, eu, o candengue mais novo da canalha alvoraçada. Atirei-me e senti o seu corpo delicado nas minhas mãos, estrebuchando de temor.

dy29.jpg – Apanhei, apanhei. – Gritou o Marimbondo alvoraçado erguendo a mão com um animal cilíndrico da cor do Alforreca que tivera menos sucesso. Era um camaleão de orelhas acastanhadas. Quando reparou no bicho feioso o Marimbondo não foi de modas e atirou com o animal para a mulola do Índia. Foi a minha manhã de glória quando abri as mãos e lá estava ela, Branquinha como a cal e as pintinhas pretas glorificando-lhe a penugem. – Uma zanguinha branca. - Gritaram em uníssono os meus amigos de todas as cores. – O rato-cego apanhou uma zanguinha branca, que linda que é, nunca tinha visto nenhuma. – Exultou o Humberto o mais velho da quadrilha. – Mas é minha! Afirmei temeroso que ma surripiassem.

Carro especial.jpgE era! E levei-a para casa colocando-a numa gaiola feita de bimba e caniço, com uma latinha vazia de sardinha repleta de massango e, outra vazia de atum repleta de água fresca. E fiquei ali a olhar para ela no degredo com as missanguinhas negras do olhar a fitarem-me tristes. E fiquei triste perante o seu olhar suplicante de liberdade e mais triste por ela não ligar peva à comida que lhe oferecera em troca da clausura. Dormi mal e, pela madrugada fui vê-la e lá estava ela triste com o seu destino. Um bando de zanguinhas ornava o céu matutino num voar onírico. Soltei-a e vi-a partir no meu céu azul juntando-se ao bando chilreando de alegria.

namibia2.jpgCresci, e comigo, os meus amigos sem cor. E há um dia que sofro o mesmo destino da zanguinha branca; sou preso por ser encardido, ou cor-de-rosa; sou apelidado de tudo e mais alguma. Alguns termos caté desconhecia, como colonialista, kaputo ladrão, branco rosqueiro, etc, edecéteras! Um dos meus amigos sem cor vem em meu socorro e liberta-me, e então eu voo galgando o meu céu em direcção a um céu que nunca foi meu, e voo alto em direcção a N´zambi, agradecendo-lhe essa enorme dádiva de ser vivo e livre. Lembro-me então da zanguinha branca e do enorme pecado de a querer clausurar e por muito estranho que isso vos pareça sinto-me bem, em paz com a cor, voando nos meus sonhos inglórios.

Reis Vissapa



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:05
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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXXI

ANGOLA . LUBANGOOS TRÊS DA VIDA AIRADA

Por

  Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa) 

 África, é uma bênção e um veneno.

Eram tempos de juventude em festa, esses inesquecíveis em que convivi com o Manuel e com o Orlando. Estou a ouvir Charles Aznavour a cantar “Bon Anniversaire” enquanto escrevo e estou a viajar no tempo, a conduzir o meu mini ABS-05-61, e o Orlando Lourenço que Deus o tenha a conduzir o seu ABS-05-62, iguais como duas gotas de água na cor e tudo. Quanto ao carro do Manuel Sá só ele pode dizer a marca que a minha memória não chega a tanto. Um delapidar de gasolina em busca de corações perdidos nas ruas do Lubango. Éramos amigos e como tal partilhávamos segredos nos cadeirões do Hotel Metrópole na companhia do cafezinho que o velho Santos tão bem loteava. – Quem era aquela que ia hoje no teu carro? Não sei onde vais descobrir esses borrachos? – Querias saber tanto como eu. – É a Miss Safari. – Como é que sabes? – Partilhamos os mesmos caminhos. E era assim. Dávamos nomes quase codificados às jovens e mulheres que partilhavam o assento do pendura. Uma corrida rápida à Capelinha e no seu testemunho mudo beijos trocados à socapa no ardor maior da juventude. Música Francesa, Italiana, Espanhola, Mexicana etc, etc.

 Ao contrário dos dias de hoje que a americanice e a língua saxónica domina. Virámos todos “Beefs”. Graça a Deus o Brasil salva-nos e podemos ouvir a sua linda música de ontem e de hoje num hino à latinidade. Aos fins-de-semana bebíamos os nossos copos nos bailaricos limítrofes ao som dos Acústicos do Bossa Nova e do velho Blue Star. Era assim uma orgia de companheirismo e permanente boa disposição vivendo um dia de cada vez. O Orlando e eu com óculos de dioptrias tipo caco de garrafa. Foi preciso chegar a velho e ficar de vez sem óculos nem cataratas. O Manel, de caracóis negros um galã a rondar o Dean Martin. Mas ninguém se queixava. Chegava para todos e posso dizer que havia uma espécie de código ético entre nós no que respeitava às “Muchachitas”. Os minis iguais haviam de dar lugar a um incidente em que quase fui preso. Parte sempre por elo mais fraco. Era o casamento da filha do Governador, a Né, com um alferes qualquer, o Franco é que sabe alcunha que eles lhe deram. Tinha emprestado o meu mini ao Alferes Cabral para ele ir ao casamento do colega. Tipos como eu não eram convidados para esses eventos. Vou para o adro da igreja onde a maralha se juntou para assistir.

 O trânsito tinha sido vedado à populaça e era proibido estacionar pois os lugares estavam destinados só para convivas. Quando lá cheguei já lá estava um mini azul eléctrico igual ao meu, o pai do Orlando o administrador Lourenço tinha chegado cedo para o evento. Coloquei-me deliberadamente perto do carro. Eis senão quando surge o Guarda Polainas e sem bom dia nem nada rosna. – Tire já esse carro daqui, imediatamente! – Esse carro não tiro de certeza absoluta. Retorqui. – Ai, isso é que tira; ou tira ,ou vai já para esquadra. E dizendo isto chamou a atenção a outro polícia para levar a dele avante. Entretanto o maralhal juntou-se à nossa volta para ver em que é que aquilo dava. – Porque raio não tira o c.... do carro daqui? Gritou apopléctico. – Porque o carro não é meu. Respondi-lhe em ar de gozo. Ficou roxo de raiva e a gargalhada foi geral. Tal gracinha custou-me um carradal de multas e perseguições ferozes.

 Mas tinha uma grande amiga que era quase tão doida como eu e era filha do Governador de Serpa Pinto, Moita de Deus. Ía em direcção à Senhora do Monte e juro que não era nada de mal, éramos mesmo bons amigos. Pelo retrovisor vejo o polainas a acelerar a moto atrás de mim e a mandar-me encostar. Ela sabia da história toda e não o deixou falar. Passou-lhe uma caixa de charutos e ameaçou-o de fazer queixa ao pai. As multas acabaram; ela partiu não sei para onde, nunca mais a vi e o polainas encontrei-o uma vez nas Caldas da Raínha mais o meu grande amigo polícia pai do Esteves; julgo que era ele mas, não tenho a certeza

Fui para Luanda trabalhar e encontrei lá o Orlando funcionário no BCA. Foram meses de glória nos cabarets e na noite de Luanda. Eu trabalhava no Porto de Luanda e vivia num quarto na marginal.

 Dormia das cinco da tarde à meia-noite hora em que ia buscar o Orlando para a “Night” e ele tinha a mesma rotina. Copacabana, Estoril, Bambi e outros do género, seguindo-se fado no Retiro da Saudade e no final a Casa Portuguesa. Café e mata-bicho no bar do aeroporto e pé na tábua para o porto ainda empinocado da night. Armazém 6, o chefe Adelino a olhar para a minha indumentária mais própria para um baptizado. – Dionísio, chegaram uns fardos de roupa para o Quintas e Irmão, pode ir dormir para lá. Eu agradecia e ia! Não havia complicações, era tudo simples como um grão de arroz, boa gente. Após seis meses mandei-me de novo para Sá da Bandeira, a vida era dura em Luanda. O Orlando também voltou e casou com a Ilda. O Manuel casou com a Marieta e eu também acabei por casar deixando para trás amores vadios que por vadios foram espectaculares para todos nós.

Reis Vissapa

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:26
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Sábado, 20 de Setembro de 2014
FRATERNIDADES . LXVII

MOÇAMEDES - No longínquo ano de 1917

Por

  Eduardo Torres

 Quando meu pai desembarcou, em Moçamedes, destacado para o sul de Angola, propriamente para o Lubango, não admito sequer como seria Angola nessa época. Sei que andou envolvido na pacificação do sul, no Cuanhama, tendo abandonado a vida militar, para se dedicar ao comércio, foi fundador da camionagem, tendo-se associado à firma Venâncio Guimarães, nessa área. Acabou por ser industrial de curtumes e sapataria. Meu pai foi um eterno apaixonado por Angola, a ponto de vender a parte da herança que lhe coube, salvo erro, para investir na terra que pensava ser sua; nunca se interessou em voltar a Portugal Continental, foi rico e morreu relativamente pobre, depois de uma vida de sacrifício e trabalho. Foi vereador da Câmara Municipal, construiu um prédio de dois pisos, considerado um dos mais modernos da cidade, isto nos anos quarenta. Era uma pessoa muito conceituada no meio, tinha influência entre os amigos e seus filhos.

 

 Sinto grande orgulho nos pais que tive, da geração e da descendência a que pertenço. Descendo directamente dos colonos madeirenses, gente humilde, que não teve receio de abandonar a sua ilha, para fazer parte da história. Enfrentando toda a sorte de dificuldades, fundaram um lugar que se tornou a cidade onde tive o privilégio de nascer, e isso me basta para sentir o orgulho que sinto pelos meus antepassados. As próprias pedras serão páginas da gesta vivida por esse conjunto de gente heróica....


A confirmar tudo isto e a 15 de Julho de 2011 escrevia eu em meu blogue de kimbolagoa:

 Bernardino Freire de  Castro - Fundador de Mossâmedes (Namibe)

A partir da metade do século XIX, por via do término da escravatura, Angola passou a ser vista como saída para encaminhar gente desavinda de outras paragens juntando-se-lhes os degradados para ali enviados por castigo penal. Alguns dos novos colonos, idos do Brasil e Ilha da Madeira para Mossâmedes buscaram lugares mais frios e de terras férteis; enquanto decorriam batalhas para conter sublevação de alguns sobas mais a Sul, a colónia ia-se formando ao redor de barracões num lugar que se veio a chamar de Sá da Bandeira, o actual Lubango. Falar destas odisseias é recordar a missionação dum povo, duma gente que não deixou de peregrinar a vida. Recorde-se essa estirpe de gente reconhecidos como os Chicoronhos (Xi-colonos), que oriundos das ilhas da Madeira e Açores, após estarem alguns anos no Brasil e após a independência deste, optaram por tomar este novo destino levados no entusiasmo do marquês de Sá da Bandeira. Foi no areal da baia do soba Mussungu do Namibe que eles estabeleceram seu primeiro arraial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:26
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014
FRATERNIDADES . LXVI

HUMPATAA chegada da electricidade a Sá da Bandeira… 

Por

 Eduardo Torres

 Lembro-me quando surgiu a electricidade, e as ruas de Sá da Bandeira foram iluminadas, pela primeira vez, com uma luz que fascinou os meus olhos de criança, na inocente ignorância de saber como era possível a luz aparecer assim, de repente, vinda não sei de onde. A minha mãe, pegara em mim, sentara-me no parapeito da janela, para eu poder observar um mistério, e cerca das seis tarde, salvo erro, surgiu a novidade surpreendente de eu ver uma luz completamente diferente da que... estava habituado a ver. Não me recordo o que terá passado pela minha cabecinha inocente, mas com certeza que houve mil perguntas que ficaram sem resposta.

 A porta de entrada da minha casa dava acesso a um corredor comprido, que servia a sala de visitas, o quarto dos meus país, e do lado oposto, o meu quarto e do meu irmão mais velho, desembocando, através de outra porta, na sala de refeições, que por sua vez dava acesso ao quarto das minha irmãs. Nesse corredor, costumava eu e um qualquer amigo de ocasião, jogarmos, com uma bola de ténis, futebol de baliza a baliza. Vem isto a propósito, de que foi nesse corredor que se começaram a abrir os roços para a instalação da tubagem e caixas de derivação, que viriam a ser as vias por onde a electricidade chegaria às lâmpadas, que iriam substituir as velas, os candeeiros de petróleo e o velho petromax, que uma das vezes, ao ser aceso, dera início a um principio de incêndio , que prontamente fora apagado.

 Pois era a luz, que dias antes tanto me intrigara, que surgia em casa, aparecia nas lâmpadas do candeeiro da sala, ou nos simples, dos quartos, com um pequeno movimento do interruptor, prova de que, o milagre do progresso tinha acontecido. Passei a entender melhor, um facto que tanto me intrigara, mas que ainda não dominava em absoluto... sabia apenas que começara uma nova era na vida lá de casa, que uma luz vinha substituir outra que fazia parte da historia do passado, e que a vida começava a mudar substancialmente....

As opções do Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:25
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2014
FRATERNIDADES . LXI

 

LUBANGO  Na cordilheira da Chela

A África da minha vida

Por

Eduardo Torres Eduardo Torres     

   

                 

O sentimento
O que vale o sentimento?
Pergunta que me transcende
Será como uma luz que se ascende
Cá dentro do nosso ser?
Ou é um fogo que arde
Sem nenhum de nós saber?
O sentimento é um valor
Que se sente e se conhece
E quase sempre aparece
Deixando algum sabor
Pode aparecer amargo ou doce
É assim como se fosse
Uma estrela no céu a brilhar
Por vezes como ela, distante
Mas que se aproxima num instante
Para nos fazer sonhar.

 Mossãmedes - 1914

Hoje, ao consultar a minha página do facebook, deparei-me com documentos fotográficos, quanto a mim, de inquestionável valor, que ajudam a entender Angola, e as grandes dificuldades porque passaram os seus colonizadores, porque os colonialistas, já nessa época, viviam bem instalados, no que por norma se chamava Metrópole. Fotografias, a rondar o ano de 1927, curiosamente, tempo muito semelhante ao que geralmente escrevo quando me refiro a episódios da minha infância. Numa década, Angola não sofreu um desenvolvimento que a transformasse tão repentinamente numa outra muito diferente, tanto mais que se encontrava afastada do mundo civilizado, esquecida, colónia que garantia benefícios e riqueza, mas pouco ou nada usufruía deles.

  Tal com na fotografia, ainda muito criança, lembro-me de um carro de marca Nash, propriedade do meu pai, mais moderno, com capota, mas de linhas semelhantes, com cromados, bancos corridos em cabedal, e que era o meu encanto. As mesmas estradas e picadas por onde se circulava, em condições muito difíceis, especialmente na época das chuvas, as mesmas jangadas utilizadas para serem atravessados rios, como o Cunene, pontões de Madeira, muitos deles de precária segurança, e estou a escrever já dos anos trinta e oito, quarenta, porque os que se seguiram continuaram a ser em tudo muito semelhantes.

 Dr. Roy B. Parsons e sua esposa

Só a partir de 1961, é que houve uma explosão de desenvolvimento, forçada pelas circunstâncias. Até essa altura, foi sempre uma "roça", explorada até ao tutano pelo país colonizador. Recordo- me da minha mãe, ter sido operada na Catabola, a uma vista, pelo Dr. Strangwey, o meu avô no Bundjei(?) e a minha irmã e irmão no Bongo (Lépi) pelo Dr. Parson, porque em casos mais graves de saúde as pessoas recorriam aos missionários americanos, que proporcionavam outras garantias, num tempo em que não havia antibióticos, garantias que os hospitais portugueses não ofereciam, por falta de meios, independentemente da boa vontade dos médicos que tratavam os doentes.

 Contudo, muito miúdo ainda, lembro-me de a minha mãe ter sido hospitalizada na Chibia, porque havia um médico de reconhecido valor, se não me engano, de nome Menezes, e percorrer frequentemente quarenta quilómetros de má estrada, com o meu pai, para ir visita-la. E ao escrever sobre Angola, nestes termos, estou a referir-me a todas as outras colónias portuguesas que eram tratadas de modo igual. Talvez por essas dificuldades, de se ter de ir buscar água ao chafariz, de se ter velas, candeeiros de petróleo e petromax, xipefo, para se obter luz, mas saber que em cada dia poder sentir uma liberdade completa para poder correr pelos campos, poder pedalar a bicicleta pela estrada sem correr riscos com os automóveis, respirar ar puro em lugar de respira-lo poluído, descobrir espaço livre até ao horizonte, sem casario ou grandes prédios a atrapalhar, ter galináceos, patos, gansos, cães gatos e bambis domesticados que me vinham comer à mão.

 Nash

Apanhar, mangas, pêssegos, laranjas, morangos, passar cada Natal com todos os familiares na Humpata, com os meus avós, e o Ano Novo na minha casa, da mesma maneira, ver a doçaria ser confeccionada em casa e comer os restos da massa dos bolos que ficavam nas panelas os nos tachos depois dos bolos colocados nas formas ou tabuleiros para irem ao forno, previamente aquecido a lenha, e limpo de toda a cinza, se isto não era vida, o que era realmente viver? Como posso esquecer Angola, a minha terra no planalto da Chela, onde pude ter uma vida diferente, porque graças a Deus, sempre tive uma vida feliz em qualquer lugar onde viesse a viver depois. Mas a infância, em que Angola era realmente a África, que não volta nunca mais a ser igual, foi um marco diferente na minha vida, que jamais poderei olvidar. África estava tão longe do mundo civilizado, que só a segunda grande guerra a conseguiu aproximar da Europa.

(Continua...)

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Sexta-feira, 20 de Junho de 2014
MOKANDA DA LUUA . XXV

ANGOLA . LUBANGOFloripes, a namorada de Cristo…

Por

 Dy - Dionísio de Sousa  (Reis Vissapa

Esta estória é para recordar essa época em que éramos obrigados a aprender o Pai-Nosso a Ave-maria e até a Salve-rainha, numa daquelas escolas com uma professorinhas do antigamente.
Foi ela que me ensinou a dar os primeiros passos na língua do poeta Camões que via mais com um olho do que nós com os dois. Não me ensinou mais nada pois tinha uma total falta de vocação para outros ensinamentos que não fossem o “Bê-Á-Bá e todas as orações que eu era obrigado a decorar por via de uma educação ancestral católica! Estas lições obrigaram-me a desembolsar parte do meu precioso tempo infantil na catequese e outra parte numa luta inglória com a cultura. Se havia pessoa que eu respeitava tanto como a minha mãe, era a menina Floripes, no entanto, uma era a antítese da outra. Enquanto a menina Floripes me perguntava com uma meiguice tão grande no semblante como o olhar de uma cadela vadia à procura de dono, porque razão tinha faltado à catequese, a minha velhota que não era de modas primeiro chegava-me a roupa-ao-pelo e só depois é que perguntava onde andara eu a vadiar. A menina Floripes era mulata, esticava o cabelo encrespado para a nuca onde culminava num totó que parecia um rilhete feito com aqueles funis com saco de pano para enfeitar os bolos com glacê. 

 Uma doença infortunada em pequenina, deixara-lhe a pele morena das faces cheia de pequenas crateras variólicas que apagavam parte da beleza dos seus olhos verdes e doces. Para além disto nem Nossa Senhora de Fátima tinha tanta pureza na maneira de vestir, de brancura imaculada com saia larga em godé com as tradicionais pregas. O corpete com uma fiada de botõezinhos nacarados em forma de esfera que o decote só deixava ver a maça de Adão. Manguinhas tufadas até ao cotovelo e sapatinhas rasas de enfermeira de dispensário. Deslocava-se com a suavidade dos tufos de sumaúma quando esfarelávamos o fruto e espalhávamos as sementes brancas pelo ar.  Cá para mim, foi a professorinha mais linda e mais bondosa que tive em toda a minha vida. A beleza vinha de dentro dela como as estrelinhas da varinha de condão da fada que transformou uma abóbora no coche da Gata Borralheira; serena e ofuscante. Só me lembro de uma professora que me fez oscilar nesta análise que foi a minha professora de inglês que quando se debruçava na minha carteira para ver se eu escrevia “Yes” com um “i” ou “y” eu ficava embasbacado com os seus mamilos cor-de-rosa. Foi uma recaída séria que me fez chumbar a inglês dois anos seguidos. Houve quatro coisas, pelo menos, que eu nunca vi à menina Floripes; um momento de mau humor ou zanga, um namorado, os joelhos e os mamilos. As más-línguas da terra diziam que ela era uma beata, uma rata de sacristia e não sei que mais, todos estes adjectivos apenas porque era ela que engalanava o altar de Jesus Cristo para os serviços religiosos. Ramos de flores que arrancava do seu próprio jardim e que colocava nas jarras esguias da mesa do Senhor, com a ternura de rosas a desabrocharem.  
 Começou a circular pela cidade o boato que a Floripes mantinha longas conversas com Jesus e havia mesmo quem afirmasse que Ele um dia se exaltara e levantara a cabeça coroada de espinhos para lhe murmurar algo. Eu pessoalmente não acredito nisso mas houve alturas em que o Senhor me pareceu verdadeiramente agastado com alguns dos paroquianos engravatados e de ar respeitoso, as suas mulheres pavoneando os vestidos da moda e olhando de soslaio para as outras comadres em termos comparativos. Eu acho que Ele não gostava mesmo daquelas mexeriquices tipo revista Maria feitas no adro após terem batido vezes sem conta com a mão no peito.  Estive tentado a perguntar à minha professorinha se era verdade, que ela mantinha de vez em quando um bate-papo com Jesus mas acabei por não o fazer por achar que essa curiosidade era imprópria. Alguns coleguinhas meus chamavam-lhe a namorada de Jesus quando ela passava de olhos postos no chão e, eu pensei para comigo que era melhor que ser a namorada do diabo como a Dores mulher do Emiliano que namorava às escondidas o guarda Linhares. Esse sim, um verdadeiro Mefistófeles que nos perseguia de cassetete em punho por dá cá aquela palha
.
 A minha curiosidade ficou satisfeita certo dia quando me pediu para a ajudar a colher as flores para a igreja. Quando agarrei na tesoura para cortar uma molhada de “Bocas de Jarra” ela voltou-se para mim e disse: - Essas não, Jesus disse-me que detesta bocas de jarra e para não voltar a colocar tal flor no seu altar. -Abri os olhos de espanto com as palavras dela. - Então sempre é verdade que a menina Floripes fala com Nosso Senhor? - Indaguei curioso. - Falo com ele mas não é da maneira que as pessoas pensam. Tu gostavas de estar pendurado numa cruz anos a fio rodeado de flores de cemitério? E além disso gostas daquele perfume horroroso da madame Barata que deixa a casa Dele empestada durante uma semana? - Perguntou com a sua habitual candura. Eu não “Sopessora”, e até evito ficar na igreja ao lado da dita senhora que me dá uma grande agonia. - Respondi concordando com ela no tocante à miscelânea de perfumes que se entrecruzavam na igreja aos Domingos.   Ao fim de uma hora a menina Floripes tinha composto uma série de ramalhetes alegremente coloridos de rosas, gipsófilas e umas tantas dálias anafadas acasaladas com cravos de burro. Acho que não vou levar nenhuma descompostura desta vez. - Confidenciou-me com o ar mais sério deste mundo.
 Morreu aos trinta e nove anos de uma doença estranha a que chamavam leucemia. Foi definhando gradativamente e eu fui visitá-la com assiduidade até ao dia que partiu para perto do seu suposto namorado. - Quando eu partir não te ponhas a chorar baba e ranho de todo tamanho, que parto para melhor; solicitou-me quase em segredo. - Como é que sabe que é melhor, menina Floripes? -Foi Ele que me disse e, acrescentou. - Não leves bocas de jarra para a minha campa que Jesus não gosta dessas flores. Se levares vais ver que numa hora ficam murchas e amarelas. - A primeira ameaça séria que ouvi da sua boca.
Sempre fui curioso e desobediente e como tal resolvi confirmar a veracidade das palavras da menina Floripes. Coloquei dois ou três ramos de Bocas de Jarro nas jarrinhas da lápide dela e prometi a mim mesmo lá voltar uma ou duas horas depois para verificar se tinham murchado ou não. Pronto não digam mais nada, já sei que Nossa Senhora não chora lágrimas de sangue, que as chagas do Crucificado não sangram a torto e a direito, mas uma coisa é certa o Namorado da Floripes não gosta de bocas de Jarra, prefere mesmo aqueles malmequeres campestres misturados com “Beijos de Mulata” que eu comecei a colocar na campa dela. Coisas simples sem ostentação ou vaidade e pelo menos não murcham tão rapidamente.

Reis Vissapa

Ilustrações de Costa Araújo Araújo

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PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:55
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Domingo, 15 de Junho de 2014
FRATERNIDADES . LX

 

LUBANGO  Na cordilheira da Chela

Por

 Eduardo Torres Eduardo Torres

A África da minha vida

Há borboletas voando
No jardim da ilusão
E nós de quando em quando
Não sabemos a razão Porque há-de a vida ter...
Num modo simples de ver
A ilusão que criamos
E nela queremos viver Sem nos estarmos importando
Com a verdadeira questão
De ver borboletas voando
No jardim da ilusão

:    Na Angola onde eu nasci, nas cubatas da sanzala,  há muita gente que fala numa conversa fiada, por vezes em discussão. Em todo o kimbo, ao chegar o ancião, todo o mundo se cala, um mito, o velho com seu cachimbo. Senta-se junto à fogueira, vai comer o seu pirão, conta histórias da vida, todas com muita aventura do tempo da escravatura… de como sofria seu povo e outras por diferentes de só fazer rir. Com um quissange a tocar, todos deixam de falar, todos se calam para ouvir. Depois toca a dormir e, também o ancião, lembrando histórias vividas, nunca serão esquecidas, dos tempos que já lá vão.

 Quantas vezes me pergunto, mas  que não sei responder, porque talvez o assunto seja difícil de entender, quantas estrelas tem o céu… ninguém as pode contar! Também é difícil dizer, quanta água tem o mar, quantos animais diferentes ocupam o espaço terra, e nós seres inteligentes porque andamos sempre em guerra. Qual a razão do deserto e, florestas em dimensão, depois de um dia claro aparecer a escuridão! É a força da natureza que o homem quer destruir mas DEUS, tenho a certeza, após criar tanta beleza, nunca tal vai permitir. O sol surgiu a brilhar  quer aquecer este dia mas o vento, forte, a soprar, resolveu atrapalhar fazendo uma manhã fria

 Ouvi historias de caçadores, caçadores profissionais,  contarem como os amadores queriam caçar animais, pagarem para o efeito, de sentirem o prazer, de verem… uma gazela correr. Por entre o mato perdida, por querer salvar a vida, daqueles que a queriam matar, porque tiveram de pagar, para o poderem fazer. Não é mais bonito ver animais, por entre os matagais? Pagar para vê-los viver, correrem, ou simplesmente parados… apenas e só curiosos, por verem tão ansiosos, querendo uma recordação, uma foto, uma ilusão. Num adeus, uma despedida,  com o feitiço no coração… a África desconhecida.

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