Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . IX

VIDAS SECAS – COMO SINTO O MUNDO

Pretonceito - Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé…

- Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …17.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Lagoa do M´Puto

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO – Como dar certo …Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS - Graciliano Ramos . Br

84  - Secando a palavra ao sol e, porque foi feita para se dizer, recordo as “vidas secas” de Graciliano Ramos, escrito de 1937 e assim, acompanhei parte do trajecto da família de Fabiano e também da cachorra Balaia. No meio de muitas arbitrariedades próprias da classe dominante de então no Brasil e, andando eu frequentemente por terras de índios Caetés, lá terei de ler o “São bernardo” de 1933 e o “Angustias” de 1936, talvez o melhor das suas publicações.

85 - A partir de factos simples, tento compreender com a maior exactidão, analisando isto e aquilo e, no possível, o meu próprio desenvolvimento do pensamento - Dar atenção a um, descuidando um outro que o precedeu. A teoria da casualidade por reflexão de ressonância sucedeu ouvindo um grilo que canta, que grila…Ele canta, estridula, guizalha, trila ou tretinha num zumbido que se interrompe. Com estes silvidos, chego à via especulativa no ser capaz de me ajudar a compreender o Mundo.

booktqiue6.jpg 85 - E, porque também está viva em minha memória, relembro parcialmente as “Vidas Secas”. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. «Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do Rio Seco, a viagem progredira bem umas três léguas. Fazia horas que procuravam uma sobra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.

86 - Arrastavam-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Fabiano, sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda pederneira no ombro; o menino mais velho e a cachorra Balaia iam atrás. Os juazeiros aproximavam-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

gracilano1.jpg 8- Anda condenado do diabo gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo. A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor dos bichos moribundos.

88 - Anda, excomungado! O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um facto necessário - os tremidos e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro caboclo precisava chegar, não sabia onde.

booktique7.jpg 89 - Tinham deixado os caminhos cheios de espinhos e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés…» Esta descrição espremida como roupa pronta a corar, causa-nos calores e frios tremidos, uma miragem com uma amargura tão sobrevivente que podemos até sentir sofrimento. Ele tinha o condão de elaborar um trabalho colocando no papel tudo aquilo que conseguia observar na pessoa, num animal, em uma cidade e sua sociedade, com matizes varias.

90 - Foi um pouco a partir dele que trabalhei a curiosidade, descrevendo assuntos demasiado banais. E, fiquei também ciente de que o que toca a imortalidade é a obra e não o ser humano. Nisto de recordações acabo por chegar ao conceito de se escrever “por linhas tortas” e, é aqui que largo o preconceito, para recordar alguém de nomeada e, que mudou minha forma de estar. É ele Graciliano Ramos! E, disse assim: -“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para se dizer”. Assim diz Graciliano no ano de 1962, para comparar seu ofício de escrever com o acto de lavar roupa pelas lavadeiras do rio.

booktique8.jpg 91 - E, recordo-me de no acampamento aonde dormi com meu pai, um bivaque de gente da Brigada dos Caminhos de Ferro de Angola, de ter ouvido hienas a chorar e urros distantes de leões em um ermo quase sertão como aquele do Nordeste brasileiro; relembro deste meu jeito os bidons ao redor do acampamento contendo tochas de fogo pela noite, para afugentar as feras nesse lugar conhecido por Lucala, sobre o rio com o mesmo nome e, no distante ano de 1954; era eu candengue – falo de Angola.

92 - Claro que relembro algo que deveria estar esquecido, disse isto para mim mesmo. Uma terra que deixou de ser nossa por pretonceito, já o meu pai o dizia - Como é!? Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé… porque simplesmente de dia para a noite se perdeu o direito de nela se viver. E pelo dizer de Graciliano, um escrito deve ser lido e relido, ensaboado, esfregado, batido no lajedo, no burgau, como uma peça de roupa suja. Assim fiz: - depois, pô-lo a corar nas ervas, nas bissapas ou penedias, após enxaguar. Estou fazendo!

araujo69.jpg 93 - Ler seus escritos é como revisitar um laboratório e obter capacidade literária independentemente dum qualquer estilo. Por isso não escrevo átoa, ao calhas, Será!? …Mas ele, com sua caneta bike, transformava um banal relatório ou carta burocrática em uma verdadeira peça literária. E, já que isto é mencionado, quero avivar relatos de seu exercício passados ao papel no ano de 1930; ainda eu, o T´Chingange, nem era um projecto de vida pois que minha singularidade surgiu no ano de 1945 e na convulsão dos sons de obuses da primeira guerra mundial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:49
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2019
MU UKULU – XII

MU UKULU...Luanda do Antigamente15.01.2019
Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! Háka…
Por

soba0.jpegT´Chingange – No M´Puto

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil 
África e particularmente Angola, tem de escrever a sua própria narrativa, precisa de se pensar ancorando-se em dados credíveis e coerentes, fazer uma triagem do que está mais aquém ou além do real, excluindo os característicos inchaços de quem está no mando, de quem coloca as virgulas no texto alterando o contexto. É sabido que África cresceu num cenário de crise global, que Angola passou por uma história de permanentes sobressaltos na fase de Colónia, ou Província Ultramarina do M´Puto mas, seu crescimento foi visível nesse entretanto - cresceu!
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É sabido que da turbulência Colonial, das rusgas com cipaios, do agarra preto, das filas de gente descalça e, em fila, levados à força ao trabalho gerido pelas administrações, administradores e chefes de posto ficaram marcas dolorosas; dos contractos para as roças de café ou algodão e, que após a guerra dos cipaios, veio a guerra das matas com G3 e kalashnikoves com Luanda sempre em crescimento. Da psico ou psicossocial, da guerra do kwata-kwata até à das matas e das catanas, veio a libertação com monacaxitos, bazucas, canhões com e sem recuo e o tundamunjila - t´chindere. 

mux1.jpg  Em todo este trajecto com muitas mortes, muitas armas poderosas, Loanda, Luanda ou a Luua, foi a charneira de tudo e de todo o comando, de todas as tragédias, convulsões e, de todas as sequelas para nela sobreviver. E, porque cada um tem sua própria visão, que muitas vezes até é ficcionada, para se chegar ao miolo substancial de cada lugar, musseque, bairro de cada cidade ou qualquer kimbo, teremos de somar ou subtrair narrativas defensoras de interesses que lhe são adjacentes, justapostos adjectivados nas fantasias empoladas que por vezes, muitas vezes, são alheios à fidelidade dos factos. 
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Queiramos ou não, foi em Luanda que mais se sentiram as mudanças; também é verdade que esse crescimento não foi nem é, ainda, qualitativo. Luanda, não é só mutamba! Não se tem gerado empregos suficientes, os níveis de pobreza continuam elevados e a dependência das matérias-primas contínua em alta. No Mu Ukulu, Luís Martins Soares descreve Luanda como a sentiu, como a viveu, sem aumentar ou diminuir as lentes de sua objectiva.

luanda4.jpg Falando dos usos e costumes da sua, nossa Luanda, Luís Soares diz assim: - ainda me recordo da mulher negra luandense sentada na esteira de loandos ou de mateba, no banquinho feito de galhos de mulembeira junto à porta, catando piolhos da cabeça do candengue ou mesmo de adulto. Estendendo a vista pelos arredores via as aduelas de barril num arranjo de quase átoa a definir seu quintal, intercalando esta foto de grande angular, gente com falas em kimbundo, passam-se horas e horas na cavaqueira, dizendo nada, mesmo!
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Junto, as roliças crianças de peito luzidio brincam nos loandos com carros feitos de coco, com latas de sardinha de rodas de caricas de cerveja cuca ou casca de múkua ou mesmo de pau-binga trazido por seu pai da lagoa do Lifune aonde pesca cacussos. O loando é assim um tapete de junco de caule macio de espessura de mais ou menos de dois centímetros entrelaçados, que eram depois ligados uns aos outros com fio de matebeira ou de sisal trazido lá da fábrica da Cotonangue.

maful1.jpg  Esse mesmo de amarrar a farinha de bombó, fuba ou do saco de batatas doces trazidas de Belas. Pois! Era assim uma arte feita tapete espalmado num rectângulo de um metro e meio de comprimento por oitenta centímetros de largura. Háka, era mesmo um acessório sempre presente nas nossas reuniões de quintal logo a seguir ao jantar, botando conversa fora com os vizinhos, mujimbos que corriam na boca de muita gente.
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Enquanto isso com falas esdrúxulas de sundiameno, sacana mesmo ou topariobé e muitos muxoxos intercalados de asneiras com comentários de roubos e falcatruas, que até entrava o árbitro comprado lá no futebol do M´Puto. Com nomes variados de filho-da-caixa e muitos edecéteras chamando de bois aos quadrúpedes e cabrões; os candengues de chinelas de dedo enfiadas no pé e descalços até ao pescoço, ranhosas e com o umbigo saído das barrigas inchadas, esgaravatavam no pó a fazer vrrruuummm para desenterrar.

luua11.jpg O mais velho cozinheiro do senhor Ildefonso, só ali quietinho no seu canto, ouvia na sua serena idade dando longas chupadas no seu matope. Ele, mais-velho, só biscatava as falas com um cachimbo feito de nó de tamarindo e, ria de vez em quando, baforando pró ar sua sapiente sabedoria de século. O kota misterioso que não contava as coisas direito, para não ser chamado nas razões do patrão gordo saído dum lugar chamado de Porca Da Murça. 

massau5.jpg Ele não podia falar assim átoa do patrão que tanto de guloso só comia mesmo lagosta suada ou garoupa das pedras … dizia com frequência depois de nada dizer: - Vou dizer mais o quê? Luanda, aiué… Com a certeza de que a verdade se irá impor por si, ainda que por algum tempo impere o discurso fantasioso, o que queremos por ora e aqui na Luua, é esquecer os aspectos das guerras…
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:07
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Domingo, 13 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VIII

GLOBALIZAÇÃO

- Cinco séculos de pessoas, costumes e governos desaproveitados…13.01.2019

Por

soba0.jpeg T´ChingangeEm Lagoa do M´Puto

booktqiue3.jpg 74 - Se estudarmos as lições da história para daí tirarmos conclusões sobre como sobreviver na globalidade com crises constantes, teremos de dar crédito ao dito por um concelheiro respeitável, D. Luís da Cunha ao serviço do rei D. João V, "o Magnânimo", quando o aconselhava a fazer transferência da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro no Brasil. Ao estabelecer-se no "imenso continente do Brasil", o rei de Portugal deveria tomar o título de "Imperador do Ocidente" quando não pendia ameaça iminente sobre a soberania portuguesa na metrópole (M´Puto).

75 - Esta ideia fora já apresentada pelo padre António Vieira, na situação de emergência do período da Restauração da Independência de Portugal; esta ideia visava buscar um meio de afirmação e engrandecimento do reino de Portugal ao mesmo tempo que garantia melhor a sua segurança na Europa. Passado que são mais de trezentos anos, até custa acreditar haver em esse então, gente lusa com tanta visão da globalidade.

booktqiue5.jpg 76 - Portugal necessitava engrandece-se juntando para tal a gente letrada de um e outro lado do Atlântico para preservar a união de todos, letrados com gente rica. Já nesse então quatro quintos da receita do reino, vinham do brasil, ou seja 80%. Lendo agora os escritos de Joseph Stiglitz que foi assessor do presidente Bill Clinton e Vice-presidente e economista-chefe do Banco Mundial, verificasse que afinal em relações entre povos, o interesse económico, foi, continua a ser e assim será, o ponto fulcral.

77 - É mais comodo e seguro estar aonde se tem o que sobeja, que onde se espera aquilo de que se carece. Na lista de livros da BOOKTIQUE, mencionei em número cinco a História da riqueza do Brasil de Jorge Caldeira e é curioso ver o quanto tem de semelhança com a leitura da Globalidade deste conceituado economista Stinglitz, numero seis do booktique. Em realidade, no mundo da lusofonia, dos países da CPLP, ambos se complementam nesta visão!

booktqiue0.jpg 78 - No mundo, qualquer acordo de comércio entre países, envolve custos e benefícios. Os países impõem restrições a eles mesmos, na crença de que restrições recíprocas aceites pelos outros, abrirão novas oportunidades, cujos benefícios superarão os custos. Infelizmente, para a maioria dos países em desenvolvimento, não tem sido esse o caso, porque nenhum acordo é melhor do que um acordo ruim.

79 - O comércio não é um jogo de somar zeros em que aqueles que vencem, o fazem à custa dos outros; ele é ou pelo menos pode ser, um jogo de soma positiva, em que todos podem ser vencedores. Se quisermos que esse potencial se realize, devemos primeiro rejeitar duas das premissas da liberalização do comércio: que a liberalização leva automaticamente a mais comércio e crescimento, e que o crescimento irá automaticamente “gotejar” em benefício de todos.

booktqiue4.jpg 80 - Nenhuma das duas premissas é consistente com a teoria económica e com a experiência histórica. Para haver apoio à globalização do comércio no mundo desenvolvido, devemos garantir que os benefícios e custos sejam compartilhados de maneira mais equitativa, o que envolve uma tributação mais progressiva da renda; é o que nos diz em seu livro, Joseph Stinglitz. A globalização não será aceite pelos trabalhadores dizendo-se a eles que poderão ter um emprego, desde que aceitem salários mais baixos.

81  - Os salários podem aumentar somente se a produtividade crescer, e isso exige mais investimento em tecnologia e educação. Infelizmente, em alguns países industriais avançados, isso é o oposto que vem acontecendo: os impostos a se tornarem mais regressivos, as redes de segurança a se enfraquecerem e os investimentos em ciência e tecnologia a declinarem como percentagem do PIB, assim como o número de formados em ciência e tecnologia. Com a globalização, aprendemos que não nos podemos isolar completamente do que acontece no resto do mundo.

roxo91.jpg  82 - Os países industriais avançados beneficiam-se há muito tempo das matérias-primas que obtêm do mundo em desenvolvimento; seus consumidores beneficiam imenso com bens manufacturados baratos, de melhor qualidade e, cada vez melhor. Ajudar os habitantes do mundo em desenvolvimento, aqueles que são mais pobres, é uma questão moral mas, cada vez mais se reconhece que esta ajuda é também uma questão de seu próprio interesse. Com a estagnação, as ameaças de ordem dos desiludidos diante do desespero, aumentarão.

83 - Tenha-se em conta que onde quer que predomine o capital, predomina o trabalho, e onde quer que predomine a renda, predomina a ociosidade. Os capitais são aumentados pelo acto de poupar, de economizar, de despender moderadamente e diminuídos pelo esbanjamento e pela má administração. O maior objectivo social em economia passa a ser a criação de grandes mercados, que fazem a riqueza das nações. Seria bom que surgisse um novo Dom Luís da Cunha a incentivar um grande mercado entre os PALOPS - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa com o Brasil e seus mais de duzentos milhos de almas na liderança…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:19
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VII

GLOBALIZAÇÃO - A China está a aproveitar para comprar países inteiros – 11.01.2019

Portugal é um bom exemplo desse investimento pois tudo indica estar a preço de saldo. 

Por

soba0.jpegT´ChingangeEm Lagoa do M´Puto

booktqiue2.jpg Nº 6 de BOOKTIQUE 

64 - À lista de livros da BOOKTIQUE, adicionei um sexto que versa o tema GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz que foi Vice-presidente e economista-chefe do Banco Mundial. Stiglitz, ganhou o prémio Nobel de economia no ano de 2001. Não sendo eu entendido em matéria de economia, despertou-me ler passagens que decerta forma me abrem um pouco mais a visão de como o dinheiro meche com todos nós, pequenos anões desta bola chamada terra.

65 - E nós, gente comum, pouco ou nada podemos fazer para alterarmos o rumo dos acontecimentos. O excesso de endividamento por empréstimos malfeitos, aumentam as situações de crise, e os custos dessa crise são pagos não apenas por quem empresta, mas por toda a sociedade. Em anos recentes, os programas do FMI talvez tenham resultado num aumento significativo das distorções nos incentivos aos emprestadores.

booktqiue1.jpg 66 - Quando ocorrem crises, o FMI empresta dinheiro como uma operação de socorro, mas o dinheiro não é na realidade um socorro para o país, mas sim para os bancos. Os governos chegam a assumir as dívidas privadas, socializando dessa forma o risco privado. Sendo apenas um empréstimo e não um presente do FMI, os países em desenvolvimento ficam com a conta para pagar.

67 - Assim, os contribuintes do país pobre, pagam pelos erros do empréstimo do país rico. Ao contrário do que seus arautos prometiam, a globalização, em geral, não foi benéfica para os países pobres do mundo. A receita económica dominante de privatização total, liberalização radical e Estado mínimo, trouxe mais problemas do que soluções.

mocanda9.jpg 68 - Simultâneamente, as políticas que se concentram no combate à inflação e as mensurações do desenvolvimento que só levam em conta o FMI são insuficientes, pois muitas vezes o PIB vai bem, mas o povo vai mal. Não era, nem é ou será a primeira vez, nem o primeiro lugar, que as nações fortes do mundo usaram ou usarão meios militares, para obrigar o pagamento de dívidas. A França invadiu o México em 1862 e instalou como imperador o arquiduque Maximiliano da Áustria, um parente de Napoleão II, usando como desculpa a dívida que o país havia acumulado desde sua independência em 1821.  

69 - Em 1876, França e Inglaterra juntas tomaram conta das finanças do Egipto; seis anos depois a Inglaterra ocupou o país. Em 1904, quando a Republica Dominicana não pagou sua dívida aos Estados Unidos da América, o presidente Theodore Roosevelt foçou o país a dar aos USA a supervisão das receitas da alfândega a fim de cobrar a divida e pagar os credores.

CUCO1.jpg 70  - O actual presidente da China, Xi Jinping, não brinca em serviço. A Zâmbia corre o risco de perder a sua soberania devido à enorme dívida externa que tem com a China. O país poderá ser obrigado a entregar a Pequim a propriedade das suas principais infraestruturas de transporte e energia, assim como algumas promissoras indústrias de extracção, inclusive de diamantes.

71 - A China está a aproveitar para comprar países inteiros e, nalguns casos, a preço de saldo”. Portugal é um bom exemplo desse investimento. Entre os 10 países do continente africano que mais devem à China encontra-se um que fala português - Angola. A dívida de todos eles, somados, atinge os 70,4 mil milhões de euros. Quase toda a dívida externa da Venezuela está nas mãos da China,... A tampa da panela, um destes dias vai rebentar; quando, não se sabe ao certo mas isto, vai acontecer! O que se passa é que, os países têm percepções muito diferentes das ameaças... Anda tudo a assobiar pró lado…

chicor1.jpg 72  - Segundo a revista Africa Confidential, a actual crise no país africano Zâmbia, deve-se à enorme dívida perante empresas e fundos chineses que não é capaz de pagar. Esta situação levou Reino Unido, Finlândia, Irlanda e Suécia a reter 34 milhões de dólares destinados a apoiar iniciativas da Zâmbia em educação e assistência social, temendo que esse dinheiro seja utilizado inapropriadamente, segundo informou a ministra das Finanças do país, Margaret Mwanakatwe.

73 - A dívida externa da Zâmbia aumentou de 8,70 mil milhões de dólares no fim de 2017 para 9,37 mil milhões em Junho de 2018, segundo a Reuters. Recentemente pude observar in loco as carências estruturais deste país, tal como no Zimbabwé, Malawi, Tanzânia e Moçambique aonde tudo parece estar ao abandono. O Ministério das Finanças da Zâmbia, anunciou m fins de agosto de 2018, que a dívida pública do país atingiu os 14,6 mil milhões de dólares – 53% do PIB da Zâmbia. Segundo um analista do jornal russo Vzglyad, “na prática os chineses compraram todo o país, impondo dívidas insuportáveis. Agora, estão prontos para receber o lucro”. Nós, nunca estaremos preparados para as crises. Dá-me a impressão que andamos a ser muito enganados; faz tempo. Até quando!?

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:43
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VI

- Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo…

 Arqueies tipos! - Vocês!  - 10.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Lagoa do M´Puto

agualusa1.jpg54 - O pessimismo é um luxo dos povos felizes. Quem o diz é um kamba nascido no Huambo chamado de José Eduardo Agualusa em Dezembro do ano de 1960, bem perto da Caála, lugar aonde morei por algum tempo, trabalhando às ordens do presidente do Município chamado de Casimiro Gouveia com a alcunha de caluviaviri. Aqui, refiro Agualusa porque faz parte da minha lista do BOOKTIQUE. Até cheguei a ter uma xitaca com nemas junto à pedra do Alemão mas, deixa para lá, a guerra do tundamunjila a levou……

55 - Irei escalpelizar seus escritos pela razão de tal como eu, andar por aí escrevendo crónicas e livros que muito me fazem borbulhar o cerebelo do lado bombordo. Enquanto eu ando com um imbondeiro às costas, ele sempre se faz acompanhar de cadernos com linhas, um micro-ondas Ipad e uma catrefada de canetas de várias cores. Só que tem uma grande diferença, ele ganha bom kumbú e eu nem cheta… Acho que sempre leva um casal de osgas de estimação e olhos oblongos e enviesados, com quem cavaqueia longos tempos. É delas que recebe inspiração, pode isto ser?

agualusa2.jpg 56 - E, é sobre um antigo Coronel do Ministério da Segurança de Estado de Angola que tudo se desenvolve. Já morto, fugindo às armadilhas da guerra com um amor de hiena, percorre agora seu tormento das memórias vendendo armas aos sublevados do Morro da Barriga do Rio. Quer à viva força levar a descolonização ao Brasil mergulhando a fundo nos incêndios dos morros cariocas. Foi ali, no lugar aonde os candengues brincam com kalashnikoves AK-47, numa sacada a ver-se o Rio estendido até o Cristo Rei, que o ouvi dizer: -A guerra enche os bolsos a muita gente. Bom! Isso não parece ser novidade para ninguém…

57 - Nesta análise, tenho a ajudar-me um jornalista de nome Euclides muito hábil a complicar as respostas que sendo fáceis as engravida só para se vingar das peripécias vividas em África e muito especialmente naqueles tempos perturbadores da guerra do kwata-kwata, do foge branco t´chindere, senão estripo-te. O raro disto é a de que também foi polícia do Estado, um supranumerário de confiança. Bom! Tudo isto acontece inspirado na saga dos fujões pretos, escravos dum qualquer coronel que num golpe de audácia fogem para os quilombos dos Palmares. Até poço sentir o bafo dos cães de fila soprando e babando ranho por aquelas matas procurando os gentios entre as coroas-de-frade e picos kilométricos.

zumbi6.jpg 58 - Francisco Palmares o coronel angolano, o morto-vivo, recordando a fúria de Zumbi, quer tomar o rio dando lugar de destaque aos negros; diz que Zumbi voltou para tomar o Rio. Nós angolanos, somos optimistas – os pessimistas já se suicidaram todos! É Euclides que assim fala sem se recordar do nome desse homem que assim falou lá para trás no tempo; acontece ser assim quando se encontra em dificuldades.

59 - Euclides fala com o Coronel como se fossem amigos de há muito tempo, e eram mesmo: - Vi-te na feira, escondido atrás de uma barraca, disseram-me que morreste e agora!? As coisas mudaram muito desde que tu morreste! O que vocês fizeram não tem perdão, diz Euclides. Eu sei; eu sei! Diz Palmares ao seu assombrado amigo. Aquilo escapou ao nosso controle, foi longe demais…

ANGOLA10.jpg 60 - Ficam muito tempo em silêncio. Finalmente o Coronel fala: - Tu estavas na delegação provincial. Tenho a certeza. Numa de falas tu e, agora eu, Euclides, o jornalista repentinasse: Como conseguiste escapar? - Escapar!? Eu não escapei. Tu viste que não,… estiveste no meu enterro!… De sobrancelhas carregadas e pigarreando, foi dizendo.- O Cunha deu-me um milongo que me deixou a dormir, acho até que morri, mesmo! Depois organizou aquele fantástico funeral, enterrou-me e, logo a seguir, desenterrou-me.

61 - Passei a polícia de Fronteira em Namacunde com o meu próprio passaporte dois dias depois de enterrado e, ninguém deu por nada. Incompetentes! Os teus colegas, graças a Deus! São todos incompetentes, repetiu… Ficamos aqui a saber que Euclides também tinha sido da polícia porque logologo o Coronel afirma com trejeitos de gozo: Tinha a certeza que me seguirias até aqui - Um polícia nunca o deixa de ser… polícia!

coroa de frade.jpg 62  - O medo veio até mim sabes, diz Euclides o ex-polícia e agora jornalista. Os camaradas fraccionistas faziam a sua autocritica, pediam perdão ao povo, assim publicamente e, depois eram fuzilados. Bom! Também naquela altura, sabes, as pessoas arriscavam a vida por um leitão assado. Estava farto de comer arroz de mabanga – quando penso nisso até me dá vómitos.  Como não fugir… como fez o Isomar, T´Chingange, o Vumby e tantos outros. Francisco Palmares lembra-se da Luua: - Meu Deus, tinhamos um país! E, aqueles tipos destruíram tudo… Aqueles tipos, ué! - Vocês!

63 - Vocês destruíram tudo, assim fala de dedo em riste o ex-polícia da nomenclatura. O Coronel olha-o ofendido; abana a cabeça. Esquece… Eu não tenho já nada a ver com a pátria; pátria ou morte, o escambau. Quase nada. Sou empresário, tenho negócios aqui… Negócios? Sente-se um muxoxo prolongado de Euclides. Olha, os outros compram barato aqui no Brasil, levam cuecas e cabeleiras postiças, sandálias e lençóis de cama para venderem caro na Luua. Eu, faço o contrário, compro barato em Luanda e vendo caro aqui. Sou besta!? Caramba… O que é que compras barato em Luanda para venderes caro no Brasil? Interroga o ex-polícia em voz de falsete? A coisa promete meus ávilos…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:56
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . V

Leão que ruge muito, não caça nada…… 09.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Lagoa do M´Puto

44 - O sol erguia-se escaldante sobre o mato, os bichos felinos ficavam às sombras das bissapas abanando as orelhas para enxotar moscas e revirando-as para manter seu radar a captar os movimentos da savana, das bordas dos muxitos e da lagoa. Assim e por detrás do capim, o mesmo sol do M´Puto, aqui parece envolto em brancas teias de nevoeiro, como se aranhas fossem, percorrendo bocejos de cacimbo como gotículas que se despendem das pontas acerosas.

malawi3.jpg 45 - Com colares massai de contas azuis e bagos de feijão maluco de Angola penduradas ao pescoço, escrevo coisas loucas a condizer com o não menos chanfrado Ernest Emingway, salvo as proporções, claro! Sou um homem do mundo. Já viajei e vi muitas coisas; os anos e meses que passei noutros lugares assim como contas, conto-os enfiados em um fio de náilon a fazer de missangas.

46 - Formando frases curtas e sinceras tento rematar-me nas voltas certas para driblar de outro jeito meu passado. Sim! De outro qualquer modo ele, o passado pode reconhecer-me. Aprendo com as formigas grandes, kissondes que em andamento seguro arrastam pelo pó do chão seus ventres escuros sem discutir com Deus por assim andarem, sempre se arrastando.

malawi2.jpg 47 - Se pudesse adivinhar o futuro sem o ter de deslocar, tê-lo ia beijado, a sugar-lhe as energias, deixando para ele um montão de problemas, porque cada vez que se respira, torna-se tudo mais caro e, nossa escrita que até podia ser criativa, fica lodosa, languinhenta com taxas e taxinhas mais a água, a luz, revisão do carro  ou pagamento ao jardineiro.

48 - Com todas estas alcavalas na vida, nossa prosa fica como um deserto, esteando-se até ao horizonte sem nada acontecer; fica só uma vida de estórias com partidas e chegadas. É por isso que me regalo com as estórias alheias como estas da minha empregada de Kampala chamada Mery. Esta manhã disse-me que sua mãe mandou-lhe por correio expresse um pacote de formigas fritas, embrulhadas numas folhas de bananeira.

malawi1.jpg 49 - Acrescentou que embora a folha estivesse amassada e rasgada dá para as saborear, deliciosas enswas acompanhadas com palmito de bananeira. Minha relação com Mery foi-se tornando mais próxima quando nas nossas falas, ela me disse um dia que nós muzungus da Europa, complicamos muito e, para além do normal nossas vidas. Assim num desplante doce e sincero, achou que tudo isso é devido à nossa falta de imaginação; que dificultamos tudo, achamos por isso tudo caro.

50  - Foi-me dizendo que nós aqui no M´Puto e por toda a Europa, somos pobres de uma maneira diferente. Mas, quem és tu para falares assim dos brancos muzungus, repliquei para ela meio azedo mas e, também curioso com seu ponto de vista não de todo desajeitado. Eu sou Baampita ani! Ué - és o quê? Sou uma mulher africana, graças a Deus! Venho do Vale do Rift, lugar do Adão e Eva!

INHASSORO 096.jpg 51 - Eu já a tinha ouvido dizer que o Adão e a Eva eram africanos mas assim desta forma fiquei confuso sem saber até como replicar. Sim, acrescenta ela: O vale do Rift foi o berço do primeiro homem e da primeira mulher. Portando o Adamu e Eva pertencem-nos! Fiquei recentemente, a saber que o Great East African Rift System é uma das maiores características fisiográficas do planeta. Vou ter de me inteirar disto porque talvez ela esteja cheia de razão

52 - Em verdade este Vale do Rift é uma zona na qual as placas Somali e Núbia se estão dividindo; abrange a Etiópia, o Quénia, a Tanzânia, o lago Niassa e o rio Chyre, terminando no Zambeze. Da superfície das águas elevam-se agora nuvens de dúvidas para e, em espiral fazer transportar kiandas do kalunga, o lago Niassa.

INHASSORO 175.jpg 53 - Um mistério que vai originar escritos de sonhos com danças de boas vindas ao Malawi porque foi em Sitima de Nkhotakota que almocei na sala do capitão Steve. Lá terei de continuar esta conversa com Mery sem perturbá-la dos seus afazeres; até lhe prometi amanhã ajudá-la a aspirar com o rainbow a casa no intuito de fazer acontecer mais falas. Nem pensar patrão! Disse logo na forma peremptória. Cumcamano, ando a perder massa muscular no meu cerebelo!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:55
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2019
MALAMBAS . CCXIV

NAS FRINCHAS DO KALAHÁRI - de Várias Partes

CAPE TOWN HÀ ANO E MEIO ATRÁS – 04.08.2017 – Do baú do Karoo do Xoxolosa-Trem revi este penúltimo dia em Cidade do Cabo.

Por

soba0.jpegT´Chingange – Em Lagoa do M´Puto - 08.01.2019

cabo01.jpg O tempo corre e num talvez seja amanhã, as escritas vão sendo acumuladas no mukifo até que num dia como o de hoje resolvemos passar a limpo. Naquele ontem, dia dois de Agosto de 2017, almoçamos com o Senhor Amadeu Seca e esposa Dona Helena em sua casa rosada situada no sopé da Table Mountain. Do baú do Karoo do Xoxolosa-Trem revi este penúltimo dia em Cidade do Cabo. Eu e Ibib fomos tomar o café da manhã num restaurante da esquina: ovos, fiambre, torradas, capuchino, salsichas, uns pedaços de alface, cenoura crua, pepino e tomate; tudo bem à maneira da África do Sul.

cabo02.jpg Lara, minha neta de 16 anos, chata como a potassa, com mais uns pozinhos de pimenta, quis ficar na cama do nº 5 da Road Iatom com suas periclitãncias, curtindo seu micro-ondas, um Ipad com filmes de animação, músicas com contrabaixo e sons apocalípticos, pinturas mais fotos; até já nem lhe peço nada porque o preço da arrelia é demasiadamente alto. Só trago isto para aqui para se notar o confronto de gerações, os setenta e três anos de velhice e os dezasseis rebeldes anos da juventude, do se saber tudo ou assim pensar com edecéteras esdrúxulos, cumcamano.  

Setembro aqui, é o início da primavera, por isso as amendoeiras já apresentam amêndoas bem grandes ao invés do M´Puto que estão agora a ser tiradas da árvore a fim de serem britadas. Há portanto seis meses de diferença na floração das árvores. Os pessegueiros junto à piscina apresentam-se cheirosos com suas flores de cor rosa violeta; as ameixieiras pintalgadas de flor branca apresentam-se também com seu característico cheiro agradável.

IMG_20170831_130245.jpg Uns pássaros grandes de cor preta chamados de Íbis furam insistentemente o chão de onde extraem minhocas e parasitas infestantes deste bonito jardim da casa rosada.  Eu e Ibib fomos ao Checkers comprar umas pequenas coisas para o lanche, cervejas Windhoek lager e vinho “pinotage” para oferecer ao Senhor Amadeu Seca; isto porque ontem, por ele, foi gabado de bom que, em verdade o é, gostei.

Falando de vinhos posso relembrar que a primeira vinificação aconteceu no ano de 1659 com a supervisão pelo então Governador do Cabo - Jan van Riebeek e daí até e os dias de hoje não mais pararam este cultivo com arte; soube que posteriormente, os portugueses tiveram também influência no trato de vinhedos. Actualmente, mais de 3.200 fazendeiros cultivam uvas em mais de 99.000 hectares distribuídos por diversas regiões do país.

IMG_20170829_143520.jpg A latitude da Africa do Sul está próxima da latitude do Uruguai; o clima é bastante diferente entre as várias regiões da África do Sul mas, é esta região do Western Cape e perto da bela cidade de Cape Town que se situam a maioria de fazendas produtoras de bom vinho.

Os vinhos de Stellemboosch são uma referência. Pude ir a provas com o casal da casa rosada, tal como o já tinhamos feito no distante ano de 1999 – a volta das “winelands”. A Africa do Sul possui um tipo específico de uva, só encontrada por aqui; é exactamente esse vinho Pinotage tão badalado pelo meu cicerone. É em verdade um cruzamento da variedade Cabernet Franc e Pinot Noir para além de incríveis Malbecs, Semillions e muitas outras como o Cabernet Sauvignon, do qual mais gosto.

IMG_20170901_103019.jpg Voltando às compras, podemos escolher 6 flores de próteas, cinco de uma espécie, mais um botão grande para complementar com elegância o ramalhete com glicinas azuis compradas por cinco euros e meio, noventa randes. Em Setembro, pode sentir-se aqui as quatro estações do ano pois que, pode ir de dia dos 14 aos 27 graus; nas noites sempre baixa muito! Por vezes, no dia o céu apresenta-se coberto de nuvens, um vento muito frio e logo a seguir o dia descobre-se num azul total.

Meio-dia! Ouvi daqui e, perfeitamente, o tiro de canhão - O mesmo que todos os dias se faz ouvir por toda a cidade até ao sopé da montanha; uma tradição que a cidade, com orgulho, mantém há mais de 200 anos, do tempo dos originais holandeses. Estavam assim a terminar os dias com a graça de um dos destinos turísticos mais ricos e encantadores do mundo – Cape Town.

IMG_20170726_105208.jpg Acabei o dia de hoje dando uma gasosa em randes ao bafana arrumador de carros da Road Iaton. O homem só tem uma perna, desloca-se com a ajuda de uma muleta e agradece-nos chamando-nos de papá ou mamã com um rasgado agradecimento. Há quase vinte anos atrás não vi aqui nada disto, nem arrumadores havia – Tudo mudou e sinceramente, dá até um certo receio andar pelas ruas do centro. Há muita gente a mendigar e, ou a viver de diligências fúteis. O homem da pena de pau, talvez seja um antigo militar, um soldado aposentado moçambicano que aqui encontrou este modo de vida.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:18
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Sábado, 5 de Janeiro de 2019
MU UKULU . XI

MU UKULU...Luanda do Antigamente – 05.01.2019
Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! - Em 1887 e por três anos, a Luua era iluminada por candeeiros a gás…
Por

soba15.jpg T´Chingange – No M´Puto

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil 
Em 1847, incluindo os edifícios públicos, a cidade de Luanda contava com 144 casas com primeiro andar, 275 casas térreas e 1058 cubatas feitas em taipa. Era em verdade uma cidade de degredados, uma política embrionária de desenvolvimento forçado com cerca de cinco mil habitantes; Sendo um lugar de passagem para o resto do continente africano o viajante podia usufruir de perto de cem tabernas, pelo que os viajantes a qualificavam de moralidade duvidosa.
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Em 1889, o governador Brito Capelo inaugurou um aqueduto a partir da lagoa Kinaxixi que forneceu a cidade de água potável por alguns anos abrindo assim caminho para o grande crescimento de Luanda. Mais tarde e a partir de 1928, com o regime de excepção em Portugal, intensifica-se o envio para esta colónia os descontentes com o Estado Novo; Luanda passa a ser assim mais utilizada como colónia penal.

baleozão0.jpg Em 1930, Luanda tinha um pequeno cais de cabotagem com apenas 400 metros e uma profundidade de três metros. Os passageiros tinham de usar um embarcadouro flutuante. A capital estava mal servida e, em 1934 começou a ser construído um cais "em cimento armado para quatro navios ao mesmo tempo". Apesar desta ampliação, a infra-estrutura ainda não dava resposta às necessidades da economia angolana de então.

baleozão01.jpg Em 1930, no porto das Kipacas do Bungo, foram desembarcadas cerca de 50.00 toneladas de carga e, exportadas um pouco mais de 17.000, sobretudo café e sisal. Em 1932, já as medidas governamentais da Metrópole, visavam promover as exportações e travar as importações. Neste ano, o porto de Luanda recebeu um pouco mais de 37.000 toneladas de carga tendo sido exportadas cerca de 25.000. 
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Dos anos de 1930 a 1950, Luanda teve um espectacular crescimento; com 60.000 habitantes em 1940, passou para 140.000 naquele ano de 1950. Em 1960 já eram 225.000 passando para o dobro em 1968 sendo já notória a percentagem de brancos. Foi pouco depois de 1950 que começaram a circular pela cidade uns homens vestidos de branco conduzindo à mão uns carros e gritando: Há baleizão!

baleozão1.jpg Era da cervejaria e sorveteria do Baleizão situado perto da Fábrica de Sabão e bem perto da antiga calçada dos enforcados que dava acesso à cidade alta e ao Palácio do Governador, de onde saiam estes monangambas vendendo sorvetes, gelados de sabores variados e cores atractivas metidos em cones de bolacha crocante. Estas figuras eram bem características daquela cidade de então conhecidas no Brasil como camelós.

baleozão00.jpg Era nesta sorveteria que uma grande parte da população ia fazer uso da esplanada, beber uns finos ou os chamados canhãngulos de cerveja Cuca, Skol, Eka ou Nocal. Eram famosos seus saborosos cachorros quentes. Tomando a brisa da baia, ali se passavam horas com amigos da pândega nos finais de dia ou depois de se sair já noite duma das muitas salas de espectáculos, dos coqueiros a ver futebol ou a luta live do conhecido empresário Lobo da Costa. 

biker0.jpg Pedia-se uma cerveja e a acompanhar sem pagamento extra, serviam uns jakinzinhos fritos, tremoços, jinguba, dobradinha com jindungo ou mesmo pedaços de polvo tipo escabeche. Bom! Saia-se dali já jantado, eram horas de ir a casa tomar um banho, encontrar-se com os amigos no cine Miramar, Nacional ou Restauração e depois voltar ali ao Baleizão ou à Biker para refrescar o esqueleto.

baleozão8.jpg O Baleizão fundado pelo Sr. José Maria Aparício e seu filho Tarique, estava localizado no Largo Infante D. Henrique, local de passagem para ilha, ponto de encontro para depois da farra, ponto de partida e chegada das reuniões do clube, lugar aonde se levava a sogra, a miúda ou a mulher para experimentar uma guloseima diferente. Podia encontrar-se ali o pintor Neves e Sousa batendo papo com o radialista Sebastião Coelho ou outras figuras publicas que hoje deixam saudade na memória.

luis14.jpg Também por ali paravam fumadores inveterados, dedos e bigodes marcados pela nicotina amarela ou ruiva; e eram marcas que agora recordamos ser como o Zig-zag, o Francês, AC, Delta, Negritos, Caricocos ou Delfim. A Fábrica de Tabacos Ultramarinos – FTU prosperava pela certa, pois a maioria dos caluandas eram fumadores em grosso. Antes de avançar pela visão mais moderna da Luua terei de recordar que para lá da Luua tudo era mato, assim o dizíamos.

bessangana2.jpg Luanda era Angola e o centro do mundo era a Mutamba! Mas aqui bem perto ficava o lugar aonde antigamente se refugiavam os escravos fujões, era aí o seu primeiro refúgio. Em kimbundo refúgio é ingombota, e essa acção de ali se esconderem, pois assim ficou baptizado o local. Quando passou a ser habitado as pessoas diziam que moravam na n´gombota e os portugueses corromperam a expressão adicionando o “I” tendo ficado em Imgombotas, do jeito actual.
Nota: Alguns itens foram recolhidos na NET.
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:09
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Domingo, 30 de Dezembro de 2018
MUXOXO . LIII

IDEIAS CUSPILHADAS . 30.12.2018

Na natureza dos dias de hoje, não é o mais inteligente que vence na vida mas sim aquele que melhor se adapta a ela…

Por

tonito 20.jpgT´Chingange - Em Coimbra do M´Puto

Hoje, penúltimo dia do ano de dois mil e dezoito, não estou disposto a ler recados de rápidas mensagens electrónicas, coisas partilhadas mil cento e onze vezes, com muitas e auspiciosas generosidades timbradas e, de sombrias flexibilidades de cor carmim. Também dos versos de rimas desastradas de colar amor com dor, vulgarizando os mata-bichos da vida e, esquecendo os outros trezentos e sessenta e três dias de presença.

Sem pretender vulgarizar o verdadeiro sentido da amizade, aqui estou escrevendo missossos, muxoxos, mujimbos ou mocandas nos trezenos e sessenta e cinco dias dos anos comuns, para arredondar abraços XXL aos verdadeiros gestores do bem-querer. Nesta afirmação, existe uma inevitável armadilha, que chamamos de cultura subordinada a um outro potencial de fingimento, pois que o real entrelaça-se com o possível dando forma à fricção, uma nova forma de ficção.

dy15.jpg Ficção repleta de justificadas deduções através das malhas linguísticas ou narrativas imaginárias; sonhos em que todos podem passar por entre os pingos da chuva. Pois! - Os poetas com seu romantismo, controlam os paradoxos em criativas imagens, monopolizam a futilidade em verdade consoante sua habilidade e, sem obedecer aos ditames da razão.

Queria falar coisas simples, entendíveis o quanto baste de chamar às rezes bois, aos porcos marranos e aos bodes cabrões mas, não é legitimo sermos indelicados com estes domésticos animais que nos dão sustento, dão carne, dão leite, dão peles, dão agasalhos e até servem de arados em terras moles. O mundo não deveria ser assim mas, uns comem outros e outros são comidos.

sanchs1.jpg Encostado à cabeceira da cama e num terceiro andar, num repentino ruido de susto, vejo a gata Yacha saltar da comoda para o parapeito da janela escancarada. Deste jeito bem que podia navegar no espaço até se esparramar lá em baixo no passeio, confirmando que a lei do Isac Newton é bem perigosa, quando não se usa a tecnologia certa de navegar no espaço.  Menos mal que a calha das persianas lhe retiveram o ímpeto, digo eu.

Assim, repenicando ternuras, posso aperceber-me de minhas avantajadas unhas a necessitar de serem cortadas, retirar-lhes o encortiçado e persistente fungo que insiste em perpetuar sua amizade com a minha pessoa. Enquanto isto a gata Yacha foge para os lados da cozinha de onde vem um cheiro de ensopado de borrego e arroz de sanchas conhecidas por míscaros, cogumelos da família dos pleurotos e tortulhos.

sanchas2.jpg Já muito cheio de raminhos de urze, de folhas de loureiro e folhas de azevinho com bagas vermelhuscas, não será conveniente dizer que no correr do tempo os amigos foram-se rareando ao ponto de por vezes dizer que sim, tenho alguns conhecidos! É que muitos daqueles outros, no correr dos anos, demonstraram fingir que sempre foram almas caridosas trejeitando sorrisos e monices como se sempre fossem glorificados em virtudes religiosas.

Nada de troças! Muitos mastigarão respostas inarticuladas de um sorriso aflito mas, para não me mentir, em tempos, tive também vontade de enriquecer mas, fui ficando com o estritamente necessário sem nunca ficar merecedor de uma comenda. Por vezes os silêncios descem-me pela cara em forma de rugas recordando antigas pandegas, daquelas de fazer chinfrim, estomago vitimado em comezainas fora de portas e de horas desavindas.

sanchas3.jpg Não será de admirar ficar assim com manchas na pele, sentir biliosas sensações de pingar desaforos às prestações, sentir o rebuliço provocado pelos espumantes e demais frisantes; levantar-me uma, duas e três vezes na noite para sempre recordar que os abusos por vezes fogem da memória. Sentado de fronte para uma magnifica tarde do 363º dia do ano, vivo o quanto a memória me atormenta, dia e noite, moendo e remoendo – fugindo dela, a memória!

jatiu3.jpg Até há bem pouco tempo, dizia o quanto tinha de vocação para terrorista. Ouvi até em tempos e, em surdina alguém dizer referindo-se a mim: -Ele conhece muitas estórias, é um inconveniente. E, porque nunca me conformei por nunca me entenderem, fico aqui de novo pensando nesta insensata atitude da gata Yacha, saltar para o parapeito da janela, correndo o perigo de só parar lá em baixo, no passeio, esborrachada. Acho que a teoria do tal de Isak Newton também é válida para gatos…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:07
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2018
PARACUCA . XXVIII

MULOLAS DO TEMPO . 3 - 19.12.2018

Nós, bazungus rumo à Tanzânia comendo RUSK - 26 de Setembro de 2018 - Quinta-feira 

Por

Botswana 054.jpg T´Chingange No M´Puto

O dia 26 chegou igual a todos os outros, quente de dia e frio na noite! Acordei ainda noite quando o frio ainda se fazia sentir com os kwé-kwés a lançarem gritos agudos lá no topo das árvores; No Shoba Safari Lodge de Kasane, ainda não eram cinco horas e, com a claridade a despontar entre o arvoredo, assim fiquei na tenda cor-de-tropa a pensar nos anteriores dias. Revi assim a saída de Johannesburg seis dias atrás rumo a norte, lugar de imbondeiros para mais além de Pretória, lugar chamado de Limpopo.

Nosso guia-comandante das anharas africanas entrou em litígio com o meu GPS e seguindo sua “insuspeita intuição” quase andamos mais de uns quantos quilómetros na direcção de Hammanskraal; O GPS continuava a cantar, voltar-voltar! Vezes sem conta dava indicações para virar à esquerda no sentido de Rustemburgo mas desisti de insistir com o melhor condutor de África; tivemos por fim de voltar e seguindo a intuição, voltamos para a via N4, depois a R565 até o Sundown Ranch Hotel situado a escassos quilómetros de Sun City.

Botswana 214.jpg Pude ver-me a percorrer o Sun City pela quarta vez se bem me lembro, aonde revi o tremor de terra na ponte, o palácio sumptuoso por onde andei, na praia artificial, a floresta e o grande aviário com aves raras. Um lugar de cinco estrelas mesmo ao lado de Pilansberg. Poderíamos ter ficado por aqui para ver todos os Big-five mas o sonho do bazungus, era mesmo ir a Dar-és-Salam e subir até o Seringueti, lá aonde a adrenalina se sublima no medo.

Dia 22 de Setembro pulamos bem cedo da cama afim de segui o rumo do Botswana pela N 4, passar a fronteira no Skilpadshek Border Post e virar na A1 rumo ao norte, Gabarone, a capital do País. Não foi fácil atravessar Gabarone pois que seu trânsito é infernal e desorganizado. Foram quilómetros de estrada com muitas potholes (buracos) até chegar ao fim de tarde a Sahara Stones  Lodge de Mahalapye, um  bom e novo lugar com as condições requeridas para pernoitar.

Botswana 219.jpg Dia 22, saída ao romper do dia, após tomarmos nosso café com salsicha boerewors, dois ovos fritos, bacon, batata frita e café com leite tomamos o caminho de Maun. Nosso destino era seguir na A3 e em Nata, bifurcar para Kasane aonde estou agora, meditando nas periclitãncias. Também nos milhares de buracos percorridos e nossas conversas nem sempre amistosas versando sobre Angola.

De facto, pelo observado aqui, eu sempre caía no estremo de dizer o quanto os angolanos deveriam estar gratos por terem os Tugas como colonos pois que aqui verifica-se que para além do mato pouco mais há. Sempre caía naquela satírica forma de dizer: - Os angolanos estão cheios de razão, os Tugas deveriam não só ter levado para o M´Puto as suas estátuas, Diogo Cão, Maia da Fonte, Norton de Matos entre outras mas e, também os prédios, escolas, pontes, hospitais, igrejas, barragens; ter deixado Angola exactamente como a encontrou Diogo Cam, 500 anos antes do achamento.

Botswana 239.jpg Deveria sim ser assim, a fim de dar aos angolanos a liberdade e opção de puderem construir o seu país a partir do nada a seu belo gosto e prazer sem se sentirem vexados e humilhados e, por terem que se sentir obrigados a usar ou viver naquilo que os colonos lá deixaram. Às vezes ficava bravo com as contrariedades ouvidas, primeiro esperneava e depois emudecia; mas nunca baixando guarda no meu pensar devido a tanta e desproporcionada prepotência e irreverência dos mwangolés, pretos e pseudopretos. Ninguém é de ferro.

Pela tarde e muitos cheios de pó, chegamos a Nata, bifurcação de pela esquerda via Namíbia e pela direita atravessando várias reservas até chegar a Kasane às margens do rio Shoba que em Angola tem o nome de Cuando. Pernoitamos aqui, em Nata, no Pelican Lodge de Nata aonde se recolheu informação com outros aventureiros de qual o melhor caminho a seguir depois de Victória Falls.

Botswana 275.jpg Era suposto encontrarmos muitos animais no dia 23, um domingo, ao atravessarmos as reservas de Tamfupa, Sibuyu, Kazuma e Nogatsaa mas, os quilómetros foram desvanecendo a avidez e os olhos já cansados de tanta secura entre um gole e outo gole de água de garrafa, foram escorrendo conversas de profecias ainda mal entendidas. E, veio à tona aquelas profecias sobre a Inglaterra e África do Sul; aquela que diz que a Inglaterra será atingida por 7 pragas quando a 3ª Guerra Mundial estiver próxima.

Botswana 277.jpg Será!? Que a Inglaterra será totalmente aniquilada, até mesmo a sua terra irá queimar como uma invasão liderada pela Rússia que vai invadir a Europa, através da Turquia e usar armas terríveis. Nas longas horas de jornada ao longo de terra árida, chinguiços ressequidos, caímos em devaneios de profecias. A África do Sul entrará em uma guerra civil em um ano de eleições, após a morte de um líder negro, que será exibido em um caixão de classe nos Edifícios da União. Líderes mundiais virão homenagear. Será!? Chegamos assim a Kasane, tarde do dia 23, cheios de gases, corpos curvados e cheios de ideias com turbulências no cerebelo. Antes que fosse noite, fomos comer ao Pizza Coffee do indiano…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:16
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PARACUCA . XXIX
MULOLAS DO TEMPO . 4 - 28.12.2018
Nós, bazungus rumo à Tanzânia comendo RUSK - 26 de Setembro de 2018 - Quinta-feira
Por

Botswana 055.jpgT´Chingange – No M´Puto

Só lá pelas 10 horas do dia 26 de Setembro de 2018, 7º dia da odisseia Tanzânia - Haja paciência, é que o calor se começou a sentir mais forte. Decidiu-se que iríamos ver as terras rasas do Shoba em barco e, porque houve falhas no planeamento, tivemos de alugar um extra por 1420 Pulas; assim, um barco que normalmente leva 25 pessoas ia servir aos quatro bazungus que éramos nós! Grosseiramente os Pulas pagos, correspondiam a 1917 Rands ou 112 €; valeu a pena porque vimos muita variedade de antílopes.

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Nas vistas largas das terras planas e verdes que bordeiam os canais do Rio Cuando, e no chamado Chobe National Park, vimos bem mais do que 200 elefantes e muitos antílopes como olongos, gungas, facocheros, búfalos, impalas, jacarés e vários hipopótamos entre outros e, também aves de grande porte como o peru africano, várias espécimes de patos e pássaros multicolores. Pudemos avistar no meio de uma vasta e plana ilha, no meio do nada verde, uma bandeira do Botswana em um gigantesco mastro.

Botswana 019.jpg Aquela ilha que tem o nome de Sidudu/ Kazakili Island esteve até há questão de poucos anos em disputa na definição de fronteiras pois que a Namíbia reclamava como sendo sua mas, o Tribunal Internacional deu posse definitiva ao Botswana. Aqui está a justificação de tão grande mastro naquela planura tão verde e tão cheia de animais. Podemos assim ver as margens do rio Cuando a confrontar com o parque Kasika da Namíbia e o canal Shoba no lado do Botswana.

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O Rio Cuando e o canal Shoba desaguam no rio Zambeze e, é ali em Kazungula que confinam quatro países: Botswana, Namíbia (ponta da faixa de Kaprivi), Zâmbia e Zimbabwé. Foi um dos momentos altos nesta odisseia das potholes; os bazungus, mais que muitos a pagar caro para ver a natureza. Há gente de todas as nacionalidades mas, maioritariamente da Comunidade Europeia. Troquei impressões com três espanhóis que amavelmente nos deram indicações sobre trajectos por conhecer. Claro que os sonhos duns não são realidades dos demais - o itinerário seria sempre o do Comandante Vissapa, rumo a Dar es Salaam.

Botswana 231.jpg Neste nosso curso de enfrentar os conhecimentos, todos os dias serão uma prova à adaptabilidade humana e pude rever-me assim em confronto com meus silêncios de viagem, subjugar-me a modificar meu carácter para subsistir à sabedoria de pendura feito quase um monangamba. Uns dias atrás um amigo meu fazia reparo àquilo que eu dizia; a de que nós sempre seremos um fruto de mudança. Bom! Com ou sem essa minha teoria de transitoriedade nós seremos sempre os mesmos, só os pensamentos mudam.

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Assim taciturno e com rumo ao largo Kariba, podia ver-me já, a balouçar no convés do Ferry que me levaria ao Sharara Safari e depois Lusaca. Não existe ninguém que encontrando um espinho em seu pé não o retire após as primeiras dores; se não o fizer é porque é masoquista ou anda a treinar para o Guinessbook, um clube de excêntricos. Começava aqui a ser esse excêntrico que corre atrás dos sonhos alheios na ânsia de também ficar com olharapos afros.

Botswana 247.jpg Um amigo próximo disse-me que os pés dos bóheres têm olhos. Só entendi essa fala quando observei in situ um farmeiro de kimberley a andar de sandálias de pano colorido no meio do capim repleto de aranhas, centopeias, cobras e um sem fim de outros bichos rastejantes sem contar com os muitos picos espalhados a esmo pela terra barrenta. Fazia todos os possíveis para ter um comportamento análogo àquele bóher.

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Em áfrica é sempre bom recolher o máximo de informações porque nem sempre o caminho da esquerda é melhor do que o da direita; a triagem terá de ser nossa com ou sem a intuição que julgamos ter. Acabamos por no fim da tarde comermos um rump steak com salada no Pizza Plus Coffe e Curry, um restaurante de um indiano. Pagamos 620 Pulas que correspondem a quase 50 € por quatro, um preço razoável mas nitidamente mais caro do que no M´Puto. Dentro do jango do Lodge Shoba pagaríamos a dobrar! Turistas bazungus sofrem! Diria minha empregada Mery de Campala…

Botswana 254.jpg Em áfrica sempre se tem de ponderar gastos para não irmos mais além do plausível mas, há lugares que nem raspas do plausível existe! Esta missão exploradora serve para revestir-me de uma armadura contra as megalomanias daqueles que julgam possuir todas as chaves de abrir todos os becos, todas as quelhas, todas as picadas sem declarar seu próprio fisco à sua alma. É fundamental ter dólares! Sem isto, a apologia de se ir ao acaso tolhe o instinto, cega a fé, mesmo que se repita muitas vezes o valha-me Deus. As caixas electronicas funcionam mas, tem um mas... lá mais para a frente o direi.

Botswana 295.jpg Assim, com a razão chocando nas evidências, prescreve-se o responso. Pois! A fé não se impõe nem se prescreve nem nenhum santo a vai levar em conta se, se achar sempre sendo o dono da verdade. Assim pensando neste mato longínquo de tudo entre a criação de Deus, terei de relembrar que o dogma da fé cega é que faz com que haja muitos incrédulos! Um dia de cada vez digo eu. Todos os dias terão encruzilhadas bifurcações e o amanhã sempre será uma graça. Amanhã será outo dia - Restam-nos 45…

(Continua…)
Escrita do fim de tarde do dia 26 de Setembro de 2018
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:43
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Domingo, 23 de Dezembro de 2018
MU UKULU – X

MU UKULU...Luanda do Antigamente23.12.2018

- Em 1887 e por três anos, a renovada Luanda é iluminada por candeeiros a gás…

Por

soba15.jpgT´Chingange – No M´Puto

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Loanda não poderia parar no tempo e, vários eventos contribuíram para o seu crescimento com inerente progresso e, é assim dada abertura do Mercado da Quitanda no ano de 1816; em 1825 é criado o Observatório Meteorológico João Capelo na parte alta da cidade no caminho descendente para a Fortaleza, da Calçada dos Enforcados, a Rua da Praia e o lugar dos coqueiros situado bem no fundo das barrocas, lugar de esconderijo de gente desavinda em cubatas mal-amanhadas.

Os Bombeiros são constituídos como a Companhia dos incêndios no ano de 1844. Os caminhos-de-ferro de Luanda SPCTFT começam a fazer ligação com o interior indo até Malange, no ano de 1861- o início de uma importante cidade. É aberto o mercado do Peixe ou Praça do Falcão no ano de 1862 e logo a seguir são construídas as instalações do Correios, dando seu início em 1865 e, três anos mais tarde, 1869, é aberto ao público o Jardim da Cidade Alta, bem próximo do Palácio do Governo mais um conjunto de edifícios governamentais com casamatas-quarteis, guarida das forças de segurança ao palácio.  

luua8.jpg Se voltarmos lá atrás ao ano de 1848 teremos de ter algum cuidado com as carroças de água a passarem ruidosamente na esquindiva, com os aguadeiros em mangas de camisa fazendo fífias aos transeuntes, de pernas arregaçadas, invadindo as casas senhoriais e dependências públicas, enchendo potes e banheiras. Do palácio da Dona Ana, as muitas portas e janelas a gemer as armaduras perras para faze entrar o sol. Uma voz tisica e aflautada duma serviçal “mucamba”, saindo pela varanda cantando em falsete algo parecido: lámbaixo está o tiro-liro-liro, lámcima está o tiro-liro-ló.

A construção do Hospital Maria Pia tem o seu início no ano de 1883 e, é instalada a sucursal do Banco Nacional Ultramarino, o primeiro banco emissor desde 1865; os telefones interurbanos surgem a seguir no ano de 1884 com a inauguração do cabo submarino no ano de 1886. Este cabo submarino era a ligação ao mundo com incidência central em Lisboa do M´Puto. A Biblioteca Municipal tem início no ano de 1873.

araujo65.jpg Uma preta velha, vinda da Praça do peixe - Praça do Falcão, vergada pela imensa quinda de mateba e loandos, em direcção à rua do Casuno apregoava em tom arrastado: “Tem cachucho fresco, tem roncador e garoupa, kixibis barato”. As crianças nuas, de pernas tortas por cavalgar às ilhargas da mãe, cabeças luzindo ao sol, ventres amarelentos e crescidos, guinchavam correndo numa brincadeira de kwata-kwata empinando-se nas habilidades

O abastecimento de água é concretizado a partir do rio Bengo, em 1889 que, anteriormente era assegurado pelos “poços da Maianga”. Segundo Ilídio do Amaral, chegamos ao último quartel do século XIX com “ruas tortuosas, abertas nos areais que se acumulavam, sobretudo, na parte baixa, depositados pelas enxurradas da estação chuvosa”. Entre 1887 e por três anos, a renovada Luanda é iluminada por candeeiros a gás.

dy8.jpg Um ou outro branco, levado na necessidade de sair, atravessava a rua, limpando o suor da testa, um vermelho afogueado, um lenço grande da mesma cor e muito enrolado, metido sem jeito no bolso do paletó. Os cães estendidos na sombra dos umbrais, pelas calçadas sombreadas, mordendo o ar, as moscas, ou rosnando aos candengues antes do chute de pé descalço.

Ao longe ouvia-se apregoar na praça “arroz de Itália, mangas, fígado, rins e coração, tudo à mistura. Nas esquinas das quitandas, fermentava ao calor um cheiro acre de sabão macaco, azul e outras cores; das tabernas um cheiro de aguardente, cachaça do m´Puto e vinho tinto baptizado, carapau frito, enguias e sardinhas em barricas de sal ou azeite, mais toucinho e azeitonas com um suave cheiro de louro e alho.

nzi4.jpg O caixeiro assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, coçando o seu espalmado pé descalço; olhava de soslaio o cipaio com seu cofió vermelho e, que passava encafifado em maus pensamentos porque zunia um pau feito cassetete; assim prá frente e de lado, rilhando o dente barafustava muxoxos imperceptíveis de sundiameno e topariobé. Ai-ué, vai ter maka, mesmo!

Circulavam quitandeiras muito gordas, rebolando os grossos quadris trémulos e as tetas opulentas; Também senhoras brancas com guarda-sóis rendados, seguidas dos moços carregando imbambas e bikwatas. Os moços de recados avultavam seus paletós de zuarte pardo manchados nas espáduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. No Maculussu os negreiros passavam em revista os candengues escravos que ali estavam para se levados às instalações da Dona Ana nas Portas do Mar.

junho2.jpgNa quitanda da Fazenda entre pilhas de caixotes de cebolas e batatas chegadas da Metrópole, discutia-se o preço, o prego do algodão, a taxa do açúcar e tarifa das transacções. Gordos negociantes tratavam de embarrilar uns aos outros, pediam ou ganhavam segundo muita manha, própria de gente de negócios; trocavam chalaças em plena confiança de amizade. Um pouco mais abaixo da Mutamba leiloeiros mulatos, cantavam em voz alta o preço das mercadorias abrindo as vogais nas mil macutas, nos mil angolares ou mal-reis. Era a quentura natural, como um zunzum grosseiro de feira.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:09
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
XICULULU . XCIX

TEMPOS QUENTES15.12.2018

MALAWI - NIASSA - No vale do Rift

- O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios... 1º De várias partes

Por

soba15.jpgT´Chingange - No M´Puto

Quando o Vapor Niassa apitou lá longe um último sopro de “vrruumm”, ao largo da Luua de Angola no ano de 1975, pude escolhe-lo como meu berço; foi ele que fez vibrar no meu coração o fascínio do mítico Robinson numa terra de São Nunca e, com um amigo certo chamado de Sexta-feira tornei-me num Niassalês. Mas, só em Outubro de 2018 tomei contacto directo com o lago Niassa, que deu o nome ao vapor e, que nos mapas de agora vem com o nome de Malawi.

Visitando recentemente o lago com este nome, foi uma surpresa para mim; uma imensa extensão de água doce a banhar Moçambique, Malawi e Tanzânia. Por terra e, por vários dias vi um deslumbrante espelho de água de Karonga até chegar a Monkey Bay na parte Sul do Lago. Pude apreciar uma misteriosa paz e invulgar quietude deste lago até chegar ao Mvuu Liwonga bem ao lado do Shyra River a jusante do lago Malombe, que vai desaguar no grande rio Zambeze em Moçambique. Vi aqui dezenas de hipopótamos, palancas pretas e vermelhas e também, pela primeira vez, um porco conhecido em Angola por jimbo e, que se alimenta de formigas. Tem aqui o nome de Aardvark mas também é conhecido por porco-formigueiro.

INHASSORO 298.jpg Este grande lago africano está localizado no Vale do Rift, com uma orientação norte-sul tem 560 km de comprimento, 80 km de largura máxima e uma profundidade máxima de 700 m. Vi em uma publicação um mapa que parecia ser junção de uma grande ilha separada de áfrica e, que aqui se juntou originando os grandes lagos do centro de áfrica mas, é precisamente o contrário disto que parece estar a acontecer. O Lago Niassa tem uma área estimada de 31 mil quilómetros quadrados, dos quais 6400 são território moçambicano.

Na língua chinyanja (ou chinhanja), falada na orla moçambicana do lago, Niassa significa "lago", tal como o próprio nome do povo que usa aquela língua, os Nyanjas, significa povo do lago. Em chichewa, uma das línguas do Malawi, a palavra malawi significa o nascer do sol, visto que, estando a ocidente do lago, é dessa forma que os malawianos vêem nascer o dia, sobre o lago.

INHASSORO 167.jpg Mas, estou agora a ler uma nova versão que começa com um adeus ao nosso estimado lago Niassa. Terremotos e vulcões fazem parte dos perigos naturais, juntamente com inundações, tsunamis, ciclones e muitos mais. Estes riscos naturais causam grandes danos físicos aos assentamentos humanos, estruturas de edifícios e vários tipos de infra-estrutura, incluindo pontes, estradas, linhas férreas ou depósitos de água. Vou tentar decifrar tudo isto…

Estes riscos estão chegando agora a um ritmo mais rápido do que o esperado, diz-se..., é uma jornada sem volta, mas isso, no entanto, não será amanhã; poderá portanto levar muitos e muitos anos. Iremos por isso ver o que os estudiosos do Globo dizem sobre um amanhã. A destruição de propriedades pelos riscos supra mencionados pode ter uma séria necessidade de abrigo humano, produção económica e padrões de vida da vulnerabilidade das populações afectadas.

INHASSORO 210.jpg Um grande número de pessoas pode ficar sem casa após um terremoto ou um vulcão. Estes cataclismos, têm o potencial de infligir enormes perdas à riqueza humana; terremotos e vulcões estão entre os perigos naturais mais destrutivos e temidos. São inevitáveis, na maior parte imprevisíveis e produzem um sentimento de desamparo. No entanto, esses dois elementos não são apenas eventos para ouvir ou sentir ou apenas para vê-los, mas são incidentes com um profundo significado para humanidade.

Entre tantos significados que podem ser ligados a eles, estes são indicadores-chave da deriva continental. Este facto é fortemente apoiado por um registo científico que diz que terremotos e vulcões estão localizados em áreas encontradas nos limites das placas tectónicas. É sobre isto que se irei falar na forma de capítulos.

javali formigueiro0.jpgDa superfície das águas elevam-se agora nuvens em espiral de transportar kiandas do kalunga. Um mistério que vai alimentar muitas conversas, originar escritos de sonhos com danças de boas vindas ao Niassa! E, foi em Sitima de Nkhotakota que almocei na sala do capitão Steve mas este, não apareceu naquela forma de olho tapado e perna de pau…

INHASSORO 227.jpg Certamente que também este não sabia que no futuro esta casa feita de assombro e restos dum barco encalhado em tempos de segunda guerra mundial, vai ser inundado por uma onda gigante num futuro, sem calendário agendado. O Great East African Rift System é uma das maiores características fisiográficas do planeta. Este Vale do Rift é uma zona na qual as placas Somali e Núbia se estão dividindo; abrange a Etiópia, o Quénia, a Tanzânia, o lago Niassa e o rio Chyre, terminando no Zambeze.

( Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:56
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO . C

FRINCHAS DA VIDA – 10.12.2018 
Por

soba0.jpeg T´Chingange – No M´Puto
A fé cega não examinando nada, aceita sem controlar a evidência e, o falso como verdadeiro; assim e a cada passo se chega contra a evidência e, ou a razão. Esta fé levada ao extremo produz o que conhecemos por fanatismo. E, quando esta fé repousa no erro, cedo ou tarde se destruirá.
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O que é verdadeiro na obscuridade também o será em plena luz. Cada religião pretende estar na exclusiva posse da verdade e, esta fé cega tocando seus pontos de crença e, no tempo, se vê no dilema impotente de demonstrar que se tem razão.

abraço0.jpg Haverá duas importantes considerações a se ter em atenção: A fé não se impõe nem se prescreve porque mesmo recomendada, ter-se-á em conta que ninguém que esteja privado de a possuir representará a verdade.
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Uma fé adquire-se com discernimento quando se o têm e, cabe à fé não ir ao encontro deles, mas eles (nós) irmos ao encontro dela. Em este canto da Internet, e em outros similares, aparece frequentemente alguém com ideias interessantes; tenho a certeza de que cada um de nós poderá oferecer suas perspectivas sobre o que entende por amizade mas esta, pode não coincidir com ideias pré-estabelecidas na fé de cada qual.

araujo48.jpg  Em certas pessoas, a fé parece de alguma forma inata a eles mas, se um qualquer procurar com sinceridade essa tal de fé, certamente a encontrará. Para haver fé é necessária uma base; esta base é seguramente a inteligência, daquilo em que se deve acreditar e, mesmo para crer não basta ver, é necessário sobretudo, compreender. 
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O dogma da fé cega é que faz com que haja muitos incrédulos. O que eu acho ser comum a todo o humano é a necessidade de se socializar no afecto; a amizade acaba sendo algo que buscamos, por vezes até com ansiedade, uma circunstância que dá ao desejo de amizade alguma pitada de egoísmo. Quanto à fé ela surge em um qualquer momento!

araujo 101.jpg Existe o perigo de drenar nossas dores em nossos amigos, dar descanso de nossas preocupações em um desejo; se nós não paramos para pensar que cada amizade, terá de ser correspondida por igual, acabamos usando indevidamente esse dom. Eu não acho bom rejeitar-se a amizade de alguém com ideias diferentes. 
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Os amigos, nós escolhemos, fabricamos no correr do tempo. O termo empatia é definido como “a capacidade de penetrar pela imaginação ou premonição, nos sentimentos e motivações de outros", assim como entender as suas tristezas, seus medos e alegrias. A amizade não é em definitivo uma receita médica mas tem sempre uma bula de cuidados a reter para não se ser surpreendido no respeito mútuo ou recíproco.

arau44.jpg E, porque Deus me deu essa prerrogativa do raciocínio e do livre arbítrio, meu espírito anda vago. E, porque não há fé inabalável, daquela que se pode encarar na razão, face a face, espero meu próprio tempo de prescrição!

Ilustrações de Costa Araújo
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:06
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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2018
MU UKULU – IX

MU UKULU...Luanda do Antigamente29.11.2018

Havia muito de angolano nas casas feitas com a cal de mabanga, os forros feitos de bordão…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Começo com uma ressalva, para corrigir o que foi dito no Mu Ukulu-VIII. A Barragem das Mabubas sobre o rio Bengo, só foi inaugurada no ano de 1954 e não no ano 1948, conforme diz João Pinto que ainda candengue, ali viveu quando seu pai para ali foi trabalhar, entre os anos de construção entre 1949 e 1954. Antes de se dar continuidade ao desenvolvimento social de Luanda segundo o descrito no livro de Luís Soares, vamos aprofundar alguns conhecimentos da agora grande Luanda, porque quem não é kimbundo irá perguntar o que significa maianga entre outros nomes e lugares toponímicos...

ÁFRICA3.jpg Consultando escritos de José Kaliengue, poderei mencionar que Maianga significa poço de água. Havia a maianga do povo junto ao Clube 1º de Agosto e, cujo avanço urbanístico anárquico, relegou para ruinas; aonde agora é o rio seco era um rio a valer, molhado, que desaguava numa lagoa que era a Lagoa dos Elefantes no actual bairro da Samba e, onde desembocava. Este rio desaguava numa lagoa antes de dar para a baía de mar raso que ali existia.

Aquela era a lagoa dos elefantes, porque era frequentada por estes. Quando os portugueses ali chegaram, e durante muito mais tempo, viam-se por ali elefantes; no decorrer do tempo, estes foram-se refugiando na actual Reserva da Kissama. O que hoje se conhece por Morro dos Veados foi, até ao séc. XVIII, o Morro dos Elefantes, está escrito em mapas, só que estes, foram diminuindo em número. E, foi já no séc. XX, que o Morro dos Elefantes passou a chamar-se de Morro dos Veados.

muralha6.jpg Uma grande parte da população não sente qualquer relação com o espaço e com as coisas e, também porque não foram alertadas pela nova elite na sua preservação. A não existência de um ordenamento desses lugares; a construção arbitrária e sem qualquer tipo de controlo, originou perdas como valor turismo e sequentemente o económico. Um património difícil de recuperar.

A baía é uma das razões para o nascimento da vila e depois, cidade europeia de Loanda. Foi ela por via de sua topografia circundante que determinou a sua criação; Fundamentalmente por uma estratégia de defesa, mar fundo e lugar de abrigo às caravelas aos ventos dominantes e mar bravio na costa aberta de sua ilha da Mazenga; só mais tarde surgiram outros critérios pela criação de um centro urbano expandindo-se com mercados, estradas, porto de mar ou caminhos-de-ferro.

Mu Ukulu0.jpg Note-se que, já nessa altura, finais do século XIX, faltava água em Luanda; isso mantém-se até aos nossos dias. Rios e baías sempre foram um elemento importante na história duma qualquer cidade e Luanda não foge deste conceito. Depois há uma parte importante dessa história que também pertence aos angolanos, e que não dá para apagar! Embora como sendo a parte sofredora, contribuiu para a história: O do comércio dos escravos que já foi aqui superficialmente abordado.

As fortalezas, apesar de símbolos de opressão também pertencem aos angolanos; queira-se ou não José Kaliengue tem razão ao afirmar isto! As igrejas são outro elemento que, não fazendo parte da cultura original, passaram depois a fazer parte da vida das pessoas. Havia muito de angolano nas casas feitas com a cal de mabanga, os forros feitos de bordão, um material altamente isolante e que permitia manter as casas frescas.

miss6.jpg Não deve ainda existir sinais de tectos de bordão nas casas velhas de Luanda; também este processo saiu da cultura local. A Igreja do Carmo, estava assim construído até meados do século XIX. Estas edificações existem e, foram feitas com mão-de-obra de caluandas. Agora teremos de recordar o que era na palavra “MU” como sendo coisas do antigamente, mas também uma árvore no dialecto kimbundo. Mutamba é a árvore do tamarindo, árvore que a mutamba não tem.

Posso imaginar nas largas varandas da baixa da Luua e bem junto ao Carmo, as damas brancas comodamente sentadas com requebros de etiqueta, gestos cheios de conveniência, risos de boca fechada, olhares por debaixo das pálpebras mais um leque nos lábios e o dedo mindinho levantado com galanteria chamando o senhor prior. Não muito longe uma mulher negra na esteira de luandos ou de matebeira, num banquinho ou na soleira da porta catando piolhos na cabeça do candengue.

o poço do rei2.jpgTambém homens humorados, o chapéu de couro preso ao pescoço por uma correia, a camisa de algodão cru por fora das calças de zuarte, arregaçadas no joelho, o pé descalço, curto e espalmado, peito liso com cor luzidio de escuro ou cor de cedro á mostra, braço nu e grosso transportando uma viola ordinária feita de lata. Senta-se bem junto daquela mulher catadora, dedilhando as cordas metálicas e, cantando um repenicado linguajar de brincadeira…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:01
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018
PARACUCA . XXVII

MULOLAS DO TEMPO . 2 - 28.11.2018

Nós, bazungus rumo à Tanzânia comendo RUSK - 20 de Setembro de 2018 - Quinta-feira  

Por

Botswana 055.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

Neste início de roteiro aventura com safari, não poderei escrever algo de criativo sem temor ou sem tremer, evitando falar de cada um de nós dos nossos nervosismos ou nossas particularidades na forma de interpretar as coisas, no avolumar de entusiasmos e também sem ofender os pergaminhos que nos mudam no tempo. E, assim como um esquentador antigo mantendo a chama do piloto a fumegar passados amarelecidos e, chispando de vez quando, nervosismos com beijos irritadiços.

Botswana 300.jpg Neste agora, feito salalé em pau carunchoso, sem visar sublimar os feitos em criação artística conformo-me pela idade talvez, seguir sem um prévio planeamento, os trilhos do acaso, sem um aturado planeamento; aventura é aventura! Vamos em direcção a Dar Es Salam dividindo os percursos no máximo até seis horas de viagem, até encontrar um lugar de reconforto à idade, poder comer algo e ter ânimo a continuar.

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Ao quinto dia de viagem – 25 de Setembro podemos ver um casal de leões com uma cria a guardar a carcaça de um elefante que morreu bem na orla da floresta confinante com a planura verde do rio Shoba em Kasane. O Nissan de tracção 4 por 4 portou-se bem na picada de acesso ao rio; tomara, não fossemos nós com o melhor condutor de áfrica. Uma picada de areia solta e com um socalco elevado ao centro e ao longo de muitos metros. Um trilho bem tortuoso, que só um condutor do mato, sabe como lidar.

Botswana 276.jpg A adrenalina subiu aos píncaros na descida empoeirada, picada com árvores de um e outro lado e, já junto à margem do Shoba a maldita picada de areia melhorou; lugar de larga vista para espraiar nosso nervoso miudinho. Podemos assim ver centenas de antílopes, gungas, veados springboks, Javalis, olongos, búfalos, jacarés e grandes grupos de elefantes comendo rebentos verdes da várzea.

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Também vimos aqui calaus, perus do mato, como se diz em Angola e águia-real, uma imponente ave que de bico adunco e olhos penetrantes consegue até levar em suas patas pequenos bâmbis, capotas e outros rastejantes; talvez por isso não tenhamos visto coelhos.     

soba22.jpg E, bem na sombra atrás de umas bissapas, troncos apodrecidos, lá estava o rei leão com sua juba e sua dama mais uma cria; todos eles, olhando o elefante já desventrado. É sabido que no meio do mato o leão sempre fica bem camuflado pela sua natural cor e, também aqui, os turistas bazungus como nós em outros carros, esperavam estes levantarem-se para colherem a melhor foto.

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Ali, e por cima deles lá estavam os urubus, abutres empoleirados em ramos ressequidos de árvores, observando e esperando o momento exacto de entrar no repasto das vísceras deste grande quadrupede. Tivéssemos ficado ali de noite e decerto, veríamos as hienas a rondar a morte junto com chacais. Por vezes, estes predadores esperam até uma semana para intervir na comezaina.

Botswana 261.jpg Os últimos são os abutres, tudo fica limpo! Mais tarde ver-se-á a cabeça do paquiderme já branca, da cor da cal. Vêm besouros, animais rastejantes e até o escaravelho do Nilo rolando com graciosidade suas bolas de desperdício. Na natureza nada se perde, tudo se transforma. Dá para reflectir em tantas odisseias de nossas vidas, uma grande parte passada em áfrica e aonde outros abutres na forma de gente nos roeram vontades.

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Foi lá atrás num lugar de Pandamatenga, no quarto troço, que referi ser necessário uma logística para enfrentar a áfrica e, sem querer voltamos mais uma vez àquela caturrice tão própria da adrenalina africana com os santos a perderem a paciência. Por momentos pensei que chegando mais acima poderia até tomar o comboio Xoxolosa, voltar a Johannesburg para evitar remoer ideias do Tocoismo, uma religião de cariz anticolonial - a sua verdadeira pregação nacional.  

Botswana 019.jpg Mas, neste calor intenso foi refrescante olhar aquela grande toalha de água a dar grandeza ao encontro das águas dos rios Shoba e Zambeze. É impensável andar aqui sem uma garrafa de água fresca, ter um caixa térmica com gelo e cerveja para arredondar vontades loucas. Sendo assim, lá terei de me lembrar que a natureza tem como lei a obtenção dos seus fins pelos meios mais económicos; só assim se justifica a erradicação total e absoluta dos resquícios coloniais e da necessidade de tudo voltar a ser, só capim…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:05
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018
PARACUCA . XXVI

MULOLAS DO TEMPO27.11.2018

Johannesburg – A paracuca daqui é uma bolacha dura na forma de pão chamada de RUSK, torrada com açúcar e sem jinguba…

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

Em um fim de dia atípico e antes da grande viagem de 20 de Setembro para ver animais, creio ter sido numa sexta feira dia 14 - já lá vão mais de dois meses, fomos ver as Divas e os Rochers no casino Emperors Palace. Pela organização da igreja metodista, podemos ouvir artistas locais interpretando canções do Elvis Presley, Pink, Elton John, Michael Jackson, Tina Turner e Stevie Wonder, entre outros. Eram cerca de trezentas pessoas sentadas em mesas corridas ou balcões laterais – Nós estávamos em um balcão lateral.

araujo187.jpg Podia ver os comprimentos efusivos entre gente que chegava com vestimentas folgadas, até chapéus, calções à meia cana, gente de todas as cores mas maioritariamente brancos com aspecto de bóheres; gente grande e gorda que se anafavam entre outros já sentados, comendo e bebendo como se estivessem num piquenique. Eles e elas, gente cuzuda com calções avantajados e flanelas tapando as dobras dos pneus das carnes sobressalentes.

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De sapatilhas e roupas muito iguais às dos demais dias, pude apreciar a forma descontraída de sem cerimónia, com riscas e bolinhas a condizer com aquela forma de angariar dinheiro por via do espectáculo que iria decorrer para custear ou auxiliar uma qualquer entidade de apoio social, ou mesmo para o próprio sustento da igreja. Neste ambiente tipicamente sul-africano, também nós íamos bebendo nossas Windhoek lager e ou água com limão.

Botswana 167.jpg Tivemos batata frita, biltong e tostas rijas que nem paracuca que depois se dissolviam nas humidades. Um grande balde com gelo, servia para nele meter todas as bebidas por forma a mantê-la frescas durante o espectáculo. Foram mais de duas horas divertidas; uma boa forma de preencher o tempo que sobrava neste então; esperávamos o dia 20 para, a partir daí darmos a volta a uma áfrica ainda por conhecer.

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Saltando no tempo vejo-me debruçado sobre os funis feitos na terra pela formiga-leão, os nossos conhecidos fuca-fucas de Angola. Pois, assim debruçado no Choba Safari Lodge bem na margem do rio Choba, concertávamos ideias sobre o que fazer e ver nesta parte norte do Botswana. Os alojamentos dos principais módulos, estavam todos ocupados e restou-nos ir para as tendas.

tanzânia II 049.jpg Estas tendas até tinham chave electrónica para nelas entrar, uma coisa de cinema composta por duas camas, mesinhas de cabeceira, uma pequena mesa de centro, uma outra com espelho no topo e ainda outra para guardar malas e coisas menores. Também havia um ventilador e, foi-nos bastante útil porque o calor aqui e de noite, é para fazer de sauna. De noite o tempo arrefece a ponto de termos de nos tapar pelo frio. Na gaveta da comoda havia cinco preservativos. Sukwama! Exclamei - era isto mesmo que me fazia falta.

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Tinha um avançado por cima do sobrado a fazer de varanda com mesa e cadeiras para seis pessoas mas tinhamos de ter cuidado com os babuínos e outros macacos pois que afoitamente nos vinham roubar as coisas do seu agrado. Para fazermos nossos churrascos na churrasqueira brai, tinhamos de estar com um olho na carne e outro nestes caçadores. E, como gostavam de batatas fritas! Até os javalis vinham quase às nossas mãos para comer, embora houvesse avisos no sentido de nada dar aos animais.

tanzânia II 046.jpg E, ao nosso redor surgiam facocheros, macacos babuínos, saguins, bâmbis, capotas e perdizes. Os elefantes faziam-se ouvir por perto. Os kwés-kwés, uns pássaros pretos e grandes lançavam piares agudos ainda o dia não o hera. Também os homens e mulheres e gente que se dispunha a sair cedo, começavam a falar alto e, não tinhamos como não acordar lá pelas cinco e pouco!

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Assim que o sol nascia lá no horizonte o calor começava a ondular o cacimbo; podíamos apreciar isto nas luzernas entre a vegetação alta e empoeirada. Bem do outro lado das bissapas muito cheias de chinguiços podíamos ver a azáfama dos bafanas auxiliares dos carros apetrechados para a áfrica profunda. Desarmavam ferros, juntando-os de forma ordenada na parte inferior do machimbombo-safari.

Botswana 264.jpg Carros com camas, pratos e tudo o que compõe uma cozinha, frangos e carne para assar, maças da cidade do Cabo e feijões do Quénia, vários tipos de pão, café e arcas frigorificas para atulhar isto mais verduras e, do outro lado, ferros de armar suas tendas; grupos de gente que depois tomam assento lá no alto do machimbombo para ver a vida do mato passar. Ao peito dos coletes de zuarte amarelo suave de muitos bolsos, pendiam seus binóculos, suas camaras fotográficas e outos zingarelhos próprios de verdadeiros bazungus…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:16
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
MUJIMBO CX

CICATRIZES DO TEMPO - Mujimbo é boato em kimbundo; diz-se por aí… 23.11.2018

Por

soba0.jpegT´Chingange em Johannesburg

Com fúteis caprichos de escritor avulso, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros recolhendo feitos e lendas do passado. Sim! O futuro de um mundo surreal, tentando compreender melhor a essência dos acontecimentos. Também observo agora, já kota mais-velho, estar num joguete de tantos portais desconhecidos.

Sendo mazombo de Angola na criação e, vivendo entre astucias enganosas e superstições intestinas, falo e penso como se fosse um africano preto na cor, captando como um íman as feitiçarias das memórias feitas tradição. E, é aqui neste hiato que o tempo me leva ao era uma vez, no tempo que não tinha minas nas picadas; a gente ainda andávamos descalços de medo.

luandino1.jpg Vistas as coisas, não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Neste tempo daquele agora, ele, era um guerrilheiro de nome Makongo, amigo de Luandino, cheirava o chão, mata e ar, mas sempre queria se vanguardiar.

Por três vezes o voo da mina, por perto ou por longe, ele se cambalhotava no pó. Se diz que nessas horas ouvia-se sempre o piado do holococo (águia) voando muito alto. Nossos pés xacatavam (arrastavam) ligeiros por trilho aberto na mata ou mesmo picada da roça. Então, foi num dia, o rio calado de poucas águas, foi mesmo lá aonde lhe comeram num jacaré o camarada Vutuka.

cabinda6.jpg Foram eles mesmo que escreveram assim neste livro dos guerrilheiros quando a noite estava de gasalhar uma lua nova, na escuridão. Kimoanga Paka assim sem mais nem porquê falava do seu filho; ele estava comigo assentado em seus calcanhares, a velha carabina ao alto. Atirou uma pedrinha, o rio assustou, parou.

-Kene Vua?  Eu sofro… É assim que Luandino descreve numa mescla de testemunho e ficção, arrastando-nos por uma viagem marcada pelo risco, quebrando a sintaxe convencional, incorporando neologismos com expressões em quimbundo, abismos antigos, passados naquele tempo contemporâneo. Kene Vua o Sem Azar morreu na picada.

CABINDA3.jpg Um dia em Cabinda, numa companhia do M´Puto, num lugar chamado de Miconge, a caveira de Kene Vua, carcomida pelo Kissonde, na beira dum fiote, chamou-me nomes de vergonha: -Tu vais poder nunca lavar tua catinga de geração! Assim mesmo, assustei-me. Ali do meio da mata, perseguindo turras que eram guerrilheiros como eu, do outro lado. Eu, branquela, fiquei cismando do susto.

Recordo que naquele entretanto os kissonde, subiu por mim acima, picando matubas e tudo, foi quando aquela caveira do Kene Vua, pareceu-me de vingança, foi mesmo, piscou-me o olho e ainda se via nele, na caveira, medo de acordar outro medo. Claro que isso assim falado, nenhuma mata ia poder nunca lavar, era mesmo catinga de geração.

kalu1.jpg Kene Vua! Vê!... Posso ver ele levantar-se, feito quizango (feitiço), deu um passo só e tirou no ar flor e folhas num pequeno pau de quimbuma. Esfregou suas mãos, cheirou; mastigou. E cegou meus olhos com sua mão perfumada. Vida de pessoa devia de cheirar bem. Como flor, sempre.

Kene Vua apareceu-me mais tarde em sonho dizendo algo meio arrependido de quando falou na catinga de geração: Tu, também vais ser angolano pela tua participação nos conhecimentos, nasceste debaixo dum cajueiro, plantaste beleza feita espiga de milho debaixo das quifuacassas! Quifacassas!? Nem sei bem o que isso é!...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:55
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018
MU UKULU . VIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.11.2018
A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente, separava os luandenses entre portugueses…
Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil 
A iluminação pública de Loanda, começou por ser com azeite de jinguba no ano de 1839; seguiu-se-lhe o gás até o ano de 1897 e a petróleo até 1900 – fim do século XX; só a partir de 1938 é que a electricidade passa a ser de uso generalizado em edifícios públicos, creio que primeiro com geradores e, em 1948 através da Barragem das Mabubas construída no rio Bengo - data de sua inauguração. Foi a partir da década de 40 que se notou alterações profundas na gestão do território por parte das autoridades de Portugal.
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A entrada em serviço da barragem das Mabubas mudou radicalmente o perfil das actividades económicas nas regiões de Luanda e Dembos. A Luanda nova tem início na década de 40 do século XX, tornando-se num centro de administração e de poder colonial - um processo de transferência da cultura imperial, mudança de suas teses ideológicas, económicas e até culturais.

mabumbas2.jpg Na consequência de um melhor controlo da população, surgem espaços de resistências e autonomias por parte da população local. A pesquisa sobre estes espaços urbanos constituiu como um campo próprio de estudos que, não cabe aqui desenvolver. No ano de 1937 a nova Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Luanda composta por personalidades das várias áreas que administram a cidade, mudam a toponímia alterando nomes e recriando novos espaços.
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Em 1930 as Ingombotas estão inseridas nos limites da cidade mas o Maculusso, ainda se considera musseque. Em 1940 as casas em zinco com quintais com goiabeiras mamoeiros e mangueiras, dão lugar ao moderno Bairro do Café. O Bairro Operário surge como um musseque organizado, mas fora dos limites da cidade de então. As Ingombotas, dentro do perímetro urbano, ainda era habitada por muitas famílias de origem europeia (branca) e africana.

luanda5.jpg Esta cidade de Luanda, que paulatinamente abandona sua escrita com o “o”, é um autentico laboratório em suas transformações sociais. O Maculusso ainda não urbanizado e outros musseques periféricos, apresentam ordenamento caótico de cubatas intercaladas com casas de adobe ou em tijolo cobertas na maioria com zinco. Em alguns quintais surgem a aduelas de barris que até ali serviram para armazenar o vinho chegado do M´Puto.
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Pequenas hortas surgem de permeio com as casas onde se cultivam couves, alfaces e hortelã, tomateiros, goiabeiras, mangueiras e tamarindos para consumo próprio ou para se vender o excedente nas quitandas. Na região das Kipacas, junto à base da falésia, entre esta e o porto, por via de ali existir argila boa, surgem cerâmicas para fabricação de telhas e tijolos com altas chaminés.

cipaios.jpg A chegada em massa dos portugueses nos anos quarenta, por via de uma nova política da Metrópole do M´Puto, na ocupação das colónias, provoca um novo desenho demográfico na cidade com a expulsão da antiga elite crioula das zonas centrais como o Bairro das Ingombotas já mencionado. Por este motivo surge o Bairro Operário originando um cenário com tensões sociais e mesmo raciais que se avolumam no tempo.
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O aumento significativo de portugueses, concorreram com a elite letrada local – crioulos, novos assimilados e os nativos nas várias actividades económicas. Sendo assim, estas alterações com a inerente separação entre uma cidade branca e uma cidade negra e periférica, originaram lados opostos. Era já latente nesta contestação uma restea de emancipação encoberta ou sob reptícia.

luis50.jpg A discriminação racial era regulamentada pelo Estatuto do Indigenato de 1926, que, legalmente separava os luandenses entre portugueses, assimilados e indígenas. Este estatuto fora criado como uma forma de organizar o trabalho dos nativos, mas também como um instrumento paramilitar. 
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O estatuto de cidadão legal e civilizado, tinha sido instituído durante a República entre os anos de 1910 e 1921 retirando aos crioulos indígenas esse estatuto; uma iniciativa bem difícil de ser vencida, para um qualquer se tornar em um assimilado. A própria organização social metropolitana instalada em Luanda, criava entraves da elite letrada nativa a cargos administrativos.

luua12.jpg Havia temor de rebaixamento dos europeus em face dos nativos. É mais ou menos por estas alturas que surgem referências a documentos oficiais chamando aos brancos naturais de Angola como sendo brancos de segunda. Em verdade nunca vi isto num papel oficial mas, prefiro deixar isto no campo do provável…

Nota: Tomar em conta, ser este texto como um complemento ao livro de Mu Ukulu ressalvando situações sociais naquela Luanda de então… 
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:55
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
MUXOXO . LII

NAS FRINCHAS DO TEMPO – No quotidiano do M´Puto - 19.11.2018

Por

soba0.jpeg T´Chingange . Em Johannesburg

Estávamos no pico do Verão. O Kit entrou de mansinho na cozinha; a porta estava aberta e sua dose de felino fez-lhe valer suas qualidades. Entrou com o vento para arejar a casa que o calor estoirava nos 28 graus à sombra. Kit é um gato rafeiro de cor amarela e preta a dividir seu focinho frontal, uma rara espécie.

Surgiu e, foi surgindo e tomando a necessária confiança sem contudo deixar de soprar a curta distância. Deve ter nascido no quintal do vizinho, um antigo bóher saído do sul de Angola que adquiriu também a nacionalidade alemã. Não obstante, não sendo meu o gato, este e mais 3 irmãos, com miar de fome, vinham em surdina comer os restos de comida granulada do cão.

faisca0.jpg E, porque assim foi, nos dias que se seguiram servi-os do granulado que sobraram por via da morte do cão Faísca. Eu explico: meu cãopiloto morreu de velho e após espumar babas, de nada valeu ir ao veterinário e, assim magro de coisa ruim e comendo papas pela mão, não resistiu.

Pois então, no início eram quatro gatos mas, no decorrer do tempo e, talvez porque se aninhavam em outos quintais, ficaram só dois, o Kit e o Karson; foi assim que os baptizei! Dormem entre as plantas e, as assadas de peixe ou carne que lhes abrem o apetite. O Kit é bem mais bonito que o Karson; este último é cinzento às riscas pretas, cor vulgar em tantos outros.

von4.jpg Depois de alguns dias a chamá-los de meus bichanos com carinho, ao invés de miarem ou ladrar por via da comida, só sopram. Foi aquele malvado Kit que roubou um pedaço de presunto de cima da mesa redonda bem no topo da cozinha. Eu, eu estava no computador de saída para a marquise quando me pareceu ouvir um barulho estranho mas, atribuí ao vento.

von5.jpg Talvez um pau de vassoura que caiu, pensei. Meu naco de presunto, foi-se! É provável que tenha em outras investidas levado peixe ou carne mas, só dei conta disto neste acontecido. Pois por via disto e, com este já longo texto faço chamar a atenção ao Deputado da Assembleia, representante do PAN, que deve ultimar um esboço de decreto para que os senhores gatos se disciplinem.

Com tantos ratos correndo pelos muros dos quintais, que mau costume este, roubar o sustento alheio. Embora não tenha dado o meu voto a esse tal de PAN, não há como não fazer reparo em ser molestado por via de seus protegidos. Crie no mínimo um asilo para estes, fazendo posturas ou regulamentos a salvaguardar a sobrevivência destes e, já agora criar brigadas da morte para recolher os muitos cadáveres de cães e gatos que surgem mortos nas estradas de Portugal.

von1.jpg Pelo sim pelo não, meu lado humanista diz que irei alimentando estes dois felinos Kit e Karsom com granulado de cão até que ladrem. Quanto ao cãopiloto recordo que ainda novo tinha uma raiva de morte ao Meu vizinho, Barão Vermelho Von Richthofen, neto do tal herói da primeira grande guerra por ter na percursora da Luftwaffe morto um número elevado de inimigos. Só digo isto porque Faísca tinha comportamento antinazi, pois ladrava aos aviões e também ao vizinho.

Ele o Manfred Albrecht Freiherr Von Richthofen, surgia das nuvens num avião de duas asas a metralhar o inimigo da RAF e outros da coligação aliada. Recordo-me de ver no cinema estas batalhas do ar e dum tal Barão que se sobressaia com um lenço vermelho ao pescoço – era o avô deste; na carlinga, muitos traços pintados a representar os aviões por ele abatidos.

von2.jpg Este seu neto, também tinha vindo de uma roça algures no centro do planalto angolano. Tinha o porte de um ariano; todo ele era um homem grande e sempre amável falava comigo regularmente. Ainda o estou a ver dando um toque ao seu monóculo do qual pendia um baraço preto; Spínola usava também um artefacto destes, talvez para envaidecer sua figura mas, este meu vizinho era até extremamente simples. Actualmente a sua garagem que antes tinha um avião pintado no largo portão, já só tem uma única cor. O tempo, sempre tira o brilho às coisas.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:51
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
MU UKULU – VII
MU UKULU...Luanda do Antigamente16.11.2018
Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

Os dias de feiras especiais no mercado da Quitanda e arrabaldes que se estendiam pelo largo da alfândega, eram gritados pelo burgo por pregoeiros que circundavam pelo burgo, um ordenamento caótico, cubatas intercaladas com casas de adobe ou de tijolo cobertas com zinco e quindas erguidas com aduelas de barris; pequenas hortas de permeio com couves, tomateiros, alfaces e hortelã em cercas protectoras de chinguiços e debaixo de mangueiras.

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O pregoeiro com voz sonante de leiloeiro subia à cidade Alta a dar conhecimento de novas remessas chegadas do M´Puto, tais como iroses de escabeche, sardinha em sal moura, favas ou vinho generoso da Galafura, pois era por ali que se concentravam as famílias de posse e, assim percorria seu circuito de passagem pelo Observatório Meteorológico João Capelo, descendo aos Coqueiros pela calçada dos Enforcados.

Mu Ukulu14.jpg E, chegada a ocasião, já depois do Pelourinho fazia uma paragem técnica para estimular a voz com aguardente de Monchique, repetindo já de forma murcha os pregões de saldo até chegar à Quitanda das mutambas. Ali se vendiam fazendas de algodão de tecidos coloridos mais sarja ou linho de cor branca. Até os ricos ociosos que iam para ali encher o dia, metiam conversa com os caixeiros, peritos em contar anedotas vestidas com calções de brim.

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Naquele lugar das mutambas, até os próprios vadios desempregados faziam cera, aparentando estar cumprindo diligências de prontidão. Já era escuro quando este laborioso cantador de saldos chegava ao Largo Bressane Leite, e por ali ficava algum tempo cheirando a acidez das frutas iluminadas pelo candeeiro de praça e, à luz de óleo de jinguba.

Mu Ukulu13.jpg Naquele outro dia apregoado, viam-se deslizar pela Quitanda imponentes e monstruosos abdómens, capitalistas decerto à procura de chouriços e presuntos seguidos por monangambas, mocambos sem alforria para levar os embrulhos; cabeças escarlates tapadas a chapéu de cortiça, gotejando suor por debaixo das orelhas, bocas com bigodes dilatados e retorcidos e, distribuindo mesuras com falas mansas às damas que cobertas de cambraia e rendados os olhavam de soslaio.

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Tendo esta visão numa varanda larga e sem forro no testo do tempo, deixo ver as ripas e os caibros que sustentam as telhas, a sociedade num assim com uma bela vista sobre a Baía de são Paulo de Loanda com um aspecto mais ou menos tropical. Pitoresco e de calor húmido, como se tudo fosse um amplo quintal; longo e muito cheio de tamarindos, mamoeiros e pitangueiras. Um lugar de preguiça, diga-se; ao fundo uma máquina de costura Wilson, uma das primeiríssimas em meu uso na costura do tempo.

Mu Ukulu12.jpg Desta varanda posso ver as Portas do Mar da Luua e cheirar catinga na segunda metade do século XIX. Ficam em frente à Alfândega, uma zona com gente a correr de manhã à noite; um porto de embarque de escravos - um local histórico aonde podia acontecer toda e qualquer revolta. Quando embarcava, “o escravo não sabia para onde ia - ia para o Kalunga”. O infinito feito mar iemanjá, como se fala em Angola e Brasil. Pois! Havia ali, revoltas e suicídios.

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O palácio de Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, a negreira, chegou a ter um quintalão em frente à escadaria. Por ali passaram milhares de escravos. Eles saíam dali directamente para o embarque nas Portas do Mar, com destino à Kalunga. Os cálculos da Atlantic Slave Trade dizem que entre 1501 e 1866, aproximadamente, 5,7 milhões de escravos saíram dos portos de áfrica para as américas.

Mu Ukulu11.jpg Angola, foi uma das grandes fontes emissoras de comércio de escravos desde o século XV até o terceiro quarto do século XIX. No domingo de 13 de Maio de 1888, dia comemorativo do nascimento de D. João VI, foi assinada por sua bisneta Dona Isabel, e Rodrigo Augusto da Silva a lei que aboliu a escravatura no Brasil. Só neste então é que Porto Galinhas do Brasil deixou de receber oficialmente escravos idos de áfrica. Mas, havia fugas ao regulamentado. Ainda por alguns anos e até fins do século XIX chegavam peças humanas de contrabando.

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No Brasil, os pregoeiros iam às roças anunciar que tinham chegado galinhas ao porto. Era uma forma de enganar as autoridades do reino perpetuando a venda de gente. E, é por este motivo que Porto Galinhas, um lugar de veraneio brasileiro é assim chamado. Dona Isabel sancionou a Lei Áurea, na sua terceira e última regência, estando o Imperador D. Pedro II em viagem ao exterior, às três horas da tarde do dia 13 de maio de 1888.

dia141.jpg O Brasil foi o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravatura. O último país do mundo a abolir a escravidão foi a Mauritânia, somente a 9 de Novembro de 1981, pelo decreto n.º 81.234 - Há somente 37 anos. Seis anos depois da independência de Angola a 11 de Novembro.

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Quanto valia um escravo? Não se sabe ao certo, mas diz-se que o preço era feito de acordo com os negociantes. Quem vendia? “Os comandantes militarem, negociantes negreiros como a Dona Ana, administradores, o próprio governador, que tinha tropas e a própria igreja.” Em 1846, o Brasil conseguiu o 1º orçamento super da gestão do Império. É a partir destes dados oficiais que podemos tirar alguma conclusão.

rio11.jpg Nessa época, uma saca de café era comprada por 12 mil-réis e um escravo comum era cotado a 350 mil-réis. Portanto um escravo valia em média entre vinte a trinta sacas de café. Os escravos que eram hábeis em carpintaria, fundição maquinista etc., valiam 715 mil-réis - o dobro. E, porque Loanda de então era uma cidade esclavagista, muito do negócio corria com essa dinâmica o que, levou muitos sectores da sociedade a dizer no após abolição da escravatura: “Vamos viver do quê, se não produzimos nada?”

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:33
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
MU UKULU – VI
MU UKULU... Luanda do Antigamente 15.11.2018
Os Talatonas por ordem dos padres e outros negreiros, geriam os cipaios no comércio dos escravos… Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à alfândega da Luua (Loanda)
Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Johannesburg

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

No período de 24 de Agosto de 1641 a 15 de Agosto de 1648, o então forte de S. Miguel, conhecido antes por S. Paulo, em mãos dos Mafulos, passa definitivamente nesta data para a Coroa Portuguesa com a tomada pela expedição vinda do Rio de Janeiro sob o comando de Benevides. Em 1650, o comandante desta expedição Salvador Correia de Sá e Benevides nomeado Governador, é nesta função que apresenta ao Concelho Ultramarino os novos planos de fortificação de Loanda.

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O Fort Aardenburgh, assim chamado pelos holandeses, passa a ter o nome de Forte de S. Miguel e sofre algumas remodelações pela mão do engenheiro francês Pedro Pelike, nomeado por Benevides, que com ele tinha vindo. Era na cidade baixa que se centrava o comércio, lugar aonde no ano de 1770 foi edificada a alfândega. Em 1755 foi construído um grande edifício quadrangular com uma praça ao centro, uma grande cisterna, o quartel do Esquadrão de Cavalaria e a igreja que veio a ser Sé, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

luis11.jpg Neste então surgiram passeios públicos a unir a Praça do Pelourinho com a praça e mercado denominados de Quitanda Pequena ligando com a extensa praia de meia milha de extensão e, ladeada de casas nobres. O principal mercado de Loanda a que se chamou Quitanda Grande ou simplesmente Quitanda, foi construído em 1818 por ordem do Vice-almirante Feo e Torres.

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Para defesa da cidade de Loanda são mandadas fazer três fortalezas e dois fortes. São elas a Fortaleza de S. Miguel, a fortaleza de S. Pedro da Barra e a Fortaleza de S. Francisco do Penedo bem no meio da baía e, para defender a entrada das embarcações. As estações ou cacimbas públicas eram fornecidas com a água das Maiangas do Rei, conduzidas em carros das Obras Públicas.

ana2.jpg Posso aqui, transladar-me para a cidade de S. Luís do Maranhão do Brasil para descrever bem à maneira de Aluísio de Azevedo e naqueles anos findos do século XIX (1870) o que se passava no seio da cidade de Loanda. Não seria muito diferente descrever o que se passava na Calçada dos Enforcados ou no Largo do Pelourinho, Coqueiros, Ingombotas ou Maculusso após a construção do cemitério público do Alto das Cruzes.

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Os escravos eram guardados por cipaios e talatonas ao serviço de padres e negreiros em currais ou cercas na área das Ingombotas, esperando pelo embarque para o chamado Novo Mundo. No Kinaxixe era frequente aparecerem leões e onças para beberem ou darem caça a manadas de antílopes… Pode tentar ver-se a quitandeira, balaio na cabeça, rebolando os grossos quadris trémulos e também as tetas opulentas; o quitandeiro cochilando sua preguiça morrinhenta.

luis20.jpg Também os caixeiros vestidos de caqui ou sarja com manchas de suor nos sovacos. Os correctores de escravos examinando à plena luz do sol, os negros que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhe com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos.

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Corria um quente e grosseiro zunzum de feira nas Portas do Mar em frete à Alfândega. Pela Igreja do Carmo passaram milhares de escravos, muitos vindos do interior. A relação da Igreja Católica com a escravatura era comercial; “a Igreja também precisava de escravos para permutar - em toda a parte, houve esta ligação fatal. O próprio Vaticano queria fazer evangelização utilizando os escravos, como cristãos - era um dos meios”.

zem4.jpg Loanda era uma cidade esclavagista. A Igreja do Carmo construída no século XVII, foi um dos lugares marcantes da Rota da Escravatura. Após o abandono da moeda antiga o n´zimbo, começaram a usar uma moeda viva - os homens. Havia ali um quintalão de escravos - era a reserva ou o “banco central. Estas peças humanas eram trocadas por outros produtos necessários ao clero - um exemplo da articulação da Igreja com o tráfico de escravos que sempre tentam amenizar.

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Dona Ana Joaquina dos Santos Silva (1788-1859), mulata de Luanda, bisneta por linha paterna de uma negra forra, foi uma das maiores escravocratas da Angola do século XIX. Era uma mulher poderosa em Luanda, filha de um português e de uma angolana. Conseguiu construir um palácio à altura dos meios de um estado, podendo assim ver-se a potência financeira que ela tinha. O enorme edifício que hoje funciona como o Tribunal Provincial de Luanda, bem na baixa da cidade, substituiu aquele palácio original.
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:51
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
MU UKULU – V

MU UKULU...Luanda do Antigamente14.11.2018

O tempo dos Mafulos ou Holandeses… Os Talatonas geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus…

Por

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Brasil

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

Esta companhia sediada em AmsterdãoCompanhia Holandesa das Índias Ocidentais afirma-se aqui em N´Gola com alguma dificuldade”. Por decisão do conselho de administração constituído por 19 membros, nomeiam em 1637 Johann Moritz Von Nassau-Siegen governador das possessões holandesas no nordeste brasileiro.

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Este Von Nassau tinha a concessão de monopólio de comércio no Caribe e da América do Norte, para o tráfico de escravos dirigidos ao Brasil. Tudo isto para diminuir a competição espanhola e portuguesa. Tempos bem conturbados, sem uma ONU, sem UNICEF e sem Tribunal Internacional! Cada país decidia de sua livre vontade o que lhe aprouvesse! Com o objectivo de participar directamente do tráfico negreiro, Nassau, o governador de Pernambuco com sede em Olinda, decidiu em maio de 1641, enviar uma expedição para ocupar Loanda, principal porto de escravos da África Ocidental para o Brasil.

ÁFRICA1.jpg Era evidente que queriam a seguir, conquistar Benguela, São Tomé e Axim da Guiné e outros entrepostos comerciais de origem lusa, deixados um pouco ao acaso pela administração espanhola. As fortalezas e presídios de Muxima, Massangano e Cambambe, foram marcos político-militares na conquista do reino do N´Gola, e sua perpetuação, consolidando assim a civilização portuguesa; tudo à custa de muita abnegação, diga-se!

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Inglaterra e Holanda pretendiam assenhorar-se do mundo retaliando os Espanhóis e logicamente Portugal com suas possessões em África, entretanto nas mãos dos Filipes I, II e III e, por sessenta anos, a partir de 1580. Foi assim e, a partir de Olinda no Brasil, que tudo foi fomentado na tomada de São Paulo da Assunção de Loanda pois que, era para ali que ia o grande fluxo de escravos idos da costa angolana para fazer andar as culturas e engenhos do assucar.

albuq1.jpg É ali, no Brasil, que tudo começa nesta relação de holandeses com a N´Gola de então. A história não pode ser relegada agora para um outro plano porque e, nesta sequência, sem a natureza, não haveria seres humanos; sem florestas e fitoplâncton, organismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética, não haveria ar suficiente para respirar.

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E, se não houvesse fungos, não haveria antibióticos; se isto não tivesse sucedido com os Tugas, a Angola de hoje seria bem diferente e muito pior do que a maior parte dos países africanos. As cidades e civilização, só existem porque temos disponíveis culturas selectivas que nos dão frutos, caules e sementes comestíveis. Portugueses e até Holandeses fazem parte deste caldo aonde ficaram raízes de alambamento ou umbigamento.

VanDun2.jpg As relações entre Portugueses e Jagas dos Dembos, Kissama, Manhanga e Matamba são parte integrante duma cultura. Uma grande novidade era o uso de sapatos feitos em couro de tiras entrelaçadas e, que mereceu atenção especial por parte dos camondongos, caluandas alforriados que assim passaram a proteger seus gretados pés. Descortinar isto, é como  abrir hoje, uma loja virtual.

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E, é aqui que Balthasar Van Dun, oficial da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas entra na chama do passado. Sabe-se que quando o almirante holandês da Companhia das Índias Ocidentais tomou Luanda, os portugueses fugiram todos para Massangano, e por ali permaneceram durante a ocupação, até à chegada do luso-brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides, que reconquistou a Fortaleza de S. Miguel, na baía de Luanda em 1648.

luis01.jpg Originalmente, a construção desta Fortaleza tinha para além da defesa de naus ancoradas na baía, também em vista a defesa das redes comerciais de mercadorias tais como cera, peles, dentes de marfim, pedras preciosas mas, e especialmente da venda de escravos às Américas, como posto avançado na garantia do porto de Muxima e, presídio de Massangano, que a monarquia portuguesa utilizava como local de degredo.

VanDun.jpg Alguns dos degredados que estiveram presos por algum tempo, destacaram-se mais tarde como cidadãos de carreira, uns como funcionários do reino e outros como comerciantes. A luta pela independência do Brasil saiu-lhes pelo cano com as estrias invertidas. O Van Dun Mafulo, já depois da tomada de Loanda por Benevides, ficou por ali mantendo uma função dupla, a de militar e a de negociador de escravos com os descendentes de N´Gola Kilwanje.

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Quis a estória que nessa missão dupla e de também negociador com os portugueses, ficar por ali com uma prole de filhos mazombos e pardos. Os negócios sempre suplantam as políticas e, eis que eram os próprios portugueses que vendiam escravos a este inimigo holandês de origem, um súbdito de Maurício de Nassau. Pois acreditem ou não a actual ministra da Justiça de Portugal, Francisca Van Dunem desde 26 de Novembro, vem desta prole de gente.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:46
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Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
MUJIMBO CIX

CICATRIZES DO TEMPO

- Mujimbo é boato em kimbundo; diz-se por aí… 13.11.2018

kimbo 0.jpgAs escolhas do Kimbo – Por T´Chingange em Johannesburg

Esta crónica vai dedicada ao Brasil porque é de lá, a notícia. Baseada no artigo do Alerta Total – Por Carlos Henrique Abrão

O tempo não conta; a verdade é sempre actual! Serenados os ânimo, desfeitas as paixões com baixa na temperatura, o que temos de balanço eleitoral recente. Em primeiro lugar partidos, partidos ao meio, cidadania repartida, uma sociedade em crise e um mar de lama ditado pela corrupção, falta de ética e moralidade com a coisa pública.

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Mas não é só; muita abstenção, votos nulos e brancos - o mais grave resultado da falta de conexão entre o eleitor e os governantes indicando ser necessária uma profunda reforma. Sim! Deverá vir e, sem tardar. Ela já começou com a nova escolha de presidente, é óbvio mediante o voto mas, deve avançar e ser feita com racionalidade e acima de tudo espírito de verdade.

brasil2.jpgA realidade foi marcante. Nunca tantos coronéis perderam voto e nunca se viu na história do Brasil a transformação da noite para o dia em candidatos que jamais disputaram eleições sendo desconhecidos dos eleitores. O que significa dizer um cansaço do modelo e a péssima realidade em se preservar a qualidade de político profissional.

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As movimentações em busca do voto não são simples mas, se há nuvens carregadas e cinzentas no céu também há estrelas novas, governadores jovens e aqueles que aceitaram o desafio de bem servir à população. Municípios deficitários, estados quebrados e União centralizadora, um modelo federativo a ser reconstruído na dinâmica de um enxugamento do Estado.

bra5.jpg Ter 5 mil comunas, e 27 estados – Terá de haver um corte profundo nisto. Passar a ter 3 mil cidades e apenas 15 estados, fazendo uma fusão e uma revolução reduzindo despesas e aumentando a eficiência do Estado. O balanço demonstra que os 3 partidos responsáveis pelo caos perderam suas capacidades de se reorganizar…

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Falando do PT, MDB, e PSDB, rachados, quebrados e defenestrados pelo voto, agora principalmente nesse novo amanhã, será bom reduzir-se os partidos à capacidade de 6; se disserem que é pouco, dir-se-á que não, porque os americanos há séculos se sustentam em 2 partidos vivendo com rodízio entre seus candidatos. E, que assim chegam ao cargo de presidente.

roxo123.jpg Ao financiamento de campanha nada impede que sejam feitos por particulares e empresas desde que limitados ao percentual desejável e nunca se transformar em caixa DOIS, criando uma entidade, a qual se encarregaria de fiscalizar as transferências e apurar crimes. O dinheiro púbico não pode ser sorvido pelos políticos e os serviços públicos ficarem à míngua de bom atendimento. Continuemos assim a revolucionar o Brasil pelo silêncio pela força do voto e ainda na luta da sociedade indefesa.

matrindindi1.jpg É pouco? Sim, é... Mas trata-se dum começo promissor para o Brasil sair do fundo do poço e marchar com suas próprias pernas; acabar a divisão entre rico e pobre, negro e branco, índio e mulato e toda a diferença que desune. Afinal de contas, Brasil é um só povo, e a divulgação dos evangelhos faz toda a simbiose - a Igreja Católica se não defendeu mais o PT, boa parte dela silenciou mas, acreditamos que se arrependeu de embranquecer a esquerda irresponsável, gordurosa e criminosa em um Brasil que se quer digno e civilizado.

Com adendas de T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:47
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO – XCIX

TEMPO COM CINZAS - 12.11.2018

Vim à procura do futuro, imaginando a energia e a força de quem recomeça, e acabei por recuar no tempo….

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

INHASSORO 111.jpg Passados que são 53 dias recordo o ontem que foi nosso 52º e último na “Odisseia das Potholes – Haja paciência” por África, com 9700 quilómetros andados e abrangendo sete países passados por fonteiras terrestes a saber: África do Sul, Botswana, Zimbabwé, Zâmbia, Tanzânia, Malawi e Moçambique.

victória falls 027.jpg Sucede pois que, calhou também ser ontem o mesmo 11 de Novembro comemorado em Luanda com festividades oficiais e condecorações! Resmungando, embebendo fatias de pão torrado na xícara de café com leite ou bolacha Maria, as horas rendiam-se dia após dia como sentimentos mudos. Por vezes era o pequeno-almoço com bacon, ovos, batatas fritas e chouriço tipo bóher com pão torrado.

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Vagabundeava largas distâncias com grandes desesperos a ladrar-me por dentro olhando em frente o asfalto ora rachado ora esburacado e dos lados as bissapas agressivamente queimadas pelo sol; nada de antílopes a saltarem como imaginávamos existir, nem tampouco rolas, perdizes ou capotas. Será que comeram tudo? Era a pergunta a que ninguém encontrava resposta.

victória falls 032.jpg Eramos todos, para além do melhor condutor de África umas preguiças à boleia pela chamada pura África e, como quem cumpre uma formalidade inútil e aborrecida, relembro o onze de Novembro de Angola que só hoje tomei conhecimento ter sido um dia de fartas recordações! Nem me lembro de em tal falar pois que, a vontade de nada dizer subsistia-me. Foi um acto que simplesmente desaconteceu!

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E, não falei, nem falarei, porque ainda ando a remoer humilhação de um amor ultrajado que comigo, mais tantos pais, mães e tantos filhos viram através de suas lágrimas num nascimento de novos dias forçados, novos meses e anos. Agora lembram com pompa, escrúpulos de sangue. Enfim! Coisas passadas e, não esquecidas.

Tombo1.jpg Com o tempo a maioria aceitou a reviravolta que a política provocou em suas, nossas vidas. Muitos perceberam que não valia a pena viverem revoltados e até fizeram por esquecer; muitas vezes, recordam que a guerra não tem só um lado e que nós estávamos em lado nenhum – Simplesmente, não tinhamos lado… É aqui que começa o busílis de que já tantos falaram, falam e continuam…

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Ainda sinto um ligeiro tremor de raiva a arrepiar-me as carnes, o cérebro, quando me lembro daquele polícia de fronteira, impecavelmente preto, impecavelmente vestido, impecavelmente sóbrio e com divisas de chefe reluzentes, que ali naquela fronteira de Bozwé, entrada de Moçambique só aceitavam dólares; uma terra em que o dinheiro tem o nome de Meticais. Por seis horas e sentados num muro de pedra ao acaso, tivemos de esperar pelo visto que iria de Tete.

IMG_20170720_125720_BURST010.jpg Assim, de braços moles, de mãos frouxas, pescoço bambo quase abotoado ao estomago, crepitando febres, olhava um desconsolo como coisa nunca vista. Hoje, já em Johannesburg, ando a tomar chá rooibos misturado com borututu para defumar as raivas mal contidas. Sim! Para me curtir das cólicas. Ontem, até dei comigo a examinar quinquilharias de artesanato, assim minuciosamente como se nunca as tivesse visto. Agora, lá terei de inventar lendas para neles, me improvisar airosamente.

O Soba T´Chingange     



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:57
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018
MOAMBA . XXIII

NA NUDEZ DA VIDA – Komatipoorte (África do Sul) - 08.11.2018

- Não há forças que destruam as lendas com fusos – Superstições antigas do Big Ben…

Por

soba15.jpgT´Chingange - Em Komatipoort - África do Sul

Bem cedo fui até ao Komati River, afluente do Crocodile river e, logo ao chegar, vi dois grandes jacarés a tomarem banhos de sol do outro lado, em uma ilha, bem ao lado aonde ontem Dy Vissapa pescava sentado em uma raiz de uma grande acácia, ali mesmo ao lado. Acabou por pescar um peixe tigre que mais tarde comi depois do brai-churrasco de carne de lamb e beef de boi.

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Em verdade, não foi um grande pitéu, tinha muitas espinhas, o gosto não era igual ao peixe do mar e até me pareceu ter um ligeiro sabor a lodo; não fosse o jindungo de Moçambique e o sabor seria parecido com o do catato também conhecido por mopane. Foi quando me lembrei que uns anos atrás, ido de Johannesburg levei um quilo desta lagarta comestível para meu grande amigo, o Zeca Mamoeiro da Maianga, um kamba desde os longínquos anos de candengue…

crocodile river2.JPG Consultando meu baú de lembranças amarelecidas no tempo, tive de capiangar a mukanda do kussunguila Vasco Antunes dirigida ao comum amigo Zeca poeta com o título de Janela Aberta. Ai.iu.é... É verdade! O Zeca ficou feito estátua, agarrado ao mamoeiro lá num jardim da Travessa João Seca da Maianga! Espreitava a garina m´boa filha da Tia Mariquinhas...

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Assim lendo a dita cuja, desconsegui continuar a cena do Komati River. Dizia assim: - Quero deixar-vos tranquilos meus kambas - Andei este Sábado pelo Marítimo da Ilha mas, ainda dei uma saltada ao Kussunguila. A noite tropical puxou por mim até clarear. Resolvi por lá ficar, a areia da praia no S. Jorge que é a melhor cama que um indígena como eu pode almejar. E tem sonho que vem nessa hora das cinco da manhã…

crocodile river3.jpg O marulhar das águas, as estrelas miríades no céu, a noite que passou, o dia que está a chegar, a vida toda que sei vai esperar por mim. Eu posso atrasar o relógio o tempo que eu quiser. Ué, digo eu: - esse kazumbi deve ser do mestre Sambo! Tentei isso num entretanto passado com meu Tissot, rodei o ponteiro para trás e, num repentemente fui parar entalado nas rodas dentadas do relógio no rio Tamisa, o Big Ben.

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Há coisas que parecem mentiras mas, aqui no Komati recordo que naquele então, no ano de sua inauguração a 31 de Maio de 1859, aflitinho da silva, tive de mergulhar de uma altura de 96 metros em voo de trotinete planadora. Estavam a instalar este zingarelho no Palácio de Westminster durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Obras Públicas do Reino Unido….

crocodile river 4.jpg Nesse então, u T´Chingange, recebi aplausos de muita gente e na presença do Sir Benjamim Hall fui condecorado por um dos arquitectos que o concebeu. Tinha o nome de Charles Barry e, foi assim que vi quanto perigo corremos quando desaparafusamos a mente na marcha-à-ré! Mas assim lá no fuso zero ainda recordo ser aquilo feito ao estilo Neogótico. Passados anos deparo-me estando na Luua revendo meus kambas a apanhar mabanga prá pesca na praia do Bispo.

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E falavam, gritavam com pulos chapinhados naquela água morna da Chicala: - Vamos ainda, barona companheira dos pezinhos quentes… Na água, que o sol já nos torrou vermelho, tem lá marisco e cervejinha fresca para terminar este bendito Domingo. Se Domingo é santo, então é do sô Santo lá na Vila Alice ou na Maianga do Zeca e do Tonito.

vasco0.jpgzeca00.jpg - Vamos apanhar o Buggy do Vasco Antunes, cor de camarão. Vamos falar mujimbo às nossas mães, vamos contar outros mambos para elas não desconfiarem. Aquela da tia Mariquinha, tá lembrada? Tia Mariquinhas teve um nené mas os pessoa estava a ficar desconfiado, pois.

cronicas mano corvo2.jpg  O marido dela tinha perna de pau e os menino, nasceu com perna verdadeira. Pópilas! Ou aquela, daquele nosso amigo da Maianga, o Zeca. Sabe, esse mesmo O Zeca que não desceu do mamoeiro, está esperando que eles madurem - Kamba diame Muxima, Tza ´kidila - Kiene! Kuia bué!

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:16
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018
XICULULU . XCVIII

ODISSEIA DAS POTHOLES - 07.11.2018

Afinal não é verdade o que apregoa o político Africano… "eles prometeram-nos o paraíso e dão-nos o inferno a dobrar", disse um jovem africano em Lisboa nos anos 78-80 num programa da RTP. 

Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Komati River de Komatipoort

Há mais africanos hoje na Europa do que Europeus em África! Alguns até são brancos… Porquê? "HOJE até a Bíblia nos tiraram, e as terras continuam a não pertencer ao povo" - sintetizou Morgan T´Chavingirai, descrevendo a desgraçada e extrema penúria do povo zimbabwano, respondendo ao guia imortal ainda vivo, que diz ter ressuscitado mais vezes que o próprio Jesus Cristo.

Zimbabwé 001.jpg Zimbabwé que, no período citado por Bob Mugabe, era o celeiro de África, o povo era detentor de um dos mais elevados IDH do continente. Por exemplo, em Angola, quando por vezes, nas datas históricas, oiço e vejo pela TV indivíduos a mencionarem o que o 'colono nos fazia', sinceramente não sei se, choro de raiva ou se me mate de 'risada' …

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"Porque o que o colono fazia… blá-blá-blá", dizem eles - hoje faz-se o pior! O colono, se fez, quase que o desculpo: era ou foi colono, é branco, não é meu irmão de raça, etc.; agora quando o meu irmão Angolano, preto como eu, ex-companheiro da miséria e das ruas da amargura, faz o que denodadamente repudiávamos do colono – esta acção dói muitíssimo mais do que a acção anterior, dilacera e mutila impiedosamente a alma.

kuvale2.jpg Por isso, logo após as independências africanas, e depois do êxodo dos brancos a abandonarem (África), verificou-se um segundo êxodo: seguindo os outrora colonos, milhões de africanos abandonaram também a sua África, com angústia na alma e os olhos arrebitados de descrença; a maioria, arriscando literalmente as suas vidas (e, o filme continua até aos nossos dias).

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Porque se chegou à conclusão que afinal não é verdade o que apregoa o político africano; "eles prometeram-nos o paraíso e dão-nos o inferno a dobrar", disse um jovem africano em Lisboa nos anos 78-80 num programa da RTP. Há mais africanos hoje na Europa do que Europeus em África! Porquê? Estamos a 30 de Outubro de 2018, em Vilanculos de Moçambique podendo vivenciar o que atrás é referido, um retrocesso evidente na qualidade de vida para a grande maioria do povo…

tanzânia II 060.jpg ELEFANTES NO CHOBA - BOTSWANA

No África Tropical de Inhambane posso conferenciar com a osga amiga que se passeia no tecto para lá da fechada malha de rede anti mosquito. Meio recostado na cama, leio o livro de Eduardo Agualusa e, releio aquele episódio duma mulher ambiciosa e ambicionada: “Ela despiu o corpo como se fosse um vestido, guardando-o num armário e, agora passeia-se pelo mundo com a alma nua”. Ela era uma professora que ensinava ética…

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Pude ver neste porém a osga a virar-se e assolapar-se no reposteiro a ouvir comodamente minha descrição. Sabes papoila, foi este o nome que lhe dei, que me veio ao pensamento – Ando de terra em terra, por áfrica, revendo sombras do passado e sonhos alheios com formas de bichos com cornos retorcidos mas, há momentos fui até à praça da revolução ou da independência; pude até sentar-me no canhão de outras guerras, canhões que os Tugas deixaram apontando a baia e, tendo do outo lado a vila de Maxixe…

INHASSORO 096.jpg TÁXI-BICICLETA DO MALAWI

No topo da alameda de Inhambane e bem à beira da marginal fixei-me na figura de Samora Machel, uma estátua com o dobro de sua real altura, apontando ao ocidente bem ao jeito de Lenine, talvez com aquela cartilha vermelha de ditar leis que ainda rolam e enrolam como bactérias o cerebelo de muita gente. Entre tanta coisa observada pude recordar àquela osga o quanto aquela terra era forte e que tal como aquela mulher professora de ética, também se despiu ficando agora com a alma nua!

etosha1.jpg  Quanta gente também naquele ano de 1975, se despiu de vontade ficando também com a sua alma nua! Ela, a osga engasgou-se de tanto rir; por momentos até pensei que gozava comigo - já quase pronto a atirar um chinelo à sua figura, parei quando ela retorquiu: - Não quero falar desse tempo; durante muitos anos fui professora de estória num centro de recuperação de mutilados e, posso afiançar-te que um homem, ao longo do tempo, ao longo de sua vida, muda muitas vezes de corpo - brancos ou pretos! Frisou piscando-me seu olho vesgo.

INHASSORO 298.jpgHIPOPOTAMOS NO NVUU  LODGE - MALAWI

 Não viste tu, na praça da Revolução o próprio Samora, saudando o vento como um puro Lenine a saudar seu povo? Pópilas, esta osga fala – é inteligente! E continuou: não existe nada de semelhante entre uma larva e uma borboleta e, no entanto há sempre uma larva no passado de cada borboleta!  Pois é, por vezes parece ser bom abandonar o corpo inteiro e trocá-lo por outro. Tenho visto muito disto, sabes! Disse eu. Num repente estava a falar com um jacaré gordo empoleirado no reposteiro. Há coisas tão verdadeiras que até perecem mentiras.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:47
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Domingo, 4 de Novembro de 2018
XICULULU . XCVII

Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo…"O cabrito come o capim só do sítio onde está amarrado"  – 04-11.2018

Por

soba15.jpgT´Chingange – Em Moçambique (Bilene)

Estávamos a 28 de Setembro de 2018. Em África e sempre rumo ao Norte, de safari Lodge em safari Lodge, e desde o Choba no Botswana, às margens do rio com o mesmo nome, chegamos a Vitória Falls - quedas do Rio Zambeze e, à boleia do Comandante Vissapa... Também aqui em áfrica, como diz a sombra esquerda de Saramago, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó.

INHASSORO 218.jpg É uma superfície oblíqua e ondulante, dependente da memória de cada qual, da saudade das capotas a atravessar a estrada às centenas mais os olongos a dar saltos por cima dos carros. O sol, o ar, a água, e a terra, têm de ser considerados permanentemente parte de nós. O sol é a verdadeira fonte da vida e, ao invés do que alguns conceituados doutorados dizem, ele não é prejudicial.

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Não é o sol que provoca o câncer de pele mas sim os muitos venenos que ingerimos. A terra é um laboratório de vida porque purifica, regenera e dá energia. Andamos a lavar nossas almas, a entender o nunca visto e até ouvir o inimaginável. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções com arrelias, tendo entre outros males o medo como um veneno que num qualquer jeito, terá de suportar as crises cíclicas ou as provocadas pelos homens.

INHASSORO 064.jpg Sendo hoje domingo, 4 de Novembro, aqui estou sentado defronte desta magnifica manhã e, tendo um mar bonito da praia do Bilene do Distrito de Gaza, recordando o ontem recente para não me fugir da memória, falando também com a osga que sempre me olha inchando o papo e, salpicando falas na forma de estalos como se fosse de origem khoisan.

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E, se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque, nem sempre é necessária a culpa para se ficar culpado e, embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não ter tempo para nos olhar de frente. E, foi hoje que visitamos a casa museu de Eduardo Ruiz com uma mulemba radiante mesmo em frente do seu Complexo Palmeiras. Uma amabilidade na forma de gente que fez o favor de nos esclarecer sobre o problema que áfrica atravessa de momento. Também ele quer vender seu Complexo por dois milhões, tendo o banco calculado seu património em oito milhões. Tudo tem um porquê!

INHASSORO 169.jpg Teremos por isso de nos fixarmos na fé, sem aquela inquietude de nos afligirmos com o próximo, ou ficar nesse estranho silêncio, uma forma de ver o princípio do nada, ouvir desaforos e, esperando as mudanças no tempo para os ressecar... Ao longo da costa e, a partir da Cidade da Beira para Sul, vimos lugares bem bonitos, empreendimentos maioritariamente propriedade de Sul-africanos quase às moscas, sub-aproveitados e, em sua maior parte com ar decadente ou simplesmente vetados ao abando.

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Adaptando-nos ao luto do preto, podemos ver que parece também ser branco. A moeda do Zimbabwé é o dólar americano! Emitiram uma moeda assim tipo fotocópia, com o mesmo valor mas só de fingir pois que só é válida aqui. Não tem qualquer silhueta de gente – só 3 pedras encavalitadas… As notícias da Internet vão dizendo que o país está empenhado com os chineses e que estes a qualquer momento, irão tomar conta de algo para recuperar o empréstimo. Também tivemos de comprar gasolina em tambor de plástico porque as bombas não tinham...

INHASSORO 193.jpg  A China emprestou bilhões ao Djibouti, que não conseguiu pagar, por via disso a China confiscou o porto nacional como garantia de pagamento. Também fez um empréstimo às Maldivas e esta não lhes conseguiu pagar; por isso mais de 38% das estâncias turísticas que eram pertença do estado, agora pertencem à China.

INHASSORO 352.jpg O Quénia viu 70% dos seus recursos minerais, minas passarem para controle Chinês, porque foram incapazes de pagar a dívida. E, estando aqui em Moçambique será legítimo perguntar o que acontecerá senão pagarem a divida bilionária à China? Por tudo o que vi, quase posso apostar que África vai passar para os chinocas – É só uma questão de tempo…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:19
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Sábado, 3 de Novembro de 2018
XICULULU . CXVI

Na minha frente tenho dois tocos de charutos meio fumados aonde se pode ler “connectu” - 28-10-2018

São pertença do “bife-gringo” que veio até áfrica caçar um búfalo…

Por

tonito16.jpgT´Chingange – Em Inhassoro de Moçambique

Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo… O homem, feito de sobrancelha grande e grave, também gordo, deve ser dono dos petróleos lá nas terras do Alasca porque do que se soube, foi aos mesmos lugares que nós fomos, só que, de avião! Pode notar-se, serem desses tais ricos pra xuxú pois que andam aos saltos folgando-se das odisseias das fronteiras e dos milhões de buracos das estradas.

INHASSORO 385.jpg Delta do Okavango em Maun, Casane do Choba, Victoria Falls e agora, aqui pescando nos mares de Inhassoro em rápidos gasolinas. Estando aqui refastelado, parece ser tudo seu e, afinal, é um turista como nós só que se supõe ter guita - têm um casal de jovens sul-africanos aqui radicados para lhe fazerem a papinha, traduzir dissabores com grossos trocados de notas verdes.

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Hoje é ainda quinta-feira e estamos no Yellowlin Lodge; sairemos amanhã para Vilanculo e aí, talvez possamos ir de barco até à ilha de Bazaruto ou uma outra que ao largo da costa aguarda a chegada de corsários turistas; daqui podem ver-se os morros carecas da ilha de Santa Catarina com manchas verdes em suas encostas e vales.

INHASSORO 381.jpg Ibib está preparando os três quilos de mexilhões que comprei a um conhecido de Sebastião, o fiel depositário e guarda-mor dos bungalows dum patrão sul-africano. Há certos lugares que traduzem certos pensares nos quais nem a decadência é sincera, lugares em que as folhas viram sujeira e até se traduzem num cardápio de bizarras esculturas pintadas no lado menos positivo – é só um estado de espírito…

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Também os mwangolés brancos de angola, t´chinderes perdidos numa ficção de sonhos de conhecimento na diáspora, se vão transferindo com devaneios ou arrogância, num raiar de petulante envaidecimento; a falar é que muitas vezes nos desentendemos e, nem sempre me sinto destribalizado no humor que sempre, quando negro, me arranha os neurónios, assim como um buzio que sempre tem cheiro de sapato se não for bem lavado com água sanitária. 

INHASSORO 388.jpg Deitado de barriga virada ao tecto a osga gorda estuda-me com seus olhos oblíquos. Acena por várias vezes, parece cuspir qualquer coisa e depois refugia-se no escuro ficando a espreitar entre a esteira do tecto e o pau avermelhado da asna tecto de capim. Ainda não eram horas de dormir mas estava relaxando ainda do almoço feito de chocos e mexilhões apanhados entre Inhassoro e o matope da lagoa.

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Não sei nem porquê, aquela osga era-me familiar porque, num repentemente dei-me conta de que só ela sabia alguma coisa da minha origem. Sim! Quase percebi, chamar-me de Niassalês – sentia-me reduzido a um ponto de interrogação; acho mesmo que aquela gorda osga via pessoas que mais ninguém via ou conseguiria ver. Nesta questão de instantes o tempo murchou-me a vontade de entender se o pior era eu não suportar o balanço das potholes ou as quezílias de gémeos.

INHASSORO 378.jpg Dos longos silêncios remoídos na sustentação das mentiras ou verdades sobre africanos, sua terra e sua origem, gente sem nenhures; como entender tudo numa longínqua aridez de secura, um investimento de leveza desocupada, fazendo nada ou parecendo nada fazer. E assim ia ficando meio anestesiado, ficando osga com jeito de pessoa que mais ninguém conseguia vislumbrar…

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Foi então que vi um sujeito mulatão de nome comum de Zé Manel, meio a dar para indiano, um meio monhê a viver de expedientes na cidade do Chimoio; com colares de missangas penduradas ao pescoço e um cofió colorido – enfim, um mwadié fantasiado de africano a repetir-me: - Só quem anda por gosto, não descansa! Isto, foi quando me queixei com azedume dos muitos buracos.

INHASSORO 393.jpg Vissapa - o comandante, ainda lhe disse que era angolano de gema, que edecéteras e tal e, até lhe mostrou o bilhete de identidade. Era um branco, sim senhor mas genuinamente africano! Ele, filho dum acaso mal feito, torceu seu nariz achatado, deu uma baforada com rolos de índio no ar no bar K.2 do senhor Couto. Filosoficamente disse que aqui em áfrica tudo é de todos, menos dos brancos. E, assim, engolindo desaforos ficávamos num nada, feitos genéricos. Menos mal que eu só era mesmo – sou Niassalês…

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O filho da mãe, negociante de diligências, vendedor de picos de acácia, pelos vistos não podia conceber um índio sem uma zarabatana na mão! Virou-se para Vissapa e disse assim como cuspindo vinagre feito bolinha de visgo: - Tu, branco, quereres ser africano!? Isso é uma tua miragem, meu! Eram horas de bazar, nossas mulheres esperavam-nos no Bidjou Vermelho de Chimoio; ali mesmo ao lado da linha do caminho-de-ferro. Já em casa, de papo para o tecto pisco o olho àquela gorda osga…

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:20
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
A CHUVA E O BOM TEMPO . XCVII

NAS FRINCHAS DO TEMPO16.10.2018

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Monkey Bay do Malawi

O lago é uma surpresa para todos. Uma imensa extensão de água doce a banhar Moçambique, Malawi e Tanzânia. Por terra, andamos vendo um deslumbrante espelho de água até chegar aqui a Monkey Bay na parte Sul do Lago e no lugar de alcon cottage, um lodge de um indiano com piscina e árvores frondosas com o nome de Juliette. Sereno, selvagem, tranquilo, invade-nos com uma misteriosa paz e invulgar quietude.

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Da superfície das águas elevam-se nuvens em espiral de transportar kiandas do kalunga. Um mistério que vai alimentar muitas conversas, originar escritos de sonhos com danças de boas vindas ao Niassa! E em Sitima de Nkhotakota, uma casa feita de assombro e restos dum barco encalhado com o nome do capitão Steve, um barco que parece ter andado por aqui em tempos de segunda guerra mundial; são as fantasias de Vissapa que recordam estas coisas escondidas em seus sonhos.  Almoçamos na sala do capitão mas este, não apareceu naquela forma de olho tapado e perna de pau…

Niassa1.jpg Andamos de sítio em sítio sem vermos o tal de “Ilala Boat “ que dizem andar pelo lago tendo no 1º andar os turistas bazungus carregado de máquinas e binóculos e edecéteras com canivetes de Mack Guiver com mais de dez aplicações e um colete com bolsos secretos para guardas shillings, dólares, randes ou kwachas; no andar inferior os que vivem nas margens do Niassa e que tem de transportar galinhas, mandioca e peixe seco t´chissipa.

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Um barco que sempre nos traz à memória "A Curva do Rio" de V.S. Naipaul e também do Peter Pan… A divisão das fronteiras tem coisas surpreendidas; daqui não se avista a costa do Moçambique - o lago parece ter mais de 80 quilómetros de largura. Falam de uma ilha de nome Likoma terra de kiandas sábias que curam mazelas fazendo trepanação com seus dedos muitos dedos mas nós, só pensamos por agora ir à ilha de Bazaruto em frente a Inhassoro já na costa do Oceano Indico.

niassa4.jpg Antes disso teremos de esperar os carimbos nos passaportes – vistos de saída e de entrada para alimentar o sofrimento da burocracia com papel avondo. Mas, a paisagem com imbondeiros esmaga estes problemas formais. Algures ao luar e, na areia aqui junto ao lago ouviremos do outro lado da enseada rumores do canto do Niassa, um grupo de miúdos que junto à fogueira soltam a voz mas nós daqui só podemos ouvir. Já os vimos passar em carrinhas de caixa aberta cantando seus domingos de Pentecostes e aleluias de Cristo de Salima.

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Este grande lago africano está localizado no Vale do Rift, com uma orientação norte-sul, o lago tem 560 km de comprimento, 80 km de largura máxima e uma profundidade máxima de 700 m. Os estudiosos, dizem ter sido a origem da junção de uma grande ilha separada de áfrica que aqui se juntou originando os grandes lagos do centro de áfrica. Tem uma área estimada de 31 mil quilómetros quadrados, dos quais 6 400 são território moçambicano.

niassa2.jpg Na língua chinyanja (ou chinhanja), falada na orla moçambicana do lago, Niassa significa "lago", tal como o próprio nome do povo que usa aquela língua, os Nyanjas, significa povo do lago. Em chichewa, uma das línguas do Malawi, a palavra malawi significa o nascer do sol, visto que, estando a ocidente do lago, é dessa forma que os malawianos vêem nascer o dia, sobre o lago.

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É um lago único no mundo por formar uma província biogeográfica específica, com cerca de 400 espécies de ciclídeas descritas endémicas. O nível da água varia com as estações do ano e tem ainda um ciclo de longa duração, com os níveis mais altos em anos recentes, desde que existem registos.

niassa3.jpg Vamos em seguida em direcção ao Parque Nacional do Lago Malawi, abrangendo a extremidade sul do lago, uma dúzia de ilhas, uma região de reserva florestal e uma zona aquática até 100 m da costa que foi inscrito pela UNESCO em 1984 na lista dos locais que são Património da Humanidade.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:05
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
XICULULU . CXIV

– BOOKTIQUE DO LIVRO – IV19.09.2018

O Adão e a Eva eram africanos! Disse a minha empregada Mary de Kampala… Também disse: - Leão que ruge muito, não caça nada…

Xicululu: Mau-olhado

Por

soba0.jpeg T´Chingange Em Johannesburg

Ainda não eram seis horas e a minha empregada Mary de Kampala já andava pela casa saracoteando afazeres nos preparos do matabicho. Cheirava-me a mutton do rynfield, um grande mercado que tem várias qualidades de boerewors. Desfrisei meus parcos cabelos com os papudos dedos e, foi quando reparei, ter as unhas demasiado grandes; como crescem, aqui no altiplanalto de África!? Por agora afaguei minhas sobrancelhas que esbarravam contra a lente dos óculos; lá tive de as limpar da gordura com o pensamento no alicate para as cortar.

araujo179.jpg Estes pelos grossos e brancos cada vez se parecem mais com os de Álvaro Cunhal. E eu que sempre eu o via na televisão do M´Puto sempre reparava naqueles entrelaçados arames quilométricos que saíam dos olhos de abutre; e estas condiziam até com os pelos longos a sair das narinas como pinceis. Não é que agora também me sucede este pormenor e, quando noto isso corro para o banheiro apetrechado dum especial alicate que até arame ou linha de pesca corta.

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Levantei-me e frente ao espelho aparei-me destas estranhezas lavando também o alçado principal da minha t´xipala. O cheiro do café santa clara trazido do Brasil, espalhava seu aroma bom pela casa. Já afeitado e aromatizado com meu preferido perfume aramis seguia meu roteiro da manhã; sempre acontece tomar em primeiro lugar um café para lubrificar as mucosas e micoses do meu istmo da felicidade. 

pombinho3.jpg Enquanto isso, olho da varanda as xiricuatas que apanham fagulhas e raspas de comida na grama meio ressequida! Quando os jindungueiros pintam seus frutos de vermelho, são as primeiras consumidoras. De regresso ao quarto e antes de trincar o boerewors de mutton apanho do chão um amarrotado papel; entro no quarto meu e de Ibib, minha cara-metade e, já sentado na cama ainda por fazer, desdobro o papel das conta do rynfield supermarket.

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Pude ver num esboço, uma escrita misturada com contas de somar e subtrair. Por vezes também faço isto para ver quanto gastei em Euros mas este não sendo meu, agudizou-me a curiosidade pois que mencionava uma conta de números altos em randes e xilins; bom! Se não era um gatafunho meu, só poderia ser de Mary e, dai, ainda mais curioso fiquei. Dizia assim: “ O dinheiro que ganhei com meus patrões bazungus está a crescer como um caroço de manga caído no chão do mato do Uganda”

ROXO166.jpg Fiquei assim meio brutefeito com isto, pois que os bazungus só poderiam ser eu e a Ibib. Nem sabia bem o que era isso de bazungu mas, porque nem sempre sou tolo, achei que era relacionado com muzungu que quer dizer branco em língua xhosa; Não sei como é mas os negroas daqui todos se entendem e falam línguas com nomes raros de maxangana, isixhosa, isiZulu, seSotho usando cliques como fonemas da língua bantu,  características dos khoisans.

araujo181.jpg Aquela frase de “em breve a minha vida estará cheia de mangas” apoquentou o meu mukifo do cerebelo. E, porque razão Mary, escrevia isto? Talvez para preencher o tempo e não se esquecer de isto referir em suas conversas com seu boy friend de Kampala. Só pode! Mas havia mais referências. “ Meus patrões muzungus com a minha comida, já defecam como as cegonhas de Campala… Ué…como pode?! Defecam caganitas mal cheirosas como aquelas cegonhas do Uganda!? 

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Escondi o esboço amarrotado no livro do Mu Ukulu e, de calções e flanela dos bafanas do n´Zinpeto, fui tomar o meu breakfast com o tal café de Santa Clara mais o mutton de fazer caganitas de cabra ugandesa, o maizpap ( papa de milho), afadigando-me em nada dizer do que  li no papel – contas de Mary e edecéteras de mulungu. Bom dia patrão! Bom dia Mary, respondi na maior das quietudes. Foi quando reparei nas mangas de cores gulosas encavalitadas cuidadosamente numa grande fruteira de vidro!

massau4.jpg Foi neste então que bebendo de novo aquele café à mistura com leite do dia e aquele milhipap ou maizpap, perguntei: - Mary, lá no Uganda há muitos turistas como nós à busca de leões, fazendo safari? Assim como nós, que gostamos de ouvir os leões a rugirem? Haka patrão! No Uganda tem bué de bazungus assim como vocês carregados de bikuatas. Fica esperto T´chindere, afinal, bazungu era mesmo o que pensava ser: Branco a fazer visita ao mato – fazer safari!

pombinho2.jpg Mas, a gente de Kampala não vai em safaris patrão; só mesmo os bazungus que gostam mais dos animais do que as pessoas!   Gostam de leões, de crocodilos, springboks e até das cobras! N´Zambi me livre, só mesmo de pensar já estou de arrepiada. Eu não gosto, diz Mary e, continua com suas falas: tornei-me até muito amiga das cabras que dão leite de beber, porque só gostava mesmo do meu namorado que as guardava. Pois! Disse eu, aquele bafana para quem tu tanto falas ao telefone…

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Mas, os bazungus velhos assim como o patrão e, seu amigo Reis das Vissapas com seus carros de tracção às quatro rodas, vestidos com roupas muito cheias de bolsos que parecem soldados antigos expedicionários, e com o equipamento de combate pendurados, binóculos, máquinas de vídeo, celulares, bengalas e garrafas de água. Ué, como é então? Eu sou assim mesmo? Ela, nada disse, só mesmo oscilou os braços e fez um muxoxo a comprovar ser verdade com um sorriso de quem canta victória.

tonito16.jpg Patrão (só faltou dizer muzungu) nós no Uganda não temos kitar de xelin, dinheiro para bafunfar férias como os europeus; só mesmo fazendo companhia aos muzungus para limpar as cagadelas dos brais (assadas de churrasco). Agora entendi essa do cagar como as cegonhas ugandesas. Pois! Pelos vistos ela não conhece mais nada para além de Campala. Para terminar disse-lhe: - Um dia vais ter dinheiro para ver os leões! Haka! – Para quê patrão; Leão que ruge muito não apanha caça! Tudo ficou assim; eles são imprevisíveis, tambulakonta – disse-me assim mesmo e, baixinho…   

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:33
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
CAZUMBI . LIII

TEMPOS DE ESPERA - Johannesburg – (16.09.2018 dia do apagão) - 18.09.2018

- Nos intervalos da vida, durmo! - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios…

Por

soba0.jpegT´Chingange

A chaleira fumega por cima do fogão eléctrico. O sol entra pela janela da kitchenette que liga à sala aonde estou sentado, melhor, afundado numa poltrona cuja tábua deve ter fundeado no acostamento de matacos de um quilómetro quadrado. Aqui há muita gente gorda e o melhor mesmo é nem repararmos porque, senão os contratempos surgem de soslaio vindos dum desconhecido lugar cheio de biltong, boerewors e coldrinks de cocacola…

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Os vapores do meu chá trazido do M´Puto serpenteiam até ao tecto de pinho em desenhos enrolados e fazendo uma cortina com raios digitalizados. Trata-se de uma velha cura legada pelo meu tio avó de nome Guerra e composto de barbas de milho, pés de cereja e ipé-roxo, também conhecido como pau de arco.

CAPOTA1.jpg Num espaço etéreo de virtual roxismo, o fumo enlaça visões de índios sioux, astecas ou apaches. O termo roxismo derivada de Roxo, o nome de uma senhora que pinta seus sonhos no computador metendo as pestanas verdes fazendo de óculos e, com madeixas de cabelo ruivos como se todos fossemos assim, uma forma espantada de arco-íris a condizer com a ideia de que efectivamente, somos uma ilusão.

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Hoje mesmo, vou-me ensinando a ser gente tomando aqui e acolá, por onde calha, o saber dos mais sábios para ficar esperto. Nem sempre homem, nem sempre jovem, já mais velho, nos intervalos, aprendo a aprender a ser grande graças a esta aguda perspectiva de também ver e ler as coisas da frente para trás e tal como o camaleão, ter um olho aqui e outro mais longe para poder fazer selfies de mim mesmo, bem ao jeito de Picasso.

ROXO134.jpg Esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos e dos fúteis caprichos duma vida cheia de gente, uma multidão que grita, que gasta o que não tem simulando normalidades e carregando um vazio dentro de si. Sim! Neste mato de capim tombado pelo vento tiro aqui e ali umas fotos sem pau de selfie tendo como companhia aqueles cheiros e sabores do boerewors, uma salsicha fresca tradicional da culinária da África do Sul.

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E, porque estou aqui, averiguo o saber na deriva dos vocábulos boere e wors, oriundos do africânder, significando respectivamente "agricultor" e "salsicha". Vi-me na foto do meu android e fiz-me gaifonas vendo as rugas enquadradas num diferente tempo, nem sempre alegre, nem sempre triste. Naquele chá pus umas três gotas de canábis para encurtar pesadelos e restituir-me a lucides, enfim, para equilibrar meu físico e mantê-lo ligado aos espirito.

boer carro5.jpg Aqui há plantas de canábis-liamba pelos jardins e o comércio de sementes é livre. Há pouco deitei água numa situada na varanda e, que aparenta ir morrer se o esquecimento não lhe der água. Neste compasso de espera a fim de rumar ao tal de Kariba, embarque em M´bibizi, um lago no meio dum altiplanalto, sonho que parto para outro e, mais outro e outro lugar, sem encontrar o meu poiso certo, juntando a praia, o rio, o deserto e tudo o resto; uma impossibilidade. Iremos juntos na companha de Vissapa para o calor do Limpopo, rever os baobás ou árvore garrafa que nas nossas angústias, tem o nome de imbondeiro…

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Ontem comi frango frito esfarelado com arroz integral e aquecido no forno e, para variar, gelado com amarula. Comi biltong de kudu, de boi ou vaca e olongo, e bebi suco de goiaba e massala de Moçambique. Percorro assim um caminho com gente chegando e partindo dizendo good morning mesmo sem muito mais dizer, sem muito mais saber; missangas de vida com malas atafulhadas de coisas: coisas que podem ser úteis tais como o canivete, a lanterna junto com as cuecas e, os cremes de amaciar as peles mais o pincel de amaciar as carunchosas unhas …

boer carro6.jpg Fui ao computador ocupar o tempo, li poemas, reli baladas e muitas tretas de fazer caretas; ouvi cantigas, li desaforos, coisas choradas, lamuriadas, cânticos gospel humedecidos, vídeos foleiros, alguns brejeiros e fui à China comer baratas, grilos e gafanhotos. E, eis que num dado momento o écran do maldito computer surge a perguntar-me se este senhor “sou eu”? Estou feito ao bife – de novo!

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Outra vez! Sempre sucede isso quando mudo de continente e telefone. Acho que ando demasiado vigiado; deve haver um anjo da guarda que me persegue mas, em qualquer momento falha sua visão e entro nos cadafalsos da penumbra. Estou assim a pensar como irei restituir-me. Lá terei de largar isto e fazer meu brai com o boerewors com carne de bovino e especiarias, sementes de coentro torradas, pimenta preta, noz-moscada e cravinho. Depois disto veio um vazio, estavam a estudar meu problema pois que mandaram o código de seis números para um telefone que nem era meu embora tivesse o mesmo nome. Creio que era um bafana muzungu destas lonjuras e eu, esperei dois dias soprando ventanias.

bra2.jpg Com este  elevado teor de gordura, estou feito ao mataco  de afundear sofás e lá tenho de o conservar com sal e vinagre na forma enrolada numa espiral contínua. Estou a falar da salsicha bóher que após ser temperada no invólucro comestível e já torriscada no brai, é servida com pap, uma papa de milho típica daqui - África do Sul. No calor do tempo queimo cansaços, fracassos vazios, decepções e até solidões, com Windhoek premium lager! Obrigado a mim, a ti e a tu também (o ti é um, o tu é um outro)…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:06
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MOAMBA – XXII

NAS FRINCHAS DO TEMPO – 18.09.2018

FAVELAS “Townships” na África do Sul ... Porque cada homem é um mundo, tem que ao tempo, dar-se tempo

Por

soba0.jpeg T´Chingange 2017 em Cape Town  - 2018 em Johannesburg

Este artigo já foi publicado em 14 de Setembro em Kizomba do FB deste ano de 2018 mas, por qualquer motivo que só os matrindindes podem saber, o assunto evaporou-se! Para que fique definitivamente no meu baú Niassalês, é agora publicado aqui no Kimbo de Lagoa Blogue com ligeiras alterações na redacção…  

fantasma0.jpg O aqui descrito remonta ao ano de 2017 quando desbravando áfrica, sucedeu dum inesperado desejo de rever musseques ou favelas aqui designadas de townshipes. Há alguma diferença entre as três designações mas, a pobreza, indigência e sobrevivência é seu denominador comum. A poucos quilómetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships” sul-africanas, como já referi. Elas cresceram de maneira desproporcionada após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências.

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Nem mesmo o final do regime de segregação racial, em 1994, foi capaz de melhorar a situação para centenas de milhares de pessoas que vivem em townships actualmente na Cidade do Cabo. Há diferentes tipos de townships; algumas misturam raças e outras reúnem apenas tribos específicas. Em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos, funcionários despedidos bóhers e outros marginalizados no tempo pela acção afirmativa do ANC – dar primazia de trabalho aos negros.

favela6.jpg A Cidade do Cabo possui o maior símbolo do regime, a prisão de segurança máxima Robben Island. Lá Nelson Mandela e outras centenas de líderes políticos negros ficaram isolados da população por décadas em uma ilha. Hoje a prisão virou símbolo de liberdade e ponto turístico da cidade, enquanto as townships caíram no esquecimento e ainda convivem com o fantasma do Apartheid.

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Com a miséria, nem os olhos ou o cérebro das ovelhas escapam da panela; assim me foi dado observar. Pelo menos quatro vezes por semana, o sul-africano Lele M´Binda ajuda a superar o preconceito entre negros e brancos. Nascido na township de Langa, em Cape Flats, território da tribo Xhosa, Lelé, como é chamado, encontrou uma forma de ganhar dinheiro ao atrair turistas e estudantes brancos para conhecer a township onde foi criado.

favelas8.jpg O destino é recomendado apenas para quem quer enxergar um outro lado da cidade. E, interessados não faltam; Lelé está em contacto com as melhores escolas de inglês e agências de turismo de Cape Town, já que Langa é uma das poucas townships consideradas pacíficas e ele a conhece como ninguém. Ele, é um dos poucos em sua turma que conseguiram escapar da violência; faz questão de ressaltar isso logo no início da visita enquanto dirige sua carrinha (VAN ou comby). Na descida, fica impossível caminhar quando crianças nos cercam e imploram por dinheiro. Lelé diz para não darmos esmola, que isso só atrapalha; é uma realidade que nós de fala lusófona, bem conhecemos. Vamos em frente!

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A primeira parada é em uma tradicional casa de cultura Xhosa, onde se é recebido com uma animada música local. O lugar parece importante, pois já recebeu a visita de Bill Clinton; por isso, ali surge colgada na parede, uma enorme ilustração do VIP-americano. Aprendemos, entre outras coisas, que Xhosa é a segunda língua mais falada na África do Sul, apenas atrás do Zulu. O artesanato local é curioso e interessante - os preços chegam a ser picantes, mas é difícil sair de lá sem querer ajudar um pessoal pé-de-chinelo sem lhes dar uns jindungos.

favela a.sul1.jpg Entre becos obscuros, leva-nos a um minúsculo quarto, onde vivem cerca de três famílias. Durante o dia ninguém fica por lá, pois não há espaço para todos. À noite todos se espremem para dormir. “Cerca de trinta pessoas moram aqui” - Lelé traduz as palavras de uma senhora aparentemente triste e cansada, que estava gentilmente no local para nos receber. Com os sentimentos um pouco confusos, vamos em direcção ao próximo programa - degustação de uma cerveja artesanal local. Lelé deve ter incluído isso na visita “townshipica”, pois sabe que estudantes e turistas gostam de cerveja.

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Passamos por uma série de rituais que inclui descascar e comer uma semente, antes de experimentar a loira gelada, que na verdade é morena e quente! Um grande balde da bebida é compartilhado por todos e, o sabor é de uma cerveja fraca, quase sem álcool, nada comparado à Skol do Brasil, Sagres do M´Puto ou Cuca de Angola. Enfim, um mijo de burro ligeiramente graduado com álcool. É praticamente no meio da rua que acontece o momento mais desafiador do passeio. Em um fogão improvisado sobre latões de lixo, simpáticas cozinheiras começam a preparar o “Smiley”, prato típico da culinária de uma township. Aqui tudo parece improvisado mas nada é de estranhar para um cidadão do Mundo, o próprio Niassalês de nome T´Chingange

favela5.jpg O improviso consiste em comer tudo o que a cabeça de uma ovelha proporciona, desde cérebro, olhos e língua. Um pequeno pedaço da bochecha foi o suficiente e, para falar a verdade, até que ela possui um gosto satisfatório. Já de volta à VAN e um pouco traumatizados com a cena das ovelhas mortas, somos levados à última parada, o bar M´zoli’s, na vizinha township de Gugulethu. É neste território Zulu, onde também funciona uma churrascaria, que a cultura de uma township pode ser mostrada para os quatro cantos do mundo. Brancos, negros, mulatos e “pessoas de todas as tribos”, misturam-se em uma grande festa com música ao vivo tradicional com cerveja barata. Um forró Xhosa ou um baile arraial de mastro do M´puto!

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O território é livre e o clima de coexistência com paz prevalece, aparentemente! Nos dias que correm nota-se uma tensão por via de desmandos e ataques com mortes violentas em fazendas - farmes, propriedade de brancos maioritariamente bóheres. Nota-se muita apreensão à qual eu dou veracidade por já ter passado por uma merda de política a que chamaram de descolonização exemplar. Isto é África!

IMG_20170720_115617.jpg Aqui, Talvez seja um dos poucos lugares na Cidade do Cabo aonde brancos, negros e mulatos convivem em condições igualitárias. Tudo aparenta em ninguém ser melhor do que outro alguém e todos se compartilham em estórias. Depois de muito churrasco de carneiro, cerveja e outros aperitivos locais, saímos com a certeza, já ao anoitecer, de que o sol também brilha em uma township. Na anterior publicação que não sei como se escafedeu nos labirintos plutónicos do Facebook dois amigos próximos da Kizomba, referiram não gostar de circos e em verdade não irei dizer que gostei, porque para o ser em realidade, só faltaram domadores de chicote e mansos leões que rugem em karaoke Xhosa …  

Vou dizer mais o quê! Amanhã será outro dia...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:32
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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018
XICULULU . CXIII

BOOKTIQUE DO LIVRO – III17.09.2018

No Muquitixe da Munenga vi as estrias duma kalax bem à frente dos olhos… Patrão, o seu azar mesmo… o seu azar, foi ser branco! 

Xicululu: Mau-olhado

Por

soba0.jpeg T´ChingangeEm Johannesburg

A minha empregada Mary de Kampala empanturrou-me com um prato feito com jinguba guisado em lume brando, com pimentos da guiné konacry, gengibre e mandioca fibrosa que no Nordeste Brasileiro se chama de macaxeira; também juntou inhame. É um prato tão cheio, tão forte que me fez peidar que nem um trombone de varas, um pouco diferente do som originário da feijoada tuga ou da cachupa de Cabo Verde que por vezes mais parece um clarinete desafinado.

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Ruídos periclitantes e, um tudo-nada diferentes dos de Kampala, que cheiram a penas de galinha-capota, depois de escaldadas em água quente. Os condimentos para aquela muamba de Kampala, encontram-se em toda a parte; aqui lugar de Benoni de Johannesburg, em Lisboa ou Londres pois que a globalidade está cheia de africanos, indianos monhês e chinocas.

valdir5.jpg Observo tudo isto para onde quer que vá, mesmo que não me mergulhe nos metropolitanos, mantendo os olhos em baixo, a fim de rever os gestos menos amistosos. Assim enrugado num branco muzungu, ando pelas picadas aéreas, e terrestres, caminhando meu esqueleto pelas streets do mundo porque minha vida e, desde 1975, é uma estória de partidas e chegadas. Agora é áfrica!

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Por onde quer que ande, minhas prateleiras ficam muito cheias de livros, lápis e canetas de riscar com cores várias; as cortinas são agora de um branco rendado vindo de Hong Kong que combinam com outras pretas e sobrepostas para contrastar e amenizar a intensa luminosidade. Aqui neste altiplanalto de áfrica, o céu fica todo azul, o sol escalda gretando a pele porque o vento sopra frio e seco.

telemoveis0.jpg Nos próximos dias o possível vai desafiar o inimaginável e de cócoras, lá terei de me embrenhar na tenda, estender o colchão de amaciar as costeletas tomando o cuidado devido para que os macacos abusadores da selva e outras bichezas que irão pulular nos arrabaldes do Choba ou um outro lugar como Maum no Delta do Okavango, no Botswana, lugar cujo dinheiro tem o nome de PULA. Vou colocar à frente da tenda de lona minha cadeira de cineasta com um buraco no espaldar direito.

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Naquele buraco meterei um copo longo cheio de água tónica e gim para afastar os mosquitos; eles não gostam de quinino pelo que lá terei de usar medicinas do tempo de kaparandanda usadas nos lugares em que os brancos morriam sem cura, febres palúdicas dos mosquitos de Novo Redondo, Dombe Grande ou Kaluquembe. Já comprei umas quantas espirais verdes feitas de bosta de boi para espantar os pernas-longas da tenda ou bungalow, rondável ou o que nos sirva de muquifo…  

valdir4.jpg Haverá sempre por aqui e ali, um cheiro a frango morno ou de um rump stake de quadrupede para me fazer esquecer o plácido e organizado frio mundo das europas aonde o agora sempre é deprimido com muitas palavras de código benevolente, noticias repetidas até à exaustão e mostrando vagas de emigrantes famintos. Gente sem passaporte, sem eira nem beira levados por corsários que só falam com estalinhos, indício de algo ruim para acontecer!

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No M´Puto, talvez não precisasse de ouvir essas patranhas, essas verdades e essas mentiras, pedaços de telenovelas tristes, toneladas de solenidade e rebentamentos de guerra que põem o coração a dar murros no peito. Ao som nem sempre cordial dos anúncios da televisão juntam-se os cheiros de refogados com arroz de tomate com jaquinzinhos, como calores de aquecedores a provocar fungos nos cantos da nossa paciência.  

alema11.jpg Não sei se você que me lê, já encontrou sua maneira de ser generoso o quanto baste; acho até que se o quiser, não lhe faltarão oportunidades para o demonstrar. Posto isto, espero que Deus se surpreenda comigo e até me mande um recado pelo Watsap ou o e-mail usando uma das senhas que miraculosamente resgatei do espaço de Plutão um antigo planeta que já não existe tal como o esquecimento que me contemplou no pedido da senha através do Facebook…  

papalagui11.jpg E, afinal, quando lhes convêm, eles os ilegais emigrantes dizem-nos que o Adão e a Eva eram africanos. Falam assim porque foi no Vale do Rift que surgiu o primeiro homem e a primeira mulher de nome Luzia. A minha empregada do Uganda, também o confirma: - Adaemus e Eva pertenciam-nos! Cumcamano, ando a perder massa muscular no meu cerebelo!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:20
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Sábado, 15 de Setembro de 2018
MU UKULU – IV

MU UKULU...Luanda do Antigamente – 15.09.2018

O tempo dos Mafulos ou Holandeses… Os Talatonas geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus…

Por

macuta com soba.jpgT´Chingange – Em Johannsburg

luis49.jpgLuís Martins Soares – No Brasil

A Vila de Loanda foi fundada a 25 de Janeiro de 1576 pelo capitão Tuga chamado de Paulo Dias de Novaes após ter desembarcado na baia de Loanda com cerca de 700 homens (soldados, padres e almocreves). Em 1576 manda construir a igreja de são Sebastião na fortaleza aonde agora se encontra o museu das Forças Armadas Angolanas. Antes da chegada dos Tugas, Loanda já era habitada pelas gentes do rei do N´Dongo concentrando-se no lugar seguro da ilha de Mazenga a que os portugueses chamaram de ilhas das cabras por ter visto ali alguns destes caprinos. Viviam ali os Muxiloandas, oficiais do reino de N´dongo que recolhiam os n´zimbos para transaccioná-los como dinheiro.

luis01.jpg No ano de 1605 a vila de São Paulo de Assunção de Loanda é elevada à categoria de cidade pelo governador Manoel Cerveira Pereira que exerceu seu cargo entre os anos de 1603 e 1606. Não obstante estes dados históricos, o Rei de N´Dongo ou Kongo era o dono e senhor daquele espaço, pois que era ali seu banco central! O banco de N´gola. Seus zeladores Muxiloandas, cipaios e gente miúda laboravam na apanha e sequente selecção atribuindo às conchas o respectivo valor monetário.

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Para se ter uma ideia da relação de valores de então temos que para o Manikongo, 1 galinha valia 30 n´zimbus e uma vaca cerca de 300 n´zimbus, 3000 caurins ou 6000 lufuzus. Podemos então estabelecer uma escala de valores para as unidades monetárias de N´zimbos, Caurins e lufuzus na proporção de 1,1/10 e 1/200. Qualquer invasor daquele espaço era retaliado com severidade ou morte em caso de insubmissão às ordens do reino ou reincidência em actos de roubo. Era esta a lei conhecida por kikongo que se confundia com a morte e de quem os súbditos tinham o maior medo.

luis02.jpg Todos estes funcionários dormiam em libatas feitas de folhas de coqueiro dormindo em loandos ou esteiras feitas por folhas entrelaçadas da mesma árvore. Foi assim e, daqui, que mais tarde se começou a designar aquele como o lugar dos loandos exportando para o reino este uso de estar, dormir e espreguiçar.

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Mas, Loanda de então já tinha sete povoados e foi só em 1576 que o rei N´gola Kiluanji Kiassamba autorizou a fundação de São Paulo de Loanda passando de certo modo a autoridade para Paulo Dias Novaes que aportou ali na ilha da Mazenga levando presentes da coroa de Portugal para o Reino de N´gola e, por intermédio do fidalgo negro Dom Pedro da Silva, que estabeleceu uma aliança entre os N´Gola e o M´Puto.

luis04.jpg Um daqueles sete povoados ou sanzalas de então, era as Ingombotas, caserio que no correr do tempo foram armazéns depósito de negros escravos enquanto esperavam embarque para terras de Vera Cruz o Novo Mundo também chamado de Brasil; um outro povoado era conhecido por Maculussu e, assim se chamava por ser o sítio das cruzes reservado aos Tala-tona que já entendiam e falavam algum português, os chamados assimilados maioritariamente Kicongos.

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Também viviam ali os fiéis macotas do reino de N´dongo ou N´gola; Os mesmos que traziam prisioneiros das guerras tribais, feitos escravos e com quem os Tugas de então negociavam. Bem assim dizer, os cipaios eram destacados pelo rei amigo a fim de serem levados nas naus e tendo os Talatonas como seus administradores mais directos. Eram os M´Fumos, qualquer coisa parecida como capataz e, obedecendo às ordens de Kiluanji Kiassamba seu rei.

luua7.jpg Os Talatonas, geriam os cipaios no transporte de água das maiangas em barricas a fim de apetrechar as naus e a fortaleza bivaque de água potável. Faziam outros trabalhos como a limpeza dos terreiros, fazer os enterros no alto das cruzes ou largar os corpos nas lonjuras do kazenga para pasto de onças e leões. As águas para lavagens na higiene doméstica eram levadas da lagoa do kinaxixe que lá pelos anos sessenta, trezentos e poucos anos depois foi soterrada para dar lugar ao mercado que ficou conhecido com esse nome no tempo colonial.

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Todo aquele caserio era composto de cubatas amontoadas ou dispersas com tufos de vegetação começando a surgir entre os imbondeiros, tufos de bissapas e n´hiwas, pequenas lavras de mandioca e até árvores não autóctones trazidas pelos navegadores negreiros tal com a mangueira, laranjeira, pessegueiro e outros que se foram adaptando como a goiaba, ou o tamarindo. A manga por exemplo é nativa do sul desde o leste da Índia até as Filipinas, e foi através dos anos sendo introduzida com sucesso no Brasil, em Angola, e em Moçambique, mas também em outros países tropicais.

luis40.jpg O nome da fruta manga vem da palavra do idioma malaiala e foi popularizada na Europa pelos portugueses, que conheceram a fruta em Kerala (que conseguiram pelas trocas de temperos). Tenha-se em mente que nos anos e séculos que se seguiram, Portugal era o dono das rotas para as Índias e, dali traziam para o resto do mundo árvores e tubérculos ainda não conhecidos no resto do mundo; um verdadeiro início da chamada globalidade.

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Estando agora emperrado na estória de Loanda no tempo dos Mafulos, terei de partilhar estórias verdadeiras que o tempo lambeu com vagas de esquecimento. Trata-se do Mafulu que deu gente nobre a Angola como a dinastia mestiça de Baltazar Van Dum. Durante os sete anos da presença holandesa e, com o objectivo do fortalecimento do tráfico negreiro rumo às lavouras de cana-de-açúcar no Brasil e ilhas do Caribe sobre seu domínio, o projecto da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais afirma-se aqui em N´Gola com alguma dificuldade.

luis54.jpg Nota: É esta um participação para a verdadeira estória de Angola a custo zero… Luís Martins Soares e T´Chingange vão ter de ser incluídos na antologia Angolana…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:02
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2018
MOKANDA DO SOBA . CXLVI

ANGOLA DA LUUA XLVI - TEMPOS PARA ESQUECER – 14.09.2018

Espreitando pelo postigo da memória antropológica ... Na ausência de estadistas, houve demasiados traidores…

Por

soba15.jpg T´Chingange – Em Johannesburg

Já estamos a mais de 43 anos daquele então – ano de 1975. Durante quatro meses, entre Julho e Novembro de 1975, mais de 900 voos, a maior parte da TAP, levaram mais de 200 mil pessoas de Luanda e Nova-Lisboa (Huambo) para a capital portuguesa na ponte “LuuaLix”. Assim chamei por via de um amigo de nome Antunes, a ter escolhido; aqui tem sido referida para a distinguir de tantas outras de âmbito turístico. E, no total foram mais de um milhão de cidadãos que chegou a Lisboa – Lix, vindos da Luua.

torres5.jpg Foi uma das maiores operações de resgate de civis de todos os tempos e, que envolveu muitas centenas de voluntários. Muitos outros saíram de traineira ou indo de carro para os países limítrofes como a Namíbia e outros para onde seguiram directo, tais como por via aérea: o Brasil, Argentina, Austrália ou mesmo os Estados Unidos. A esta dispersão provocada pela guerra do “Tundamunjila” - Thundá mu n´jilla, chamou-se de DIPANDA a que podemos dar também o significado de DIÁSPORA.

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E, assim átoa sem rascunhos de contacto, chegavam a um qualquer lugar e se desenrascavam como soe dizer-se na gíria de cariz tão lusitano. Os ''retornados'' eram portugueses mas, para muitos Portugal era um país desconhecido, um país que tinha acabado de viver uma revolução e onde poucos estavam preocupados com quem chegava de África. Nem mesmo a família acalentou as angústias de tanta gente; verdade se diga que sempre houve alguém a prestar solidariedade e isso, marcou a diferença.

silva2.jpg Nós andávamos baralhados com tanto ódio, tanta insensatez e tanto desconhecimento das palavras como amor e ternura ou solidariedade. Fui cair num ninho de comunistas chamado de Torres Novas aonde a ordem do dia era sempre por unanimidade - levantando braços; eram as assembleias do povo. Não foi fácil passar dias e dias só falando em surdina para que não se apercebessem que eramos retornados - nossa pronúncia com sotaque, denunciava-nos. Podem calcular como era difícil andar entre “irmãos” trilhando o dente por não se poder expressar.

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Hoje os refugiados vindos da África, sem qualquer restea luso, a mesma que nos escorraçou, são melhor acolhidos em toda a europa, têm casa, vencimento, passe de transporte e até trabalho sazonal. Mesmo assim, pouco tempo depois e em surdina fogem para os países mais ricos vivendo uma grande parte dos subsídios estatais que a Europa decidiu dar sem retorno. Se é mau ou bom não interessa escalpelizar aqui mas, o tratamento é bem diferente do nosso naquele então, de quando chegamos ao aeroporto da Portela.

SBEL.jpg Zé Antunes refere em um blogue amigo que quando ia a Lisboa, sempre passava no Rossio, junto ao Pic-Nic - local de encontro de todos os oriundos de Angola. Eu que fiquei instalado em Torres Novas, em casa de uma irmã, também ali ia; normalmente comia uma sandes na “Tendinha” do Rossio, um panado ou posta de bacalhau e um penalti (um copo de vinho tinto) e, também me inteirava de notícias da Luua e de Angola em geral, pois que dali chegavam todos os dias refugiados na Ponte Aérea LuuaLix. Íamos assim, sabendo novidades de Angola e particularmente de Luanda onde ainda se encontravam meu pai e outros familiares.

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Outros, confraternizavam deitando conversa fora com boatos na forma de mujimbos e também para beber uns finos ou pancar uns petiscos no Pingo Bar, no Leão D’oiro na Rua 1º de Dezembro, na Praça do Chile em Arroios, Na estação de Santa Apolónia e outras, sempre na ânsia de saber mais e mais novidades de Angola. Entre muitos chegados ao M´Puto comentam coisas do género: Foi muito triste… Eu não queria vir! Era lá que eu vivia, era lá que estavam os meus amigos, a minha casa. Mas a família mostrava-se irredutível, pois nessa altura o cheiro a medo era muito.

sabão macaco1.jpg O metralhar dos bairros, as balas tracejantes lançadas pelo Poder Popular e o pregar de caixotes tornava a vida ensurdecedora. Corria notícias de violações, contados por quem tinha visto, ou proveniente de mujimbos contados com intervenção dos candengues Pioneiros do M.P.L.A. Cenas de rasgarem e pisarem a bandeira portuguesa em frente à tropa do M´Puto que ficava sem reagir. Isto, para os moradores, tornava-se muito triste, um mau indício e revoltante.

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Ninguém aguenta ver a sua Bandeira maltratada sem poder fazer nada; mas no m´Puto os procedimentos eram bem diferentes pois que nisto temos de excluir Mário Soares que até foi presidente e tem uma fundação subsidiada pelo erário público… Como lavagem de ética, diziam que era em repulsa a Salazar mas, disto não nos devemos esquecer para que não tenha direito a ir para um qualquer panteão (…O que mais tarde ou mais cedo vai acontecer!...). Baloiçando-me no d´jango do plot, muito perto da árvore n´vuluvulu de Benoni, olho seu fruto pesado de longas múcuas que pelo que dizem, só servem mesmo para fazer milongo de feitiços ao povo da Obovolândia.

silva p0.jpg Eu, quis saber mas parece ser segredo de raizeiros, porque talvez cada homem nasça com a verdade dentro de si e só para ele, e só não a dizem porque é muito só sua; e até, muitos haverá, que não acreditam que seja aquela a sua verdade. Porque cada homem é um mundo que se ao tempo der tempo, o tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Estamos a viver este momento de falácia mas voltando àquela certeza de que iriamos voltar para a Luua a refazer a vida, foi-se desvanecendo malembelembe como um sonho…Para pior, antes assim!

pombinho5.jpg Os sonhos ficaram a definir se a recta era mais curta no tempo ou se era a curva mais universal, com um mundo sem bordos e rebordos… Fui lá, a Angola em dois mil e dois mas, as tabuletas de caveiras ladeando os acantonados da UNITA, ainda eram muitas e por muitos lados. Também cheguei a Lisboa, como todos os demais, um outro Portugal, o tal Continental; afinal havia dois, o M´Puto e N´Gola mas nós estávamos por demais inocentes para entender aquela revolução dos cravos ao pormenor. No aeroporto duas senhoras da Cruz Vermelha comentavam em surdina estarem ali a perder seu sono por via destes ranhosos (eramos nós…). Felizmente que havia algumas Donas, estarem ali por amor e solidariedade… Bem-haja!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:21
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2018
MOKANDA DO SOBA . CXLV

ANGOLA DA LUUA XLV - TEMPOS PARA ESQUECER – 13.09.2018

Na ausência de estadistas, houve demasiados traidores…

Por

soba0.jpeg T´ChingangeEm Johannesburg

Já estamos longe daquele tempo, meses de Julho e Agosto de 1975; meses de polvorosa nas movimentações político-militares do M´Puto - a Metrópole. Com dados aleatórios no tempo aqui se descrevem situações que agora nem interessa saber se foram antes ou depois. Aconteceram! Em Portugal, partidos à direita do PS encaravam o futuro com alguma apreensão; naqueles dias chegava a vez dos social-democratas assistirem aos boicotes aos seus comícios - PPD.

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De tão inchado de espantos, desenho-me entre antigos esboços, revendo-me nos desenhos das sombras, sendo eu próprio um grafites escanchado em cima dum touro que, visto de lado parece ser uma palanca. Os oficias do M´Puto preparavam uma estratégia para conter a alma danada da reacção. Não queriam condenar os golpes e contra-golpes a uns mero folhetim, decidindo criar uma comissão destinada a coordenar uma resposta operacional a eventuais tentativas de ataques.

star10.jpg Não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem agora, já passados 43 anos, assim como o camaleão, com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Pois assim tem de ser! Reinava na nação uma incessante excitação. Dia sim, dia não, estava para rebentar um golpe militar… Bem! Nós em Angola já estávamos nela; a metralha estava na ordem da manhã, da tarde e da noite. Era o tempo da conspiração e do mujimbo, estar-se sempre à espera de onde vem ou virá a próxima trama secreta.

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Por lá, na metrópole dizia-se ser cada vez mais difícil perceber até que ponto é que tudo aquilo, em Angola não era apenas uma diversão; os três movimentos de libertação estavam em guerra aberta. A pouco mais de um ano depois da Revolução abrilista, a balança de pagamentos sucumbe. A fuga de capitais para o estrangeiro torna-se uma realidade. "A falta de confiança leva as pessoas a levantarem os seus depósitos para manterem o dinheiro em casa, ou a transferi-lo para a CGD", diz Silva Lopes, Governador de então no Banco de Portugal.

guerra22.jpg É ratificada pelo CR a criação do Directório para “assegurar a autoridade do poder”; Oficiais e praças do Regimento de Comandos da Amadora insubordinam-se contra o seu Comandante Major Jaime Neves e prendem o 2º Comandante Major Lobato Faria, entre outros militares e elegem como comandante interino o major Miquelina Simões. Entretanto, intensifica-se a ponte aérea que a partir de Angola e de outros territórios africanos e durante vários meses, vai fazer afluir a Portugal centenas de milhares de refugiados rotulados como retornados …

retornar3.jpgOs jornalistas estrangeiros, espantados, levantam questões pois que estava já em curso um movimento geral de ocupações em terras do Alentejo; existia um grupo de pessoas que, apesar das circunstâncias adversas, continuava a trabalhar para que Portugal voltasse à normalidade. Pouco a pouco iam saindo do seu silêncio.

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O Governador do Banco de Portugal, Jacinto Nunes, comunica a entrada para o Banco de Portugal do ex-ministro dos Assuntos Sociais Mário Murteira, para ocupar o lugar de vice-governador. "A minha função no BP era conceber um mecanismo de acompanhamento dos comportamentos dos grandes grupos económicos", conta mais tarde Mário Murteira. A sua nomeação é logo encarada como o reforço das posições comunistas na estrutura do poder.

retornar6.jpg Os ministros decidem intervir no complexo agrícola de herdades, Donas Marias e Cavacedos em Moura com mais de 1350 hectares. Com que argumento? Subaproveitamento das terras, deficiente alimentação do gado, despedimento sem justa causa, não pagamento de salários e, mais importante, mau relacionamento do patrão com os empregados. Com fúteis caprichos de poder, esmiúço os tempos para saber a verdadeira razão dos paradoxos futuros. Agora, embora as circunstâncias medrosas, não permitem que abra uma nova frente de guerra, elas continuam mesmo sem haver razões independentistas…

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Que importância terá, saber-se agora se a mulher de Lot, em Sodoma, ao olhar para trás se transformou em sal-gema ou sal marinho ou, até saber se a embriaguez de Noé, foi de vinho branco ou de vinho tinto se naquele agora, as brigadas da FAPLA (Forças armada do MPLA) e da força cubana estavam totalmente livres para enfrentar as tropas Sul-africanas e da UNITA que se aproximavam pelo lado Sul de Luanda. Não se sabe ao certo o porquê desta manobra e a sua falta de coordenação; as traições dos “nossos militares” por afinidade ao MPLA dentro das forças armadas, eram mais que muitas!

valentina2.jpg Houve decerto uma chamada de última hora para tudo contrariar naquela que foi uma “Não Batalha de Kifangondo”. Pressões do petróleo por parte dos americanos? Há quem pense ter sido uma manobra de diversão a Norte de Luanda para encobrir a real intenção de ocupar a capital pelo Sul mas isto, não é totalmente velverossímil. A “Bagunça de Angola” que mais tarde apelidei de “Tundamunjila” – Thundá mu n´jilla – era não mais do que as manobras de meter medo ao medo para vincar o fito principal: vai prá tua terra, branco T´Chindere, seguido de “kwata-kwata” ou agarra, agarra.

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Alguém mandou calar os canhões de longo alcance Sul-Africanos, retirar as culatras e abandonar a batalha! Tal como se passou, ainda não é entendível pelos militares dados a comentar isto e é perfeitamente credível que à ultima hora, os americanos tenham dito NÃO!  Há coisas que nunca se saberão por inteiro mas o certo é, que ter os gringos como amigos é algo de muito perigoso! Um grave risco, mesmo! ...

guerra7.jpg E, vêm os porquês!? Porquê CLPA em Angola, sempre esteve em conflito e contrariando o Alto-Comissário Silva Cardoso? Porquê o MFA deu apoio logístico aos soviéticos, deu armas, favoreceu o MPLA articulando e facilitando os cubanos, com intervenção de Otelo Saraiva de Carvalho e, sempre em apoio ao MPLA? O que levou ao CR – Conselho da Revolução e o presidente rolha Costa Gomes permitir o desembarque na costa angolana, o material bélico para o MPLA? Porque tardou a evacuação dos cidadãos civis “angolanos e portugueses” da guerra?

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:04
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018
MALAMBAS . CCXII

NAS FRINCHAS DO KALAHÁRI - KIMBERLEY –  7ª de Várias Partes

- EM CAPE TOWN – HÀ UM ANO ATRÁS – 03.09.2017 – No Kirstenbosch – National Botanical Gardens de Cape Town…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg - 11.09.2018

Este bairro de Imizamo Yethu em Hout Bay e outro mais que proliferam ao redor da Cidade do Cabo, são muito semelhantes às favelas do Brasil mas muito mais carecidas e feitas de uma grande variedade de materiais. São em chapas zincadas e outras achatadas a partir de tambores mais madeira e pranchas de fibras com variadas cores. É um mundo visto a duas distintas velocidades mais por via de refugiados que aqui chegam do resto de África.

cape10.jpg Na encosta Sul da Table Mountain fica um vale chamado de Constantia e, é daqui que sai o melhor “Pinotage”- vinho tinto; a melhor casta de uvas devido ao especial clima daqui por reunir as melhores condições. Há dezoito anos atrás visitei Stellenbush, fui a caves e nesse então inteirei-me haver ali um clima favorável a uma grande variedade de castas sobressaindo o cabernet sauvignon tão da minha preferência, mas e também o Shiraz – todos excelentes!

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Em toda a propaganda escutada a bordo do red-bus é dada enfase às populações supostamente autóctones (os primitivos KoyKoy) mas, pelo que sei, estes nunca tiveram qualquer preponderância no aspecto empresarial. A qualidade de vida que pode ser apreciada deve-se aos primeiros e sequentes pioneiros bóheres que desbravaram terras. Nota-se agora uma multiplicidade racial de gente laboriosa que a torna bem cosmopolita.

cape7.jpg Não devem agora os novos dirigentes da África do Sul propalarem discursos negativos subtraindo as mais-valias que o Mwata Mandela legou. Os discursos quanto às leis de terras têm sido bem negativos para o desejável desenvolvimento da África do Sul; não podem no calor das refregas políticas caírem no mesmo erro de outros países, tentando lavar e purificar a mentira com a demagogia que a ninguém favorecerá.

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Sei porque ouço e vivi, são arbitrariedades não desejáveis num qualquer lado. As práticas erradas estão originando fugas, desemprego, corruptas atitudes com favorecimentos pela cor da pele entre muitas mazelas escandalosas de roubos, matanças, incitamento o descontrolo duma sociedade de forma pervertida e invertida.

cape9.jpg Matança aqui e além para de forma encapotada fabricar o medo entre os brancos, como se a áfrica não lhes pertencesse também. É nítida a forma em como o património do homem branco é cobiçado e estimulado por dirigentes arruaceiros. Os discursos estão aí para todos escutarem, populistas negros a clamar com pretextos quando o que pretendem é simplesmente esmifrá-los; isto quer dizer: rasgar ou desfazer em pedaços, cravar, esforricar ou extorquir dinheiro por qualquer banalidade! Não me posso mentir! 

cape6.jpg Reestruturar e restruturar são duas formas possíveis em português, aonde e, em politica não deve originar o “esmiframento”. Esta é uma palavra inventada agora por mim para fazer sentir que esta estranheza pode de novo acontecer tal como já me sucedeu junto com mais de meio milhão por via do “descolonizamento”, outra palavra inventada para elucidar uma pseudo descolonização (falo de Angola). Desde sempre e, que me lembre de ser gente, observei que as leis foram inventadas pelos fortes para dominarem os fracos que são muitos mais.

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Sempre observei entre os políticos amizades incipientes desde o tempo em que os cuspidores de prata eram usuais e era admissível ou, sem reparo, cuspir-se em público. E, anda muita gente de alto coturno e responsabilidade a cuspir pró ar sem que ninguém de peso conteste. Falo do mundo todo! Vejo isto por todo o lado e em particular aqui em África.

cacto xoba3.jpg Hoje que penso muito e, rezo pouco, sinto os tempos subtraídos nas leis dos governos, e, logicamente, averiguo sem pudor, as diferenças. Para não me mentir, resgatando pedaços de lembranças, chupo a acidez da múkua (fruto do imbondeiro), abraço os meus amigos, muitos deles sem a t´xipala de candengues visível no cardápio das mokandas, das muitas malambas do facebook. Já kotas, de cabelos brancos ou grisalhos, o tempo esquindiva-se nas vontades de juventude perene. O que tiver de acontecer, vai acontecer!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:49
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2018
MU UKULU – III

MU UKULU...Luanda do Antigamente10.09.2018

Entra-se num outro capitulo - o tempo dos Mafulos ou Holandeses enviados a propósito para conquistar terras de N´Gola…

De

luis49.jpgLuís Martins SoaresNo Brasil

soba15.jpgT´ChingangeEm Johannsburg

O Governador Pedro César de Menezes no dia seguinte, 25 de Agosto de 1641, abandonou o arraial de bivaque no Morro de S. Miguel de Loanda, deixando a povoação de trincheiras no poder dos Mafulos Neerlandeses. A coroa portuguesa que neste então estava sob o domínio espanhol não pode manter os entrepostos comerciais e possessões que mantinha ao longo de toda a Costa Africana. Assim, estando em guerra com os Holandeses, estes atacaram todos os lugares aonde estavam os Tugas com principal incidência na costa de África.

Mu Ukulu7.jpg Pedro César de Menezes retirou-se para o lugar de Bembem não muito longe do lugar a ser conhecido por Massangano bem à beira do rio Kwanza e na zona de Kambambe aonde os portugueses mantinham suas áreas de influência. Era um ponto de excelente posição estratégica por proporcionar para além da defesa a acostagem de naus, canoas e outras barcaças desde a barra até Muxima da Kissama.  

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O Padre António Vieira interrogava-se de como poderia Portugal prevalecer contra Holanda e Castela? Nesse então os Holandeses tinham onze mil navios de gávea mais outros três mil navios e duzentos e cinquenta mil marinheiros adiantando: “…os dois nervos da guerra são gente e dinheiro; e que gente e que dinheiro temos nós hoje? A gente é tão pouca, que para qualquer rebate de Alentejo é necessário tirar os estudantes das universidades, os oficiais das tendas e os lavradores do arado.

Mu Ukulu9.jpg Vejam o quanto é interessante vasculhar na história para entendermos as dificuldades dum país tão pequeno! E dizia o Padre Vieira: - Pois com que gente havemos de acudir às quatro partes do mundo, e em cada partes destas a tantas partes? Os Mafulos em Holanda têm quatorze mil barcos; nós em Portugal não temos treze. Na Índia têm cem naus de guerra de 24 até 50 peças; nós na Índia não temos uma só.

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No Brasil têm mais de sessenta navios na maior parte poderosos vasos de guerra e nós temos sete, se ainda os temos”. Os Holandeses estão livres do poder da Espanha; nós, temos todo o poder de Espanha contra nós. É curioso ler os relatórios e missivas do padre António Vieira por sua arguta visão mostrando ser um observador mais militar do que a maioria dos mestres de guerra de então e, refere “Os holandeses em Europa não tem nenhum inimigo; nós não temos nenhum amigo. Isto veio a acontecer muito mais tarde à mistura com traições em 1975 que, de forma desavinda tiveram de abandonar Angola como escorraçados.

Mu Ukulu8.jpg Eles, os Mafulos, têm mais de duzentos mil marinheiros; nós em Portugal não temos quatro mil”. Reconhecia que “um sucesso quase milagroso” a saber da vitória de Guararapes em 1648 no Brasil, tinha mudado a opinião de muitos até então favoráveis à entrega, mas ninguém deveria contar com milagres, “pois os milagres são sempre mais seguro merecê-los que esperá-los.

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Os milagres! Fiar-se neles, ainda depois de os merecer, é tentar a Deus”. Reconhecia que a companhia estava economicamente exausta mas, a melhor solução era a da entrega de Pernambuco, pois os Holandeses não admitiam a proposta de compra. Os documentos mostram porém que a memória erudita do Padre Vieira traiu o Jesuíta. Sempre o M´puto teve em simultâneo grandes homens de grandes feitos e grandes traidores. Traidores que só a estória sem agá fala.

vieira1.jpg Felizmente que a propaganda de tristes alvitre não teve eco em Fernandes Vieira e essa saga de Luso-brasileiros, os verdadeiros próceres do Brasil. De notar que refiro Fernandes vieira como o herói de Guararapes que tendo nascido na Madeira aqui elevou nossa condição de gente ilustre. Só relembro isto porque foi do Brasil que mais tarde saiu uma campanha capitaneada por Salvador Correi de Sá e Benevides para retirar os Mafulos de Loanda. Angola e Brasil sempre estiveram ligados e, daqui poderão extrair nota do muito desconhecimento que temos da nossa posição Lusa no Mundo.

Mu Ukulu10.jpg O Padre António Vieira em 29 de Julho de 1648, transmitia por carta ao Marquês de Niza as notícias do sucesso da primeira batalha de Guararapes do seguinte modo: “… de maneira Senhor, que temos Pernambuco vitorioso, o Rio-de-Janeiro socorrido, a Bahia com armada e Angola com a esquadra de Salvador Correia (….), todo o debate agora é sobre Angola e, é matéria em que os Mafulos, não hão-de ceder, porque sem negros, não há Pernambuco e sem Angola não há negros e, como nós temos o comércio do sertão, ainda que eles tenham a cidade de Loanda, temem que nós tomemos outros portos”.

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O poder da Holanda unido ao da Companhia das índias (Ocidentais e Orientais) era o maior da Europa, pois a história mostrava que a Espanha sem guerras externas, abundante de dinheiro e armas e agora, em paz com toda a Europa, ainda tinha Portugal sobre sua sujeição. Por este acontecido que durou sessenta anos com os reinados dos Filipes I, II e III, Portugal, perdera a soberania que tinha sobre o Ultramar.

maful2.jpg Em pouco tempo os Mafulos ficaram com as possessões daquele Portugal debilitado perdendo muitas praças nas Índias Orientais, na costa africana, na Bahia, e por último Pernambuco. Os danos para Portugal pela perda de soberania a favor de Espanha e por via daquela companhia das Índias, foram-no na índia, Ceilão, Angola, S. Tomé, Maranhão, Bahia e Pernambuco. De notar que João Pessoa tinha o nome derivado do nome Filipe – chamava-se Filipeia. Nem os brasileiros, mais se lembram disto.

junho0.jpg Fugi um pouco do tema de Mu Ukulu da Luua de Luís Martins Soares mas, em seu tempo voltarei às malambas do século (mais-velho)…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:25
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Domingo, 9 de Setembro de 2018
MALAMBAS . CCXI

NAS FRINCHAS DO KALAHÁRI –  6ª de Várias Partes

- EM CAPE TOWN – HÀ UM ANO ATRÁS02.09.2017No Kirstenbosch – National Botanical Gardens de Cape Town…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – Em Johannesburg

Estamos a 09.09.2018; passado que dá um ano e três dias, aqui estou de novo revendo este recente tempo, passando a limpo meus gatafunhos do baú do Karoo do Xoxolosa Trem. Fazendo um interregno por espera na obtenção do carro que nos levará mais a norte, irei rever a visita ao Jardim de Kirstenbosch na Cidade do Cabo. Dy, também conhecido por Reis Vissapa vai diligenciar encontrar o carro ideal e com tracção a todas as rodas a fim de rumarmos a norte via Botswana.

alfa0.jpg Aqui neste vastíssimo planalto de Johannesburg, as temperaturas são estremas; de dia e, nesta época do ano, podem ir dos zero aos vinte e cinco graus. Esta noite tive de colocar meias e gorro trazido do M´Puto pois que o frio não me deixava dormir. O computador da Ibib marcava um grau e deu para sentir. Lá fora os carros tinham gelo nos vidos. Tentaram sair no jeep mas este não pegou pelo intenso frio que fez na noite. Pelas sete e trinta da manhã, tiveram de ir à igreja no carro da Celeste, minha nora. Eu fiquei no bombom do quarto com os meus santos, empolgando-me na mioleira.

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Pois voltando ao Jardim e rodando nós a Table Mountain da Cidade do Cabo no autocarro vermelho do Cityrama, ali chegamos deixando de sentir aquele vento frio que sopra do Atlântico. E, porque aqui, não se faz sentir aquele vento, as plantas crescem envoltas num microclima como se estivessem em uma estufa. Vimos altíssimos pinheiros e até entre outras plantas autóctones, o tão nosso conhecido sobreiro de dar cortiça e também castanheiros.

koisan1.jpg Andar pelo Jardim foi como revisitar os desertos de toda a África vendo até algumas plantas já na fase de extinção em outras partes do globo. Tinha vindo aqui há dezoito anos e pude de novo rever com deslumbre este grande jardim e, com tanta variedade de espécimes. As etiquetas referiam o nome, sua procedência entre outras particularidades. Fiquei a saber que em outro tempo também aqui havia leões, sendo seu último exemplar, morto aqui no ano de 1884.

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Em uma brochura recordam que os primeiros europeus a chegar aqui ao Cabo, foram os portugueses capitaneados por Bartolomeu Dias. Há uma grande estátua dele logo à saída do porto do Waterfront, fica bem no centro de uma grande rotunda aonde vai desembocar uma das principais avenidas da Cidade; mais tarde chegaram os holandeses subvencionados pela Companhia das Índias Ocidentais que aqui se estabeleceram.

alfa2.jpg Estes holandeses são os mesmos Mafulos que se apoderaram de Loanda de N´Gola a 24 de Agosto do ano de 1641 já referidos em uma outra crónica de Mu Ukulu II. Esta mesma tropa composta de flibusteiros, arqueiros cobertos de metais e, portando arcabuzes de cuspir fogo, encontraram uns indígenas de pequena estatura a quem chamaram os “KoyKoy”; talvez os da mesma origem dos Khoisans ou bosquímanos. Os holandeses Mafulos afastaram os KoyKoy para longe de suas vivências estabelecendo-se nesta ponta rodeada de morros.

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Também aqui os Mafulos ou Holandeses foram enviados a propósito para conquistar terras de África. O M´Puto estava nesse então debaixo do mando dos Filipes de Espanha tendo Filipe I de Portugal e Algarves, sendo o segundo monarca de Espanha. D. Filipe II de Espanha expandiu seu domínio a Portugal, à Flórida e às Filipinas desleixando o que era de Portugal. Em verdade foi nesse então o primeiro líder mundial a estender os seus domínios sobre uma área directa "onde o sol jamais se punha", superando Gengis Cã.

alfa5.jpg Filipe I de Portugal até então, era o homem mais poderoso de todos os tempos. Os limites do seu império foram denominados em sua homenagem desde o extremo leste das Américas (Filipeia, hoje João Pessoa do Brasil) ao sudeste insular asiático: Filipinas; do Atlântico centro-ocidental ao Pacífico centro-ocidental passando por todas as longitudes do oceano Índico. Não foi com medo da malária, o porquê deste tão grande monarca nunca se preocupar com as antigas possessões do M´Puto mas, sim pela força do Papa que definiu a linha do Tratado de Tordesilhas.

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Bom! Voltando aos Mafulos, por aqui se estabeleceram vivendo da pesca mas e principalmente das muito boas madeiras que recolhiam nestas encostas. Os troncos eram arrastados até à beira mar e embarcados em naus no lugar protegido de Hout Bay. Com as guerras anglo bóhers e por via dos interesses nas explorações de ouro e diamantes, estes colonos foram sendo empurrados, sempre mais para norte. Foram assim forçados, que originou o desbravar de todo Karoo, uma parte do grande Calahári tendo como elemento aglutinador o rio Orange que nasce nas terras altas do Drakensberg.

alfa01.jpg Na encosta sul de Hout Bay, pode verificar-se o desarrumado caserio de gente que busca estas paragens para trabalhar. É aqui chamado de Imizamo Yethu, um conjunto de casas minúsculas e coloridas subindo a encosta do morro, num urbanismo em tudo idêntica às favelas do Rio de Janeiro; imagino pela pequenez, não terem o mínimo de condições de habitabilidade mas, que a necessidade obriga a ginasticar como um estágio de vida penoso.

alfa6.jpg São pessoas que sem qualquer formação, a tudo se sujeitam; gente vinda do Lesoto, Zâmbia ou o Malawi. O curioso é ser este um ponto de paragem turística com guia e, que por uma gasosa, explica aos turistas por forma a se inteirarem deste pormenor. Explicarem a vida tormentosa de quem sobrevive nela, como a visão duma evolutiva excentricidade e, a quem nem sonha poder viver em nove metros quadrados…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:25
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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