Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXVII

O LIVRO ESCOLHIDO:

13 – HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho ... 13.11.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

Livros em cima da mesa da cabeceira

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil.

11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal.

12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

13 –HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho

chaves1.png De tempo a tempos recomeço nos antigos trilhos dando-me mais tempo para beber a minha estória e, com ou sem profundidade, recordar alguns relâmpagos da minha lenda…, passei seis anos na Venezuela quando havia pleno emprego na governação de Andrés Peres. Na Venezuela e já no final de 2002, Hugo chaves havia resistido a uma tentativa de golpe e por via disto, aqui começou a sua jornada para o radicalismo. Tudo levava a crer que as fanfarronices do tenente-coronel fossem capazes de se converter em algo perigoso para a estabilidade da região ou da segurança social.

Chaves tinha sido eleito de forma legítima e dentro de um sistema eleitoral de plena democracia; Venezuela exercia a mais antiga democracia da América do Sul. Chaves, chegou para mudar escala social mudando paulatinamente o sistema. Depois de sua morte no ano de 2013, os relatos de suas relações clandestinas vieram ao de cima com relatos de que a Venezuela e o Irão se associaram para comprar segredos nucleares da Argentina com denúncias pela implicação de Cristina Kirchner e de seu chanceler Hector Timmerman.  

capta0.jpg Nestas suspeitas relações, o Brasil funcionava como centro logístico na preparação de atentados e pontos de contacto entre as redes extremistas islâmicas, o narcotráfico e o modo como todos os países da região eram utilizados ou afectados como bases dessas organizações.

Um ex-militar do círculo do presidente Hugo Chaves, contou que a justificação moral para o uso do aparato estatal a favor do narcotráfico, foi assinado por Fidel de Castro. E, numa visita a Havana, Hugo Chaves revelou ao ditador Cubano que estava na disposição de apoiar as FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, um suposto Exército do Povo, reconhecido como uma organização paramilitar de inspiração comunista - uma autoproclamada guerrilha revolucionária marxista-leninista.

chaves3.jpg Nesta visita, Fidel disse a Chaves que a cocaína não era problema, e sim um instrumento de luta contra o imperialismo. Chaves foi convencido de que ao oferecer apoio total e ilimitado aos colombianos, não só fomentaria a revolução no país vizinho como causaria danos aos Estados Unidos; desta forma os americanos teriam de gastar mais dinheiro com as acções de repressão e com o tratamento dos toxicodependentes.

Nesta guerra irregular contra o “imperialismo ianque”, ao apoiar os narcotraficantes, os cubanos pretendiam um duplo benefício; além de sabotarem os Estados Unidos ajudando a inundar o país com milhares de toneladas de drogas, ainda seriam remunerados por isso. A chegada de Nicola Maduro à presidência da Venezuela foi fundamental para as organizações criminosas que actuavam no país, sobretudo pela receita do tráfico da cocaína.

chaves4.jpg No Brasil, pode descortinar-se através da Operação “Lava-Jato” nos arranjos coordenados entre o ex-presidente Lula e a eleição de Hugo Chaves num saco azul de 35 milhões de dólares pagos a um tal de João Santana, um marqueteiro (quem usa técnicas de marketing ou de promoção para o fim em vista) promotor da campanha de Dilma. Aqueles acertos do saco azul foram definidos com Nicolas Maduro, o mestre indicado por Chaves.

Lula e Maduro, definiram que parte da conta apresentada ao tal de Santana seria paga por empreiteiros brasileiros com contractos na Venezuela. A Odebrecht pagaria 7 milhões de dólares enquanto a Andrade Gutierres teria de contribuir com 4 milhões de dólares. Estamos em fins do ano de 2019 e, pelos vistos a “boa relação“ entre gente que gere o submundo parece estar incólume à justeza com justiça. Teremos de ficar atentos ao filme que decorre no Brasil com a soltura de Inácio Lula e derivações da justiça tendo o STF – Supremo Tribunal Federal como executante…

(Continua…)

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:53
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Sábado, 2 de Novembro de 2019
MALAMBAS . CCXLI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XXI – 19.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus, AI.IÚ.É - TAMBULAKONTA – Isto é África! O futuro está a ficar doente!

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Os conceitos do mundo actual, valores, crenças e as histórias da avozinha, não são mais as mesmas, dizia eu aos meus companheiros no D´Jango do Mukwé, lugar do fim do mundo e aonde o mwadié Miranda Khoisan, meio carcamano bóher, bivacou nas margens do okavango com toda a sua família depois de perseguido pela UNITA e espirros desclassificados que o apontaram como um informador da PIDE/DGS no já longínquo ano de 1975; ele que sobrevivia como podia em seu mato do Calai, vendendo fuba e peixe frito com carne seca fornecida pelo Fernandes Teles da Chibia, um caçador, recolector de estórias ainda não contadas e, com quem vivi na nossa odisseia da diáspora na Cidade de Bolivar, em terras de Venezuela.

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Minha vida é mesmo um rosário de encontros e desencontros, dizia isto à kianda Januário Pieter que sem se espantar ria só átoa de meu espontânea grito de liberdade sempre condicionada aos desaires da política para onde quer que fosse ou aonde estivesse. Lá na Cidade de Bolivar, as baratas e ratos eram os nossos mais próximos vizinhos. Pázadas de cucarachas eram varridas para o barranco próximo que dava para as traseiras muito cheias de restos despejados a eito… elas voavam e entravam por tudo quanto era canto e recanto, frincha e afins mal caiados. E, o Rio Orinoco ali tão perto.

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No M´Puto, na Venezuela, no Brasil, em Namíbia ou África do Sul e até no escambau aonde judas chorou desesperado com todos nós, mortais filhos da peste que nunca o deixam em descanso. E também em África aonde o ontem fica cada vez mais distante e, o que então era proibido, hoje já o não é. Lugares aonde agora predomina a gasosa e fundamentalmente a postura governamental de BLACK EMPOWERMENT; Isto quer dizer uma política substituição do negro em detrimento do branco.

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Vou vos contar, mas isto não tem por onde se pegar! O branco tem de investir e, quando da necessidade de contratar gente tem por lei de dar trabalho em primeiro lugar ao negro em detrimento de um outro e de outra cor bem melhor preparado para exercer uma qualquer função. Se isto não é racismo selectivo digam-me então o que é? João Miranda disse estar já habituado a este relacionamento; Em tudo há um equilíbrio disse: – Nós, comerciantes, sempre temos de coabitar e ceder benesses às autoridades, um dia é um pneu, em um outro é uma bateria ou umas grades de cerveja de gasosa a troco de tranquilidade.

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No final sempre será o povo a pagar por eles, os que mandam; Os tempos mudam rapidamente e para alguns é de consequências pessoais e psicológicas dramáticas. Na administração Sul-africana os brancos funcionários foram substituídos pelos negros, mandados para casa sem a necessária subsistência aos anos vindouros. Pois! Agora os funcionários bóheres que não acautelaram suas economias, andam a jogar bolas nos robotes, semáforos como os palhaços do circo, para subsistir ao abandono social do novo estado de Pretória.

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Vá-se lá entender a pedagogia de produzir surpresas em novas experiências sociais como esta tão desagradável. A Kianda Pieter mantinha-se ausente neste nosso bate-papo. Olhava de soslaio no ar rarefeito de sua áurea de sabedoria vendo os bois a pastar do lado de Angola, a outra margem que dava para o Dírico. E, num repentinamente fala: - Essa concepção de racionalismo opõe-se à filosofia que professa que as ideias se deterioram quando aplicadas às coisas e procedimentos, depois vem a ineficácia com sequente deterioração na coisa pública e privada.

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Pópilas! Januário falou certo como nem meus amigos sociólogos costumam dissertar. Na contraluz da sorte como se estivesse no “Empera´s Palace” de Johannesburg ouvi o grito de “bingo” quando só me faltavam três números dos nove escolhidos. Era a pizza margarita, ainda fumegando que chegava da cozinha da Dona Elisabette; Meu estômago já titubeava uns gargarejos que subiam ao esófago - esta gente aqui em Sud’África não almoça!?

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O conhecimento da realidade moldada pelas teorias modificam-se assim como numa paisagem vista num nascer ou em um pôr-do-sol, uma kúkia que se confunde pela ordem das razões e nem sempre na teoria adequada. Um bingo! A ordem das razões, valorizam a ordem dos factos em detrimento do bem social. Não há maior religião do que a verdade! Com este pensar de Dalai Lama na cabeça e passeando por África, vi gente branca, (também negros) a pedir nos semáforos, nos parques de estacionamento, um pouco por todo o lado. Trazia na minha mochila palavras de apreço mas, jamais as poderei usar aqui no bom sentido!

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Passeio por terras idílicas que contrastam suas belezas, doirados e arredondados montes com seu verde, flores de Augrabies, penedias com secura e ainda o azul do mar; dos sargaços bailados em meus sonhos como ondas aonde se pode ver o redondo do horizonte nublado por ideias e ideais torpes de governantes perpétuos. Mas estando eu num planalto africano e a mais de 1600 metros de altitude pude em conversa saber que a áfrica fica a cada dia que passa, mais longínqua para os brancos. A estas apreciações Januário Pieter nada diz; na sua qualidade de super-star kianda, não entra nesses detalhes minoritários.

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Levei a cabo a travessia desde Cape Town até à Cidade de Maputo, antigo Lourenço Marques. Passando por Windhoek, Walvis Bay, Victória Falls, Lago Kariba no Zambeze, Tete, Beira, Chimoio, Macia-Bilene e por fim Maputo no ano de 1999. Mas, foi aqui na região da Ovambolândia que atravessei ilegalmente o Cubango numa tosca jangada construída sobre seis tambores. Só queria mesmo pisar o outro lado do sonho e foi quando me encontrei com um velho bosquímano do lado de Angola que fiquei a saber que meu sonho se tornaria lenda. Em uma casa de taipa, um kota costureiro, curtia com serena quietude sem portas nem janelas em chão de areia e, num ar que ziguezagueava frescura entre panos garridos. Não sei como aqueles panos chegavam ali e, saídos do Kongo, talvez um estoque antigo dum Tuga! Na rua de terra, os galináceos picavam reflexos de lama em gaiolas de pau entrelaçado à sombra de velhas acácias. Homens pesarosos, refilavam merdas, só por refilar, descarregavam um velho camião bedford. África, andava por aqui agarrado ao medo da sua sombra. Por vezes, era assim com coisas banais que ocupávamos as vírgulas do nosso tempo no lugar do Mukwé…

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

mlibize kariba1.jpg GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mwadié – Branco; Cucaracha- barata; Kúkia – Sol, pôr do Sol; Mujimbo – boato, diz-que diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato;  Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Tambulakonta – Toma nota, fica atento; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:50
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Sábado, 19 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXL

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XX – 18.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba001.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Nos dias que se seguiram na beirada do rio Cuando que aqui tem o nome de Okavango e, do outro lado da margem, no lugar de Ovambolândia da Namíbia, Januário Pieter - a kianda, já aparecia no D´jango de Mukwé sem fazer aquela fumaçada com cheiro a mofo de trezentos e noventa e quatro anos. Embora tivesse sempre aquele jeito e forma de holográfica figura, assim como uma máscara de cera repenicada de minúsculas partículas fosforescentes encarquilhadas de velhice, era cordato e sempre aparecia com um cheiro silvestre diferente, misteriosamente mais penetrante do que o perfume “Aramis”.

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As tardes continuavam a fazer-se vermelhas no horizonte poente e, de vez em quando, umas bátegas fortes de água precedidas de trovões que rebolavam o sótão de nossas cabeças até esconderem entre carregadas nuvens; estas, refrescavam o ar muito áspero de tórrido calor sentindo-se em seguida aquele cheiro que sai da terra. João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans, fazia por estar sempre presente. As conversas eram bem variadas mas o mote mais interessante dos diálogos vinham da sapiente Kianda.

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Januário, tinha o condão de nos prender às descrições com efeitos de arrepios, uma reacção de outro mundo, sensações tão estranhas que até parecia navegarmos numa dimensão quântica, coisa que nem sei bem definir porque for vezes nosso corpo ficava num formigueiro agridoce. Nesta conversa rebrilhando actos antigos, Pieter sempre buscava recordar coisas de Angola. Claro que eu e Miranda estávamos propensos a coisas acontecidas e, que o tempo embrulhou junto dos mujimbos embrutecidos. Nossos sentidos apurados ouviram então:

- Carlos Fabião, o general vermelho designado para lidar com o PAIGC e Flávio Bravo, membro do bureau político de Cuba, em Julho de 1975, encontram-se com Agostinho Neto no Congo Brazaville.

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Demos em sintonia uma golada de supetão no café saído quentinho da chaleira ali na fogueira do D´jango. Aquelas gotas de cachaça do M´Puto no café mistura de Amboim com S. Tomé eram mesmo as requeridas para os ouvidos, uma comunicação interna entre estes e o canal digestivo. Januário depois de um compasso de espera continuou: - Fabião, Flávio Bravo e Agostinho neto, acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota e que ficou conhecida como a Batalha de Luanda. Entre Maio e Junho Fidel de Castro inicia a concentração de unidades em Cabinda e em Julho, acelera a infiltração de seus legionários em Angola, jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água”.

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Castro, pede ao Coronel Saraiva de Carvalho mais recursos para o MPLA e condições de infiltração em Angola em sítios estratégicos ao redor de Luanda. Assim, a partir de 26 de Julho de 1975, começam a chegar ao Ambriz em aviões C-130, batalhões de Catangueses que antes actuavam na Lunda contra o MPLA: Estes guerrilheiros Catangueses, dissidentes do então governo de Kinshasa, num total de 6000, foram aliciados a servir o MPLA em um acordo secreto em terras do Leste de Angola; o vermelhão Rosa Coutinho liderava estas diligências.

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Embevecido, João Miranda do Mukwé era todas orelhas! Resmungava como que rosnando e eu ali em pulgas tremendo de ansiedade numa overdose, mais um trago e escutando: -Esta complexa Operação Carlota, consistia em assistir ao MPLA a fim de tomar a liderança na tomada de Angola, formando uma ponte entre Cuba e Angola. Tropas e material eram embarcadas em velhos aviões Britannia na base de Holguim, a ocidente de Cuba; estes aviões faziam escala em Barbados no aeroporto de Bridgetown.

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A intervenção Cubana em Angola, nos inícios de 1975, não foi uma reacção à invasão Sul-Africana remata Miranda saído da letargia aparente; isto é posteriormente afirmado pelo General Cubano Rafael Del Pino, concluiu. Neste relato da conversa com Januário Pieter recordo agora que até lhe tinha tirado o rumo da conversa pois que o interrompi ao perguntar de como é que foi desmantelada a força da FNLA. A isto, a Kianda respondeu-nos: - Diaz Arguelles responde às forças de Holdem Roberto com a artilharia reactiva de 122mm (misseis).

A partir de cinco de Novembro, 650 tropas especiais de artilharia às ordens do General Pascual Martinez Gil, chegam durante 13 dias ao aeroporto de Luanda directamente de Havana.

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- Migs 21, saídos do antigo Aeroporto Craveiro Lopes à guarda dos Tugas, picam sobre as forças de Holden Roberto além Kifangondo, chacinando-os, ... Um massacre, ... Morreram como coelhos. – Meus amigos, se quereis saber mais pormenores, têm de falar com gente Kianda de Bom Jesus, Catete e claro da Praia do Sangano em Cabo Ledo. Talvez alguns kotas de lá, vos possam contar estórias desses primeiros e últimos dias da Operação Carlota pois que tiveram de conviver com os Cubanos, oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. De todo o modo a Kianda Mr. Google vai dando mais alguns detalhes! (... Mr. Google? …)

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Fidel de Castro ao enviar suas tropas a 14.000 km da costa cubana, respondeu ao trato com seu amigo Agostinho Neto e seu Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), que acabava de chegar ao poder após a retirada portuguesa. Neto enfrentava a ameaça das guerrilhas de Holden Roberto “apoiado pelo Zaire” e da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), de Jonas Savimbi, que agia com o respaldo e participação da “África do Sul”. Velhos e novos aviões e navios mercantes entram em cena. Castro em Outubro de 1975, enviou um contingente militar por avião através do Congo-Brazzaville, para impedir que aquelas forças tomassem Luanda antes de 11 de Novembro, dia que se proclamou a independência. Mais uma vez, adiamos nossas odisseias com os khoisans…

áfrica19.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Boligrafando – escrevendo com esferográfica; Januário Pieter – Uma assombração, kianda assistente, calunga das águas; Mujimbo – boato, diz-que,diz; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:35
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIX – 11.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios)

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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A verdade é como o azeite, vem à tona de água com o tempo; as memórias que antes eram mugimbos, tornam-se agora verdadeiras. Já a tarde se fazia noite quando eu e Januário Pieter nos voltamos a encontrar na beirada do Okavango e desta feita com João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans. Foi este o homem que chefiou esses especialistas do arco e flecha na invasão dos Sul-Africanos do Batalhão Búfalo- 32 tendo chegado às margens do rio Cuvo - Keve junto às quedas da Binda, entre a Gabela e o Sumbe… Após um pequeno estampido, um fumo feito holograma faz-se gente, e nós, num surpreendido susto, demos cada qual seu salto entornando os copos de cerveja Windhoek em nossos zuartes. Este inesperado susto deu lugar aos comprimentos perante a admiração espacial de Miranda. Tive de, muito na calma dizer-lhe ser este velho senhor uma Kianda que me acompanha desde nosso primeiro encontro em Jablines de Paris de França e quando pela primeira vez fui ao famoso parque da Disneylândia com minha neta!

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Surgindo de quando em vez, ali está ele a clarear coisas obscuras que ocorrem em nossas cabeças, coisas ainda por falar entre nós mas que ele desbravou em sua lanterna fosfórica do tempo. E sem mais nem porquê ali está ele pronto a falar connosco por via de pensamentos dúbios que normalmente vociferamos nas conversas banais. Essas coisas da arca-da-velha a fazer de vírgula nos acontecimentos. Só direi que este kota Kianda, seco de carcomidas carnes tem a bela idade de 394 anos. Como o tempo não nos rugia, recordei depois dum abraço longo e largo do tempo em que sentados em uma esplanada “Plaza Mayor” de Burgos de Espanha, ouvi Pieter descrever as descobertas feitas na sacristia do “Monastério de la Cartuja”.

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Recordo dez anos trás teres-me dito que um teu tio seguindo as pisadas de seu pai Lestienne não sei das quantas, francês, poderia escrever em um livro sobre as judiarias ainda não reveladas da estória difusa e confusa do início da reviravolta em Angola. Não me esclareceste isto nessa altura porque estavas com pressa. Também afirmaste ser isso tarefa para mercenários da escrita ou fazedores de mambos, recordas? Miranda assistia à nossa conversa sem vislumbrar peva de qual era o objectivo desta longa introdução assim sem capítulos nos preâmbulos mas, logo espevitou as orelhas quando se falou na alteração do rumo à história da guerra daquele tempo no lugar de Cabo Ledo e na praia de Sangano. Pois disse eu abrindo as duas mãos solicitando atenção Pieter! Em verdade tu (ele) falaste das meias verdades contadas por Pepetela e um tal de Tchiweka, o homem segredo conhecido por Lúcio Lara, o grande ajudante em campo do Vermelho Rosa Coutinho, o Almirante.

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Não! Não é bem assim como dizes, disse abanando seu templo reluzente de sapiência: Esse meu tio de há quatrocentos e dez anos atrás, rumou até Cádis e no Puerto de Santa Maria no Sul de Espanha embarcou à descoberta das Américas. Ele nunca esteve em África! Agora essa estória de Cabo Ledo, minha terra natal, é só minha! Fui eu que a vivi! Diz peremtóriamente para ficar claro na minha debilidade. Pois é, fiz confusão pela certa, disse eu fazendo um trejeito de muxoxo mal disfarçado para Miranda do Mukwé inclinando a cabeça na forma de dizer aconteceu… Pude ler seu pensamento: - Aguenta parceiro!

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Mas, o que é que esta Kianda de trezentos e noventa e quatro anos sabia das artimanhas do glorioso PREC - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, combinado unha com carne com o glorioso MPLA? Isso! Das coisas que desconhecíamos ao pormenor por tão bem escondido de todos. A verdade é como o azeite! Rosa Coutinho marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas pois que teve o seu início numa gaiola. Em verdade, foi Holden Roberto como patrulheiro da fronteira do Zaire que fez passear em jaula como um macaco, o Vermelho General. Bem! Isto já era do nosso conhecimento, meu e de Miranda…

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Como já disse, as aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim, são uma permanente descoberta de novos pedaços de infinito. E, Pieter descreve: - Por entre os cactos das barrocas, entre a bruma da maresia e clareando, vi centenas de militares percorrer o areal, reunir apetrechos de guerra, subir para carros do tipo unimog e galgarem a montanha da costa a caminho do quartel, uns galpões construídos lado a lado e que seriam as primeiras casernas daquela gente que vim a saber pouco depois serem Cubanos. Estávamos em fins de Julho do ano de mil novecentos e setenta e cinco.

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Mas, interrompo: - Os Cubanos, pelo que consta, só a cinco de Outubro desse ano, é que chegam a Angola. Foi o que sempre disseram quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês souberam o que Rosa Coutinho queria que soubessem. Foi na praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”; os instrutores deste equipamento sofisticado estava a ser coordenado pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville eram enviados numa primeira fase em aviões mais pequenos para a pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

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Andrei Tokarev afirmou que o seu comando enviou oficiais e sargentos que se aquartelaram em instalações abandonadas pelos Tugas: estes quarteis contornavam Luanda que em sequência das orientações do agente vermelho Rosa estavam ao abandono. Por esta altura desde Kifangondo passando por Katete, Colomboloca, Kassoalála, Kassoneca, Dondo, Massangano, Muxima, e descendo o rio até a foz do Kwanza e Cabo Ledo já estava tudo queimado: Ficaram algumas estruturas de pé para assegurar bivaque aos novos guerrilheiros e instrutores do MPLA.

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- Tudo o descrito só é possível a partir da chegada a Luanda do Vermelhão Rosa como Presidente da Junta Governativa de Angola precisamente em Julho de 1975 -Estava tudo traçado, continua Januário Peter. Rosa Coutinho, tempos antes como Alto-comissário escreve uma carta timbrada do antigo Gabinete do Governo Geral de Angola a Agostinho Neto, presidente do MPLA nos seguintes termos: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do processo: Aterrorizar por todos os meios os brancos, matando, pilhando, e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos,...” A Carta é datada a 22 de Dezembro de 1974, terminando com saudações revolucionárias, a vitória é certa, seguindo-se a assinatura, Alves Rosa Coutinho, Vice-Almirante.

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Recorde-se que a tropa Tuga, foi proibida de entrar nos musseques a fim de proporcionar “O poder popular”, simultaneamente retirando as armas em posse dos brancos. Há muitos buracos por preencher. Lúcio Lara, o “Tchiweka”, já pode desvendá-los, antes que se deturpem. Isso é verdade sim! Mas, nessa altura o assunto tinha explodido as veles de ignição de nossos medos, nossas preocupações; nossas cabeças eram uma revoada de coisas ruins…Vivi esta estória amigo Januário, disse. E, acrescentei: - O medo tomou conta de todos com ajuda da FUA, liderada por um tal chamado de Falcão, acrescento eu para a Kianda do Cabo Ledo. Falcão ou falsão? Disse João Miranda do Mukwé. Neste início de noite ficamos assim sem mais falar dos Khoisan…

miran03.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:27
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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVIII – 26.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Falando dos Khoisans neste ano de 2019, não sei se os exploradores Tugas de outros tempos davam importância a alguns factos mas, se o fizeram ficaram relegados para segundas núpcias de estudo nos cadernos africanos do tempo da tzé-tzé. Serpa Pinto recebeu a missão de estudar no Alto Zambeze a construção de uma linha de caminho-de-ferro que assegurasse a ligação do lago Niassa com o mar; apoiado com uma forte coluna militar, junta-se mais tarde no baixo Catanga a outra coluna portuguesa vinda do Bié, sob o comando de Paiva Couceiro.

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Portugal deu assim início a várias acções de ocupação naquela área de África entre 1887 e 1890; Artur de Paiva ocupou o Bié e Paiva Couceiro foi enviado para o Barotze aonde numerosos sobas prestaram vassalagem a Portugal, procedimentos daquele tempo. Tendo isto em vista, os ingleses começaram a aliciar os chefes indígenas das regiões visadas, incluindo aqueles que já tinham prestado vassalagem a Portugal como os Macololos e os Machonas e até o célebre régulo de Gaza, Gungunhana. Os resultados da Conferência de Berlim, acordaram Portugal para a realidade – Sua força estava depauperada…

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Se bem que o esforço estratégico tivesse sido orientado para África após a perda do Brasil, pouco se tinha feito por via da instabilidade da vida político-social da Metrópole, o M´Puto e das extensas vulnerabilidades existentes. Tendo eu atravessado o Botswana em inícios do século XXI retive da estória que este país começou a ser desvendado por exploradores a partir do século XVIII, dando-lhe o nome de Bechuanaland mas, após a sua independência a 30 de Setembro de 1966, toma o nome de Botswana com junção do prefixo "bo" que quer dizer homem em língua Bantu a de "Tswana", nome da tribo mais numerosa daquelas paragens.

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Antes dos pormenores descritivos da viagem em terras do fim do mundo saindo e chegando ao Divundo de Caprivi, lugar dos Miranda do Mukwé e, um entroncamento de vivência de diferentes países, convêm relembrar que os aborígenes habitantes ancestrais do Botswana foram os bosquímanos (bushmen), khoisans, caçadores-recolectores que se espalharam pelo grande Kalahári e deserto do karoo. Em uma outra viagem anterior tive oportunidade de observar estes indígenas errantes no seu meio natural; foi no Kalahári Gemsbok National Park entre Twee Rivieren e Bokspits, um lugar ermo, divisão de fronteira que os vi pela primeira vez e, em uma situação não previsível..

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Ali estava um grupo entre a picada usada na mulola de um rio seco e, que paramos para fornecer água a esses pequenos seres de tês parda, secos de carnes, vestindo pequena tanga taparabos; deslocavam-se em pequeno grupo com algumas lanças e flechas mais apetrechos simples. As mulheres distinguiam-se por levarem ornamentos na forma de pulseiras nos tornozelos. Enchemos suas cabaças ouvindo um linguajar de estalidos do jeito de macancala que creio ter sido de agradecimento, misturados com sopros de suspiros e aspirações guturais do qual nada se entendeu. As mulheres levavam imbambas de cozinha, enxadas de ferro afiado e enfiado no nó de um tronco robusto a fazer de cabo e trastes envoltos num saco em cabedal. Tudo estava suportado nas costas por uma tira ornamental e larga com bonitos desenhos que se ajustava à testa.

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Realizando regulares eleições o Botswana, ao invés de outros povos de África, é considerado um exemplo de estabilidade política. É um grande planalto árido situado bem no interior de África meridional. É daqui que saem para o resto do mundo os mais puros diamantes dando ao povo um modo de vida melhor equilibrada do que a grande maioria dos países do continente negro. Os principais grupos étnicos são os Tswanas, Kalangas, Khoisan entre outros dos quais os brancos nativos dali e indianos que para ali foram saídos do Quénia, Zâmbia, Tanzânia, Ilhas Maurícias, África do Sul e principalmente do Zimbabwé aonde a instabilidade ditada por Robert Mugabe a isso os obrigava.

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Lendo descrições antigas dos khoisans revejo-me como se fosse Silva Porto a descrevê-los. Magros, ossudos, envoltos em peles de panteras ou chitas e com os cabelos penteados em tranças longas. São estes os grandes caçadores desta parte de África; dóceis e selvagens no aspecto como sempre os referem, descendo e sobindo ao longo das linhas de água, rios que os mata a sede com seus charcos; T´chimpacas naturais com nomes de t´chicapa e, em terra de mwene- mãe nos sertões com nomes de Lubuco ou Lubo, distantes do principal rio, o Cassai, aonde as manadas de elefantes são às centenas.

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Os cadernos coloniais referem que nestas suas correrias e naquele tempo de descobertas, estes, vendiam ao desbarato dentes de elefantes, borracha e mel. O major de infantaria, Alexandre de Serpa Pinto, realizou a viagem de Luanda ao Natal, em 1879; e os oficiais de marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em 1885 exploraram todo o sertão de Moçâmedes a Quelimane, num percurso de 4.500 milhas no intuito de ligar Benguela de Angola à Beira passando por Tete e, terminando na Beira Moçambique no Oceano Indico. Estas viagens causaram a admiração na Europa e glorificaram o nome de Portugal mas…Mas, tem sempre um mas! Naquele tempo havia um Inglês que dizia que aquilo era tudo dele; chamava-se Cecil Rodes e, este pretendia fazer uma linha de caminho-de-ferro desde a Cidade do Cabo nas terras descritas pelos portugueses como do Adamastor ou das Tormenta até ao cairo no Egipto.

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Pois este, não fez, nem deixou fazer. Um imbróglio que mete o tal mapa Côr-de-Rosa que nunca desabrochou como Flôr. E, tudo apenas para numa farsa diplomática cortar o mapa Tuga a meio... Sabemos agora que este rail chega à Tanzânia mas, diga-se que mais depressa chegaram os portugueses com o CFB à fronteira do Zaire no rio Luau... Com destino à cidade de Fracistown, lá prosseguimos viagem a partir de Maun por estrada pavimentada rolando quilómetros na savana, vendo de quando em vez, aglomerados de kimbos. Com os restos de murmúrios falsos, tinhamos a ideia formada de que o Botswana era um país esquecido com muitos burros mortos na estrada e desordenadas lixeiras, a comparar com outros países aonde impreparados chefes exibem arrogância impregnada de devaneios mal curtidos mas, foi um total engano.

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Logo à entrada em Popavalle ou Popa Falls, um posto fronteiriço, deparamos com o aprumo de agentes aduaneiros que nos atenderam duma forma surpreendentemente civilizada ao invés de outras anárquicas fronteiras aonde tudo se resolve com uns quantos dólares de gasosa. Estes, na forma de quilombos com palhiça em circulo e, a contornar palhotas redondas, rondáveis feitas a barro, bosta de boi e chinguiços, formavam conjuntos harmoniosos numa vastidão de capim ralo. Conhecer a terra é em verdade um laboratório de vida constante porque nos purifica e regenera. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções recolhidas na terra…

lifune0.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

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GLOSSÁRIO: Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Rundu, – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Potcheftsroom – Cidade sul africana; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Undenge ami mu muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada...

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 2 de Outubro de 2019
CAZUMBI . LVI

A ROLETA DA VIDA - Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …

- …Engolir sapos vivos sem vomitar… 28.09.2019

Por

canhot3.jpg António José Canhoto - (James Spenser)  

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo

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Para todos aqueles pobres e remediados que passam toda ou parte das suas vidas a tolerar e engolir sapos vivos sem vomitar, ordens ou directrizes de terceiros sem tugir ou mugir, pois as necessidades da vida assim os obrigam e condicionam, vir a ser rico é um sonho e uma obsessão, por isso jogam semanalmente em lotarias, raspadinhas, totolotos e totobola. A sujeição permanente desses trabalhadores a ter de aceitar durante a vida jogar com quem dá as cartas marcadas ou lança os dados com pesos dentro para rolarem de forma a que o número 6 saia sempre, é uma situação de inferioridade, menoridade e submissão, é jogo que nunca ganharão. Estes, a partir do dia que aceitarem o seu primeiro emprego já estão vencidos e derrotados.

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A roleta da vida dá muitas voltas e quando muitas vezes sentimos o peso do mundo que carregamos às costas, noutras mercê de circunstâncias inesperadas temos o privilégio de estarmos sentados confortavelmente no topo dele usufruindo de termos à nossa volta um batalhão de servos pagos para adivinharem e satisfazerem os nossos caprichos ou fantasias sonhadas. Anteriormente alguém ditava as regras do jogo que iríamos jogar, a partir de agora serão vocês a escolher os parceiros com quem quereis jogar divertir-se e gozar a vida, pois ganhar ou perder deixou de ser relevante.

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Ser domador ou domado não são opções de vida onde a maioria das vezes não temos essa escolha, ser leão de circo treinado nunca é leão adulto e selvagem das savanas africanas, só acontece quando estes são apanhados em tenra idade; com os humanos acontece exactamente o mesmo. Estar na mó de cima ou na debaixo faz uma enorme diferença, menos para aqueles que nascem ricos e que desde o berço ditam as leis de como a roleta deve ser jogada, ou seja, quem vão ser os burros e quem se lhes vai por a carga em cima. Infelizmente a vida é mãe para uns e madrasta para outros, dependendo muito do tipo de berço onde nascemos. Se viemos ao mundo em África e mamamos directamente das tetas da cabra ou do camelo.

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Mais tarde a qualidade da nossa instrução e educação depende se frequentamos escolas, universidades privadas ou públicas ou ficamos apenas pelo ensino básico. Existem hábitos diferentes entre ricos e pobres. Ricos vão a concertos de música clássica, enquanto que os pobres vão ver os artistas pimba da moda que cantam música a metro ou ao kilo. Ricos, ou brasonados falidos, têm mais de 10 longos e pomposos nomes começando por Dons enquanto que os pobres apenas se chamam Maria ou Manuel. Existe pois uma diferença mental, social, comportamental e idiossincrásica entre ricos e pobres, entre mandantes e mandados, leaders e seguidores, vencidos e vencedores.

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Poderei dar exemplos de como se diferenciam os ricos dos pobres. Pobres não têm certezas, ricos são confiantes, estão focados, sabem o que querem, para onde vão e quando desejam chegar, os seus “timings” e decisões são pensados e cronometrados. Os pobres buscam desculpas; ricos procuram o sucesso. Pobres assumem, ricos têm a certeza. Pobres fogem às responsabilidades de assumirem as suas culpas, ricos aceitam os erros como lição e aprendizagem. Pobres vivem em função do dinheiro, os ricos investem no tempo para aprenderem e evoluírem.

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Pobres fazem competição, apunhalam-se pelas costas e lançam cascas de banana para os colegas de trabalho escorregarem; tudo para se sobressaírem e ficarem bem vistos aos olhos dos chefes. Os ricos juntam-se no clube de golfe para fazerem 18 buracos, beberem uma cervejas frescas, falarem das suas amantes e sobre os seus mais recentes investimentos e sucessos financeiros. Pobres são por norma, descrentes, queixam-se de tudo e de todos, da mulher, do tempo, do chefe, do governo, do ordenado, dos colegas e do carro que guiam que está sempre avariado. As culpas dos insucessos dos pobres são deles mesmo.

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Os ricos por outro lado estão gratos e felizes da vida que têm e apenas se queixam do dia chuvoso que não lhes permite jogar golfe com os amigos. Pobres quando desejam montar um negócio na sua área ou bairro procuram um já existente que seja bem-sucedido para o copiarem, ou então, se têm uma ideia diferente, buscam conselhos e opiniões de colegas, amigos fazem preces e orações aos seus deuses pedindo as suas graças para que as suas vidas mudem ou os seus negócios prosperem. Enquanto isso, os ricos procuram conselhos de profissionais, fazendo aquilo que se chama um estudo de mercado.

araujo10.jpg :::8

Estudo esse baseado nas seguintes premissas: Quais as suas capacidades empreendedoras e profissionais para ser bem-sucedido. Quais as suas fraquezas em relação aos seus concorrentes. Quais as ameaças dos competidores no mesmo ramo e qual o valor acrescentado que se poderá trazer a esse mercado e, nele inserir um nicho não explorado. Quais as tendências: a curto, médio ou longo prazo, pois o que é moda hoje pode ser mono amanhã. Pobres ou remediados compram televisão grande, ricos compram livros para enriquecerem o seu conhecimento. O pensamento das pessoas muito pobres está voltado para cada dia; o das pobres para cada semana; o da classe média, para cada mês; o das pessoas ricas, para cada ano e, o dos milionários, para cada década.

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Ricos falam sobre ideias, pobres sobre coisas, pessoas, vizinhos, revistas cor-de-rosa ou novelas televisivas. Ricos são inspirativos, fazem o mundo girar, pular e avançar e as coisas acontecerem. A classe media fala sobre as coisas que os ricos promoveram e observam mudos e quedos os resultados, enquanto os pobres se limitam a perguntar “O que aconteceu.” Os ricos trabalham visando o lucro, os pobres trabalham visando a obtenção de um salário. Ricos investidores assumem um risco calculado, a classe media e pobre tem medo de investir, e, mesmo que fique rico da noite para o dia a sua mentalidade não está orientada de como gerir riqueza, mas sim para gastar e satisfazer caprichos e os sonhos de quando era pobre.

arau45.jpg :::10

Ricos concentram a sua actividade para aumentar o seu património, pobres concentram-se, na expectativa de serem aumentados no seu salário. A ignorância dos pobres é aterradora e confrangedora. Basta abrir o Facebook no Feed Noticias e ver que há um elevado número de pessoas que compartilham publicamente as suas opiniões vazias e rasas ou fazem perguntas que um adulto culto e inteligente deveria saber e, caso não soubessem bastaria ir ao Google encontrar a resposta. São pessoas mentalmente preguiçosas vivem na mais profunda escuridão da ignorância, não progridem ou evoluem, pois, a sua mente está sempre engatada em marcha atrás. Os ricos usam o termo NÓS os pobres usam EU. O rico procura qualidade, o pobre procura preço, promoções, ofertas e descontos, esquecendo-se que quem compra barato compra duas vezes. Os pobres copiam e competem, os ricos criam negócios originais.

António José Canhoto - 28-9-2019

Ilustrações aleatórias de Costa Araújo – Escolhas de T´Chingange



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Sábado, 28 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVII 28.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OTJOZONDDJIUPA DO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos– Perto do Okavango, em Fiume- estado livre,  dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga… Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Andando por terras da Namíbia e antes de chegar ao Rundu, pernoitei no “Estado Livre de Fiume”, uma fazenda quase tão grande como o original Fiume, uma terra situada na Europa, que já foi Italiana, já foi Croata e, desde 1947, pertence à Iugoslávia. Pois isto parece irreal em África mas aconteceu! Dado que os homens para tudo querem explicações, eu também quis saber um pouco da história do lugar aonde passei a noite de 29 de Dezembro de 2014 - cinco anos atrás; surpreendi-me, pois que a este lugar com 14 km2 foi dado o nome de Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.  

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Ora bem, Fiume foi uma cidade-estado da história contemporânea, que existiu entre 1920 e 1924, actual cidade de Rijeka, na Croácia pelo tratado de Paris e integrada na Jugoslávia no ano de 1947. Este Fiume Lodge e Game Farm, mantêm sua excêntrica soberania ostentando a bandeira da Croácia de forma simbólica. Com metade da área daquela parcela europeia tinha Jorn Gresssmann, um jovem alemão como zelador-mor de uns quantos habitantes khoisans residentes e uns quantos turistas ocasionais que por ali chegaram. Por uma noite fui um fiumano…

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Os demais habitantes são bichos tais como girafas, elands, kudus, orixes, zebras, springboks e avestruzes entre outros de mais pequeno porte como a capota. Tive de abrir três portões até chegar ao conjunto de lapas, chalés bem ornamentados e cobertos a capim do okavango formando um complexo de apartamentos e um outro conjunto formando a recepção, bar, restaurante e cozinha. Entre o bloco de serviços e os chalés lapa em forma oval está disposto um agradável jardim com grama e plantas exóticas ornamentais enfeitando o conjunto com piscina, d´jango de descanso, lugar de braseiro e árvores de porte bonito autóctones. 

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É deveras curioso encontrar assim vastos territórios com uma aparente autonomia especial! Já deparei com isto às margens do Orange com um território chamado de Orândia com moeda própria, bandeira e outros requisitos de gestão diferente do resto do país; do espaço casino de Sun City e Pilanesberg com um estatuto especial e do espaço Farm Parys- Free State às margens do rio Vaal perto de Potcheftsroom.

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Em realidade Fiume Lodge e Game Farm é um oásis no meio de um nada, oceano verde de espinheiras, acácias e muitas outras árvores como a tão conhecida amarula e, da qual é de suas bagas extraído o melhor licor do mundo. Até este núcleo habitacional, tive o cuidado de ir a passo de morrocoi - tartaruga tendo-me desviado de um cágado passeando ao longo da picada. A receber-nos lá estava Jorn desfiando seu austero calendário; deu-nos dez minutos para início do jantar que impreterivelmente era servido às sete horas.

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E, foi muito agradável este início da noite, nós comendo um jantar supimpa, deliciando-nos entre outros acepipes com carne de gnu e de eland fechando com creme de manteiga escocesa, assim ao jeito de baba de camelo. Mas, o mais admirável era podemos ver dali através duma larga vitrina os muitos kudus que ali vinham beber entre avestruzes e springboks como se sentissem obrigação de se exibirem a nós. Foi mais um fim de dia com surpresa inesperada, um “enjoy you stay” no requinte da sempre agradável Windhoek lager.

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Mas e voltando à estória daquele espaço, sabendo que entre os cidadãos de Fiume de etnia italiana, um grande número emigrou por motivos étnicos já quase nos finais da segunda guerra mundial; também para fugir às ideologias de Hitler e suas perseguições aos judeus com outras razões ideológicas, que hoje nos causam forte repulsa. E, sendo a Namíbia um território colonial alemão, aqui fundaram suas "Comunas Livres de Fiume no Exílio" e, à qual aderiram numerosos fiumanos; surgir assim de aqui, um território colonial mais brando nas questões politicas, penso eu, neste nome e, num lugar tão distante.

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Tenho a dizer que a todas as perguntas que me possam fazer, não poderei dar todas as respostas porque nem sempre as estórias e lendas, conservam alguma relação com os factos, transformando-se até em puras fábulas, que será o caso de uma Croácia de 14 km 2 em pleno mato na terra do nada, para satisfazer um sonho de alguém fugido da guerra. A tempo de eu ver o principio do nada, tomei o breakfast às sete horas do outro dia confirmando o legitimo cuidado do Free State, uma simbólica herança, um perfeito sonho de um primogénito em terra de nome bizarros como Omatako, Okavarumendu, Otjssondu, Okakamara, ou Otjinoko. Já só restavam 440 km para chegar à Andara do Okavango.

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Estando já com João Miranda de Mukwé relembrando tudo o que vi no Fiume, aventei a hipótese de se nós saídos de Angola, os brancos maioritariamente, tivéssemos um espaço assim em uma qualquer parte do Mundo, Amazónia na cidade de Fordilândia, um Vale do Vaal em Potcheftsroom ou Okavando, numa área como a do Khaudum National Park, aqui bem perto, talvez hoje pertencêssemos a um “Free State”. Isso é muita areia para minha camioneta, diz-me João Miranda. O Mundo não reconheceria tal coisa! Ou reconhecia? Também creio que não, mas seria bem melhor! E rematei: - Os filósofos, necessitam tanto da morte como das religiões porque, filosofar é aprender a morrer entorpecido.

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Para todos os efeitos, sempre seriamos uns carcamanos brancos a rever os cheiros e sabores de áfrica dos negros. Não é isso o que sempre dizem! Dos slogans dos dois países, Portugal e Angola dissipadas as verdades, ouvidos os verdugos, definitivamente a Vitória ficou para alguns e a Morte para os demais. A gadanha da morte feito catana, para muitos, chegou antes do tempo. Por isso a necessidade de filosofar e, porque no consciente do povo subjugado- NÒS, fica a repulsa, nojo, repugnância e asco de governantes que se perpetuaram imerecidamente no poder…

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

okakau1.jpg GLOSSÁRIO: Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Rundu, – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Potcheftsroom – Cidade sul africana; D´jango – Casa de reunião, lugar de assembleias do povo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Undenge ami mu muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada;

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:09
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Sexta-feira, 27 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXVI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XVI27.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos antes e depois do século XX – No rio Okavango, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga… Nossas vidas têm muitos kitukus… um uuabuama da Dipanda*

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Indiferente ao tempo e às nossas vidas, estando num lugar chamado Algarve do M´Puto ou Miranda do Mukwé na Namíbia ou em Chaves de Trás-os-Montes, a maioria do povo bushmen – khoisan, o povo mais antigo do Mundo, continuará a viver em choças, cubatas ou libatas cobertas a capim e, em pequenos aglomerados; por vezes estes sítios encontram-se a centenas de quilómetros de distância da cidade mais próxima. Para sua execução juntam uma boa quantidade de paus direitos e de alguma flexibilidade que depois são curvados e enterrados no solo pelas extremidades.

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Estes são amarrados ao centro com mateba ou outras raízes que se rasgam dos caules, uma tira de casca retirada de uma árvore ou arbusto, mas e, também raízes soltas da areia e, que entrelaçada dela fazem cordame. Atravessando eu o Karoo a Sul do Botswana, no Kagalagedi Transfontir Park, cruzei com khoisans avermelhados e secos de pele, só com uma tanga e taparabo. Nem sei como conseguem aguentar tamanho frio que faz de noite naquele deserto aonde até o vento, nem se vê bulir. A temperatura baixa drasticamente assim que o Sol se põe, podendo ir abaixo dos zero graus.

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Depois de passar Askham ainda na África do Sul e, na estrada R31, pude apanhar um susto quando olhei para o conta-quilómetros e vi o ponteiro demasiado baixo; fiz contas e roguei que encontrássemos uma bomba de gasolina mas, nadica de nada, nem carros a cruzarem comigo! – Estamos tramados, disse ao resto dos passageiros, minha mulher, a enfermeira Tilinha e meus dois filhos na idade da felicidade. Não devia ter dito nada porque de repente todos estavam a fazer figas para que a gasolina desse até o purgatório; Desligando o carro nas descidas e balanceando-o na mente, Nosso Senhor, meu tio que está no Céu ajudou e bem até avistarmos a milagrosa bomba do cú do Mundo e onde Judas perdeu as botas…

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Creio que foi na Via C16 e perto de Aroab da Namíbia que respiramos fundo e de alívio pelo néctar do Nissan 1600. Nosso destino era o cruzamento de Keetmanshoop não muito distante da linha do Trópico de Capricórnio. Percorrendo o deserto do Karoo africano, normalmente vêem-se milhares de acácias com espinheiras do tamanho dum lápis mas, aqui elas eram escassas; havia sim, tufos de arbustos secos junto às pedras, pedregulhos e pedrinhas junto com cactos ressequidos, talvez e em um ou outro sítio a tal planta chamada de shoba…

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Podia ver em 350º, perto e longe morros suaves de um e outro lado da estrada mas, nada de casas, vestígios de gente. De muitos em muitos quilómetros víamos entre um tufo de vegetação, muxito verde, um moinho de vento, daqueles de retirar água do subsolo mas nem gado, nem animais selvagens – um desespero lunar com o calor a desprender-se em ondas do chão. Nestas condições de apaziguar rijezas adversas do mundo, relembro a minha própria singularidade ainda não totalmente definida fazendo-me também num seixo redondo no meio do nada – estou feito ao bife!

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Assim feito seixo embrutecido que rebola no tempo só quando levado pela enxurrada duma mulola penso nas finas e longas varas que formam os arcos daquelas cubatas choças dos bosquímanos, arcos que progressivamente ficam maiores até chegar ao chão. Paus tipo verguinhas mais finas e, que são amarrados aos outros mais grossos na vertical como se fossem os meridianos dum mapa feito mukifo. Na choça é deixado um pequeno rectângulo por forma a permitir a sua entrada e saída – é a porta! Dentro destas terão quando muito umas cabaças de água e umas poucas peles para se agasalharem; não pode ser muita tralha porque em curtos espaços de tempo, mudam de local – seguem o rumo da caça, da sobrevivência, da água e pouco mais para seu sustento.

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Os seus instrumentos são mesmo bem escassos; têm lanças com ponta de ferro como nossos primitivos ascendentes que envenenam com a banha de um verme que apanham ainda em casulo. Chegam a matar girafas com o uso de sua astucia e seu modo felino de andar na mata, pé ante pé e sempre nas mesmas pegadas sem fazer estalar qualquer tronco seco. É mais vulgar usarem lanças e arcos de flechas, transportando mantas para suportarem o frio já referido das noites que chega a graus negativos. Seus pratos são feitos de abóboras e os copos de massala ou maboque. São óptimos pisteiros e conhecedores de raízes cheias de água que espremem para vasilhas ou ovos de avestruz.

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Assim falando com Miranda na borda do Okavango, naqueles dias longos e quentes recordamos vidas e coisas depois das tarefas de todos os dias de malembelembe. Coisas de nossas caixinhas do tempo, muitas fotos, falando até dos bilhetinhos de amores, agora sem mambos nem rancores enferrujados ou bolorentos… Nestes estados de kotas, coleccionamos saudades com se fossem cromos engraçados da caricatura de Matateu, Yauca, do Zé do Telhado ou do Lampião e do Mandrak, mais o Homem de Borracha e o Fantasma. Neste tempo de estupor, terra do fiado “civilizado”, de sem respeito, currículo suspeito, como diz meu amigo Zeca: Oh! N´gana N´Zambi! Hoje nem quero falar da “Batalha do Kuito”…

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Estando eu no Reino Xhoba, reino sem rei com cerca de 100.000 súbditos, pertença de vários países de África não posso deixar de falar deles. Gente de palhotas coma a altura certa de uma pessoa no seu centro. Com tão pouco, pensamos loucuras que nem lhes passa a eles pela cabeça e, naturalmente devem ser felizes pois amam, kohisam e têm filhos e falam estalidos ou gesticulam sons guturais com guinchos e expressões milenares que nos fazem reflectir: -Os sentimentos mais genuinamente humanos sucumbem nas cidades; nelas existem milhares, milhões de seres que se tumultuam num sempre desejar sem nunca se fartarem, padecendo incessantemente de desilusão, de desesperança ou derrota sem se poderem libertar do bacalhau, do pastel de Nata e da televisão comandada por gente gira – gays e afins…

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E, Miranda do Mukwé ri-se que nem um perdido com os meus perfumosos linguajares, meus dissabores e muitas contrariedades dizendo: Tu não és deste Mundo! Deixa lá, eu também não sou - Ambos, somos lendas, remata! Undenge ami um moamba… E, Elisabette, sua esposa, dona das xirikwatas, ri-se com o riso mais lindo da savana. Enredos de uma sociedade de tradições, preceitos, etiquetas, cerimoniais, praxes, ritos e um sem fim de serviços e vaidades. Redobrando famílias, o homem vê na cidade a base de toda a sua grandeza e, em verdade, só nela tem a fonte de toda a sua miséria…

Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

araujo65.jpgMáscara de Costa Araújo

GLOSSÁRIO: Askham - povoação da África do Sul; Aroab, Keetmanshoop - Povoação da Namíbia Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Maka – confusão, rixa, alvoroça; Khoisan - bosquímano, homem do mato; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Xirikwata – pássaro que come jindungo; Kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana… Taparabo -Tanga pequena; N´gana N´Zambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Undenge ami um muamba - minha infância de muamba; mulola – Linha de água que só leva água quando chove; muxito – concentração de árvores ou zona verde no meio de secura generalizada...

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XV24.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e missossos antes e depois do fim do século XX  – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus… um uuabuama da Dipanda*

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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Com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos; o dia a seguir começava ao romper do dia, com o piar dos pássaros, o coaxar das rãs que nem pavarotis a repetir-se com ecos misturados nos ruídos de bichezas como um espreguiçar da natureza. E pela tarde, nossas conversas voltavam a recordar o que foi o tundamunjila (o vai embora), já com a tropa portuguesa chamada de NT – Nossas Tropas, que não o pareciam ser, a dar alguma ordem à desordem. Nos primeiros dias de Novembro de 1975 já era efectivamente o Movimento MPLA que mandava.

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As NT-Nossas Tropas, que tudo cederam ao MPLA, num dever mínimo e institucional, fizeram nos últimos dias a segurança possível nos terminais de comunicações marítimas e aéreas de Luanda, aeroporto civil e militar do porto e Ilha do Cabo controlando o eixo Ilha – Fortaleza de S. Miguel, Palácio da Cidade Alta e Quartel-general. A saída dos portugueses ditos colonos e uma grande parte de gente descrente e medrosa de outras etnias, maioritariamente funcionários brancos, incentivadas a sair por coacção e medo, assim o fizeram como carneiros dirigidos ao matadouro; tiveram assim e deste modo peculiarmente vergonhoso um futuro embrulho de um vazio em troca de uma passagem para a metrópole – o M´puto. Muitos saíram para o Mundo de avião, de traineira, de carro ou tractor e até a pé sem saber qual o destino final. Nova Lisboa, a cinco de Outubro de 1975 era uma cidade morta, aonde ficaram somente trinta brancos. Na terceira semana de Outubro a evacuação do Lobito, Benguela e Moçâmedes estava concluída. Em Luanda a quantidade de deslocados era já muita; superior à capacidade diária de escoamento.

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O conflito não parecia afectar a produção da Golf Oil Americana que continuava a extrair mais de cem mil barris de petróleo por dia. As obrigações financeiras iam direitinhas para o Banco de Angola já com a gestão do MPLA na pessoa de Said Mingas, um antigo colega meu por cinco anos, na Escola Industrial de Luanda. Nenhum daqueles rendimentos iam nesse momento para Portugal. No dia 23 de Outubro a pretexto da invasão Sul-africana e a incursão Zairense, o Estado-maior das FAPLA decreta a mobilização geral de todos os homens entre os 18 e os 35 anos. Este recrutamento abrangia todos os naturais de Angola ou lá radicados. Os estrangeiros teriam de se apresentar nos Postos Policiais para validar e autenticar os documentos a fim de registar sua permanência. Era-lhes dado três dias para tal!

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Naqueles tempos da Luua, todos faziam o que lhe dava na gana com a Kalash na mão disse eu, saltando um pouco no tempo sem definir datas ou horas exactas. Miranda referia algumas agruras do mato da região do Calai, Dírico e Mucusso, posturas de gente impreparada a querer tomar o controlo de tudo e, que originou a sua fuga. A lei, a ordem, a justiça eram coisas quase inexistentes ou anedóticas pela pior das negativas… Um retrocesso ao tribalismo com todas as nuances, tudo muito carregado de misticismo e crenças de quimbandas ou sobas analfabetos e sem o mínimo de preparação para gerir o que quer que fosse. Melo Antunes, Mário Soares e outros encarnados na vermelhidão, decerto lá nos areópagos internacionais, não dissertavam conversas destas com Kissinger porque para estes, tanto se lhe dava que fosse assim ou assado, logo que tivessem o controlo do ouro negro – o petróleo já a sair pelo tubo ladrão da Golf Oil Americana. Alguns de nós, manietados de todo. a tudo assistíamos martelando caixotes, rilhando o dente sem mais poder fazer.

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Ter-se em conta que num vale tudo, o MPLA deu-se ao desplante de meses antes, ir ao Laboratório do Instituto de Medicina Legal de Luanda retirar órgãos humanos para propagandearem em muitos posters, que a FNLA era um bando de antropófagos, que comiam fígados e corações de gente – Uns canibais, afirmavam eles! Já não havia médicos, escasseavam os géneros de primeira necessidade e quanto aos novos supostos dirigentes tinhamos receios. Dos três líderes nacionalistas, era Savimbi o mais inteligente, o mais hábil e o mais forte politicamente para uns; também para mim – também o mais conotado com os militares portugueses no antes da Abrilada.

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Os políticos da nova vaga vermelhusca do PREC não se cansavam de repetir isto e aquilo sobre Jonas Savimbi e sua colaboração com os militares antes do “vinticinco” de 74; para o MPLA, era incontestavelmente seu líder Agostinho Neto, um medíocre poeta com formação universitária em Coimbra – O homem escolhido pelos generais e afins do MFA (Dizem agora, ter sido o menos mau!). Quanto a Holdem Roberto não tinha solida formação política, era um fraco e facilmente corrompido; dependia de Mobutu e dos americanos de uma forma sorrateira mas sobejamente conhecida! Nos muitos dias insólitos daqueles tempos, na meditação actual, encontro factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem.

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Amigos, vendendo-se a inverdades ou recorrendo ao esquecimento e, ao não me lembro como se tivessem levado com um martelo amnésico! Nesta minha tirada, recordo o quanto João Miranda riu e riu, engasgando-se. Em um novo dia, internamo-nos numa sinuosa picada de areia a visitar um lugar já conhecido como Suclabo Lodge propriedade duma madame de nome Suzi mas, agora com o nome de Divava Okavango Lodge e Spa, cinco estrelas de “elegant style and luxury”. Cumcamano, disse eu depois de pisar o paradisíaco sítio cheio de coisas “good” logo a seguir a cubatas feitas de barro e capim com dois por dois metros, e muito matutar de como caberia ali um par de gente sem os pés encolhidos.

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Eu, João, Bruno, filhos de Ana Maria e seu tio Alemão Franz lá fomos em uma pequena balsa com motor à popa e um bafana enfarpelado de caqui, seu chapéu de carcamano do Divava, um surtido de águas, refrescos e cervejas na caixa térmica, ate á base dos rápidos do Popa Falls. Naquela turbulência e com nossas canas de carretos, estralhos, amostras bizarras e bizarronas, farfalhudas ou reluzentes, atiramos e recolhemos, atiramos e recolhemos e, por aí, repetido sem nada pescar e, eis que o campeão João num truz recolhe um peixe tigre cheio de dentes pontiagudos aí com uns dois quilos que, foi tudo na soma da pescaria, um tigre e três nadas.

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Pela picada de macadame encrespada de ondinhas já para lá do Divundo, dos vários cuca-shops e cola-colas dos chineses, passamos locais de kimbos dispersos e lodges junto ao rio como o Rainbow Lodge,  Nunda River,  Ngepi Camp ou Ndhovu Safari. Mas foi no Mahango Safari Lodge escondido no denso arvoredo verde e bem na margem do rio que subimos numa barcaça. Passear ao longo do Kavango até quase o Botswana; visitar depois os rápidos e remansos, já com as águas do kuito, águas que inundam o Delta do Okavando; um mar muito antigo a dar vida aos muitos n´dovus ou jambas que conhecemos por elefantes, entre hipopótamos búfalos e outras muitos espécimes.

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Num outro dia, um outro ano e noutro entretanto e, já depois da guerra acabar, João Miranda é convidado a abrir um estabelecimento na capital do Kuando Kubango, Menongue mas, depois de concretizar o envio de géneros de primeira necessidade para um super mercado, vê-se na periclitante situação de ficar sem nada pois que os senhores da nomenclatura local afectos ao MPLA, cada qual tratou de se apetrechar desordenadamente, remetendo o pagamento para o estado, uma coisa assim parecida como um saque. Aqui, eu ri-me em surdina, mas, deu para perceber meu silencioso lixaste-te! Miranda, de novo, ficou a apitar em seco. Disto, nada vim a receber, disse Miranda já muito habituado a estas truculências de dirigentes mwangolés do JES. Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, ouço de novo João Miranda: -Isto é mato, amigo!

div4.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIOBafana – serviçal africano com indumentária de lugar turístico; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Xirikwata – pássaro que come jindungo; candengue: - moço, rapaz; Luua: - Luanda, capital de Angola; kuito: - Cidade de Angola, epicentro da guerra civil angolana…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIV 21.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Recordando o início da Tundamunjila (tunda a mujila). Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

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TEMPOS PARA ESQUECER – Sentados no alpendre da casa do Mukwé, totalmente feita com madeira de primeira das matas do Cubango, e ainda no século XX, olhando o rio Cubango (Okavango), ao sabor de um café colhido, secado, torrado e moído no local, eu e João Miranda conversávamos sobre a terra de que fomos obrigados a abandonar. Eramos ambos da mesma opinião: Muitos dos “libertadores de 75” os mwangolés de hoje, sonhavam com a casa, o lugar de director, o carro, os privilégios e as posições dos colonos que vendiam peixe frito ou carne seca lá no mato.

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Por vezes em muxoxos, referiam também ficar com a mulher do colono – um desvario alimentado pela midia do M´Puto, pelo MFA e seus generais da mututa. Em Angola “conquistaram” isso, a independência e, tornaram-se piores do que os colonos…Em Kampala, o presidente da OUA, Idi Amim Dada, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP- MFA de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça.

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Em Pereira D´Eça (a actual Onjiva) o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta por ser esta região afecta à UNITA - um povo Ovambo ou Ovibundo. Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas ali sediadas e uma declarada provocação ao Movimento da UNITA. Manuel Resende Ferreira disse neste então: -Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam (uma população maioritariamente branca e assimilados).

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Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito criaram ali uma zona de segurança à revelia de seus comandantes do MFA. O comportamento da UNITA teve forçosamente de mudar de táctica e, seu posterior comportamento no Lubango e áreas do Sul que, levaram a desconsiderar tanto o Movimento como o seu Presidente Jonas Savimbi que por ali esteve em tempos de estudante.

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São aqueles os heróis esquecidos, soldados de Portugal que abandonam o exército comunista Português para protegerem cidadãos e, lutar contra a anarquia comunista. Eu e Miranda ressaltamos bem esta nossa postura; mas, quem éramos nós para vaticinar e politicar a enviesada saída do M´Puto pelos homens que antes tinham sido heróis, como esse do Spínola da banga desmedidamente parva e até caricata, usando luva, monóculo tipo Eça de Queirós, botas de montar lustradas e um pingalim – fetiches de túji que também por vaidade o levou a escrever isso de “Portugal e o Futuro”.

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E, que foi feito do Tenente Fernando Paulo? Pensando nele demo-nos conta que era o fim do império colonial. E isso, nós (Eu e João Miranda) queríamos que acontecesse sim! Mas, e mais mas, tão seguidos mostraram de forma paulatina as feras sendo largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! Tarde piaste! Momentos de muita inocente incerteza; abandonar tudo, entregar a chave do carro ao jardineiro da casa, o cão pastor alemão à Mariana, uma exemplar serviçal ao nosso serviço, na Caála, no Kuito, um qualquer lugar com picada de acesso. E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? Talvez Brasil!? Quem sabe – Austrália ou Argentina!

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As NT - Nossas Tropas, já não eram nossas, davam cunhetes, canhões, paióis inteiros e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina, Nakuru… Mostravam ao MPLA abertamente as fotos aéreas em progressão do “inimigo”; davam-lhe as coordenadas, organizavam planos de voo com dados de meteorologia e até furtavam casas aos colonos e afins em apoio ao MPLA: Isso! Saque dos haveres de colonos que saíam desordenadamente de suas casas, abandonando tudo.

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Uma frieza ímpar na história de Portugal. O MPLA da Luua inventava a maka! E, eram makas sobre makas, paralisações descabidas. Inventavam os pioneiros que eram trabalhados em marcha no esquerdo e direita por jovens estudantes do M´Puto! Estudantes que regressados à Metrópole tinham passagem administrativa garantida; o tal de PREC. Depois o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a vitória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito… Tudo era planificadamente certíssimo! Melo Antunes, Rosa Coutinho e uns quantos mais que ainda não deram à sola pró álem.

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As makas organizadas com o objectivo de criar o caos, originar pancadaria e depois a vitimização com características de sofisticada mentira; meter tudo no barulho, pressionar psicologicamente e criar condições de favorecimento por parte dos militares do MFA, as NT, o CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário. Às tantas, já se fazia tudo às claras. Até o Idi Amim Dada se dava conta de tudo isto! Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Neto (era só mesmo para agradar àquele diplomata da USA…).

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Esse cérebro guia dos demais, chamado de Melo Antunes, foi dizendo a Kissinger que era difícil de classificar politicamente Agostinho Neto como um comunista ortodoxo! Agostinho Neto, à coisa dada (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Mas, que grandes mentirosos! Neto, com laivos de poeta (diga-se de baixo coturno…), dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto, quando em verdade, tudo teve destes (traidores…) Mas que pulha! Bem feito, cambada! Alguns não gostaram, diga-se… Assim e com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos…

fuga3.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Banga – estilo, vaidade excessiva; Tuji – excremento, merda; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo- expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Mututa – da bosta, de ralé; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Kapooto – Vinho bolunga feito a martelo, de fermentação rápida com pilhas de lanterna; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:13
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Domingo, 22 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XII17.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Percorrendo os muxitos da África com a família, passando por tantos desertos, um mundo a perder de vista e cidades desconhecidas do mundo, subimos para norte até o Rundu na margem do Cubango e seguir mais tarde para lá de Catima Mulillo às margens do rio Zambeze. Nós, uns gwetas com olhos de águia, íamo-nos tornando mwatas na interpretação das terras do fim-do-mundo conciliando no antes e no agora daquela região de Okavango. De novo revisitamos as mulembas de N’Zambi com os kambas daqui, mais dali, ouvindo suas falas de espanto. Mostraram-nos aquele arbusto parecido com rebentos novos de loureiro de onde cortam umas varas para introduzir na boca dos sobas ovambos defuntados. Se apontei seu nome, deve estar agora a zunir-me por tal esquecimento

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Sim, lembrei! Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho gorduroso de envolver manteiga no lugar do Mukwé; ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas, águas que dão cheiro à terra fantasiando nossas lembranças – um cheiro difícil de descrever – só mesmo cheiro de chuva. E, foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo.

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João Miranda, um chefe do mato, senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de sua fuga de Angola. Que depois veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1975. Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Disse após longas falas como dando um finalmente àquele passado, falando virgulas desse conturbado tempo. Este lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido empresário, amigo de San Nujoma.

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Este quase lendário homem, pouco a pouco recorda com raspas de esquecimento propositado peripécias e, ainda no segredo de sua intervenção no avanço até Luanda; Vezes repetidas afirmou que após tomarem posições ao inimigo, leia-se cubanos e militares do MPLA, deixavam grupos da UNITA ou da FNLA a assumirem o controlo dessas zonas libertadas e, em que estes eram influentes. No meio dum rio longínquo chamado Okavango podíamos admirar dum e doutro lado deste, a exuberante verdura, alguns vestígios da base daquela que foi o Batalhão Búfalo nº 32 da África do Sul que é agora uma reserva com esses mesmo nome inserida no Bwabwata National Park.

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No mapa pode ler-se no lugar do Omega Um, Military Ruins – lugar aonde chiam segredos de ferrugem abandonada, coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes, chifres de elefntes e muita aventura em frente dos olhares de hipopótamos. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola. Seguimos viagem rumo a Nascente deixando esta gente que como nós, saíram dessa imensidão de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, Land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.

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Com jeito de filosofia, assim foi dito por Elizabete Miranda sua esposa. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo. Uns salvaram-se na cobardia, outros ficaram heróis chamando a si toda a petulante força de seu poder. O povo – ai.iu.ééé, ficou assim mesmo, pobre! Relembro nestes milhões de espinheiras ressequidas de para além de Okahanja, e Divundo atravessarmos terras despidas de gente, uma casa aqui outra lá, longe por quilómetros de distância. Casas de colmo ou zinco tendo como sombra as acácias espinhosas; as mesmas que dão sombra aos muitos bichos, felinos dormindo com moscas a perturbar sua paz.

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Ficou-nos bem ciente que podemos sobreviver aos idiotas e até gananciosos que nos governaram nesses lapsos de tempo e, aqui estamos nós velhos resistentes, a retemperar ideias com a heineken lager beer, balouçando o tempo em uma balsa do Nunda Lodge. Cientes de que não podemos sobreviver à traição gerada dentro de nós, que fomos no tempo assistindo ao movimento de traidores que não o pareciam ser, um deus-me-livre dos mortais, cohabitando com hienas, chacais e bichos rastejantes de arrepiar o pêlo. Lugares muito diferentes de Ovambo aonde os guetos não juntam brancos com pretos.

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Sucede que um dia e a convite de João Miranda, assisti bem na margem do rio Okavango (Cubango) a uma reunião de empresários e militares presidida por San Nujoma, o primeiro presidente da Namíbia. Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no N´donga Linena River Lodge, dele desceu um velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser feito de um distinto pau, o mesmo de entalar nos dentes depois de morto. Com seus pés e olhos grandes, caminhou em direcção às autoridades locais, depois veio cumprimentar os convivas e suas visitas aonde me encontrava.

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Foi muito agradável em suas palavras, sua característica de humilde, postura e atitude. Naquela reunião, referiu a guerra que grassava do outro lado do rio – Angola. Pediu que não dessem guarida aos militares da Unita, tendo mesmo dito aos militares com estrelas que os ripostassem com fogo de morte. Ele era o líder do povo do Sudoeste Africano, (Ovamboland People's Organization) e eu, um cidadão disfarçado de turista caçador de elefantes. Tenho uma foto deste cumprimento, por aí!

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Soubesse ele que eu era um responsável coordenador da Unita no exterior e, teria apontado o dedo em minha direcção. Em realidade era um turista como tantos outros e, nada havia em concreto sobre a minha pessoa a não ser muxoxos escutados pela contra-informação, sem o peso necessário para me apontarem algo. Bem! Também N´Zambi era meu amigo! Assim não sucedeu embora as estruturas de informação e inteligência pudessem saber de algo; minha missão era ver os pontos de reabastecimento à Jamba a partir da Namíbia. O tempo fez diluir estas contrariedades de estar sob escuta mas ficou bem presente o que disse: “Unita soldiers crossing the river, fire on them”; No M´Puto, José Pedro Cachiungo, tinha-me feito advertência de poder ter algumas contrariedades e, mesmo sem salvo-conduto meu comportamento foi de singela observação… Têm mais kitucus mas, o melhor é ficar só assim mesmo!

etosha2.jpgNota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO: Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo… 

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:57
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Sábado, 21 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIII 19.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Ainda no século XX. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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No decurso da guerra civil que se seguiu após os gritos de Agostinho Neto em Luanda, MPLA é o POVO, o POVO é o MPLA e, a LUTA…CONTINUA, assim foi por demasiado tempo. “Durante esses longos anos, quantidades indefinidas de pedras preciosas, milhares de animais liquidados, elefantes e rinocerontes, milhões de toneladas de madeira foram traficadas de Angola desde a Floresta do Maiombe até às chanas do Moxico e Cuando-Cubango, Em troncos ou serradas em tábuas seguiram rumos para Oriente e Ocidente…

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Também nas áreas controladas pela UNITA este tráfico de património natural, se fazia sentir por via de se custear a guerra. Milhões de árvores foram derrubadas nas savanas do Cuando Cubango para traficar madeira, uma catástrofe ambiental com os mesmos tristes requisitos do desbaste de nobres madeiras de Cabinda. Os carros com toros faziam fila por quilómetros entre Lândana e Buco-Zau. Pode ter havido precedentes em outras partes do Mundo mas aqui, tudo ficou sem castigo para os infractores e há revelia do povo.

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Em uma serração pertencente à InterFrama, em Bwabwata que se estende pela Coutadas Públicas do Mucussu Luengué, Luiana e Longa Mavinga, também saíram milhares de toros; árvores milenares. Parte dos diamantes viajavam no avião de Joaquim da Silva Augusto, considerado um dos homens mais ricos da África do Sul a residir na Namíbia. O mesmo que pilotava a avioneta em que João Soares sofreu um grave desastre. Augusto tinha uma cadeia de supermercados e um grande armazém no Rundu, cidade fronteiriça com Angola na margem do rio Okavango.

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Era aqui o ponto de partida para os abastecimentos logísticos à UNITA. Sendo de um e outro lado o mesmo povo Ovambo, autoridades e ordens religiosas, faziam vista grossa ao grande movimento que por ali se fazia num regime de candonga institucionalizada e, por ambos os lados do rio Cubango. Miranda foi por algum tempo um funcionário de Joaquim da Silva Augusto até que se estabeleceu com várias lojas do mato ao longo do Cubango, comércio com padaria, casa de forragem e alfaias, materiais de construção -“Bottle shop, Bottle Store and Liquor Store”; um super mercado, estilo venda boteco com tudo o necessário.   

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No rasto das memórias lembra-se que “foram liquidados 100.000 elefantes para ajudar a financiar a guerra”. As presas dos elefantes e os chifres dos rinocerontes foram armazenados na Jamba. As máfias, colocavam o marfim em Hong Kong, os diamantes em Pretória e na Europa e a madeira preciosa na Namíbia. Os turistas da Jamba, entre os quais a família Soares do M´puto, moviam-se de maravilha entre “embaixadores”. Entre este, havia um comerciante português, Arlindo Manuel Maia, dono de uma empresa de transportes em Joanesburgo com “filial” no Rundu. Nunca Miranda me disse o que aqui digo porque sempre nos distanciamos de suspeições incómodas. Cada qual com sua vida! Mas, foi peremptório em dizer que a queda da avioneta foi motivada por um susto de Augusto; o que dizem acerca dos dentes de elefante é invenção.

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Outro comerciante nestas lides de contrabando se assim se pode dizer, era José Francisco Lopes, com escritórios no Rundu, tido como multimilionário. Isto que já se tornou público, poderia até ser falado com meu amigo João Miranda do Mukwé mas, a propósito, não quis penetrar em periclitantes caminhos respeitando a ética de quem sempre me recebeu de braços abertos, um homem do mato que me merece todo o respeito; em suma direi que simplesmente não quis bulir com antigos constrangedores fantasmas. Tem mais, sempre me disse mal da Unita mas, estou em crer ser uma deslavada mentira. A dado momento, a mentira, é uma forma de coçar a flor do kongo – aparece e desaparece num mistério muito africano.   

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A Environmentand Animal Welfare explicou que o contrabando de marfim se fazia através da Faixa de Caprivi. O coronel Breytenbach teria denunciado isto: “descobri uma máfia que contrabandeava dentes de elefante e chifres de rinoceronte, diamantes, madeira e droga”. Uma catástrofe ambiental sem precedentes nesta zona" disse ele. Ninguém agora pode mudar o rumo àquilo porque se passou, dizia eu a Miranda naquele fim do mundo, palco da acção montada pela África do Sul à que foi dado o nome de “Operação Savannah”.

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Esta operação, que estava destinada a apoiar uma frente entre a FNLA e a UNITA com quadros da extinta PIDE/DGS, não logrou seus fins; Também estes búfalos foram traídos por outras forças e, do qual saíram acordos secretos que mudaram o rumo à historia, origem de outra politicas. O capitão américa já tinha o nosso rumo traçado. Sobressaíram uns quantos na luta medonha a quem deram de espólio aquilo que eles bem quiseram roubar a começar pelo presidente de Angola JES que com seus capangas do MPLA, usaram de farta vilanagem. Nós, naquele então, não entendíamos o que estava a acontecer sem nunca podermos conceber que estava a ser forjada a maior traição de portugueses contra portugueses. Foi assim que tudo começou.

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Muita gente dita liberal, historiadores mancomunados à esquerda, afirmam a todo o momento que isso é para ser arquivadodo, uns porque estão mancomunados com os governos de agora, outros porque são nitidamente engraxadores no sentido mais degradante da palavra e, outros que querem ideologicamente tapar o sol com a peneira; também tapar nossos olhos com a desfaçatez de, o quanto baste. Nem a própria oposição em Angola a fim de tranquilizar os homens de bem, com sede de justiça, teve a coragem de fazer valer seus apregoados trejeitos de verdade.

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Todos sem excepção, se tornaram em uns trastes corruptos, corja ou bando de larápios que enrijaram suas organizações de criar inveja aos cartéis do mal! Uma cambada de ambiciosos sem escrúpulos que engana ainda o povo tanto do lado português como do angolano, sem tibiezas ou despudor! Competia a Portugal assegurar tranquilidade a todos os patriotas mas, em verdade foram os brancos militares e líderes portugueses que proporcionaram tudo o que se verificou! Gente do PREC, militares de aviário do MFA, irresponsáveis imberbes ou incompetentes políticos que nos entregaram ao diabo. No correr dos tempos nenhum político de nomeada se dignou dizer a merda que fizeram e pedir desculpas! Atitudes que não serviram nem aos portugueses nem aos angolanos.

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

maga2.jpgGLOSSÁRIO:

Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo… 

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXXI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XI15.09.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divundo junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi. O senhor Rocha que fugido do Sul de Angola, ali perto, se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas. Alugava estas a baixo custo a refugiados; era em verdade um alojamento local tipo cortiço brasileiro. O senhor Bicho da ponte do Charuto seguiu-lhe as pisadas tornando-se ambos empresários com algum sucesso. A vida de fronteira é assim um pouco tumultuosa pois que sempre tem gente rufia misturada com gente boa que de outras paragens por ali passa fazendo compras ou desviando as compras dos outros; neste caso e, pelo facto de Angola estar envolvida numa guerra prolongada, as carências eram aqui suplantadas no possível.

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Os circuitos de comercialização através dos meios de administração portugueses no território angolano foram totalmente desmantelados e, daí haver lacunas preenchidas pelos mais astutos, vigaristas ou arranjadores de ocasião cazukutas. Junto com esta gente que esgadanhava formas de vida e, com mais-valias de câmbio ou outras, simplesmente ganhavam ganâncias em operações de logística, ajudando nos cambalachos e, até vendendo vidro por diamantes, ouro trocado por produtos da terra ou transaccionando por serviços de ajuda aqui e ali e, toma lá esta gasosa para almoçares. No meio de toda esta amálgama de gente havia informadores pagos pelo governo de Angola disfarçados de gente comum, atentos ao que se dizia e fazendo triagem com empolgadas excrescências valorativas…

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Foi por aqui que me refastelei com uma caldeirada de cabrito na pensão, hotel e convívio de rufias, espiões e camaradas com irmãos. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, num diz que foi para saber o que é, da minha insistência na recolha de informações. Mas, Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico; estava a terminar um hotel com piscina criando condições de prosperar e negociar com diamantes quando lhe fosse possível, pois então. As falas eram abertas e num instante ficávamos a saber coisas de grandes lonjuras como o dito de é ali mesmo patrão! E, este ali ficava a uns duzentos quilómetros. Neste meio tempo de cavalgada esticávamos as orelhas do monangamba, chamando-o de nomes toparioba e sundiameno para cima com o apêndice de mentiroso de merda!

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Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade dando a isto, uma característica única no mundo; em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão por que ninguém se esquece desse viver, daqueles aromas dum “rust camp”, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” ao por do sol atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas com mato aparentemente estéril - lugar da surucucu.

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Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé de Andara e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas actuaram com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. A Namíbia nesse então, estava sob gestão sul africana

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Estou a falar do Miranda, natural das terras Atrás dos Montes lá para Chaves, Miranda do Douro aonde as vacas têm cornos amplos, mas neste contexto de gente fugida havia muitos mais. Rocha diz que nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola.

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Bicho da Ponte do Charuto, reconfirmaria as falas de Rocha. Todos sabiam de tudo – uma vastidão de território e todos a conhecer as vírgulas de cada qual ao ínfimo pormenor, como se, se encontrassem todos os santos dias numa praça do Mundo. Um fascínio que nem a matemática quântica ultra moderna consegue explicar. A família Miranda foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção e assim poderem levar uma vida de normal família. Nestas estórias repetidas nem sempre as coisas aparecem do mesmo jeito ou no mesmo lugar porque, cada cabeça sua sentença e cada qual acrescenta uma pequena casca ou muitas cabeças como aquele lobisomem dando tempero esmeradamente lendário.

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Alguns anos mais tarde, passagem de ano - 31 de Dezembro 2014 para Janeiro de 2015, a escassos metros do rio Okavango, sentado em meu chinchorro (rede de balouçar), divido-me entre os barulhos da chuva e os rápidos do rio, dos piares de pássaros na boca dos ninhos, das rolas sempre gemendo e dos muitos milhares de cigarras que abanam prolongados trinados. Estava no d´jango da Kikas filha de Miranda, Vanda Miranda Potgieter casada com um bohér de estrema simpatia, casa de N´duvu S´tores de Andara, também posso escutar a zoada de carros circulando ao longo da estrada de macadame, areia e pedras soltas. Um homem armado com uma arma de repetição, guardava as instalações em uma guarita, noite e dia; eram vários a revezar-se...

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A enfeitar o pátio entre a casa e o rio uma árvore frondosa que conheço por mulungu, ornamenta a cena com flores vermelhas na forma de laçarotes, coincidência na comemoração da passagem de ano de 2015. Uma marula de grande porte dá soberania ao local por via de sua fruta ser a rainha do Calahári. Do outro lado pastam os bois indiferentes à sua nacionalidade! Que importa isso – boi não tem pátria! Quase-quase me apetecia mugir com elas mas só o facto de suas vidas terminarem estripados num galho, fazia esquindivar minha velhice para outros sonhos resvalados no tempo.

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Neste lugar de Andara, entre mato verde e picos medonhos, vejo Angola salpicando-me na correnteza do rio sem sentir no abandono ou desespero, uma consolação de esperança, assim talhada na natureza para ali permanecer de forma perene como aquela pedra na forma de hipopótamo regada num afogamento. Ao iniciar o dia, sempre e na hora certa, lá está Dona Elisabette a dar ordem a tudo e a todos. Debaixo de um sol ardente, um abafado calor de crispar sobrancelhas em escondidos pensamentos, a estória do Cubango, das terras longínquas no fim do mundo do Rundu, do Dirico, Calai, Mucussu e Divundo. Cabe a mim transformar as coisas dispersas em adultas majestades, tornar as fábulas em lendas, coisas que só os pastores podem criar confundidos entre xirikwatas adulteras.

Namibia4.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Missosso – Conto beve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Domingo, 15 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXIX - A

UM CACTO CHAMADO XHOBA . IX 06.08.2019

MALAMBA NAS FRINCHAS DO TEMPO

- Boligrafando estórias e Missossos da Dipanda – Toma lá e anda - do ano de 1999, talvez 1997.

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Não deveria ter sido assim mas, desaconteceu! Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, no após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional chegando até os nossos dias na forma de Diáspora. Uma missanga de contos com lendas e coisas tão verdadeiras que assustam o crédulo. Sendo assim e na forma de espantados, tudo corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo a que chamo de Globália. No Missosso da literatura oral angolana, há contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e crenças dos povos de dialecto quimbundo entre os outros derivados do Povo Bantu - Óscar Ribas da Luua, foi o seu criador.

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No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja. Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha.

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Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade, dando a isto uma característica única no mundo; Em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão por que ninguém se esquece dessa vida, daqueles aromas, do som do mato, do chorar da hiena, o uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” mais o pôr-do-sol, essa kúkia atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas e mato estéril. No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja.

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Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha - Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. - Chama-se de Sundiameno. Disse! Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! A gente lhe desconfia, acrescentou – Nem nele, nem no pai dele! Concluiu.

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Esta conversa tola seguia um rumo desclassificado e, foi neste então que vi sentado num banco de pau já feito pedra (…ali, as antigas árvores viraram pedra…), um mais-velho branco feito quase assombração de barbas credíveis e brancas – Um branco mais branco, feito preto (talvez um albino, Não! Albino mesmo mas, de lábios grossos com esfarelamento nas rugas…). Entabulei uma conversa séria, falamos do rio Kunene e de seus mistérios. Foi este mais-velho kota, já século, que me descreveu alguns mistérios e, que passo a referir: - Olha mwadié (branco) este rio tem muito cazumbi e muito feijão branco. Um dia ajudei um gweta, t´chindele Rocha, branco como nós, que domesticou desde criança, um jacaré a apanhar diamantes para ele. Saiu daqui muito de rico para Ot´xakati! Afirmou isto e, em seguida, apontando para suas muletas de fibra sintética disse: - Foi ele que mas ofereceu! Pensativo, num repente levou a mão ao seu templo e disse: Parece que ainda é vivo mas, eu nunca mais o vivi! (aconteceu que mais tarde estive com essa lenda a comer pirão em seu restaurante…)

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No lugar aonde o rio se esconde, fizemos acampamento por muitos anos até que chegou a guerra da libertação e, ele seguiu com a sua gente. Conclui na sua sabedoria filosófica com cat´chipemba, uma bolunga pura dos Xi-Colonos – Este segredo, eu conto a toda a gente, disse! Por ali passaram gado, camiões e máquinas amarelas de fazer estradas. Abriram umas picadas e depois seguiram para Walvis Bay e Swakopmund da Namíbia. O mistério daquele jacaré estava quase desvendado por mim, mas, na dúvida sobrante, perguntei: - Então este jacaré que sopra o pó do chão, é esse tal que o gweta Rocha usava para apanhar os feijões brilhantes?

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Talqualmente! Respondeu o kota num desclassificado português com pronúncia meio estalada e ao jeito de um khoisan… E, continuou: - Pois eu fiquei com estas muletas e esse jacaré Sundiameno. O mundo é por demais misterioso! Nunca que eu ia acreditar nisto se não visse! O mais velho de nome Cuca Oshakati, ainda me disse outra coisa em que não acreditei: - Sabes que mais, disse ele. Esse jacaré toca guitarra! Acompanhava muitas vezes seu antigo dono Rocha a cantar fados duma tal de Amália, uma sua prima muito conhecida lá do M´puto!

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Isto era demasiado para a minha camioneta; meti-me no four-bay-four e segui para Ot´xivarongo. Conversando com um velho amigo de Ot´xivarongo, psicólogo do Kalahári, disse-me já ser conhecedor desta estória e, surpresa das surpresas, aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado! Juro que tudo isto me transcende! Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divunda junto ao rio Cubango até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi.

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Tinha indicações que havia um tal senhor Rocha que fugido do Sul de Angola ali se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas que eram alugadas a baixo custo a refugiados; foi para ali que me dirigi e aonde me refastelei com uma caldeirada de cabrito e também uma funjada à maneira. Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em minha mesa e conversamos um longo tempo, fruto da minha insistência na recolha de informações. Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico, construir um hotel em condições e negociar com diamantes quando lhe fosse possível. Aconselhou-me a ficar num dos quartos de Bicho da Ponte do Charuto do M´Puto, logo no fundo da rua, pois que ele estava com os alojamentos repletos de gente saída de Angola.

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Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga: Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas aturam com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo. Nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola. A família foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção. Teria toda a noite para pensar como prosseguir no dia a seguir; agora iria à procura do senhor Bicho para me instalar. Foi assim que cheguei até eles, os Miranda do Divundo, uma gente cinco estrelas… Com esta informação a minha odisseia teria outro rumo e conto assim de trás para a frente e por vezes de patas pró ar…

(Continua…)

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:02
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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019
MALAMBAS . CCXXX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . X

NAS FRINCHAS DO TEMPO …– 13.09.2019

- Boligrafando estórias e Missossos uuabuama da Dipanda* – Do ano de 1999, talvez 1997. Nossas vidas têm muitos kitukus…

Por

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Ovamboland – Oshakati - Norte da Namíbia a fazer fronteira com Angola na povoação de Namacunde. Chegado à casa do Senhor Bicho, não muito longe do hotel e restaurante do Rocha e, após as habituais apresentações mostrou-me o quarto disponível; foi-me dizendo que ainda estava em obras e que teria de ficar em um colchão ainda embrulhado em plástico, recomendando-me não o tirar em virtude de poder vir a ser vendido como novo; bem ao jeitinho português. A porta deste quarto era toda ela, uma obra de arte perfeita; representava um búfalo em baixo-relevo – uma madeira de lindos veios que se salientavam pelo verniz usado, dando-lhe uma distinta nobreza.

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Este senhor Bicho, amigo do senhor Rocha era natural da Ponte do Charuto, um local situado entre a Cidade de Lagoa e Portimão; por este facto e sendo eu conhecedor destas paragens no M´Puto, tonou-se fácil prolongarmos as falas com a cordialidade de quem é amigo dum vizinho no lema conhecido de amigo do meu amigo, meu amigo é. Uma empatia sempre resvalando na flor da humanidade. Dormi mal, muito mal! Durante a noite a restolhada do plástico do colchão e a quentura não me proporcionou um absoluto descanso. Para além do mais nem um ventilador havia para colmatar esta tórrida e suarenta noite – áfrica em todo o seu esplendor com cheiros esvoaçados por mosquitos de longas patas e um longo aguilhão sugador de sangue.

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Valeu-me um duche de água fria pela manhã, reconfortado pelo canto das galinhas-de-angola – capotas e o arrulhar das pombas com o gemer das rolas. Também dos cheiros do matabicho que vinham do lado Norte do quintal, salsicha bóher com tiras de carne seca demolhada e passada na brasa. Havia ovos e umas verduras esquisitas tipo esparregado de folha de piteira, tabaibos. Assim foi mas, um empregado do Senhor Bicho comunicou-me em português ovambado com palavras de umbundo e estalos de língua no palato dele, largo e negróide, que podia ir até aquela varanda coberta a colmo. É lá mesmo patrão, no detrás do último quarto e, logo nas curva do corredor que dá nos pátio dos frôr. O patrão “Senhor Bispo” esperava a minha pessoa para tomar o matabicho com cascas de conversa do M´Puto.

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Numa mistura de linguajar com estalidos de permeio, apercebi-me que este mocancala tinha uma mistura de herero com khoisan. Até tinha um tique engraçado de rir só átoa por via de minhas brincadeiras patachuecas. Nestes trejeitos e fungações com muitos gestos, mostrava sua falha de dentes à posterioridade fontal. Seu amplo nariz e dentes alvos de brancura, esfregados com mateba languinhenta na mistura com carvão dos brais-assadas, davam-lhe um sortido rosto de puro kazungula, Bantu. Chegando lá encontrei o senhor Bicho dando ordens a uma gorda senhora que logo se adentrou na cozinha de onde se podia sentir o odor do café e, logo se sentou a meu lado cavaqueando sobre os muitos afazeres daquela hospedaria tipo lodge do mato.

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E, falamos da sua distante terra, a Ponte do Charuto do M´Puto, bem perto de Mexilhoeira Grande no Concelho de Lagoa. Mostrei admiração pela beleza das portas quase maciças da entrada para os quartos com baixos-relevos dos cinco grandes animais de África. A minha porta era uma cabeça de búfalo; em realidade era uma obra de mestre. Bicho, sem saber da minha vontade em ir ao Rundu, do outro lado do Calai foi-me inteirando que a pessoa com quem eu tinha em mente encontrar, João Miranda, já não estava na grande base de Grootfontein.

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Ele e família só por ali esteve o tempo suficiente para enquadrar legalidade em sua inclusão nas forças expedicionárias na guerra de Angola e naquela fase crucial de avançar até Luanda, tomá-la aos Russos, Cubanos e gentalha do MPLA e seus assessores, generais de aviário do MFA. As coisas não correram como o planeado sendo desmantelados de uma forma progressiva até se retirarem totalmente depois da Batalha do Kuito.

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Parece que os Americanos viraram suas atenções por via de negociações petrolíferas e, daí derivou auxiliarem o M´Puto na evacuação dos brancos e a entrega da Namíbia ao Samuel Daniel Shafiishuna, mais conhecido como Sam Nujoma. Com pequenas interjeições minhas, todo eu era ouvidos a escutar as palavras de Bicho da Ponte do Charuto do M´Puto. Bem! Eu também estava ávido de saber coisas escondidas nos meandros poderes da política. Num repente, diz Bicho, o Jonas Savimbi da UNITA, até aí amigo, passou a ser relegado por estes americanos; gente de túji mesmo, conclui.

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A Namíbia foi entregue ao revolucionário San, que como o amigo sabe (o amigo, era eu…) é o actual primeiro presidente da Namíbia e, desde 1990. Pois! Interferi eu: - Ele estava à frente da SWAPO; tinham uma actuação insípida mas eram os que estavam na linha da frente para a entrega deste que foi um protectorado Alemão. Isso mesmo! Remata Bicho acenando com a cabeça e dizendo: Tal-e-qual! As falas do “Senhor Bispo” despertaram-me curiosidade tão redobrada que resolvi recolher os detalhes possíveis sem até falhar os porras e caralhadas feitas vírgulas, num contesto assim tão relevante.

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Pois é, continua Bicho: - Com o mando dum General de Pretória, um dia chega um indivíduo sem nome, em Grootfontein, levando-lhe um visto de trabalho em nome de João Miranda; um Hércules C-130, levou a família inteira para Pretória. João Miranda que tinha todos os seus bens em Dírico, não queria por nada ir para o M´Puto. Deram-lhe um apartamento do tipo T4 totalmente equipado; o General viu nele o perfil certo para ser integrado no Batalhão Búfalo por ser um bom conhecedor do terreno e falar a língua local e, a dos bosquímanos.

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O Batalhão Búfalo estava nesse então, antes de 1974 e, até 1975 a ser organizada há algum tempo no intuito de intervir em Angola salvaguardando possíveis investidas terroristas e comunistas. Os Serviços de Informação Sul-africanos tinham boas ligações com o governo de Marcelo Caetano do M´Puto e, já em 1966, ano em que terminei meu serviço militar da incorporação de Angola, os sargentos e oficiais do exército português mas, e principalmente oriundos da Colónia, antes de sua desmobilização recebiam um convite para serem integrados em forças Sul-africanas – um embrião da formação do Batalhão Búfalo. Eles, os Sul-Africanos já previam o que iria acontecer em Angola e, assim o foi!

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Ovoboland seria um território tampão àquele avanço. Bicho, perante a minha incerteza foi-me reavivando a memória de que assim era. Recordo assim, de nos inícios do ano de 1975, estando eu na Caála, ter ido até o Safari Motel em Windhoek e ter falado com gente refugiada, alguns deles, agentes da PIDE e gente saída das Administrações e OPVDCA; convém relembrar que esta antiga província ultramarina portuguesa, a organização provincial de voluntários e defesa civil (OPVDC) - organização do tipo milícia constituía um corpo de voluntários de ambos os sexos encarregue de prestar auxílio às Forças Armadas e de garantir a defesa civil das populações e, que chegou a ter mais de 40.000 efectivos. A OPVDC era subordinada directamente ao governador-geral ou governador da província que tinham uma noção exacta das movimentações em curso e, no estremo sul do território particularmente, colaborava com a actuação militar sul-africana.

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Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

GLOSSÁRIO:

Kituku - mistério; Uuabuama - maravilhoso; Matabicho – pequeno almoço, café da manhã; Ovamboland – Norte da Namibia, povo Ovambo – primos dos umbundos; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Linguajar – forma de falar se regras de ortografia, fala popular dum matuto, fala de gente simples e inculta; Mocancala- gente do Sul de Angola que falam com estalidos guturais e guichos; Herero – povo da região do Cunene com tez quase branca; khoisan – Bosquímanos; Patachuecas – gíria de momento, raridades dum sítio; Fungações – enfase de cacaracá; Mateba – seiva de arbusto com características saponáceas com propriedades adstringentes; Languinhenta – babosa, que deita seiva grossa; Kazungula – Com várias falas, dialectos, próprio das terras que falam como na Zâmbia, Zimbabwé, Namíbia e Botswana mais português e dialectos de Angola, nome de terra na foz do rio Cubano; Bantu – Origem de todas as línguas ou dialectos de África; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango tendo do outro lado a vila de Calai, lugar de difícil acesso; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, primeiro acampamento da diáspora maioritariamente brancos fugidos da guerra do Tundamunjila- Uns ficaram, outros seguiram destinos vários como o Brasil, o M´Puto, Austrália, Argentina e Estados Unidos Da América…;

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Batalha do Kuito - A Batalha de Kuito Cuanavale foi o maior confronto militar da Guerra Civil Angolana, ocorrido entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988. Tanto a UNITA como o MPLA, se declararam vitoriosos...; SWAPO – Movimento de libertação da Namíbia liderada por San Nujoma; Batalhão Búfalo - Designação oficial do 32º Batalhão de Elite da África do Sul, nome original em africâner 32-Bataljon; em Angola ocasionalmente chamados. O batalhão foi fundado para trabalhar na operação Savana, inicialmente com o nome de "Força Operacional Zulu", como iniciativa do tenente-coronel sul-africano Jan Breytenbach, que recrutou, sobretudo, soldados da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) que, derrotados no Sul de Angola por MPLA & Cuba, se refugiaram no Sudoeste Africano (hoje Namíbia)... Nela, foram integrados, elementos oriundos de Portugal, do Reino Unido, da então Rodésia, dos Estados Unidos, de Angoa, milícias de S. Tomé entre outros – o batalhão foi considerado como a Legião Estrangeira sul-africana…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



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Terça-feira, 10 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXIV

MU UKULU... Luanda do Antigamente 10.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entenderem os futuros...

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soba002.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpgLuís Martins Soares Falecido no Brasil em Julho de 2019 - (São Paulo)

maianga do araujo.jpg Abrindo o livro Mu Ukulu na página 61, posso ler que na Luua, Luanda do antigamente, no jogo de saltar à corda, as meninas eram muito mais ligeiras que os rapazes; tinham graciosidade, leveza nas kinambas e até cantavam enquanto com um só pé ou com os dois juntos, pisavam a terra do pátio da escola ou o asfalto do largo fronteiro ao correr de casas do bairro e assim, galgando o fio grosso e normalmente de sisal balouçado por duas jovens ou candengues meninos, para um só lado faziam passar o tempo! Uma soma de intervalos, infantário, escola, família, a terra, a empresa e o abrigo da idade de kota.

O balanço, tanto podia ser para a esquerda como para a direita mas, sempre em sintonia de como se faz com a manivela de impulso, tal e qual como se fazia nos carros Ford, Bedford, Chevrolett ou Nesh naqueles modelos dos anos de 1945 a 1950. Os meninos candengues jogavam ao botão, ao pião ou à macaca; uns mais espevitados ficavam de lado a soprar vento com os olhos para ver as calcinhas das meninas, apostar de qual era a cor com confirmação da tal de Mariana ou da tal de Fátima.

mai3.jpg Depois do despois, era assim como um campeonato - quando não havia calcinhas era “bingo” pró ganhador. Todos os outros tinham de fazer de burro e levar o ganhador laureado até ao pé de tamarindo; assim, um por um, até botarem seu ar de bofes inchados daquele vento de soprar nos olhos. As brincadeiras de antigamente não faziam as crianças reféns deles como os jogos electrónicos de hoje. Sem televisão e sem computadores, rádio insípido, tínhamos jogos para nos dar mobilidade para a vida de trabalho e social; jogávamos até à noite bem adentrada e até que lá da varanda ou muro viesse um grito grosso do pai ou num esganiçado som da Tia Micas: vem para casa menina - tomar banho, fazer xixi e cama!

As esteiras de loandos ou de caniço eram peças importantes nas casas dos remediados e pobres dos arrabaldes da Luua ou dos bairros periféricos como o Bairro da Vila Alice, Vila Clotilde, Bairro do Café, Bairro da Samba, Coqueiros ou Praia do Bispo entre muitos mais e, a sempre rainha da Luua - a Maianga do Malhoas com o Almeida das Vacas a terminar no Choupal das meninas do Kan-can lá no topo da Avenida António Barroso e que hoje se chama de Presidente Marien N´gouabi cruzando o nosso Rio Seco, uma mulola que nesse então era só areia para brincar, jogar à luta livre ou futebol de fintas n´areia…

Quantas e quantas vezes dormi na varanda, estendido num loando, apanhando o fresco do mar da Samba. Naqueles tempos ainda não havia ar condicionado; era tudo à unha, um abanador de palmeira a dar-a-dar feito leque, ou um ventilador daquelas pás de tecto rodando e guinchando chring…chring…chring…Esteiras e loandos eram peças indispensáveis em uma casa da Luua e, ora servia para nos sentarmos, ora era aonde o candengue filho da lavadeira dormia enquanto sua mãe esfregava as mãos na roupa dos patrões. Por vezes o nené ficava às costas da mãe gozando do balanço com esfrega e, num bate e, roda e …Pois! Era um carrossel bem melhor que a esteira.

Mu Ukulu37.jpg Por vezes num quase sempre de costume, os vizinhos juntavam-se levando suas esteiras enroladas ou suas cadeiras articuladas com uma lona entalada a montante e jusante do sono, do abre boca, abrenuncia dum deus queira ensonado entre o bate-papo falando besteiras ou, entre longas e inspiradas dissertações, do tipo filosofias de cacaracá entre virgulas de muxoxo e cuspidelas raivosas para o pé do mamoeiro ou da árvore de mandioca. Esta, a dar sombra ao tanque de cimento ou selha com uma tábua com ranhuras feito do tipo reco-reco para roçar as cuecas acastanhadas do uso e, talvez duma amarelada bufa de sem querer, digo eu!

Comecei estas falas para recordar as farras de quintal, daqueles candengues e meninas que já com barbas e bigodes macios que nem bigodes enrolados de lontra, curtiam a semana falando daquele e tal e coisa e ou daquela garina (magana) e coisa com tal num vai daí não sei se… e como vai ser - No baile combino! Naqueles tempos de espigadissamento os candengues já com jeito de Alain Delon (Além Delon), banga no estilo de ninita, peritos ao salto da macaca, saltavam os muros para de raspão dar só um beijo na Milocas até fazer cantar os passarinhos, malditos periquitos e… num raspa que se faz tarde, um despois de só mais um… e vai daí o outro dia nascia sempre muito cheio de Sol e do lado Nascente.

Mu Ukulu34.jpg  Assim num pisca-pisca os mais novos, ouviam estórias, missossos dos mais velhos, da labuta dos seu dia, tesourando no patrão, no filho da caixa do capataz, no enrolamento das leis porque a bota não batia com a perdigota; num de estão a lixar-nos a vida eram dissolvidas nas vírgulas desportivas com cabrões e com golos fenomenais descritas ao pormenor que nem os comentaristas de hoje podem exemplificar. Já naquele tempo eram o Sporting, o Benfica mais o Belenenses. Pois! Porque sempre havia uns vocábulos mais fortes de sundiameno do árbitro e, o filho do bandeirinha, cabrão toparioba mesmo; vesgo dos olhos e sei lá mais o quê, o cambuta de merda! Já ao fresco das dez da noite, os loandos eram enrolados e seguiam seus destinos debaixo do braço e, um até amanhã…

Não nos esqueceremos dos bailes onde a farra da música a gira-discos ou até com um conjunto local pago na forma de vaquinha pelos amigos dos amigos, vizinhos e afins dominava nos fundos de quintal até lá pelas quatro da manhã; quintal alisado com cimento na sua pura cor e, mas também de terra batida, molhada para não levantar pó. Até as aduelas de barril e as chapas de zinco se curvavam ao merengue cheirado a catinga misturada com Old Spice e sabão de côco cheiroso, cuca ou nocal - por vezes Sbell na forma de bolunga de whisky da Luua feito na fábrica da Catumbela. Às tantas a mistura de cheiros já eram todas muito iguais…

Mu Ukulu60.jpg  As celhas ficavam a um canto cheias de gelo com pirulitos, canadá dry, mission, seven-up, laranjadas e cerveja. Havia sempre bolos, tortas, rissóis de camarão, bolos de bacalhau levados pelas mães que não perdiam pitada cochichando suas sempre belas filhas casadoiras e o fulano mais beltrano, filho deste e daquele, um director lá da FTU e outro neto do Deslandes, que falam ir ser governador e muitos edecéteras preenchendo num depois as conversas da semana. O ponto alto era mesmo o chás da cinco e das seis, como pretexto de colocar as noticias em dia. Tu já sabes, a Alice que trabalha na Maria Armanda (costureira de fama…) está grávida! Como é!? Pois e tal, vida da Luua era assim um diz que vai ser ou foi, há isso já é velho! Tenho de fazer a janta pró meu Zé, e lá ia a costurar ideias na mistura com seus ideais…

Sábados e domingos eram religiosamente reservados para assistir às cowboiadas e outros filmes; tudo começava nas matinés seguindo-se uma ida ao baleizão para retemperar o físico com uma girafa, canhângulo ou pata, comer um prego no pão ou uma grande salsicha enfiada num pão pré aquecido e com muita mostarda. Isso! Tipo cachorro quente mas, gigante e com o sabor do Tarik.

minguito1.jpg Minguito

Depois combinar com a malta e seguir o rumo do Marítimo da Ilha, Clube do ferrovia, Casa das Beiras ou do Minho no Largo Serpa Pinto ou no Sporting Clube da Maianga com as garinas mais lindas do planeta. Lá estava a família Araújo sentada no palanque de convivas vendendo empatia a quem viesse… E, vinham sorteios do par mais simpático, da rainha do baile com votos de canudinho, prendas ou leilões por vezes e… As meninas sentavam-se em cadeiras dispostas em mesas e nós os gandulos da farra dávamos um toque de farpela, um piscar de orelhas, um puxar de colarinho e a noite escorria numa felicidade perdida…

minguito2.jpgGlossário

Kinambas – pernas; Bingo - a sorte grande da roleta; Girafa – copo grande e esguio de cerveja; Canhângulo – copo tubular e alto com cerveja – como se fosse um cano estriado duma arma tipo pederneira, assim de carregar pregos e limalha para amaciar, como um antigo arcabuz; Pata – copo com forma de pata grossa de elefante; Luua - Luanda; loando – esteira feita de papiro (loando do rio) atado com mateba; espigadissamento - fusão de espiga com astucia; Garina – moça, menina jovem já quase mulher; Tarik – Dono do Baleizão (alcunha, creio!); Estilo ninita – uma banga de puxacarrijoduro (tudo junto), um jeito de calcinhas fazer estilo tipo pavão; Mulola – Linha de água de leito seco, que só é rio quando chove; Sbell – Wisky da Catumbela; Old Spyc – cheirinho cheiroso…

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:20
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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2019
MU UKULU – XXII

MU UKULU... Luanda do Antigamente – 02.09.2019

FEROMONAS DA VIDA - Saber do passado para melhor se entender o futuro... Sousa Coutinho, por via do Ministro de D. José I,  começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento...

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soba15.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

luis000.jpg Luís Martins Soares – Falecido no Brasil em Julho de 2109 - (Rio de Janeiro)

ango0.jpgAleatoriamente, abro o livro do Mu Ukulu e, aqui e ali as recordações na forma de ongweva surgem com um MU de Mutamba, feita árvore com nome de praça “rua larga e areosa” com machimbombos ou, na forma de lembranças “da Luua do antigamente”. Aqueles tempos em que Luanda ainda tinha Assunção no nome com mais de quatrocentos anos, eram de um trágico marasmo, mesmo admitindo a breve presença holandesa entre 1641 e 1649 que por ali se estabeleceram aproveitando, também, “o manancial” escravista.

Os holandeses não levavam propósitos libertários e nada acrescentou à economia angolana a não ser deixar uma prole de gente com nome menos vulgares como os Van Dunem. Eles também queriam escravos para as suas possessões em outras partes do Mundo. Os portuguese tiveram assim de se refugiar no Rio Kwanza, fortaleza de Massangano que tiveram de construir na sua margem direita. “Aqui se retempera a Alta-Lusíada” escreveria um jornalista angolano.

muxima1.jpg Mas, pulando no tempo, eis que em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador-geral. Em Junho desembarca o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal, “Primeiro-Ministro” em Portugal, a Metrópole. Sousa Coutinho era da família dos Condes de Redondo, trineto de Fernão de Sousa. Redondo é um concelho próximo de Évora. A cidade de Sumbe, cujo nome antigo era Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho e, daí o nome em homenagem ao seu fundador.

Recentemente estive em Cuba do Alentejo revendo no local as pegadas antropológicas de Cristóvão Colombo que ali nasceu e, pude verificar terem saído desta região de Portugal gente que permanece na história hodierna por via de seus feitos; entre estes está Inocêncio de Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” e, ali chegado, de imediato executou os seus objectivos: Ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro - até esse então, só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes.

moça2.jpg A nova “borda mar”, bombordo pretendida por Sousa Coutinho, dizia respeito à célebre Costa dos Esqueletos e abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia; os portugueses não tinham meios e gente para tão grande e exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos de um frade capuchinho de nom Cavazzi, que viveu em Angola por volta de 1678.

Portanto, só a partir da ida de Sousa Coutinho e, por via do Ministro de D. José I, se começa a olhar para Angola com uma nova visão quanto ao seu desenvolvimento. Bem! Logo a seguir foi votada de novo ao quase esquecimento e, até aos anos de 1885 quando da Conferência de Berlim. Preocupou-se na facilitação de colonos nos planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil. Pouco ou nada se conseguiu porque as doenças dizimaram os poucos colonos que para lá foram. O actual Sumbe era até conhecido pelo  “Cemitério dos brancos”...

coutinho1.jpg Tinha também o propósito diminuir a exportação de escravos com melhoria nas condições de transporte destes. Foi o único Governador a proibir a guerra do kwata-kwuata (Agarra-Agarra), mas infelizmente mal virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. A guerra do Kwata-Kwata era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus sequazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. O próprio gentio escravizava-se entre eles, normalmente por via de aprisionamento das guerras entre tribos. E um facto ainda bem conhecido nos dias de hoje quanto se dá ordens a um cão para agarrar algo com a fala de kwata repetida.

coutinho2.jpg Criar incentivo à imigração estrangeira para substituir as levas de degredados que não cessavam de chegar do M´Puto e Brasil; também a criação de uma agricultura auto-suficiente. Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda morria-se com escorbuto - uma doença comum nesse então, por não haver o hábito de come frutas e legumes frescos. Surtos normais nos embarcados em caravelas por ainda não existirem os métodos modernos de conservação pelo frio. Não obstante era possível cultivar todos os géneros alimentícios nas margens dos rios como o Kwanza, o Bengo  entre outros.

massangano1.jpg Estabelecimento de grandes armazéns de víveres para eliminar os ciclos de fome que atingiam a capital de Loanda, um ancestral formato dos Armazéns do Povo após a independência dada pelo MFA em 1975 ao MPLA (Movimento de Libertação de Angola), à revelia dos outros dois Movimentos e grande parte da população de regiões para além da grande Luanda com kwanza Icolo e Bengo na linha da frente.

kwanza1.jpg Também o desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre (Benguela) cobre, sal e salitre e, talvez prata e ouro, que nunca apareceram mas, que se dizia existir nos rios Lucala e kwanza. Os diamantes e petróleo por desconhecimento ainda não tinham a cobiça do mundo, nem tampouco a importância do Nióbio entre outros minerais de características especiais em uso nos aparatos de aviação espacial e na comunicação. Construção do hospital de Luanda, edifício da Alfandega, Terreiro Público e fortaleza de Benguela.

(Continua…)

Recordando o Século Kota Mwata Luís Martins Soares

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:22
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Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019
XIPAMANINE . III

Vuzumunando a vida no Xipamanine – 3ª Parte

Moçambique - A diáspora lusófona28.08.2019

Escrito em Johannesburg a 10 de Fevereiro de 2005 – Reconstruido em Agosto de 2019

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soba0.jpegT´Chingange . Em Panoias do M´Puto

mano corvo.jpg Estava quase a chegar ao N´dumba Nengue quando um desempoeirado polícia vestido supra numerário a caqui azul e cinzento bamboleando o cassetete fez parar o carregador do t´xova xitaduma, Juka Lilás : -Que levas aí nesses garrafões camarada? Perguntou, sabendo de antemão que aquilo só podia ser água de defunto. Falava só de camarada porque assim recordava seus muitos dias passado na mata, na luta da libertação; por respeito mesmo.

Nos entretantos da averiguação o polícia queria mesmo adquirir aquela água milagrosa para adormecer a menina Josefa, já feita mulher e, de muitos atributos que lhe espicaçavam vontade. Era mesmo um costume dum pré alambamento, dos homens macho que tudo imaginavam para conseguir seus pacifistas fins - fazer amor. A vida sempre tem por detrás das calamidades de cada um, estórias fosseis feitas trilobites que por vezes aparecem e desaparecem em sonhos.

cipaio2.jpg Foi o que aconteceu neste caso do polícia Pancrácio da Silva a quem todos chamavam de Montanelas sem ser muito difícil saber dos porquês… Josefa desconfiava que isto bem podia acontecer com ela pelo que andava remexendo com sua tia Zéfinha um milongo de virar em luar as profecias negras que os búzios apontavam. Ché, num brincas, a vida não é para ser desperdiçada assim só átoa.

Ela que só desconfiava, nem queria nem deixava de querer mas e pelo sim pelo não tinha um preparo de milongo metido numa massala. Se porventura fosse atacada de supetão num agora estás lixada que te apanhei, ela sim que acederia a ele, esse tal de supranumerário polícia saído das matas e com a cabeça deslocada nas partes mais baixas de seus considerandos. Comigo estás mesmo maning de lixado.

Pois! Sim senhor que vou contigo para a cama mas, tinha um mas: - na condição de ele, autoridade, esfregar seu coiso com aquele milongo! O seguro morreu de velha; sim! A qui o seguro era uma velha estratégia simplificada no feminino. A razão com desculpa e entretantos, era de que tinha medo de sida, uma doença feia que por ali circulava com medo e que podia até levar à morte lenta! Uma moda bem corriqueiramente perigosa. Josefa na recusa permanente de curtir luar de janeiro porque não era gata de se entregar assim átoa para um qualquer sem prévia condição reflectia-se.

muralha7.jpg A ele, com a manobra de conquista difícil, só lhe deixava esta saída, usar o dormente dos espiríticos quânticos de água de lavar defunto ao redor de sua casa e de sua tia Zéfinha; Cubata meia chapa de zinco, meia bambu e paus chinguiços chapiscados de lama com palha e bosta de boi com cobertura de palha grossa do rio Limpopo.

Ele, Pancrácio da Silva, o supranumerário polícia, coisou daquele jeito jeitoso e teve até uma catrefada de filhos. O milongo da tia Zéfinha pegou mesmo e colou num amor muito fornicadeiro e, é agora, envolto numa nevoa de velhice que recorda os fenómenos de sua vida com pequenos prazeres e tudo a partir daquela água que regou um amor defuntado; água comprada por alguém que não ele, no Hospital José Macano. Ele sabia mas na condição de polícia tinha mesmo de abusar na sua reputação com baixo custo.

mucua9.jpg Nunca teria imaginado que tudo seguiria um rumo nunca por ele determinado. Já aposentado vai fazendo uns biscates ajudando o monhê indiano da loja na distribuição de produtos delicados. Estava de serviço extra lá na rua que dá para o Hotel Polana, Avenida Tenente General Osvaldo Tanzana, e depois que me trouxe uma caixa de Mac Mahom – 2M, cerveja fresca e uma dúzia de ovos aconteceu contar tudo isto num despois de lhe dar uma gasosa bassela, feita gorjeta.

Nesta estória simples de meus escritos, refiro-me por vezes a vidas periféricas em função dum estado de dependência, a vivências diferenciadas, conceitos entalados pela semântica no uso do uso e da palavra sobrevivente que sempre muda. Se não se levar em conta o meio, o tempo e o local na qual se vive ou se viveu, ficar-se-á exposto a equívocos e, quando é mais abrangente notar-se-á falas e linguajares com trejeitos locais… Pancrácio da Silva tinha sido um guerrilheiro da Renamo; nunca passou de polícia, só de cassetete…

moc3.jpg É necessário ter em conta os costumes no carácter dos povos que influem sobre as línguas. O sentido verdadeiro de certas palavras escapar-se-á sem este conhecimento. Em um certo tempo é uma coisa e passados anos, tudo mudou. De uma língua a outra, com linguajar de dialecto a mesma palavra tem mais ou menos energia, pode ser uma blasfémia ou uma injúria em uma e, não significar o mesmo em outra e, segundo a ideia que a ela se atribui. Os mitos têm muita força e quando se entra em superstições, não há entendimentos plausíveis.

Na mesma língua e, em países diferentes, certas palavras perdem seu significado alguns anos ou séculos depois. Uma tradução rigorosamente literal, não exprime sempre na perfeição um certo pensamento! É necessário por vezes empregar, não as palavras correspondentes, mas palavras equivalentes ou perífrases. Posso citar as muitas interpretações do livro maior chamado Bíblia mas, não quero ir por aqui metendo-me voluntariamente numa guerra de palavras canibais. Sabe-se que a língua hebraica não era rica e muitas das suas palavras tinham vários significados. Estou-me a lembrar do termo camelo que naqueles idos tempos se designava a um cabo (fio entrelaçado).

paulo7.jpg Glossário: Vuzumunando – contemplando, zurzindo; txova xitaduma - carro de mão - (Moçambique); Xipamanine – mercado; massala- Fruto de casca dura, maboque, maning ácido; maning – muito; boé - bom; mufana – rapaz, jovem; mafureira – árvore, o mesmo que mafumeira; bafunfar – dar-se ares, importante; cakuana – avô; madala – homem idoso; chicoxana – ancião com sabedoria, século (Angola); bassela – gorjeta; Ndumba Nengue – feira da ladra, confiar no pé e correr (produto roubado), maleita da descolonização; xipefo – candeeiro; bicuatas – tarecos (Angola).

Escrito em 10 de Fevereiro de 2005 – Reconstruido em 28.08.2019

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:25
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Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
MOAMBA . XXXII

PELO SIM PELO NÃO SOU "LENDA" - 21.08.2019

- Talvez as pessoas dos governos estejam a encher os bolsos, mas os políticos em África enchem sempre os bolsos! São os maiores…

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soba15.jpg T´Chingange - Em Panoias do M´Puto

lifune0.jpg Minha empregada Mery de Kampala é esperta, diligente e ladina como as raposas. Tem o seu clã que não é só familiar, pois abrangem os sobrinhos dos sobrinhos e amigos que consideram do peito. Alguns têm tentado fortuna em países limítrofes dos dela mas, o que contam por vezes é assombroso; andam em minas de metais raros para nós usarmos aqui e ali mas mais na Europa e Américas, nos iPad, andróides, sansungues e outros micro-ondas falantes, aonde quem não tem pelo menos dois, está desactualizado ou desmilinguido. É mesmo, falei! -Talvez por isso muitas pessoas dos governos de lá estejam a encher os bolsos, dando contractos de exploração onde há escravidão não é?

Sim! É verdade! Disse isto porque torci o nariz meio descrente da veracidade ao que repetiu: -Os políticos em África enchem sempre os bolsos, disse ela… Em todo o lado? Perguntei. Ela continuou assim com suas falas rápidas como quem, até tem medo da sombra das palavras e num foi dizendo ao seu jeito num claramente de que o africano foi é e vai ser sempre assim, quando é rico, é-o à fartazana, à lagardere, faz questão de que se saiba; compra coisas à toa só para fazer isitayela! Isso é o quê? É banga, vaidade com estilo – quase um tique geral de quem manda ou tem poder.

torres5.jpg Notei que ela a Mery estava mesmo nevosa e falou rápido coisas que nem entendi; coisas da língua dela: - Unembile, umphathi! Bona abavela kuhulumeni badla inkukhu futhi bathumele amathambo kubantu! Caramba, troca-me isso em miúdos. Pouco a pouco fui entendendo desta forma: - É assim mesmo patrão! Eles do governo comem a galinha e mandam os ossos para o povo! Nem fiquei embrutecido porque já sabia muito bem o que isso era e, neste entretanto notei que também tremia dos olhos, de raiva por nada podermos mudar. Deve ser do ADN deles!?

-Lá em teu kimbo, cada um vive das coisas extraídas das lavras, da t´xitaca, das hortas da mulola, da ñhaca, das galinhas e dos ovos e do porco que cria e mata!? Num fala assim patrão, meu coração está a bater com força. Fiquei só assim neste entretanto de conversa. O riso ainda me voa dentro do peito como um passarinho. Qualquer dia dão-lhe uma fisgada, patrão! Pópilas, não sou teu patrão! Ficamos assim mesmo com o futuro a prender-nos ao passado, pois, ganhando massa muscular…

Li em uma reportagem da «Time-revista» aonde revela que a função «vibrar» dos telemóveis é activada pelo uso de um mineral chamado wolframita, que é extraído na região do conflito que decorre no Congo; lá para as tuas terras. Um conflito que, é financiado pela exportação de metais usados em produtos tecnológicos de ponta; empresas multinacionais estão a proceder ao comércio de minerais, que estão a financiar a guerra na República Democrática do Congo e os “boco harans” para desestabilizar, ter os materiais a preço de uva mijona. Meus primos falam isso sim! Eles, os africanos bem ao seu jeito, vivem sempre pedindo mas, vão dizendo que os brancos sempre fingem que são o que não são!

chela4.jpg É por isso que tem muita maka! Tem os senhores da guerra, os intermediários, os compradores internacionais e nós que os usamos! Verdade, disse ela com os olhos húmidos. As ONG´s asseguram que, quando chegam à posse das tecnológicas, estes minerais podem já ter trocado de mãos até sete vezes com todos a ganhar. É bem possível que o leitor, ao colocar seu telemóvel no modo de vibrar, está usando esse tal de wolframita, originário da zona de conflito, lá aonde financiam essas guerras sangrentas que as televisões nem falam.

Todos andam a corromper uns aos outros, pedir favores em troca de favores e assim vivem, todos favorecidos. É isso digo eu - é a corruptocracia, talqualmente como no Brasil do Lula, Mary! O problema mesmo é que, neste favorecimento, uns vivem mais favorecidos que outros! Sabes, agora é isto, um de fazer-de-conta? Mas o wolframita não é o único mineral de utilização tecnológica com origem no centro do conflito e seu financiamento. Cassiterite, coltan, Nióbio e ouro que também são extraídos na região.

amazonas8.jpg Uma lista de minerais usados para os mais diversos fins, desde as vulgares lâmpadas eléctricas até os portáteis computadores, MP3 e consolas de jogos. Não demora, se Bolsonaro não abrir os zolhos, estarão no Amazonas do Brasil! Depois virá a luta entre os HP, Dell, Nokia e Motorola mais esse tal de Sansung duma lista ainda mais comprida. Depois esta gente do trabalho duro, ganha uns tostões e foge para a Europa e também para o Sul formando cidades em volta de outras cidades. As chamadas “townships”.

cabo01.jpg Eu vi, ninguém me contou: A poucos quilómetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships” sul-africanas. Elas cresceram de maneira desproporcionada após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências. Há diferentes tipos de townships; algumas misturam raças com muitos indianos Monhês, Sirios s até Libios e outras reúnem apenas tribos específicas. O mundo está uma ervilha Mery!

arara1.jpg Esta gente em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos, funcionários despedidos bóhers e outros marginalizados no tempo pela acção afirmativa do ANC – dar primazia de trabalho aos negros. Mas temos disto ao redor do Rio de Janeiro, ao redor de Lisboa, Paris e aonde tu possas imaginar – Uma cidade grande com gente que ganha cumbú e emprega gente desfavorecida, tal como uma moderna escravatura aceite por todos! Olha vou ter de me encontrar com o John Wayne para ir desbundar ao festival de Paredes de Coura! O M´Puto está em crise mas só falam em festivais e, todos cheios… Isto vai dar prótorto… Dei um abraço a Mery e fui seguindo no pensamento…

O Soba T´Chigange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:58
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Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXVI

 

O LIVRO ESCOLHIDO:

13 – HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho ... 20.08.2019

Por

soba24.jpg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

Livros em cima da mesa da cabeceira

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil.

11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal.

12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

13 –HUGO CHAVES – O colapso da Venezuela – de Leonardo Coutinho

booktique20.png… De epílogo em epílogo sigo-me como um sonho que ora está no M´Puto, ora está em Angola, em África, ora está na Pajuçara do Brasil lambendo as águas como quem lambe o tempo. Mas, em tempos idos, passei seis anos na Venezuela – Havia pleno emprego na governação de Andrés Peres. De tempo a tempos recomeço nos antigos trilhos dando-me mais tempo para beber a minha estória e, com ou sem profundidade, recordar alguns relâmpagos da minha lenda…

Com o tecto do sótão a se desmanchar, renovando tubos oxidados, regando o jardim com cravos túnicos e verduras cheirosas, reinvento isto e aquilo reformulando-me também no visual com chapéu saído da Namíbia e, ao jeito dum guerrilheiro do Calai, do Dírico, Mucusso ou Rundo bem à margem do Okavango recordando meu amigo Sam Nujoma. Lavo grelhas, pois é tempo de me atazanar com os remendos enjorcados a lembrar o pátio da tia Anicas e mudar a estética, retirar as bikuatas do pátio Andaluz sem uso que só juntam ratos. E assim, com tudo limpinho, apurar-me no assar das sardinhas que pingam na brasa apurando o sentido da gula. Aconteceu!

cuba 0.jpg Hugo Chaves era em seu tempo de presidente uma decepção para as pessoas que o rodeavam; assim o percebiam mas ninguém ousava abordar, comentar em cochichos porque esse, era mesmo um grande risco! Nos círculos próximos de conversas pseudo-palacianas, especulava-se a medo os motivos. Quase todos apostavam em uma tese de que o Presidente sempre se expunha em demasia transformando a política em um circo; no seu caso ultrapassava em muito, os limites toleráveis duma diplomacia a valer. Já todos o viam como um palhaço esbracejando em bolas de sabão invisíveis.    

Como é que alguém lhe poderia dizer, mesmo sendo terapeuta, que era feio deitar gases peçonhentos por via de sua flatulência frágil ou duvidosamente desclassificada ou até arrotar sem medir os decibéis certos de sua arrogância com laivos de droga energética. Para alem de ter chamado “Diabo” a Bush – presidente dos USA, fez comentários racistas e, ou conotações sexuais sobre a Secretária de Estado Condolezza Rice. Afrontou os parlamentares brasileiros chamando-lhes “papagaios dos americanos” por via de uma manifestação no Congresso Nacional em Brasília.

alema11.jpg Tudo, pelo facto daqueles parlamentares terem condenado a Venezuela com voto de censura – Tratava-se das restrições impostas por Venezuela ao trabalho da imprensa promovida pelo chauvinismo destes. Os brasileiros não quiseram deixar em claro o desagrado ao trato excessivo e abusivo de uma causa injusta fechando canais de televisão e rádios e encerrando jornais que sempre se tinham mantido até aí isentos aos cambalachos, arranjinhos e geringonças do governo de Venezuela.

Passei quase seis anos nessa terra trabalhando na Barragem Raúl Leone do Guri entre os anos de 1977 a 1982; uma gigantesca obra situada no Rio Caroni, um afluente do grande Orinoco. Tive a felicidade de ter como Presidente um senhor de alta postura, um verdadeiro estadista chamado de André Peres, antecessor ao Herrera Campins e a este ditador chamado de Hugo Chaves. Nesse então Venezuela era um paraíso, havia pleno emprego, paz e harmonia.

chaves0.jpg Naquele lapso de tempo, pude presenciar haver para além de pleno emprego, uma razoável senão boa qualidade de vida para a maioria do povo. Sentia-se isso em Caracas, em Ciudade Bolivar e nos demais estados. Meu trabalho era o de projectar e implantar estradas por toda a Venezuela e pude ao serviço de uma empresa de donos italianos, constatar isto desde Maracaibo perto de Colômbia até Roraima, na fronteira Norte do Brasil. Convém dizer aqui que fui para a Venezuela através do CIME.

CIME – Comissão Internacional de Migração Europeia. Estes anos de Venezuela foram o TOP na minha carreira de Topógrafo – Geómetra. Passei agruras mas, ganhei bom dinheiro e bastante experiência naqueles matos infestados de cobras, crocodilos e muitas iguanas. Nesse então existia a televisão CANTV e a RCTV que por serem incómodas ao governo de Hugo Chaves foram simplesmente fechadas. Este paranóico senhor não se cansava de tripudiar seus pares Latino-americanos como se fosse um Guru destes! E estes, logicamente, não lhe batiam palmas! Viu-se logo que tudo iria dar para o torto.

dracma6.jpg Em Novembro do ano de 2007, alvoroçou a Cúpula dos países Ibero-Americanos chegando ao ponto de o Rei D. Juan Carlos I de Espanha o mandar calar com a frase que ficou célebre: - “Por quê no te callas?”. Esta reprimenda proferida contra Chaves tentava impedir que o 1º Ministro espanhol José Luis Zapatero, defendesse o seu José Maria Aznar, por via das agressões proferidas e, de modo pouco cordial pelo Venezuelano Hugo Chaves! Suspeita-se que se tenha drogado para além do admissível (sendo ele um próximo aos senhores da droga, nada será de admirar…)

Tento ser o mais verdadeiro quando falo do ontem e no antes de anteontem, mesmo sem consultar qualquer terapeuta, nem ter uma qualificação de escritor. Aquela intervenção de Hugo – El Presidente levou a que na forma reservada tivesse dito algo contra o Rei D. Carlos I : “Quién piensa este viejo lo que és? E, acrescentou: - Olvida que fue Boolivar quien nos hizo libres? Seu aprumo ficou bem presente nas imagens que uma grande parte de nós viu em directo! Um palhaço arruaceiro sem jeito de líder dum povo. O tempo veio a provar que assim o era.

luis17.jpg Hugo Chaves, o narcotraficante e consumidor dessa erva  ditou um futuro negro para a Venezuela financiando o terrorismo assombrando seu país e  Mundo. E, Porque era que Lula e Dilma lhe deram tanta cobertura, tanto apoio!? É já a seguir! Chaves quis mudar o Mundo e, conseguiu. Tudo ficou muito pior! Seu sucessor de nome Maduro já conseguiu que mais de quatro milhões abandonassem o país para os vizinhos, Brasil e Colômbia.  A crise na Venezuela é apenas a face mais evidente de uma rede de organizações políticas e criminosas criadas ou alimentadas por Hugo Chávez e, depois Maduro como parte do seu sonho em desenhar uma nova ordem mundial. A explosão da violência na América Central e no México até ao financiamento de organizações terroristas como o Estado Islâmico.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:46
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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
CAFUFUTILA . CXXVIII

O CHOQUE DO PRESENTE SAÍDO DO PARALÉM – 18.08.2019

Num mundo muito redondo nos silêncios dos espaços largos, horizonte a perder de vista- Na Vila de Messejana com John Wayne…

Por

soba24.jpg T´Chingange – Em Panoias do M´Puto

Num jeito estranho entre mim e as pequenas calemas espumantes da Praia de Messejana, um mar feito anhara com abetardas ao invés de garças, abutres ou gaivotas, um monangamba escuro que nem um tição, com trancinhas gordurosas e brinquinho, óculos encaixados nos rebeldes cabelos, assim de gingão olhando-me de frente num forma turva, quase uma assombração, deu-me o recado de que o John Wayne estava pedrado na tasca do Celestino no fim da rua do Outeiro. Não seria de admirar pois que pensando estar no seu far west selvagem, matava saudades bebendo cachaça como quem bebe água.

Agradeci tal recado chispando a mão bem à maneira dos desportistas seguido de mais dois toques bem à maneira das modernas rebaldarias dos bate-na-avô, jeito de murro e um V feito com os dedos indicador e o malcriado com a mão acachapada ao peito. Este carapinha da Guiné, nem sabe que após a Revolução Francesa, os Americanos não se sentiam obrigados a tirar o chapéu para ninguém, colocando-o sobre a sua própria cabeça. Seu revolver dava-lhe a segurança necessária e este sim, era tirado quando os limites estavam ao rubro.

panoias10.png Enquanto me dirijo à tasca do Celestino vou relembrando coisas vividas num além e a propósito recordando o próprio Abraham Lincoln que simbolizou isso de não se tirar o chapéu com o uso de uma alta cartola preta; não tinham ao invés dos povos da Europa, leis e decretos usurpando as liberdades do povo; ele, Lincoln, veio a ser assassinado em Abril de 1865 ficando na história como o mártir da democracia representado em um grande memorial em Washington .

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O Texas integrado nos Estados Unidos em 1845 era uma vasta área onde a dureza e a selvajaria competiam entre si. É entre imensos latifúndios com gado pastando à solta em fazendas algumas maiores que muitos países europeus que um tal de Roy Bean instala seu “saloom” na beira de um apeadeiro do caminho-de-ferro. Roy Bean que nem sabia lêr direito, tinha um livro de leis que sempre fingia estudar e, foi comissionado a fazer justiça num território maior que a Holanda. No seu pardieiro chamado de saloom colocou um cartaz que dizia “cerveja gelada e a lei a Oeste de Pecos”.

panoias16.jpg Naquela vastidão sem lei e sem Deus ele, Roy Bean, foi o único juiz entre os anos de 1880 e 1900; passava o dia sentado na porta do saloom com um rifle entre as pernas. O meu amigo Joh Waine usava-o com uma mão no gatilho com o cano apoiado no braço. Dentro do saloom construiu uma cadeia tendo um urso preto a vigiá-la. Falo disto porque conhecendo seu jeito pode mais logo fazer desacatos na tourada e depois deste chamado à tasca lá terei de ficar atento ao seu modo explosivo.

Aquele Juiz, nos rápidos julgamentos que fazia consultava ou fingia consultar o “The Book” e, rapidamente levava à forca o infeliz numa decisiva batida na mesa com o cabo do revólver; levou assim 170 condenados ao cruel nó da corda ensebada. Sempre com uma garrafa de wisky à sua frente, exigia dos presentes o tratamento por Sua Excelência. Bean, que foi juiz durante vinte anos e, tendo sido considerado uma instituição do Texas como “o Enforcador de Pecos” – “património imoral da humanidade”, fazendo fama em paralelo com Kit Karson, Billy the Kid ou Pat Garrett. Talqualmente como o “cante alentejano” ser agora um “Património Imaterial da Humanidade”.

panoias13.jpg Estas imagens de terra e gente bravia fizeram o deleite através de muitos filmes entre os anos cinquenta e oitenta do século passado. Já falei da interacção que os putos candengues da minha geração faziam nos filmes deste John Wayne nos Cines Tropical ou Colonial da Luua na Angola Colonial. Em verdade, ainda dá gosto ver aquelas áridas paisagens nos confins dum deserto, cactos empinados entre rochas e uma cascavel zunindo seu chocalho num primeiro plano; um tufo de erva seca que rebola levada pelo vento; um moinho decrépito que faz rodar a ferrugem trazendo água aos chacais.

Atão John que tal está a moenga! Acorda lá! Dito isto dei-lhe dois açoites com o meu chapéu de coiro de búfalo bem no seu de aba larga com uma cinta entrelaçada feita em pele de veado! Num desatino, quase deu um pulo, pegando no seu rifle de canos estriados bem entre as botas muito cheias de arabescos com cornos: - What the fuck is this? What was it? Calma, disse abrindo as mãos e tendo em atenção seu impulso de levar o dedo ao gatilho. Por fim amainou; tinha um bafo de onça carregado mas, dei-lhe um gim com água tónica para amansar os mosquitos e água das pedras. Mas, ele bravo disse: - Do you wanna drown me?

mess7.jpg Os compadres já familiarizados com John Wayne e tolerantes como a cachaça, já sabiam que eu era um seu grande amigo, quase familiar e, em verdade notei que ficaram doidos por estarem assim tão de perto com uma celebridade! E, vestido daquela maneira com polainas a condizer com os homens espadas, faziam-lhe perguntas atrás de perguntas e ele, com seu português raspikui, motivado e traduzido por seu anjo Akasha, seu espaço com éter, assim correspondia com o pentagrama da 5º ponta (a ponta apontada para cima), aquela que representa o espírito do paralém... E, não é que se entendiam de maravilha!

A caminho da tourada do Rouxinol, foi-me dizendo querer ir a Paredes de Coura o WOODSTOCK TUGA. Para quem não sabe, o festival de Woodstock não foi nada mais, nada menos do que uma orgia á americana, um grito contra a guerra do Vietname e vai daí, este festival lá nos States de música onde se podia fumar uns charros á desbunda, fornicar até dizer chega e até podiam desafiar os padrões da época que eram entre muitos, andarem nus e fazerem amor com os negros (Foi o Luís de Magalhães que disse…). Sendo assim fiquei de pé atrás mas disse-lhe: - Yes! Na firme convicção de o mandar à fava, quem sabe? Talvez!…

torres7.jpg Na tourada, foram o bom e o bonito! Fez um espalhafato de tanta alegria que só faltou saltar para a arena e dar um abraço àquela malta marada dos forcados! Os bois de quinhentos e tantos quilos foram difíceis de forcar! Ele saltava, dava vivas misturando asneira com alegrias e foi mesmo o escambau: Catch him like this, pega-lhe assim e assado, como se ele fosse um entendido, gritava! E, sabendo que ele só era bom no laço, demos-lhe o benefício da dúvida! E batia palmas aos forcados de São Manços.

E estrebuchava-se com a valentia dos forcados de Beja! Mas, o pior foi quando já na terceira tentativa o touro partiu a perna de um, o de caras. Vi-me aflito com O Wayne; queria saltar na arena e num vai e espuma raiva, pega na sua Winchester e… foi neste entretanto que virei a arma para o ar: PUM!...PUM!…PUM! … Três tiros memoráveis! Todo o mundo se levantou à volta da arena a bater palmas. Wayne, teve muita sorte não ser levado para a grelha pelo xerife, digo o sargento da GNR vestido a rigor ao lado do Director da Corrida de seis touros… Uf! Que alivio! Nem sei se irei ao tal de Woodstock Tuga nas Paredes de Coura…

O Soba T´Chingange na Messejana do M´Puto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:32
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Quinta-feira, 15 de Agosto de 2019
CAFUFUTILA . CXXVII

TEMPOS QUENTES – NO PARALÉM

- EM PANOIAS COM JOHN WAYNE15.08.2019

O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios; de novo, John, surge para visitar seus parentes como se nunca daqui tivesse ido – Uma fricção diferente…

Por

soba0.jpegT´CHINGANGE – Em Panoias do M´Puto.

para0.jpg John Wayne - Seu verdadeiro nome era Marion Michael Morrison. Ele detestava seu nome e ao entrar para o cinema mudou-o para John Wayne, que tinha mais a ver com um rapaz de 1,92 de ventas largas. Surgiu com destaque no cinema em 1930 em The Big Trail, faroeste dirigido por Raoul Walsh. Permaneceu vários anos estrelando filmes B até consagrar-se no papel de Ringo Kid em Stagecoach, clássico de 1939 de John Ford. A carreira de Wayne foi assim agraciada com esse divisor de águas inestimável, que o lançou ao estrelato. A relação com Panoias é mesmo só uma lenda. Esse filme tornou-se a obra que definiu todas as principais características do faroeste norte-americano.

Longe vai o tempo em que que eu e minha malta da Maianga, Vila Alice e Bairro do Café da Luua íamos ao cinema Colonial em São Paulo para gozarmos as cenas que se passavam dentro da sala de espectáculos. Todos fazíamos parte duma qualquer aventura que este astro levava até nós na pantalha gigante deste ou outro qualquer cine. Aqui era diferente, havia beatas feitas piriscas pelo ar para festejar cada uma das victórias deste nosso amigo fosse em duelos ou atrás duma bissapa aguardando em tocaia os vilões, ladrões de vacas.

Para além das piriscas havia avisos ao grande ídolo Wayne; Quando em surdina um bandoleiro com fúsil longo ou curto o queria apanhar, todos nós o avisávamos da tocaia: - Olha à tua trás! E, sempre ou quase sempre ele, virava-se com o revólver engatilhado e Pum, pum! Por vezes era sua Winchester que ele suportava entre os dois braços – o mauzão caía ali esparramado, gritando tardiamente o may good  e, nós… Eu bem que lhe avisei e, num eu avisei primeiro, não! Fui eu! - Passava a outra cena e a festa continuava. Nós, candengues da Luua tinhamos essa peculiar cultura do cinema…

mess7.jpg Aqui em Panoias, saí de mansinho da rua vinticinco do abril dez minutos para as sete; o silêncio rondava o lugar do Paralém e, nem o cão rafeiro da rua do Outeiro me ladrou, procedimento incomum, talvez por ser cedo ou por não querer mostrar seus caninos cariados e, voltei à esquerda na rua pisando o asfalto meio quente dos 33 graus, casas caiadas com barras azuis muito a condizer com o Paralém de Messejana, famosa por uma praia que nunca teve.

Passando o lugar aonde os tabaibos dão lugar aos eucaliptos cheiro as horas da manhã, batiam as sete badaladas no sino da igreja da Misericórdia, estando eu em frente do chafariz construído num ano em que quase estava para nascer mas que já não tem água - 1945. Via-se ao longe a ermida da Nossa Senhora de Assunção mas, meu destino era a Funcheira, o lugar da estação ferroviária e, aonde iria receber meu amigo da Luua, famoso John Wayne do Colonial, paredes meias com o B.O...

Pude ler no cruzamento que liga a Conqueiros um cartaz da CDU mencionando uma próxima festa do Avante na Atalaia e fazendo menção do PCP com uma estrela, uma foice e um martelo, e o PEV com um girassol. Eram coisas passadas que o muro exibia com agrados de comunas, socialistas e afins… Ouvi do lado sul e lá longe uns barulhos de petardo ecoando nos cabeços, talvez avisando da festa de Santa Luzia ou Garvão. Não seriam caçadores porque sendo hoje dia de Santa Maria os arcabuzes ficam trancados no mukifo dos fundos.

panoias5.jpg Um zumbido no ar e olhando o céu, lá estava o rasto dum avião nas alturas a caminho do Sul, Áfricas e, estando assim olhando o azul rasgado ouvi um convincente “Good Morning”… Como é possível, ele estar aqui e assim montado e tudo, estando eu a caminho da estação para o receber! Será ele? Estas coisas de gente que surge do paralém tudo é possível! Mas, que grande susto! Segundos antes não estava ali ninguém e, num repente, saído do nada ali estava o fulano vestido à vaqueiro com polainas, um autentico cowboy americano empanoiado de fantasma!

E, surpresa das surpresas… Ali estava este tal e qual John Waine, vestido como se aqui viesse fazer um western. Não te assustes, disse ele no seu jeito meio fanhoso: -Don´t be afraid! I heard gunshots and came to see!... Em inglês! E, perante o meu franzir de sobrolho continuou a falar, mas agora em português com sotaque de alentejano de Aljustrel, bem cantado e balouçado: - Foi quando falou: -Na minha anterior encarnação andei por aqui e venho agora matar saudades; tenho primos e afins mas quero que sejas tu a ajudar-me nos caminhos! É que isto está tudo bem diferente! Desta vez quero ir à tourada de Messejana.

panoias6.jpg Caramba! Num repentemente surgiu um puro lusitano a seu lado! Let's ride! Let´s let's go! Vamos, monta! Estava tolhido e, assim tremendo e com a sua ajuda pulei com alguma dificuldade para o lombo do lindo exemplar de cavalo com uma mancha branca na testa. E, lá fomos em direcção à Ermida de Nossa Senhora de Assunção… Foi neste entretanto que lhe dei a novidade de que recentemente roubaram os dois sinos grandes em bronze! Temos de procurar esses larápios, disse ele já espumando vontade de atirar. Calma, disse eu; isso já deve ter sido fundido e vendido! Isto está assim! Estás num M´Puto novo. A justiça anda de muletas…

panoias7.jpg Fiz um rodeio em direcção a Sargaçal porque sabia ir ali encontrar bois e, lá chegados vi o encanto nos olhos de John! Os bois com os rabos a dar e dar, um e outro lado afastando moscas enquanto a passo rápido se deslocavam da barragem de água para as gamelas de pasto com a suposta ração que nós lhe daríamos; pensaram que seriamos nós, seus cuidadores. Vou tentar reproduzir a imagem, o gado com crias seguiam o rumo da palha levantando o pó do chão, assim como uma mini boiada e mugidos de indicar presença aos bezerros e entretanto o moinho de vento rodando fazendo tric…tric…tric…tric…

mess01.jpg Nas palhetas duma pá desmazelada, o vento já riscava com sons de gonzos uma tabuleta que teimava em amachucar um outra torta chapa pelo chik…chuk…chik…chuk, vento de sudoeste que entretanto se levantou! Era mesmo uma cena dum filme e, se gozei na imagem dos muitos filmes que me alegraram, olhos colados ao grande ecrã! Sim, sou mesmo da geração do cinema, das matinés de ver gado despencando com pó, rifles, ladrões e tiros de colt de rodar tambor ou winchester. 

way0.jpg E curiosamente, o encanto não era só meu. John Wayne estava consolado! Sentia-se este mistério. A todo o momento recordava-me: - Já compraste o bilhete da tourada, desse tal de Rouxinol e dos Bastinhas mais os forcados de São Manços… Mas, como é que ele sabia serem estas as vedetas do dia quinze de Agosto!? – Tu nem necessitas de bilhete, disse eu! Notei por um muxoxo suave que só queria ter a sensação de estar vivinho da costa… Vou-vos dizer! Há coisas que nem contadas ao pormenor parecem ser verdadeiras, háka!…

(Talvez continue…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:31
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Terça-feira, 13 de Agosto de 2019
FRATERNIDADES . CXXII

ANDO ENKAFIFADO – 06.08.2019

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para se dizer”. Cristóvão Colombo era um português de Cuba sim senhor!

Por

soba0.jpegT´Chingange – Na Cuba de Colombo, no Alentejo

Meus amigos, devagar que tenho pressa! Recordo-me de no acampamento aonde dormi com meu pai quando e como brigadeiro, trabalhava na construção da ponte sobre o Rio Lucala no grande país que então era a Província Ultramarina de Angola. De ter ouvido hienas a chorar e urros distantes de leões; relembro os bidons ao redor do acampamento contendo tochas de fogo pela noite para as afugentar no distante ano de 1954, teria eu meus nove anos.

cuba9.png Nisto de recordações acabo por chegar ao conceito de se escrever ao jeito de Graciliano Ramos! “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra (malamba) foi feita para se dizer”. Com esse condão de elaborar um trabalho colocando no papel tudo aquilo que consegui observar na terra e nas pessoas, tentarei mostrar a sociedade actual, gente simples mas muito cheia de curiosidades. Foi um pouco a partir do nada que trabalhei a curiosidade ao descrever assuntos banais. E, fiquei também ciente de que o que toca a imortalidade é a obra e não o ser humano que perdura.

Afinal Cristóvão Colombo deu a volta ao Mundo! Suas cartas, reparos e pergaminhos devem ter ficado em um qualquer sótão que o tempo amareleceu. Vejam aqui tal ironia em seus procedimentos de honestidade, o estudo dos ventos e nós nos cordames das velas, das madeiras dos mastros e dos muitos segredos para justificar tanto sacrifício; longe estava de imaginar que numa parte deste mundo tanta gente daqui saída que agora se recorda com um Ginga Malaia, tradição trazida do Planalto do Sul de Angola pelos Xi-Colonos do Reino de Maconge; um reino que só existe em sonhos de candengues e, que no tempo se tornaram gente adulta…

Assim andei no meio de uma festa festejando a alegria, curtindo a juventude que resta, lembrando as farras do fundo do quintal da Luua, na Associação de Estudantes do Lubango e, vendo os netos dos amigos rodopiando em graçolas e risos contagiantes fingindo beber tinto e, terminando o engulo com um Plim-Plau. Assim deixando o tempo abraçar os cabelos grisalhos e os sulcos dos anos, a conversa começa do nada com um senhor na Tabena do Monte Pedral. Mais tarde seguiram-se as quase conferências nas tabernas do Arrufo, das Febras e do Lucas.

cuba4.jpg Nos últimos anos surgiram novos livros de investigação com a tese de que Cristóvão Colombo era português - de Cuba, no Alentejo - e não genovês, como conta a versão "oficial" da história. Será mesmo assim? O Núcleo de Amigos de Cuba e a Câmara Municipal organizam uma tarde de conferências no centro cultural da vila. Aqui, o luso-americano Manuel da Silva Rosa residente nos USA, argumentou que o documento aceite como testamento de Colombo, de 22 de Fevereiro de 1498, é falso.

Ora, este documento, sublinha Rosa, é o único em que Colombo aparece descrevendo-se como um tecelão de Génova. "Todos os outros documentos que falam de Génova são de terceiros", diz Manuel Rosa. "Há 200 ou 300 anos que os historiadores se apoiam neste testamento como prova de que ele era um tecelão de Itália – Um Genovês." Rosa, não está nada convencido desta tese, e explica porquê: um dia antes de morrer, a 19 de Maio de 1506, na cidade espanhola de Valhadolid, Colombo mandou chamar o notário e várias testemunhas para fazer uma adenda a um testamento que tinha feito em 1502.

Pedido a um morto - A adenda de 1506 ainda existe, no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha; o testamento de 1502 é que já desapareceu. Em seu lugar, surgiu uma cópia do suposto testamento de 1498, apresentada por um Baltasar Colombo, cidadão de Génova, que dizia ser familiar do explorador. Afinal, estava a decidir-se uma das maiores heranças do mundo, no processo judicial que se seguiu à morte de Colombo. No testamento de 1498, Cristóvão Colombo pede a alguém já falecido, o príncipe D. Juan, filho dos reis de Espanha, que faça cumprir o documento, uma vez que o posto de almirante fazia parte da herança e eram os reis quem controlavam esses cargos.

cuba11.jpeg D. Juan morre a 6 de Outubro de 1497 - quatro meses e meio antes do testamento de 1498 ter sido escrito. "Se Colombo não soubesse que D. Juan tinha morrido, ficava a dúvida. Mas temos uma prova escrita de que ele sabia." Essa prova surgiu cerca de um mês depois da morte do príncipe: os filhos de Colombo, D. Fernando e D. Diego, tinham sido pajens de D. Juan, e existe o relato de um deles a dizer que o pai os enviou, a 2 de Novembro de 1492, para servir de pajens à rainha D. Isabel.

Portanto, conclui este historiador amador, Colombo soube da morte do príncipe pelo menos um mês depois e não iria assinar um documento três meses mais tarde a pedir a um morto para cumprir o testamento. Então, se não era de Génova, era de onde? "Com tudo o que sei hoje, só pode ter sido um nobre português ou estrangeiro que veio para Portugal muito novinho aprender a língua portuguesa como materna", diz Manuel Rosa. "Ele nunca escreveu em italiano. Escrevia em castelhano com palavras portuguesas. E quando escrevia para Itália, escrevia em castelhano."

cuba12.jpg Muitos mistérios em torno de Cristóvão Colombo continuam em aberto. Onde está sepultado - na República Dominicana? - É um deles. O que foi fazer para Espanha? Foi de facto trabalhar para os reis católicos, Fernando e Isabel? Ou era um agente secreto ao serviço do rei português D. João II, para desviar as atenções espanholas da costa africana e da descoberta do caminho marítimo para a Índia? Cristoval Colon, como era conhecido Colombo em Espanha, era o nome que inventou para se proteger?

Informático de profissão, a paixão de Manuel Rosa é investigar a vida do navegador. O resultado desse trabalho encontra-se nas 638 páginas da versão portuguesa do livro O Mistério Colombo Revelado (Ésquilo), publicado em 2006. Manuel Rosa continua na peugada de Colombo, e promete trazer alguns factos novos, numa nova edição do seu livro, mais concisa e clara. Esta tese sempre foi muito atacada, principalmente pelo facto de quem a investigou não ser licenciado em História. Também como ele estou convencido a "99 por cento" de que Colombo é português. Meus compadres assim confirmam.

cuca6.jpg O nome de Ilha de Cuba é em si uma razão de peso. Assim sendo, vou fazer mais o quê? As conversas das tabernas, misturam-se na memória e sai o que sai. O anteontem misturado com o amanhã num se Deus quiser. Hoje andam por aí feitos loucos procurando bichos chamados de pokémons debaixo dos chaparros esquecendo-se daquele grande navegador. Na excitação de contar coisas e partilhar ninharias, disparamos novas como se nos estivera, e está, na massa do sangue, o de sermos todos primos; as risotas por piadas de há muito repetidas; as promessas de esperanças que por décadas estão por realizar. Os sonhos das pradarias como palhas retesando-se ao vento…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:34
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Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019
PARACUCA . XXX

MULOLAS DO TEMPO - Fábrica de Letras do Kimbo com histórias da vida.

" D. Sebastião, esperado num dia de nevoeiro"  algures numa mulola...

- Mulola é um leito que só é rio quando chove (África Ultramarina) … Paracuca é um doce feito de ginguba e açúcar, rijo como o torrão de alicante, só que não fica branco …

Por

soba15.jpg T´Chingange - No M´Puto

araujo200.jpg Recentemente, visitei em Cuba do Alentejo a Quinta da Esperança e, em visita guiada por uma muito gentil menina, foi-nos explicando desde o pátio térreo junto ao aqueduto das águas aos quartos superiores da quinta-museu tudo o que de mais importante haveria a mostrar e a explicar. Dos muitos brasões que vi nos vários azulejos em fundo azul e baixos-relevos feitos em mármore e cantaria diversificada pude ver já na parte final um brasão com uma medalha por debaixo do mesmo, um prémio por ser aquela quinta a maior produtora de trigo.

cuba12.jpgAquela medalha foi obtida pelo Conde Cavaleiro, co-proprietário da quinta, pertença de um antigo Morgado, já no tempo do António Salazar. Mas, há uma outra por sobre a coroa muito comum nos brasões e heráldicas daquele tempo: -Um braço alado segurando uma espada partida. Muitas vezes erramos, simplesmente por não acalentarmos o silêncio do bom censo não discernindo sobre a qual espírito pertencemos; Desta feita não achei nada lógica a explicação por ser muito desadequada mas, mantive-me calado para não ferir honrarias e posturas prazenteiras; já lá iremos!

Falando do que vi e que calei, por vezes enchemos-nos de cantos piedosos com fervor religioso omitindo-nos das cenas de extermínio na ânsia de sermos poupados á cólera, das visões fanáticas muito cheias de sofismadas verdades, razões de fé descabidas de sustentada razão, fanáticas até. Não podia ali explicitar minhas dúvidas para não criar a falsa ilusão de que eu, era o tal perito porque decerto ficaria ali exposto como um vaidoso de prosápia. Irão calmamente entender à primeira o que me apraz dizer.

cubo7.jpg  Em idos tempos medievais as cruzadas furando o cerco a Jerusalém mataram setenta mil muçulmanos, ditos infiéis. Com a cruz alongada em forma de espada sangraram vidas arrebatando órgãos vitais que mumificados decoravam altares com a cruz de Jesus Cristo ali ao lado. Isto é tão plausível como a sopa de tengarrinhas que comi na seia com os Maconginos do Lubango, eu o Senhor dos anéis do Reino de Manikongo (gaba-te cesto…) gritando o Ginga Malaia…

Esta Quinta da Esperança situa-se em Cuba, Distrito de Beja do M´Puto. É uma casa senhorial datada do final do Século XVI (meados de entre 1555 e 1595; quase tão velha quanto a Sé de Braga). Toda a área em seu redor foi transformada com o tempo em um dos maiores campos de cultivo de trigo de Portugal. A partir de 1750 foi criando o Morgado da Esperança. Após vários casamentos com outras famílias oriundas de outros pontos do globo, como os Holandeses Braamcamp, e com a agregação dos apelidos Lobo, Gama, Fragoso, Cordovil, entre outros, é dado ao Sr. José Maria de Barahona Fragoso Cordovil da Gama Lobo, (primogénito do Capitão-Mor de Cuba, Francisco Cordovil de Barahona Fragoso da Gama Lobo de Brito), o título de 1º Conde da Esperança, criado por decreto de 22 de Setembro de 1878 do Rei D. Luís I de Portugal.

Não sei se é lenda mas logo na feitura desta quinta, em nome da Santíssima Trindade, D. Sebastião cheio de fervor religioso e militar, um pouco por todo o Portugal, incentivou os jovens a irem com ele à luta; através desta cruzada, dilatariam a fé e o império mais além das fronteiras da cristandade. E, foi no Alentejo que conseguiu reunir uma grande parte da força militar constituída por 17.000 homens, dos quais 5.000 eram mercenários estrangeiros. De Beringel, D. Sebastião levou toda a sua juventude, ficando ali, só os velhos.

beringel1.jpg  Revivendo as glórias do passado, a armada de D. Sebastião, partiu de Lisboa a 25 de Junho de 1578, fez escala em Cádis, aportou em Tânger, seguindo depois para Arzila e Alcácer-Quibir. A vida na quinta teve sua labuta mas, entretanto num hino à liberdade vislumbrei que a vida não faz sentido sem se ter um espaço próprio, de mente liberta; foi ali em Alcácer Quibir que toda aquela gente, nata de nobres e da arraia-miúda do Alentejo foi destroçada perante um exército de 60.000 muçulmanos. A Beringel, regressou um braço conservado em sal, um claro aviso para não mais ali voltarem. Entenderão agora do porquê ficar taciturno ao ver aquele braço alado segurando uma espada quebrada.

Na linha tortuosa das ruas, casas com barras azuis a limitar em branco as portas, os indícios moçárabes perfilam sombras dos telhados lusos. No turbilhão da história com foices, defini os limites da ordem de Santiago com os cristãos fustigando mouros com suas espadas em forma de cruz. E, foi em Alcácer Quibir que se deu início ao reverso da história e, já lá vão 440 anos; Aqui, tal como em Beringel, por volta do meio-dia, os perfumes do campo de funcho, poejo e espargo silvestre, adensam seus cheiros a recordar tais nobres tropelias… (nem falo das foices abrilistas para não ferir meus compadres…)

roxo135.jpg Naquela Quinta a vida seguiu seu curso! Creio que por falta de gente tiveram de laborar com escravos e será essa razão porque tanta gente tem a alcunha ou nome de Carapinha. Na quinta inicia-se assim um condado de cinco gerações de Condes e Viscondes, existente até os dias de hoje. Por ser o imóvel uma habitação da nobreza, teve o privilégio de hospedar três elementos da família real: a Rainha D. Maria II, o Rei D. Pedro V ( O tal primo do Maximiliano, Imperador do México…) e o Rei D. Luís, aquando das suas deslocações à cidade de Beja.

sebastião1.jpg Adquirida em 2015 por uma brasileira, naturalizada portuguesa, a casa actualmente encontra-se aberta ao público. Baseados em fotos, documentos e testemunhos, requalificam-na agora para que fique com a imagem que teriam na sua época áurea, no final do século XIX. São dezenas de painéis de azulejos, pintura mural a fresco, uma capela interna com talha Joanina e pinturas a óleo, uma nora funcional para tirar água do subsolo, método herdado dos árabes, aquedutos, entre outras curiosidades históricas. Um local que vale a pena visitar de forma a sentir o que era uma casa senhorial no Baixo Alentejo em meados de 1900. Disse o que queria dizer: Aquele braço alado é referente às mortes daqueles muitos mancebos – não encontrei outra explicação.

Ilustrações de Costa Araujo Araujo e Assunção Roxo 

ADENDAS

julio2.jpg- Do Professor Julio César Ferrolho:

Era costume os eis combaterem diretamente na batalha com uma tática defensiva claro. Nesta batalhe de Alcácer-Quibir combateram e morreram três reis como descrevo abaixo. É conhecido que 500 navios embarcaram as tropas do rei Sebastião em Lisboa. Fala-se sem certezas em 15.000 a 23.000 combatentes do lado português, o que daria uma média de cerca de 40 combatentes em cada navio, mais cavalos e materiais de guerra e equipamentos o que é razoável. Fala.se em 10.000 só cavaleiros do lado dos mouros não se informando quantos eram os combatentes a pé Mas deveriam ser outros tantos pelo menos, Forças em número equilibrado. Mas os portugueses chegaram ao local da batalha depauperados com fome e esgotados. Os mouros esperaram-nos em local que escolheram, logo grande vantagem à partida. Após 4 horas de combate a sorte de quem tinha vencido não estava declarada, Foi o desnorte e a falta de comunicação que levou os corpos do exército português a debandar desordenadamente com a completa derrota dos exércitos de D.Sebastião e do rei Abu Abdallah Mohammed II Saadi que lhe pedira apoio. Diz-se que, no conjunto dos três exércitos houve cerca de 9.000 mortos e 16.000 prisioneiros, nos quais se incluem grande parte da nobreza portuguesa. Talvez 100 sobreviventes tenham escapado, com custo, do local da batalha. Mulei Mohammed, aliado dos portugueses, tentou fugir ao massacre em que a batalha se convertera mas morreu afogado ao atravessar o rio Mocazim. O Sultão Abdal Malique (Mulei Moluco) que comandava as tropas dos mouros também morreu durante a batalha, mas de causas naturais, uma vez que o esforço da batalha foi demais para o seu estado, debilitado por um envenenamento que tinha sofrido uns meses antes. D. Sebastião, por sua vez, desapareceu liderando uma carga de cavalaria contra o inimigo, e seu corpo jamais foi encontrado...

- Em um esquema da disposição das forças do rei Sebastião na batalha aparecido numa publicação, é curioso verificar que havia uma secção de religiosos e outras pessoas que "não pelejavam". 

O Soba T´Chingange em terras do M´Puto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:43
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Sexta-feira, 9 de Agosto de 2019
MALAMBAS . CCXXIX

QUILOMBOS DA GLOBÁLIA

ALGURES NO BUCO-ZAU09.08.2019

- De uma das mãos lançou um ás de copas que baloiçou até meus pés e ouvi mesmo: La vitória és cierta! La lucha continua! O Gorigula tinha sido um companheiro de Ché Guevara…

Por

soba15.jpg T´Chingange - No algarve do M´Puto

capulana1.jpg Naqueles longínquos anos de entre sessenta e setenta do século passado, o XX, todo metido na Mata do Maiombe, tropeçando na força das circunstâncias e num entretanto que só durou quatro anos, a guerra foi um conjunto de acidentes suados a paludismo. De um para outro lado, subindo e descendo rios procurando rastos com o soba Mateus à frente, barafustando com o ar e cortando capim à catanada, pisando charcos infestados de sanguessugas, larvas com milhões de patas e escorpiões pretos e pré-históricos a fingir de lagostins.

Buscando turras num secalhar perdido entre a bruma e o cacimbo, o gozo da liberdade corria como se a vida fosse um jogo de poker, num azar de tomar pastilhas vermelhas para anular maleitas com micróbios fosfóricos na única água estraganada ou estagnada. Com as costas das mãos afastávamos as bicharias visíveis e, em seguida engolíamos aquilo escorrendo da mão ou numa qualquer folha verde a jeito. Guardando soberania da pátria do M´Puto, camuflados ensopados até o tutano, assim seguíamos em fila de pirilau, duas granadas presas ao peito, uma G3 em riste e uma cartucheira repleta de balas para o que desse e, viesse.

angola colonial.jpg  Atrás uns dos outros, ouvíamos os gritos da floresta, o piar dos pássaros e o grasnar de fantasmosas sombras que se moviam como olharapos entre o ripado verde com troncos disformes e veias salientes segurando esguios troncos sequiosos de luz, outros disformes esfarelando-se na velhice como abatises para alimentar bichezas rastejantes; a mente medrosa fazia-se ali num jardim de cânticos surdinando mugidos e muxoxos numa raiva sossegada. O barulho do helicóptero chega zunindo e na forma de parafuso baixa suave até ao centro da mata, uma clareira junto ao rio Luáli, um afluente do Chiloango.

Buco-Zau era um lugar rodeado de um verde escandalosamente variado e húmido, um conjunto de casas e armazéns rodeados de árvores majestosamente nobres e, mais além um conjunto de cubatas unidas por um terreiro, uma quase colina rodeada de cacaueiros e um ou outo pé de cafeeiro aonde já se podiam distinguir bagas vermelhas. As casas grandes como as do M´Puto, umas com beira outras sem ela, pertença de administradores e capatazes T´chinderes, dispunham-se alinhadas com cobertura de zinco já na cor de um castanho enferrujado.

moka31.jpg Enquanto a casa principal da roça era coberta a quatro águas em telha de canudo luso ou marselha e sacadas a quase todo o seu redor, as outras, mais modestas, eram cobertas só a zinco mas, e também com folhas de palmeira ripada e entrelaçada na forma de loando. Pretos em tronco nu cruzam-se com bikwatas ou ferramentas pendendo dos ombros enquanto as mulheres envoltas em panos com a esfinge de Mobutu, Mogabe ou do Idi Amim, levam quindas na cabeça, acanguladas de grãos.

Dos corpos musculosos daqueles Fiotes Imbindas, a catinga suada escorre-lhes como brilhantina escura e luzidia como pele de mamba brilhante, pegando-se ao cacimbo intensamente chovediço. Depois de um gim com água tónica, numa daquelas paragens de soberania no Necuto, tirei uma foto com a Charlotte, uma negra que fugida do Congo Zaire pediu boleia ate ao sítio do primo, com quem tinha promessa de alambamento. A foto com aquela negra de feições árabes crê-se ter ficado em uma caixa de sapatos na guerra posterior do tundamunjila. Isso! A guerra do setentaecinco-pkp!

camionista 2.jpg Subindo o rio Inhuca, chegamos ao Sanga Mongo, um lugar para lá das traseiras do tempo, mais longínquo do que as Bitinas e a antiga Serração do Aníbal Afonso que só existe no nome. Naquela terra, este sítio, só o nome subsiste ao salalé; ficaram restos de troncos e, alguns já só eram tábuas avulso ladeadas ou cobertas por capim, abraçados por trepadeiras canibais. Naquele desalinhado jardim, um verdadeiro refúgio de cobras de mamba negra e cipó mais surucucu, kissonde e elefantes num fim de missão medalhada a medos, fiz amizade com um Gorila do Maiombe.

O dito cujo, sentado no topo das tabuas por aparar, olhando para mim de peito feito, sorrindo de susto ousado; Seguiram-se outros instantes muito cheios de adrenalina e assim na crescente empatia tornamo-nos amigos! Ao cair da noite o meu amigo gorila a quem dei o nome de Felizmino, lá estava naquele sítio, topo das tábuas; num cada vez mais aproximados fizemos amizade dando-nos ao luxo de trocar sons de guinchos e rapidamente aprendeu o dóremifasolasi com topariobé na mistura!

poluição.jpg Num jogo de esconde e foge comprava sua amizade oferecendo-lhe bananas ouro e prata mais de maça, Foi um entendimento superior às nossas competências chegando no escorrer do tempo em um tu-cá tu-lá de irmãos. Um dia fiz uso de um estratagema, meti numa cabaça uma boa quantidade de jinguba e prendi-a com um baraço e arame a um chinguiço saliente de entre as tábuas do Tal Ex-Anibal. Felizmino não resistiu à tentação, meteu a mão na cabaça, encheu seu punho e,…nada de largar; assim ficou prisioneiro da sua própria gula.

Reganhando o dente aos poucos amaciou empatia com minha pópia já não de todo desinteligivel. Soltei-o com afagos e carinho ficando a partir daqui amigos. Ele e eu guinchávamos amizade e por este acontecido dei ao Felizmino o sobrenome de Gorigula. Fora de portas d´armas e arame farpado eu e Gorigula fomo-nos isentando de medos, conservando gestos subservientes de baixar a cabeça procurando um afago de catar amizade.

may8.jpg Um dia apareci com um baralho de cartas e, na mesa improvisada espalhei os paus, as copas, os ouros e catanas e, num repente surpreendemo-nos a jogar sem regras. Entretanto falava-lhe das minhas alegrias, num faz de conta e, ele se desentendia largando as copas; entre paus cambalhotava-se como um doidão e, eu gesticulando graças sem coreografia como só mesmo para espantar suprimentos da fala. Estávamos com uma dança com doidos quando da mata veio grande alarido, rebentamento de granadas, rajadas e bazucadas; era uma emboscada!

Escorreguei entre lianas, cipós húmidos e folhagem impregnada de aranhas até que, parei na berma, justamente ali na curva da morte aonde os restos dos camaradas se dispunham desalinhavados ao longo da picada do Massabi. Morreu o Rodrigues mais o Junça! Estes tempos amachucados da estória, foram apertados - as vergonhas alheias da vitória ficaram na certa numa luta que continuou sempre muito traída. Até cheguei a pensar que Deus era ateu, uma heresia de todo o tamanho, diga-se em abono da verdade.

CABINDA5.png Do Felismino Gorigula ficou um sonho incompleto! Em verdade ele falava espanhol – o sacana enganou-me por completamente. Ele era do MPLA, um genuíno filho da mãe …Pulando em cima dos troncos da serração do Aníbal, com braços abertos gesticulava uma catana cortando o vento com fúria como se fosse um ninja. De uma das mãos lançou um ás de copas que baloiçou até meus pés e ouvi mesmo: La vitória és cierta! La lucha continua! O Gorigula tinha sido um companheiro do Ché Guevara; Quem ia adivinhar!? Vim a saber muito mais tarde. Desconsolado ainda pude ver-me na lagoa do Bumelambuto a fumar liamba com os Mpalabandas.

Glossário:

Fiote: -Natural de Cabinda, Imbinda; Bikwatas: - Coisas, trastes; Alambamento: - Casamento: Mpalanda: - Libertador de Cabinda, defensor de seus direitos; Salalé: -Formiga que se alimenta de madeira apodrecida; Turra: - Guerrilheiro; Muxoxo: - Um estalar de palato com queixo inferior descolando a língua formatando assim um desdém sonoro mas, sussurrado; T´chindere: - Branco; Topariobé: - Vai à tuge…  

O Sob T´Chingange        



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:23
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Terça-feira, 30 de Julho de 2019
MOKANDA DO SOBA . CL

TEMPOS PARA ESQUECER - NA GUERRA DO TUNDAMUNJILA

Relembrando alguns factos do SETENTAECINCO30.07.2019

“Vai para a tua terra, branco” era o que mais se ouvia na Luua de 74/75… Alguns dos heróis de túji afectos ao MPLA também deram à sola – dissimulados, claro!

Por

 soba15.jpg T´Chingange - (Otchingandji) No Alentejo do M´Puto

soba23.jpg Remexendo no meu baú encontrei o único e último documento que tenho do ESTADO DE ANGOLA e, do Governo de Transição assinado por António da Silva Cardoso – General das F.A. Trata-se de um Salvo-conduto para transitar pela Cidade de Luanda e Bairros Suburbanos. Revendo o mesmo, este refere que na condição de deslocado exercia a função de Colaborador na Comissão de Repatriamento. Está assinado pelo Alto-comissário de Angola, em Luanda, aos 29 de Julho de 1975 - Quinze dias antes do meu Voo Luualix…

Naquele então do ano de 1975, Gonçalves Ribeiro, o pai da “Ponte Luualix” fazia alarde ao mundo da periclitante situação em retirar todos os deslocados por via da descolonização, entenda-se uma anárquica guerra com vários intervenientes, movimentos emancipalistas impreparados para se governarem a si próprios. Ainda faltava ir buscar algumas pessoas a áreas aonde não havia qualquer segurança (…). Confirmo que assim era porque estando eu destacado como “adido” no Palácio do Governo da Cidade Alta da Luua, podia vivificar o que por ali se passava.

soba22.jpg Tinha por missão dar a conhecer a gente deslocada de seus sítios tais como Administradores, Chefes de Posto entre outros funcionários que fugidos dos movimentos, mais propriamente do MPLA se encontravam confinados em hotéis, pensões e afins. Preparava também as listas de embarque – Guias de Marcha sem retorno. Via telefone ou por estafeta, dava-lhes a conhecer qual a sua hora de embarque na ponte “Luualix”; para ultimarem sua presença no aeroporto ou esperar transporte ido do Palácio que os levaria ao aeroporto de Craveiro Lopes, também conhecido por Belas.

Alguns daqueles funcionários administrativos por estarem escondidos, por assim dizer, em casas de familiares eram recolhidos por um autocarro do Alto Comissariado que os transportava ao dito aeroporto. Havia promessas de morte, vinganças avulsas. Já neste início de Agosto podia ver-se milhares de famílias pernoitando de qualquer jeito junto aos seus haveres no largo frontal da zona do check-in e jardins do aeroporto, malas, caixotes e bugigangas. Ali permaneciam dia e noite cobertos com lonas presas a caixotes usando como banheiro áreas improvisadas ou as bissapas circundantes; o cheiro era nauseabundo.

guerra12.jpg Estando eu já no M´Puto com a família, ia sabendo dos efeitos de fuga lá no Ultramar. Coisas de partir o coração aconteciam como sendo coisa pouca – a frieza das pessoas, do governo, da Metrópole em um todo, afligiam-me sobremaneira. Minha revolta era imensa! No dia 4 de Agosto de 1975, na cidade da Gabela os partidos entram em confrontos e a população organiza uma caravana, com mais de duzentos veículos, acompanhados por militares portugueses e da UNITA, que com veículos e aviação fizeram escolta até a cidade de Nova Lisboa (Huambo).

O clima que já era de inferno aquecia ao rubro! O negro olhava-nos de lado e com cara de ódio pela fermentação das rádios, dos cabos que viriam as ser generais e outros que tais. Já há uma semana que tinham deixado de trabalhar para fabricarem armas artesanais. Outros recebiam-nas das mãos dos líderes políticos, dos militares de aviário do M´Puto mais os PREC para se dar início à matança um dia depois. Em meados de Outubro, o terminal aéreo de Nova Lisboa (Huambo) encerrava, e Luanda passou a receber entre quinze a vinte aviões por dia. Conto isto sem me situar no tempo ou local mas, pouco importa porque tudo estava por igual: - Descontrolado!

Os meios aéreos para fazer chegar a Luanda os refugiados do Lobito, Benguela e Moçâmedes, sendo insuficientes, o Comando Naval arranjou meios marítimos para fazer chegar a Luanda os cerca de 250 mil cidadãos brancos (maioritariamente) mas, tendo também milhares de mestiços e negros; enfim! Seguiam todos aqueles que o desejassem! Na vinda ou ida dos refugiados de um para outro lado (como kissondes) mas e, principalmente para os lugares de embarque da Luua, praticamente não havia triagem; o controlo era precário. Nunca pude entender esta falta de cuidado na logística das coisas.

guerra01.jpg Não havia tempo para decidir de quem estava ou não nas condições de perseguido, refugiado ou o que quer que fosse. Não importava ser-se quem era e de onde vinha ou do porquê de estar ali. Era tudo ao monte e seja o que Deus quiser, aos magotes na fé de Deus com o natural berreiro e choros de adultos e crianças, ordens e contra ordens desencontradas ou nem tanto. Cães, gatos e outros animais de estimação foram largados ao descaso como heresia apócrifa!

É confrangedor só de pensar em estas turbas de gente que às pressas colocaram umas peças de roupa, uns agasalhos, umas fotos de recordação e aí vão ao encontro dum desconhecido maior que o mundo. E, as despedidas de gente serviçal ou amiga, até mesmo um vizinho que por ali iam ficando; toma lá a chave do meu carro, da minha casa, cuida do gado meu amigo porque não sei quando voltarei nem se volte. Olha pelo meu cão, a aspirina mais o tarzan que ficam presos lá junto ao gerador e perto do galinheiro. Doeu e ainda dói!

moka25.jpg Era um Adeus dado aos trambolhões às coisas, ao motor da GMC a fazer de gerador, dos gansos guardadores mais o pavão e as galinhas fracas debaixo do DKV. Ele, Deus, era só uma questão de fé interior, a vontade de querer e acreditar mas Ele, não surgiu a muitos; a lei da vida e da morte era um traço disforme, desfeito em cotão a confirmar que só somos enquanto somos, uma ilusão! Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muito mais; mas aqui não havia fracos ou fortes, só deprimidos…

Sempre observei amizades incipientes desde o tempo em que os cuspidores de prata eram usuais e era admissível ou sem reparo; cuspir-se em público era feio e anti-higiénico mas agora e ali nem escarradores havia, era no barrento da terra, nosso infortúnio. Num repentemente viramos escarro, nada ou ninguém - triste; cada qual cuspia para onde quer que fosse que nem monandengues. E entre estes, surgiam os rufias catadores de desaconchegos, gente do MPLA usando prepotência com um extremo desprezo, pedindo relógios ou valores para ficar sem dissabores nesta hora de partir; uma forma de pressionar o medo ou resquícios deste.

picapau1.jpg Havia uma restea de ordem por alguns militares, Nossas Tropas mais conscientes! Valha-nos isso porque nem todos viam este desmando na forma do PREC, dos guedelhudos do M´Puto às ordens do diabo. As leis, as atitudes, o MFA, nossos patrícios do M´Puto, os generais de aviário, mesmo que absurdas, tornavam o impossível em admissível e hoje que penso muito e rezo pouco, recordo isto, procedimentos sem que ninguém averiguasse as diferenças aturdidos por pudor. Pudor, palavra complicada de entender - qual pudor qual quê!?

Nesse então, nós gente desavinda, podíamos ver já a força da crise com roubos subtraídos pela lei dos homens, pelas nossos guardiões militares com seus amigos, nossos inimigos – o MPLA, sem lei - nem velha nem nova ou tampouco ordinária ou arbitrária, nenhuma! Um salve-se quem puder! Era um acaso feito lei ali e a frio, ora marcial ora uma prepotente aberração feita de coisa feito gente, drogados no cérebro, nas kinambas ou nas matubas…Mas, ainda há quem use paninhos de flanela para amenizar o impossível…

monstro6.jpg E, muitos daqueles ali ao nosso lado a fugir do caos, tinham estado dias ou meses antes, também a fiscalizar nossas bagagens, bagulhos de sentimento a escolher os cristais, a parti-los num desdém e isto sim e isto não; Este ouro é nosso, do governo! Mas qual governo - do MPLA diziam… sim! Ao serviço do por eles chamado de glorioso MPLA… Agora, eram camuflados companheiros de viagem, de infortúnio e, já ninguém queria retaliar o que quer que fosse; uma entrega sem jeito nas mãos dum Nosso Senhor…

(Continua…)

O Soba T´Chingange - (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:59
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Quarta-feira, 24 de Julho de 2019
MALAMBAS . CCXXVIII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . VIII – 24.07.2019

MALAMBA NAS FRINCHAS DO TEMPO é a palavra com asas…

- Boligrafando estórias do ano de 1999, talvez 1997.

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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Numa idade própria para cultivar flores, falar com elas, gozar do seu perfume, trato de fazer novas conquistas entre pessoas. Em verdade é mais gratificante conquistar gente do que atormentá-las, banir a raiva, emoções de rilhar dente duma mórbida ansiedade. Longe dos amilongados uso fracassos passados para lapidar emoções, separando o trigo do joio, lutando no corredor do tempo contra a síndroma de pensamento acelerado.

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Na solidão do vento Kuvale árido, soprando florestas petrificadas dos pastos dos Himbas dou-me conta de quanto a mente é fundamental para se gerir na sobrevivência, lá em Swakopmund também as hienas castanhas, sorrateiramente usam sua mente para de forma fácil sobreviver com o lixo dos humanos. Não querendo perder a minha capacidade de analisar e criticar com consciência soluço fantasmas passados para tentar saber o que já sei…

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Percorrendo os caminhos do ser, um dia vulgar nas terras do fim do mundo entre Oshakati e as quedas do Cunene encontramos um muito kota Himba sentado em cima duma velha mala em sua simples palhota - O que tens aí nessa mala? Perguntou-se-lhe - O tempo! Respondeu ele – Patrão, nem sei mesmo, faz quanto tempo estou em cima desta velha mala! Acrescentou o Himba - Dá uma olhada insistiu meu filho M´Fumo Manhanga.

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O Himba resolveu abrir a mala enferrujada e, mal consegui acreditar ao ver que a velha mala estava cheia de pedras, chifres de bois e muitas ervas, uma fortuna para ele pois que negociava com a desavinda sabedoria dos demais. Ora bolas! Era mesmo um Kimbanda feito kianda. Demos ao homem uma gasosa, um monte de kwanzas, e ele simplesmente olhou de forma desinteressada como se fosse mesmo muito rico e nos prestasse um divino favor. Deve ter dito, mas que vou eu fazer com isto?

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Navegando assim a vida, percorremos milhas redescobrindo entretantos diferentes mas o episódio deu-nos volta no moleirinha. E, falando do amanhã para completar o tempo já rodeados de caserio fomos matabichar no Spur de Swakopmund; veremos o quanto já cresceu esta terra dum nada que o deserto teima em tapar. A visita não ficaria completa sem uma ida ao famoso Café Anton com seu “coffe and cake” e seus clássicos e deliciosos como Schwartzwalder Kirsahtorte , Florentier e Apfelstrudel.

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Nomes nada usuais nas nossas dietas feitas com salsaparrilha, beldroegas e jimboa - muamba de chuço ou capota do rust camp. Nas calmas vamos até Walvis Bay ver a waterfront e também a área da lagoa, seu elevado número de flamingos que ali se juntam alimentando-se de crustáceos. Um natural maternidade de dançarinos vestidos a cetim vermelho; espécies residentes que ali se abrigam, juntando-se estes um elevado número de aves migrantes do intra-africano e Palearctic.

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Boligrafando estórias por aqui mas pensando no Ondundozonanandana, das muitas anotações e escritos em registos de memória de meu safari Xirikwata por Namíbia, sempre ficam por publicar textos que aos poucos vou relembrando como estando no alpendre de soalho e tecto em madeira da Guest House Willtotop de Vanda Potgieter. Repensar nos fins de tarde entre Okavango na Faixa de Kaprivi e os desertos de Swakopmund qui descritos depois de passar as quenturas dos morros de Ozakos e Kiribib.

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Activar as falas de Elisabeth Miranda da faixa de Kaprivi que com entrecortados e bonitos risos, recordam seus passados dias do outro lado do rio Okavango, um lugar chamado de Dírico, em Angola. Foi possível reconhecer em mim neste roteiro cinco marcas de destino, surpresa, curiosidade, saudade, benevolência e alguma temeridade. Também senti um desassossego de excitação. África é imprevisível na soma de angústias, incêndios com sinais de pavor, traficâncias com segredos de podridão - coisas que só África nos transmite…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:37
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Terça-feira, 23 de Julho de 2019
XICULULU . CXX

TEMPOS QUENTES 23.07.2019

Em um dia antigo encontrei no M´Puto uma pedra-de-raio; uma pedra portadora de superstições vindas do tempo neolítico… Um raio que os parta

Por

soba15.jpgT´Chingange – No Alentejo do M´puto

Envolto numa névoa de velhice, preencho os espaços da vida defuntando assuntos que já me não dão ânimo em falar. Num ápice, os n´guzos da juventude viram fenómenos, percorrendo-me a mente como se fosse um grande corredor feito varanda calçadão; já com pedras muito roçadas, sapateadas e dançadas na velocidade da luz, filósofo filmes que nunca antes tinha imaginado neste vácuo feito hiato como que para amainar ventanias ou anular rancores…

pedras parideiras.jpg Muito depois dos Etruscos, Plínio, um antigo escriba romano, comungava da crença de que a pedra polida tinha alguma cousa divina afirmando que elas caíam do céu com os raios das chuvas. Isto embrulhou-se-me no pensamento até os dias de hoje com quenturas anormalmente altas de trovoada. Tenho uma pedra destas desde o ano de 1983 e, apanhada exactamente no sítio de Vale das Lousas, sete anos, sete meses e sete dias depois de sair da guerra do tundamunjila da Luua - de Angola.

Derrubando-me nas trevas do desconhecimento, olho e ouço pela caixa mágica da televisão choros verídicos e de cortar a alma entre outros carregados de fingidas mágoas e excrescências mal alinhavadas. Pois e, foi assim bem ao lado duma trilobite petrificada que troquei por um kispo em Tetouan, no Atlas do Norte de Marrocos que, entro nas superstições que dominam muitas mentes e, entre estas, a minha!

pedras1.jpg São legados de subconsciente sem se saber ao certo se saíram de cristãos, judeus, libaneses ou sírios ou mesmo palestinianos e também toledanos ou etruscos. O certo é que ainda hoje são estas pedras denominadas línguas de S. Paulo; pedras de sílex, lisas e em forma de ponta de flecha. Diz a lenda que quando um camponês romano encontrasse uma dessas pedras, se ajoelharia de imediato e que, com toda a devoção, a apanharia não com a mão mas com a língua que, depois a colocaria no lugar mais respeitoso de sua casa para se precaver dos raios da chuva.

Não querendo quebrar este paradigma, coloquei esta bem no parapeito decorativo em azinho da minha lareira do M´Puto – M´Putolândia dos Al-Garbes. Eu não fiz isto naquele ano de 1983, sete anos, sete meses e sete dias depois de chegar a terras de M´Puto vindo da Luua num voo grátis e nesse lugar de Vale das Lousas. Estava ainda por saber por desconhecimento da tradição com lenda; já lá vamos!

lousas1.jpg Por engano das leituras por paralaxe das estrelas, estava em crer que foi a partir desse dia que se deu início à minha própria lenda - Março de 1983 mas, agora que estou mais capacitado e entendido com os ET´s, vejo que a lenda vem de muito mais atrás, de quando nem pastoreava, nem era um projecto de vida. E, porque a tradição manda, assim procedi! Sem a lamber, afagando-a somente, resguardei-a do mau-olhado da trivial onda xicululu e da comum avareza das gentes, entre outras que tais.

E, assim fui sabendo de antemão e até antepé, estar a singularidade das coisas impregnada de ruins olfactos; mesmo estando assim como esta, uma pedra gasta e na forma de um raio-que-parta! Quantas mãos não teriam já manipulado esta, agora meu património, assim fosse para matar e cortar coelhos, cortar línguas e narizes e até sacrifícios nesses antigos tempos dos Etruscos, nossos primos afastadíssimos do tempo neolítico.

lousas5.jpg Do tempo do Ferro, do cobre ou do bronze. O progresso com novas descobertas relegam estes instrumentos à semelhança de muita estórias, para as prateleiras de caves escuras e solitárias dos museus. O desprezo por via do não uso dos modernos desumidificadores, mofou-as mesmo sendo naquele então um artefacto com tecnologia de ponta.

No meu jeito de ver, sinto que tenho o dever de a agraciar porque, depois duma abrilada peçonhenta na mistura duma guerra de tundamunjila (Ponte da LuaLix sem retorno, nem estorno – Angola via M´puto) só me resta esta postura erecta. Não há forças que destruam lendas… Aos velhos será cruel deixá-los privados de bom senso até, não se lhes fazer perguntas de passados não amistosos porque das muitas noites, das muitas injustiças pode sem se querer saírem à luz do tempo a mostrar gigantescas feridas.

lousas2.jpg Talvez daí venha o termo “um raio que os parta”. E, também daí, abrirem-se gavetas com alvissaras ranhosas, cuspidelas de heróis tísicos da cabeça, ou mesmo gavetões, com ossários feitos pó. Por vezes fico esgravatando meus neurónios, ponho as mãos na testa como um pensador e, o curioso, quando tapo esta, sempre se vê uma bola roxa no centro esbatendo-se na amplitude dos diâmetros sem bordas. Foi assim na meditação profunda que recebi o legado de como matar lacraus e cobras com enxofre… Isto ficará para outro xicululu…

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:34
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Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
XICULULU . CXIX
PANOIAS VII - TEMPOS DORMIDOS20.07.2019
DE AL-CALÁ A BADAJAM
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Alentejo do M´Puto

araujo88.jpg Revendo sempre estações da vida na ânsia de satisfazer desejos como um Aladino que busca uma lâmpada mágica, também me revi como filho dum alfaiate de nome Mustafá. Como coisa concertada dispus-me a seguir os escritos que não sendo secretos aludem a feitos de magos, feiticeiros ou bruxos. Em tempos de Mouros ir de Al-calá a Badajam a pé ou a cavalo seria em tempos idos uma aventura perigosa, não só pela inexistência de bons caminhos mas também pelos predadores, lobos e homens salteadores, flibusteiros que então existiam. Hoje existem outro tipo de salteadores como que vindos de lado nenhum mas, e curiosamente escolhidos por nós para usar suas supostas boas qualidades de novos magos.

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Não, não estamos em terras longínquas do Curdistão; estes eram os topónimos de então e, que agora têm o nomes de Castro da Cola e Beringel. Efectivamente alguns de nossos ancestrais já foram mouros. Eu mesmo casei com uma senhora de nome Ibib que em árabe corresponde a criança. Mas, falando dos topónimos e coisa e tal, direi que Castro da Cola (Al-Calá) fica não muito longe e a sul de Ourique; desenvolveu-se na bacia de meandros do rio Mira enquanto Beringel (Badajam), se situa na extensa planície de Beja, tendo a ribeira de figueira a uni-la ao rio Sado.

araujo68.jpg Desconseguindo fortuna, coçando-me de incertezas aos sons graves de uma melodia sertaneja do Nordeste brasileiro, procuro aqui acerto de ideias; alando-me em quenturas, voo para norte fugindo à agitada borda mar Algarvia. Metido num pego do leito do rio Mira, mergulhado até ao pescoço, quase chafurdando, observo refrescado lá no alto a fortaleza da Cola e a torre da ermida da Senhora do Castro da Cola. Mesmo ao lado já sem uso pode admirar-se um moinho de levada que com as suas duas bocas feitas a pedra xistosa espera recuperação ou morte desmoronada. Vi ali um potencial sítio para se dar a conhecer pedagogia do que era aquele rio em anos longínquos, vida que se desenvolvia com a moagem dos cereais entre os quais o milho e mais tarde o trigo; milho que era britado para matar a fome a muita gente.

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No labor de muitos ciclos, famílias sobreviveram anos e anos amanhando a terra que agora se vê estéril, quase só com estevas. Nas reminiscências do tempo, torrentes de água vergaram ali o destino aconchegado das gentes do Neolítico até à idade média. Daquela casa xistosa mais atrás, saíam noutros tempos cheiros fortes de combinações, mezinhas de carqueja, toucinho defumado, rezas e manigâncias impregnadas a manjerico e poejo; como eu imagino aqueles odores intensos!
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E, da figura grande de barranco quando por torrente virava rio! Saído dali voei, voei como um peneireiro... E, naquela paisagem de planície agreste, em tempos profundamente marcada pelo homem, embrenhado de visão, vi-os agricultando, pastoreando, pescando, caçando e explorando recursos minerais. Passando pelas idades do Bronze e Ferro, nos 2º e 3º milénio a. C. encontram-se necrópoles com nomes de Nora Velha, Alcaria e Atalaia, fundações de povoados em Fernão Vaz e Porto das Lajes ou monumentos funerários em Pego da Sobreira.
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Aladroei estes conhecimentos básicos dum prospecto caído no adro da ermida. Nele, diz ser aquele povoado de Castro da Cola uma fortificação medieval Islâmica e Cristã dos séculos X a XIII havendo referências a antigos escritos que mencionam o nome de Marachique como sendo a interpretação correcta de raiz árabe hispânica.

araujo 25.jpg Porque o meu destino era Beringel, rumei para ali mas, pouco a pouco fui-me transformando num braço alado à semelhança do braço doiro do brasão de lá; e de espada na mão cortei o ar num ápice, passando por terras de Messejana, Ervidel e Mombeja e, de novo, feito homem poisei ali. Terão de ver em mim uma kianda fantasma que num ápice, ora está aqui ou já se foi pró álem. Já em Beringel, como um alfarrabista iluminado, fiquei a saber que foi D. Dinis que deu a primeira carta de Foral a esta terra, tendo passado a vila por segundo foral no ano de 1519 no reinado de D. Manuel I.

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Liberto de alforrias, uni Castro da Cola a Beringel por setenta e seis quilómetros; a razão de ser desta ligação é, que neste espaço territorial e no ano de 1580, muitos jovens saídos daqui seguiram o também jovem rei D. Sebastião a fim de realizar seus sonhos africanos. Animados de incontida vontade para grandes feitos, rei e súbditos esbarraram com hordas de mouros e,... A refrega da batalha culminou no completo desastre em Alcácer Quibir.

araujo1.jpg A mira de prodigiosas riquezas em sonhos cristãs, desvaneceu ao encontrar oposição de magos portadores doutras vontades e, das mil e uma noites desejadas, num indefinido alvorecer, por lá ficaram desmembrados os jovens Lusos; morreram com o rei, numa expedição estúpida de vontade imberbe. Também por ideias sebastianistas andei numa guerra de tuji (merda) por vontade alheia de novos sebastianistas gwetas (brancos) como eu. Queriam coisas e desconseguiram tornando-me um participante porque era filho duma Nação. Nação que afinal nem era minha e feito tolo, assim andei quatro anos de minha juventude – Para nada!

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Em Alcácer Quibir, foi um mar de sangue! E, foi aqui o começo do declínio destas terras Ibéricas entre o rio Mira e a ribeira de Figueira, afluente do Sado; empapando de vermelho o chão quente do norte de África, a juventude daqui ficou toda lá. A recordá-la ficou o tal brasão d´armas, um braço doiro com asas, empunhando uma adaga, tendo como fundo um campo vermelho encimado por arabescos. Algures por estes sítios, creio haver um secreto esconderijo subterrâneo com uma lâmpada mágica. É só procurar um tal de Aladino! E, aqui estou eu em terras do M´Puto, espreitando pelo postigo da memória antropológica. Desde que me lembro de conhecer o mundo, cumprindo o curso da vida, obedeço sem outro querer à ordem astronómica das leis que me regem.Mas, era suposto não estar aqui…
Ilustrações de Costa Araújo
O Soba T´Chingange
 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:16
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MUJIMBO . CXI

CICATRIZES DO TEMPO21.07.2019

-Mujimbos com borututu ou o interstício das falas… O drama da vida é a perspectiva mais comum da consciência – O sentido das palavras

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Alentejo do M´Puto

roxo185.jpg Falando de costumes, torna-se necessário tê-lo em conta para definir os parâmetros do carácter dos muitos povos com influência sobre as línguas. O sentido verdadeiro de certas palavras escapar-se-há sem este conhecimento! Há uma semântica a dar rumo a isto ou aquilo porque de uma língua à outra, a mesma palavra tem mais ou menos energia, pode ser uma blasfémia ou uma injúria em uma e, não significar o mesmo em outra.

Teremos por via disso de analisar segundo o texto para retirar a ideia certa que a ela se atribui. Assim que sermos todos idiotas não é mau porque temos ideias mas o caminho desta palavra foi sendo deturpado porque hoje há mais idiotas do que bons ideólogos. Nossas ideias terão este ou aquele sentido segundo o parecer de cada qual que as lê ou ouve.

roxo146.jpg Na mesma língua e, em países diferentes, certas palavras perdem seu significado alguns anos ou séculos depois. Uma tradução rigorosamente literal, não exprime sempre na perfeição um certo pensamento! É necessário por vezes empregar, não as palavras correspondentes, mas palavras equivalentes ou perífrases. Por vezes rebusco meu dicionário “on line” saindo daí mais espevitado do que o nosso estimado Suassuma que jorra sabedoria como uma cascata de água borbulhenta.

Em meus escritos, refiro-me por vezes a vidas periféricas em função dum estado de dependência, a vivências diferenciadas, conceitos entalados pela semântica no uso dessa palavra. Se não se levar em conta o meio, o tempo e o local na qual se vive ou se viveu, ficar-se-á exposto a equívocos. Uso em meus escritos palavras próprias do local em que a cena se passa e, quando é mais abrangente notar-se-á falas e linguajares com jeitos e trejeitos locais…

roxo145.jpg Não creio que virá daqui mal ao Mundo, a não ser que se ponha a vírgula no errado sitio ou mal estacionada como é vulgar vermos as patinetes silenciosas atiradas a eito por todo o lado, coisas sem lei nem roque – ideia de puros idiotas. Uma coisa são alhos e na outra já serão bugalhos mas, nem quero ir por aqui metendo-me voluntariamente numa guerra de palavras canibais...

Posso citar as muitas interpretações do livro maior chamado Bíblia mas, isto de recorrer à boca ou boligrafo dos outros é bem desprestigiante segundo se diz, por via desse tal de paradigma estabelecido na ética com plágio e, ou outras nuances que nem um credível ET - Extra Terrestre sabe discernir. Sabe-se que a língua hebraica não era rica e muitas das suas palavras tinham vários significados. Estou-me a lembrar do termo camelo que naqueles idos tempos se designava a um cabo (fio entrelaçado).

roxo149.jpg Nas fases da criação e em géneses um cabo como hoje conhecemos era feito de pelos de camelo entrelaçados e, daqui chamar-se ao pequeno fio de camelo; conhecer-se a alegoria do buraco da agulha ajuda a entender o que vulgarmente se consideram de ditos: “ É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Não posso assim reconhecer-me em mérito ou em plenitude se separar do aconchego da amizade, o entendimento das coisas! Não é esta a minha real afeição.

Quando digo em Portugal (M´Puto) que “a malta não gosta da bófia”, no Brasil não entenderão; irão pensar que me refiro a um grupo de gente bóia-fria (tarefeiros ou ganhões) que colocam carris ou solipas em um qualquer trem. O sentido vai assim para o brejo, o mesmo dizer-se que vai para o lixo ou para a basura. Estamos em permanente descoberta pois que só agora estão descobrindo que em nosso corpo há um novo órgão: o interstício, um espaço que incha e desincha, um grande órgão celular, sistema de comunicação que actua em órgãos diferentes como uma via de união entre todos os outros órgãos.

roxo135.jpg A partir de agora um inchaço será por culpa do interstício. Sem discutir as palavras, é aqui necessário procurar o pensamento que parece ser este com mais evidência: “Os interesses da vida futura sobrepõem-se a todos os interesses e todas as considerações humanas”. Por vezes largo meu corriqueiro linguajar, puxo pela memória e saem coisas ditas eruditas, com bom senso, dirão muitos alinhados e alinhavados em suas mentes. A mente e o corpo humano continuam a surpreender-nos.

O interstício já tinha sido definido como o “terceiro espaço”, mas nunca o tinham considerado um órgão. Cientistas, em pleno século XXI, propõem agora que o interstício, formado por um espaço com fluido em circulação, se torne um órgão do corpo humano. Eles, revelam-nos que temos um órgão que nunca tinha sido considerado como tal.

Roxo132.jpg Chama-se interstício e é formado por um espaço com fluido que está nos tecidos conjuntivos por baixo da superfície da pele, reveste o tubo digestivo, os pulmões e o sistema urinário e rodeia as artérias, as veias ou a membrana entre os músculos – tudo numa única estrutura. Pela primeira vez, os cientistas descrevem este órgão e consideram-no um dos maiores do corpo humano. Coisa bem interessante.

Ilustração de Assunção Roxo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 03:18
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Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
MALAMBAS . CCXXVII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . VII19.07.2019

– MALAMBA NAS FRINCHAS DO TEMPO é a palavra a voar

- Boligrafando estórias na cor antiga em Ondundozonanandana. Já nem sei bem aonde estávamos… Foi no ano de 1999, talvez 1997.

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Alentejo do M´Puto

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NAMIBIA, em dialecto Ovambo significa terra do nada - Tudo quanto acontece, é na terra que sucede, num céu eterno e pacífico. Entregues assim ao destino, meu e de Ibib, cumpre-se na ordem natural aonde quer que estejamos – candengues por perto ou lá longe e sempre na nossa duna espacial chamada de coração; o vento sopra forte do lado de Dorop National Park trazendo areias por quilómetros e eu, galgava-os com receio de haver ali um furo de pneu, o carro teimava em desviar-se para a esquerda mas, em realidade era a força do vento quente que me forçava a preocupação.

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As nossas palavras são como sombras que nunca podem explicar por inteiro a luz de medos ou ansiedades que sempre transportamos connosco. Nunca isentos de culpas e formulando nossos destinos e, assim fomos deixando nosso ADN na mistura do vento, do pó e quenturas com adrenalina; culpados de muitas nenhumas coisas e assim formando castelos, íamos soprado vida na terra do nada. Lá atrás e mais acima do mapa, no Divundo ficaram as estórias velhas, as verdades minhas ou da lenda Miranda que para alguns, sempre serão trapaças; estórias do Batalhão Búfalo 32 da Á do Sul e edecéteras que se soltavam de nossas falas que como o vento chiavam a coisas desavindas no meio da tremulina da miragem.

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Deserto do Kalahári - Atravessando as terras de Erongo, suas montanhas secas com a areia subindo em suas encostas, pudemos atravessar as terras de Karibib, Usakos até Swakopmund e Walvis Bay pela nacional B2 da Namíbia, um calor abafador em sua máxima potência. Neste descobrir de novas coisas ficamos num aprazível mas modesto conjunto de bungalows situado junto ao mar e margem dum rio de areia, mulola de nome Swakop, o que deu origem a este nome à cidade tipicamente alemã aonde morou o ET, um amigo extraterrestre de nome Eduardo.

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E, assim atirando palavras desprendidas, recordamos terras com vazios aonde a verdade e a mentira passam pela mesma boca como rastos de picada que viram lendas. Aqui e ali no meio da secura do Karoo íamos pendurando como tufos de teias nas espinheiras do tempo nossos medos e angústias e coisas do mundo sem saber se tudo era o que parecia ser. Diz-se de que, quem quer falar de assuntos sigilosos vai para o deserto mas, nós, não arriscávamos limpar o lacre dos actos e pensamentos porque já tinhamos o coração endurecido na vulgaridade   vivida.

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Naquele outro momento em que escrevia isto, estava no modesto mas ventilado bungalow de Swakop, Ibib durma plenamente, talvez do cansaço pelo muito calor apanhado lá nas montanhas; agora com a porta entreaberta deixando o vento frio do Atlântico lamber seus pés, gostoso e frio, como quem só por ele passou. Mas então, quem vai acreditar no fogo do pó levantado do chão vermelho nas margens do Cunene, mais a norte, os candengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; Ué, caté desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira; mas que agora parece mentira, lá isso parece!

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Vendo assim a natureza que tanto nos ensina no seu riso de muitas flores juntamos o agora que nem sei bem aonde fica, musgos espaciais de nossas velhices feito folhas coloridas a vermelho com laranja, ratadas nas pontas como que comidas por um kissonde, a formiga mistério. Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena do nada, inaudível, inacreditável! Dei uma chapada em mim e doeu. Pópilas era Euzinho da Costa!

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Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha. Hoje mesmo, fins de Julho do ano 2019, tive de as cortar, as sobrancelhas – sobressaiam para além e por cima dos óculos cor de tartaruga, cor de pobre, a lembrar o Lenine ou Álvaro Cunhal, gente de sabedoria que torceu as ideias dos outros sem antever que cada qual tem o seu próprio faro, sua forma de lançar caganitas como as cabras, kiákiákiá (minha forma de rir com soluços…)…

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- Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. – Com a boca! Respondeu o candengue. Pintado de coisa ruim consegui domesticar meu frenesim raivoso, e continuei: - Sim! Mas tem nome, não tem? – Chama-se de Sundiameno. Disse! Este gajo está a gozar com a minha cara, quem diria que aqui no fim do cú de judas encontraria um puto assim tão cheio de bolinhas de berlinde com abafa de gozar o kota- O fidamãe!  Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! Estava explicitado…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:19
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Domingo, 7 de Julho de 2019
MALAMBAS . CCXXVI

MALAMBAS . CCXXVI

UM CACTO CHAMADO XHOBA . VI – 07.07.2019

– MALAMBA é a palavra

- Boligrafando estórias na cor antiga em Ondundozonanandana (Perto de Etosha). Estávamos em Sossusvlei, terra soprada com areia… Foi no ano de 1999 com texto agora reescrito em algumas partes...

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

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NAMIBIA, em dialecto Ovambo significa terra do nada. Foi aqui que vi as melhores paisagens nas minhas viagens por África. Saindo de Luderitz atravessei com o clã T´Chingange todo o Naukluft Park para chegar às grandes dunas do Sossusvlei; acampamos em duas tendas em um espaço próprio no início da zona interdita, activamos uma fogueira comunitária e deliciamos o ouvido com os sons da noite.

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As noites neste deserto, aliás como em todos outros, ficam frescas assim que o sol desaparece no horizonte. Aqueles montes enormes de areia deixam em nós a sensação estranha do quanto somos pequenos. Tivemos de preencher uns papéis para recebermos autorização de entrar no parque dos diamantes, não nos era permitido afastar-nos do trilho com outras recomendações a cumprir. Iriamos sair ainda de noite para chegarmos ao nascer do dia á duna nº 45.

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Saímos ainda noite em comboio de carros, jeeps 4*4 e, turismos como o nosso. A claridade ia surgindo e, apanhamos o nascer do sol a meio da subida nessa duna quarenta e cinco; em fila indiana gente de muitas latitudes, falando línguas diferentes estavam ali, tal como nós para saborear a natureza em toda a sua plenitude. O sol com o seu disco grande e amarelo ia subindo no horizonte do lado esquerdo; uns mundos de sombras movíveis rodeavam-nos como coisa galáctica; o amarelo das dunas contrastava com o preto das sombras.

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As figuras sinuosas a mudarem a todo o instante - algo nunca antes visto e em um palco de grande espaço, aonde também parecia nos movermos como numa ilusão sem infinito. Naquele dia casei com Sossusvlei; a fina cortina de areia desprendida pelo vento mais parecia uma seda ondulante de noiva roçando o meu rosto, os meus olhos, a minha boca. Beijei a areia feita um véu, como se fora um deus menor e os sinos das cigarras disseminadas em esqueletos de árvores perpetuaram para sempre ao meu ouvido aquele som.

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Ali era um bom sítio para entregar a alma ao criador. Foi sem dúvida a mais bonita catedral que já visitei. Se por ventura viver 333 anos, quero lá voltar na segunda metade do meu percurso. Ali, o feitiço tem mais encanto, coisas que não se apagam da retina. É esta, uma das imagens que afagamos nos dias de indulgência, nos dias de amarguras involuntárias, nos dias impregnados de incontidas revoltas. Valeu a pena subir aquele morro de areia ondulante – figuras sobre milhões de grãos de areia ora amarela ora avermelhada; levou talvez uma hora a chegar ao topo, dois pés para a frente deslizando um para trás.

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Ali, e naquele momento, aquilo era o céu. Envoltos em azul vivo, escorregávamo-nos no vermelho longínquo tremelicando a cércea no horizonte das terras altas, o amarelo ouro das dunas e o preto das sombras, cada um de nós se sentia "um senhor do mundo". Sossusvlei ficou para sempre gravado na nossa memória. Para trás (dias antes), ficava aquele pedaço de coisa caído do céu, uma bola de fogo rija como o titânio; o tal de Meteorit caído no meio do nada, como que uma pequena recepção feito bolo num imenso Calahári.

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Na Namíbia a distância não se mede em quilómetros, mas em tempo e, percorrer todas aquelas distâncias é como completar uma missão impossível. Após pagarmos uns poucos "Randes" a um homem fardado, entramos no tal lugar. Lá estava aquela coisa com 60 toneladas, uma liga de fusão vinda do Universo, dum infinito lugar. Meteorit era o nome indicado com a referência de Hoba West, não muito longe de Grootfontein (em África tudo fica perto, é ali mesmo patrão, mwadié).

:::::50  nauk3.jpgnauk003.jpgMeteorit (foto de foto)

Toquei aquele titânio rijo e frio, embasbacado sentei-me observando-o por algum tempo. Sentado na duna recordava os anteriores dias anoitecidos num universo de estrelas – ali a noite cai rápido. Posso imaginar quantos fotógrafos desejariam estar ali no Sossusvlei sem ninguém à volta por dezenas de quilómetros, sem qualquer ruído e acompanhados apenas pelo último raio de sol, pelas primeiras estrelas no céu imaculado da Namíbia e, o brinde no topo deste cenário, numa noite de lua cheia…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:36
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Quinta-feira, 4 de Julho de 2019
N´GUZU . XXXV

CINZAS NO TEMPO – NA ROTA DAS FALÉSIAS - Andamos com o credo na boca, motivo de causas alheias e à revelia da nossa vontade … 04.07.2019

N´GUZU é força, em Kimbundo

Por

soba0.jpegT´Chingange - No Algarve do M´Puto

praia.jpg Para ler até ao fim – São só DEZ itens…

Emagrecendo o tempo ao invés da barriga, uso suspensórios de encurtar chatices afiveladas e, em minhas caminhadas pelos promontórios da terra, uso-o mais para segurar o microondas-ipad a fim de ouvir música e balelas da rádio. Assim na divisa com o mar cuja vista pertence aos ricos porque os pobres assim vão ficando, engordando a imaginação e vendo passar os navios por entre as silhuetas das casas, daqueles. Com o tempo vão surgindo na cércea palmeiras a substituir alfarrobeiras e oliveiras importadas da arábia e, num repente o mar vai desaparecendo tapado pelos oásis e, por quem canta de galo.

CARVOEIRO01.jpg Ou por quem tem suficiente dinheiro para o mandar cantar, o galo de cima, o de poleiro feito de pau torto ou o granisé freguês da junta; manter uns jardineiros e um sem número de células de raios vermelhos e envernizados no disfarce para detectar intrusos, calar a boca aos patos e gansos com manias de empertigados, assim como eu. Raio que detectam quem tente entrar num parque quase temático, cercado quase até à falésia, assim fugindo ao rigor dos planos com projectos de ordenamento. As leis do Domínio Público Marítimo, pelo que é sabido, ainda não mudaram mas, deste jeito e quase fechando seus acessos ,parece que sim – que as há.

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Num lugar aonde as casas não deveriam ser mais altas que uma amendoeira, surgem palacetes com elas, as amendoeiras metidas em vasos nas açoteias, vulgo terraços, para inglês-ver, tá-se-a-ver! Amendoeiras, suficientemente grandes, para nos adulterar; a nós ou às leis que são seguramente untadas com bilhões como se permite dizer tão vulgarmente nos dias de hoje e, porque já ninguém rouba tostões assim como nos livros das vendas do antigamente. Em lugares destes, que o devem ou deveriam ser, nobres para toda a gente, não deveria ser permitido construir até 500 metros da costa ou falésia casas cuja cércea subisse mais alto do que uma alfarrobeira.

praia1.jpeg Mataram o Muammar Al-Gaddafi da Líbia, porque era um filho-da-mãe e déspota, mataram Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti que foi um político e estadista iraquiano, porque pelo que diziam era também déspota e andava a usar umas armas terrificamente maléficas (agora, tudo por li está pior...); E, na onda da subserviência do M´Puto aos DDT do Mundo, seguiram-se as estranhas façanhas made in USA; e assim como uma marionette comandada à revelia da gente (povo do M´Puto) e, agora o que se vê, é gente a imitar vidas espiraladas como se estivéssemos na Babilónia de há um quatrilhão de tempo. Andamos a ser enganados – Tambulakonta!

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Nem tanto um quatrilhão de anos mas mais propriamente no século VI a.C. e, que foi capital da principal potência da Mesopotâmia. Ainda se fosse o nosso José Manuel Rodrigues Berardo, habitualmente conhecido como Joe Berardo, um empresário conhecido coleccionador compulsivo com o dinheiro do povo, formatado numa tão ecléctica versão de misturar budas com caixas de fósforos ou postais de navios que atracavam na sua ilha de sonho. Sim! Ainda se fosse este senhor, vá que não vá! …

praia2.jpeg Mas, eu que saí bem cedo para apreciar coisas, emagrecendo o tempo, vejo-me de novo encavalitado nas arrudas que quando pisadas cheiram mal pra caraças - menos mal que ainda há calafito para curar todas as maleitas. Pois! Vamos ver se componho bem o ramalhete: O M´Puto, por via dum desenrasca nacional encarquilhado de crise, fez uma lei a que se se chamou de PIN – Projectos de Interesse Nacional tipo Visas Golden, para captar dinheiro vivo (Eles estavam todos, aflitos - EETA). Estão a ver o filme: Isto para permitir bizarrias desacostumadas entre nós a troco do tal PILIM – um desenrasca. Em qualquer cor de goveno, seremos sempre uma Geringonça

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Depois disto, das leis que provavelmente até já devem ter mudado, resultou em fraudes, em burlas e adjacências adjectivadas de coisas feias com derivados de descarado roubo e, assim, para porem em segundos ou dias, chineses a falar português, coisa quase inaudita e, como se fosse possível pôr gaivotas a ladrar e, ou cães a piar. Algo está mal! Por isso também ladro. Mas, e porque se trata dum passeio pedonal pelas arribas do cú da Europa, passo ao promontório que tão bonito é…

praia4.jpeg Chegado a uma das torres de vigia do tempo antigo conhecidas pelo linguajar popular de fachos, almenares ou atalaias, por aqui diviso o azul que se cola no horizonte com o céu. Estes, eram ocupados dia e noite e sobretudo durante o verão para dar alerta dum qualquer desembarque de piratas ou corsários vindos do norte de África e de outras paragens. Hoje vêm de todo o lado, coisa pouca para quem pensa pequenino.

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Estes flibusteiros pilhavam e faziam cativos, principalmente durante a secagem do figo e, de vez em quando, havia muita gente por aqui distribuídos em fazendas e, ou quintas. Há menos de um século ainda se faziam contractos com gente do Alentejo e até das Beiras do M´Puto para estes trabalhos sazonais da apanha do figo, da amêndoa ou alfarroba. Hoje quase tudo está ao abandono! A agricultura deste género é coisa de pobre e a água não é de fartura. Ou é por falta de diálogo com nosso Senhor ou falta de procissões a pedir chuva e também escravos da Mauritânia para trabalhar de borla.

praia3.jpeg Os tais flibusteiros, fitavam também as armações de atum e sardinha chegando com facilidade às alagoas; nestes tempos havia necessidade de se captar gente para escravizar lá naquelas arábias. Esta torre ou Atalaia da Lapa foi construída no século XVII; é uma estrutura maciça, em alvenaria de pedra e argamassa de forma circular, com cerca de cinco metros de diâmetro. O olheiro chamado de facheiro do mar, subia numa escada para este maciço que em caso de avistar barcos estranhos fazia uma fogueira de noite e, de dia provocava nuvens de fumo com lenha molhada; tal como o faziam os índios americanos Sioux nos sítios altos de lá; da forma como em pequenos líamos tal e qual nas bandas desenhadas e literatura de cordel brasileiras.

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Desta forma protegiam a barra do rio Arade por onde entravam esses tais de flibusteiros moiros, alertando com estes sinais as populações e as guarnições das fortificações da região costeira. Há bem perto daqui, deste vale suspenso, uma linha de água conhecida por Vale da Lapa, uma barragem aonde se retinha água no período das chuvas para poderem tratar, lavar olear e meter em ânforas o atum, cavala ou sardinha a enviar para toda a nossa costa Atlântica e até, mas também, ao Mediterrâneo. Cá para mim isto é do tempo dos Romanos  e muito antes do tal século  ZERO, de quando pregaram Cristo numa Oliveira com pregos artesanais (versão de espeleólogos, arqueólogos, geólogos e afins - todos agnósticos que não crêm em  SãoTomé)...

estombar2.jpeg Tenho aludido ao termo carso por ao longo deste promontório que vai desde a Ponta do Altar em Ferragudo até terras de Albufeira, porque é um relevo produzido pela dissolução das águas superficiais e subterrâneas sobre a rocha calcária. E, é assim que surgem grutas, arcos e algares que são poços naturais feitos pelo desgaste dos solos mais soltos e as lapiás, relevo plano de calcário do qual fazem "pias" de superfície  (algo quase raso) como se fossem eirados, diria ser assim uma cisterna que capta a água desse lajedo. Com tempo, vos darei mais conhecimentos que irei partilhar convosco porque vós sois, parceiros cinco estrelas! E, também porque são candidatos ao prémio “ Catana Doirada”…Mungweno!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:02
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Quarta-feira, 3 de Julho de 2019
CAZUMBI . LV

OS FALCÕES DE NOSSAS VIDAS - OS FALCÕES DAS MINHAS PRAIAS - 02.07.2019

FÁBRICA DE LETRAS DA KIZOMBA

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Lagoa do M´Puto - Algarve

Envaidecendo-me entre tufos de aroeiras, de orelhas e nariz arregaçados, espaireço-me com tudo com mais os olhos de ver recordando que as raposas daqui (que aqui havia) escasseiam mas, ao invés disso no outro M´Puto - Portugal, as raposas crescem duma forma muito inaudita, ladinas como nunca visto, nem previsto.

carv0.jpg Bufando minhas raivas pelos poros e no topo das falésias, olho e ouço barulhos de coelhos fintadores e assim num turbilhão de espairecer o físico e a mente, chego aos níveis de enriquecimento ilícito por via da corrupção. Portugal está negligenciando isto! Piso pedras agressivas neste caminho de sobe e desce pensando, quando só queria mesmo enxugar minhas lamurias por só ouvir tantas e demolidoras atitudes sem vislumbrar acções drásticas, o quanto baste.

Ao longo da minha vida gozei de muitas e belas praias; umas houve que ficaram no canto da retina, surgem às vezes em pensamentos ou sonhos. Em Angola a praia da Samba em Luanda aonde aprendi a nadar, a surfar, a pescar, a brincar às jangadas com bidons roubados nas obras públicas, coisas de candengue. Os falcões dali e agora, não são pássaros, são gente feitos “Falcão-kissonde”. Depois mudaram-se para o Mussulo, feitos já suas excelências com um pelotão de mocambos, auxiliares com bajulinhos embutidos em cheiro de aviário. Assim, vuzumunam ali a sua petulância, prepotência e poder com banga de mwngolé.

estombar3.jpeg Da Praia do Francês em pleno Nordeste Brasileiro não há falcões na forma de pássaros; em sua substituição há urubus pela costa, nos coqueirais, como se fossem gaivotas. Mas, há muito mais pelas urbes grandes, pelos municípios e com suas duas pernas fazem fintas com cambalaxos no jeito de borralheiro dão bassulas - remendador de pneus, remendando nosso kumbú, nosso pilim, nosso suor feito dinheiro.

Em todo o lado parece ser assim! Maldita confraria de larápios, falsos falcões - falcões do M´Puto, de N´Gola ou dos Brasis - predadores. Bem, agora e aqui, aqui aonde calcorreio falésias, são mesmo pássaros; acompanham-me por vezes. Assim é na Praia do Carvoeiro do Algarve com sua recortada costa cársica e aonde nidificam, ora roubando os ninhos já feitos à outra passarada, ora construindo-o em ranhuras de rasos arbustos; limitando-se a pôr os ovos directamente sobre a plataforma escolhida; não é raro encontrar ninhos de Falcões em buracos de ruínas ou na própria falésia.

bolota2.jpg Pensando e circundando com os cuidado requeridos por via de pedras roliças penso na treta de "Presunção de inocência" e dessas saídas manhosas que os DDT usam com seus bandos de doutores advogados que tudo fazem para se guindar na vida nessa mesma forma corrupta - Falcões ou Corvos especialistas em subtrair nossas migalhas. Outras vezes esperam tanto que a propósito a lei tal e seus edeceteras, expiram... Os colarinhos brancos sempre se safam e, por isso recordo um linguajar de pergunta, ao jeito brasileiro "Mas, quando é que um RICO vai para a cadeia?

Iniciei esta crónica para falar dos falcões e acabei por me debruçar nos predadores feitos homens que surgidos de muitas latitudes da Globália também para aqui vieram; só que alguns têm as garras demasiado afiadas e, falar deles é só criar contratempos. Falando desta costa com praias de maravilha que são património vivo, seria muito bom ficarmos resguardados da malvadez, humana, e da sua utópica sustentabilidade tão apregoada. Aqui direi: " Quem tem dinheiro vê o mar"; quem o não tem fica "A ver navios"...

zeca02.jpeg Passeando minha reforma entre carrascos, arruda, e espinheiras com arranha cão e quinambas, recolho espantos do mar vendo por vezes golfinhos entre os leixões ali tão perto; contornando algares sinto o restolhar de roedores, coelhos e perdizes que esgravatam entre as rosas- de-cão, orquídeas Ophrys lutea, speculum ou maios-roxos nos vales suspensos.

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Com mais tempo falarei destes caminhos dos promontórios e vales suspensos de carbonatadas rochas com mais de dezasseis milhões de anos e, do alvoroço das primeiras horas do dia. Das torres de vigia do tempo dos romanos Falarei entre coisas do nosso dia a dia com falcões de verdade ondulando o que seja com os cantares de rolas e pombos bravos, toutinegras, gralhas e até gaivotas.

CARVOEIRO01.jpg No Torreão da Atalaia, a nostalgia estava escrita com rasgos na pedra; sicrano e fulana aos tantos de tal, estiveram aqui com todo o amor do mundo. Um lindo sítio para perpetuar aventuras, apalpar os dígitos das luzernas como um farol de vida desenhada assim porque, uma vida sem memória não é uma verdadeira vida! No final as cigarras, já fantasmavam minhas antigas alforrias.

O Soba T´Chingange

 


PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:45
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Domingo, 30 de Junho de 2019
XICULULU . CIV

NAS FRINCHAS DO TEMPO . Espreitando pelo postigo da memória antropológica - 29.06.2019

Xicululu é mau-olhado, olho gordo e, normalmente invejoso…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

Desde que me lembro de conhecer o mundo, cumprindo o curso da vida, obedeço sem outro querer à ordem astronómica dos astros que me regem. Que regem qualquer um por muito que se diga ser-se agnóstico, ateu ou de um sem numero de sinónimos enganadores. Com Deus ou com a Natureza vai-se definhando em rugas e surgem crateras apocalípticas de cores preocupantes e por vezes bem periclitantes. Num repente, deixa-se de ser o maior, cumprindo a profecia e, mesmo sem o querer, também nesse constante nascer e morrer, um susto, uma crise, um desenlace com um ái ou úi, num valha-me Deus

Na sequência normal de passarmos nesta trilha, o filho sepultará o pai depois de muitos e fartos dias de inquietação; sempre vai ser assim até à eternidade de cada qual, semelhante a um sopro, seus dias passarão como a sombra no tempo aonde só a memória é capaz de fazer mover e aproximar; animados a crescer o quanto se possa, dependendo claro, de terem o coração amargurado ou dócil e, na vil preocupação de ter os impostos em dia – um paradigma involuntário fabricado por nós para fazer vingar a democracia aonde uns saem mais bem fartos do que outros.

açores1.jpg E, como diz a sombra esquerda de Saramago, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó; é uma superfície oblíqua e ondulante, dependente da memória como já foi dito. O sol, o ar, a água, e a terra, têm de ser considerados permanentemente parte de nós. O sol é a verdadeira fonte da vida e, ao invés do que alguns conceituados doutorados dizem, ele não é prejudicial; não é o sol que provoca o câncer de pele mas sim os muitos venenos que ingerimos e que serão queimados ao serem expelidos por ela.

Numa tarde já descaindo para a noite, habilitando-me a ser ninguém entre tantas e curiosas vivências, gozava do sol morno na Ilha de Santa Maria dos Açores, a mais ocidental das nove ilhas Da esplanada do Hotel Cinco situado no alto da chapada, aprecio a manta de retalhos definindo os retalhos de terra. Terra de cada qual e, descendentes de Gonçalo Velho Cabral que em 1431 colonizou. Terá sido a primeira ilha dos Açores a ser avistada, por volta de 1427, pelo navegador português Diogo de Silves. Posteriormente, em Fevereiro de 1493, Cristóvão Colombo escalou esta ilha no regresso da sua primeira viagem à América; terá sido na Vila do Porto, o único da ilha aonde terá aportado. É daqui que falo, pisando a calçada desse Colombo!

Rodeados a muros de pedras vulcânicas, canas ou milho e pontículos de hortenses, é um rendilhado que nos consola. O mar divisa-se ao redor do lado esquerdo e, não muito longe e junto à costa acidentada ouvem-se tiros; pode perfeitamente ser de um caçador de coelhos porque aqui eles, são quase praga. Desde o aeroporto até à Vila pode ver-se terras trabalhadas com amor como quem faz filigranas entrecortados por fios verdes que descem as vertentes tapando linhas de água que as tornam encantos refrescantes.

açores2.jpg Estávamos no penúltimo dia do mês de Julho de 2005, dia 24, sessenta anos feitos, dia de festejo a Santa Bárbara com cheio e sabores direccionados ao povo que por tradição levam a rigor o oferecimento das sopas do Santo Espírito. Fui ver os mistérios da Nossa Senhora dos Milagres e assistindo à missa, pude ver a coroação do Imperador e Imperatriz que irão coordenar as festas do ano seguinte, dar sopas ao povo até ao domingo de Pentecostes. Tinha tudo isto anotado em um papel timbrado pelo Hotel Cinco de Santa Maria e, já quase a rasgar inutilidades, ao reler, quis o destino ser fruto deste escrito passado que são catorze anos desse então.

Na procura de um porquê, uma vida cheia de entãos, o ser só agora, só posso dizer que é um fruto do acaso tal como um tesouro de vida e, como um milagre que sobe a rampa dum fim de Mundo, a mesma rampa que desce para o Porto da Vila lá embaixo, uma pequena e pedregosa enseada. Tenho anotado o nome do Padre Chaves que presidiu àquela missa e à margem uma indicação aos “Impérios Marianos”. Notei a forte presença de emigrantes açorianos vindos da América e Canadá – gente que perpétuo este oferecimento de comida e bebidas a custo zero – oferendas graciosas que fazem distinguir esta ilha de todas as demais. Uma experiência única, a dos cultos Marianos.

império01.jpg Ao que se diz este culto vem desde os milagres da rainha Santa Isabel, esposa de Dom Dinis que nos ofereceu o milagre das rosas e, que deu sequência a outros nomes como o de Nossa Senhora da Conceição. Os Impérios do Divino Espírito Santo são um dos traços mais marcantes da identidade açoriano, constituindo um culto que para além de marcar o quotidiano insular, determina traços identitários que acompanham os açorianos para todos os lugares onde a emigração os levou. Para além dos Açores, o culto do Divino Espírito Santo está hoje bem vivo no Brasil (para onde foi levado há três séculos) e na América do Norte. Não é por acaso que a Ilha de Florianópolis do Brasil, é considerada a décima ilha dos Açores…

açores3.jpg Fui com Ibib a um cruzeiro visitar o pedaço mais pequeno de Portugal - as Ilhas Formigas! Não me lembro do nome do barco grande que nos levou lá, mas só posso dizer que ali ia a maioria do povo morador naquela Ilha de Santa Maria, demos uma volta ao farol daquele montículo de rochas no meio do mar agitado e azulissimo. Depois daquelas águas fundas com golfinhos a nos saudarem e já no regresso, quase noite, assistimos ao fogo-de-artifício ao largo da praia de São Lourenço. Para trás ficaram as Formigas, traiçoeiras ao ponto de provocar muitos naufrágios. Assim foi em tempos idos de quando as luzes não piscavam porque nem farol havia e, a espuma das ondas pretas ao bater nas fragas pretas, ficavam escuras…

império02.jpgFormigas era um sítio aonde os dias se cruzavam mal com as noites e, porque o nevoeiro assim originava, criar mistérios. Entre parreiras nas encostas trabalhadas na forma de curraletas, cheirei os vinhos, bebi verdelho e, assim num lugar aonde tudo parece ser uma outra coisa, deixei um pedaço de mim. Há ali, um claro permanecer de doutrinas esquecidas, inspirando manifestações religiosas e acções rituais e simbólicas que perduram até hoje. Talvez por influência dos franciscanos espiritualistas, que partilhando com os primeiros povoadores as agruras da colonização, o culto do Divino Espírito Santo que, por apagamento se deixou de ver na Europa – Pois! Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:45
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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019
A CHUVA E O BOM TEMPO . CII

EXCESSO DE OPINIÃO Parte DOIS27.06.2019

- O cerne da corrupção surge-nos na forma mais agravada em instâncias superiores. É aí, que as leis têm de ser mais efectivas sem se cair num vulgar descaso judicial dando contas à democracia …

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

an2.jpeg É verdade que todos temos direito a uma opinião mas, uma partilha ou notícia em uma qualquer rede social tem de ser fundamentada. No mínimo, convêm fazer uma triagem através dos vários motores de busca conhecidos. Pois! Isso dá trabalho mas, aprende-se bastante. Muito do que se lê nas redes sociais terão de ser interpretadas como trocas de galhardetes porque é aqui nos novos meios de comunicação que se proporciona a oportunidade de se fazer brilhar a ignorância ou sapiência.

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O certo é que no tempo, tudo mudou e, muito rapidamente. O que interessa na mente de alguns utilizadores é a de “rasgar e ou esfolar”, com ou sem razão, com ou sem conhecimento, no intuito de se fazer notar. Não compreendo como é que não lendo, não interpretando e não pensando, se podem ter opiniões tão críticas e absolutas. Como sabemos, actualmente poucos lêem, poucos o fazem de cabo-a-rabo, pois isso dá trabalho e o tempo “ruge”.

cazumbi0.jpg Os motores de entretenimento e afins fazem quase tudo por nós e, basta o clicar em um rato para num repente sermos os donos do pedaço quando, em verdade somos tão só um veículo de propagação duma onda que nem sempre sabemos qual a sua origem. Na informação torna-se mais fácil ler só o título e, logo ali fica formada uma posição ou opinião sobre um qualquer assunto; em realidade teremos de usar os métodos de escrita usados em meados do século XX por Graciliano Ramos (1892-1953) o autor de Vidas Secas com episódios de superação à sobrevivência.

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Ao concebermos um texto, uma crónica ou um acontecido, teremos de primeiro esboçar, pôr de molho, ensaboar, depois lavar, colocar a corar, curtir, enxaguar, e fazer com que nosso sol se aconchegue na secagem, a ideia final. Antes de a colocar no ar, de a escrever ou de a publicitar, haverá que dar uma última leitura para que já tudo engomado se possa dobrar e arrumar na gaveta correspondente!

gracilano2.jpg Infelizmente nada disto é observado e, é lamentável que não se leia um artigo de fundo, um esboço ou síntese de um livro de que se goste, coisas acreditadas por busca consciente via internet ou em páginas credíveis e com senso comum; assuntos mais alargados, mostrando o substancial que nos levem a dizer: Valeu a pena! Interpretar preto no branco o que é de justeza ou dissertar sobre uma palestra – enfim, com assuntos de interesse e sem uma qualquer gratuita agressividade.

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Estas duas crónicas versando o tema OPINIÃO surgem porque me cansa o excesso de “falas” e de sabedorias que por aqui e ali abundam. E, porque este assunto é deveras transcendente debruço-me neste tema que por vezes é mentira; assim, quase caindo do topo do cume, chego ao Imperador D. Pedro I, Imperador do Brasil e IV do M'Puto – Portugal, que fiquei a saber estar no cimo do galheteiro na Praça do Rossio de Lisboa. Pensava eu que era mesmo D. Pedro IV mas, este cara-de-pau feito bronze, é afinal esse tal de Maximiliano I, o imperador do México.

congo00.jpg Faltou dizer que o Imperador Maximiliano I do México, era tão fajuto, um falsificado, de tão fraca qualidade que desmereceu confiança fazendo-o passar por um genérico! Não deve vir mal ao Mundo mas é queiramos ou, não uma falácia. Os Tugas não queriam gastar dinheiro e por isso a estátua ainda está por lá dando caldinhos de matumbo ao povão. Isto há coisas… Que tal seria a crise desse tempo para colocar em um lugar nobre alguém, e a custo baixo quem nada era no país da Lusofonia, dos PALOPS ou da CPLP- (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Talvez a gente desvenda com tempo estas bizarrias da governação daqueles idos tempos - fim de século XIX.

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Consultei o Mwata Januário Peter para entrelaçarmos estas fricções da história e também falar de um rei dono dum território chamado Estado Livre do Congo e, ele confirmou que aquele, era tempo de muito cacau no conhecido Zaire e, que por via dessa abastança, ofereciam mãos de chocolate uns aos outros. As efemérides na suposta metrópole que era a Bélgica era um procedimento normal. Um horror! Coisa assim, como de quem oferece um sapo feito de açúcar a um estudante! A Policia de Leopoldo recebia soldo extra por cada mão de fujões! Entenda-se por escravos os negros que se escapuliam dessas obrigatórias colheitas. Iremos com tempo, pormenorizar este trato tão vil…

Congo0.jpg Mas, era ver cestos de mãos... Coisa macabra mas real! O que nós vamos descobrir! Andamos a colocar flores no falso D. Pedro IV na praça Maior do Rossio e, afinal é aquele Maximiliano, Imperador do México que nasceu na Áustria, familiar do outro a quem D. João III ofereceu um elefante e que foi obra literária do Nobel Saramago! Esta crise, já vem de longe! Estes acontecidos são assim descritos porque o labirinto das verdades tem muito silvado e ao invés de as cortar com DDT e ou outros venenos, aproveito comer as amoras.

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A Kianda Roxo que se fez anunciar envolta em coloridas dúvidas de espanto confidenciou a mim e Januário estar muito intrigada nessas "trocas e baldrocas estatuárias" dizendo por fim: -São para mim, uma surpresa -"tadinho" do D. Pedro IV - trocado pelo Imperador do México... Ambos imperadores, ambos das Américas... "Prontus"- na viagem de barco trocaram tudo... SERÁ??!!! Mesmo sendo uma kianda Roxo confidenciou por fim que se a curiosidade matasse ela preferiria ser só uma assombração de Guaxuma aposentada.

Congo4.jpg Com o fim da Guerra Civil Americana em 1865, os Estados Unidos começaram a fornecer apoio directo e substancial ao Presidente deposto Juárez e seus comandados que as tropas francesas tinham apeado do poder. Já é o insigne professor Júlio da Figueira a falar seus conhecimentos, rematando: Os americanos do norte viam com muito maus olhos qualquer intervenção europeia em assuntos do continente americano e viam o México como parte vital da sua esfera de influência na região. Isso piorou consideravelmente a posição de Maximiliano I empossado por Napoleão e a situação começou a ficar insustentável a partir de 1866 quando as tropas franceses começaram a se retirar do México.

maximilano0.jpg O império auto proclamado pelo Maximiliano rapidamente entrou em declínio e sem contar mais com apoio interno ou externo, foi capturado e executado por forças do governo republicano mexicano em 1867. Mas, coube-lhe a glória vã e falsa de ter merecido ser trocado pela estátua do rei Tuga e Imperador do Brasil e, ser ele e não o verdadeiro, que estaria bem lá no alto a olhar a baixa pombalina por cima do seu bem alto pedestal; Pois é! Este, chegou a estar sem estátua nenhuma ainda uns bons tempos aos que os lisboetas da época chamavam de "galheteiro"! Muito haverá a dizer mas fica para uma outra crónica; após esta intervenção graciosa do Profe, todos fomos ver a novela das oito – “Órfãos da Terra”…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:11
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Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
A CHUVA E O BOM TEMPO . CI

EXCESSO DE OPINIÃOParte UM - 23.06.2019

- As leis da natureza dizem que independentemente do estatuto parental, todos nascem pelo mesmo local: -Nus e ateus…

Por

soba002.jpg T´Chingange – No Algarve do M´Puto

cacu6.jpg  Entretido com a rega de minhas verduras espalhadas por aí a eito e sem jeito, salsa com jindungo e hortelã mais hortenses e boldo ao lado do doutorzinho, venho aos solavancos entre o tempo dado ou esquecido das nove tomas de rega, escrever algo entre o muito que desejo escrever antes que as ditas pensadas nuvens se esfumem num aquecimento ou puro esquecimento; Meus pensamentos por via de não o serem caligrafados ou psicografados de forma instantânea como o café mocambo, provocam atraso a tantas e, tantas estórias que me dá dó não o serem, contadas, xinguiladas! Nestas alturas queria mesmo ser um ET, carregar num botão só pensado e, logo num repentinamente, ver afluir como uma flor as notícias do T´Ching…

charula.jpgFoto: Angola - Revista 'NOTÍCIA', n. º 381, de 25 de Março de 1967 (A morte de João Charrula de Azevedo)

Umas inventações criam mofo no baú do meu sótão, outras surgem e logo desaparecem como obra do chifrudo com quem nem simpatizo que as leva para as catacumbas. O título destas crónicas começaram faz muito tempo pela mão de Charulla de Azevedo na revista Notícia da Luua – a Luanda doutros velhos tempos num Um Ukulu esquecido por muitos e, a propósito, para não ficarem aturdidos. Sim! Ficarem com ataques de asma e ou até caspa. Porque Charulla se afastou para parte incerta defuntando-se com seus dois elles, levando com ele sua sabedoria para a terra, tal como as sementes de orégão que por aí andei espalhando a eito. Venho assim e, a bem das gentes, muito sem peneiras e de uma forma aleatória botar falas, feitas faladuras, como um banal linguajar

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A opinião e o esclarecimento são principios da maior importância para uma qualquer sociedade que se preze ao desenvolvimento. Claro que todos deveríamos ter a capacidade de opinar com conhecimento e fundamentação mas, a realidade que nos é dada observar é bem diferente; em umas, a bota não bate com a perdigota mas, outras são falsas ou demasiado facilistas para um plausível entendimento – recomendo cuidados…

saramargo3.jpg Isto leva-nos a fazer uma triagem sem contudo eliminarmos as subtilezas de cada interesse porque as facilidades imperam e outos vendem a alma ao tal diabo chifrudo para contento de sua malvadez ou e também para originar desvios ao pensamento alheio. Como manobras de diversão, andam muitos mentirosos ao nosso redor vendendo gato por lebre, criticando átoa e, outros se lhe seguem transmitindo ignorância. O partilhamento, está hoje disponível a um simples clicar e, até faz lembra as comadres da época quase medieval dum recanto interior, lugar aonde Judas perdeu as botas.

maximilano0.jpg Comadres que com sua boca de trapo faziam de mulheres sérias umas putas de baixo coturno, baixo calibre ou desclassificadas. Isto poderá verificar-se nos dias de hoje pela boca de gente que deveria ser estadista mas, que com seus propósitos nos fazem inevitavelmente numa coisa nenhuma. Nenhures que nunca aceitarei porque não me quero mentir, simplesmente e assim tão só e sozinho sem recorrer a sofismas políticos, merdosos de cheirar mal às orelhas, irritar os entrefolhos do cerebelo e olear de mau cheiro nossos pelos. Cabelos e até pintelhos… É que nestas alturas apetece-me dizer asneiras fedorentas para que toquem no ponto nevrálgico da alma.

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É mesmo uma bosta; hoje as pessoas lêem cada vez menos, escrevem cadavez (cada vez) pior e sabem cadavez menos daquilo que é importante. Apesar disso têm mais opinião sobre tudo e são especialistas nas críticas com visão de ponta, afiadíssima. As redes sociais são o espelho mais fiel disso mesmo e o palco ideal onde os ignorantes, tudo criticam, quase nem sabendo escrever. Outros, baseados nestas falas, opinam construindo uma mentira porque nem sabem que a água ferve a 100 graus Celcius. Pópilas! Fervem-nos a mioleira a troco de vaidades, tropelias, enganos, engodos açucarados de mel ou simples matumbice…

arau154.jpg As redes sociais são assim e inevitavelmente uma caldeirada de coisas más havendo no meio destas, umas muito poucas a assegurarem alguma coerência, sem essa desmedida venda de ilusões, invejas, negatividade entre outras arbitrárias. Desqualidades na mistura de sexo com religião e, como se essas suas fotografias do reviralho tipo conde de Ficalho, sempre fossem as mais credíveis – ora bolas: ir para a cama futricar até ver o São Arcanjo e depois dizer, este foi o melhor momento da minha vida; no outo dia é do mesmo e por esse desamor, assim descartam a alma em detrimento da felicidade. Cumcamano!

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Assim, numa troca de galhardetes e ou fantasias numa oportunidade de um agora, brilham sua ignorância sem saber que o Maximiliano Austríaco de nascença foi também o imperador do México e que por lá morreu encostado a um muro, fuzilado a bem da nação! Se um dia eu o T´Ching… vier a se presidente da NIASSALAND, não se admirem; já esteve mais longe! Isso! Maximiliano de Habsburgo-Lorena foi o único monarca do Segundo Império Mexicano. Ele era o irmão mais novo do imperador Francisco I da Áustria. O mesmo a quem e, em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que já há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia dos Tugas.

maximilano1.jpg Com uma poderosa imaginação, José Saramago coloca nas nossas mãos essa fricção - obra excepcional que é “A Viagem do Elefante”. Ele, Saramago fez-nos olhar a humanidade neste campo tão vasto de ironia com sarcasmo, marcas da lucidez implacável dele, combinando com a compaixão o desamor com que o autor observa as fraquezas dos homens. Sabe-se que ele também tinha um diabinho feito peluche dentro dele. Estou-me perdendo no fio enleado da meada mas, convém dizer-se a jeitos de saber mais que, aquele mesmo território aonde Maximiliano foi Imperador, foi vendido à América – vulgo USA. Creio que por um tal de Antonio López de Santa Anna, o Rosa Coutinho lá do sítio sem Tapurbana nem rio Zaire de permeio nem ter passeado numa jaula como um macaco.

saramargo0.png A Compra da Louisiana, concluída em 1803, foi negociada por Robert Livingston, durante a presidência de Thomas Jefferson, o território foi adquirido da França por US $ 15.000.000. Uma pequena parte deste território foi cedida ao Reino Unido em 1818 em troca da Bacia do Rio Vermelho. Mais desta área foi cedida à Espanha em 1819 com a compra da Florida, mas depois foi readquirida pela anexação do Texas e a Cessão Mexicana. Para terminar haverá a tecer duas importantes considerações a levar em conta: Fé e política, não se impõe nem se prescrevem porque mesmo recomendadas, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de as possuir representará a verdade. É isto a democracia!... FUI!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:00
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Sexta-feira, 21 de Junho de 2019
MALAMBAS . CCXXIV

UM CACTO CHAMADO XHOBA . IV21 DE JUNHO - 2019

– MALAMBA é a palavra

- Boligrafando estórias na cor antiga em Ondundozonanandana. Estávamos ainda em Luderitz, terra soprada a frio e com areia, por Nosso Senhor … Foi no ano de 1999

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

luderitz7.jpg Com destino ao povoado de Ondundozonanandana, lugar perdido no Norte da Namíbia, não muito distante do Etosha Pan e marcado em círculo no mapa Michelin, lá prosseguimos viagem a partir de Ai-Ais do Fish River por estrada pavimentada rolando quilómetros na savana até Windhoek a capital da Namíbia. Era para assim ser mas, chegados ao cruzamento entre as estradas B1 e B4 em Keetmanshop, derivamos para Luderitz pela Estrada nacional B4.

luderitz6.jpg Andando por este mundo, mares, desertos, matos, savanas, anharas e terras agrestes com matutos e mamelucos de outras latitudes, estava agora a tornar-me um mestiço mazombo viajando na terra e no tempo, ora sem GPS porque ainda não existia ora perguntando aqui e ali ou riscando o mapa com esboços, nomes e cópias destes borradas de café, lama e até sarapintados de cafufutila, esses salpicos salivados de euforia que descuidadamente saltam das nossas falas eufóricas, entusiasmáticas.

etosha6.jpg Na minha vontade, parecia só querer ser uma lenda a comparar com o feito de Amyr Klink que sozinho e num barco a remos atravessou o Oceano Atlântico percorrendo sete mil quilómetros. Foi o primeiro feito a ser amplamente divulgado na imprensa internacional que ocorreu entre 10 de Junho e 19 de Setembro de 1984, entre Luderitz, na Namíbia (África) e Salvador, na Bahia (Brasil) – quinze anos atrás. Foi um feito invulgar a mostrar o quanto a tenacidade pode vencer um sonho.

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Juro que eu, em plena consciência nunca faria isto, meter-me ao mar sem balizas firmes assentes em algo de referência, como os padrões semeados ao longo da costa pelos Tugas, vendo só o horizonte curvo a confundir-se com o céu do Nosso Senhor! Menos mal que nesse tempo de lá para trás só se cogitava que o Universo não tinha bordos, era uma fumaça sem fim. Agora tenho a certeza que vou terminar meus dias sem saber aonde fica esse tal de cu-de-judas do fim do Mundo.

swakop5.jpg O mundo continuou a girar como sempre e, não mudou por este feito mas seus “Cem Dias entre Céu e Mar” ficaram nos anais da coragem marítima. Comparar-me assim minuciosamente com tamanhas aventuras é consolar-me com alheios fumos, fumos de charutos como se fossem pensamentos num tom cor-de-rosa que s perfilam em matemática quântica. Desfalecido nos ombros, um pouco mais tolo e muito mais míope, agora, já com a audição a não ouvir cantares de galo, coxeio-me em vozeados ambientes de cochichos frouxos. Coitado de mim! Bom - prá frente. Em Keetmanshop, procuramos em arcas carne de caça para fazer um brai-churrasco e acabamos por encontrar uma carne escura; era de órix, esse belo animal que se podem ver fazendo pose nas dunas de areia vermelha lá no horizonte.

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A senhora bóher do armazém-venda, queria impingir-nos outra carne porque aquela era de caça mas, mal sabia ela que era isto que procurávamos. Em seu conceito, não era normal os turistas comerem bichos-do-mato. Como podem verificar, missionando o toutiço, perdi inteiramente as minhas belas cores europeias, a cara sarapintada de funchos, crateras com rugas extravagantes. Isto só pode fazer confusão a quem anda sempre teso, com seus colarinhos engomados, cheio de obséquios e unhas estimadas, sem nunca sentir os medos indefinidos que arrepiam as carnes como pés de galinha. Desfigurado pelo tempo, cheio de cãs, estonteado pelos muitos calores, passeio pelo mundo o meu isolamento procurando entreter-me cada vez mais só; metido entre meus botões…

luderitz4.jpg Por vezes as companhias são obtusas e confusas, cheias de nove e onze horas como se fossem os donos de todos os relógios; já me aconteceu destas tormentas mas, agora interessa é falar de Luderitz. Chegamos ali ao fim duma tarde, um frio com vento de arrepiar para cima de nós; aqui nem pensar em ficar em camping. A areia era cuspida pelo Nosso Senhor como gente abençoada e, assim tinha sido até aqui na estrada que nos trouxe. Recolhemo-nos no Krabbehoft Guesthouse Catering e apartments embrulhados em nossos kispos tiritando das quinambas.

luderitz2.jpg Tudo ao molhe e fé em Deus! Havia gente jovem de muitos lados e na confusão do meu Inglês raspikui misturava-se com o je suis e falas com tremas na vontade de “seja o que Deus quiser”- Saravá! Dizia eu para desatarraxar as encrencas. Afinal não éramos os únicos malucos a andar soprados ao vento da aventura. Ao chegar ali, os hóspedes têm a sensação de ter caído repentinamente nas páginas de um romance de Hemingway, talvez Papillon. Bem! Uma mistura de tudo… Um espírito e, um ambiente ultra "bush", uma caserna bechuanaland com gente estendida pelos corredores dormindo em sacos cama. Lá fora as hienas castanhas farejavam os bidons de lixo, os restos, assim mesmo como se fossem cães…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:22
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Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
MALAMBAS . CCXXIII
UM CACTO CHAMADO XHOBA . III 16 DE JUNHO - 2019
– MALAMBA é a palavra
- Boligrafando estórias na cor antiga em Ondundozonanandana… Foi no ano de 1999
Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

piram3.jpg Se bem conhecem, a história da coca-cola foi objecto de um filme em que uma garrafa destas caiu em pleno deserto do Calahári e que daí, provocou para além da curiosidade as vicissitudes do mundo ocidental, o mundo dito civilizado. Recordo que neste então e, descrevendo sumariamente o filme, uma criança viu-se acossada por umas quantas hienas. O candengue sabedor dos costumes da tribo pegou em um pau colocando-o na cabeça; assim parecendo mais alto, as hienas não se atreveram a atacar o candengue Bushmen.

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Desconfio que pelo andar da carruagem este trem da Terra vai conspurcar pouco a pouco aquelas paragens semi desérticas repetindo por muitas vezes este episódio da coca-cola e, o povo mais antigo ao cimo da terra passará a usar gravata e sapatos de coiro em substituição da sua pele rugosa e resistente. Por via da tal “molécula P57” o mundo dito civilizado subsidiará as tribos nómadas que vivem sem fronteiras entre Angola, Namíbia, Botswana, Zâmbia, África do Sul e Zimbabwé.

nauk8.jpg Estes, não mais irão ter de correr atrás dos macacos para saber aonde beber; terão à mão um chinocas, uma venda, quiosque cuca-shop para lhes venderem água e cachaça… A Bushmanland não mais será a mesma! A cento e vinte quilómetros a sul do Orange, num local conhecido por Springbok, pernoitamos numa palhota do tipo em que vivem os Bosquímanos: com estrutura circular formada de paus vergados e enterrados na sua parte mais grossa, entrelaçavam-se entre si na parte mais alta sendo o restante amarrado com fios feitos de casca de arbustos locais.

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Chovia quando ali cheguei pela primeira vez indo de Orange River, coisa rara para quem passa esporadicamente como o era, neste meu caso; não há cheiro igual noutro qualquer lugar do mundo. Após as primeiras chuvas, o pó em África, tem um cheiro de terra espacial; quem o não cheirou, não consegue conciliar os sentidos inebriadores duma mistura de pólens invisíveis dos escassos tufos de vegetação. No outro dia já as encostas suaves dos morros ficam numas chapadas feitas jardim, um mar de rosas deslumbrando-nos.

nauk01.jpg Estas palhotas do Springbok tinham 1,80 metros na sua parte mais elevada, cobertas a palha presa aos paus com a mesma casca, tipo mateba, deixando uma abertura com uns sessenta centímetros de largura e noventa de altura. Após ter feito uma prévia inspecção ao local circundante enxotando lacraus, aranhas e carochas, derramei um fio de gasóleo na parte de fora. O gordo bóher dono do pedaço, nada me disse para além de afirmar que estávamos seguros mas, eu não me sentia assegurado, se não fizesse isto.

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O cansaço adormeceu-nos sem pensamentos nem cobras ou lagartos. Ali, mitos e lendas são insociáveis da paisagem quase lunar, rochas escaldadas formando morros aqui e, mais longe areia de onde sobressaem umas árvores milenares do tipo aloés do além. Nesta natureza que não é assim tão vazia, vivem espalhados por África e mais propriamente ao sul do Botswana mais de sessenta mil aborígenes, dados do fim do século XX. Resistindo a tudo e ao tempo, ali aonde o desespero é um inútil alívio de evasão, vivem os khoisan, que mais a sul chamam de KoyKoy´s

busq8.jpg O sol ali não é dócil, pus o meu chapéu do Karoo, montamos o Toyota e, bem cedo seguimos à descoberta do Fish River mais a norte; fomos três a descer ao fundo do Canyon que parecia perto, era logo ali e, o que pensamos fazer em uma hora na descida e subida, levamos bem perto de quatro horas, Ufa!!! Eu, Tilinha e Marco M´Fumo Manhanga…Que calor! Mas, por sorte sempre havia uma fria windhoek lager à espera no restcamp… Que delicia! Uma vez na vida, experimentem atravessar um deserto para ter o prazer de beber uma fria na chegada.

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Foi nesta atmosfera e azáfama de sobreviver subvertidos à marginalidade do mundo real, que tomamos contacto com o tal cacto de xhoba e, não podia deixar de descrever toda a envolvência desta real contradição: a fome dos khoisans vai-lhes ser mitigada por milhões de obesos que só o são na maior percentagem, porque comem em demasia. Os deuses nestas paragens escreverão sua sina por linhas tortas.

busq1.jpg Já no topo do Canyon do Fish River a adrenalina escorria-nos nas faces, os olhos tremiam como a neblina matinal e, as pernas abanavam sentidos incomuns à magnitude das vistas em banda larga com “óoos e áaais” de espanto. Era o Ai-Ais! Estou em crer que foram estes Ais de admiração que deram o nome ao acampamento desta canyon. Já dias antes, tinhamos subido a Brandberg a ver as acácias solitárias, entre pedras vermelhas sobrevivendo a um deserto impiedoso. Os dias terminavam com suspiros de plena satisfação em curtos goles de marula tree sobre um sorvete Dom Pedro ou umas pedras de gelo gratinado…

(Continua...)
O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:23
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Domingo, 16 de Junho de 2019
MALAMBAS .CCXXII

UM CACTO CHAMADO XHOBA . II13 DE JUNHO - 2019

– MALAMBA é a palavra

- Boligrafando estórias em cor antiga - do Mu Ukulu em lugares tão fantásticos que até o nome se alonga de gozo: Ondundozonanandana… Foi no ano de 1999

Por

soba002.jpg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

IMG_20170901_115753.jpg Foi nesse sítio de Mata-Mata, lugar ideal para se sepultar o passado que encontramos o milagroso cacto escondido entre tufos espinhosos, verde, gomoso e muito ornado de picos; agressivo no aspecto, engana no entanto a fome ao povo Bosquímano há séculos. A fronteira da coragem transpira incertezas naquele povo a quem Nelson Mandela cedeu 400 milhões de metros quadrados para mitigarem a fome explorando este milagroso cacto.

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O xhoba para além de surgir naturalmente na natureza, também é cultivado por esta etnia Bushmen, por algumas tribos nómadas que vivem sem fronteiras entre Angola, Namíbia, Botswana, Zâmbia, África do Sul e Zimbabwé. Este cacto torna-se agora conhecido, fruto de pesquisas nos laboratórios ocidentais e ao longo dos últimos tempos no intuito de controlarem o problema social da obesidade, consequentes problemas de colesterol com os triglicéridos.

xique xique3.jpg Lípidos que sendo importantes para o armazenamento de energia no organismo sob a forma de tecido adiposo, podem originar problemas cardíacos ou doenças coronárias em geral quando em quantidade elevada. Se bem se recordam da figura do bosquímano, ele é seco de carnes e, de estrutura perfeitamente musculada. Pois o xhoba que, também conhecido por Hoodia, é um cacto da família suculenta que cresce naturalmente na África do Sul, a norte, desde a Costa Atlântica até ao Limpopo.

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Tem a particularidade de eliminar a fome reduzindo duas mil calorias por naco e por dia; viscoso e azedo, quando ingerido, engana o cérebro até à linha zero, num gozo de deuses ladeados de chacais, caracais ou hienas. Entretanto vi-me obrigado a apaziguar inquietudes por evidente encantamento deste Kalahári. As noites frias daquela terra de Bushmanland crepitavam em fogueiras, alçadas labaredas do meio de tanta negrura. E, eles gente do Kalahári, embrulhados toscamente numa pele, numa tanga.

spring1.jpg O que despertou o interesse das grandes farmacêuticas no sentido de sintetizar o princípio activo da planta foi uma tal de “molécula P57”; a mesma que ajuda a suportar a fome e a sede durante suas longas caçadas, sem efeitos secundários. O fumo da fogueira dissipa-se num vazio de milhões de estrelas enquanto no retiro das precárias cubatas-choças, pelo que também se diz o frenesim do amor ou relações de corpos se desprende naturalmente pelo efeito afrodisíaco do mesmo xhoba (assim dizem).

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Existem cerca de 20 variedades desta planta mas é na variedade Hoodia Gordinii que é encontrado um supressor de apetite totalmente natural; assim se pode ler algures em uma publicação farmacêutica. No ano de 1997, a licença da descoberta foi vendida a uma empresa britânica, Phytofarm, que por sua vez vendeu os direitos de desenvolvimento e marketing à gigante Pfizer Corporation. Os interesses comerciais entram aqui com sua natural e exagerada relevância que nos levam ao género humano que somos hoje, estereotipo bem diferenciado dos Koysan, da etnia Bushmen, Bosquimanos ou da tribo nómada dos "San"…

swakop5.jpg De uma forma mais activa, a P57 tem um comportamento similar ao que a glucose tem ao nível das células nervosas, no cérebro, levando o corpo a pensar, que está cheio, mesmo quando não o está, cortando assim o apetite, como explica o Dr. Richard Dixey, da Phytofarm: “Existe uma parte do cérebro chamada hipotálamo. Dentro do hipotálamo, situado no centro do cérebro, existem células nervosas que detectam a presença de um açúcar chamado glucose".

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Quando comemos, os níveis de açúcar no sangue aumentam por causa da comida e estas células começam a lançar para o corpo a informação de que estamos cheios. Pois o que o xhoba parece conter é uma molécula que é cerca de 10 mil vezes mais activa que a glucose. A maturidade dos Bosquimanos mede-se pela idade, no encanto de estalar conversa em contos e, por isso, são a mais velha biblioteca oral do mundo. Os mais velhos, kotas, engalanados em contos de místicas com lendas de mussendos ou missossos, descrevem por estalos sua coragem despida de preconceitos porque os desconhecem.

namib5.jpg De sabedoria debruada em muitas rugas, olham num permanente espanto as coisas que nós os ocidentais inteligentes banalizam e, uma casca de fruta que pode ser um grande património para eles, torna um fio com uma linha uma tecnologia espacial. Para nós alienígenas ocidentais do mundo terreno, iremos dizer do quanto é maravilhoso ter comprimidos que permitirão encher o bandulho de pasteis de creme e baba de camelo às duas da manhã, ou sorvete na forma de gelado sem riscos de se ficar com um peso na consciência. E, tem mais, as mulheres não deixarão seus maridos à solta se souberem que ingeriram uma vitamina super de xhoba…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:43
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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