Domingo, 19 de Maio de 2019
MOAMBA . XXX

MOAMBA AQUI É TRAMOIA 
TRAMOIA DE "SACOLEROS"... 19.05.2019
Por 

soba002.jpg T´Chingange - Em Coimbra do M´Puto

berard3.png Hoje desacordei meio chateado. Até nem dormi bem por via de tanta pancada dada ao Senhor Joe Berardo. Com tanto camundongo safardana que anda por aí, custa-me muito ver tanta gente a atirar pedras, pedregulhos ao Joe. É na TV, é na tasca, é no café. Todos a zupar forte e feio num homem hábil que só teve a pouca sorte, quase infelicidade de se rir do Zé. Ontem, estando eu com meias descruzadas, quersedizer, não aparelhadas, na esquerda umas de riscas e na direita umas às bolinhas...
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Pois! Estando eu bem perto do mercado de Coimbra, chega uma senhora, pousa sua tralha e carrinho de compras à porta do café vão de escada bem perto do elevador panorâmico e, olhando de soslaio para seus bagulhos, assim um olho no cigano e outro na mercadoria...

Coimbra24.jpg Um olho aqui e outro além como o camaleão e, ouvindo gente transpirando pela boca desconhecimentos, falas só ouvidas, pede 3 sardinhas petinga para colocar na carcaça. Via-se nela ser uma desafortunada, uma velha senhora com acelgas e mastruços no bigode - assim, pobre mesmo! UMA PÉ-DE-CHINELO DE DEDÃO.
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Coitada, pensei cá comigo! Com sua reforma não pode decerto alongar-se nos gastos - deve ter um reforma de cacaracá. Do outro lado do balcão tia Micas, mulher do senhor Manel. diz: cada sardinha são vinte cêntimos! Não pode fazer por menos? Replica a velha senhora...

Coimbra12.jpg Tia Micas, entretanto põe-lhe quatro petingas num guardanapo e embrulhando, refere a carestia do produto. Não é que em seguida, ambas se põem a desancar forte e feio naquele senhor Berardo que nem sequer conhecem! Como se fossem entendidas destas engenharias financeiras, dizem o que todos dizem: - Não há direito! Comem-nos o dinheiro aos milhões e edecéteras que possam imaginar.
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Coitado do Joe! Tanta gente a pregá-lo na cruz, até sem nada saber do que é certo ou errado. Eu só espero que o "comendador" dê com a língua nos dentes e que diga tudo o que tem para dizer! Acho até, que quando ele abrir a boca, muita gente ira tropeçar na tramóia! Até acredito que ele, o fará - é bom que o faça! Que ponha alguém mais, a tremer! 

berard1.jpg Esta sociedade anda a bulir comigo! Tanto larápio por aí e, só este para desandarem! Não é que esteja com ele mas, tanta má gestão e, agora a zuparem nele - um bode expiatório, só posso pensar ser um meio ou mau juízo. E, porque Berardo sempre fez alguma coisa ao invés de outros que só deslapidaram! Que deu algum trabalho ao Povo. Lembrei-me de assim, solicitar-lhe amizade porque me custa ver correr desaforos e gratuitas falas....
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O Joe Berardo ficou rico por estar no lugar certo e na hora certa, comprou "tailings" das minas de ouro da África do Sul para as reprocessar com uma tecnologia mais moderna para recuperar o ouro. Depois, voltou para Portugal e, com muito dinheiro, comprou o titulo de "COMENDADOR" e dedicou-se a especular na bolsa. Lá na África do Sul isto é quase normal - há mais "comendadores" que pilotos de rebocadores...

Coimbra13.jpg Ajudou a sabotar a OPA da SONAE, a PT causando um prejuízo imenso ao accionistas porque os títulos nunca mais tiveram o valor da OPA, e comprou imensas acções do BCP com dinheiro emprestado por atrasados mentais (da CGD, e não só...) que aceitavam os títulos como garantia ! O Berado fez um rombo de 1000 milhões na BANCA, porque o povo Português (OS GESTORES) e muitos outros, e' BOÇAL...
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Um "povo" que dá mais valor a quem tem dinheiro e especula, do que a inovadores ue tentam arrancar com um negocio!
Berardo, está a ser o bode expiatório de uma camarilha - a que lhe concedeu os empréstimos com garantias patéticas e que só se entendem porque quem lhe emprestou (dinheiro da CGD) SE beneficiou. Não tenho duvidas!

caixa0.png Coincidentemente, uns quantos trutas da CGD - desses que decidiram o empréstimo em condições absurdas - foram por ele contratados para gerir o BCP. Um rombo no cano roto da trapacice, tal como um "lava-jacto" brasileiro. Num país a sério esta canalhada estaria presa há uma década. Por cá andamos em comichões parlamentares em que os canalhas que concederam o empréstimo se passeiam e o que recebeu o empréstimo (até ver incobrável) é diabolizado! Tenho dito!

bpn1.jpg Porque não vão analisar as fortunas dos VARAS e dos SANTOS FERREIRAS ?... Ah! O Varas já está preso por causa de uns robalos e, mais um sucateiro... Que belo administrador foi o robaleiro!!! Ele, há coisas! Mundo ingrato e maluco com tanta gente grafonola num gira o disco e toca igual,... E já no acto de pagar à tia Micas, não é que me cobra mais vinte cêntimos do que é habitual pagar ao seu Manel... 
O Soba T'Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:07
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Quinta-feira, 16 de Maio de 2019
MALAMBAS . CCXX

TEMPO DE CINZAS – Terça Feira - 14.05.2019
– MALAMBA é a palavra 
- Boligrafando estórias em cor de Zebra… de várias partes
Por

soba002.jpg T´Chingange - Em Coimbra do M´Puto

miai3.jpg Escrita no No Nordeste brasileiro Em Miauí de Cima - Alagoas... 
Eram umas seis horas e trinta minutos, um calor do caraças, corpo mole e pegajoso com um ventilador ronronando paciência na vagareza, gotas de suor a formarem rios e ribeiros até chegarem ao lençol e, vira que vira com a vagareza do soprador que não sublima minha transpiração. Levanto-me! Fui fazer o café da avó na cozinha do piso térreo, bem à maneira, com chaleira e coador. Roça, é roça... 
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Tia Jacira, era uma senhora muito especial e porque já a descrevi, só direi mais que era uma dedicada assistente social de formação e voluntária às rezas repetidas dos terços da vida na Igreja de São Pedro da Pajuçara na Ponta Verde, muito próximo de meu ninho da águia, do carcará Niassalês - eu próprio.

mike1.jpg Com os seus mais de oitenta anos, Tia Jacira distribui amor por todos; incluindo-me, claro. De café feito e coado vou buscar a caixa metálica do papagaio, um jacó verde e amarelo, brasileiro a cem por cento mas, pouco falador; abro a caixa e com um pau-xinguiço retiro o bicho colocando-o em seu altar encastrado no pilar, tendo ao redor uma série de copos com comida, fruta e outros de zingarelhos para palitar dentes feitos bico adunco e, raspar as patas carunchosas.
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Tia Jacira normalmente fala baixinho com o verde-amarelo e, ele trejeitando a cabeça, de curiosidade chama-lhe vóóó - palra coisas indefinidas grasnadas como se fosse um pato-marreco. Nada parecido com o meu papagaio da Cabinda de Angola que pintava a manta de tanto falar chamando filho da puta, assim direitinho ao sagwin-macaco que estava do outro lado da casamata do mecânico dos unimogues e, também minha. 

arara1.jpg Dei-lhe um bocado de painço, um pedaço de banana e uma mistura colorida, sementes de girassol, água limpa e o sacana, nome de como eu tratava, nem um agradecimento: - Matumbo, 
repeti várias vezes e, ele assim com a cabeça de lado como que gravando no seu disco de bicho mas, nada de repetir o tio carcará (eu, o T´Chingange). 
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Cortei um pedaço de jornal ali esquecido e com data de 23 de Dezembro de 2011, a fim de fazer de lençol ao jacó matumbo. Era um periódico da Gazeta de Alagoas a dizer bem e mal dum antigo prefeito de Maceió, Cícero Almeida, um papagaio feito gente civilizada que também desviava verbas para a lista secreta das boquinhas do PT e outros afins... 
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Mais logo este jornal também vai aparecer cagado, com destino inevitável do lixo bem igual à vida daqueles políticos que se lambuzam em devaneios, sabendo que as baratas correm em raly nos corredores dos hospitais para gáudio dos utentes. Os caras enchem-se de boémias, pintam e bordam e, a justiça que deve fazer parte da caixa dois ou mesmo três, nada diz e nada faz... 

miai5.jpg É isto e aquilo que o Bolsonaro quer acabar mas vai-se dar mal se não trilhar bem firme o seu carril. Tem inimigos pra xuxú! Tomara!... Meio Brasil, vivia da seiva dos carrapatos. Hó gentinha, vou zarpar porque dois mais dois podem não ser quatro e fico ferrado. Mas que gorjeavam lambugisses, lá isso era nítido mas, diga-se, a maior parte do povo nem via isso por conta da bolsa, da gasosa, do geito brasileiro. Vou-te-falar!? 
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Saí a comprar leite, pão e queijo de coalho e chegando à padaria um pouco mais a sul, digo Bom d´Jia, assim, um bom dia bem à maneira brasileira. A resposta veio rápida do mulatão, padeiro saído das quenturas dos fornos: - Bom d´Jia, meu irmão! Ué! É o trato... Para agradar ao meu novo mano comprei mais meia dúzia de ovos e uma porção de goiabada.
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Juntei mais uma dose de milho flocão Coringa para fazer no vapor ou talvez bolo; deu tudo somado vinte Reais e, junto o negócio nas sacolas, penduro nos meus dedos e digo Xau! Xau, meu irmão - obrigado! Volte sempre e, assim saí feliz e contente por ter arranjado mais um irmão - que negócio!? Era para ir à praia ali a escassos duzentos metros mas o pessoal estava todo mudo e quedo lá no primeiro andar. 

miai6.jpg O papagaio-fêmea matumbo nem grasnava... Lá fora a moto-táxi do Zacarias, também meu irmão, rompia a longitude e a penumbra das silhuetas matinais com ganas de o estrangular. Com seu escape livre, fazia finfias a ele mesmo botando banga de Coruripe, pois então! Eram sete horas e trinta minutos. 
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Como eu gosto destas vivências tão ricas, tão farfalhudas, tão familiares. Em verdade, senti aqui falta duma vassoura turbo de piaçaba para lambuzar-me de vaidade e até entortá-la em suas costeletas; Bem! Em verdade este especial veículo pertence a uma senhora que muito prezo... de verdade! Tem a marca já registrada, como se diz no braziu. MJS...(Maria Joao Sacagami)
Ilustrações de Assunção Roxo
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:33
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2019
MOAMBA . XXIX

TEMPOS CUSPILHADAS – 13.05.2019

MULUNGÚ COM LARANJA DO M´PUTO
Passeando o esqueleto no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves mais África, um reino outrora Tuga... Dou-me conta que me roubam laranjas, que me impingem telas de falsas Monalisas... 
Por

soba002.jpgT´Chingange - Em Coimbra 

bolor1.jpg Há uns tempos atrás e, estando eu no Brasil, pessoa amiga referiu-se ao facto de em Portugal país  visitado por ele nesse então, as pessoas serem disciplinadas, não terem o apetite do roubo ou cobiçar o alheio. Isto passou-se em uma praça da pequena cidade de Lagoa do Algarve; ele reparou que as pessoas passavam por aquelas laranjeiras carregadas de bonitas laranjas e o estranho, era que ninguém tocava nelas. Tomara, eram azedas!

berard1.jpg Lembro-me de ter dito: - No M´Puto tudo é muito sofisticado, até no roubo. Mansamente os bancos e afins destes, vendem-nos laranjas virtuais e endividando-se roubam-nos assim à socapa e, não é de repelão não! Num repentemente o governo passa nosso dinheirinho para esses salafrários Berardos e Salgados, que armados com grandes honorabilidades e honestidades, cortam-nos as gordurinhas feitas laranjas. 

salgado1.jpgcoimbra9.jpg Não sei se ele, meu interlocutor, brasileiro meio doutor, meio matuto entendeu mas, não desentendido de todo, quis compreender meu ponto de vista porque ele mesmo, tem uma boquinha do PT. O certo é de que isto sucede no M´Puto com o beneplácito do governo e até do nosso Tio Célito que feito Presidente sacode o pacote e abana seu chapéu com solidária condescendência com o Salgado e afins kazukuteiros branquelas como eu; com essa malvada banca que nos dá 0,005% nas contas ao prazo de um ano!
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Não havia qualquer impedimento por qualquer resguardo para as não alcançar - as laranjas da Lagoa do Al-Garbe e, não obstante estarem gulosas, bonitas a solicitar-nos esticar as mãos e recolhe-las, ninguém o fazia! Eu com a sede que tinha (disse o cara, brasileiro de Gravatá de Pernambuco) de até me apeteceu agarrar uma mas, retive-me mais por poder parecer mal do que outra causa; fiquei inibido proceder desse jeito disse ele; bonitas e nada de ladrões!? 

cruzios4.jpg A pessoa em causa, um nordestino juiz da comarca invisível da boquinha do PT que descreveu isto, desconhecia que as laranjinhas eram ácidas, azedas como trovisco e, nem me dei ao trabalho de esclarecer para subsistir na mente deles; que os Tugas não roubavam como era tão habitual, assim como eles o fazem no seu Brasil! Por isso têm muitos e muitas laranjas a fingir que o são mas, tudo uma mentira! Folhas inteiras de laranjas-gente a comer do fisco! Dos municípios, das bancas e instituições daqueles que agora metralham o Bolsonaro... 
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E, a propósito omiti a verdade porque já estava farto de tanto desaforo colocando os Tugas como os larápios da América, blá, blá, bla, do pau brasil e do ipê-roxo; coisa que insistentemente ouvia referindo tempos idos no roubo das matas, das muitas especiarias, ouro e prata, um sem fim de maleitas sociais do qual lhes foi legado! 

PAPAL4.jpg Porque dizem: - Que chegavam da Metrópole com uma mão atrás e outra à frente e passado bem pouco tempo já tinham seu próprio posto de trabalho, sua padaria, borracharia ou sua própria venda. O escambau, como sempre referem.... Normalmente nem replicava porque também tinha as minhas próprias queixas por fruto de uma descolonização de tugi mas eles nem iriam entender...

berard2.jpg Agora replico e até triplico e sextuplico minhas verdades para ver se os MADUROS de todo o Mundo caem de podres... Tal nefasta saga provocada por mariolas e traidores ao M´Puto e do M´Puto; desta feita contive-me para que ficassem com ideias edificantes sobre os Tugas e, que afinal, nem tudo neles era mau! 

lula02.jpg Quando tudo dava para o torto, simplesmente dizia que era Niassalêz, que tudo me passava ao largo mas, em verdade roía-me de pequenos ranhos moncosos de cor injustiçada. Para não ficarem na insolvência, nem me perguntavam que raio era isso de ser Niassalêz, só para não mostrarem sua ignorância endémica. De forma catedrática ia-lhes dizendo que o Brasil era quase um continente graças a terem sido um reino; que não foram desintegrados em vários países porque foram a sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. O Mundo é mesmo uma ervilha!
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E, mais, ... tendo D. João VI como o maior aglutinador dessa política; um estadista de valor e que eles sempre subestimaram e subestimam com charadas de mau gosto e desrespeito - o Rei das coxinhas de galinha. Que não obstante o Brasil já ser grande, invadiu a Cisplatina ficando alargado com o actual Uruguai a sul e o Guiana Francesa a Norte por estar em guerra com os franceses - A França de Napoleão.

D. JoãoVI.jpg E, quantas mais coisas tinham de ser ensinadas, porque infelizmente, mesmo gente formada a nível universitário, não tinham um perfeito conhecimento da real história. Fui eu a contar a muitos, as estórias do Caramuru, Do João Ramalho, do 1º Bispo do Brasil - da festa de arromba que aqueles índios Caetés fizeram em Julho de 1556 devorando Dom Pero Fernandes Sardinha e outros edecéteras.
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Agora, neste momento na minha roça de Coimbra, de doutorado faço jus às afirmações deles: - Conta mais Doutor! Imagina, eu um Niassalês contando coisas do Lampião, coisas que os caras desconheciam. Como não avera de ser Dôtor!? De tudo isto eu retirava ilações no fraco aprendizado nas escolas brasileiras! 

MAGA8.jpg Claro que os ladrões existem aqui e lá mas, nesta actualidade, nem digo nada para não amesquinhar aquele elogio das laranjas feito por um brasileiro das terras Tugas! Tomara que Bolsonaro extermine tanto LARANJA mentiroso, que rouba o povo
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Mulungu e Mulungú: É branco em língua Zulu; também é uma árvore de grande porte com flores vermelhas; existem no Brasil e um pouco por toda a África austral...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:25
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Sábado, 11 de Maio de 2019
MOAMBA . XXVIII

 
O CHOQUE DO PRESENTE - COIMBRA...11.05.2019
Aonde quer que se seja, é mesmo bom não se fazer contas ao tempo porque o bicho pega!… Basta-nos os doze meses de socialismo, social socialismo, ou isso entremeado com geringonças e matraquilhos mais diabruras para espairecer molezas…
Por 

soba002.jpg T´Chingange - Em Coimbra... 

coimbra5.jpg É mesmo bom não se fazer contas ao tempo, aos meses, às horas e minutos, porque assim se tornam inexistentes, apreciando no seu melhor, as azáfamas dos outros ao nosso redor. Ouvir os "roncos - salvo seja" dos políticos feito barcos que sem os arrais de outrora, barulham os ares em tons diferentes aí Jesus que não há oiro! Pois! Lamberam-no todo. Se não for assim mais e desta forma e, tal e coisa, demito-me! 
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Até já sinto casquilhas ou cosquilhas nos meus calcanhares! 
E eu, curtindo o sol das doze horas ao toque das ave-marias que não o sendo agora, repicam na torre da Cabra desta tão bela Coimbra e aonde de tanto calcorrear me tornei doutor de bizarrias. Lembranças desse tempo de quando essas badaladas tinham som e até cheiro de bronze. Agora são fitas com musica a fingir que dão horas.

coimbra6.jpg Basta-nos os doze meses de socialismo ou social socialismo, ou isso entremeado com diabruras capitalistas, mais pão com chouriço e pata negra para espairecer as molezas dos imperialistas que sempre deixam correr o tempo, quando o não faz sair de feição... Coisas demasiado salgadas para mim que recebo uma miséria de patacas.
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Assim, desajustados à economia, com os burocráticos vícios da democracia, dão-se voltas às vicissitudes das suaves ou suadas angustias dos demais refastelando-se em caldeirões moles, e amolecidos como convêm nas desvirtudes corruptas do engano.
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E nós na impaciência, por não haver oportunidades iguais para todos, refilamos verificando serem os profissionais da política com banqueiros e seus mais próximos, os seus maiores beneficiados. Como todo o fenómeno é temporário teremos de purificar nossas almas tormentosas ou atormentadas sem nos apegarmos a coisa alguma... Meu Rio virou mulola...

coimbra2.jpg Não será portanto, caso de estranhar de muitos de nós andarem com um olho aqui e outro lá mais adiante, com a metade do raciocínio num sítio e a outra metade no ciberespaço. Com fenómenos de engenharia financeira dos bancos BPN ou BES entre outros, uns andarão muito cheios de fórmulas, outros simplesmente à boleia com vazios de ideias, enganados em tramóia de falácia mal explicadas.
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No meu caso muito pessoal, de tão inchado de espantos, desenho-me entre antigos esboços, revendo-me nos desenhos das sombras nos porões do meu Niassa, pois que sou Niassalês...
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Brincando até com o meu nariz achatado, relembro-me de que se de nada posso fazer de bom pelos meus mais próximos, também nada farei para os prejudicar. Não obstante terei de dizer aqui que o Senhor Costa, não nos será a salvação; não irei por isso e agora, vivinho e indisposto com muitas coisas querer guerras, fuzilar quem possa ter uma ideia mais original entre os diferentes deuses ou demónios.

dia185.jpg Demónios dos também diferentes comunismos, socialismos ou mesmo uma terceira sensação desconhecida, chinguiços com estralhos enredados de zingarelhos e outros complicados artifícios. Sim! Vivemos numa permanente mentira e, assim irá continuar. Ainda se visse a justiça andar para a frente e não de lado, ou para trás como o caranguejo!?
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:22
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Sexta-feira, 3 de Maio de 2019
KILUNDU . IV

kilundu: cerimónia de chamar os espíritos ao culto.
Sentado no meu silêncio mastigando resposta calada, Pieter deu dois passos calçados no meu sobre-consciente. ..... Desta feita estávamos ainda em Granada...
NA LAGOA DO M´PUTO - 03.05.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange... No M´Puto

araujo34.jpg Januário Pieter o excêntrico fora de tempo, hoje estava particularmente fértil em saudações. Como se nem tivéssemos estado juntos ou relativamente perto quiz dar-me um aperto de mão bem à maneira dos candengues de hoje: - Mão aberta, batida, depois de punho com punho, ambos fechados e no final uma mão espalmada batida no peito, no meu peito - no coração.
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Senti um calafrio, muita fartura como um três por um de borla, iria sair qualquer coisa muito mais diferente do que o habitual. A kianda estava cada vez mais imprevisível porque saudou-me pela segunda vez como que a ensaiar um truque. Só que desta vez foi em amazulu com um samboniani. Recordando-me de tal saudação, respondi um kunjani, meu!
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- E, porquê tudo isto? Interroguei-o enquanto sinalizava em gesto, o seu aspecto - Porque venho de visita aos mustafás de Alhambra. Tinha de condizer com os meus antepassados mouros, mostrar assim a estes mulungos....

arau155.jpg 

- E para quê, essa adaga aí na cintura? Perguntei.
- Para respeitar as tradições antigas, homem sem arma não é ninguém e eu, não atravessei a kalunga para fazer má figura. Também é uma homenagem aos meus mestres de Toledo, acrescentou. Depois de todas estas explicações sentou-se. Mandou-se vir uma taça de tinto “rioga”e umas quantas chamussas, pois o senhor kianda extra-planetário, estava com uma fome de leão da anhara.
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- Afinal, encontraste resquícios de teus familiares mulungos dinossauros? Perguntei eu com uma intimidade um tanto abusiva.
- Pois! È assim,... vou-te contar tudo: - Meu tio Antoine, o mais candengue, dedicou-se à igreja, foi para padre; esteve com meu pai Lestienne em Burgos a trabalhar nos jardins de “Cartuja de Miraflores” mas, depois roçou madraçamento pelas sacristias do convento até que num dia seguiu integrado numa comissão-à-doca de regulamentar segurança aos peregrinos e as novas visões da estrela-polar. 
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Depois de muitos anos tomando conta de seus fieis e a guarda do incensário da catedral, morreu sem deixar herdeiros. Tenho de lá ir, a Santiago de Compostela rogar preces à sua memória e assim ficar tranquilo na minha missão de kianda itinerante da Globália. Interrompi a descrição de Pieter para lhe mostrar vontade de por lá, em Santiago, nos encontrarmos de novo e, juntos decifrarmos coisas tão ligadas ao M´Puto, mais o “bota fumeiro” e a majestade daquele Pambu N´gila daquele lugar com ligação à nossa N´gola pelos seus símbolos; n´zimbos na forma da concha vieira, uma mabanga diferente das nossas kalungas.

arau158.jpg

- É uma boa. Eu mesmo te vou falar das imbambas cassumbuladas no nosso povo, nesse antigamente e nesse mesmo ali. Combinado, meu! E, Pieter continuou sua descriminação: - Meu pai, como já sabes, esteve em Pernambuco com Maurício de Nassau embarcando mais tarde para Loanda do reino N´gola com os Mafulos, casou com a minha mãe N´ga Maria Káfutila e, mais tarde, ficou como mercenário às ordens dos Tugas com Sá e Benevides, um rico comerciante de escravos. O resto já te contei, não vale a pena recordar por agora.
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Josué Pieter, o 3º mais velho dos meus tios, ficou no “Pais de Landes” tratando de vinhedos em “Vignobles Vallee du Loir” e, por lá deixou muitos primos. O 4º tio mais velho de nome Souston, ficou nos arredores de Paris roçando a vida em “Jablines du Marne”, lugar aonde nós nos encontramos pela primeira vez. Era verdade!
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O quinto tio, Charles Pieter, o mais velho de todos, seguiu o rumo de Burgos em “Leon e Castilla” como Lestienne e Antoine mas, singrou para Toledo aonde se tornou um homem de armas, vindo a ser mais tarde um militar da armada de “La Mancha e Andaluzia”. Foi em “Puerto de Santa Maria”, perto de Cádiz que pelo rio Guadalquivir, saiu numa armada de soberania às novas terras Espanholas de América.

araujo 29.jpg Seguindo escritos antigos, soube que já como capitão dos mares, avançou na descoberta de novos cerros de prata “puesto arriba” do rio da Prata; acabou por ficar num lugar conhecido de Sacramento, perto de Montevideu dedicando-se ao negócio de gado bovino e muares formando tropa de tropeiros, que transportavam mercadorias através dos matos ou vendendo charque aos novos colonos de Cisplatina e Rio Grande do Sul. 
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Esta estória está sopimpa! disse. Estou a gostar! Bem! Por lá deixou uma prole de primos matutos cujos descendentes governam agora o Uruguai. A história deste tio é comparada à do meu pai porque também atravessou a kalunga grande para fazer fortuna. Havia uma lendária “Sierra de la Plata” de nome Potossi procurada desde inícios do século XVI por Alego Garcia e sebastião Caboto.
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Em 1611, quase cem anos depois, Potossi era já a maior mina a céu aberto produtora de prata do mundo; nesse então já tinha à volta de 150 mil habitantes e, sendo o lugar mais rico do mundo originou uma corrida ao tesouro. Charles Pieter homem de guerra da têmpera de Toledo, ambicioso, seguiu naquela armada a pedido de Juan de Villarroel com expedição a partir de Cádiz e Sevilha conjuntamente com outros conquistadores tal como Nunez Cabeça de Vaca, Domingos Martinez de Iranda ou Juan de Ahumada. 

araujo 101.jpg Meu tio Charles seguiu para ali em meados de 1615 para compartilhar tesouros de sonho e pilhagens. A Espanha fez-se assim; com a prata que saiu dali, podiam fazer uma estrada física, uma ponte ligando-a à América - Como meus tios dinossauros, eu e tu (referia-se a mim), navegadores da Globália deixamo-nos alfabetizar na vida e prálem dela. É mesmo uma missão de cumprir dever sem ter ordem nem corpo-delito, à-doka no através da estória dos xicululos.
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Bolas! Fiquei barafundado naquela sapiência do kota Pieter.
Sentado no meu silêncio mastigando resposta calada, Pieter deu dois passos calçados no meu sobre-consciente. Num cadavez mais eufórico, Pieter falava todas as suas razões.
Eu só disse, simplesmente: - Tá bem meu!

araujo153.jpg Ilustrações  aleatórias de Costa Araújo 
Glossário:
Amazulu: - Dialeto Zulu
Samboniani: - Bom dia; como está (em Zulu)
Kunjani: - resposta a samboniani; tá se bem
N´zimbo: - concha, dinheiro antigo do reino de N´gola da ilha Mazenga
Mulungo - M´zungo; branco em Zulu
Adaga: - Punhal em forma de foice usado por muçulmanos
Anhara: - Zona plana e, com plantação rasteira, de clima seco ou semi-desértico e tropical
Pambu N´jila: - Agente de ligação entre o espaço físico e o místico; lugar de veneração ou peregrinação; Lugar predilecto.
kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral
Mabanga: - Bivalve do tipo ameijoa que sangra vermelho.
Imbambas cassumbuladas: - Coisas roubadas; riquezas arrebatadas; jogo de sacar por toque brusco.
Mafulo: - Holandês em quimbundo; Gente invasora da Companhia das Índias Orientais ou Ocidentais; flamengo.
Tropa de tropeiros: - Exército de condutores de burros (Brasil, Cisplatina); O tropeiro era um viajante das zonas agrestes ou do sertão.
Charque: - Tipo de sal; carne seca (Brasil)
Matuto: - Mestiço; filho de branco e índio.
Xicululo: - Gente de mau-olhado; olhar de lado; gente de dar azar.
N´ga: - Senhora
(Continua ...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:09
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Segunda-feira, 29 de Abril de 2019
KILUNDU . II

kilundu: crimónia de chamar os espíritos ao culto.
MERCADO DO XIPAMANINE - Novo encontro com a kianda Januário Pieter, um verdadeiro N´Zambi N´kuluculu
NA ILHA DO CARLITOS - 29.04.2019
Por

soba002.jpg  T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Ontem, um novo dia, demos um forte abraço, convidei-o a sentar-se mas ele continuou de pé como a mostrar a sua nova indumentária e postura de muita banga. O penteado de Januário Pieter era um frisado afro com uma trança a retorcer no cocuruto por uma abertura do seu chapéu, uma quijinga do tipo Cumba-yá-lá tendo uma faixa zulu a contorná-la. 
::::: T´Ching2
Da orelha esquerda pendia um dente de facochero enquanto que a contornar o pescoço havia dois colares formando um conjunto colorido de missangas e n´zimbos; um destes tinha um circulo de madeira de pau preto com um desenho curioso de uma ranhura curva ascendente que entroncava numa helicoide de três circulos num crescendo para a direita e fechando por um cemi-circulo mais alongado indo quase fechar no mesmo sítio de início.

paz1.jpg :::::T´Ching3
Esta enigmática figura, ficou no meu consciente para mais tarde me ser decifrada. Nos pés, trazia umas sandálias em tiras de cabedal e atilhos que se iam amarrar a meio da canela. Vestido, tinha umas calças de vermelho berrante às bolas brancas; nas bolas brancas de forma estilizada aparecia aquele símbolo de curvas em elipse de caracol que quase fechando no mesmo lugar, mais parecia um bico aberto de papagaio. 
:::::T´Ching4
Eu estava estupefeito com tal estilo. Por cima das calças folgadas tinha uma camisa lilás com desenhos na forma de cornos de palanca de cangandala sem cinto a prender, tipo balalaika e, por cima de tudo isto tinha uma espécie de túnica com folhos brancos no final de umas largas mangas. 
:::::T´Ching5
Aquela túnica de uma seda especial tinha as cores preta e rubra como a bandeira de Angola e o mais curioso é que tinha em lugar da catana e a roda dentada, a esfinge de João Lourenço 
com o fundo esbatido de José Eduardo dos Santos. Háka! Eu estafa burro-feito com todo este aparato de n´kondi. Pieter estava um verdadeiro espantalho Xis-pe-te-Ó, super moderno e práfrentex.

luis44.jpg :::::T´Ching6
Até as sandálias estavam feitas em um cabedal firme, reviradas para cima como uma meia lua na forma dum genuíno aladino. Aquilo era demais, uma verdadeira mumia rejuvenecida de kalungas encrespadas. Um extra e vistoso camacoza carregado de zingarelhos. 
:::::T´Ching7
Mas, após a minha mirada, Kianda Pieter falou: - Meu camarada, mano kamba, como estás? Tu, continuas um tipo fixe! Seguiu-se uma pausa sem muxoxo, só por respeito com medo. Pieter mudou mesmo! Arrepiei-me. Que era isto? Mas nós vimo-nos ontem? O kota estava no literalmente. - Sabes meu, rejuvenesci à bessa, uns anos mesmo. Vou até te contar só. - É mesmo! Como foi isso? Perguntei engalfinhado em susto. 
:::::T´Ching8
- É assim, começou ele : - Estive na festa da Muxima, no entretanto esquindivei Kwanza acima, Kwanza abaixo relembrando meus tempos de candengue. Até fui numa rebita mas, mais tarde eu conto só. E Pieter continuou falando. Tinha muitas mocandas na cabeça para contar. - O mais importante nesta minha vida de matumbola mutalo, passou-se em Maputo. 

dia131.jpg

 

:::::T´Ching 9
Kianda é assim mesmo, os metros deles têm kilómetros! E, o tempo vira um era num era... Eu explico: - Por recomendação dum kamba muxiluanda, fui num vai-vem minkisi vip ao Xipamanine, lavei-me na água de cu-lavado de defunto albino preto e cambuta, com a benzedura no N´zambi N´kulukulu, dos miamas de Xi-Lunguine. Estás aver Meu !? 
:::::T´Ching10
O resultado é isto! Eu, só abanava a cabeça. E, ao dizer isto Pieter, fez um gesto longo com ambas as mãos envoltas nos folhados brancos, de cima abaixo indicava o estafermo de figura excêntrica numa simultânea adoração ao tal N´kuluculo. - Pópilas... Eu, estava feito um plimplau. 

dia23.jpg :::::T´Ching11
Glossaário: Quijinga: - gorro de autoridade tradicional Cumba-yá-lá: - ex- governanta da Guiné-Bissau Facochero: - javali preto com dois pares de dentes salientes N´zimbo: - concha, dinheiro antigo do reino de N´gola da ilha Mazenga Palanca: - animal de grande porte e com esguios e longos chifres; simbolo de Angola (Quase em extinção) Cangandala: - local reserva natural em Angola háka: - Irra!,Caramba!, porra! n´kondi: - poder da magia em fetiche, boneco de maldades kalunga: - espírito forte, divindade ou espírito das águas, iemanjá, mar, água no geral camacosa: - maltrapilho kamba: - companheiro, amigo, camarada (de guerra) muxoxo: - sílvido produzido pelos lábios de vento aspirado entre dentes, estupfacto ou sinal de desprezo, sinal de desencanto esquindiva: - fazer revianga, finta, fazer piruetas, bazar dalí candengue: - moço, rapaz, pivete (Brasil), puto (Portugal) rebita: - baila na sanzala ou kimbo, dança de umbigada com as garinas mucanda: - carta, missiva, relatório matumbola: - morto vivo, uma assombração mutalo: - espíritos mortos sem ordem de n´zambi (Deus) muxiloanda/o: - natural de Luanda, camundongo, (quem bebeu água do bengo e apanhou paludismo ainda candengue) minkisi: - agente de ligação entre o físico e o místico, tem poder nos elementos da natureza, (faz chover, faz trovoada), gente com mau-olhado cambuta: - homem baixo, atarracado N´kuluculu: - N´Zambi, Deus na língua Zulu Miama: - preto na língua Zulu Xi-lunguine: - nome aoriginal de Maputo Pópilas: sáfa! Caramba!, c´os diados! Plimplau: - pássaro saltitante, irrequieto (Continua ...) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:08
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KILUNDU . I

kilundu: crimónia de chamar os espíritos ao culto.
Botando fumaça por meu arcabuz de outra geração chamado de canhangulo, fiquei assim matumbola mesmo ..... 
NA ILHA DO CARLITOS - 27.04.2019
Por

soba002.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileio
Estou contente de saber dos meus antepassados, disse Januário Pieter meu escolhido como kianda das mulolas espaciais. Já tinha dito isto em outras vezes mas, agora estava só a preparar um discurso. Agora só quero mesmo ficar no pé duma mulembeira, lá no meu kimbo de Cabo Ledo e, de vez em quando subir com os mwenangolas até Muxima ou Massangano.
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Sim, Ué... A esvoajar minha velhice; ir ao lugar do eco repartido, jangandeando com os maculos, perfurar outras sombras, outras kiandas desastradas que só fazem canvuanza, mesmo. Pópilas, estava falando pelos zingarelhos desconhecidamente familiares...

roxo79.jpg Pieter dava xinfrim de xoto em cima de mim, falando um amazulu impenetrável, banhos de àgua de defunto dum xova-xitaduma do Maputo; parecia ter saído dum d´jango esfumado em liamba com as lamparinas dum matumbola, que fica mesmo no corpo vazio ocupado por um ilundado; um grande chicoxana, mesmo.
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Mazé caté o Zeca Mamoeiro do Rio Seco vai ficar abuamado sem entender nadica de nada... Mas tu já és uma kianda,...meu! Disse eu falando das minhas verdades - É mesmo, mas, no entretanto, é tempo de começar a esquecer e ser esquecido. No futuro, serei lembrado como a kianda n´kuluculu mulungo de toda a kalunga.

sorte2.jpg Meio dia eram já quase, quando acabando de subir a rampa de “Gomerez” e, estavamos a passar a porta “Puerta de las granadas” quando desviei na conversa para um tás-a-ver de visão árabe, ali aonde que a conversa da manhã nos tinha empurrado nesse linguajar de espíritos,...
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Puxa catuta mesmo! Estamos esvoajando no tempo. Como então: Estão nos esperar dentro deste portão d´Alhambra, lugar de muitas sombras, espantos de califas. Chegados à “Puerta de la Justícia”, datada de 1348, reparamos que na pedra chave do primeiro arco estava gravada uma mão aberta chamada de “Al-Hanza” 

noval5.jpg Al-Hanza cujos dedos, significam os cinco fundamentos do Islão, a saber: - A crença de haver um só Deus em sua mensagem a Muhamad, a oração de cinco vezes ao dia, o imposto religioso (a limosna do dizimo), o jejum ou Ramadão e, a peregrinação a Meca ao menos uma vez na vida. 
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Estou fodido! Nunca fui a Meca e vão-me zanguilar quando toparem que só sou mesmo um faz-de-conta. Assim branquela!
Esta porta aberta dava para uma outra fechada havendo no alto desta um espaço aberto de onde, em caso de cerco, os sitiados de “Al-Hamra” podiam fustigar, arrojando pedras, azeite fervente ou chumbo derretido em cima dos atacantes não dando assim, oportunidade a que forçasse a porta. 

granada3.jpg Esta originalidade da arquitectura Nazaríe explicada por mim a Pieter, fê-lo dar um estalido de lingua no céu da boca: - Sukwama! Mahezo!, grande muzua! De quilunza mesmo!
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Passamos ao lado de “La puerta del Vino” um lugar em que funcionava o mercado do vinho lá pelo ano de 1554 e, era em verdade uma fronteira entre o núcleo militar de “Alcazába” e a cidade medieval aonde, em esse tempo, viviam 2000 habitantes; uma porta policromada num intricado rendilhado.

granada4.jpg Como mestre, continuei explicando:- Nesta terra de Árabes, Abd-Allah, instalou-se aqui no ano de 889 e por aqui permaneceram seus seguidores por 603 anos. Saíram ao fim desse todo tempo, quando governava o Califa Muhamad XII da dinastía Nasrí (Nazaríes) no tempo dos Reis Católicos de Espanha e Carlos VIII de França...
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Nota: Tenho de consultar minha fada madrinha  de vassoura piaçaba.... Nem tomei nada, nem um pozinho, sequer... 
Glossaário:
Mwenangola: - Donos de Angola; reis de N´gola
Maculo: - Antepassado
Canvuanzaa: - Confusão; luta; xinfrim
Xinfrim de xoto: - Confusão de bufa; peido doido
Amazulu: - Dialeto Zulu
Xova-xitaduma: - Condutor de cangulo (Moçambique); um monangambé proletário; Condutor de carro de mão
D´jango: - Casa comunitária; forum; sitio de assembleia do povo ou de reunião; sítio só p´ra falar mesmo, ou cachimbar
Mulungo - M´zungo; branco em Zulu
Matumbola: - Morto vivo, uma assombração; um deus-me-livre; alma penada
Ilundado: - Espírito superior
Chicoxana: - Século (Angola); ancião com sabedoria, Kota com suko
N´`kuluculu mulungo: - Deus branco (Zulu)
Al-Hamra: - Alhambra em árabe
Sukuama!: - Caramba!; poça!; Cós diabos; Porra!
Mahezo!: - Tenho dito!
Muzua: - Armadilha; artefacto de prisionar
Quilunza: - Arma de fogo

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:30
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXV


O LIVRO ESCOLHIDO:

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee ... 26.04.2019 
Por 

soba002.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

bookttique0.jpg De epilogo em epilogo sigo-me como um sonho que ora está no M´Puto, ora está em Angola, ora está na Pajuçara do Brasil lambendo as águas como quem lambe o tempo. De cavandela em cavandela sempre me vai dando mais tempo para beber a minha estória e, com ou sem profundidade recordar alguns relâmpagos.
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Lá se vai o tempo de me preocupar com o jardim a ficar cheio de grama ruim, o mato a crescer, as amêndoas por apanhar, os arames a enferrujarem e o tecto do sótão a se desmanchar. Renovando tubos oxidados para no mínimo ter água corrente, reinventando isto e aquilo tal como eu, reformulando-me...

roxo169.jpg O esmalte lascado do lava louças com suas manchas a ficar amareladas por via desse tempo que não para de me atazanar com remendos enjorcados para durar um pouco mais, retirar as bikuatas sem uso que só juntam ratos. Essa mania de amontoar coisas que não mais se vão usar.
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Tenta-se que as coisas sejam diferentes mas, tudo custa dinheiro e, este, está cada vez mais caro. Sim! Tentei que as coisas fossem diferentes mas, no suficiente de entre todas as oportunidades, foi o melhor. Assim falando com a minha empregada Mery de Kampala, vou-lhe dizendo que o tempo anda atulhar-me de velhice...

roxo184.jpg Que para isso necessito espairecer bebendo sua estória aqui ou ali, aonde quer que esteja porque cada vez mais, menos vontade tenho de ir ao seu Uganda. Sei ver o quanto sou cansativo quando falo do ontem e no antes de anteontem, mesmo sem consultar qualquer terapeuta.
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Como é que ia dizer a ele, terapeuta, que nestes últimos dias tenho andado cheio de gases, gases de peidos com flatulência duvidosa e desclassificada. Assim fazendo da escrita remédio para substituir o aspirina 100, torno o sangue mais fluido fazendo dele, o peido, a ponte entre o êxito e os cruzados abismos, ou de outro jeito de entre o breve e o já partido.

logica2.jpg De vez em quando falo com Mery: Eu (disse ela) andava na Universidade de Makerere, a melhor universidade de África; vim para aqui (Inglaterra) trabalhar porque foi através de um cartão que tomei contacto: «Família simpática precisa de mulher a dias qualificada» Qualificada? que quereria aquilo dizer? 
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Eu era qualificada para ser professora ou mesmo escritora! Disse assim para mim na primeiríssima pessoa. O que não levei a sério foi essa de dizeres que Makerere é a melhor universidade de África! disse eu, acrescentado: - Claro que é o que todos dizem, sobretudo quem lá andou!

vot3.jpeg O sorriso de Mery disse quase tudo: - Olha! sempre concordo com quem diz isso mas, aquilo está a cair aos pedaços! Mas, uma empregada a valer tem de saber aonde ficam todas as porcarias para limpar, esses hábitos secretos de aonde deixam o ranho, o penso higiénico, a fruta que apodrece nos cestos deles, os da casa e destinados a papeis... Está bem! disse eu para terminar a conversa nada relevante. 
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:43
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
MU UKULU – XX

MU UKULU...Luanda do Antigamente22.04.2019 
MUXIMA DA MAIANGA . FEROMONAS DA VIDA
- Saber do passado para melhor se entender o futuro... 
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil 

zeca00.jpg Jose Santos - No M´Puto... 

luua32.jpg Não estava destinado hoje falar de FEROMONAS DA MAIANGA mas, e porque recebi uma Mokanda escrita na forma daqueles idos tempos, não resisto transpô-la para aqui porque isto era, foi o nosso Mu Ukulu da Luua. Na forma de introdução direi que mais de 99 por cento das espécies de animais, entre estes nós humanos, plantas, fungos e micróbios dependem exclusivamente ou quase, de uma série de substâncias químicas chamadas de FEROMONAS, para comunicar com membros da mesma espécie. 
::::: 
Assim agradecendo falei: Meu kamba-maior de coração invulgar num nome comum de Jose Santos, tuas amêndoas são sempre gostosas... Pena que andas sempre nos Kissama estudando os carrapatos do salalé e vires aqui mais vezes saudar teu mano! Catravês ficas na desculpa porque és meu ávilo de candengue do tempo tão antigo que nem a Joana Maluca recorda mais lá no seu cúbito do céu... Ver-te-ei com muita brilhantina na TiMatilde...
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A mokanda começa assim e no respectivamente, continua:
TONITO (soeu)......No meu mukifo, aproveito desta tua uuaba Moamba....te mando minhas amêndoas de múkua...para tu bué chupar...como nos mu ukulu dos candengue...porque os kumbu, malé dos amêndoas dos pula....Tambula conta! Xé! É meu agrado pra teu Dia de Páscoa com Ibib, teus monas teus ávilos keridos...

negritas.jpg  Teu mano ZECA nos Kissama, nos estudo pra os creme da pakassa para os salalé dos longevidade dos kota....mazé cheio dos comichão que os tuje faz bué...e borta kubata.....
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TONITO...UUABA PESSOA!!!. Tu num fica zangado com soeu porcauso do meu paragem dos escrito comentário, gosto e dos kandandu? Agora me dá n´guzu te pescar o teu peixinho os MISOSO os cacusso e botar na minha lagoa!!! 
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Te confesso....mazé cadavez os meu inama, os mãos....os n´guzo nos escrito os misoso dos face mazé é desigual do igual dos antigamente malé mesmo, porcauso os vapor nos inicio do Kurikutela butava fumaça bué! Aiué deixou de passar na cidade alta do nosso bairro da Mayanga, os território sagrado dos nossa uuabuama n´denge! 

caricocos.jpg  Então, duns tempo para cá....te digo que todos tão nos mesa dos concertação....dos sindicato nos tactoatacto, matacocommatako matacusentado! Ué! Te digo os lápis, os caneta e também os tinta qué nos tinteiro dos porcelana da Anchieta, colégio moderno, colégio João das Regras, katé os pequeno barril acabou....! Agora todos botaram essa confusão e ameaçam ir no palácio mostrar os indignação..!
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Os tuje querem mais cumbu e diz que tão sem os proveito dos fazer face nos custo dos vida. Assim, diz que nos bolso os cumbu baza logologo acabou katé num dá pra beber copinho do abafado no Rato, Morais, Hernãni da minina Alice ou no Reinaldo...!!! Malé, mesmo...

FRANCES2.jpg Cigarros francês

Então me diz..., tu licenciado katedrático do Rio Seco, Rua dos José Maria Antunes, que ainda continua a ser, se os despesa kiavuluvulu aguenta sem os produção num aumenta kiavulu....Tu sabes, o meu edição, já não tem os subsidio de produção do antigamente...! Tambula conta! Katé escapei katé os camenemene bué de vezes os dias meses anos, fazer o uafo..., porcauso os rolamento dos mutue os esferinha começou a sair, como diz os pula especializado na oficina do Baleizão do ávilo Taric..., diz que diz, ficou gripado!!! Tó lixado...
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Então, me diz só, como os quê ah vou voltar!, Ah! Há os budget assimassim e não podem na Rebita do Deve/Haver ter os massemba nas inana das barona dos bife dos profit...? Então assim num dá para aguentar os despesa .....porque os lucro baixou....porque Lello, os ávilo agora nos moda dos época vem pra fora fumar átoa os negrita, caricoco e deixa as beata pirisca no chão..., 
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Falta só mesmo átoa pra ir no kinaxixi buscar os mercearia; batatadoce, peixe seco, óleo palma, quiabos, jindungu, sal do Cacuaco, azeitonas da Leba.... Agora tu tens os meu parabéns....tu tens o teu n´guzu de torresmo de lagartinha Mopane....,e todos dias botas cada misoso bué comprido....! 

zeca01.jpeg Zeca com Mano T´Chingange  - TiMatilde

Amam´iéé! Tu como consegues ter tanto n´guzu...., os vontade de encher na Kizomba os teu misoso os escrito mais os foto bonitinha....?! Então tu "esqueleto pessoa, menos barriga de ginguba" és igual soeu!!!! Me diz só; tu fumas macanha, bebes maluve, marufu, botas gemadas de avestruz com os aguardente Pitu velho Chico 1935? 
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Temos de combinar de novo ir no Pica no Chão da Libata de granito de Póvoa de Lanhoso...., com os nosso kerido ávilos do Rio Seco...Então, faz tempo, e num quero chorar mais dos pensamento dos cagaço..., meu olhos tão seco....
BOA PÁSCOA ABRIL 2019
Kandandu Zeca 20190421
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Eu, logologo, respondi respeitosamente ligeiro de reco-reco de saudade: Tu - José Santos de um paludismo especial da Jihenda kaluanda - N´zimbos de fabricar missangas como sótumesmo sabes fabricar... que sótu sabes fazer. Te formaste na Universidade do Rio Seco da Luua. Meu mano de matar matrindindis zarolhos quando sóeramos matumbos do primeiro circulo...Aiué...

zeca5.jpgZeca fazendo banga

Vou-te falar nos finalmente: Se a cultura é uma invenção, ou uma construção de actos históricos, nós gente do Rio Seco, feito mulola, katedráticos de muitas estrelas, podemos afirmar que nossas falas, têm de ser colocadas no mausoléu sputnik do nosso Mar da Samba. Isso! Na gaveta mitologia antropológica, porque nós merecemos generalato! - Muito mais que as matubas do mais-velho de Catete. Juro! Vou te botar na estória do MU UKULU como o maior missangueiro do reino da Matamba... 
Igual a tu, só TU... um T´CHIKUKUVANDA ...

GLOSSÁRIO:

Mokanda - Carta...Kamba- amigo...Kissama- parque ou reserva animal...Salalé- formiga térmita...Catravês- então; por conseguinte...ávilo-amigo...Candengue moço, rapaz, pivete...Cúbito- lugar...Mukifo-quarto, recanto, lugar íntimo...Uuaba - assombrosa, espectacular... Moamba- condimentos, comida...Múkua- fruto do imbondeiro... kumbu-dinheiro... Malé - nenhum, nada..Xé- admiração...kandandu- saudação, abraços... N´Guzu-força, potência... Pacassa- búfalo, boi...Pula- português, do M´Puto...Baza- vai embora, foge, afasta-se...Tambula- toma atenção, anota, repara...Konta- atençaõ, ficar de olho...Missosso - conto curto, pequena estória, crónica...n´denge- carinho...espaço mítico...Mazé- expressão de talvez com admiração e dúvida... Cacussu- peixe do rio...Kurikutela- comboio fumaça a apitar, lançar fagulha...Mataco, Rabo, cú, bunda...Ué- exprssão de admiração, é possível?...Tuge-meda, excremento de pessoa...Kiavuluvulu-aumentando, crescendo,subindo...Camenemene- abandonados, relegados...Mutue - de motor com biela e segmentos...Massemba - jeito, trejeito forma de tocar... Inama, perna...Barona- mulher de destaque, m´boa...

kisan1.jpg Mopane-lagarta...Átoa- de qualqueR modo...Macanha- maconha, liamba, fumo forte, canábis...Marufu-vinho de palmeira...Libata-casa...reco-reco- raspando, instrumento de fazer barulho...Kaluanda- de Luanda...N´Zimbo-concha, bivalve sem bicho...Jihenda- saga, luta, forma de acção...Matrindindi- tipo de gafanhoto...Matumbo-burro, no sentido de inculto, tapado...Sputnik - monumento do Agostinho presidente dos mwngolês, gracioso quanto ao desplante ...Missangueiro- que trabalha com missangas...Matamba- Reino antigo de N´Dongo....T´chikukuvanda- lagarto de cores várias
Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:15
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Domingo, 21 de Abril de 2019
MOAMBA . XXVI

MOAMBA . XXVI

Dizem que já estamos no século XXI... 
NA TEORIA DA APTIDÃO INCLUSIVA - 21.04.2019
Gente com quem me fiz gente... Moamba é cozido de galinha feito com azeite dendem. 
Por

soba03.jpg T´Chingange - No Nordeste do Brasil

himba3.jpg Para a generalidade da população brasileira, Exu, é o chifrudo, o cão, o tranca-ruas. Falando assim em tempo de Páscoa, até parece ser uma rebelião aos conceitos cristãos mas, e porque nem sempre domino as modas com rosas de magnólia estampadas na frontalidade, fico-me muitas vezes feito um analfabeto comendo iliteracia, lambuzando-me com um livro entre as mãos.
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Bem! É verdade que só se alcança a sabedoria reconhecendo a ignorância. Creio que já outros o disseram mas é deste jeito que a evolução na sociedade interage, somando amizades por afinidades ou hereditariedades. Caramba, até parece que engoli uma grafonola com palavras caras mas, se não é bem assim andarei por perto.
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Naquele dia que já passou, faz tempo, todos os jornais falam na participação de mercenários angolanos na guerra dos morros do Brasil. Genericamente, um morro é uma elevação aonde se amontoam como baralho de cartas construções que avançam para os matos; matos que normalmente pertencem à riqueza soberana do país - a floresta. 

moc1.jpg Fugir para o mato ou para o morro é um trocadilho que funciona na ilegalidade, construções ao deus-dará escorregando nas chuvas que até ipé-roxo levam, assim como um chá que ao invés de fazer bem mata; de novo, mata. O que resta é isso, vou fazer o quê: Os bandidos ou matam ou morrem, quer-se-dizer fogem pró morro. Portanto não é de admirar haver aí especialistas com tecnologia de ponta, angolanos! Eles são bons nisso!
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Há circunstâncias em que: - Ou mato, ou morro! Tudo a condizer com esse Exu, dia do cão! Separando os boatos das denúncias relevantes desde o topo até o disk-denúncia 181, teremos de somar as falsas noticias também conhecidas por Fake News, que em verdade podem interferir negativamente em vários sectores da sociedade tais como como a política, a saúde e a segurança.
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Assim pensando, não consigo desgrudar do Zumbi esta nova relação com os mwadiés de N´Gola porque, de numa ou mato ou morro Zumbi, ali se foi alojar - um reino chamado de "Morro da Barriga". É assim que encontro o Euclides, um jornalista benguelense a falar com paixão de tudo aquilo imaginado, ultrapassando a realidade; confundindo-me.

moça4.jpg Durante o ataque dos polícias ao Morro da Barriga, viu-se a si próprio com armas na mão, abrindo caminho a tiro, como se estivesse sentado tranquilamente no cinema Miramar da Luua, ou no seu quarto jogando um videojogo. 

nova.jpg O Jornalista da terra do siripipi, retira uns jornais da pasta e lê: - "A polícia procura mercenários angolanos envolvidos na guerra dos Anjos. Um dos polícias que participou no assalto ao morro contou ao nosso repórter ter visto um crioulo alto, vestido com elegância, assassinar com dois tiros certeiros um dos agentes".
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«O policial que pediu para não ser identificado, afirmou que o dito cujo individuo, seguramente um militar, gritava instruções aos bandidos com forte sotaque lusitano.» Seguramente era angolano pois que em seu sotaque abria todas as vogais! 

himba4.jpg Bom! Aquele angolano pelo menos era elegante, bem vestido, tinha um laçarote vermelho e preto parecendo uma bandeira pois que ainda se podia distinguir uma catana e uma roda desdentada. Até deu para ler um CV esvoaçando nas letras: Comando Vermelho. Estes mwadiés são muito matumbos! São incapazes de distinguir uma tomada eléctrica de um focinho de palanca.
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:22
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXIV

O LIVRO ESCOLHIDO - 18.04.2019 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo... estávamos em meados do ano de 1975 - Cada qual fazia o que lhe dava na veneta desde que tivesse uma Kalash à mão... 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro 
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassumal. 
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olímpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira...

guerra01.jpg Já no epilogo dum sonho chamado Angola, o ronco profundo e cavernoso do Niassa fez-se ouvir, minutos antes da meia-noite. Ao bater da meia-noite, o céu da Luua iluminava-se com as balas tracejantes que festejavam a independência de Angola. Mais a Norte, nas margens do rio Bengo, em Quifangondo, as armas pesadas faziam sangue que tingiam o rio que pensávamos ser de todos, mas não era. 
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Aquele ditado de se dizer "quem beber água do Bengo, tarde ou nunca dali saí - Angola" - uma inverdade somada com cânticos de "Angola, é nossa" e tantas outras ilusoriamente fabricadas. Mas isto foram coisas que paulatinamente foram sucedendo desde o "vinticinco" (de Abril de 74) de engano em engano por via dum livro que insurgiu um novo "Portugal e o futuro" escrito por um senhor vaidoso e tinhoso que ascendeu Nas chamas mais vermelhas que não eram as nossas.

guerri7.jpg Nos meses que antecederam o Novembro da Luua, o sol inclemente, humidade a oitenta por cento, o corpo encharcado, a camisa que se torcia e escorria suor feito água, o cheiro a catinga, a cansaço, a medo, o perigo que espreitava a cada passo, a cada instante, traziam uma pessoa em alerta permanente. 
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O medo era medido por musseque, depois por casas, depois por bairro, por rua, por bairro, por atitudes irracionais, nos prédios nas cidades do Norte do Centro e depois do Sul. Ligar o rádio era ouvir um chorrilho de raivas acumuladas, frustradas, provocando uma torrente de violência. 

guerra19.jpg Assim como um acidente de viação sem estória se resolvia aos tiros, uma simples discussão sobre futebol podia destruir um bar. Parece que já ninguém media consequências, que a moralidade era uma mandioca. O Mundo ia caindo aos poucos à nossa volta.
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Luanda estava escaldante, e a cabeça quente gerava inconsequências, insegurança generalizada, sintomas de uma sociedade à beira da loucura colectiva. O MFA, o COPLAD - Comando Operacional de Luanda, os militares oficiais Tugas, os pioneiros do Poder Popular, o MPLA, a FNLA, a UNITA e os misteriosos traidores, viciavam nossa adrenalina envenenando-nos vontades. 

guerra1.jpg Havia inconfessáveis esquemas; havia também muitos estudantes portugueses contagiados pelo espírito revolucionário, branquelas, burgueses encarando com desprezo seus patrícios. Como uma fruta de época, apodreciam as relações entre brancos e pretos, uns idiotas úteis à revolta. 
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Ainda andam muitos destes, por aqui e por ali, justificando-se por vezes com falas gastas, transviadas em subtilezas, falando com sufisma; não tendo mesmo a coragem de se explicitarem...  Se tu sabes e eu sei, cala-te tu, que eu me calarei! Trancas e ferrolhos na porta, sempre salvaguardam as aparências, provocando ainda a desordem nas cabeças de muitos outros. 

guerra22.jpg Do desespero palpável que se abatia inexoravelmente sobre Luanda, pegajoso, sujo, desorientado, também ela assim ficava numa tensão sempre crescente. Por aqueles dias, o aeroporto era um dos locais mais concorridos da Luua. O outro, era o porto da cidade - toda a gente queria sair dali para fora. 
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Durante décadas, o regime de partido único, o MPLA mantém-se no poder, sobrevivendo até aos dias de hoje, depois de um golpe de estado e de uma mortífera guerra civil travada com a UNITA, a qual acabaria em Fevereiro de 2002 com a eliminação física do seu presidente, Jonas Malheiro Savimbi. Os desmandos continuaram, continuam e continuarão até um dia, roubando quanto podem. Isto é actual - todos o sabem! Mas, um dia, tudo mudará!...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:17
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019
MU UKULU – XVIII

MU UKULU...Luanda do Antigamente12.04.2019 
MUXIMA E MASSANGANO - Uma visita à Fortaleza de S. Miguel. Saber do passado para melhor se entender o futuro...
Por 

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil 

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro 

Mu Ukulu48.jpg Serpa pinto e Hermenegildo  na travessia de áfrica

Cabe aqui fazermos uma pequena visita rápida à Fortaleza de S. Miguel para revermos a chamada "Lusíada do Kwanza" em um tempo muito recuado - Massangano. Fazermos a leitura dos azulejos azuis mostrando a história de Angola que foram recuperados em uma data recente. Em 1764 há uma mudança brusca com a chegada de um novo governador geral. Era o Capitão Geral de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a mando do Marquês de Pombal “primeiro-ministro” em Portugal. 
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A cidade de Sumbe, antiga Novo Redondo, foi fundada por Sousa Coutinho em homenagem a ele mesmo, por ser o Conde de Redondo. Sousa Coutinho, conhecido como o “Pombal de Angola” começou, de imediato, os seus objectivos com a
ocupação sistemática da costa entre os paralelos 14º e 18º Sul, com reconhecimento do Cabo Negro, pois que só existia ocupação até à latitude de Lucira (14º 30´Sul), ao norte de Moçâmedes. 

Mu Ukulu47.jpg A nova costa, pretendida por Sousa Coutinho, diz respeito à actual Costa dos Esqueletos e, abrangia uma faixa que ultrapassava a foz do rio Cunene, faixa que hoje pertence à Namíbia, perdida porque os portugueses não tiveram meios e gente para tão exaustiva tarefa de ocupação. Já se tinha conhecimento da foz do rio Cunene, através dos relatos (1678) de um frade capuchinho chamado Cavazzi e, que viveu em Angola mas, a sua ocupação estava longe de ser considerada a ideal.
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A fixação de colonos direccionou-se para os planaltos de Bié e Huíla, provenientes de Açores, Madeira e Brasil por via de haver aí um clima mais propicio à sua fixação. Junto à costa tudo foi mais difícil porque as doenças dizimaram os poucos aventureiros que para lá iam. Novo Redondo era por este motivo conhecida por ser o "cemitério dos brancos".

Mu Ukulu46.jpg Sousa Coutinho, foi o único Governador a proibir a guerra do Kwata-Kwata (Agarra-Agarra), mas infelizmente, mal ele virou costas, recrudesceu com mais ferocidade. Essa guerra, era feita pelos caçadores de escravos que mandavam os seus capatazes agarrar tudo quanto fosse possível de escravizar. Kwata ainda é a palavra que se grita aos cães para agarrarem qualquer coisa.
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Devido à ausência de vitaminas, presentes nos vegetais e frutas frescas, em Luanda, morria-se com escorbuto. As Delegacias de Saúde surgiram muito mais tarde tal como o começo do cultivo de hortas para daí se obterem os produtos alimentícios, verduras e, cereais nos rios relativamente próximos da cidade, o Kwanza e o Bengo. 

Mu Ukulu49.jpg Como complemento, criar estabelecimentos e grandes armazéns de víveres para alimentar a capital, uma ancestral forma de Armazéns do Povo ou grandes superfícies que surgiram após a independência, por via do escoamento de comerciantes maioritariamente brancos expulsos ou recambiados para seus eventuais destinos de origem no ano de 1975...
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E, foi naquele então que se deu início ao desenvolvimento industrial local com extracção de enxofre em Benguela assim como o cobre, o sal e salitre e, até ouro. Os diamantes surgiram mais tarde originando em exclusivo de exploração a uma empresa majestática com o nome de Diamang...
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Criação das fábricas de cordoaria. Estabelecimento do presídio de Novo Redondo que se tornou no tempo, a capital da província do Cuanza Sul. Criação da manufactura de carnes secas, couros e sabões, macaco e outros. Finalmente, o empreendimento que marcou o seu mandato: a criação da fundição de Nova Oeiras, na confluência do rio Luinha com o rio Lucala, a 5 km a leste de Cassoalala.

mU uKULU42.jpg Fote presidio de Massangano

Chegou a ser extraído ferro, e exportado para a Metrópole, com grande sucesso. Trabalharam nas minas 400 africanos “livres e sem constrangimento” segundo o dizer de Sousa Coutinho. Teve o condão de ter acreditado na potencialidade dos africanos, tendo escrito: «Sempre os negros trabalharam o ferro das minas de Nova Oeiras e dos muitos outros lugares do mesmo reino; e têm tal propensão para aquele trabalho que se sobressaíram como bons ferreiros. 

Mu Ukulu45.jpg Para esta fundição, um embrião de uma futura siderurgia, se continuada, foram para Angola 4 mestres de fundição, oriundos da Biscaia mas saídos do Brasil. Estes,tiveram fins prematuros - um ano depois da chegada! Também foram para ali mestres da Bahia; este, desembarcaram em Benguela, tendo desembarcando mais tarde em Luanda quase mortos, acabaram poucas horas depois com o tal de paludismo. Mas apesar destes infortúnios a fundição prosperou. Quando Sousa Coutinho regressou a Portugal em 1772 a fundição era um sucesso.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:09
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Quinta-feira, 11 de Abril de 2019
MISSOSSO . XXXIII

N`ZINGA E O FALA KALADO – 4ª de Várias Partes – 10.04.2019
Por

soba15.jpg T´Chingange - (No Nordeste brasileiro)
Nélito Soares foi assassinado à queima-roupa na Vila-Alice pelos comandos Tugas já depois do 25 de Abril de 1974, ainda debaixo da Administração de Portugal. Assim se pensava ter sido até o misterioso encontro entre o T´Chingange e o tal de FALA KALADO no aeroporto Internacional e do Terminal Doméstico numero DOIS de Guarulhos de São Paulo.

missosso2.jpeg E, graças ao “Morro da Maianga” consegui descortinar um pouco mais a minha alhada aqui comentada no meio de uma fricção ficcionada… Uma meia inventação em que só o tempo descortinará como verdadeira, essa morte do Nélito Soares, o mesmo FALA KALADO dos MISSOSSOS a virar lenda.
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Quanto ao Coronel FK, aparecerá nos próximos episódios mas em tempo de malembe malembe e da frente para trás porque os acontecimentos andaram muito mais rápidos do que a minha escrita e, recordar o passado, é forçosamente como fazer reverdecer erva sintética - uma trepanação complicada. 

oscar4.jpg Nesta tarefa de dar vida aos matumbolas plastificados, só mesmo o MPLA se pode considerar perito de primeira. Naquele então de 1974 e 1975 estes e os Tugas foram especialistas de dez estrelas. Mas, e, também porque nossas vidas assim foram determinadas, andarem para trás como o caminhar dum caranguejo robotizado. E, há muitos que continuam assim, robotizados, amaciando a podridão duma nação...
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Assim, só poderei dizer que FK (Fala Kalado) ingressou na UNITA posteriormente à sua própria morte (aparente) e tomou o nome de Fala Kalado (Fala como agradecimento às Forças Armadas de Libertação de Angola - FALA e Kalado por ser sua condição "sine qua non" secreta). 

paulo7.jpgAinda não eram seis horas da manhã, o sol estava erguendo-se ao nível do horizonte mas ia já nas silhuetas dum sexto andar e, eu na água fazendo exercícios. Hoje excepcionalmente fui abordado pelas alforrecas, águas vivas roçando seus fios raivosos nas minhas duas quinambas; coisa suportável e, segundo se diz benéfica para reduzir a artrite.
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Estive bem perto de duas horas dentro de água falando com um casal vindo de Pacatu de Minas Gerais, enquanto me mexia. Já sentado no banco corrido de cimento cru e à sombra dos coqueiros do calçadão, bebo minha água de coco comprada ao Jefferson. É bom lembrar aqui que este cidadão antes de iniciar suas tarefas e ainda, estando eu na água, correu a dar um mergulho de corpo inteiro. 

tonito16.jpg Jefferson após o mergulho levantou as mãos em adoração para o céu, orou ao seu Deus, ou ao paínho Cisso cantando um oração; de onde eu estava os dizeres eram monossilábicos, parecendo uma zoada carregada de muitos amém e estando eu assim pensativo nestas minudências da vida, aproximou-se um senhor já velho, camisa florida, cor e jeito de um cubano Caribenho.
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O chapéu de matuto do sertão não lhe conferia um esmerado gosto; fazia rodar em sua mão esquerda umas missangas feitas de pequenos búzios; Era assim pró moreno e dum perfil ginasticado, embora um pouco encarquilhado no rosto e na orelha esquerda. Sentado a meu lado e depois de uns curtos suspiros pude ouvir: Têm noticias de Kalacata? Não havendo mais ninguém ao nosso lado, deduzi que a pergunta era para mim.

nasc2.jpg Num repentemente minha massa encefálica, despertou meu astigmatismo e como um raio lazer caiu na realidade do nome afiando-me os olhos num só. Kalacata foi alguém de minha intimidade de quando eu fui Secretário de Informação e Propaganda do Comité da UNITA na Caála, também chamada de Robert Williams. Assim brutefeito, olhei para ele mais de frente e, tive um susto: - Era ele, o FK!
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Ambos nos levantamos e, sem nada dizer, nos apertamos num longo abraço. Minha cabeça convulsionava-se em desespero para entender este encontro assim tão inesperadamente esperado - tão súbito! Em verdade, sempre o seria em qualquer momento - estava ali a fera! O FK...

IMG_20170823_142728.jpg Titubeamos aos poucos as falas, assim como um motor com falta de ar no carburador e, desengasgando coisas recentes falamos coisas menores, como que a apalpar terreno e, lá me pediu desculpa por não me dar a atenção devida no aeroporto de Guarulhos. Disse-lhe que isso não era assim tão importante.
Em realidade mentia, agora com a fera ali tudo era importante. E, com tanta coisa para dizer, saímos dali para dar continuidade em outro lugar. Não é de admirar que estejam curiosos porque eu, também estou - e muito!
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:31
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MOAMBA . XXIV

HOJE É DIA DE LA LYS ... 10.04.2018
CHOVEU MAIS DE DUZENTOS MILÍMETROS DE ÁGUA NO RIO DE JANEIRO - UM CAOS... E, CONTINUA A CHOVER... NOSSO SENHOR ABRIU A TORNEIRA DO CÉU...
Por

t´chingange2.jpg T´Chingange - No Nordeste brsileiro

araujo181.jpg Já tinha escrito: A FÉ E O TRIBALISMO... Estivesse eu na Lagoa do M´Puto e iria depor uma coroa de flores a todos aqueles e, foram muitos os que tombaram na guerra. Na madrugada de 9 de Abril de 1918, (há 101 anos) dezenas de divisões alemãs irromperam pelo sector português da frente, defendida pela segunda divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP). 
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Em poucas horas, os portugueses perdem 7500 homens entre desaparecidos, mortos, feridos e prisioneiros, naquela que ficaria conhecida pela batalha La Lys. Um oficial escocês, escreveria uma longa carta elogiando as acções de um soldado chamado Milhais. 

lys1.jpg Pelos seus actos recebeu a Ordem Militar de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Depois de receber a condecoração, seu nome mudou de Milhais em Milhões. É nele que penso mas e também, em todos os que no Rio de Janeiro e no dia de hoje, sofrem uma crise de chuva... Uma batalha de vida que toca também a milhões...
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Nos lugares aonde se ministra a palavra de Deus, tornam mais suportáveis a tirania, a guerra, a fome, a chuva ou seca, bem como as piores catástrofes naturais. Tragicamente, as grandes religiões são também uma fonte de incessante e desnecessários sofrimentos pois que, constituem um entrave à compreensão da realidade.

lys02.jpg E, a realidade é tão necessária para se compreender e resolver a maioria dos problemas sociais em nosso mundo real. Não há como satisfazer a alma tendo tantas definições e tanta confrontação entre as "Igrejas" - umas contra as outras e, como se tudo na historia ou estória, fosse um simples tribalismo com criações fantasiosas.
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A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelas pessoas sábias como falsa, e pelos governantes como útil. A aceitação por parte de um crente de uma dada estória da criação, e dos relatos de milagres que esta outorga, dá-se-lhe o nome de FÉ.

lys3.jpg A FÉ religiosa oferece aos crentes enormes benefícios psicológicos: Fornece-lhes uma explicação para a sua existência e, faz com que se sintam mais amados e até protegidos do que os membros de qualquer outro grupo tribal. Tudo isto para dizer que a causa do ódio e da violência é a FÉ contra a FÉ. Um verdadeiro instinto tribalista... Embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não nos ver, fazendo-nos sofrer por culpas alheias.

lys2.jpg Teremos por isso de ficar nesse estranho silêncio, uma forma de ver, obedecendo ao princípio do NADA, esperando as mudanças no tempo ou do bom censo, deixar acalmar o pó fino dos caminhos aonde existem sonhos feitos becos, um sítio sem saída... Esperando o tempo...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:49
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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019
MALAMBAS . CCXIX

TEMPO DE CINZAS – Domingo - 07.04.2019
– MALAMBA é a palavra 
- Boligrafando estórias em cor vermelha… 2ª de várias partes

Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

soba22.jpg Sete horas horas e vinte minutos do dia 07 de Março. O sol queima a orelha e já bebi meu coco frio à beira da Kanoa; acabei de mudar meu chapéu de sol e cadeira mais para a berma da água porque o mar está a secar, maneira se de dizer aqui que a maré está a vazar. junto ao carro do coco encontro meu vizinho sozinhando sua velhice com um copo de coco de cor amarela. Será caipira? Será whisky? Xavier é o nome dele; um deste dias meti conversa perguntando que tal estava a caipirinha mas ele respondeu com cara de pau, que só era água de coco. Às tantas ele é evangélico e também abstémio... 
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Assim, fiquei quase amigo de Xavier, porque nossas conversas são aos solavancos sem pontuação nem ponto e virgula. Mas, hoje Xavier perguntou-me se a água de coco que levei para casa em uma garrafa de 1,5 litros estava sabendo bem. É que a dele, depois de esperar o resfriamento com seu whisky estava intragável. Disse-lhe que o produto dos cinco cocos estava só sabendo um pouco a coco velho. Que por esse facto tinham pouca água dentro.

araujo000.jpeg Xavier fala: Rapaz...: Quando botei o copo à boca, água de coco esfriado na geladeira o negócio estava, sabia mal, parecia veneno, sabe! Minino!... Lembrei-me de você, que ficou no prejuízo! Até disse pró meu filho: Aquele moço foi enganado... Tem cada gentinha, a gente paga e fica assim, noé!? Tá mal... Mas afinal o Senhor teve sorte.
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Negócio gozado, Seu Xavier começou por me chamar de moço, passou para o cara e minino, agora de Você e Senhor. Não demora Seu Xavier está me tratando por vosmecê, ou dôtor com mais vosselência, negócio gozado, mesmo! Estava assim taciturnado olhando os matutos de arredores de Palmeira dos Índios gozando a praia de água salgada e molhada, quando toca meu celular - telemóvel do M´Puto. Ólho - chamada internacional em roaming. Não fosse quem era e teria desligado na ora.

DIA107.jpg Era Agualusa a ligar-me de Swakopmund da Namíbia, pode!? Já em Curitiba, em uma apresentação em feira de livro me tinha telefonado. Pois, já estava avisado; não foi uma inteira surpresa porque nesse então disse que estava quase de partida para ir a Etosha Pan ver animais. Todo entusiasmado disse que estava quase a tomar o balão para ver as dunas em volta das milhas e particularmente da número 45 que em tempos eu mencionei. Pois! E aí... Em verdade já nem me lembrava de lhe ter dito. Foi ele na sua forma cusca que leu em meus rascunhos... também tem esse hábito de vir beber às minhas mulolas e t´ximpacas .
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Pois então, estava no Deserto do Naukluft a Sul de Swakopmund. Só me telefonou para desemperrar sua admiração: - O balão tinha meu nome escrito em letras coloridas "T´Chingange". Isto é de tua propriedade? Perguntou de forma repetida. Resposta minha, rápida: - É... Como devia estar a gozar comigo teve esta desconcertada resposta mas, pelo andar da conversa a coisa era mesmo a sério. E, como a curiosidade mata, deixei ficar por isso mesmo, talqualmente.

DIA106.jpg Isto há coisas! Quando do telefonema feito de Curitiba tinha-me dito que o Coronel Fala Kalado andava por aqui, em Brasil. Ora isto já era do meu conhecimento pois que nos tínhamos avistado em São Paulo, no aeroporto de Congonhas, terminais um e dois. O meu intriganço era o de saber o que é que ele, Agualusa, sabia de nossos relacionamentos. Mas, agora que chove - doze e trinta, não são horas de voltar atrás na descrição nem discrição. Talvez mais tarde
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Despedi-me dele assim: Cuida-te, andas a pôr o Cristo Rei sempre de costas e podes ter graves problemas. Deves saber que agora Ele, está acima de tudo. Bem! Já antes, aliás sempre esteve mas agora faz parte do slogan constitucional: isto acima de tudo e Deus acima de todos... 

agualusa2.jpg Não quis ir mais longe por modo a deixá-lo confuso com as particularidades e, se bem o conheço, irá direitinho falar com a osga gorda que nem um crocodilo depois de comer um veado. Conferenciará com ela como o Palmares com seu Anjo Azul. No fundo, no fundo, ainda bem que não arranjou uma louva-a-deus. Ora, porquê! Porque essas bichonas comem os machos depois de copular. Isso! Depois de rebolarem na cama...

Ilustrações de Costa Araújo
(Voltarei ao assunto...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:59
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Sábado, 6 de Abril de 2019
MU UKULU – XVII

MU UKULU...Luanda do Antigamente06.04.2019
Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn...
Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil
Na Luanda antiga, após o uso das selhas surgiram os tanques de lavar roupa feitos em cimento. Eram da altura suficiente para se poder esfregar anatomicamente na rampa ondulada, a roupa que era molhado quanto baste, na bacia quadrada com água; este era colocado numa parte sombreada do quintal com telheiro ou árvore. Na parte mais baixa tinha um ralo que por meio de um tubo fazia despejar a água para o canteiro do pátio com chá caxinde, bananeiras ou plantas que tolerassem a água saponácea.

monangambé.jpg Na casa dos meus pais na Maianga, Rua Maria José Antunes, bem perto do Rio Seco, uma mulola que só levava água quando chovia, havia um destes tanques situado bem ao lado de um pombal e galinheiro, tendo como abrigo a sombra de uma mandioqueira. Havia uma mangueira que conduzia a água para um canteiro com chá príncipe ou caxinde, uma trepadeira de lufa e um alto mamoeiro.
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A grande maioria da população negra não dispunha de meios para ter o suficiente conforto; as suas cubatas não tinham água corrente no espaço habitacional, sua renda era insuficiente ou mesmo miserável. Os bairros populares começaram a surgir nos subúrbios de Luanda por iniciativas municipais mas, não dava para contemplar a grande afluência de gente do mato para a capital.

Mu Ukulu23.jpg A maioria da população luandense, maioritariamente preta dos musseques e cortiços de brancos nos arrabaldes, podia ser classificada como pobre ou remediada. De realçar que a maioria dos empregados de mesa dos cafés e restaurantes na área central de Luanda eram brancos. Eu cheguei a comprar jornais a ardinas brancos e até a engraxar os sapatos com engraxadores brancos também - em plena Mutamba.
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Houve a preocupação da administração colonial incentivar a miscigenação nestas humildes funções ocupando o branco em actividades de porteiros, contínuos, carteiros, pedreiros, coisas de escalão baixo levando até, a que visitantes de outras nações europeias criticassem tal comportamento. Tal submissão não mereceu minimamente a atenção quando da descolonização.

niassa5.jpg Como grande parte das casas não tinham rede eléctrica encanada da L.A.L., assim, nas mais modestas, o chuveiro quando não estava dentro de casa, era colocado fora dela em um canto do quintal, resguardado dos olhares curiosos pela construção de um cubículo com paredes de tijolo ou mesmo aduelas de barril. Para o banho o ritual era trabalhoso.
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A água era previamente aquecida em uma panela ou lata proveniente de azeite ou tinta que era posta em um fogão ou até uma fogueira montada no quintal com pedaços de gravetos bissapas ou chinguiços, restos de madeiras. Após aquecimento a água era derramada em um balde de chuveiro que depois ea misturada com água à temperatura ambiente.

Mu Ukulu34.jpg O chuveiro constava de um balde de chapa zincada ou mesmo lona apertada que era pendurada em uma trave ou estrutura de metal por meio de corda que corria em uma roldana. O crivo do chuveiro era metálico abrindo ou fechando por intermédio de um fio, uma torneira em latão. Era em tudo idêntica aos utensílios do geómetra Gago Coutinho quando da definição da fronteira angolana.
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A selha era outra opção para o banho, mas com a indispensável ajuda de uma caneca. Era normal em muitas casas de banho o tão familiar rolo de papel higiénico ser substituído por papel de jornal cortado em quadrados e pendurado por um arame afilado bem junto à sanita. Estes teriam de ser bem amassados para poder fazer a função com eficácia.

Mu Ukulu20.jpg Talvez só a partir de 1955 é que começaram a surgir os rolos de papel higiénico nas casas. Até então os jornais tinham a função de leitura e de limpeza. O pequeno comerciante também usava o papel de jornal para fazer embrulhos, acondicionar, feijão, milho, fuba e variados cereais. Que me lembre havia um só balneário público em toda a Luanda por alturas de 1965 a saber um que ficava no largo bem em frente dos Correios - bem perto da antiga "Porta do Mar".
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Para a lavagem de mãos e banhos usava-se os sabonetes lifebuoy e lux em substituição do sabão azul, também conhecido por "sabão macaco". Havia também o Clarim com mais potassa em sua composição. Os candengues depois do banho lambuzavam-se com brilhantina ou vaselina dando uma de actor de cinema Errol Flynn... Tempos do "pinto calçudo", calcinhas ou ainda "pipi - cheio de banga"... Para agrado das "garinas"...
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 02:23
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XXI


-A cigana leva as mãos a cheirar e: Cheiram a fumo, a pólvora. Cheiram a sangue! - «Eu sou daqueles que vão até ao fim.» ...

Recorda ele só para si a frase de Mário de Sá Carneiro em carta a Fernando Pessoa... 04.04.2019
Por

soba0.jpeg T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira) 
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa 
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo 
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador 
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira 
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz 
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos 8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho 
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho 
10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil. 
11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores …Ariano Suassuma criar loja virtual.
12 - O PADRE CÍCERO que eu conheci - Olimpica editora de Juazeiro - Amália Xavier de Oliveira.

rio8.jpg ::::::204
De novo volto à escolha do livro DOIS do Agualusa, e entro num lugar da Luua com Euclides, o benguelense a espreitar através da janela do tempo e, ainda a tempo de ver os garotos (pioneiros do PP - Poder Popular) pontapeando o corpo do comerciante. Era na avenida Brasil da Luua. Outros candengues saem de dentro, carregando caixas, biscoitos, fruta e latas de refrigerantes.
:::::205
O adolescente que parece comandar o assalto arranca uma pequena placa branca de um passeio, num vaso já seco que em tempos tinha um ibisco vermelho e, pôe-se a dançar com ela. Nesta placa tem escrito em tinta negra: «Cuidado - Veneno». Debaixo destas palavras distingue-se o desenho de uma caveira com duas tíbias cruzadas. 

rio11.jpg :::::206
As parecidas tíbias com o sonho, que acabou em NADA naquela terra que nem madrasta foi, foram vistas por mim em 2002 além Sumbe, além Kanjala. Nossa cor denunciava-nos sobremaneira como os "filhos do colono" - Se não foste tu, foi teu pai! Tudo vinha ao de cima na forma de raiva, por via dos contratos das roças, das grilhetas passadas, das cangas, masmorras e tangas feitas quando no mundo, ainda tudo era feito de cipó e giesta de matebeira. 

soba03.jpg:::::207
Aquilo era Luanda. Na pele do Anjo Azul, de tão translucida viam-se as veias como rios à deriva. Palmares, o supranumerário da rede de candongueiros e vendedores de armas ligeiras, pesadas e de com e sem recuo, segue mansamente, com a ponta do dedo. Descobrindo-lhe as origens vai soletrando pensamentos em voz alta: Kwanza... Tombo... Cunhinga... Sumbe... Cabo ledo... Kangala.
:::::208
O Anjo Azul Cubana, ri-se. Assusta-a o mistério daquelas palavras - O que significa isso? - Estou a cartografar-te. Esta é a costa angolana. Do outro lado fica o Brasil. Aqui está agora o Japuará... o São Francisco... Piassabuçu... Jaraguá... Pajuçara... Jacaressica... Guaxuma... o Xingu

rolam0.jpg :::::209
O Amazonas perde-se na mata Atlântica húmida como um sexo.
Palmares beija-lhe o sol rodeando o umbigo. Porque não deixa tudo e fica só comigo, diz o Anjo Azul fervendo em calores - fica só assim, me abraçando... Assim de fervuras arrepanha-lhe os cabelos encaracolados do aconchego. 
:::::210
-Você tem de me dizer que me ama com convicção! Não é só dizer que me acha gostosa, não, visse! - Acho-te lindíssima...Tenho medo de me apaixonar por ti - diz isto de olhos fechados... Quando os reabre ela está em pé diante dele - É melhor você não aparecer mais aqui. Está bem, foi a resposta. 

sol4.jpeg :::::211
Palmares olha suas mãos. As palmas claras, a linha da vida quebrada a um centímetro do pulso; um perfeito M na antiga escrita romana. Uma vez, em Lisboa, uma cigana tentou ler-lhe o futuro. O que quer que tenha visto assustou-a. Perplexa olhou-o gritando: « Popilas - poças - cunkatano! Este Gajo não existe!» 
:::::212
A cigana leva as mãos a cheira e: Cheiram a fumo, a pólvora. Cheiram a sangue! - «Eu sou daqueles que vão até ao fim.» Recorda ele só para si a frase de Mário de Sá Carneiro em carta a Fernando Pessoa. Parece que nem falas nem pensamentos são seus porque o NADA, de novo se verificou nas muitas averiguações. Mas eu, não fui - Juro!

tabaibos estofo.jpg :::::213
Um rapaz de de grandes olhos negros, aliás, todo negro e com um chapéu de feltro na cabeça, encara-o com uma expressão gelada. Fala. Há uma voz de velho, kota e rouca, e aos soluços sibilantes: - Não há ninguém aqui...

tenerife7.jpg Do T´Chingange: - A vida é feita de NADAS, de grandes serras paradas à espera de movimento. Searas onduladas pelo vento... Relembro as palavras de Torga numa terra pintada de branco, barras azuis com cheiros de poejos...
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:30
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Terça-feira, 2 de Abril de 2019
MALAMBAS . CCXVIII

ORFÃOS DA TERRA - 02.04.2019
Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro
Encorujado nos meus farelos antigos, queimo as pestanas na praia da Pajuçara com sol intenso!… Sim! É tudo mais do mesmo! As algas, o mar verde e azul e edeceteras... Mas hoje passeando no calçadão, já quase chegando à Jatiuca um felizardo da terra todo vestido de azul, sapatos e meias azuis, calções e flanela azuis, chapéu tipo boné quico azul e, até uns óculos reluzentes azuis alocromáticamente fosfóricos, faz-me um rasgado cumprimento: - Bom dia Major!...
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Não é a primeira vez que o vejo sempre contente e falador saltitando passos com a ajuda duma muleta - no lado esquerdo. Seria falta de cortesia não responder com um Bom Dia mas, a chuva em verdade começava a cair de mansinho.

spi3.jpg Este tipo deve ser portista! disse cá para mim na certeza de que seria um outro clube aqui da terra do Brasil com ascendentes de dragão, bichos de cuspir fogo parecidos com outros pré-estóricos pintos da costa - dromedários o quanto baste para serem genuínos camelos.
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Nesta capacidade de repetir discursos já gastos para que tudo fique na mesma e, porque tenho ideias e ideais, passei o tempo da vida a perder amigos. Quando tudo me leva a crer que os amigos são o que penso, normalmente, a determinada altura já têm respostas para as perguntas que eu ainda não lhes fiz e isto, indispõe-me sobremaneira. 

spi0.jpg Por vezes também é o contrário disso sem eu ter as respostas adequadas ao momento. Assim com o meu peito séptico dispus-me a fazer o trajecto de hoje caminhando no calçadão contemplando as imprevistas contrariedades que sem culpa formada me fazem passar o tempo. Os sofistas sempre me desnortearam... E, assim fui galgando metros.
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Passei por muita gente de tanga e sunga que gozam sua vida em qualidade de 30 graus centígrados e, creio também até muita desta gente, ruminava como eu silêncios pelos erros alheios de muitos e zelosos assessores. Assim, entalado na charneira de entre a raiva e o vazio derramava-me aos poucochinhos perfilava-me assim como aquele outro cocho de mente azul, por cinco quilómetros. 

morte3.jpg Assim compenetrado no distraimento, ouvi de mansinho uma voz que sinceramente, não reconheci. Era um vulto com contornos de gente camuflado de assombração e com um monóculo encaixado na orbita ocular do olho direito: “ O destino faz muitas armadilhas à volta da gente e das suas intenções impedindo-as de se poder fazer o mais desejado”.
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Caramba! Era mesmo o autor de “Portugal e o futuro”, o livro premonitório do Vinticinco de Abril, isso mesmo! António de Spínola sem tirar nem pôr e até trazia uma boina e um pingalim, espécie de bengala flexível, de couro ou rabo de raia com a ponta a terminar em uma aselha de cabedal; spinolando o ar, batia seu pingalim, punho com mão e repetia; um gesto que me dava uma desconcertada indisposição. 

sorte4.jpg Gostava de saber a razão que leva alguém a usar um monóculo? É que, até um indivíduo que é cego de um olho, usa óculos normais! Interroguei-me sem levantar questão! Ora! Tarde piaste! Logo agora aparecer-me este general vaidoso para me relembrar as merdas que tanto quero esquecer. Não pode Ser! Você é o general Spínola? 
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Cá para mim o que o homem queria era ganhar carisma… Primeiro foi a boina! Mas, teve necessidade de um monóculo. Em termos práticos para que serviria? Para ver ao detalhe as minas e armadilhas ou para intimidação dos inimigos? Ando deveras preocupado porque parece que isto, só sucede comigo. 

sorte2.jpg Depois, só para chatear, mais tarde decidiu usar um pingalim! E, luvas de couro preto! Este absurdo só pode ser mesmo uma assombração! Pois bem, se o é, vá-se embora de vez porque o que tenho lembrado de si em filme e a preto e branco está descolorido e, até desfocado! Depois, a mesma vozinha falou: “Sabes! O passado vem sempre ajustar as contas antigas!” Disse isto, sem mais explicações, como se eu não o soubesse. Bem feito seu cara de pau.
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Tal como veio, assim se escafedeu! Ouvi assim uma chiadeira irritante como um berro de osga languinhenta a rir-se e, a figura difusa foi-se, como se foi no seu real pós-guerra de tugi, criando em nós, babancas, um orgulho nacional. Merda de orgulho este que me tornou num ORFÃO FORA DE PORTAS.

geringonça1.jpg Apeteceu-me perguntar-lhe: Viste a merda que fizeste? Mas, entretanto já nada ali estava, só pude ver o farol raiado de branco e vermelho na Ponta Verde a recordar aos patrões-de-costa e afins que ali há rochas chamadas de recifes. 
Tudo ficou assim, sem mais nem porquê!? Abril....
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:38
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Terça-feira, 26 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXVII

TEMPO DE CINZAS NO MIAÍ DE CORURIPE – MALAMBA é a palavra – 26.03.2019 
- Boligrafando estórias em cor vermelha…1ª de várias partes
Por

soba15.jpgT´Chingange - No Miaí de Coruripe - Nordeste brasileiro
Eram umas cinco horas e trinta minutos do dia 23 de Março, um Domingo. Fui fazer o café da avó bem à maneira da roça da Ti Jacira, uma encantadora senhora com 87 anos. Ti Jacira levou toda a vida dedicada aos filhos e netos de outros mas, que se tornaram dela. Ela nunca se casou mas, como uma assistente social que era, levou tão a peito sua actividade que assumiu ao longo da vida filhos de outros progenitores sem fazer triagem de sua perfeição; conheci-a assim nesta graça de vida feita uma senhora Madre Jacira de Miaí de Cima.

cortiço3.jpg Dedicada a rezas do terço, no fazer de qualquer coisa, acalenta sempre seu final com um Graças a Deus e se Deus quiser. Ás tantas em suas falas o Nosso Senhor é uma virgula em suas missangas Assim diz: Amanhã, se Deus quiser, vamos à praia, se Deus quiser, a chuva não vai chegar e, se Deus quiser, almoçaremos peixada no restaurante da Dona Maria, se Deus quiser, na sua graça.
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O café "Santa Clara" bem à maneira do Sertão, foi lançado na água quente e quase fervente na cafeteira. Três colheres para a quantidade volumétrica do termo e, assim que despencou a subida, meti na espuma cheirosamente castanha a colher de aço frio com cabo de pau-ferro; contida a subida desliguei o fogão e esperei um pouco que assentasse. 

araujo176.jpg Depois foi só entornar o mesmo para a garrafa de termo. Não! Em uma outra pequena panela de cabo comprido fervi água para desinfectar o coador em linho - uma espécie de meia suportada em um aro enfiado em um cabo de madeira antiquíssimo. Por via de grandes ausências, estes procedimentos são de extrema importância por ali andarem cobras, morcegos e calangos - uns mini crocodilos de uma cor de argila verde com sarapintas escuras; assim parecidos com as iguanas, isso, com seus lombos em forma de serrilha- feios pra burro!
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O cheiro subiu até aos aposentos do andar superior dando ênfase ao término da dormida - noite quente - talvez uns trinta e dois graus; o raio do ventilador ficou lento a noite toda. Escandalosamente lento a fazer romrom que nem um gato com asma tuberculina - a velocidade era só a que tinha: uma - a primeira! Tive de dormir na varanda a sorver com stress o vento mais frio vindo do lado do mar cercano com os sancudos e pernilongos a azucrinar os ouvidos; a pele macia a desfazer-se em pupias untosas de ADN encardido.

marechal1.jpg Vou-vos contar! É um negócio meio gozado! Pimenta no cu dos outros é refresco, mesmo! Aqui as falas começam e terminam com esse negócio; fácil de falar assim aonde tudo se chama do mesmo jeito num vocabulário mais restrito que a lua nova: - Oi -passa aí esse negócio! Isto pode ser tanto uma cadeira como um lápis ou fita adesiva.
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No topo do décimo sexto degrau mais um mocho a dar altura ao primeiro, ouço um doce bom dia! Bem! Eram já bem à vontade umas sete e trinta horas. Era a Doce Senhora Ti Jacira a dar vivas ao meu cheiros café da manhã. Mas, não desceu logo - ainda se manteve pelo primeiro piso até bem às oito horas. Entretanto já tinha saído à rua, um largo beco com dois metros e oitenta de largura e, ido à padaria situada bem no meio da calçada, do lado inverso que dá para a Igreja de São João Baptista - rezas ao cuidado do padre Severino da Paróquia de Coruripe.

Marechal D1.jpg Bem! Chegado à padaria com uns quantos reais no bolso da sunga larga, feita calção de tomar banho, de dormir e bundear preguiça na rede, depois de passar a urbe dormida na tepidez matinal - assim num chegar, chegando dou um bom dia arrastando o "d" de dia parecendo estar a enxotar a galinha, sotaque bem da terra: Bôjia! Ué! O negão de ventas largas que se assome na porta lateral responde: Bôjia mê imão! De dentro vinha um cheiro doce de pastel, queijo de coalho e outras guloseimas.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:51
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Quinta-feira, 21 de Março de 2019
CAFUFUTILA . CXXVI

ONGWEVA DO TEMPO - KIANDA ROXO20.03.2019 - 22ª Parte
Kiandas e calungas! A mesma Kianda Roxo e sua mana Oxor que nasceu em Harare nas coordenadas de 17° 50' S 31° 03' às margens do lago Chivero… 
Por 

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

niassa11.jpg Sêlo da Niassalândia 

Seu António, Seu António! Era para mim, só podia! Ouvi o chamado saído bem junto à rede de Futvolei encostado à barraca da Kanoa. Ginasticando minha hidroginástica, levantei os dois braços com o punho fechado e com os polegares saídos para cima como quem diz “gosto” no Facebook – estou aqui. Era meu conhecido Álvaro, um jovem ainda, a caminho de ser coroa, que aqui vem assiduamente à praia da Pajuçara zelar pelo seu físico. 
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Álvaro é filho de um português saído da cidade dos três efes – forte, formosa e fria; trata-se da Guarda nas alturas da Serra da Estrela, Beira Alta. Nesta minha praia, quando não apareço, dizem-me: Anda sumido cara!? Cheguei – digo com o polegar levantado – Tudo bem, beleza! Cheguei chegando -Tudo jóia! Já à sombra do chapéu verde e branco e bem sentado no sítio habitual, sempre no furo mole da areia, fronteira da maré de lua minguante, acompanho a azáfama do pescador de cerco de nome José Santiago.

kimbo 0.jpg José Santiago que para além de jangadeiro também é pescador de maré rasa, surge de bicicleta vermelha pela areia molhada. Esta bike é bem sofisticada pois que tem artefactos pouco convencionais com dois pneus extras aparafusados nas partes dianteira e traseira. Na parte de trás situa-se um bidom de secção quadrangular de cor azul e dentro dele, Seu José retira uma rede de uns 40 metros de comprimento e talvez dois de largo.
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Depois de estabilizar a bike por meio dum suporte feito zingarelho de não enterrar na areia, retira a tal rede que enrolada ao seu jeito fica com os dois paus dos estremos da dita cuja bem montadas em seu ombro, assim feito lombo, tal o tamanho da carga. Espeta um dos paus na beirada, água pelo joelhos e vai andando em circulo mar adento largando o bagulho de rede de nylon. Em cima, tona de água, pode ver-se as missangas feito bóias esparsas e pelo certo, o outro lado mais pesado roçará o chão muito cheio de sargaços.

kianda03.jpg Depois de quase fechar o circulo espeta o segundo pau e começa a barafustar com a água: enquanto salpica o espelho de água vai-se aproximando do centro parecendo enchutar algo. Trata-se de afugentar os peixes para assim ficarem aprisionados na rede. Carrega tudo isto embrulhado e desmancha o monte com mestria, fazendo sair de repelão as algas aprisionadas na rede. Ora apanha alguns peixes, ora pouco trás mas, sempre parece dar-lhe para o sustento.
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Pude observar que nesta tarefa era ajudado por dois seres de algum volume e um tanto gelatinosos como as medusas, também conhecidas por alforrecas ou águas-vivas assim muito semelhantes a cavalos marinhos de grande porte. Eram duas sereias – kiandas que de um e outro lado faziam deslizar o cerco da rede de forma mais célere. Acreditem ou não eram as perpetuas kiandas Roxo e mana Oxor, já nossas conhecidas por via de tantas vivências aqui contadas.

kianda3.jpg Uma relação que já vem da praia de Guaxuma e em outras paragens distantes como os lagos ao longo do vale do Rift tais como o lago Niassa de onde são originárias,Tanganica, os estuários do kwanza e rio Kongo ou Zaire. Isto é tão fantástico que fiquei na dúvida de se José Santiago as via assim como eu, porque outros, sei de antemão que não as viam. Sei porque isto se tem passado em outras paragens tais como os lagos Victoria e o Eduard no Uganda. Lá terei de falar com a minha empregada Mery de Campala acerca disto. 
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Hoje mesmo e a propósito falei com o jangadeiro Santiago sobre se as via ao que me respondeu: Dôtor…faz tempo que elas andam por aqui. Mais ninguém as vê a não ser eu e graças a Deus, tudo ficará assim porque é Ele que assim quer – mas ninguém acredita, sabe! – por isso nem falo!... Ele, Santiago, também não ficou a saber que eu as via e, assim vai ficar…Quando levo turistas às piscinas do recife, acrescenta, são elas também que enxotam os peixes coloridos até eles. 

kianda5.jpg Uma belezura! Ganha-se pouco mas a vida corre, graças a Deus. Ficam encantados dando-lhe miolo de pão; um paraíso! Disse. Estas ilhas em realidade são parte do recife que provoca a calma espelhada nestas águas da praia. Fiquei muito contente de as ver por aqui – fico sempre! Pena não termos por perto o Zé Peixe a completar o quadro da “kalunga”. Num jeito de seriedade lá terei de pedir à sereia- kianda feita gente Assunção, que faça um quando o mais fiel possível disto para que os anais da estória não passe ao lado.
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Na ultima parte do mussendo, 15º episódio, falei do porquê esta kianda Roxo de Guaxuma andar assim tanto de um para outro lado irrequieta, sem saber no consciente desta sua dupla vida, compartilhando xispanços de tinta com particular maestria e, do porquê das cores cibernéticas confundindo-nos com holografias psicorroxas. Um dia pedirei a M. J. Sacagami que as defina ao seu geito astrofísico… Mas, já sabemos que nasceu às margens do lago Chivero. Aqui recordo de novo para que não haja duvidas em futuros arquivos.

roxo69.jpgSabemos que sua mãe, também kianda de tez negra foi Redufina Kabasa Tsvangirai que se umbigou com um tal de Morgan Tsvangirai. Que nasceu em Harare nas coordenadas de 17° 50' S 31° 03' às margens do lago Chivero, lugar que fazia fronteira com a fazenda farm de MorganTsvangirai seu pai. Que por via da política teve de abandonar aqueles paragens deslocando-se para o Kwanza, ali bem perto de Massangano, lugar de muita magia por ser um pambu-n´jila especial com Muxima. Talvez ela agora, eu se encontra na Luua, se veja kianda no Mussulo depois dum repasto de catato, o tal mopane especial…FUI!
(Continua…) 
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:58
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Domingo, 17 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVII

PEDRA DO REINO de Ariano Suassuma - 17.03.2019

O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta Brasil – Género Romance, fantasia épica do Nordeste brasileiro - 1971

Por

soba15.jpg T´Chingange - No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 -O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

11 - O Romance “A Pedra do Reino” – José Olympio editores … Ariano Suassuma

xique xique0.jpg :::::164Ariano Suassuma nascido na Vila de Taperoá sentindo-se só em um momento de sua vida imaginou-se ser um rei - um lindo devaneio, diga-se! Também se imaginou ser um grande apreciador do jogo do Baralho (Cartas de Sueca, bisca e burro em pé). Talvez por isso, o mundo lhe pareça uma mesa e, a vida, um jogo, onde os fidalgos se cruzam como Reis-de-Ouro com donzelas Damas-de-Espada, onde passam Ases, Peniscas e Curingas, governados pelas regras desconhecidas de alguma velha Canastra esquecida.

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Também como ele, eu, que não sou rei nem pretendente a acender a qualquer trono, incompreendido, agora que os anos me deram o trampolim da sabedoria, venho com meus sonhos, com conhecimento e os instrumentos de informação avançados pretender ser escutado. Se assim não for que seja como em Abrantes, tudo como dantes. Ambos, cada qual em seu tempo, nos preocupamos com os muitos e fúteis devaneios que no dia-a-dia observamos das gentes envolventes ao nosso quotidiano mundo Terráqueo - desta galáxia.

xique xique01.jpg :::::166 - Teremos de voltar lá atrás ao tempo de D. Sebastião quando por volta de 1569 quis, em um acto de foito jovem imberbe, recuperar as praças de África perdidas e abandonadas por seu avô D. João III. Suassuna, é inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilómetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião - transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África (Batalha de Alcácer-Quibir): sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força.

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De insensatez em desvario e antes de morrer em Alcácer Quibir, ofereceu os préstimos de Portugal a D. Carlos IX de França para combater os huguenotes (Mafulos). Entre méritos de dilatação do império e da fé, a França ficou só por aí, porque entretanto os Calvinistas acabaram por tomar o poder do reino de França. Veio em seguida a tomada de possessões portuguesas pelos huguenotes holandeses (os tais Mafuls) após a queda do reino para os reis Filipinos. Os países baixos estavam em guerra com os reinos da Espanha com sede em Burgos e, como tal, criaram a companhia das Índias Orientais e Ocidentais para açambarcar todo o espólio português que nesse então formava a Ibéria com os reis Filipe I, II e III.

xique xique1.jpg :::::168O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, Brasil, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei (juro a pés juntos que desconhecia – pensei que estas maluqueiras eram só vistas no M´Puto). Ariano Suassuna iniciou o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, seu nome completo, em 1958, para concluí-lo somente uma década depois, quando o autor percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade

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A vulnerabilidade das possessões portuguesas tendo no comando os reis espanhóis, deu azo aos huguenotes holandeses, franceses e judeus perseguidos pela Santa Inquisição a que formassem a tal Companhia das Índias, Orientais e ocidentais, uma forma de através de corsários se apropriarem da soberania desguarnecida nesse tão vasto mundo que hoje conhecemos. Juntaram-se a estes corsários ricos judeus de Antuérpia e Roterdão que dominavam o mundo do negócio de especiarias e exotismos distantes. O mundo europeu exortava em luxúria entre lustre de diamantes e ouro Inca e tantas novas coisas. Mais tarde, dias de quase hoje, tudo isso se entregaria sem contrapartidas fruto de traições, um desmoronamento sepulcral (uma tragédia que o tempo despolitizará) …

xique xique6.jpg :::::170 - Também, uma tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna, e a redenção do seu "rei" – uma reacção contra o conceito vigente na época, segundo o qual as forças rurais eram o obscurantismo - o mal, no urbano e no progresso - o bem. A história, baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, é dedicada ao pai do autor e a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, António Conselheiro e José Lins do Rego…

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Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme e alta pedra que lhe dá nome, todos envoltos na CAATINGA , um  termo tupi-guarani. Perto, no leito seco do Rio Taperoá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, cobertos de Marmeleiros secos e Xiquexiques (cactos).

xique xique5.jpg :::::172 Surge então o Conde Maurício de Nassau chefiando aquela forte Companhia das Índias, e que com forte armada debanda os Tugas de então de Olinda que fica sendo um seu bastião em terras de Pernambuco; estava em causa desbravar o interior profundo duma caatinga agreste e infestada de gente brava que comia seus inimigos para ainda ficar mais forte; os caetés e tapuias. Finalmente dizia assim: - Para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nossa Vila e cercados, eles mesmos, por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhados de negro e ferrugem;

xique xique4.jpg :::::173 Lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Carcarás, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo. Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o Sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da Justiça. As estórias sempre se repetem…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:09
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Sexta-feira, 15 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XVI

-Este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua** - 15.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange ...(ADENDAS). No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee 

 2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

:::::154valentina3.jpg Euclides, o jornalista benguelense sai aturdido do Clube Francês, lugar da conferência de imprensa com negociações. Nesta zona libertada pelo CV – Comando Vermelho, Ernesto, o motorista, espera-o estendido de costas no passeio, uma garrafa de whisky servindo-lhe de almofada, as mãos cruzadas sobre o ventre. Nestes dias tumultuosos já quase não circulavam táxis nas ruas da zona Sul do Rio, zona libertada para o Comando Negro.

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(O Rio estava a passar por uma situação muito parecida com a Luua do ano de 1975, tempo do Poder Popular com intervenção dos Pioneiros, uma Criação dos Comunas Tugas como Rosa Coutinho e outros FDP, para Angola e, que resultou na fuga dos gwetas colonos – O medo aqui tal como lá, dissuadia o cérebro… Foi o que eu, relator anotei por ter ouvido e, que não vem escrito neste Zumbi que tomou o Rio.)

angola4.jpg:::::156 - Eu gostava de ser negro – diz o jornalista benguelense. Na sua voz melancólica pressente-se um arrebatamento que é nele pouco comum: - Sou sincero. Gostava de se um Leopold Senghor, um Aimé Sesaire ou mesmo Sam Nujoma. Gostava de saber dançar como um negro, ao som da música de Louis Armestrong… Entretanto a cidade ia ficando anoitecida; sombras remexem-se ao redor num bailado de espectros. Ao longo da praia, de quando em quando, as fogueiras tremelicam a escuridão. São as luzes dos soldados do morro; do CV – Comando Vermelho.

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Nas esquinas das ruas o lixo acumulado desprende um fedor insuportável. À medida que se aproximam da linha da frente da Glória – Frente Leste, surgem mais fogueiras, em pleno Calçadão multiplicando-se em número de homens armados. Um grupo de guerrilheiros com aspecto muito jovem, pioneiros afro-ameríndios-descendentes (de indígena do continente americano) manda parar o carro. Apontam a lanterna para o rosto de Ernesto: - Onde tu tá pensando que vai?

IMG_20170721_124807.jpg :::::158 - Euclides mostra a carteira de jornalista. Estende-lhe uma nota de cinquenta reais. Seguem. Quinhentos metros à frente a estrada, está cortada por pneus, rolos de arame farpado, uma cancela improvisada. Cinco ou seis carros aguardam na fila a vez para passar. Do lado de cá, formou-se uma feira livre, com gente a assar frango, em largas grelhas de ferro, a vender pasteis e cachorro-quente, cerveja fria e água - uma por três reais e duas por cinco.

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Vários jovens candengues, quase todos com uma metralhadora ao colo, estão sentados no asfalto diante de uma televisão. Há gente a jogar às cartas como se nada se passasse de anormalidade.  Do outro lado o rugido de um gerador, fazia-se ouvir por detrás dos mukifos, um zumbido que parecia meter pregos mas, que davam luz em holofotes resplandecendo dezenas de carrinhas da Policia, ambulâncias e quatro blindados.

dia143.jpg :::::160 - Euclides, o benguelense jornalista, salta do carro. Sabe que embora a fila de carros seja curta, a negociação de paz entre o Governo Estatal e do Rio com o Comando vermelho, pode demorar. Dois soldados do morro discutem com um policial. Escassos metros os separam. Toda uma vida parada num ritual de passagem: - Nós não somos o inimigo, não, malandro. Tu és bem pretinho, tu és um fodinha, feito agente… Com fobia de ser mulato, o benguelense ouvia já na dúvida de se era bom ser assim – um preto*.

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- Calma aí! Sou negro mas não sou bandido não. Trabalho duro. Não me meto em baderna (amigo de farra, considerado um inútil, desclassificado…*). Um outro policial, um tipo muito alto, rosto coberto por um capuz preto, apenas com uma estreita abertura para os olhos, aproxima-se do primeiro segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido. O soldado do Comando Negro provoca: - Vais ser sempre um pau mandado do branco!? Se liga, meu, tu tá combatendo tua própria gente. Não ouviu o que o teu chefe Weissmann anda dizendo, não? O cara quer mandar todos os crioulos para África…

moka31.jpg :::::162 - O CV contínuo: - Teu chefe gweta vai ter de encontrar um barco do tamanho do Brasil… Dito isto ri com gosto levantando o punho esquerdo desenhando um “C” e o direito fazendo um “V”*. Euclides fica na dúvida pensando - este grunho dos CV deve se de Angola – fala de gweta cangundo como os da Luua**… E, assim no meio destas periclitãncias vê que o policial encapuzado reage enraivecido. Grita com um forte sotaque gaúcho, voz roca de muito “chá-mate”*: - Está rindo de quê seu banana!? Vou aí e quebro a tua cara, sua bicha*!...  

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Bartolomeu Katiavela surge nesse momento, vestido com o uniforme de general do Exército angolano, repreende o rapaz. O policial governamental volta-se contra ele: - E tu, porque não vais fazer a guerra no teu país? Katiavala enfrenta-o. Está ali tão firme, tão íntegro, tão prepotente, que parece ter sido aparafusado ao chão. Entretanto ainda ouve o outro a dizer: - Quanto dinheiro esses filhos da puta*, esses marginais estão te pagando? A voz de Katiavala, límpida e sem esforço, assim como a de Net King Cole, sai com decibéis, sotaque coimbrão, acima do ronco do gerador Honda: - Porque não tira essa mascara? – Assim como está, parece um bandido.

( Continua…)   

Notas: *Item da autoria de T´Chingange; **gweta é branco; cangundo é branco de baixa condição, do musseque…

O Soba T´Chingange  



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:31
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Quarta-feira, 13 de Março de 2019
SKUKUZA . I

Skukuza fica no Kruger National Park na África do Sul13.03.2019

Um santuário de animais em liberdade…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

Há exactamente quatro meses e três dias, estava em fim de passeio por oito países africanos a saber: - África do Sul, Namíbia, Botswana, Zimbabwé, Zâmbia, Tanzânia, Malawi e Moçambique. Por convite do melhor condutor de África, assim relaxado na confiança alheia, fui andando na esperança de chegarmos a Dar és Salaam mas, o medo dos Boko Haram fizeram com que na Tanzânia inflectíssemos para sul atravessando o bonito país com o nome de Malawi.

SKUKUSA1.jpg As mensagens do M´Puto chegavam até nosso guia-condutor alvoraçadas em forma de raptos e comportamentos próprios de grupos rebeldes que actuavam supostamente nas zonas do rio Rovuma; haveríamos que correr riscos atravessando o rio em jangada e nada era abonatório, o medo chegava em mensagens empoladas de raptos de mulheres na fronteira entre a Tanzânia e Moçambique.

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Do que vi e vivi, posso dizer que os chineses estão chegando em força àquelas paragens, lugares aonde judas perdeu as botas. Lugares de cú-de-judas mal definidos no GPS, nomes diferentes, de escassa orientação ou insuficientemente credibilidade. Lugares esquecidos pelos próprios colonizadores, agora diversificados num novo arco-íris de raças. Lugares em que a tensão racial se torna no dia-a-dia agravada por discursos empolgados de maus lideres, pretos racistas.

SKUKUSA3.jpg Lideres que curiosamente clamam uma coesão racial nada virtuosa nem tão perfeita como seria desejável. A relação entre negros e brancos, sempre foi uma relação violenta, historicamente muito impregnada de expropriações desumanizadas e, isto é sempre profundamente brutal. De lamentar que os negros, não obstante não se terem conseguido organizar no quanto baste ser suficiente para dar uma resposta política, ainda ficam feridos quando são chamados de “negros”.

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Precisam continuar caminhando no sentido de se aceitarem a eles próprios como pretos. Obviamente que há segmentos de negros organizados buscando equacionar o problema racial mas nem todos formulam seus propósitos numa perspectiva pacifista; muitas vezes insinuam-se como tal mas, de suas bocas saem monstruosas atrocidades. Muitas vezes empunham armas brancas, catanas ou outras, para gesticularem a paz.

SKUKUSA6.jpg A sociedade nem sempre responde da forma mais concertada, também não se vislumbra de todo, impedimento a outras formas de luta. E, nem sempre o é de legitima defesa ou em salvaguarda de um princípio nobre, ou suficientemente plausível a esse entendimento. Desconhecemos em pleno e, assim, o que as próximas gerações vão responder a tamanha adversidade e, ou exclusão.

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Eu, que sou branco, sinto-me muitas vezes excluído por pensar e dizer o que sinto. Nunca me ofendi por me chamarem branco mas, reconheço que nos dias de hoje ser preto e pobre, é foda! Mas, também o será ser branco e pobre mas, nem isto se fala nas palestras com gente dita erudita, sábia e o escambau. Se porventura uma guerra estalar eu sei de que lado, vou estar. Não me pintarei de preto como tantos parecem indiciar, insinuar; nem tampouco deixarei de chamar preto ao negro! Estou-me pouco lixando nas regras ou leis descabidas…

fotos ZÂMBIA 037.jpg Não andarei à busca de um termo supostamente menos chocante como é agora tão comum quando arranjam estratagemas de afrodescendentes entre outras hipocrisias. Eu não sou euroafricano, sou branco! Nem tanto – sou só um pouco tostado do sol Não posso estender o céu, torcê-lo, sorvê-lo ou adaptá-lo no meu pedaço de raciocínio porque aqui e além, o sangue espirra e alastra, até se derramar em chuva dum fim de mundo sobre as ruas, as casas os bairros. Bairros de brancos e pretos – de gente!

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Posso espreitar tudo isto por um binóculo, posso chorar ou reclamar mas, pouco adiantará; não sou ninguém para alterar o curso da vida ou da estória de alguém. De mãos limpas e pés polidos dou-me a tréguas em desejos de somente resistir aos desmandos que me podem contagiar na mente ou no físico! O que posso garantir é de que nosso cérebro é verdadeiramente brilhante.

SKUKUSA4.jpgLi e entendi tudinho o texto que se segue: - 35T3 P3QU3NO T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 WO5T4R C0W0 4 N0554 C4B3Ç4 CON53GU3 F4Z3R CO1545 1WPR35510N4NT35! R3P4R3 N1550! NO C0M3Ç0 35T4V4 M35W0 C0WPL1C4D0, M45 N35T4 L1NH4 SU4 W3NT3 V41 DEC1FR4ND0 0 COD1G0 QUA53 4UTOWAT1C4W3NT3. 53W N3C3551T4R P3N54R WU1T0, C3RT0? P0D3 F1C4R B3W 0RGULH050 N15T0! P4R4B3N5! E5T4  53W 4LZE1W3R!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:20
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Terça-feira, 12 de Março de 2019
MALAMBAS . CCXVI

TEMPO DE CINZAS NA NAMEYA BAR – MALAMBA é a palavra – 11.03.2019

- Boligrafando minha própria estória em cor vermelha…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Com sotaque de classe média, cada qual falava em seu telemóvel (celular – microondas) como se fizessem exercício em águas quentes para relaxar. Um casal envolto em núpcias de mel, assim demasiados ocupados, ele e ela, apertando letras de amor – creio!… Com ares conspiratórios; decerto não falavam de grasnares dos patos e das patas de seus progenitores largados no sítio não muito longe da cidade de Bonito. Falo de Bonito, uma pequena cidade do Nordeste mas, até poderia falar de Garça ou Piranhas em lugares bem distintos e, bem diferentes.

kimberly2.jpg Garça ou Piranhas que estando muito afastadas entre si mas, aonde os dias calorentos se dissolvem por vezes em chuva morrinhenta ou mesmo cinzenta e até por vezes salpicada de fina lama suspensa no ar. E, foi assim, sentado em uma cadeira de praia e à sombra de um chapéu verde e branco, que vasculhei com olhares os arredores de mim, ondulando a vontade num faz de conta e imaginando-me ser uma caneta tipo lapiseira do tipo boligrafo.

nauk03.jpg Imaginei ser uma caneta, boligrafando minha própria estória em cor vermelha, a única que tinha à mão. Contornando símbolos em cima de um longo papel e, nas costas das contas do supermercado da Pajuçara, deixo o boligrafo levar minha própria mão sem tempo, sem metas ou temas previamente definidos dando-lhe largas, assim sem a definir como a única caneta da minha vida! Simplesmente um boligrafo entre tantos já usados…

swakop10.jpg E, como um destino sem termo, uns fins sem princípio, um índice sem prefácio nem glossário e reconhecendo que o fim só o é quando chega, sem epilogo ou amuradas dum barco carcomido pela ferrugem, como num tudo ou nada, sem makas ou quenturas procurando uma agulha num palheiro ou num porão, definia-me como um grão-de-bico que posto na água incha e que depois é revertido e deglutido como bolo alimentar. Os bichos vão-me comer depois de bem gordinho!

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E, digo isto porque pude ler num carro de vendas, espigas de milho verde: “ou você escreve ou Jesus escreve por ti”. Busquei saber do porquê daquela frase no livro dos livros tendo encontrado uma frase em que o apóstolo João descreve sobre o grão de trigo: “ Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer produz muito fruto. Lendo mais vi que quem ama a sua vida perde-a, mas aquele que a odeia (a sua vida), neste mundo, irá preservá-la para a vida inteira”.

MONA2.jpg E, continua: “Se alguém me serve, siga-me e, aonde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir meu Pai o honrará”. Terminada a citação e por esta leitura posso concluir pela milionésima vez que, sendo eu outra espécie de grão, nunca poderei ser um bom pastor. Nunca o poderei ser, porque não o consigo interpretar na perfeição.

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Pois que é uma fala tão antiga e, ao segui-la me verei num comprido e admirado rosto, de uns sabujos e pesados papos, castanhos e bolorentos por debaixo dos olhos, e também com um trejeito na curva esquerda do lábio num sorriso falso como daqueles de quem se enganam permanentemente sem ter bem a convicção disso; de ser uma ignorante areia que nada gemina simplesmente porque não é um grão de trigo.

arau162.jpg Assim me vejo religiosamente feito numa carcaça escorregando no purgatório, gaguejada e chocada na ignorância de uma esperança esfarrapada na incompreensão: - “Hó - ser pastor não é verdadeiramente a minha profissão, nem minha inclinação”. Confesso isto sem embaraço, como dizem os ingleses: sou só um part-time; melhor uma missanga de part-times.

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Será assim como uma parábola dos tempos modernos confrontando a vida esterilizada num celular que emana neuroses e preocupações, uma existência alheia a Deus porque em seu tempo não havia estas máquinas de empilhar tensões e neuroses antes, durante e depois de se casar. Foi assim nesta complexa análise quase nadista que resolvi terminar meu dia de praia, levantando e abanando a mão como que para afastar demónios.

EDU63.jpg O importante é não alimentarmos ódios por quem pensa de outra qualquer forma ou ter desejos de vingança porque isso, só torturará nosso bom censo, nossa liberdade. Nem é preciso estudar-se psicologia avançada para se concluir que os pensamentos maus ou enviesados, como um boomerang, um pau torto inventado pelos aborígenes australianos, que lançado a um alvo, só deformará nossa personalidade. Cada um que fique com sua cruz ou o seu boomerang…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:47
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Sábado, 9 de Março de 2019
XIPALABOOK . I

Xipala é rosto, é cara e, book é livro - 06.03.2019

Minha cara é um livro aberto – É assim que se diz mas, nem sempre o que parece ser, o é...

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

sacag1.jpg Esta palavra aglutinada espacial, foi inventada por Maria João Sacagami, uma insigne psicóloga dedicada às coisas do paralém, que trata os mistérios duma forma imperceptível num tu-cá tu-lá. Ela que Saca e interpreta a fúria das nuvens cavalgando nelas assim na forma fácil de como eu navego sentado num chassi vruum vruum como se fora uma zundap. Um especial veículo cabo de vassoura de pura piaçaba, volante cabo de pau-rosa e com um quase imperceptível motor movido por salalés…

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Pois! Uma coisa de outro mundo que nem o chefe da suprema corte do Xingrilá consegue definir na torpitude dum surreal quadro. Salalés de áfrica que zundrapão movendo seus pistons ortorrômbicos no eixo longitudinal e, usando óleo de amendoim reforçado com óleo fino de carnaúba espacial e, ainda mais uns aditivos e aplicativos tirados duma galáxia ainda não inventariada nos longínquos arrabaldes da Xirgosia.

sacag3.jpg Aparatos e zingarelhos, que se movem no retrogrado sentido do escape tardoz, muito recheado de minúsculos chips. Posso reler-me na contraluz do espelho convexo do veículo, uma muito complicada figura de muito para lá do paratrás, algo quase desentendível dum vulgar humanóide terreno. Relembro assim perturbado, minha singela proposição de quando só era um soba sem coturno, um sem eira nem beira, uma singularidade quase imperceptível com a presente figura plasmada.

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E, vi-me lá longe no início do meu funil do tempo: Assim vestido a rigor de cerimónia, com um manto adornado de conchas, vários colares com dentes de leão, contas de vidro missangando o pescoço, uns chifres de pacaça duros e pesados a fingir de cornos na dianteira testeira, dois olhos ressequidos de facochero colgando das orelhas – um em cada uma delas.

143.jpg Pude rever-me aqui, um soba de categoria super tutelado por N´Gola Kiluanji, meu rei saído dum raio de sol, duma kúkia manobrada com fumaça por N´Gola M´Bandi, o Kimbanda tribufu do meu Kimbo ancestral, pensava eu! Afinal era o fim da kúkia dele – Kiluanji, morreu todo inteirinho… Bom! Falando de mim, ao redor da cintura, uma pele de cobra surucucu simbolizando meu estatuto de soba. Como se tudo fosse pouco ainda tinha um chapéu tipo cartola, alto e, ao qual estavam presos pequenos ossos talhados, saídos da falange falanginha e falangeta do King Kong, algo inexplicável…

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N´Gola M´Bandi batendo palmas, cai um silêncio quase sepulcral, tal o respeito que dava para se sentir emanando daquele personagem tão cheio de estralhos e outros menores aplicativos sem descrever ao pormenor suas salientes tatuagens envolvendo seu umbigo do tamanho dum abrunho preto. Uma indumentária só mesmo de um Kimbanda supra numerário do reino. Logo a seguir vinham seus guardas pessoais, suas mulheres e filhos, uma multidão ao som de timbales e marimbas.

sacag2.jpg N´Gola sentou-se pesadamente no cadeirão bem no topo da encosta e depois de todos ficarem em silêncio pela segunda vez, após segunda batida de palmas. O que conto a seguir até a mim me repugnou. Após a secreção de sua laringe lhe afluir à boca, um dos seus atentos macotas aproximou-se, ajoelhou-se e á sua frente com os braços bem no alto e suas mãos abertas em forma de concha, aguardou que N´Gola, com um potente ronco e um rápido movimento de língua, projectasse nas mãos daquele seu vassalo uma massa viscosa verde que este recebeu com muitas seguidas vénias.

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Com um ar compungente, e logo após aquela viscosa massa ser guardada em um recipiente em forma de cabaça muito ornamentada, falou: “Por muito que me custe, terei de resignar-me aceitando a missão dos meus antepassados. Eu serei o rei que todos desejam!” – Ouviu-se um trovão saído do meio das bissapas, um fumo branco e em seguida um tremendo clamor sido de todos em uníssono. Estava concluída a tomada de posse do novo rei…

capeta0.jpg  Os músicos, marimbeiros e tocadores de tambores recomeçaram o batuque; é curioso referir aqui que até um chifre curvo apareceu tocado na forma de berrante, algo curioso que eu tinha assistido no paralém do futuro em uma terra distante aonde havia muito gado. A multidão dançava em círculos batendo os pés na terra e em simultâneo fazendo uma perfeita coreografia de tantãn zulu. Ainda bebi vinho das cabaças e até sangue de boi a borbulhar mas, num repente minha cor começou a ficar branca e sem mais, tratei de me por ao fresco. Bazei!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:53
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Sexta-feira, 8 de Março de 2019
XIPALABOOK . 2

Xipala é rosto, é cara e, book é livro. Mokanda de maldizer para EDU - 08.03.2019

– Eduardo Carvalho Torres – Meu amigo da Onça e POETA de Naukluft, amigo que muito prezo, que pico e cutuco, vindo da terra do NADA em plena África…

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste brasileiro

Esta é uma mokanda especial referente à terra do NADA cuja capital é em Swakopmund, lugar aonde o coração do EDU, se prendeu nas ondulações das miragens do Naukluft. Em dialecto Ovambo, Namíbia quer dizer: terra do nada. Os portugueses quando por ali andaram a plantar padrões acharam que por ali só havia deserto; não havia terra suficientemente boa para plantar o que quer que fosse. Não encontraram rios com enseadas suficientemente protegidas aos ventos e, sempre com deserto à vista, foram descendo para Sul até chegarem ao Cabo das Tormentas.

swakop1.png E, porque nada encontraram, que espicaçasse sua cobiça puseram um padrão em Cape Cross e outro em Luderitz; padrões que visitei nas minhas muitas idas a África. Tempo de quando ainda procurava um sítio para me acoitar na vida carregando às costas um imbondeiro - lugar nunca conseguido; até aqui o NADISMO a funcionar na perfeição. Namíbia terra de rios só quando chove é um conjunto de desertos e savanas de acácias dispersas até se perder de vista.

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Os rios são mulolas secas aonde pastam orixes, cavalos selvagens, leões, marinhos e outros; lugar de deslumbrações com manadas de elefantes, girafas, gazelas e zebras. Lugar de muitas miragens que fabricam sonhos, poemas e coisas de delírios que sobem as maiores dunas do mundo, três passos para cima e dois para baixo, num escorregamento cansativo. Levei bem mais de uma hora a subir à milha 45 do Sossusvlei no Naukluft Park.

edu33.jpg E, foi aqui neste fim de mundo paradisíaco que me encontrei com meu amigo da onça de nome Eduardo Torres, um santo de pau carunchoso. E, dando volta ao assunto, como gosto de sua poesia! Juro! Com ele atravesso estes desertos que se estendem muito para lá do horizonte e, nunca acontece nada. Afinal, escreve, escreve figas onduladamente poéticas dando em nada – um nadista retintamente genuíno. Ele, é o top do Nadismo…  

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Vejo-o fugir à minha frente assim como uma bola armilar igual à da bandeira do M´Puto, um conjunto de chinguiços rebolando ao vento como nos filmes de cowboys do oeste americano, enrolado na sua magreza como se fosse um rolo de papel amachucado de fazer volume só para parecer muito – o mesmo que nada. Em minhas visitas vejo-o austero, fingindo leveza peçonhenta e sempre olhando seu inexistente periquito que faz muito tempo fugiu daquela gaiola…

swakop01.jpg Viver assim num perfeito NADISMO titubeando versos amarelados ou mesmo cobertos de pó, envolto assim num mukifo de aposentos forrados com ele e, como se fossem azulejos enquadrados duma estação de caminho-de-ferro desactivada – Um NADA numa estação aonde já não passam comboios, faz muitos anos. Livros empilhados que morrem lentamente amarelecendo nas bordas por falta de manuseamento… uma ilusão! E, como gosto de o ler, de o espremer até mesmo apertar-lhe o gasganete até chiar que nem uma perereca…

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E, tu – falando no discurso directo: E, tu, indiferente ao caruncho, que escreves poemas como quem cospe flocos de aveia a um periquito que já deu às de vila diogo, que deu o fora da gaiola. Melhor seria comeres painço com lengalenga e massambala mais semente de abobora. Uma coisa desconcertante sobre tuas vividas vivências. Gosto de ti assim bonitinho que nem um sapo, assim saltitante no Naukluft por via de refrescar as glândulas lacrimais.

swakop02.jpg Depois de tantos anos nunca te deste conta de que os negros são pretos; de que os progenitores deles já o eram e nem reparas ou reparaste que sempre têm demasiada família, filhos, tios, tias, irmãs e avós. Nunca referiste que eles, os pretos faltam ao trabalho todas as segundas feiras porque foram ao óbito duma avó, dum primo ou tio; uma família que nunca acaba.

swakop03.jpg EDU, tens andado demasiado descuidado e tens agora de te regenerar usando pensos higiénicos fosforescentes quanto baste e bufares como os carroceiros hereros da tua terra; dos teus hábitos quase secretos e que só tu conheces num Deus te abençoe entre as porcarias pálidas que nunca se sublimam na evaporação. Precisas de uma mulher-a-dias qualificada, que tenha um especial curso superior como a minha Mery que contratei em Kampala. Hoje apeteceu-me fazer cocó no teu soalho porque és um grande amigo da onça.

swakop5.jpg Para recordar também, um senhor fardado com um pijama às riscas, sentado num sofá de orelhas olhando para o infinito, babando-se pelo canto esquerdo descaído, insensível ao cérebro abanado por uma trombose. Com a lentidão das coisas graves e titubeadas com muxoxos – Hum, pois, não sabe; a kalashnikov, os turras, a febre do poder… E, eram bolas de trapos, meias surripiadas do pai a cheirar a sulfato de peúga! Mas, o que é que tem a ver o cú com as calças? Estão a ver o filme!?

sussuvlei1.jpg Nota: Estas pérolas de maldizer são o fruto de muita encardida amizade, feitas para reactivar as antigas feituras de escarnio e, usando um aguilhão arguto e vetusto - respeitável pela sua ancianidade subtil e tão engenhoso quanto baste para espicaçar a medula…

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:49
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MALAMBAS . CCXV
TEMPO DE CINZAS – MALAMBA é a palavra – 07.03.2019
Marcelo do M´Puto ganhou a alcunha de Tio Celito na primeira vez em que esteve na Luua, na tomada de posse de João Lourenço, em 2017. Regressa agora para consolidar a reputação e a normalização luso-angolana. Tomara que seja…

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

Foi a 15 de Janeiro do ano de 2007 que eu e minha sobeta consorte, passamos a noite na Residencial Camões, bem perto da praça com o mesmo nome da cidade de Lisboa e, mesmo em frente da Embaixada do Brasil aonde iríamos obter o visto de residência permanente. Ficamos na Rua do Poço, um lugar em que os criados escravos e as escravas negras, do fim do século XIX levavam em baldes a merda e o mijo de seus nobres senhores moradores neste Bairro Alto de Lisboa, para um tal poço.

poço1.jpg Mas, esta rua é muito antiga! Antes disto e exactamente a 13 de Novembro de 1515 – século XVI, ou seja trezentos e muitos anos antes desta minha dormida em Lisboa, pode ler-se em arquivos da Torre do Tombo em uma carta regia de D. Manuel I escrita em Almeirim e dirigida à cidade de Lisboa, sobre a necessidade de se construir um poço para depositar os corpos dos escravos mortos. Salientava que haveria que se evitar a todo o custo os tão habituais surtos epidérmicos.

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As barricas de penicadas do século XIX, eram despejadas neste poço ou directamente no Rio Tejo. No ar daquele então, havia um constante cheiro nauseabundo de merda e coisas putrefactas. O panorama era todo muito igual em Paris, em Londres, Madrid ou Roma. Esta é uma das razões porque os franceses têm dos melhores perfumes do Mundo. As pessoas não tinham o hábito de se lavar com frequência.

poço2.jpg Basta recordar a Catedral de Santiago de Compostela aonde desde a idade média se juntavam peregrinos idos de toda a Europa. O Bota-fumeiro gigante balouçando no átrio principal-altar da Catedral, era nem mais nem menos para fazer desaparecer o cheiro nauseabundo que acompanhava os viajantes. Hoje, não podem imaginar o fedor que soprava por entre aqueles antigos prédios das muitas cidades, do estrume acumulado nas travessas, becos com matilhas de cães mordiscando restos como se abutres fossem; também das centenas de carroças despejando toneladas de excrementos que por ali iam sendo pasto de milhares de moscas com milhões de bactérias.

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D. João VI fugiu para o Brasil com sua corte levando consigo muitos inúteis nobres que viviam à sombra da linhagem. As moscas através do tempo mudaram bastante, mas há outro tipo de bosta nos dia de hoje, a dos comportamentos, da falta ou descuido dos políticos de alto coturno - o de não se manter o desejado nível de seriedade ou aprumo no trato entre nações que deveriam fluir tranquilidade. Terei de mencionar a falta de decoro nas relações diplomáticas fazendo de casos menores como o da JAMAICA uma empolgante notícia e, aonde ambos os países, Angola e Portugal terão de se sair envergonhados.

modas0.jpg Um pela descabida prepotência e o outro pela falta de decoro subestimando-se de forma pouco enaltecedora. O Portugal de hoje com um governo tripartido e descrente e a Angola actual do MPLA, desrespeitadora de princípios básicos de solidariedade. Se não houver comportamento de estadistas, se prevalecer a bajulação encardida de hipocrisia o quanto baste, quebrando algum do nosso orgulho, sempre subsistirá raspas de azedume. Nas bocas do povo surgem comparações com países de quarto mundo – é a JAMAICA mas poderia perfeitamente ser o Haiti… Angola e Portugal, no correr do tempo e consonante a evolução e relacionamentos em princípios sociais, não podem alinhar nesta diapasão de acasos destemperados.

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Pode concluir-se que a ignorância de muitos, apazigua os espíritos duns quantos que se submetem, que se subestimam, que quase se poem de joelhos a pedir desculpas – desculpas indevidas! Haja paciência! Esta é outra merda - uma empobrecida quietude, morna quanto baste para aquietar expectativas de mudança. Triste realidade de submissão com fantasmas fabricados num passado: Angola – Portugal… quanta desilusão!

saramargo03.jpg Diz a carta de D. Manuel I, que os escravos eram mal sepultados e, muitos seriam mesmo lançados (...)"na lixeira que está junto da “Cruz da Pedra” a Santa Catarina (actual Rua Marechal Saldanha) que está no Caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos, ou para a praia onde ficavam à mercê da voracidade dos cães.

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Para evitar as deletérias consequências de tantos cadáveres não sepultados, achava o Rei, "que o melhor remédio será fazer-se um poço, o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais conveniente, no qual se lançassem os ditos escravos" e para ajudar a decomposição dos corpos, dizia ainda que se deitasse " alguma quantidade de cal virgem" de quando em quando.

poço6.jpg Tal medida seria cumprida pela Câmara que o teria mandado fazer no referido caminho para “Santos”, descendo a actual Calçada do Combro conhecido por "Horta Navia" (nome de uma divindade indígena após a ocupação Romana). A actual localização perdeu-se, mas a aproximação geográfica do antigo Largo do Poço Novo (actual Largo Dr. António de Sousa de Macedo) ao fundo da Calçada do Combro, nome que já nos aparece na segunda metade de “quinhentos”.

poço5.jpg Com as novas posturas do século XXI, ficamos na expectativa de não existir entre países irmãos, a tristes relações de estado originando um sintoma da maior frustração, para quem dali saiu com um tão grande sentimento de injustiça pela descolorida descolonização. Neste enredo carnavalesco de relações internacionais não podem agora à semelhança da idade média cagar-se no orgulho parecendo ser a dado momento a merda dum cenário, um enredo nada agradável a reviver para reforçar nosso desenraizamento ou um simples alheamento.

O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:08
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Domingo, 3 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XV

“Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas, trauteei!? Reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo – Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. - 03.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

agualusa2.jpg :::::144 

Eram 5.55 horas deste dia. O telefone tocou!... Preparava-me para ir à Praia da Pajuçara - deposito a xicara de café Santa Clara ainda muito quente no balcão de granito preto. Surpreso pela hora tão matinal e com o carnaval a desfilar na televisão tão cheio de cor no sambódromo de São Paulo penso: Quem será!? Vou atender pensando ser a Margarida a dizer que afinal, mesmo depois de passar a noite na refrega do samba do Jaraguá, sempre vai à praia. Atendo com um alô, alô! … Num espanto de quase susto, ouço: Sou o José Agualusa, o dono do Zumbi!... E, segue-se um espaço descolorido em cima dum branco fosforescente… Caramba é ele, o próprio! - Mas que prazer, disse assim meio tremendo de emoção com um formigueiro nos gémeos das quinambas. O José Agualusa!?

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Mas que prazer, repeti de forma escusada, meio encafifado e, ainda tendo na cabeça a musica “Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas,… trauteei!? Não! Diz Agualusa meio a rir-se de meu titubear feito bobagem de susto!  Não, diz ele do outro lado da linha… (uma pequena pausa, creio que um gole de whisky, dum surdo e insuspeito gluk…gluk…) É para te agradecer pela propaganda que tens feito do meu livro do Zumbi!   

agualusa1.jpg :::::146

Também para te desejar um bom carnaval!... Estou em Curitiba num “Work Shop literário” e ontem vi alguém que tu descreves nas tuas mokandas do Kimbo! Também na Kizomba! Alguém que anda por aqui a farejar negócios - reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo, disse isto como se eu apreendesse a mensagem vendo a figura. Não sei do que falas nem de quem falas! Disse eu, muito verdadeiro na surpresa. Nem tampouco conheço quem tenha uma orelha postiça. Pois, eu assim disse: - Não sei de quem falas amigo? Ele, o Agualuza, tinha sido meu vizinho lá no Huambo, podia dar-me a estas íntimas aproximações… Afinal quando ele cresceu, eu estava na Caála (Robert Williams).  

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Resposta rápida: Do teu personagem Coronel Fala Kalado, o morto vivo! Pópilas… (eu, no discurso directo) nem sabia que assim era! Às tantas até tem uma perna de pau que vira metralha ou catana em casos de periclitãncias e, eu sem saber. Pois é! O cara andou por aqui rondando. Não fosse eu saber de vossas relações e nem te iria perturbar a esta hora! Assim, como quem demonstra estar muito ocupado e após um Hic…Hic… xuk…xuk…krás…krás disse: - Fui! E, foice, digo foi-se mesmo!

fala1.jpg:::::148

E, eu que fazia o Coronel emérito das FALA estar bem perto de Poconé a traficar armas em troca de pó feito chocolate de canábis lá para os lados da Bolívia. Assim confuso, resolvi desvendar um pouco mais de sua escrita matrix das guerrilhas do Morro da Rocinha, lendo e relendo sem conseguir atinar na quietude do desassossego. Como é que descobriu meu telefone deste mukifo? Coisas por desvendar. E, que quereria ele dizer-me com esta descrição do cara ter na cara uma cicatriz bem por debaixo da orelha esquerda que era falsa. Vou-te contar (disse de mim para comigo mesmo!)

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RIO DE JANEIRO, IPANEMA, CLUBE FRANCÊS, NOITE – Na zona do CV – Comando Vermelho; Euclides, o jornalista, levanta a voz: Ouviste o que te disse? – Ouvi. O Presidente baicou… (morreu…) - E não te interessa? Francisco Palmares franze as sobrancelhas. Toda a sua atenção está concentrada no grande mapa da sala de comandos. Coloca e retira alfinetes. Desenha círculos a tinta vermelha em redor de determinadas posições. Enlaça os dedos e estala-os. Finalmente volta-se para o jornalista: - Então o velho baicou? Morreu como? – Faleceu durante o sono, enquanto fazia a sesta, ele era do tempo em que ainda se fazia a sesta. Ataque cardíaco. Foi Monte quem o encontrou… (parecem referir-se ao JES, o dono d´Angola)

matrindindi1.jpg :::::150

- Monte? O nosso amigo tem um talento especial para encontrar defuntos… Diz isto distraído e retoma o trabalho. O destino de Angola já não o entusiasma. Euclides senta-se numa cadeira. Abana a cabeça. Afaga perplexo o farto bigode. Aborrece-o o alheamento do outro: - Pensei que te agradaria a notícia. A morte do Velho vai abrir caminho para a democracia plena. O regime está a viver os seus últimos dias. Se a vossa aventura tiver um final feliz, entendes?, se o Governo aceitar as vossas condições … (este governo, é referente ao Brasil do tempo do PT - José Inácio, ainda liberto…) Pois tu não entendes, coronel?!...

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Se o José Inácio amnistiar toda a gente, podes depois regressar à Luua (Luanda). Francisco Palmares enfrenta-o de novo. Desta vez olha-o com intensidade. Pousa a mão nos ombros dele. Euclides sente-lhe a febre. Uma serena tristeza: - Eu já não volto meu kota. Não terei a alegria de morrer na Luua. Primeiro porque encontrei o meu destino. E depois, talvez nem se chegue a um acordo com o Governo (de novo o Brasil), talvez não haja um final feliz. A coisa aqui está a ficar preta (feia)… - O que dizes? Tu sabes que temos problemas…

araujo53.jpg :::::152

Começa a faltar comida na cidade e, como dizia a minha avó, em casa que não tem pão todos ralham e ninguém tem razão… Há divisões no movimento (do CV-Rio - Comando Vermelho), tem gente que quer assaltar os supermercados, os armazéns…Está a ser difícil lidar com algumas pessoas… O jacaré!?... Olha, por exemplo, o Jacaré. Muito destes mwadiés não têm formação politica. Em Angola vivemos um processo semelhante, não foi?, em setenta e cinco, quando o partido do M decidiu recrutar o lumpens (?),  a bandidagem dos musseques, gente habituada a fazer tiros… Mas não eram militares, faltava-lhes a disciplina… (refere-se aos pioneiros e outros desclassificados). E a seguir, ainda por cima, para saldar a dívida, deram-lhe cargos de responsabilidade… (de cabos fizeram generais num piscar de olhos).

café da avó1.jpg :::::153

- Pareces o teu pai… O meu Pai? O erro do meu pai, kota, aquilo que o perdeu, foi nunca ter sido capaz de passar das palavras aos actos. Democracia plena em Angola? Não, não penses nisso. Vai ficar tudo na mesma. (já Agualusa feito osga, estava a ver o filme bem afrente, com o laranja JL…). Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. Como assim? – Em Angola talvez seja possível derrubar o regime, mas não vai mudar nada. Aqui (Referia-se ao Brasil), ao contrário, podemos até perder esta batalha. Mas, depois da nossa derrota, acredita, nada será como antes. Mesmo derrotados, teremos vencido.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:08
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Sábado, 2 de Março de 2019
MU UKULU – XV

MU UKULU...Luanda do Antigamente02.03.2019

Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos, símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpg Luís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

muralha10.jpg Ainda como adenda a livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1910 em Angola e zonas de influência. O lingote era vertido em nó de caniço, uma forma manejável de um metal pesado, monetário ou não. No entanto a forma cilíndrica, ou vergalhão, era a mais espalhada pela África austral, tal como o material para a confecção de manilhas na forma de mutsuku, os “cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo”.

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Cada manilha era equivalente a 133 gramas de metal, o preço de uma enxada de ferro. Os tamanhos mais pequenos deste lingote, lembram as orelhas de um martelo: foi um tal Bent que primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruinas do Zimbabué em Fort Victoria e, de que Hall and Neal em 1903 encontraram o molde feito em talco xistoso, na estação de U’Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e “um jogo de bolinhas de talco xistoso”.

Mu Ukulu30.jpg Outros 12 moldes conhecem-se de Elizabethville e da Zâmbia; 21 espécimes foram encontrados por António Joaquim da Rocha “em Gwengue, junto ao rio Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva”, província de Manica e Sofala em Moçambique.

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A cruzeta era em tudo igual à cruzeta dos povos primitivos da Europa. Os mutsuku já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional quando os Venda bantos ali chegaram no século XVIII. Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena – mineiros do estanho do Rooiberg, distrito de Waterberg no Transvaal – em moldes cavados em areia ou talco xistoso.

Mu Ukulu19.jpg Lombongo – De libongo, nome dado em Angola ao “paninho” tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em N´Gola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de cinco reis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o autor, o termo é crioulo, derivado do kimbundo m’ilambongo, “uma quantidade de imbonge” (sing. m´bonge, ou ‘bongue’) coisa de contar, como o nó do caniço.

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Significa hoje, simplesmente, “dinheiro”. Macuta – do kimbundu makuta, plural de likuta, o nome quicongo dos célebres “panos”, tecidos de fibras vegetais que correram como moeda em Angola até 1694. A partir deste ano, correram principalmente moedas de 10 reis produzidas para “o Brasil e Guiné”, querendo ‘Guiné’ dizer todas as possessões portuguesas.

mucu2.jpg As macutas, com o dístico “África Portuguesa”, só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do marquês de Pombal. Conheceram, porém, uma grande distribuição no reinado de sua filha D. Maria I. Houve emissões em 1783 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata; 1 macuta, em cobre), 1784 (6 e 4 macutas, em prata), 1785 (1, ½ e ¼ macuta, em cobre), 1786 (1 e ½ macuta, em cobre), 1789 (12, 8, 6 e 4 macutas, em prata; 1, ½ e ¼ macuta, em bronze) e 1796 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata portuguesa correndo em toda a costa ocidental de África.

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As macutas foram desvalorizadas 50% sob o regente D. João, em 1814 (carimbadas nas missões até 1816), e não tiveram novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria foram de novo desvalorizadas em 20%, mas houve novas emissões em 1848-51 e em 1853. Sob D. Pedro V houve emissões das moedas de ½ macuta (1858) e de 1 e de ½ macuta (1860).

mucuisse.jpg No reinado de D. Luís I houve um ensaio de nova moeda para Angola: as moedas de 20, 10 e 5 reis de 1886 substituiriam as macutas, mas nunca foram produzidas. Assim, as macutas correram em Angola até à implantação da República em 1910, durante, portanto, 148 anos e 9 reinados.

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A terminar esta longa conversa sobre dinheiro na forma de n´zimbos, depois caurins, mais tarde panos libongo, colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes de cingir a garganta ou os pulsos de mulheres e homens, fazendo realçar o ébano da cútis, acabamos nas macutas e angolares. Recordar também os cultos mortuários com uma panóplia de artefactos símbolos de riqueza a dar importância ao nobre, cobrindo-o deste seu austero poderio.

mucu3.jpg De salientar que no Bié, a principal unidade de troca para alimentos e quaisquer outros produtos, exceptuando o marfim os escravos, era o pano. Cada pano media uma jarda, equivalente a 14 mm e, cujos múltiplos eram: a beca com duas jardas, o lençol com quatro jardas e a quirana com oito jardas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:31
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XIV

VIDA DE EMIGRANTE NO BRASIL - 26.02.2019

Bertoleza, como toda a cafusa, não queria sujeitar-se a negros; instintivamente procurava o homem numa raça superior à sua – umbigou-se com João Romão o português dono da venda… 
Escrito por – Aluísio de Azevedo
Por

soba0.jpegT´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro
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Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho
10 – O CORTIÇO - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil
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João Romão* foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhava nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda como o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro vivo.

cortiço6.jpg :::::135
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo de travesseiro um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
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Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia ungu*, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria*. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

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João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos acontecimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. “Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr´ali, todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro vivo”.
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E segredou-lhe então o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos. Daí em diante, João Romão torna-se o caixa, o procurador e o concelheiro da crioula. Ao fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais.

cortiço3.jpg :::::139
Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu João”, como ela dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel pardo se lia, mal escrito e em letras cortadas de jornal: “Activo e passivo de Bertoleza”.
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E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procura-la, ia logo direito a João Romão. Quando deram fé estavam umbigados.

booktique10.jpg :::::141
Ele propôs-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeita-se a negros e procurava instintivamente o homem de uma raça superior à sua. João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza.
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Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor, um baú grande de couro cru tacheado, dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um formidável cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita. O vendeiro nunca tinha tido tanta mobília. Agora, disse ela à crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vai ficar forra; eu entro com o que falta…

araujo190.jpg :::::143
Assim, recordando o meu avô que também emigrou para o Brasil, ainda lembram as memórias que ele era bem-apessoado e, o que ganhava como caixeiro, gastava no pagode com as Mariquinhas e outras desclassificadas crioulas. Neste meu quase sonho crepuscular, após ler o Cortiço, posso encavalitar aleatoriamente os acontecimentos dentro e fora do tempo dos muitos forrobodós de intensa refrega nos fins-de-semana, dos bailes pé-de-serra e carnavais de estalar quenturas. Aos poucos, António Lopes Loureiro foi substituindo os tamancos da Beira Alta por chinelos de matuto do agreste, abertos, ventilados quanto baste para poder deslizar nos térreos caminhos, feito um Lampião* - dos salões da surumbanda, samba e capoeiragem com patuscadas.

booktique12.jpg Notas* João Romão- Poderia até ter sido o Senhor António Loureiro, meu tio-avô por parte de minha mãe Arminda que depois de deixar duas filhas em sítio incerto do Brasil, nos anos trinta do século XX, rumou de novo para Portugal, regressando brasileiro, com sua santa “Nossa Senhora da Aparecida”, sem uma cheta, tísico chupado das mulatas, como se dizia nesse então; Ungu – Comida barata para gente sem eira nem beira; terreiro de reunião ….Alforria – passagem de estado de escravo a liberto; alguns escravos compraram a seus donos a liberdade – foi o caso de Bertoleza aqui descrita e, que umbigou, alambou ou amigou com o Vendeiro João Romão…
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:04
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
XICULULU . CI

TEMPOS QUENTES 17.02.2019

MALAWI – NIASSA . No vale do Rift - O esquecimento existe mas, nós não somos só silêncios – Cada qual tem o seu Rift... 3º De várias partes

Por

soba15.jpgT´Chingange - No Nordeste brasileiro

rift01.jpg O Grande Vale do Rift, também conhecido como Vale da Grande Fenda, é um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria até ao centro de Moçambique, com uma largura que varia entre 30 e 100 km e, em profundidade de algumas centenas a milhares de metros.

Este tema despertou-me curiosidade porque por ali passei recentemente descendo da Tanzânia. No 23º dia da “Odisseia potholes – haja paciência” pernoitei em Karonga a pensar neste hífen da viagem periclitante, coisa pouca a comparar com a fractura do RIFT da África. Pernoitando também em M´Zuzu no dia 14 de Outubro de 2018, pude alheando-me do cicerone chato como a potassa e, apreciar todo o lago Niassa ou Malawi em toda a sua costa ignorando-o.

rift3.jpg Este Grande Vale do Rift, tem a característica de ser considerada como uma das maravilhas geológicas do mundo, um lugar onde as forças tectónicas da Terra estão actualmente tentando criar novas placas ao separar as antigas. Mas, como é que essas fendas se formaram? Uma revista de publicação local, diz-me que o mecanismo exacto da formação correta, é um debate contínuo entre os cientistas.

No modelo popular para o EARS - East African Rifts, assume que o fluxo de calor elevado do manto está causando um par de "protuberâncias" térmicas no centro do Quénia e na região Afar do centro-norte da Etiópia. De anotar aqui que a história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo. Recorde-se Lucy, esse achado arqueológico importante que desvenda nossa natureza humana, descoberta no Vale de Awash nessa mesma região - Afar da Etiópia.

lucy1.jpg À medida que a extensão continua, a ruptura litosférica ocorrerá dentro de 10 milhões de anos, a placa somali se romperá e uma nova bacia oceânica se formará. Aquelas protuberâncias podem ser facilmente vistas como planaltos elevados em qualquer mapa topográfico da área ou visualmente como o é este presente caso. À medida que essas protuberâncias se formam, o trecho e fractura da crosta exterior quebradiça, origina uma série de falhas normais, formando a estrutura clássica de vales e fendas.

O pensamento geológico mais actual sustenta que as protuberâncias são iniciadas por uma “superpluma”, uma seção gigante do manto da Terra que leva o calor de perto do núcleo até à crosta e fazendo com que ele se expanda e se fracture. Este riff é indicativo de mudanças, acontecendo nas placas que transportam o continente, uma vez que é formado onde a crosta do coração, ou camada mais externa, se está espalhando ou se separando.

quipá0.jpg Só recentemente os cientistas começaram a descobrir precisamente o porquê de esses dois grandes blocos de terra se estarem a separar. Paralelamente a estes estudos de alterações tectónicas da terra, o homem redescobrindo-se, leva a que no ano de 2002, com técnicas sofisticadas e fidedignas, confirmarem a deslocação de gente vinda de África Central e do Sul, acerca de 7 milhões de anos e que, atravessaram pelo sul do Mediterrâneo, a seguir a Ásia e através do estreito de Bering desceram desde o actual Alasca à América Central, chegando consequentemente ao Brasil que hoje se conhece e, aonde me encontro.

Na década de 1997, encontraram um crânio feminino com cerca de 11.500 anos; referiram este achado com o nome de Luzia (Lucy), uma mulher dos seus vinte anos, olhos grandes e nariz achatado do tipo negróide. O terem chamado de Luzia a estas ossadas, é uma evidente referência ao fóssil de mais de três milhões de anos encontrados na Tanzânia em 1974, de características muito próximas àquele achado arqueológico da Lucy.

lucy3.jpg Recentemente, novos vestígios foram encontrados na serra de Capivara no Piauí, Nordeste Brasileiro. Foi sem dúvida o início da caça ao tesouro a comparar com as novas modas de Indiana Jonas. Machados e artefactos indicam que eles, os pré-históricos manos e primos de Luzia, viviam na idade da Pedra Polida entre 12 mil e 4 mil anos Antes de Cristo.

Nesta interpretação com busca do mundo, da globalidade e, de tratar o globo como se uma ervilha fosse, sabe-se que o dinamarquês Peter Lund, descobriu em meados do século XIX e, no Brasil, 12 mil fósseis, um cemitério de 30 esqueletos humanos ao lado de mamíferos de grande porte do tipo gliptodonts, uns tatus com cerca de um metro de altura. A estes achados, foi designado o período da pré-história Brasileira, em realidade, o continente da América do Sul.

lucy2.jpg Antes da escrita, há outras histórias que explicam as origens do ser humano. É a história, antes da história. Os arqueólogos, descodificando novos achados, analisam com testes de carbono e outras supostas verdades. Foi assim que olhando pinturas rupestres em Boqueirão da Pedra Furada na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, com a exploração de mais de 200 grutas, decifraram os vestígios dum anterior passado, antes dos Egípcios que também se acredita terem aqui chegado e, mais recentemente os Tugas (portugueses) com todas aquelas escondidas diplomacias de Papas e poder Régio da idade média definindo fronteiras ao tratado de Tordesilhas criaram uma nova raça: “O Brasileiro”…

moka25.jpg Mas, os Angolanos que nunca querem ficar atrás nestas descobertas, numa conversa de cacaracá, o Boniboni da Catumbela em Angola, um ilustre amigo meu, um vizinho ocasional do M´Puto, disse sobre isto com um linguajar simples e pícaro, o seguinte: - Mazé, esse tal de “Peter não sei das quantas”, tem que vir aqui nas barrocas da Luua destabilizar os defuntados ossos dos mais que passados primos da Luzia porque aqui, tem por demais, montes de ossadas pré-históricas meu... (é um comentário pouco sério! Não façam caso!). Nós, os TUGAS, somos, em verdade, ainda, um enigma indecifrado. Só sei que os Angolanos nunca provarão que os Tugas, nunca por ali passaram, que nada por ali, fizeram - por mais que tentem!...

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:24
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BOOKTIQUE DO LIVRO . XII

O Último Ano em Luanda . 1975 – UMA TERRA A FERRO E FOGO - 16.02.2019

Escrito por - Tiago Rebelo

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

booktique00.jpg Andei neste reencontro com os livros do criado mudo entre as páginas 360 e 363 do romance de Tiago Rebelo e, do que li posso garantir que não é propriamente um romance. É a realidade já aqui descritas por mim em Mocandas do Soba e, mais ou menos com a suficiente cordialidade em entender o impossível, a MERDA DA DESCOLONIZAÇÃO. Aos portugueses do Ultramar, não obstante tratarem-se, na sua maioria, de modestas famílias que ganhavam a vida nas indústrias, nos serviços ou na agricultura, tinha-se colocado o rótulo de colonialistas exploradores, por via da propaganda dos sectores radicais de esquerda que dominavam o governo de Lisboa.

Eles, os radicais de esquerda que eram mais que muitos e, que ainda o são (estamos em Fevereiro de 2019) queriam e, assim foi, deixar Angola nas mãos de Moscovo. Os brancos ultramarinos não estavam definitivamente, nas boas graças da opinião pública portuguesa. Desamados pelo MFA, desconsiderados por Lisboa, sentiam-se abandonados por todos e, até mesmo por familiares directos; este triste fado tem andado a ser cantado como um “desfado”, tratado como coisa pouca mas assim, não o foi!

moka17.jpg Em Luanda apenas um punhado de bravos efectivos do COPLAD, fieis ao Alto-Comissário, defendia a vida e os bens dos portugueses. Na Avenida Brasil e na dos Combatentes da Luua, as principais sedes dos movimentos foram destruídas entre si, a tiro e, com elas, os edifícios onde se situavam, alguns com dezenas de apartamentos trespassados por balas perdidas, por tiroteio assassino e negligente. O último grito em armamento eram os canhões sem recuo contra viaturas blindadas.

Os pseudo guerrilheiros do MPLA, sempre criativos em assuntos bélicos, davam uma nova utilidade a esta arma visando o seu poder de fogo para literalmente demolirem as sedes politicas dos movimentos rivais a saber, UNITA e FNLA. Os estragos, como se poderá imaginar, eram astronómicos, e punham em perigo milhares de civis. Na população branca, dissolvera-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.

moka18.jpg Esta batalha, a de Luanda, não se cingiu somente à capital. Alastrou por todo o Norte com desmandos brutais num preparado plano de tundamunjila pelos comandos Tugas do MFA aos brancos. Os brancos sem amas, sem apoio, sem a mínima hipótese viram-se numa de “ou mato, ou morro”. Como formigas salalé e em desordem fugiam com algumas imbambas daqui para ali mas e, principalmente sempre para Sul e, ou a Capital.

Assim, os últimos portugueses no Interior de Angola, formando comboios de carro puseram-se a caminho da Luua, atravessando perigosas picadas e outras estradas aonde pululavam guerrilheiros de faz-de-conta impregnados de muito ódio ao branco; muito cheios de vingança e com a cabeça cheia de fumo, liamba e bebidas desinibidoras, faziam a seu bel-prazer a justiça ocasional. Por dá-cá-aquele-palha, um cigarro, uma cerveja, um qualquer cobiçado traste, podia ser motivo de morte.

moc2.jpg Assim e correndo grandes perigos, procuravam o lugar de embarque na já tão falada ponte aérea; num desespero e abandonando tudo, fugiam simplesmente daquele inferno. Era o que preconizava Rosa Coutinho e seus guedelhudos do MFA - os urubus ou corvos, como queiram; Tropa fandanga nunca reconhecida traidora pelos muitos governantes de Portugal no após 1975. Com três semanas de combates arrasadores, nunca o MPLA acudiu aos apelos de Paz faltando a todas as reuniões do comando unificado da Luua. A Emissora Oficial de Angola era simplesmente ignorada pelo MPLA.

O MPLA venceu a Batalha de Luanda expulsando a UNITA e a FNLA com a inequívoca ajuda do glorioso MFA do M´Puto. Em verdade a Batalha de Luanda resumiu-se ao duelo entre MPLA e a FNLA, enquanto os soldados e militantes da UNITA, sem armas para retaliar, se tinham simplesmente resignados a fugir. Os que não puderam fugir, foram simplesmente massacrados aos milhares (maioritariamente negros mas e também, alguns brancos). Recordem-se do massacre na sede Pica-Pau em que abateram homens quase desamados, mulheres e muitas crianças…

silva p0.jpg Onde quer que uma pessoa se encontrasse escutava o inevitável fragor dos combates, o rebentamento de obuses e também, observar no céu colunas de muito fumo. O medo sentia-se no ar! Camionetas passavam com feridos e mortos em direcção ao hospital e à morgue largando rastos de sangue pelo asfalto; Tem-se agora a certeza de ter sido de propósito para provocar o pânico entre os brancos. Está escrito! Mas, sempre haverá muitos dizendo ter-se esquecido; que talvez não tivesse sido tanto assim; sempre a tentar lavar o sarro de tanta hipocrisia. Sinto-o!

Mas, não obstante tanto esquecimento, confirma-se ter sido o MFA o principal comando de tudo – o autor da logística! A bandalheira do exército do M´Puto estava institucionalizada. Nas ruas da Luua viam-se soldados regressados do Norte de Angola sem qualquer aprumo, barbas desgrenhadas, ao estilo de Ché Guevara, o revolucionário do estilo, da época. Época nada digna. Os brancos estavam entregues a si próprios; ando a remoer o passado para não me deixar consumir por rancores inúteis… Ou mato, ou morro!

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:05
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019
MU UKULU – XIV

MU UKULU...Luanda do Antigamente15.02.2019

Entre Monomotapa e Catanga corriam entre as classes dominantes dessa região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA…

Por

soba0.jpeg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

luis0.jpgLuís Martins Soares – No Rio de Janeiro - Brasil

Mu Ukulu26.jpg Tomando como base o livro de Mu Ukulu de Luís Soares, aqui se irá falar das moedas correntes desde o ano de 1641 a 1693, moedas-mercadoria que vigorariam desde a chegada dos portugueses à Ilha da Mazenga ou das Cabras e, que nos dias de hoje se chama somente de a ilha de Luanda. Será por assim dizer uma adenda a complementar o que se sabe daquele sistema monetário controlado pelos reinos de N´Dongo e Kongos e outros, em África.

Mu Ukulu25.jpg Em sequência temos os zimbos, n´jimbu, pequenas conchas, propriedade do rei do Congo que apareciam por toda a costa de N´Gola mas com os mais belos exemplares colhidos na ilha de Loanda pelos m´bikas às ordens dos chefes m´fumos. Estes, mergulhavam na contra costa da ilha retirando-os por meio do arrastamento com cestos estreitos e compridos chamados “cofos”. Dos mesmos eram recolhidos os zimbos que podiam totalizar em média e por cofo, uns dez mil.

No correr do tempo foram surgindo outros meios de permuta tais como o sal, a cera, o cobre, os panos ou libongos, marfim, mel silvestre, as cruzetas e os escravos saídos das guerras entre tribos e depois entre estes e mercadores negreiros. Mas, sabe-se por ensaios numismáticos-arqueológicos que entre Monomotapa e o Catanga corriam entre as classes dominantes desta região uns lingotes de cobre com o nome de HANDA, (ref.ª de Octávio de Oliveira na revista Notícia do ano de 1966).

Mu Ukulu27.jpg A palavra banta HANDA significa clã entre os ovimbundo e outros povos de Angola; por outro lado, Octávio de Oliveira refere que Leo Frobenius, explorador e fundador da etnografia belga, chamava aos mesmos objectos “handacreuse”, que poderá ser heterografia da palavra flamenga handelkruis, “cruzeta de comércio” ou “cruzeta de cobre”, uma provável origem deste termo.

Quanto ao sal era retirado das minas com o auxílio de escopros e cinzeis nas regiões de entre o baixo Kwanza e o médio Cuango aonde viviam os ambundos, falantes de língua kimbundo. Extraiam este cloreto de sódio das terras da Kissama, do Libolo, da baixa de Cassange e junto aos rios Quionga e Lutoa. Estas minas que eram controladas por chefes, sobas locais, consideravam o sal da Kissama como sendo de qualidade superior aos dos baixios da costa.    

Mu Ukulu28.jpg Teremos de falar de cruzetas ou lingotes indo à raiz da palavra Jimbamba - Palavra crioula e, referida pelo autor, Octávio de Oliveira como formada de jimbo, o nome dado em kimbundo à cíprea angolana (o zimbo, que corria até ao Catanga como moeda) - quantidade de zimbos, coisa de valor. Acrescente-se que o termo perdura no português falado em angola como “imbamba”, os pertences de alguém. Jimbo – do kimbundo yimbu, do Quioco N´zimbu, moeda; palavra que deu origem a jimbamba.

Curioso é o de referir que quando o governador Henrique Jaques de Magalhães fez circular esta primeira moeda em Angola, já ali corriam moedas de 20 e 10 reis – situação que originou um motim entre a soldadesca brasileira situada na guarnição de Luanda. Os luchazes eram hábeis na confecção de manilhas, usavam o cobre que os lobares lhes levavam da Lunda para permutar com cera.

Mu Ukulu29.jpg O mais característico destes objectos foi a “lucana-bua-mwano” que circulou em N´Gola e no Kongo, peça com configuração da Cruz de Santo André com tamanho e espessura variadas. Foram produzidas e usadas a partir do século VIII e, utilizadas como moeda de troca em permutas comerciais, pagamento de impostos, tributos ou alambamento por uniões matrimoniais de umbigamento. Circularam por toda a África até finais do século XIX.  

Depreende-se do trabalho de pesquisa em referência que o lingote de cobre africano ocorre em três formas: a barra cilíndrica, o “H longo” em forma de astrágalo – o “jogo das pedrinhas” – o objecto monomotápico assim denominado por Theodore Bent em The Ruined Cities of Mashonaland, e a cruzeta. E, nesta busca surge o Lerali - uma barra cilíndrica de 45 cm de comprimento com um cone de 160º tendo numa extremidade decorações protuberantes em forma de chifres.

Mu Ukulu23.jpg Libongo foi o nome que veio a ser dado em kimbundo ao “paninho” tecido originário do Loango ou palmeira-bordão, semelhante ao “paninho do congo” ou likutu que circulou como moeda no princípio do século XVII; acrescente-se que é palavra do kimbundo calunda lu m´bongu,”moeda – m´bonge”. Um libongo valia 5 réis em 1695. O libongos de N´Gola dividiam-se em “bongós, sangos e infulas” enquanto os do Kongo eram chamados de “panos lim´kundis. Os panos conhecidos por sambu ou nollolevieri, tinham a condição de objecto-moeda e serviam apenas para vestir os nobres africanos.  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:23
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019
N´GUZU. XXVIII

ANGOLA E OS QUILOMBOS DO BRASIL13.02.2019

Angola e os Quilombos - Na Cerca dos Macacos…

Por

soba15.jpgT´Chingange – No Nordeste do Brasil

aqualtune.jpg Estive lá no dia 14 de Março de 2009 (há dez anos atrás), na Serra da Barriga e, do que vi e li, concluí o que antes e a seguir descrevo. O termo de Muxima que é a saudade dos mwangolés - quimbundos, pode ler-se no quadro de entrada na Serra da Barriga: “Muxima dos Palmares é uma homenagem aos Comandantes-em-Chefe que formavam o Conselho Deliberativo do Quilombo dos Palmares - São eles: Acaíne, Acaiuba, Acutilene, Amaro, Andalaquituche, Dambrabanga, Ganga-Muiça, Ganga-Zona, Osenga, Subupira, Toculo, Tabocas, e seus principais lideres: -Aqualtune, Ganga-Zumba e Zumbi, Banga, Camoanga e Mouza, que resistiram depois da morte de Zumbi, aqui também são homenageados, assim como todos os negros e negras, guerreiros e guerreiras.

Todos aqueles que ao longo de quatro Séculos lutaram (e ainda lutam) pela liberdade racial”. Uma outra placa com fundo preto e letras salientes reconhecido no final pelo Governador Alagoano, Engenheiro Ronaldo Lessa a 20 de Novembro de 2002: -“Homenagem aos Heróis Quilombolas que tombaram lutando pela liberdade em 06 de Fevereiro de 1694: Ganga Zumba, Dandaro, Acotirente, Andalaquituche, Aqualtune, Gana Zona, Ganga Muiça, Acaiúbo, Toculo”.

arau44.jpg A SERRA DA BARRIGA - “CERCA DOS MACACOS” O termo Sanzala ou Senzala em Angola é um povoado normal enquanto que no Brasil está conotada com as casas de tortura, da canga, dos grilhos, da chibata, da bola, da máscara de sino e correntes. Kimbo é o nome de sanzala na região de fala Umbundo em Angola, planalto Central com suas casas, libatas como montar uma loja virtual ou embalas.

Todo este trabalho de pesquisa, foi objecto de promessa minha ao fiel depositário do Guardião da cultura em União dos Palmares e Zelador do Museu de Maria Mariá, Senhor Paulo de Castro Sarmento Filho, que teve amabilidade de me mostrar o actual mocambo de Muquém, a Serra da Barriga e descrever o seu trabalho ainda em esboço duma Cartilha Pedagógica, um projecto de cultura viva. Acompanharam-me nesta visita que durou todo um dia, a Dra Rosa Casado, natural daquela cidade de União, e filha de um dos últimos prefeitos de União dos Palmares  de quem me prezo ser amigo. Ficou a promessa de uma futura visita aos mocambos de Cajá dos Negros e Palmeira dos Pretos, povoados em que ainda são visíveis os costumes antigos trazidos de África.

zumbi7.jpg Vivem da agricultura, da venda de artesanato, potes em cerâmica, feitos de forma manual. Estar ali, é o mesmo que estar em qualquer sanzala de Angola nos dias de hoje. Por todo o interior de Pernambuco, perto Guaranhuns e Alagoas em União e Palmeira dos Indios, as características levam-nos à África longínqua

Sintetizo aqui, o essencial com algumas e poucas introduções de meu foro - “A África revelada por Arnon de Mello” e publicado no jornal Gazeta de Alagoas. No século XVII, Alagoas oferece reduto para os negros formarem os inúmeros quilombos que prosperavam em todo o território brasileiro, mas que tiveram na Cerca dos Macacos da Serra da Barriga, nos Palmares, sua maior simbologia. O Brasil foi o país com a maior concentração de escravos negros do mundo com dados indicadores de 3,5 milhões. A liberdade, por meio de fuga, consolidava-se pela anormalidade da vida administrativa e económica da capitania de Pernambuco.

araujo179.jpg Palmares, perdurou por 64 anos, capitulando no ano de 1696. O governador da capitania relata ao rei D. Pedro II, o pacífico, a morte de Zumbi dos Palmares. Senhor - O Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro em carta de 25 de Março deste ano de 1696, dá conta a Vossa Majestade de como se houve a certeza de haver conseguido a morte de zumbi. Para que nenhuma dívida se fizesse, para aquietação dos povos e para exemplo dos negros que o julgavam imortal, e para demonstração do que se diz se envia cópia da acta feita pelos oficiais da câmara de Porto Calvo e, por ela se sabe que o grosso das tropas paulistas na pessoa do Capitão André Furtado de Mendonça que conseguiu a morte do negro no sumidouro que este artificialmente fizera na serra dos dois irmãos.

O corpo que se apresentou aos ditos oficiais, pequeno e magro, em cujo exame se viram quinze ferimentos de bala e muitos de lança vendo-se que o membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiado na boca, também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita; que perante os oficiais da câmara juraram as testemunhas pertencer o cadáver ao negro Zumbi, a saber, um cabo maior que se apanhara vivo na companhia do dito, os escravos Francisco e João, o senhor do engenho António Ponto e o lavrador de partido António Souza, que todos haviam conhecido em pessoa o açoite daqueles povos; que se lavrou na acta do reconhecimento do cadáver do negro Zumbi, e que para que se pudesse isso mostrar ao governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro deliberou-se levar ao Recife somente a cabeça ( Nesse então, era habitual esta prática).

araujo158.jpg Pela impossibilidade de levar o corpo todo; que no pátio da câmara presente todos os oficiais, um negro decepou a cabeça a qual se salvou com sal fino, o que tudo se faz constar na mesma acta, que assim pode ele governador Caetano De Melo e Castro à vista da cabeça e da acta, da câmara ter a certeza da morte do negro que tantos danos fizera à Real Fazenda e aos moradores das capitanias de Pernambuco. Este documento será assinado em Lisboa a 2 de Setembro de 1696 pelo Conde de Alvear, por João de Sepúlveda e Matos e José de Freitas Serrão.

É este, um modesto contributo a juntar à história dos países Lusófonos intervenientes, Angola, Brasil e Portugal. E, para que conste na “Torre do Zombo do Kimbo” aqui ficam os agradecimentos a Paulo Sarmento, Governador Assistente do Rotary Internacional, Distrito 4390 e Rosa Casado, Advogada aposentada, que me proporcionaram horas de encanto e convívio.

Ilustrações de Costa Araújo (Mano Corvo)

Referência Bibliográfica: A África Revelada, ensaio de Arnon de Melo.

Da lavra (n´Nhaca) – 14 de Março de 2019

Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:22
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2019
KANIMAMBO . LXVI

CONVERSANDO COM LOUIS ARMSTRONG – II08.02.2019

Procurando entender de como é que o PROCURADOR, Louis Armstrong encontrou uma medalha do Maximiliano da Áustria na praia da Pajuçara no ano de 1551

Por

soba15.jpg T´Chingange . No Nordeste brasileiro

Naquele outro dia, dois de Fevereiro deste ano de 2019, fiquei confuso com o que Louis Armstrong me disse lá junto à canoa de Pajuçara. É impossível, ele ter encontrado uma medalha com os brasões de Maximiliano II da Áustria que reinou nos anos de entre 1527 até 1576, há mais de quatrocentos e setenta anos, mais coisa menos coisa. Em relação a isto, nada falei porque me pareceu ser uma mentira de todo o tamanho e, de tão grosseira reservei-me para estudar o que eventualmente possa ter sucedido. E, do inaudito passei à pesquisa.

maximilano1.jpgSabe-se que em meados do séc. XVI, o Rei D. João III de Portugal, ofereceu ao seu duplamente primo, o Arquiduque Maximiliano da Áustria II e, também genro do imperador Carlos V de Espanha, um elefante que viera da Índia Portuguesa – diga-se um presente de casamento muito sui generis e, que até foi uma obra de literatura do Prémio Nobel o escritor Saramago mas, nesta muita confusão de primos, terem chegado aqui as maluqueiras é assunto de colocar as mãos pró céu e rogar esclarecimento oficioso ao Nosso Senhor.

Hoje, sexta-feira dia oito, cheguei à praia ainda não eram dez para as seis da manhã. Na Praia dos Sete Coqueiros e entre esta e a canoa ficam situados os campos de futvolei, lugar aonde sempre furo a areia para meter meu chapéu. Vi um cara colocando pequenos cones vermelhos na areia e, logologo não deu para notar que esta figura já era minha conhecida; vai daí e nesta operação de aprontar o ginásio de praia, fui providenciando minha tarefa de colocar as minhas duas cadeiras mais um chapéu-de-sol ligeiramente inclinado por via de o vento; por vezes surge vindo das nuvens pretas e, foi neste entretanto que ouvi.

kanimambo0.jpg - Bom dia Frank Sinatra! Era nem mais nem menos do que meu já conhecido Louis Armstrong, só que desta feita todo vestido ao rigor dum personal trainer, igual a tantos outros espalhados pelos seis quilómetros do Calçadão de Maceió. Oi! Bom dia companheiro!... Como é!? Hoje não é mais o procurador? Cadê seu instrumento de saxofone de buscar piercings, anéis e esse negócio da medalha com as armas do Maximiliano. Nesta fase dos acontecimentos já tratávamos sua excelência da Áustria por tu e o escambau de kambas com edecéteras mais o fulano, seu primo de D. João III do M´Puto.

Olha, disse ele apontando para o lugar já preenchido com pinos, argolas, escadas de cordas na horizontal e uns elásticos pendurados em um dos seis coqueiros. As mininas estão chegando e tenho de dar minhas instruções, depois falamos, topa dôtor? (minhas insígnias…que fazer?) Topo! Foi a minha curta resposta pois que, o tempo urgia presteza. Ora esta! Reparei que bem junto ao largo do calçadão e ao lado dos seis coqueiros (foi quantos contei) estava uma estrutura montada em quadrado; era a base de apoio do, quatro varões suportando uma pirâmide

kanimambo1.png Na parte da aba lateral da pirâmide virada para o mar, pude ler: Louis Armstrong – Training – GSW. Afinal, este cara é multifunções! É procurador de metais, professor de ginástica e sei lá mais o quê. Foi quando reparei no negão sentado numa mesa rectangular bem ao centro deste cangalho piramidal e meio tapado pelo isopor, copas e drogas revitalizantes tipos red-bull

Era o mesmo Jacaré de nome, o tal de soturno e com uma pesada cabeleira de trancinhas raistaparta, melhor rastafári, tal e qual, o mesmo que da outra vez me cantou o “Preto de Nascença” igualito ao já descrito na série Booktique na referência ao Agualusa, meu companheiro de escritas mentirosas. Jacaré que estava atento a tudo, reparando em mim fez-me um rasgado adeus terminando com os dedos da mão esquerda fazendo um C e com a outra um V, assim separando os dedos indicador e o asneirento, tal como fazia o gordo Winston Churchill. Mau-mau, pensei eu assim no pretérito taciturnado…    

cruzeiro0.jpg C e V só poderia ser mesmo o tal Comando Vermelho que o Candengue Agualusa fala em seu livro de ”Quando o Zumbi tomou o Rio”. Saudei-o da forma descrita e, por momentos passei a olhar as mulheres badalando suas formosuras num vai e vem de frente e de costas e outras correndo de lado como o caranguejo e outras ainda esticando a corda elástico do coqueiro. E, sobe e desce transpirando vontades! E, eu assim encuscado no tal CV – Comando Vermelho do Jacaré. Podia agora entender o porquê de ele dizer naquele outro dia e depois de declamar seu linguajar de “Preto de Nascença”: Tenho vocação é de terrorista!

Fui fazer minha hidroginástica e quando notei que estavam a decorrer os últimos exercícios, fazendo alongamentos, saí da água na intenção de fala com o Louis Procurador-Training. Jacaré veio recolher toda aquela tralha de equipamento e, enquanto ajustava as parafernálias em seu pau-de-arara com elásticos, cadeiras, cordas, pinos e caixas multicolores numa caminheta verde do tipo Bedford antiga, Louis Armstrong veio até mim.

cruzeiro01.jpg Então, tudo bem? Tudo nos conformes, disse eu! Caramba, tu também és professor de ginástica!? Tu sabes dõtor, a vida não está fácil! Disse ele! Tenho de me virar noé!? Disse isto como querendo dizer-me mais qualquer coisa mas interrompi-o. Diz-me só quem foi o artista, o entendido, o arqueólogo ou historiador que te disse ser aquela medalha que encontraste e, que dizes ser dum tal Maximiliano da Áustria?

Olha dôtor! Foi no centro da cidade. Um tal Professor Katedrático que tem uma casa de penhores, que compra e vende oiro e relógios chamado Sérvio Graciliano. Há coisa de um ano ele virou e revirou a medalha, interpretou a forma das unhas dum parecido leão da Casa de Habsburgo. Que sei eu, pagou bem e nada mais sei do que isto. Espera, dôtor! Ele falou dum tal Sacro Imperador Romano-Germânico, e da Infanta espanhola Maria de Habsburgo.

araujo 41.jpg Falou muita coisa que nem lembro mais direito! Um tal de Grão Mestre da Ordem Totonica (…) Agora sim! Uma trabalheira por desvendar este negócio! Disse eu… Dõtor (que era eu), não quebre sua cuca não! Dei um comprimento artístico meio desportivo ao Jacaré que entretanto chegou até mim! Que tal dôtor! Depois assim tipo socando punho com punho e fazendo um C com a mão esquerda e um V com a direita! Dôtor, estou vendo!? Vendo o quê?... Esta guerra também é sua, tá ligado? Tou sim! Disse sem pensar e terminei numa de frentista: - É sim, meu irmão… Tudo está complicando, disse baixinho, só para mim…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:24
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XI

Peguei aleatoriamente no ANO EM QUE ZUMBI TOMOU O RIO - 06.02.2019

Escrito por José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

agualusa1.jpg Hoje choveu e por isso espreguiço aqui mesmo em meu mukifo. No meu olhar de xicululu, assim um olhar de esguelha ou olho gordo, martelei por cima do meu sobrolho a frase de que “Os portugueses são o povo mais atrasado da Europa porque há séculos que se misturam com os negros” e, fiquei assim um pouco a remoer muxoxos asneirentos por o caso ter raspas melindrosas e, calhou na página 94 do Zumbi ler uma passagem em que mete um negão repentista na prosa e poesia de nome Jacaré.

Jacaré, um moço alto, soturno e com uma pesada cabeleira de rastafári chega chegando, molengão, dando um leve toque de dedos no Louis Armstrong, o “procurador” que vós conheceis:

- E aí, meu irmão?!

- Beleza, chefe.

- Canta aqui para o Frank Sinatra (eu) teu rap, «Preto de Nascença», tá ligado?

- Jacaré começou imediatamente a sacudi o copo ao mesmo tempo que declama:

«Era um preto com alma de branco dizia a tudo, sim doutor, está muito certo doutor, só queria trabalhar mas exigiam boa aparência, sim, doutor, está certo doutor (ele tinha uma infinita paciência).

Era um era, num era, um preto que sabia o seu lugar sim doutor, sim doutor seu filho em casa de barriga vazia e ele: sim doutor, está certo doutor.

Sua mulher morreu de bala perdida e ele: a vida doutor, esta nossa vida.

agualusa2.jpg Seu pai morreu de bebida e ele sempre: sim, doutor, está certo doutor, seu filho morreu de fome.

E então um dia o crioulo endoidou, mudou de atitude, mudou de nome, chega de tanta dor.

Agora sou Zumbi, sou Xangô, sou Lampião. Agora sei qual é o meu lugar sim, doutor, é no meio dessa briga meu lugar é no Morro da Barriga.

E se você é o elefante e eu sou a formiga ainda assim deixe que lhe diga, não tenho medo, perdi o medo. Sou preto, sim, conheço minha cor a cor do seu medo, doutor mas minha alma é azul anil conheço meu lugar esta terra adorada entre outras mil, és tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo mãe gentil, Pátria amada, meu Brasil»

negro2.jpg Jacaré sacode o suor do rosto, senta-se náreia, pede uma Coca-Cola. Sorri para o procurador, para mim também:

- Gostaram?

Ambos ficamos impressionados e falei:

- Os versos são ruins

- As rimas, um desastre.

- Mas a mensagem parece-me forte, muito forte na verdade, não esperava por isto. Jacaré explicou que os últimos versos pertencem ao hino nacional. Os burgueses irão ficar chocados quando escutarem isto. Bom! Falo eu: - Portugal recebeu os primeiros escravos negros em meados do século XV. Dezenas de anos depois, os negros já eram 10 por cento do total da população lisboeta. Essa percentagem viria a crescer para 13 por cento no século seguinte.

missosso2.jpeg A pergunta imediata é a seguinte: Que destino tiveram estes africanos? Regressaram a África? A resposta é não!  Eles foram absorvidos, misturaram-se do ponto de vista genético, social e cultural. Eles ajudaram a construir a Portugalidade introduzindo valores e dados culturais novos. A palavra minhoca é apenas uma de dezenas de outras marcas no domínio linguístico. Olhem que no Ribatejo havia aldeias cuja população era maioritariamente negra. Jacaré e o procurador olham reticentes curvando as pálpebras. É mesmo?

Minha amiga Maria Carapinha tem este nome porque seus trisavôs eram negros retintos e, hoje já nem os traços negróides têm. Basta ir beber uma ginjinha ao largo S. Domingos em Lisboa para termos esta sensação; no Cais do Sodré já não resta nenhum sinal das negras que ali vendiam mexilhões. Podemos descobrir testemunhos dessa presença em quadros, azulejos e cerâmicas variadas. Falando com meus amigos aqui na praia da pajuçara relembro um tal de Thomas Malthus que na sua visão religiosa de ver o mundo a nuo, disse disparates grossos.

roxo111.jpg Palavra puxa palavra, cheguei a Hitler e às técnicas segregacionistas do Apartheid na África do sul para não falar dos próprios americanos e, os seus primos Australianos. Nem sei porquê os brasileiros gostam tanto assim, dos gringos. A conversa ficou por aqui mesmo… Até amanhã doutor (era eu). Assim se despediram de mim e, ali fiquei especado olhando o vento sem saber se eles entenderam metade do que disse.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:25
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BOOKTIQUE DO LIVRO . X

A VIAGEM DO ELEFANTE – José Saramago – Da Caminho - 04.02.2019
Por

soba15.jpgT´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

sacag1.jpg Um Desafio de Maria João Sacagami (psicóloga) . No Bombom do Rio de Janeiro
Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)
1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee
2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa
3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo
4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador
5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira
6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz
7- Vidas Secas de Graciliano Ramos
8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho
9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

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Saramargo1.jpg À lista de livros da BOOKTIQUE, adicionei um oitavo mais um nono LIVROS com falas bem diferenciadas e com conteúdos de se lhe tirar o capacete. Aleatoriamente, falarei destes e de outros, sem me meter a fundo nos meandros filosóficos de cada autor; copiando aqui e além partes mais fosforescentes da linguagem, introduzirei meu linguajar sem a preocupação das normas que Nosso Senhor me estipulou com sua mão direita. Dar com a esquerda sem que a direita o saiba ou o seu reciproco. 
Bom! Pois! A mão direita porque a esquerda por vezes falseia. Para além do mais e seguindo os conceitos bíblicos blábláblá, deixa para lá… A erudição de cada qual, autor, não vai ser aqui analisada porque minha caminheta não comporta tanta tonelagem; Neste caso do sétimo e oitavos livros, um foi Prémio Nobel (Saramago) e o outro foi Camões (O autor, Luandino Vieira recusou tal prémio porque, de tão honesto, disse ser seu português demasiado atravessado)...
O JAMBA SALOMÃO CAPA DO JAMBA - O elefante milagreiro Salomão, o Jamba de Saramago do ano de 1553, oferta de Dom João III a seu primo o Arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do Imperador Carlos V, passou por Pádua e fez tremer a queixada relíquia de Santo António de Lisboa e Pádua; o Salomão desta inventação de José Saramago fez um milagre à porta da catedral de Pádua. 

saramargo2.jpg Desde o tempo de D. Afonso Henriques que há crise em Portugal; no entanto e, nos intervalos, houve grandes gestos de magnanimidade. Em meados do século XVI, o rei D. João III ofereceu esse tal elefante indiano a seu primo, o Arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V. D. João V, em 1721, momentos de boa situação financeira com muito ouro saído do Brasil, ofereceu 50 dúzias de pratos de ouro para os Cardeais Pereira e Cunha representarem condignamente Portugal em Roma.
Eu não estava lá, mas pude verificar há uns anos atrás em visita ao Vaticano, que a queixada do santo tremeu de indignação. Tendo gasto, tanto despifarro para curtir vaidades. O Conarca, homem condutor do elefante, burlão quanto baste, estava mancomunado com o bispo e, eis que o dito cujo bicho de quatro toneladas, se ajoelha com as duas patas dianteiras, uma coisa nunca presenciada de um esquisito e trombudo animal. 
Um milagre por inteiro, diz o digníssimo relator Saramago ao afirmar que a assistência presente no adro, em grande número, toda ela, acto contínuo se ajoelhou imitando o quadrúpede. Se eu dissesse isto, era logo excomungado pelos midia. Mas que espectáculo eu perdi! Em troca, Salomão recebeu uma generosa aspersão de água benta com aquela coisa, um zingarelho de espantar espíritos que os bispos usam. 

saramargo3.jpg Dentro da catedral a múmia do santo António estremeceu de gozo no túmulo, afirmação de gente muito crédula. (Mais tarde, eu, na primeiríssima pessoa, século XXI, também vi!…) Esta estória dum ateu que se diz agnóstico, é tão ou mais macabra que as já muitas estórias aqui descritas pelo relator vanguardista do blog Kimbolagoa, um ilustrem desconhecido 
Háka! Não é que, o Cornaca tirava pelos do cú do elefante para fazer pulseiras de macumba, vendendo estas aos fieis devotos ao Santo. E, não é que comprometeu seriamente nesta operação de trapaça e candonga o mui nobre Arquiduque Maximiliano da Áustria, como um vulgar Lello cigano da nossa praça (vendedor de cuecas em segunda mão) numa corrupta ligação com inspectores da ASAE da ilha de Lançarote, 600 anos depois (ou antes,... já nem sei!)

dia19.jpg Em 1730 o mesmo D. João V oferece um caixote de barras de ouro para a princesa das Astúrias e, um ano depois outro caixote do mesmo ouro vindo do Brasil para a rainha de Espanha, Em 1732 mais 72 barras desse ouro para o núncio apostólico Bichi, em Roma e, em 1733, mais 24 barras do mesmo ouro para ajuda do enterro do núncio apostólico Cavallieri, em Roma. É demais!...
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:09
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2019
KANIMAMBO . LXV

CONVERSANDO COM LOUIS ARMSTRONG02.02.2019

Pois! Uma coisa chamada de talassoterapia com a vitamina D de Deus… Armstrong, amontoa suas roupas em cima das chinelas ficando em sunga tipo calção florido idêntico ao meu…

Por

soba15.jpg T´Chingange . No Nordeste brasileiro…

Na praia da Pajuçara, encostado à Canoa, vendo o sol recém-nascido lá no horizonte e, lá pelas seis horas da madrugada, chega um senhor moreno na cor e na idade que, cumprimenta. – Bom dia! Respondo também com um bom dia. Amontoa suas roupas em cima das chinelas ficando em sunga tipo calção florido idêntico ao meu. Senta-se e ali ao lado dizendo algo sobre a maré que está secando; falas de ocasião pra puxar conversa. Dando-lhe um pois-pois, claro, sinto ter ele, vontade de falar – Não tem nada demais.

Já habituado a esta empatia nordestina vou dando respostas aleatórias sobre as algas, o tempo e as mazelas. Comenta aquilo que todos falam e também repetida na televisão vezes sem conta: A desgraça da barragem de terra do Brumadinho! Assim permanecemos falando de várias coisas até que lhe perguntei: Como se chama? Resposta pronta: Louis Armstrong!

ARMSTROG1.jpgBom… em realidade tinha alguma semelhança com o cantor e trompetista de outros tempos mas, daí a chamar-se nem mais nem menos da mesma forma, fiquei só um pouco intrigado. Seus pais deviam gostar muito desse senhor músico que faleceu no ano de 1971!? Por acaso você também é músico? Não, mas gosto muito de ouvir sua voz rouca; é verdade que meu pai tinha um fraquinho por esse tipo de canções choradas com encanto.    

-E o senhor, faz o quê? Pergunto. Parece-me que ainda está na vida activa! Não hesitou um segundo para responder: - Sou Procurador! Bem! Assim neste panorama, mantinha-me na dúvida se não me estaria a tomar por parvo e dizer-me inverdades. Eu sabia que Procurador era assim uma figura de destaque tal como Procurador da República, figura de Estado e esta Louis Armstrong até no nome me parecia ser uma pegada mentira. Mas, tenha-se em conta ser demasiado deselegante perguntar-lhe detalhes mais fragmentados.

panoias2.jpg O mar verde continuava a secar, a maré descia a olhos vistos juntando fiadas de algas verdes e o Louis Armstrong tudo indicava estar à espera de ficar muita areia para depois entrar. Pensei que assim queria ter rasura na altura da água, para esfregar suas quinambas, o peito e talvez fazer uma tratamento terapêutico pelos banhos de mar e pela acção dos climas marítimos.

Pois! Uma coisa quase hidroginástica chamada de talassoterapia com a vitamina D de Deus, pois que qualquer coisa por ele falada era terminada com a graça de Deus, se Deus quiser. Falava assim denunciando sua veia evangélica, usando com tato as palavras para não ofender o Senhor. Bom! Como seguindo as palavras do novo presidente Bolsonaro que também diz, a bem da nação, o País acima de tudo e Deus acima de todos.

uruguai3.jpg Eu evitava usar palavras para o senhor que não fossem demasiado periclitantes ou polémicas e assim derivei para a vulgaridade de não reutilizar garrafas de plásticos com água porque, tal e coisa, um produto de plástico por um longo período de tempo não se conhece segurança de remover completamente todos os perigos nele contidos. Bom! Mediante esta conversa um pouco mais desenvolta o senhor de sobrolho meio retorcido perguntou qual era o meu nome. Resposta imediata: Frank Sinatra. Bom! O bigode dele ficou retorcendo a sobrancelha com três rugas a salientarem sua admiração. Ambos estávamos a ficar infestados de bactérias…

Pois é! Falei. Meu pai adorava ouvir Frank Sinatra e tal como o seu, também me baptizou desse mesmo jeito! E, olhe que gosto imenso de o ouvir. E, afinal já morreram ambos num é!? E, que faz na vida? Perguntou ele. Conto estórias! Então é escritor? Não, eu só escrevo para animar os amigos, porque gosto de usar as formas directas do linguajar do povo com que contacto; invento muito e por vezes fico rindo só e, que nem um tonto com minhas inventações.

kafu5.jpg Bem dôtor, vou ter de ir à minha luta, ganhar a vida! A maré já está bem seca para pegar no meu saxofone! Reparem que devido à minha fala assim mais erudita, Louis licenciou-me de dôtor em menos de poucos minutos. Ué… e, afinal ele é mesmo tocador de pífaro, ou trombone ou que sei eu, sei lá clarinete. E, bolas, aqui a imaginar tonteiras! Deve tocar para quem passa para receber uma gasosa; não é a primeira vez que vejo gente tocando na praia para os namorados, para gente com dólares, pessoas românticas que gostam de repentistas.

arau44.jpg Mas ele não disse que era Procurador!? Vou deixar aqui minhas coisas, o dôtor dê uma olhada fazfavor! Pois não! disse eu. Deixe ficar! Foi quando foi atrás do barraco da Canoa e de lá, veio com seu saxofone, assim uma vara comprida com uma espécie de argola no fim. Um saxofone bem esquisito, diga-se! Só dei pelo meu erro quando iniciou sua caminhada em zig-sagues pela areia com seu instrumento riscando chão até apitar. Só então entendi o que era essa função de PROCURADOR. Quando ele aqui chegar vou dizer-lhe que agora é PESQUIZADOR… Isto há coisas…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:47
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . IX

VIDAS SECAS – COMO SINTO O MUNDO

Pretonceito - Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé…

- Torcer enxugar e corar - Secando a palavra ao sol …17.01.2019

Por

soba0.jpeg T´Chingange - Na Lagoa do M´Puto

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO – Como dar certo …Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS - Graciliano Ramos . Br

84  - Secando a palavra ao sol e, porque foi feita para se dizer, recordo as “vidas secas” de Graciliano Ramos, escrito de 1937 e assim, acompanhei parte do trajecto da família de Fabiano e também da cachorra Balaia. No meio de muitas arbitrariedades próprias da classe dominante de então no Brasil e, andando eu frequentemente por terras de índios Caetés, lá terei de ler o “São bernardo” de 1933 e o “Angustias” de 1936, talvez o melhor das suas publicações.

85 - A partir de factos simples, tento compreender com a maior exactidão, analisando isto e aquilo e, no possível, o meu próprio desenvolvimento do pensamento - Dar atenção a um, descuidando um outro que o precedeu. A teoria da casualidade por reflexão de ressonância sucedeu ouvindo um grilo que canta, que grila…Ele canta, estridula, guizalha, trila ou tretinha num zumbido que se interrompe. Com estes silvidos, chego à via especulativa no ser capaz de me ajudar a compreender o Mundo.

booktqiue6.jpg 85 - E, porque também está viva em minha memória, relembro parcialmente as “Vidas Secas”. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. «Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do Rio Seco, a viagem progredira bem umas três léguas. Fazia horas que procuravam uma sobra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.

86 - Arrastavam-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Fabiano, sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda pederneira no ombro; o menino mais velho e a cachorra Balaia iam atrás. Os juazeiros aproximavam-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

gracilano1.jpg 8- Anda condenado do diabo gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo. A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor dos bichos moribundos.

88 - Anda, excomungado! O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um facto necessário - os tremidos e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro caboclo precisava chegar, não sabia onde.

booktique7.jpg 89 - Tinham deixado os caminhos cheios de espinhos e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés…» Esta descrição espremida como roupa pronta a corar, causa-nos calores e frios tremidos, uma miragem com uma amargura tão sobrevivente que podemos até sentir sofrimento. Ele tinha o condão de elaborar um trabalho colocando no papel tudo aquilo que conseguia observar na pessoa, num animal, em uma cidade e sua sociedade, com matizes varias.

90 - Foi um pouco a partir dele que trabalhei a curiosidade, descrevendo assuntos demasiado banais. E, fiquei também ciente de que o que toca a imortalidade é a obra e não o ser humano. Nisto de recordações acabo por chegar ao conceito de se escrever “por linhas tortas” e, é aqui que largo o preconceito, para recordar alguém de nomeada e, que mudou minha forma de estar. É ele Graciliano Ramos! E, disse assim: -“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para se dizer”. Assim diz Graciliano no ano de 1962, para comparar seu ofício de escrever com o acto de lavar roupa pelas lavadeiras do rio.

booktique8.jpg 91 - E, recordo-me de no acampamento aonde dormi com meu pai, um bivaque de gente da Brigada dos Caminhos de Ferro de Angola, de ter ouvido hienas a chorar e urros distantes de leões em um ermo quase sertão como aquele do Nordeste brasileiro; relembro deste meu jeito os bidons ao redor do acampamento contendo tochas de fogo pela noite, para afugentar as feras nesse lugar conhecido por Lucala, sobre o rio com o mesmo nome e, no distante ano de 1954; era eu candengue – falo de Angola.

92 - Claro que relembro algo que deveria estar esquecido, disse isto para mim mesmo. Uma terra que deixou de ser nossa por pretonceito, já o meu pai o dizia - Como é!? Não é erro ortográfico não! É uma nova palavra de origem manwgolé… porque simplesmente de dia para a noite se perdeu o direito de nela se viver. E pelo dizer de Graciliano, um escrito deve ser lido e relido, ensaboado, esfregado, batido no lajedo, no burgau, como uma peça de roupa suja. Assim fiz: - depois, pô-lo a corar nas ervas, nas bissapas ou penedias, após enxaguar. Estou fazendo!

araujo69.jpg 93 - Ler seus escritos é como revisitar um laboratório e obter capacidade literária independentemente dum qualquer estilo. Por isso não escrevo átoa, ao calhas, Será!? …Mas ele, com sua caneta bike, transformava um banal relatório ou carta burocrática em uma verdadeira peça literária. E, já que isto é mencionado, quero avivar relatos de seu exercício passados ao papel no ano de 1930; ainda eu, o T´Chingange, nem era um projecto de vida pois que minha singularidade surgiu no ano de 1945 e na convulsão dos sons de obuses da primeira guerra mundial.

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:49
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Domingo, 13 de Janeiro de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . VIII

GLOBALIZAÇÃO

- Cinco séculos de pessoas, costumes e governos desaproveitados…13.01.2019

Por

soba0.jpeg T´ChingangeEm Lagoa do M´Puto

booktqiue3.jpg 74 - Se estudarmos as lições da história para daí tirarmos conclusões sobre como sobreviver na globalidade com crises constantes, teremos de dar crédito ao dito por um concelheiro respeitável, D. Luís da Cunha ao serviço do rei D. João V, "o Magnânimo", quando o aconselhava a fazer transferência da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro no Brasil. Ao estabelecer-se no "imenso continente do Brasil", o rei de Portugal deveria tomar o título de "Imperador do Ocidente" quando não pendia ameaça iminente sobre a soberania portuguesa na metrópole (M´Puto).

75 - Esta ideia fora já apresentada pelo padre António Vieira, na situação de emergência do período da Restauração da Independência de Portugal; esta ideia visava buscar um meio de afirmação e engrandecimento do reino de Portugal ao mesmo tempo que garantia melhor a sua segurança na Europa. Passado que são mais de trezentos anos, até custa acreditar haver em esse então, gente lusa com tanta visão da globalidade.

booktqiue5.jpg 76 - Portugal necessitava engrandece-se juntando para tal a gente letrada de um e outro lado do Atlântico para preservar a união de todos, letrados com gente rica. Já nesse então quatro quintos da receita do reino, vinham do brasil, ou seja 80%. Lendo agora os escritos de Joseph Stiglitz que foi assessor do presidente Bill Clinton e Vice-presidente e economista-chefe do Banco Mundial, verificasse que afinal em relações entre povos, o interesse económico, foi, continua a ser e assim será, o ponto fulcral.

77 - É mais comodo e seguro estar aonde se tem o que sobeja, que onde se espera aquilo de que se carece. Na lista de livros da BOOKTIQUE, mencionei em número cinco a História da riqueza do Brasil de Jorge Caldeira e é curioso ver o quanto tem de semelhança com a leitura da Globalidade deste conceituado economista Stinglitz, numero seis do booktique. Em realidade, no mundo da lusofonia, dos países da CPLP, ambos se complementam nesta visão!

booktqiue0.jpg 78 - No mundo, qualquer acordo de comércio entre países, envolve custos e benefícios. Os países impõem restrições a eles mesmos, na crença de que restrições recíprocas aceites pelos outros, abrirão novas oportunidades, cujos benefícios superarão os custos. Infelizmente, para a maioria dos países em desenvolvimento, não tem sido esse o caso, porque nenhum acordo é melhor do que um acordo ruim.

79 - O comércio não é um jogo de somar zeros em que aqueles que vencem, o fazem à custa dos outros; ele é ou pelo menos pode ser, um jogo de soma positiva, em que todos podem ser vencedores. Se quisermos que esse potencial se realize, devemos primeiro rejeitar duas das premissas da liberalização do comércio: que a liberalização leva automaticamente a mais comércio e crescimento, e que o crescimento irá automaticamente “gotejar” em benefício de todos.

booktqiue4.jpg 80 - Nenhuma das duas premissas é consistente com a teoria económica e com a experiência histórica. Para haver apoio à globalização do comércio no mundo desenvolvido, devemos garantir que os benefícios e custos sejam compartilhados de maneira mais equitativa, o que envolve uma tributação mais progressiva da renda; é o que nos diz em seu livro, Joseph Stinglitz. A globalização não será aceite pelos trabalhadores dizendo-se a eles que poderão ter um emprego, desde que aceitem salários mais baixos.

81  - Os salários podem aumentar somente se a produtividade crescer, e isso exige mais investimento em tecnologia e educação. Infelizmente, em alguns países industriais avançados, isso é o oposto que vem acontecendo: os impostos a se tornarem mais regressivos, as redes de segurança a se enfraquecerem e os investimentos em ciência e tecnologia a declinarem como percentagem do PIB, assim como o número de formados em ciência e tecnologia. Com a globalização, aprendemos que não nos podemos isolar completamente do que acontece no resto do mundo.

roxo91.jpg  82 - Os países industriais avançados beneficiam-se há muito tempo das matérias-primas que obtêm do mundo em desenvolvimento; seus consumidores beneficiam imenso com bens manufacturados baratos, de melhor qualidade e, cada vez melhor. Ajudar os habitantes do mundo em desenvolvimento, aqueles que são mais pobres, é uma questão moral mas, cada vez mais se reconhece que esta ajuda é também uma questão de seu próprio interesse. Com a estagnação, as ameaças de ordem dos desiludidos diante do desespero, aumentarão.

83 - Tenha-se em conta que onde quer que predomine o capital, predomina o trabalho, e onde quer que predomine a renda, predomina a ociosidade. Os capitais são aumentados pelo acto de poupar, de economizar, de despender moderadamente e diminuídos pelo esbanjamento e pela má administração. O maior objectivo social em economia passa a ser a criação de grandes mercados, que fazem a riqueza das nações. Seria bom que surgisse um novo Dom Luís da Cunha a incentivar um grande mercado entre os PALOPS - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa com o Brasil e seus mais de duzentos milhos de almas na liderança…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:19
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