Domingo, 18 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 140

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3551 – 18.02.2024

 “A LONGA MARCHA  COM SAVIMBI” Segundo Fred Bridgland

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

moxico1.jpg Entretanto recorda-se (Via Wikipédia): O Presidente da Guiné-Conacri, Ahmed Sékou Touré, foi quem fez a proposição de reconhecimento da RPA na reunião da Organização da Unidade Africana (OUA) de 10 de janeiro de 1976 em Adis Abeba. A 11 de Fevereiro de 1976, a OUA, então presidida pelo Presidente do Uganda Idi Amin Dada, reconheceu a RPA como legítimo governo de Angola, aceitando-o como o 47º. membro da organização.

O General Kamalata Numa da UNITA anos mais tarde em resposta a uma pergunta esclarece ter  havido actuação de tropas congolesas ao lado das tropas ditas regulares do MPLA: - É verdade! À coligação MPLA/cubanos juntam-se tropas congolesas com um total aproximado de 10 batalhões que passam a actuar no Centro/Sul de Angola…

moxico01.jpg Continuando com a descrição do que foi a grande marcha de Savimbi e, ainda muito longe do seu termo, a coberto da escuridão, Savimbi dividiu em três grupos inteiramente novos, os seus próprios seguidores, os de Samalambo e os do capitão Chimbijika, que os oficiais de Savimbi descobriram ter montado uma base da UNITA com 100 guerrilheiros. Cada um dos grupos partiria durante a noite em direcções diferentes.   

Esperavam iludir os pisteiros do MPLA, levando-os a acreditar de que a maior coluna, a de Samalambo, era a que protegia o líder Saviambi. Os três grupos tomaram o rumo das matas mais densas, afastados tanto quanto possível das margens dos rios, estradas e povoações. Os oficiais de Savimbi observaram  que os cubanos patrulhavam regularmente ao longo do curso dos rios e das estradas, na sua busca pelos homens da UNITA. Aventuravam-se pouco nas zonas de matas que se estendiam pelas áreas rurais e, com as quais, só os guerrilheiros  da UNITA estavam familiarizados.

moxico2.jpg Às  primeiras horas da noite, homens e equipamentos movimentaram-se  para cá e para lá, entre os três grupos, através dos muxitos das matas. Savimbi transferiu o seu rádio e operador para Samalambo, que poderia vir a precisar mais deles: ele deveria dirigir-se a uma área sob muito maior controlo por parte do inimigo e estabelecer uma base da UNITA perto do Caminho de Ferro de Benguela.

Savimbi disse aos seus guerrilheiros que dormissem, porém, passou a noite a dar instruções aos oficiais superiores das três colunas. Ele disse: «Como homens do exército, poderiam querer desesperadamente combater o inimigo. Em vez disso, porém, tinham de com firmeza e depressa actuarem, afastando-se do problema». Para conseguirem  o que se propunha, teriam de conciliar a necessidade de uma rigorosa obediência por parte de seus homens, com a capacidade de lhes demonstra  compreensão numa situação de desespero.

moxico5.jpg Foi bem peremptório ao dizer-lhes que existiam razões de sobra para terem  esperança. O inimigo mostrava que a sua estratégia era fraca. Estavam a actuar como estranhos: Não conheciam o terreno nem tinham o apoio da população, pois, de outra forma, nessa altura já Savimbi teria sido capturado. Estava bem claro, agora, para os oficiais, que a população estava com a UNITA. E Savimbi disse-nos: «Se o povo não desiste, porque razão desistiria eu?».

Nesse mesmo ano, após um veto por parte dos Estados Unidos, a Assembleia Geral das Nações Unidas admitiria Angola como membro 146º, em 1 de dezembro de 1976. Mesmo reconhecendo a independência angolana deste 10 de Novembro de 1975, o Governo Português somente reconheceu a autoridade do MPLA, sob o comando do Presidente de Angola Agostinho Neto a 22 de dezembro de 1976.

Nota: - “Transcrições de Fred Bridgland em “Jonas Savimbi: Uma Chave para África”.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:39
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 136

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3547 – 08.02.2024

O 11 de Novembro de 1975 no Huambo” - “A LONGA MARCHA” 

- Escritos boligrafados da minha mochila, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

unita1.jpg Proclamação de Independência paralela – No Ambriz e Huambo, Holden Roberto, líder da FNLA, proclamava a Independência da República Popular Democrática de Angola (RPDA) à meia-noite do dia 11 de Novembro, no Ambriz. Nesse mesmo dia, a independência da RPDA foi também proclamada em Huambo, por Jonas Savimbi, líder da UNITA.

Reconhecimento internacional e consequências das 3 prolamações: Logo depois das três declaração da independência em Luanda, Ambriz e Huambo, reiniciou-se a Guerra Civil Angolana (que já estava em curso desde Fevereiro de 1975) entre os três movimentos, uma vez que a FNLA e, sobretudo, a UNITA não se conformaram nem com a sua derrota militar nem com a sua exclusão do sistema político.

mocanda32.jpg Uma parte considerável da população rural, especialmente a do Planalto Central e de algumas regiões do leste, fugiu para as cidades ou para outras regiões, inclusive países vizinhos. Em Fevereiro de 1976, deparamos com o rápido avanço do MPLA com cubanos para a tomada do Lobito, Benguela e Huambo à UNITA a sul e, a norte o Soyo, a antigo Santo António do Zaire sob a alçada da FNLA.

A seguir, o Comité Político da UNITA abandona Huambo e inicia a retirada para Sudeste. Savimbi inicia, juntamente com duas mil pessoas, aquilo a que se veio a chamar a “Longa Marcha”. O líder da UNITA, Jonas Savimbi, viria a atingir o Cuelei só a 28 de Agosto, milhares de quilómetros percorridos, apenas com 79 resistentes.

unita2.jpg Lendo Fred Bridgland, este, conta o que a seguir se trancreve com a devida vénia de algumas passagens do que foi  “A Longa Marcha de Jonas Savimbi...”. Tudo começa a 8 de Fevereiro de 1976. Aconteceu quando as colunas blindadas de cubanos entraram no Huambo, o quartel-general político da UNITA, durante os seis meses anteriores.

Com a ocupação do Huambo, a vitória fora, virtualmente, completa para os cubanos e o MPLA. No dia seguinte, Savimbi abandonou o seu quartel-general no Bié e voou em direcção ao Leste, para o Luso... Ao principio da tarde do dia 10 de Fevereiro, o capitão “Bock” Sapalalo ouviu os camiões cubanos e do MPLA que se aproximavam da última ponte a norte do Luso...

unitao1.jpeg Alcides Sakala

Savimbi dormia, pela primeira vez em 70 horas, quando as primeiras bombas explodiram no Luso, às 4 da tarde. Foi acordado do seu sono profundo por Chiwale. A população estava em pânico. Savimbi convocou rapidamente uma reunião para lhes dizer que a UNITA iria retirar e organizar uma nova guerra de guerrilha.

Meia hora depois de terem caído os primeiros morteiros, três aviões MIG bombardearam violentamente a cidade tendo morrido cerca de 50 pessoas. Imediatamente após o ataque aéreo, foi ordenada a evacuação do Luso. Cerca das 5 horas e 15 minutos da tarde, os primeiros veículos da UNITA abandonavam a cidade: na coluna de carros diversos e Land-Rover seguiam cerca de 1000 guerrilheiros que Chiwale conseguira reunir. Alguns milhares de civis, com os seus haveres, seguiam pelas bermas da estrada. O cortejo tomou o rumo sul, em direcção a Gago Coutinho, que distava dali cerca de 350 quilómetros.

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:48
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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2024
VIAGENS . 133

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3544 -30.01.2024

 “Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”

A CARAVANA.5A FUGA - Escritos boligrafados da minha mochila

- Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Namibia31.jpg Continuamos com a descrição de Sonia Zaghetto: Eu e minha mãe fomos para casa de um casal idoso que nos acolheu com uma refeição quente, um banho e uma cama quentinhos. Estava tanto frio. Pela manhã, logo depois do café, nos levaram à loja da filha deles, onde já estavam a minha futura cunhada e sogra. Disseram para escolhermos as roupas que quiséssemos.  Nesse dia fiz as pazes com Deus.

Aquelas pessoas me apresentaram o outro lado da humanidade, feita de bondade com quem está refém da tragédia. Só podiam ser emissários do Divino, anjos perdidos no interior da África. Em Tsumeb, um novo acampamento, as mesmas barracas de campanha. Mas a comida era melhor, assim como o tratamento que recebíamos. Ficamos pouco tempo.

okavango 01.jpeg Conseguimos ser aprovados na seleção, graças a meu futuro cunhado e por eu ter começado a servir como intérprete. Benditas aulas de inglês. Mudamos de campo outra vez. Fomos para Grootfontein, mais próximo a Pretória. O campo    era um presidio que estava sendo desativado.

Restavam lá uns 3 ou 4 presos, todos idosos. O presidio era formado por várias casernas e eles nos separaram. Tinhamos refeitório com mesa e bancos, e a comida era surpreendente. Imagine, senhor, que comemos até sobremesa de maçã caramelada no forno. É que os presos eram os cozinheiros. Fiz amizade com um deles. Tinha 65 anos e estava preso há 30 pelo assassinato da esposa num acesso de  ciúme. A filha não o visitava.

okavango3.jpeg Depois que saí do campo e ele da prisão, fui à casa dele. Era um homem gentil – como pudera fazer aquilo? Mistérios do coração humano que jamais saberei. Continuei sendo intérprete junto à assistente social e ao director do campo. Meu futuro cunhado arrumou emprego numa fazenda. Meu namorado logo sairia, mas eu era menor de idade e não poderia deixar o campo.

Estava dificil para minha mãe. Ir para Portugal estava fora de questão, dado o desprezo com que nos tratavam. Eu e Zé decidimos casar. Minha mãe passou a ser minha responsabilidade (acredita que até hoje ela fica muito zangada quando lembra disso?). E assim, no dia 6 de novembro de 1975, casei dentro de um presidio que funcionava como campo de refugiados. O diretor e a assistente social foram nossos padrinhos.

quitandeira5.jpg Os soldados que tomavam conta do campo fizeram uma cotinha (vaquinha) e pagaram a nossa festa e a lua de mel num hotel na cidade. O casório teve bolo, vestido de noiva e tudo, viu? O Jeep do exército nos levou ao hotel. Os soldados ficaram dentro do Jeep vigiando para que não fugíssemos. De madrugada, acordei com dor de ouvido.

Na recepção não havia remédios, as farmácias só vendiam medicação com receita. Os soldados me levaram para o hospital, onde fui atendida. Ao voltarmos para o campo, os soldados contaram para todo mundo a aventura. Não escapamos à gozação geral: “Nem os ouvidos poupaste à miúda, Zé?” Casada pelas leis sul africanas, no dia 11 de Novembro casei na Igreja e duas semanas depois casei novamente no consulado português.

(Continua…)

(Texto corrigido de Sonia Zaghetto)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:36
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Domingo, 28 de Janeiro de 2024
VIAGENS . 132

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3543 -28.01.2024

 “Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”

A CARAVANA.4 – A FUGA - Escritos boligrafados da minha mochila

- Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

cluny1.jpg Aprendi, nessa época, que tudo o que está ruim pode piorar. Minha familia deixou Nova Lisboa, assim como meu namorado e a mãe dele. Eu fiquei. Aguardava minha mãe, que tentava sair de Luanda. De repente me vi  sozinha, aos 16 anos, num país que se esfacelava e numa cidade em que os grupos guerrilheiros se enfrentavam para dominar o território. Agora havia tiroteios em toda parte. Passei a morar na sede da Cruz Vermelha.

Finalmente minha mãe chegou e conseguimos uma carona para Sá da Bandeira, mais ao sul. Fomos de camião, minha mãe na boleia com o motorista e a esposa dele; eu e os filhos dele no meio da carga de batata. Até hoje, meu senhor, o cheiro de batata me agonia. É cheiro de fuga, de desesperança e perda. Em Sá da Bandeira reencontramos meu namorado e a familia dele, com quem tinhamos combinado sair de Angola. A confusão era enorme.

fuga001.jpg Gente andando de um lado pro outro, tentando encontrar familiares ou arrumar um jeito de sair dali, gente sem um centavo até para comprar água. Faltava comida, além de esperança. Não lembro exatamente da data em que finalmente saímos em caravana (onze carros e um camião) à noite pelo meio da mata, com destino à fronteira com a África do Sul. Sei que era início de Agosto. Durante a viagem encontramos duas patrulhas de guerrilheiros.

A primeira foi mais tranquila, aceitaram o suborno de cigarros. Já a segunda foi apavorante: queriam nos prender de qualquer jeito. Segundo eles, éramos ladrões das riquezas de Angola. Todo aquele zelo patriótico não resistiu à propina. Além de cigarros e bebida alcoólica, demos dinheiro para que nos deixassem seguir.  O sol começava a nascer quando encontramos uma coluna do exército da África do Sul.

etosha1.jpg Ainda estávamos em território angolano, a cerca de 10 quilômetros da fronteira, mas eles nos escoltaram até um campo de refugiados já em território sul-africano. Foi o primeiro campo em que ficamos. Eu sentia  raiva, meu senhor. Muita raiva! Uma revolta surda contra os brancos portugueses de Portugal, que nos exploraram durante séculos e agora nos viravam as costas dizendo que éramos brancos de segunda classe.

Revolta contra os negros, por acharem que a diferença na cor das nossas peles fazia que fôssemos diferentes deles. Éramos todos angolanos, mas apenas nós estávamos sendo expulsos de nossa terra e não tínhamos para onde ir. O acampamento era feito de barracas de campanha. Sabes como é, senhor, aquelas barracas verdes do exército? Na nossa barraca dormiam seis adultos e duas crianças.

namib5.jpg Cada um recebia um um cobertor e três refeições por dia. Comida pouca, ninguém ficava saciado, mas matava a fome. Estávamos agradecidos, pois os sul-africanos faziam mais por nós do que o governo de Portugal. Esse acampamento – destinado a angolanos e moçambicanos – era um local de filtragem. A alguns era vedada a possibilidade de ficar no país. Esses eram logo encaminhados ao grupo consular português e enviados ao aeroporto, onde aviões da África do Sul os levavam para Portugal. Outros eram mandados a outros campos de refugiados.

Nós, graças a meu futuro cunhado, que era engenheiro agrícola e já tinha uma promessa de emprego, fomos para outro campo. Escoltados por uma coluna do exército, seguimos para Tsumeb. Na estrada para Windhoek, havia uma cidadezinha. Avistamos gente nos esperando. Abordaram o oficial do exército que nos conduzia e pediram para nos dar abrigo naquela noite. Desconhecidos encharcados de solidariedade, que queriam nos oferecer o alimento mais precioso, esperança…

(Continua…)

(Texto corrigido de Sonia Zaghetto)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:38
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2024
VIAGENS . 131

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3542 -25.01.2024

 “Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”

A CARAVANA.3 A FUGA - Escritos boligrafados da minha mochila

- Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

valentina3.jpg No Baleizão comi prego no pão com Coca-Cola. Nos bares à beira da praia comi santola, camarão, peixe no molho de dendê, muamba com pirão de milho. Eu nem sabia, senhor, que fabricava as lembranças mais caras. Um dia elas seriam os retalhos coloridos da minha colcha de saudades.

Tudo mudou em Abril de 1974. Angola ansiava pela justa independência; estávamos numa entressafra de tranquilidade. O terrorismo de 1960 quase não existia mais – não sentíamos isso. Os guerrilheiros tinham sido rechaçados pelas tropas portuguesas. Porém, com as mudanças na política de Portugal Continental, tudo mudou nas colónias lusitanas da África. Grândola Vila Morena deu a senha para os cravos florescerem nas armas. Marcelo Caetano caiu!

luua9.jpg O socialismo venceu em Portugal: Álvaro Cunhal, Mário Soares e seus camaradas no poder de então, apoiaram a independência e o Movimento Pela Libertação de Angola (MPLA), liderado por Agostinho Neto e patrocinado pela ex-URSS, Cuba e Alemanha Oriental. Mas no país existiam também a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, apoiada pela França e pela Bélgica; e a União Nacional pela Independência Total de Angola, de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos. FNLA e UNITA não aceitaram os favores de Portugal ao MPLA.

Iniciou ali, senhor, a grande guerra civil que devorou o meu país por três décadas. A violência aumentava a cada dia. Balas perdidas, rajadas de metralhadora, morteiros de bazuca e granada passaram a ser rotina. Quantas vezes, tínhamos que nos jogar no chão, dentro da sala de aula ou do cinema? Lembro de um dia em que Jesus Christ Superstar estava na tela enquanto eu, deitada no chão no cine Tivoli, ouvia as balas assoviarem por cima.

xiricuata5.jpg Era difícil para todos, mas quem tinha pele branca, como eu, caia em um limbo. Eu não era colonizadora, nem exploradora. Era uma adolescente angolana, pobre e agora considerada inimiga. Em meados de Março de 1975, começamos a cumprir o toque de recolher. A partir das 16 h, brancos não podiam andar nas ruas sob pena de serem presos ou mortos por grupos guerrilheiros. Estes não eram mais chamados terroristas e sim aclamados como heróis da libertação.

Havia assassinatos de homens brancos todo santo dia. As mulheres sofriam mais: eram seviciadas antes de morrer. Minha mãe rendeu-se ao medo: em Junho daquele ano me mandou para Nova Lisboa, onde tínhamos familiares e as coisas estavam mais tranquilas. Muitas famílias estavam fugindo do norte do país e indo pra a nossa região, onde recebiam apoio da Cruz Vermelha Internacional para deixarem o País com destino a Portugal ou à África do Sul.

camionista1.jpg Comecei a trabalhar como voluntária num dos postos da Cruz Vermelha. As caravanas do norte se multiplicavam. Eram tantas, que houve dias em que não dormíamos. Engolíamos pedaços de pão enquanto limpávamos ferimentos, distribuíamos comida e dávamos informações. Quando conseguíamos parar por alguns minutos, encostávamos o corpo nas caixas de alimentos e dormíamos em pé mesmo.

A multidão rugia em desespero. Gente à procura da família, gente abatida e sem rumo. Derramavam grossas lágrimas, lamentavam-se em alta voz pelos parentes mortos, pelos bens perdidos, pelas emboscadas às caravanas. O bicho homem é bruto, meu senhor. Lembro muito bem, ainda hoje, de uma caravana. De um dos carros desceu uma família atacada na estrada. A mãe tinha uns olhos perdidos e carregava o filhinho no colo. Seu choro era um chicote que arrancava lascas da gente e tingia de cinza o vasto mundo. Implorava que lhe salvássemos o menino, mas ele, senhor, já estava morto. Nesse dia, lembro-me bem, rompi com Deus. Reneguei-o. Era bem certo que nenhum ser supremo e bom poderia ter criado tal humanidade perversa e tanta dor a fustigar as costas dos inocentes.

(Continua…)

(Texto corrigido de Sonia Zaghetto)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:11
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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2024
VIAGENS . 130

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3541 -24.01.2024

 “Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”

A CARAVANA.2 - Escritos boligrafados da minha mochila

- Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fuga8.jpgÉ Sónia, Sonia Zaghetto que continua a falar: - A casa do avô, em Nova Lisboa, tornou-se lugar das férias até os meus 10 anos. O avô trabalhava de sol a sol na chitaca. Levantava-se   às 5 da matina e ia para os campos de sisal, abacaxi, laranja, goiaba, tangerina, caju. Às 9 horas, eu e os primos levávamos o matabicho para ele e para os trabalhadores. Era bom aquele tempo de brincar, nadar no lago, subir nas árvores, cravando os dentes nas frutas colhidas no pé…

Correr atrás de patos e galinhas e dar cigarro aos camaleões só para vê-los mudar de cor e despencar do galho completamente chapados. Até hoje, senhor, não encontrei comida melhor que a da senzala. Todos juntos, brancos e negros, comendo pirão ao molho de dendê e peixe-seco. Que saudade agora me dá de pegar o pirão com a mão, molhar no dendê e depois lamber os dedos besuntados. Não há nada melhor, visse?

kuito2.jpg Quando eu e minha mãe saímos de Nova Lisboa, fomos para Luanda. Ela trabalhava como costureira. Foi assim que me criou, sentada na máquina de costura. Cresci entre tesouras, linhas e tecidos, rendas e fitilhos. Grandes espelhos reflectiam as senhoras elegantes que chegavam a toda a hora.

Minha mãe era a melhor: só trabalhava pro high society de Luanda. Noivas? Eu juro, senhor, que perdemos a conta de quantas ela vestiu – uma mais bela que a outra. Adolescente, estudei num colégio de freiras, o melhor de Luanda (creio eu ser o São José de Cluny), o mais caro. Era bolsista e tinha a obrigação de ter notas altas.

fuga9.jpgEntrei no colégio por recomendação do presidente da Câmara de Luanda, cuja esposa era cliente da minha mãe. Gosto de lembrar desse colégio. Ali fiz grandes amizades, algumas duram até hoje, embora separadas por oceanos. Foi lá, também, que aprendi a me defender. Filha de mulher solteira, quantas vezes me chamaram de bastarda? Nem lembro. Eu reagia. Não nasci para baixar a cabeça, não senhor.

Morávamos num apartamento bem pequeno. Quarto e sala, cozinha, banheiro e uma sacada minúscula, de frente para o mercado municipal, que a gente chamava de Kinaxixi ou Mercado da Maria da Fonte. Na época de provas eu acordava às 3 da madrugada. Quando os feirantes começavam a arrumar as bancas, eu aparecia na sacada e berrava para que parassem de fazer barulho, que eu precisava estudar. Eles riam e moderavam a barulheira. Depois de um tempo, eles se acostumaram a conferir: se a luz do quarto estava acesa, já gritavam “Hoje vamos ficar quietos. Vai estudar, miúda!”.

kina1.jpg Meu pai só vi duas vezes. Na primeira eu tinha seis anos e ele me levou pra passar o dia na casa dele e conhecer sua esposa e filhos. A segunda vez foi aos 16 anos. Ele me encontrou na rua, na garupa da moto de um amigo e repentinamente se lembrou de que era pai. Mandou eu descer e ir pra casa, que filha dele não andava de moto. Ah, meu Senhor, filho mal havido nem sempre engole sapo – anote aí. Disse-lhe que não era meu pai, que não passava de um reprodutor. Depois disso nunca mais o vi. Tudo o que sei dele é que vive em Portugal.

cluny1.jpg A vida em Angola enchia de festa meu coração adolescente. Com os Escoteiros Marítimos da Praia do Bispo acampei em ilhas e praias distantes, participei de paradas militares, visitei hospitais e presídios. Com o grupo de dança folclórica do Rancho da Casa do Minho de Luanda, dancei em campeonatos e apresentações. Vi o nascer do sol na praia da Ponta da Ilha, andei de moto nas dunas da praia do Sol e acampei na paradisíaca ilha do Mussulo.

(Texto corrigido de Sonia Zaghetto)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:48
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Sábado, 28 de Outubro de 2023
VIAGENS . 98

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3509 – 28.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - “Tropas cubanas para Angola, já!”-  Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

an1.jpeg Luanda - empresas e, até algo inédito, saído de gente que era publicamente notória como Deodoro Troufa Real, o arquitecto das rotundas (ainda vivo) assumindo posições Ad Hoc na Câmara Municipal de Luanda, toma foros de  revolucionário proporcionando uma nova direcção de gestão no município; genéricamente, via-se por toda a Luanda muitas outras técnicas modenas de marketing com profissionais incitando ou anuindo-se à desobediência.

Usando modos nada comuns até então, expulsando homens de bem de forma irregular e, muitos edecéteras que sempre se relembram no tempo  entre arrepios em nosso cerebelo…  Só a 5 Junho de 1975, se  operou uma primeira definição legal do estatuto de retornado, para determinar quem podia obter o apoio do Estado Português. Em primeiro lugar, devia ser cidadão português, segundo os requisitos da nova lei de nacionalidade de Junho de 1975.

ÁFRICA13.jpgComo em outros países, Portugal, ainda na charneira de se ter tornado um estado póscolonial, teve de redefinir os contornos do acesso à sua nacionalidade no contexto pós imperial ou colonial. Para ser reconhecido como retornado, devia-se também ter residido numa ex-colónia portuguesa, estar numa situação de carência e, por fim, ter chegado à antiga metrópole depois do dia 1 de setembro de 1974 .

Esta primeira definição foi complementada por uma resolução do 21 de outubro de 1975 estipulando absurdos que não se concretizaram. O M´Puto, era uma bagunça de governo tendo um chefe militar de nome Otelo Saraiva de Carvalho que se deslocou propositadamente  a Cuba pedindo a Fidel de Castro a intervenção de militares dessa Ilha na ajuda ao MPLA. O estratego do 25 de Abril, na altura comandante do COPCON e governador militar de Lisboa empenhou-se na visita, cuja concretização, foi aprovada pelo  Conselho de Revolução.

mocanda36.jpg A  ajuda de Cuba  veio a acontecer  mesmo antes do 11 de Novembro, por uma via revolucionária a que chamaram de PREC – Processo de Revolução em Curso que felizmente teve seu fim no 25 de Novembro de 75!  Otelo Saraiva de Carvalho regressou de Cuba, mais entusiasmado com o sonho do Poder Popular. Otelo não escondia que Fidel Castro e Che Guevara eram dois dos seus ídolos, confessando que admirava muito a experiência da revolução cubana. A postura da Nação através do CR-Conselho de Revolução não o foi por isso, inocente.  

Tendo apenas Raul Castro como testemunha, Fidel e Otelo dicidiram no sentido de Cuba enviar soldados em força para Angola, para mediar o conflito entre MPLA, UNITA e FNLA (uma falácia genuina, pois que só o MPLA veio a ser favorecido). Otelo aconselhou a Fidel preparar as tropas. No regresso a Lisboa, contou a conversa ao Presidente da República, o Marechal Costa Gomes (o rolha) pedindo-lhe que desse uma resposta urgente àquele líder cubano.

guerra9.jpg A resposta foi afirmativa na premissa de urgente. E, a hipocrisia deu nisto: Que se saiba, a resposta portuguesa nunca chegou a Havana. Costa Gomes afirmou que não se lembrava de nada. A revista VISÂO revelava em primeira mão os pormenores de uma conversa que se manteve secreta durante 20 anos: aquela em que o dirigente cubano anunciou a Otelo Saraiva de Carvalho, em Julho de 1975, o envio de tropas para Angola.

Segundo Luís Marinho da Revista VISÃO, a 19 de Outubro de 1975, um ou dois dias depois da Festa Nacional de Cuba (já não se recorda com exactidão do dia), Otelo foi convidado para um almoço privado com Fidel Castro e seu irmão, Raul. Num restaurante perto da estância turística de Varadero, chamado Los Canaviales, os três homens tiveram uma conversa que se manteria secreta. O assunto era Angola. A menos de cinco meses da data prevista para a independência da ex-colónia portuguesa, ganhava força o conflito militar entre MPLA, FNLA e UNITA, sem que Portugal conseguisse um mínimo de controlo. Otelo revela esse episódio, que influenciou no rumo do conflito angolano.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:56
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Sexta-feira, 27 de Outubro de 2023
VIAGENS . 97

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3508 – 27.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

paulo7.jpg Às conversas no Mukwé entre os três da vida eirada de agora, T´Chingas, João e  Oliveira do Mucussu, juntou-se-lhes o Teles da Ondjiva, caçador de pacaças naquele período de tempo já ultrapassado; os acidentes em nossa normal existência numa terra que pensávamos ser nossa, eram tempos torturados na mistura de assuntos comuns, de cacaracá.

No descuido de uma periclitante existência, pensavamos falando coisas defuntadas de nossa singularidade. Em plena Ovobolândia, as malambas, surgiam após um café pingado, umas gotas de bagaço ou medronho do M´Puto traficado na candonga do Rocha ou do Bicho de Ochakati.

Eu, T´Chingas, acabei por relembrar que aqueles dias na Luua, na feitura do caixote do baú das saudades futuras, era comum ver-se um furtivo vulto que saído das vielas dum musseque ou de carros que passavam nos bairros da cidade, atirando rajadas para o ar, para um qualquer lado. Lançavam àtoa para um qualquer jardim ou taipado, granadas da qual saiam afiados restos de molas da morte.

guerra16.jpg Mandavam obuses ou morteiradas, rockets, aleatoriamente para o ar que logicamente iriam cair num qualquer sítio, provocar estragos e mortes. Estando eu na ponta da ilha, perto do farol, guarda da baia da Luua, na conhecida Barracuda com a família, viam-se rolos de fumo, estrondos e balas tracejantes sulcando o ar do outro lado continental como se o fosse um fogo de artificio de feira popular feita festival.  

Talvez Cuca, talvez Sambizanga, Terra Nova, Cazenga, Caputo ou Bairro Operário. Eram as ordens do DDT – o dono dquilo tudo, o Vemelhão  almirante chamado de Rosa para assustar a malta. A malta, eramos todos nós, pode? Uma boa parte das armas usadas neste assustamento, eram das forças regulares do exército português dadas a esmo pelo MFA-NT, aos populares afectos ao MPLA – os camaradas.

fuga5.jpg Entretanto obrigavam a etnia branca a entregar todo o tipo de armamento. Sei que isto já foi dito mas, convem recordar: um tempo de muita manigância, farsas trabalhadas por operadores, locutores saídos de uma jihade de desinformação, factos novos entre coisas de guerra a que chamaram de monacaxitos, alarmes falsos tratados em comunicados alarmistas, assaltos a laboratórios de hospital.

Roubando corações de gente para incriminar o suposto inimigo de canibalismo. Aconteceu isto, algo inaudito, baixaria usada pelo MPLA, acusando a FNLA, os ditos fenelas, de canibais, comedores de corações humanos feitos em Indi Amins. Colando cartazes com estas e outras vísceras nas paredes das casas, quintais, junto a escolas e parques, nas avenidas e postes de iluminação.

fuga8.jpg Numa dada altura dá-se a conhecer um tal de senhor Falcão insinuando-se como líder dos gwetas, t´chinderes brancos, um manobrista laranja do MPLA… Aiué besugos meniés (falas antigas) ficando tresmalhados assim como autenticas formigas kissonde ou salalé abandonando seu ninho soàtoa. São tomadas por pseudo democratas, genéricos rufias, de punho no ar, instituições, correios, municípios, organismos oficiais, grupelhos organizados alterando a normalidade, originando um baixar-de-mãos nas empresas.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:44
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2023
VIAGENS . 95

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3506 – 19.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fuga11.jpg Ali no Mukwé, apanhando a brisa do rio Cubango ou Okavango, à sombra de uma marula, aleatoriamente, eu, T´Chingas, João Miranda ou Oliveira,  retrocediamos as imagens de nossas vidas em Angola, trinta, quarenta ou cinquenta anos lá para trás. Recordavamos o que tantos equeciam ou faziam por esquecer com laivos de raiva misturada aqui e álem em falripos de covardia generalizada.

Covardia generalizada  perante  a postura oficial musculada  do MFA através de NT – “Nossas Tropas” do M´Puto, estacionadas em Angola para dar segurança a todos. Tropas que tiveram como primeira missão desarmar os civis ditos “colonos”, gente de segunda e terceira geração que tinham a Mutamba da Luua como sua Capital, que nem conheciam a Lisboa da Metropole.

fuga1.jpg Em câmara lenta conseguíamos fazer ver o ínfimo pormenor nos filmes que corriam em nossas mentes. E, a vida surgia-nos num truque do espaço-tempo imaginário, calculado nas respostas silênciosas às estórias que nos pareciam agora saídas de ficção de um filme tétrico e tráico, Falas somando eventos com mentiras bidimensionais, manobras de diversão tridimensionais; falas que em seu tempo muito mal nos fizeram neste universo observável!

Em Março de 1975, oito meses antes do dia 11 de Novembro, data marcada para a independência, as autoridades coloniais de Lisboa, criam os organismos, o IARN e o QGA – Quadro Geral de Adidos cuja missão era proceder à “integração na vida nacional” no M´Puto, dos retornados que viessem das antigas colónias, através da implementação de um conjunto de medidas, em colaboração com organismos estatais e privados.

fuga8.jpg Assim, oito meses antes do 11 de Novembro de 1975, haveria que juntar pecúlios num caixote para levar a um qualquer sítio longe dali; não se sabia bem ao certo para onde ir e, como ir! Durante dias e durante noites, só se ouvia por toda a Luanda o barulho do martelo batendo o prego, a broca furando taipais do baú-caixão para guardar futuras saudades.

A foto do cachorro, do louro, da vizinha e das outras, lembrando o Mussulo, a Barra do Kwanza, a Ilha ou as Mabubas ou as lagoas do Lifune e Panguila. Foram tempos de se fazer caixotes, uma empreitada, percurso da tumba via kalunga ou pelos ares, bufando desesperos na ponte LuuaLix de quem ninguém poderia evitar pela força dum medo desenhado por balas tracejantes ferindo o escuro da noite.

fuga3.jpg Balas tracejantes que nem fogo de artificio furando cerebelos, fumos e sons, e nuvens de fumo ora pretos, ora brancos, cheiro de morte saindo dos bairros populares ao redor da Luua, dos Musseques Sambizanga, Rangel, Caputo, Catambor, Caznga, Morro da Cal, Bungo, da Corimba da Luua, entre outros…   Num tempo em que ninguém media consequências, a moralidade em Angola e na Cidade de Luanda, Cidade Alta, Palácio do Governador ou do Alto Comissário, era uma batata apodrecida.

Nesse então, no M´Puto, o deputado socialista de Faro, Eurico Correia, alertava assim: Com a vinda dessa gente, “Aumentará o número de escorraçados de Angola, para não dizer retornados, e estes homens vão criar problemas gravíssimos, tensões enormes, no nosso país (M´Puto). São homens sem habitação, são homens sem trabalho, são homens com ódio no coração, homens que vêm com as suas famílias procurar uma nova vida, que já perderam lá”…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:22
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Domingo, 15 de Outubro de 2023
VIAGENS . 92

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3503 – 15.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

toledo18.jpg Repito: Estudantes barbudos do M´Puto na visão de Ché Guevara, ao seviço do PREC – Proceso de Revolução em Curso, ensinavam a estes, os pioniros  do MPLA (crianças / candengues), o manejo de armas de madeira a fingir AK-47 de Mikhail Kalashnikov, G3 ou Mausers… Estudantes estes, que regressados à Metrópole (M´Puto), teriam passagem administrativa garantida na sua Universidade ou Instituto - o tal de PREC, Revolução parva saída do 25 de Abril de 1974 e, que só terminou a 25 de Novembro de 1975, data posterior ao 11 de Novembro (14 dias depois) – Dia da Indepêndencia de Angola.

Convem aqui fazer uma leve referência  a esta data de 25 de Novembro, que tardiamente e com intervenção de oficiais cientes daquela aberração acabaram com esse grupelho liderada por Otelo Saraiva de Carvalho… No M´Puto, os militares moderados viram-se forçados a iniciaram a ofensiva contra o estado caótico da nação, tomando posição a partir do posto operacional da Amadora, liderado por Ramalho Eanes.

Um pelotão blindado do RC do Porto movimentou-se até à Base Aérea de Cortegaça, onde estavam os 123 oficiais que abandonaram a base de Tancos uma semana antes. Jaime Neves, pouco depois das 19h do dia 25, saiu com uma força do RC da Amadora cercando as instalações da Força Aérea em Monsanto.

mussulo1.jpg Enquanto o M´Puto seguia sua senda na procura da ordem institucional, teremos de recuar agora à Luua, a capital de Angola lembrando no entanto que o politico Mário Soares,  lider do PS do M´Puto, que  tardiamente, se apercebeu do estado caótico do rumo que o país levava, decididindo anuência a esta intervenção militar do 25 de Novembro de 1975  em Portugal e, que por fim, acabou com a bandalheira esquerdoida.      

Em Angola surgiu o Poder Popular! E surgiu o Kaporroto, o kuduro e a vitória é certa. Eles já tinham inventado o monstro Imortal, o Valodia e o Monacaxito… Tudo era planificadamente certíssimo! Melo Antunes, Rosa Coutinho e uns quantos que nesse então ainda não  tinha dado à sola para o álem (mas, que acacabaram por ir sim…)

As makas organizadas eram-no com o objectivo de criar o caos, provocar pancadaria e depois a vitimização com características de sofisticada mentira. Isso mesmo! Meter tudo ao barulho, pressionar psicologicamente  supostamente as autoridades com vinculo à lei e ordem  criando condições de favorecimento ao MPLA por parte dos militares do MFA das NT, e CCPA – Comissão de Coordenação do Programa do MFA e o Alto-Comissário.

guerra19.jpg Às tantas, já se fazia tudo às claras. Até o Idi Amim Dada se dava conta de tudo isto! Em um encontro de Melo Antunes com Henry Kissinger, aquele responsável português e a pedido do Secretário Americano disse que era difícil de lidar com Agostino Neto (era só mesmo para agradar àquele diplomata da USA…). Esse cérebro guia dos demais, chamado de Melo Antunes, foi dizendo a Kissinger que era difícil de classificar politicamente Agostinho Neto como um comunista ortodoxo!

Agostinho Neto, íngrato àquele e tantos outros esquerdoidos do M´Puto tiveram de engolir a falácia que este usou: à coisa dada ao MPLA, (Angola) teve a desfaçatez de dizer que a liberdade, não se recebe, arranca-se! Mas, que grandes mentiroso! Neto, com laivos de poeta (diga-se de baixo coturno…), dava dicas torpes de mau agradecimento aos militares revolucionários do M´Puto, quando em verdade, tudo recebeu destes (traidores…) Mas que pulha! Bem feito, cambada! Alguns não gostaram, diga-se… Assim e com João Miranda do Mukwé, algures no Shitemo, acabamos as falas da tarde com uns goles de gim com água tónica para espantar mosquitos…

guerra12.jpg GLOSSÁRIO: - *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante e depois dos longos anos da crise Angolana, após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional; Banga – estilo, vaidade excessiva; Tuji – excremento, merda; Mwangolés – os donos de angola, os generais que se apossaram da Nação Angola por via de seu poder libertário; Muxoxo - expressão com som de língua com palato em forma de estalo em desdém pelo dito; Mututa – da bosta, de ralé; Maka – confusão, rixa, alvoroço; Missosso – Conto breve de cariz popular em Angola; Kituku - mistério; Kaporoto – Vinho bolunga feito a martelo, de fermentação rápida com pilhas de lanterna; Uuabuama - maravilhoso; Oshakati – Nome de terra ao Norte da Namíbia; Lodge – Hotel de superfície, conjunto de casas para turistas; Rundu – Cidade do Norte da Namíbia, fronteira com Angola no rio Okavango; Grootfontein- Cidade da Namíbia que acolheu os refugiados de Angola, Xirikwata – pássaro que come jindungo…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:32
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2023
VIAGENS . 91

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3502 – 12.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

KUITO.jpg E afinal, que foi feito do Tenente Fernando Paulo? Pensando nele demo-nos conta que era o fim do império colonial. E isso, nós (Eu, João Miranda e Oliveira do Mucusso) queríamos que acontecesse sim!  Que fiique claro, também ansiávamos pela independência. Mas, e mais mas nagativos, tão seguidos, mostraram de forma paulatina as feras sendo largadas das jaulas com a lei 7 barra 74 do MFA. A Luua eclipsava-se! O resto de Angola esfrangalhava-se ficando uma terra sem lei nem roque…

Tarde piaste! Momentos de muita inocente incerteza; abandonar tudo, entregar a chave do carro ao jardineiro da casa, o cão pastor alemão à Mariana, uma exemplar serviçal ao nosso serviço, na Caála; O mesmo que aconteceu a tantos, maioritariamente brancos na pele. Na Luua, de Kalash ou G3 na mão, a lei e a ordem, a justiça eram coisas transgredidas, inexistentes ou mesmo anedóticas pela pior das negativas…

kuito2.jpg Estávamos na segunda metade do ano sem graça de 1975 - Vai haver maka, porrada mesmo! (assim diziam). E era um virar a arma para o ar e despejar cunhetes átoa para assustar branco; balas oferecidas pelas nossas gloriosas forças - NT do M´Puto a mando do Rosa Coutinho. O medo controlava a população da Luua desorientada, assustada como um kissonde pisoteado com o apoio e fervor revolucionariamente denso do MFA importado do M´Puto - Do povo unido jamais será vencido! Que povo era esse?

 A anarquia fazia-se sentir em todos os lados, nos meios urbanos ou mato com pequenos núcleos de população, Em Malange, No Huambo, no Kuito, em um qualquer lugar com picada de acesso. E, agora vamos fazer o quê para o M´Puto? Talvez Brasil!? Quem sabe – Austrália ou Argentina! “As NT - Nossas Tropas”, já não eram nossas; davam cunhetes, canhões, paióis inteiros e até carros de combate numa perfeita cooperação de entreajuda FAP- FAPLA mandando prólixo os acordos de Alvor, da Penina e Nakuru… Estes, forneciam abertamente ao MPLA, as fotos aéreas em progressão dos supostos “inimigos”- FNLA e UNITA…

kuito4.jpg As NT, davam tudo, até as coordenadas do alvo numa logística total oferecida a custo zero ao MPLA. Com escassos soldados e mal apetrechados do MPLA, o MFA por via das NT, davam a estes impreparados militares, por vezes cheios de liamba no corpo: carros, granadas, morteiros, armas de repetição, mapas e fardamento; tudo, tudo  sem garantir  o que quer que fosse à gente de étnia branca e mestiça de terceira e até quarta geração; gente que não conhecia outra qualquer terra para poder viver…

“As NT - Nossas tropas” organizavam planos de voo com dados de meteorologia e até furtavam casas aos colonos e afins em apoio ao MPLA: Isso! Saque dos haveres de colonos que saíam desordenadamente de suas casas, abandonando tudo. Há testemunhos vivenciados na Avenida Brasil, na Vila Alice, na Avenida dos Combatentes, Zona do Kinaxixe, Bairro do Café e, um pouco por toda a  Luanda de então. Um perfeito saque,  em  plena luz do dia Uma frieza ímpar ultrajando a história de Portugal Ultramarino.  

kuito5.jpg O MPLA da Luua, por sugestão do Vermelhão Almirante Coutinho, inventava a maka! E, eram makas sobre makas, paralisações descabidas. Inventaram os pioneiros que eram trabalhados em marcha no esquerdo e direita por jovens estudantes do M´Puto! Estudantes barbudos na visão de Ché Guevara, ensinando a estes o manejo de armas de madeira a fingir AK-47 de Mikhail Kalashnikov, G3 ou Mausers…

Muitos dos “libertadores” sonhavam com a casa, o carro, os privilégios e as posições dos colonos. Conquistaram-nas e tornaram-se piores do que estes. Desculpar-se-ão com a guerra do TUNDAMUNJILA formando esquemas para transgredir os limites da legalidade. Uns quantos, continuam ainda a roubar o país quarenta e oito anos depois, enquanto o povo olhando as velhas fotos amarelecidas, passam-nas em sua máquina de pensar. Já desbotadas, tombam com elas, a vontade de querer, definham-se desmilinguidos em camadas de pó de sonho…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:53
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2023
VIAGENS . 90

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3501 - 10.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

guerri6.jpg Recordo que nos dias que ali passei no Mukwé e, num dos almoços feito pelo cozinheiro Kafundanga, tendo Tata kadinguila seu auxiliar, também engraxador das botas do patrão João, eu, armado em bravo macho quis provar do jindungo onoto chamado de xirikwata da casa e, tendo a Dona Elisabete de forma bem convincente que este dito, edecéteras e tal, que o era muito bravo, que tivesse cuidado com aquele “cahombo” de fogo, estando eu habituado àquele viagra, obviamente não o temia.

Logo a seguir, nossas conversas adiantavam noticias velhas e já carcomidas: Em Angola os vindouros mwangolés,“ conquistaram a independência de borla”, tornando-se piores do que os colonos… Dizem que a conquistaram mas, foi só um chavão  para encobrir todas as benesses recebidas  dos capitães e generais  de aviário do M´Puto… 

ARAUJO256.jpg Em Kampala, o presidente da OUA, Idi Amim Dada, insistia para que a data da independência fosse mantida sendo Portugal a responsabilizar os nacionalistas por um não acordo - coisa inaudita, de rir!. O Secretário-geral da UNITA presente à conferência acusou as FAP/MFA de não se oporem à entrada de armamento e mercenários a ajudarem o MPLA …

Acontecia sim, em Luanda,  no Lobito, Sá da Bandeira e Pereira D´Eça. Nesta Pereira D´Eça (a actual Onjiva) o comandante português entregou o aquartelamento a elementos do MPLA tendo-os vestido com camuflados do exército português, uma clara desobediência e afronta para esta região afecta à UNITA - Um povo Ovambo ou Ovibundo.

Este procedimento foi de uma nítida e grosseira degradação moral para as autoridades portuguesas ali sediadas e numa declarada provocação ao Movimento da UNITA. Manuel Resende Ferreira em "Segredos da Descolonização de Angola" disse a proposito: - Ainda havia esperança e soldados que não nos abandonavam (lembrando a população maioritariamente branca e assimilados).

passevite1.jpg Referia-se ao Tenente Fernando Paulo e alguns dos seus homens que resolveram desobedecer ao comando para protegerem um grupo de refugiados no Chitado. Para o efeito, criaram ali uma zona de segurança à revelia de seus comandantes do MFA.

O comportamento da UNITA teve forçosamente de mudar de táctica e, seu posterior comportamento no Lubango e áreas do Sul que, levaram a desconsiderar tanto o Movimento como o seu Presidente Jonas Savimbi que por ali conviveu em tempos de estudante. São aqueles os heróis esquecidoshomens às ordens do Tenente Fernando Paulo, soldados de Portugal que abandonam o Exército Comunista Português para protegerem cidadãos em apertos e, que perdento tudo, corriam também o risco  de perdar a vida.

spi3.jpgLutar assim, em rebelião, contra a anarquia das tropas, sempre referidas como NT – Nosas tropas, facto vivenciado por todo o território, desde o Cunene a Sul até o Miconge, o ponto de fronteira mais a Norte de Cabinda. Eu e Miranda ressaltamos bem esta postura  como fenómono postumo mas, quem éramos nós para vaticinar o passado defuntado e politicar a enviesada saída do M´Puto pelos homens que antes tinham sido heróis. Heróis  bem diferentes, como esse do Spínola da banga vaidosa, desmedidamente parva e até caricata, usando luva, monóculo tipo Eça de Queirós, botas de montar lustradas e um pingalim – fetiches de túji que também por vaidade o levou a escrever isso de “Portugal e o Futuro” – Que futuro?

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:05
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Domingo, 8 de Outubro de 2023
VIAGENS . 89

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3500 – 08.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

balba2.jpg Aqui no Mukwé, a casa do senhor Joâo Miranda e da Dona Elisabete, fica a uns escassos 50 metros da margem do rio Okavango; podíamos até gritar às pessoas do outro lado que era Angola; gente pastoreando e de vez em quando lá avistávamos uma canoa que passava na labuta da pesca ou simplesmente deslocando-se,  não sei se à revelia dos guarda-rios ou se por anuência  destes, por o serem também familiares, ora subindo ora descendo o agora manso e alguns rápidos suaves do rio.

Dona Elisabete, logo nas primeiras horas do dia inesperava-nos com um cheiroso café da qual nunca não mais quis esquecer do seu sabor. A casa situada na parte superior da borda rio era totalmente em madeira tendo os quartos de habitação situados no piso superior; a madeira estalava de noite e qualquer movimento parecia ranger, toda ela.

A azáfama continuava ao lusco-fusco com as ordens meio esganiçadas para seu cozinheiro Kafundanga ouvi. O ranger da madeira, soalho da casa, ao mais leve movimento e o ressonar de toda a tribo mais os da casa, era uma sinfonia de sossegada intranquilidade. No ar havia cheiros de kibaba, o mogno de Angola misturado com takula e undianuno…

pioneiros.jpg Aquilo é que era mato, os cheiros e ruídos não tinham barreiras nem fronteiras e sentir o cheiro de Angola ali tão perto, já por si era uma inebriante adrenalina mista do roceiro e sertanejo T´Chingange - o próprio, pesquisador e explorador fingindo não ser espia…

Estava enganado com aquele jindungo da xirikuata. Com ele, transpirei, chorei e até parece que o meu cérebro borbulhou no cocuruto da careca - malvado jindungo do churrasco. Que vergonha!  O riso de todos contemporizava com fausto e taciturnas gargalhadas  nas sofridas mordidas mas, também deu azo a que não mais me esquecesse de tamanho veneno empolador de lábios e cérebro deixando raspas no cerebelo.

Do outro lado do rio - Angola, a guerra estava brava e coisa já contada, que as indicações do presidente Sam Nujoma neta banda da Ovobolândia, eram a de não deixar passar ninguém para o lado de cá, Namíbia. Eu ouvi isso porque estava lá nessa assembleia reunião com militares e comerciantes. “Tiro neles”, assim o disse às margens do Okavango e das redondezas, Nyangana, Nyondo, Mukwé, Andara Divundo e Machari. Aviso quase dirigido a mim que dissimulei de matumbo, em  nem

guerra19.jpg Como disse, aqui no Mukwé acontecia às tardes na companhia de Gin com água tónica - nossa conversa a três, Miranda, T´Chingange e  Oliveira do Mucusso, a conversa começava aos soluços, de novo a animar retirando de cada qual as verdades. Por vezes em muxoxos, os candengues pioneiros do MPLA, transmitindo falas de seus pais, referiam com audacidade de Hojy Yá Henda (um suposto herói). Era eu mesmo a falar, recordando coisas ouvidas da Luua antes do 11 de Novembro de 1975…

Naquele jeito de revolucionários importados da tuji cazukuteira, fomentada e fermentada nos musseques pelos PREC´S (Processo de Revolução em Curso), o lema era ficar com a mulher do colono, com sua casa, com seu carro e edecéteras – tudo, um desvario alimentado pela midia do M´Puto…

Isso mesmo! - Desvario social da Metrópole, noticias enviesadas na mentira incentivando até o ódio pelos patrícios, um virar as costas à família, retirando-os das molduras da sala, colocando em seu lugar a Catarina Eufémia que, nem nunca viram a não ser dos relatos do PREC, pelas televisões estatais e afins do M´Puto e, pelo MFA com seus generais da mututa e magalas de nova geração com trancinhas na mioleira…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:30
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Sábado, 7 de Outubro de 2023
VIAGENS . 88

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3499 – 07.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

okavango5.jpegEstudioso ao jeito de ermitão, mergulho nas barrocas mais fundas do saber para interpretar sapiência, ensaiando-me no mundo em que habito. Eu, que nem quero lembrar que algures morri em Kaluquembe na Curva da Morte e, que por isso só choro, uma forma honrosa de pintar a tela de pintura do passado… Preocupando-me sim com a RAIZ que alimenta a árvore – Zeca, meu mano, diz que muito cavo para contar quantas são,  as raízes, como se alimentam, se são ou não envenenadas por ervas daninhas que, sempre  crescem do nada, fazendo  secar veios de vida…

Estou a escrever bué de falas contendo o mel de ukamba, gelado de morango, cheiros aromáticos com mirra e alfazema e da madeira takula que cheira a chocolate com capim santo, também chamado de principe ou caxinde. Das terras deste maravilhoso mato, das vendas tascas, shop de João Miranda do Divundo e Shitemo e outras mais, aonde faziam pão amassado na noite, ao ritmo dos cantares da coruja e de muitas  bichezas desconhecidas…

ngoi2.jpg Vendas tabernas, mukifos ou shop´s com o chão muito cheio de farinha de fuba, varrida com sarravo de mateba e um chinguiço fazendo de cabo semi torto amarrado mesmo na própria casca mole;  num paraíso verde  com marulas e acácias de espinhos e vagens parecendo a fava rica que todos no M´puto conhecem por alfarroba… Como diria Zé Mamoero da Maianga sentir-me fascinado por pessoas extraordináris da qual jamais esquecerei por seu carinho boé, dado pela concha feita com suas mãos juntas, que recebi e empanturrei no meu muxima de contente - aiué.

Foi assim mesmo  que reiniciamos aqueles tempos - TEMPOS PARA NÃO ESQUECER – Assim aconteceu: Sentados no alpendre da casa do Mukwé, totalmente feita em madeira, kibaba ou zazange das matas do Cubango, e ainda falando do século XX, olhando o mesmo rio Cubango (Okavango); rangíamos falas assim  como o soalho feito com reforço de undianuno sentados em  cadeiras de takula…

paulo7.jpg Recordar agora como se fosse anteontem, que o soba de Sambia de nome Palata de Massaca foi dado por consentimento o nome de D. António Maria de Fontes Pereira de Mello, que, ao soba do Aimalua do Cuangar foi dado o nome de D. Luís Bondoso Pinto Ribeiro e Montes Claros e, ao N´Hangau do Dirico que ficou a chamar-se D. Afonso Enriques de Aljobarrota Atoleiros e Valverde. Parece mentira mas, é verdade! Acho até que andaram a gozar com o futuro – Nós…

Ao sabor de um café colhido, secado, torrado e moído no local, T´Chinange, João Miranda e Oliveira do Mucusso, conversávamos sobre a terra da qual fomos obrigados a abandonar. Os três, eramos da mesma opinião: Muitos dos “libertadores de 75” os mwangolés de hoje, sonhavam com a casa, o lugar de director, o carro, os privilégios e as posições dos colonos, até alguns que so vendiam peixe frito ou carne seca lá no mato, talqualmete!

t´chiku3.jpg Podem até dizer outras coisas mas, o tempo assim como o azeite em água, trás a verdade ao de cima. E aqui, longe no tempo, lembrávamos sim, o passado para que no futuro não só chovessem inverdades, manobras e coisas ruins que sempre  teimam subrair as versões fidedignas. A conversa começava de novo a animar retirando de cada qual as verdades  situadas nas ranhuras do cerebelo, tal e qual como o poejo cresce entres as fissuras dum chão cimentado…

Assim, ouço e falo cativo, vestido com os meus panos, agarrado aos búzios, amuletos, à undenge ami mu moamba, desse antigo lugar – Mayanga da Luua ai-iu-é, no uuabuama chão colonial, hoje independente, chão Angolano. kuatiça o Ngoma! Assim os ouço ao longe, ao perto, no apeto, consolando muxima ami, que velozmente envelhece, que ainda dá batidas ora, leves, ora fortes do atu, no seu Kimbundu. Malembelembe ainda tece esteiras, missangas, planta flores coloridas no quintal iguais ao jardim da Dona Elisabete no lugar de Shitemo  com  capim caxinde debaixo de tamarindo…

moc4.jpg GLOSSÁRIO: Kituku - mistério; Kúkia – sol nascente; Ndandu – parente; N´dongu - canoa; Ngana NZambi - Senhor, Deus; Malembelembe - muito devagar, com cautela; Undenge ami um moamba - minha infância de moamba; Uuabuama – maravilhoso; Kuatiça o ngoma! – Toquem os tambores……

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:29
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2023
VIAGENS . 87
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3497 – 08.10.2023
-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”
- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018
Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

sacag2.jpg Em Angola, contornando medrosas angústias, febres palustres, jacarés e onças, entre várias molestias de paludismo cerebral, as guerras exigiram aos intervenientes, guerrilheiros, voluntários ou governamentais magalas da Metrópole, muito sacrifício. Assim o sejam no rumo da libertação ou seguindo a ideologia, de uma sentida crença ou por obrigação forçada por via de obrigatoriedade.

Assim o digo: Nações já formatadas em pleno, que exigiram dos homens um esforço extra na consolidação dum país ou de uma politica por imposição. Práticas de guerra levadas a cabo por combatentes que não o podem, ser esquecido pelos governantes de hoje, nos países dos PALOP´s, passados que são cinquenta anos da era colonial bem como das guerras posteriores de tundamunjila em Angola (guerra do vai embora branco…), que resultou na saída de quase um milhão de cidadãos. Também da guerra civil entre Movimentos em Angola, nomeadamente do MPLA e da UNITA.
 
Em reflexão, cheirando a brisa do rio Cubango, aqui em Mukwé, na companhia de João MirandaOliveira do Mucusso, e de vez em quando, Teles da Chibia, esporadicamente, reactivamos o quanto há hoje recalcados de tanta injustiça; todos estes ou esses que tiveram de perder o medo naquelas florestas, chanas, e anháras, numa Angola tão rica e tão ingrata a quem por ela ganhou uma “perna de pau”, “olho de vidro” ou “viajou para junto de N´Zambi”

pedras00.jpg Seguir directamente para o céu, directamente do produtor para o inferno feito fogo ou uma nuvem de algodão envoltos nessa kukia chamada de pôr-do-sol - fim de vida. Defenderam e mataram gente, construindo novas coisas, impondo regras sociais para conservar tal espaço. Fiotes, Kiokos, Kimbundos, Umbundos. Hereros, Ganguelas, Muilas, Mucubais, Bosquimanos, Magalas Tugas ou expedicionários do M´Puto.

Militares ou guerrilheiros que mudaram de alguma maneira, o modo de estar e de pensar, na sequência desses outros mais antigos magalas chamados de expedicionários da Metrópole e, que, aos milhares, também consolidaram um território dos Mwene-Puto e Mwangolés, morrendo por isso…

Quantas mortes para definir fronteiras de hoje. Angola ganhou condição de país quando na embala de Belmonte, Silva Porto, com 72 anos de idade se imolou envolvido à bandeira Portuguêsa. Aquilo, foi muito antes do arrastar da bandeira do M´Puto por muitos lados e pisoteada por gente que virou governante de alto coturno…

luua25.jpgGente que veio a presidir ao país e que também seguiu essa senda da vida defuntada na kukia da vida e, que também não ficou para semente. Todos, ou quase, percebemos que no livre jogo das forças, governos e governistas com afins circunscritos, hoje, interessa sim, adquirir a qualquer custo um poleiro digno governamentalista. O mundo está muito amalucado! Enquanto isso os resistentes daqueles tempos, lambem as feridas de catanas ou G-três da história.

Com as campanhas de submissão do sobado do Bié e, passados 85 anos, a 11 de Novembro de 1975, data em que Angola se concretizou num país cujas fronteiras foram delineadas por estes e aqueles combatentes que, paulatinamente o foram propositadamente, desprezados no tempo pelos seus países… E, tudo o foi desde o Mapa-Rosa africano que começou a ser desenhado a 11 de Julho de 1890. Data em que aquele chefe "O trovão", veio a sofrer represálias a 9 de Dezembro desse mesmo ano de 1890 por parte de Artur de Paiva, Paiva Couceiro e Teixeira da Silva com a ajuda do povo angolano Ovibundo, governado então pelo rei Ekuikui Segundo....
Ilustração de Costa Araújo
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:42
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Domingo, 1 de Outubro de 2023
VIAGENS . 86

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3496 – 01.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

papoila2.jpg Hoje, aqui no Mukwé,  vou só relembrar coisas já ultrapassadas para me distrair na conversa: Naqueles muitos dias de dipanda aproveitava-se o espevitar da inteligência limpa de quem só tinha coração de ouvir. Nos tempos mangonhosos da idade maisvelha, sem precisar condicionantes de pôr mais minha conversa no ar, cada qual ouvia o que cada um tungava na sua maneira. Se der um tiro no passado, posso bem ser apanhado com uma bazuca do futuro e, deixando a sequência das coisas soterradas em uma cova sujeita à criatividade dos contadores muitas vezes fraudulentos. Também sujeito à critica de gente com os neurónios falaciosos num empenhamento de visão de Pilatos, senão coisa pior, assim do tipo Estalinista ou Leninista…

Cadavez, quando um ria, outro ria também só à toa. Agora, ali, Teles Ferrujado simpatizante do glorioso “Eme”, meu mais-velho amigo da Chibia, Capunda-Cavilongo das terras do fim-do-mundo. Contava seus dias de caça; tinha muito de esperto caçador e com muito mais de velhos anos, ainda estava vivo! Mentia também em suas calmas, esfregando sua barba rala e crespa, companheira de muitos segredos, de mentira, mesmo embrulhada por vezes em kafufutila de bombô com açúcar. E, eu até gostava de ouvir sem franzir o sobrolho.  Falava dos muxitos, das pacaças, desenhando aquela sua luz de verdecida vaidade de pontaria no centro do querer. Eu e mano Fernando Teles Ferrujado amigos do tempo do tundamunjila sabíamos que os espíritos antigos, depois de tanta guerra necessitavam de descansar .

Nós mesmo queríamos esquecer essa encruzilhada de muita maka e muito sangue. É que as lições da vida têm de ser sempre passadas a limpo, só nossa morte é quem pode ficar em rascunho - li isto nos guerrilheiros do Luandino. Teles me olhou muito mais macio, falar suave de caça de bichos não é o mesmo que a guerra do kwata-kwata e mata-mata de gente; Teles era bom e se via nos olhos dele, medo de acordar outros medos.

homologado.jpg Longe das anharas da Chibia, do Calai e Munhango de Angola, sentíamos então o cheiro do grande rio que descia ora barrento das chuvas, ora escuro na junção das chuvas com sombras. Só sentíamos mesmo o cheiro dos longínquos Québe, Cuito e Okavango. E, eu era de novo o Mazombo guerrilheiro gweta da Unita a afogar-me naquele cheiro de sol e mangue com o vento do mato e do zungal aonde cassumbulavamos com garimpeiros.  Assim contava coisas legitimamente enferrujadas, como que aproveitando pregos retorcidos de antigas tábuas de caixão ou porta duma administração de posto colonial.

Um, não era igual ao outro, nem um era como o outro ou contra o contrário do outro porque tudo o que se passava era só assim, mais nada, era como era, mais nada. De coração grande e espinhoso, esta cumplicidade, fugidos do mundo, nenhuma mata ia poder nunca lavar catinga de geração recordada nos encontros com o Fernando Teles da Chibia que sabia fazer biltong (carne seca com ou sem jindungo), como ninguém. Carne seca  para vender nos seus chimbecos, mukifos de taipa cobertos a zinco, espalhados por ali, sítios de gente dispersa…

edu42.jpg Teles o caçador, um conhecido dibengo, zebra, voltou à sua terra da Chibia na Quipungo, levando seus candengues Hugo e Carmita, faz tempo, nunca mais que soube da sua vida mesmo buscando no FB nada de nada! José Manuel Fernandes Teles, seu verdadeiro nome, bazou mesmo!  Num dia de mãos cheias nas falas de tempos lembrados ao sabor de uma moamba bem à maneira kaluanda, com os respectivos quiabos, gimboa, saca-saca da folha de mandioca e funge, escafedeu-se ué…

Tudo feito pelo ajudante de cozinheiro Tata kadinguila do Mukwé,  bem  à maneira de como os trabalhadores da construção faziam no meu antigo bairro da Maianga e Malhoas da Luua. Lembrei que em kandengue assistia curioso ao fazer daquela cola de sapateiro como minha mãe Arminda dizia. Agora, íamos fazer igual para relembrar. E, na hora de almoço sentados, em bancos de pau ferro  undianuno, e umas quantas tábuas grossas e soltas de kibaba a fazer de mesa, improvisávamos no quintal relembrando bem aquela forma de vidas biscateadas.

ama3.jpg Com os calos de nossas mãos fazíamos bolinhas de funge acinzentado e molhando na lata de dendem besuntávamos, levando à boca com prazer deglutindo, Aiué. Estávamos mesmo recordando nossas juventudes.  Amanhã vai mesmo ser peixe bagre ou tigre seco para matar saudades… Dona Elisabete  anuiu, quersedizer, disse que sim. Aqui, entre amigos e no lugar do Mukwé os dias iam passando falando coisas, umas àtoa e outras bem afincadas em nossa lembraduras (tempo atado nos fundilhos da memória)! Estavam reunidas as condições para falarmos da recente guerra de TUNDAMUNJILA, cada qual falando suas furúnculosas recordações …

Glossário: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, Tundamunjila: mandado embora, sair à força em contra-vontade; bazar: Cassumbular: - ser matreiro e ligeiro em tirar algo de outrem; kazucutar: viver de expedientes, viver à toa; Zungal: - capinzal, erva áspera de charco ou pântano.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:42
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Sábado, 30 de Setembro de 2023
VIAGENS . 85

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3495 – 30.09.2023

 – Em Mukwé, Andara e Shitemo às margem do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018 

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

araujo19.jpg Pedro Rosa Mendes, repórter galardoado do "Público", partiu em Junho de 1997, com uma bolsa de criação literária do Centro Nacional de Cultura, mochila às costas, máquina fotográfica e gravador, atravessando o continente Africano de costa a costa, à semelhança de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, por picadas, rios e caminhos de areia, lugares por onde andei por várias vezes e em distintas datas.

Mendes, regressaria três meses e meio depois desta viagem, carregado de histórias bastantes diferentes das que aqueles exploradores certamente encontraram. Histórias de ódio e de horror, de crueldade, num continente onde nesse ntão decorria uma guerra sem fim à vista, aniquilando muita gente. "Baía dos Tigres" é um relato dessas histórias, no suplemento Leituras, do "Público" de então.

araujo 25.jpg Encontrou pela certa os mil estilhaços da história, autenticidade  que por certo lhe exigiu tudo, tal como eu vivenciei nos países limitrofes  como: olhos, ouvido, pele, coração, sangue, suor, lágrimas, coisas simples, primeiras e últimas, como nascer a caminho da incerteza e até mesmo a morte, decrevendo ambos a seu modo, o que somos apenas com palavras…

Viagens de T´Chingange de agora  e "Baía dos Tigres" de Rosa Mendes, daqueles tempos, fizeram fricção, ficção, romance, crónica, ou poesia, em documentos densos ou infernais. Como acontece aos homens, o ser-se assim, vem do muito fundo no respirar do cacimbo - uma extraordinária viagem ao fim da vida dos homens

Também a viagem ao inacreditável mundo habitado por homens com  pernas de pau, com braços de turquês em ferro, sem dentes, sem orelhas, sem  pele, ou mesmo sem rosto … Viagens sem horário, por vezes sem os comuns "vouchers" com pequeno almoço incluído e sem a bebida fresca tomada na esplanada à hora que se quer… Foi útil ter uma visão diferente do que se estava a passar no terreno, no entanto, pareceu-me tendencioso em seu livro no julgamento de Miranda comerciante, retratando-o como um brutamontes. Comparou-o a um Bóher “Mamburra” mal formado o que me pareceu ser um exagero de todo.

AUJO240.jpg Tratamento tal e, só porque tinha pertencido à companhia Sul-Africana “Os Búfalos” o que, não era motivo étnico para tal, parecendo coisa encomendada com direito a carimbo de gazosa do falso governo de N´gola sob tutela do MPLA. Creio que, tudo tinha de ser ser descrito para preservar a onda esquerdoida que grassava no M´Puto e, subsidiada para tal, no quadro de interesses com desvios ideológicos na defesa das convulsões partidárias da corrida ao poder. Isto, aconteceu, acontece e irá acontecer num trato de Lua/lix (Luanda/Lisboa)…

Ainda no Shitemo e, no lugar de Andara um dia à tarde, observei a chegada de dois camiões TIR de grandes dimensões usados para transporte internacional de cargas repletos de sacos de farinha de mandioca – fuba, tendo sido depositados num amplo armazém bem na margem do rio, creio que num lugar chamado de Nyondo. No outro dia, um pouco antes do meio-dia fiz companhia a um sobrinho de Dona Elisabete que normalmente distribuia pão na região e, quando paramos no mesmo armazém, reparei que se tinham evaporado todos os mantimentos ali depostos no dia anterior.

áfrica19.jpg Nada perguntei mas, logicamente deduzi que naquela noite tudo foi passado para a outra margem para o Calai, Jamba ou Mucusso em silenciosas canoas. Era por aqui que se passava o grosso dos mantimentos não obstante haver ao longo do rio Okavango postos militares de observação e guarda; O termo "só para Inglês ver" ajustava-se aqui, na perfeição. E, felizmente, o povo Ovambo sabia preservar a sua existência partilhando os dias menos bons. De cartão da Unita camuflado no forro dos calções, regozijei-me por observar esta vivência no silêncio das terras do Fim-do-Mundo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:09
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2023
VIAGENS . 84

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3494 – 27.09.2023

 – Em Mukwé, Andara e Shitemo às margem do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochilaAleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018 

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

kasane12.jpg Nunca fiquei a saber se os jornais locais deram noticia com foto do aperto de mão entre mim T´Chingange e San Nujoma, o presidente do Movimento de Libertação da Namibia que se tornou o Presidente do novo país, Namíbia. O encontro do Shitemo, mesmo à magem do rio Okavango ou Cubango, em principio, era um encontro entre o líder e militares da Ovobolândia, os guardadores responsáveis da segurança nesta natural fronteira.

Esta reunião neste rio fronteira, aconteceu também com os mais destacados comeciantes da região de entre o Rundu e Divundu dos quais Miranda, o personagem que sempre destaco em minhas falas empregnadas de cacimbada catinga, numa forma ou jeito nada erudita ou de destaque literário. Ao certo, nunca soube se a Swapo ou o Departamento de Segurança Interna da Namíbia  estava vigiando os meus passos, um turista bazungo.

Sim! Um turista bazungo com passaporte de muzungo (branco) português disfarçado com colete de zuarte, um quico besuntado de raspas de biltong e restos, destroços de pão duro rask, muitos bolsos, um canivete macgyver e um crachá da UNITA um galo em cerâmica dado a mim, por mérito creio, pelo meu herói de nome Alcides Sakala e, assim muito bem seguro  com boas linhas,  cosido no forro deste traje de caçador de elefantes.

paracuca17.jpgPara o que desse, viesse ou conviesse assim levava escondido meu distintivo de convicta afeição e convicção mas, o certo é que não tive qualquer contratempo em minhas andanças, nas  descritas verdade turísticas de bazungu, um verdadeiro matumbo a fingir de autoguerrilheiro de boligrafo, em pleno segredo numa odisseia passifica que só agora desvendo.  Assim, compartilhando com a natureza, bichos e afins, só eu e José Pedro Cachiungo um dirigente do galo negro em funções em Lisboa, sabia chamar-se de “Xirikwata – o pássaro comedor de jndungo”…

Não obstante a postura dos governantes de Windohek mostrarem dureza no trato, as autoridades regionais faziam vista grossa às movimentações que o comércio local fazia com a UNITA, com a Angola do outro lado dos rios Okavango, e Quando. Em realidade de um e outro lado eram gente com o mesmo passado, falando os mesmos dialectos, uma região conhecida por Ovobolândia com família distribuída por ambos os lados, do Calai ou Mucusso.

okakau1.jpg Constatei que o comércio floria em prosperidade, talvez de forma corrompida mas, tudo se vendia. No Divundo, tivemos necessidade de comprar mantimentos no shop do Miranda ao cuidado de sua filha Ana Maria e, de todos os pacotes de bolacha que compramos só um estava no prazo de validade. Foco isto porque era uma prática comum, região não vigiada pelas autoridades que nada queriam ver  por vista grossa em troco de uma bateria para o carro ou de um saco de  mandioca.

Esta quase inconfidência, pode até considerar-se uma falta de cortesia de minha parte sendo sempre tão bem acolhido pela família Miranda e, sempre a custo zero  mas, que me perdoem por esta lisura em minha franqueza – foi uma época, um tempo. Em terras do fim do Mundo vale tudo; com a minha missão de xirikwata africana, nada de anormal sucedeu em minhas transacções mas ouvimos sim, relatos de coisas mal paridas e defuntadas em agruras de por dá-cá-aquela-palha…

ÁFRICA13.jpgO encontro com Pedro Rosa Mendes, autor do romance ficcionado de “Baia dos Tigres” desaconteceu aqui em Divundo em Junho de 1997, no shop da Ana Maria de Andara.  Fiquei a saber antecipadamente as agruras de Pedro Rosa Mendes descritas em seu livro, lidas mais tarde e da periclitância da guerra que se julgava não ter fim; não fiz muitas ondas porque o meu percurso de passeio não tinha o mesmo objectivo que o dele e, também não sabia o que ele viria a descrever em suas crónicas faladas via rádio todos os dias com o M´Puto. O meu anonimato prevalecia a tudo naquele então – Não podia mesmo fazer ondas nem cavalgar surf em seco…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:30
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2023
VIAGENS . 83
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3493 – 25.09.2023
– Em Mukwé, Andara e Shitemo nas margens do Cubango
- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018
Por tonito3.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

okavango3.jpeg O ser humano sendo contraditório, sem que eu mesmo possa fugir à regra gosta de pequenos deuses, afeições apenas para acalmar a consciência como “chaveiros”, “amuletos, “figas”, “estrelas” entre outros. Por repetição faz isso de forma automática e por isso acaba acreditando em sua intuição. Faz anos que ando com um dente de facochero preso ao fio colgado no meu torcicolo para fazer fugir as bruxas e cinquenta dólares feitos bissapas todos amarfanhados no forro de um casaco para subsistir no mundo, estando à rasca. Sim, lembrei! Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho gorduroso de envolver manteiga no lugar do Mukwé

Assim foi! Aquele papel ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas, águas que dão cheiro à terra fantasiando nossas lembranças. Cheiro de chuva, um cheiro difícil de descrever – só mesmo cheiro de chuvaE, foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo. Não muito longe dali, no mapa pode ler-se no lugar do Omega Um, Military Ruins – lugar aonde chiam segredos de ferrugem abandonada.

okavango5.jpeg Coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes, chifres de elefantes e muita aventura em frente dos olhares de hipopótamos. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola. Assim falávamos, cheirando o churrasco do brai em fim de tarde, enquanto se bebia gim com água tónica para nos esquindivar dos mosquitos.

Seguíamos viagens só em rumos de falas saindo dessa imensidão de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, Land-Rover, Fords ou Chevroletesterra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.O que ficou preso ao meu cerebelo gustativo foi aquele café cheiroso servido pela manhã a escassos metros da corrente do rio Cunene no meio de uma ténue névoa de cacimbo.
Nunca mais esqueci esses momentos de alegria de conversa solta, com estórias, anedotas e bizarrices passados com Dona Elizabete (falecida recentemente) que falava com o gentio com estalidos bem como João Miranda, seu marido e patrão do kimbo. Juro que tenho saudades de seu tão lindo riso, da sua empatia e do trato tão jovialmente belo. Para além de ter visto coisas do meu agrado, guardei em mim as falas que ouvi de patrícios e carcamanos embebidas em um tempo que se pretendeu esquecer e, que se colaram a cuspo no subconsciente para não ferir susceptibilidades.

dia001.jpg Relembrando Luandino, digo taqualmente como ele afirmou: - “as lições da vida têm de ser sempre passadas a limpo, só nossa morte é quem pode ficar em rascunho”. João Miranda, um chefe do mato, o senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de sua fuga de Angola. veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1975.

Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Dizia após longas falas como dando um finalmente àquele passado, falando virgulas desse conturbado tempo. Este lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido empresário, amigo de San Nujoma.

okavango02.jpeg Naquelas reuniões de falas de beira rio, as verdades toldavam a mentiras e, a mentira mais descarada que ali ouvi foi a de Oliveira, um amigo que por ali conheci e que ia e vinha até o Mucusso, aonde estava umbigado, com uma dama com o conhecimento da UNITA. Pois não é que num belo dia pensou ter morto uma zebra e, estando a abrir a mesma, depois de separarem seu couro com um rasgão ao longo da barriga, qual é o espanto de num entretanto de distracção ela, a zebra, levantar-se e fugir com as peles a dar a dar batendo-as, como se asas ou orelhas de elefante, o fossem. Esta peta, ouvida com atenção de verídica ficou-me entalada na mente até hoje… E, ainda hoje ao lembrá-la, me rio…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:07
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Sábado, 23 de Setembro de 2023
VIAGENS . 82
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3492 – 23.09.2023
– Em Catima Mulila no Zambezi River Lodge
- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018
Por:DIA73.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

IMG_20170902_102754.jpg Ás margens do rio Zambeze no Zambezi River Lodge e Mudumo National Park Mudumo National Park revejo-me nos muitos dias insólitos, encontrando factos mágicos na revisão de amigos que me fazem medir o tempo com quartilhos e rasas como se feijões o fossem! Amigos, que nem todos o são na forma mais estrelada ou requintda por empatia, que na maior parte das vezes são traduzidos nos cheiros de África catingados só na suficiente rasura para parecer que não o sendo exóticos de todo, assim se tornam gente esquisita…

Amigos, que sempre se aparentam genuínos sem o serem, descomparados ao perfume e o cheiro das primeiras chuvas que salpicam na terra da savana no kalahári. Sincero, assim temos de o ser por vezes, mesmo que o seja aqui, a sul de Kongola bem no centro de Mudumo National Park aonde também me camuflei de guerrilheiro apócrifo circunscrito por uma mata de mopanes e amarulas…

kalu11.jpeg Lembrar-me aqui em terras agrestes de áfrica, que em Portugal após 75, o meu telefone estava grampeado pela Secreta Tuga - Foi o tempo de em Portugal se dar luta sem justificação plausível à UNITA durante aquela guerra na sequência do primeiro conflito de tundamunjila* e, que culminou numa outra guerra acabada na Batalha de Kuito CuanavalePortugal estava naquele então totalmente submisso ao governo do MPLA, movendo-se por interesses de lesa-pátria e por esquerdoidos que se perpetuaram no tempo. Sabiam de todos os nossos passos e, até mesmo em kizombas de amigos aonde  estranhos, pareciam a sondar tudo sobre nós e o Movimento UNITA que virou Partido de âmbito Nacional. Foram tempos espantados de inquietude.

Metido em apertos, apanhei boleia numa Dodge até Namacunde com o Administrador de posto do Dirico, o senhor Pinto. Uns pseudo militares feitos agentes governamentais (do MPLA) encostaram-nos à parede enquanto revistavam a camioneta partindo tudo, a fingir descuido num sem mais nem porquê. O próprio administrador não sabia como controlar aquele desrespeito com todo o seu desamor à revolução da tundamunjila de matriz CR – Concelho da revolução do M´Puto; segredou-me que não demoraria muito para largar tudo e, mudar-se para o Rundu.
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Naquele agora, não era a hora de pensar nos senhores do M´Puto e no que russos, americanos mais o povo desininformado - traidores patrícios com seus generais de aviário pretendiam fazer. Apareceu um mulato fintador, com divisas de tenente, ex-militar do exército dito colonial, saído da EAMA – Escola de Aplicação Militar de Angola, penteado de balas em diagonal. Com pinta de herói, e nome fictício de Fuka Dibengo, deu ordens à guarda para deixar passar aqueles t´chinderes – que éramos nós…

isabel lacuerda.jpg Ficou em fundo um ruído de música do Congo que os militares camaradas ouviam na rádio Mandumbe,... “Ai bábá ninique sala, táta rafael” Passados já uns largos anos sinto um frio nos pés no momento exacto em que um mabeco, sarapintado de castanho sujo, surge num repente por detrás da bissapa e acácias de picos medonhos. A vida faz pouco das previsões colocando por fim nelas, palavras no lugar de silêncios. Aiué

Aqui, Mudumu Mulapo, sem presunção, era um desses lugares, pelo menos àquela hora que o vento frio como brisa do Cubango também surgia, ainda bem. Naquele dia, bem perto do campo bivaque Omega 3 enquanto observava os hipopótamos, pude também ver os telhados de capim preto do Okavango por entre amarulas e embondeiros majestosos; assim lembrava, lembrando pois a muita saca-saca com pirão e, jindungo que outrora ali comi. Tempos de xirikwata´s (nome da minha missão, feito um espia, espiado)

sacag4.jpg Miranda, o ex oficial do Batalhão Bufalo, agora (naquele então) um conceituado comerciante do Mukwé, Andara e Shitemo apresentou-me ao presidente San Nujoma, que por ali andava em missão de soberania, pessoa simpática e simples Um helicóptero chegou bem perto da escola local do Shitemo no Ndonga Linena River Lodge, dele desceu este velho senhor de barba branca, alpercatas e um chabéu de palha já com falripas soltas. Também trazia um bastão, que julgo ser de distinto pau…; nem parecia ser um presidente. Gostei dessa pessoa simples - tinha sim, nos pés, umas alpercatas michelin de calcar matacanha. Mantenho ainda a imagem do encontro à margem desse Cubango em Shitemo na maior lucidez…

Nota* : Tunda a m´jila – Vai-te embora…
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:54
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2023
VIAGENS . 81

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3491 – 22.09.2023

 – De Kasane a  Catima Mulila no Hotel Zambezi River Lodge

- Escritos aleatórios boligrafados da minha mochila – Antes e entre os anos de 1999 a 2018

Por tonito31.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

pinto3.jpg Através da Wikipédia pude saber mais sobre o Mudumo National Park. Está situado a aproximadamente 35 quilômetros a sul de Kongola fazendo fronteira com Botswana a oeste, e com várias áreas de conservação comunitárias. Todo o parque é plano, com terras arenosas e sem morros ou montanhas. Um curso de rio fossilizado, o Mudumu Mulapo que fica no centro do parque; é um canal sazonalmente seco, que drena das águas as florestas de Mopane no interior, mais a leste. A estrada C49 atravessa o parque ligando as aldeias de Kongola e Sangwali.

Exuberante, natural, é uma aventura a ser feita com um 4x4, para enfrentar as picadas arenosas, sinuosasmente acidentadas. Local aonde o pôr do sol é incrivelmente belo, sentindo-se com agrado a brisa fresca do único amenizador de temperatura, o poderoso rio Cuando. Uma experiência inesquecível que deve ser feita com uso de repelente de mosquitos.

okavango02.jpeg Também, não esquecer levar protetor solar, um bom suprimento de água e, um jerricam com combustível extra. Lugar para  não nos escravizarmos, escondendo o medo no bolso posterior.  Aconcelho por isso serem dois veículos com tracção a fazer este trajecto de aventura pois que o lugar, é bem inóspito.

Pensar nas coisas ruíns, não é a filosofia certa para derramar por ali. Não adianta procurar o que o destino lhe reserva no futuro, porque é assim como ter a herança dum relógio roscófe embrulhado em papel besuntado de quicuanga e, que o rato roerá a qualquer momento.

Uns dias atrás um amigo meu fazia reparo àquilo que eu dizia; a de que nós sempre seremos um fruto de mudança. Bom! Com ou sem essa minha teoria de transitoriedade, nós seremos sempre os mesmos, só os pensamentos mudam. Neste nosso curso de enfrentar os conhecimentos, todos os dias serão uma prova à adaptabilidade humana, só que aqui, um descuido pode bem ser aproveitado por um tronco camuflado que num repente vira leopardo, ou um tufo de capim que se torna numa leoa em busca de alimento para suas crias. Nos paladares destes  predadores felinos, nós seremos um doce repasto.

sertão1.jpg E, sabendo que a curiosidade por vezes mata, pude rever-me assim em confronto com meus silêncios de viagem, subjugar-me a modificar meu carácter para subsistir à sabedoria vulgar, feito quase num monangamba. Claro que os sonhos duns não são realidades dos demais. O itinerário seria rumo ao acaso em primeira mão, omitindo a proposito, coisas para segurança do ocaso de gente ainda viva e, que são alguns dos meus heróis - gente incógnita que não abandonaram seus ideais de liberdade.

Digo isto porque me desloquei à Namibia em certa altura, numa missão secreta de observação da logistica em apoio ao Movimento ao qual pertencia – a UNITA e, a partir da Ovobolândia; percorri o rio Okavango em toda a sua extenção a partir de Ot´xakati, Ondângua, Rundu e Calai, Mukwé, Andara, Divundu, Faixa de Kaprivi, Ómega e Catima Mulilo aonde agora volto, despoluido de respeitabilidade e responsabilidade. Pouco a pouco irei retirando as pedras dos meus sapatos, estirpar os furúnculos escondidos num monte de salalé

salalé1.jpg Tive um contácto esporádico com San Nujoma ex-Presidente da Namíbia aquando de uma reunião com comerciantes nas margens do rio Okavango e fuga minha  a um encontro com um jornalista da Rádio Comercial do M´Puto que escreveu uma odisseia no livro “Baia dos Tigres”, um tal de nome Mendes. Baia dos Tigres livro de Pedro Rosa Mendes da Sá Editoras que descreve a odisséia na travessia de Angola em plena guerra. O não encontro foi em Divundu, num cruzamento de estradas que seguem para Botswana e Zâmbia / Zimbabwé através da faixa de Kaprivi. O livro reverêencia a Ana Maria Miranda, a pessoa que me convidou a tal encontro, que recusei… Ana - filha de Miranda, ex-oficial da Companhia  Búfalo da A. do Sul, o mesmo que sabe falar por estalidos…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:27
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2023
VIAGENS . 80

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3490 – 21.09.2023 – De Kasane a  Catima Mulila no Hotel Zambezi River Lodge

- Escritos boligrafados da minha mochila, – Aleatóriamente no após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018

PorBotswana 250.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Botswana 286.jpgA caminho de Katima Mulilo, cruzamos parte do Caprivi Game Reserve, uma faixa apresentanda no mapa como um dedo indicador apontando o Botswana. Com cerca de 180 Km de extensão com floresta de folha larga; a faixa, foi desenhada pelos britânicos em Berlim para poderem ter acesso a todas as suas possessões; Na sua maior extenção, esta faixa são duas linhas paralelas  com 32 km de largura. Eles, os britânios, tinham a pretenção de unir Cape Town ao Cairo.  

A faixa estende-se pela fronteira do Sul de Angola desde o rio Cubango ou Okavango  até o rio Zambeze em Catima Mulilo e, que  vai até Kasane de onde estamos saindo, lugar de encontro com o no rio Cuando, aqui chamado de Shobe.  Vamos em sentido contrário ao rumo de Vitória Falls. O Delta do Okavango fica já do lado do Botswana, com ilhas dispersas, desaguando por assim dizer,  naquilo que à séculos, foi um mar interior.

Botswana 019.jpg Já em Katima Mulilo resolvemos fazer compras no maior supermercado da cidade, pertencente ao Sr. Coimbra (já falecido), um refugiado Tuga ido de Angola logo após o 25 de Abril no M´Puto e sequente guerra do tundamunjila em N´Gola; parece que este senhor tinha uma qualquer ligação com a PIDE do M´Puto e numa primeira etapa de sua fuga assentou bivaque em Windohek, no Safári Motel do Sr Pimenta. Depois, rumou a Norte aonde se tornou aqui – em Catima Mulilo, um bem sucedido comerciante.

Tomamos contacto esporádico com a família Coimbra que tomava conta do negócio e depois dirigimo-nos até às margens do Zambeze aonde assentamos arraiais no Hotel Zambezi River Lodge de características tipicamente africanas e com acomodações para visitantes de mochila para camping, como nós. Foi bom ficar ali sentado na margem daquele Zambeze ainda manso cruzando pensamentos das terras do Fim-do-Mundo que no correr dos tempos pareciam ser só uma ilusão.

Botswana 240.jpgÉramos os exploradores bazungus, como diria a minha empregada Mery de Kampala:  modernos com algumas mordomias como um canivete macgyver  que tudo resolve e, seguindo as peugadas de Silva Porto, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivens. E, como foi bom pisar aquelas terras, ver manadas de elefantes raspando a terra impondo poder abanando as grandes orelhas a meter medo. Ao cair da noite fizemos o nosso brai com aquela carne saborosa de caça.

Carne comprada no supermercado da familia Coimbra, carne que só ali existia por aquelas paragens. E, como gostaria de repetir no futuro esta volta e mais uma vez - pensava assim ali sentado na beira do Zambeze admirando a kukia (pôr-do-sol) e, olhando-me nas rugas espelhadas nas quietas águas do Zambeze. E, só para mim, recordava o passado, da guerra do Tundamunjila de N´Gola, uma rebalderia chamada indevidamente de descolonização

Botswana 280.jpg Recordava os Movimentos de Libertação, em particular da UNITA à qual pertenci e, que aqui descreverei de forma muito sintética, suficientemente sumária  para preservar personagens como Dachala, Alcides Sakala, Zé Kat´chiungo e Adalberto da Costa Júnior; um mano Coordenador, que se salientou em Portugal na defesa da Unita tonando-se por voto popular e, com elevado mérito, em Presidente da UNITA e Presidente de Angola segundo os fieis relatos de vários Observadores Internacionais e dados internos do agora partido do Galo Negro – dados fidedignos e aferidos… 

Isto de repetir o passado, acontece sim, porque o é necessário e, para no mínimo, ressarcir a verdade. Verdade que afeta bem mais de um milhão de gente maioritariamente boa e, indevidamente relegada ao esquecimento da razão - os chamados refugiados e retornados! Irei assim, decrevendo aos poucos, para não vulgarizar ou agudizar num só lote tal infortúnio e, inserindo-os nas várias viagens de agora e de mais tarde, aleatoriamente dum passado truculento e, até  faladas em sentido contrário como se o fora uma marcha-à-ré, pois que quase foi assim que percorri o caminho que não nos levou a Dar-es-Salaam na Tanzânia. Bom! Isto será de atemporal descrição e, numa posterior forma de odisseia que fragmentada, bem pode remoer um futuro, num agora!  

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:04
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2023
VIAGENS . 79

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3489 – 19.09.2023 No Shoba Safari Lodge de Kasane

- Escritos boligrafados da minha mochila, em KASANE, às margens do Cunene e Shobe – Entre os anos de 1999 a 2018

Por chicor4.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Malambas4.jpg Pois! E, porque me  deparei com falas de lugares já passados e, não descritos aqui, abro um parêntesis para tapar e rever essa lacuna: Dias atrás muitos cheios de pó, chegamos a Nata no Botswana, bifurcação tendo pela esquerda via Namíbia, lugar aonde já passamos de Epupa Falls e Delta do Okavango e, pela direita atravessando várias reservas até chegar a Kasane às margens do rio Shobe que em Angola se chama de Cuando. Pois foi por aqui que viemos até aqui – a Kasane.

Pernoitamos ali, em Nata, no Pelican Lodge aonde se recolheu informação com outros aventureiros bazungus, de qual o melhor caminho a seguir e outros detalhes. Tinhamos a opção de acampar ou ficar em um dos chalés e, optamos por alugar dois destes. O alojamento dispõe de restaurante à la carte onde comemos à base de carne de caça, uma sempre boa opção.

caprand0.jpg Aqui o Pelican,  oferece passeios panorâmicos para o Santuário de Pássaros em Nata dentro das Salinas Makgadikgadi mas, nossa intenção era continuar  até o santuário do Shobe e Kazungula. Durante o Jantar, um grupo de bailarinos tradicionais deu uma prova da dança tipicamente africana com tambores com alguns detalhes de danças usadas pelos mineiros na tradição da dança "gumboot" do Soweto e Lesoto; cantar e dançar os ritmos do Botswana - Diversão especialmente dirijida para um grupo de bazungus idos da europa, ali hospedados.

Era suposto encontrarmos muitos animais no percurso, um domingo, ao atravessarmos as reservas de Tamfupa, Sibuyu, Kazuma e Nogatsaa mas, os quilómetros foram desvanecendo a avidez e os olhos já cansados de tanta secura entre um gole e outro de água de garrafa, foram escorrendo conversas de profecias ainda mal entendidas.

macu5.jpg E, veio à tona aquelas profecias sobre a Inglaterra e África do Sul; aquela que diz que a Inglaterra será atingida por 7 pragas quando a 3ª Guerra Mundial estiver próxima. Isto já o foi contado lá  atrás, por isso passarei à descrição da tal Ilha com uma bandeira gigante do Botswana no meio do Shobe e, na qual andamos vendo confortavelmente no barco do Shoba Safari Lodge de Kasane.

Aquela ilha que tem o nome de Sidudu/ Kazakili Island esteve até há questão de poucos anos em disputa na definição de fronteiras pois que a Namíbia reclamava como sendo sua mas, o Tribunal Internacional deu posse definitiva ao Botswana. Aqui está a justificação de tão grande mastro naquela planura tão verde e tão cheia de animais.

cos3.jpg Pudemos assim ver as margens do rio Cuando a confrontar com o parque Kasika da Namíbia e o canal Shobe no lado do Botswana. Esta missão exploradora serve somente para revestir-me de uma armadura contra as megalomanias daqueles que julgam possuir todas as chaves de abrir todos os becos, todas as quelhas, todas as picadas sem declarar seu próprio fisco à sua alma. Sei porque digo isto mas, saiu, saindo…

O Rio Cuando e o canal Shoba desaguam no rio Zambeze e, é aqui em Kazungula, mesmo ao lado, que confinam quatro países: Botswana, Namíbia (ponta da faixa de Kaprivi), Zâmbia e Zimbabwé. Foi um dos momentos altos como uma odisseia das potholes (buracos); aí estão os bazungus, mais que muitos, a pagar caro para ver a natureza. Há gente de todas as nacionalidades mas, maioritariamente da Comunidade Europeia. Troquei impressões com três espanhóis que amavelmente nos deram indicações sobre trajectos por conhecer. Bola pra a fente!  Agora sim,  iremos de volta ao Okavango passando por Catima Mulilo…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:44
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Domingo, 17 de Setembro de 2023
VIAGENS . 78

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3488 – 17.09.2023 No Shoba Safari Lodge de Kasane

- Escritos boligrafados da minha mochila, em KASANE. – Entre os anos de 1999 a 2018

Por:Botswana 055.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

kuvale6.jpg Estamos a ficar longe no tempo para poder recordar todos os detalhes e, se não houve rascunhos daquele então, ainda mais difícil fica de desenhar a paisagem Landscape. Em um daqueles dias às margens do Shobe, rumamos por uma estrada de terra com piso em argila regularizado com brita que depois virou areia; estávamos no Shobe National Park, bem do outro lado da Namíbia.

Anotei a indicação lá no início do troço de, que nós bazungus, iriamos ficar à nossa conta e risco! Valeu a pena o susto de por vezes ficarmos enterrados porque, de repente lá estavam, um leão e uma leoa à sombra de uma grande árvore comendo ou guardando um elefante de pequeno porte, já todo esfalelado, coisa pouco usual tratando-se de um elefante.

orneb5.jpg Porventura  aquele paquiderma, estaria adoentado  ou teria sofrido um grave acidente.  A lei da vida e da morte ali, não contempla assistência da parte de qualquer instituição cinegética ou veterinária. Até nós corríamos esse risco de entrar na cadeia alimentar. Ao seu redor umas quantas hienas espeando o fim de repasto dos reis da selva. No ar, circundavam os abutres negros querendo também fazer parte do repasto; num lugar mais distanciado também havia mabecos – uma cadeia alimentar na lei da natureza nua e crua – o aviso lá de tráz, na entrada, tinha razão de assim o ser.

Quanto ao passeio de barco - passeio de aventura  terreste de muitas estrelas, com uma óptima relação no custo-benefício, sentimos  o conforto e a segurança de uma viagem organizada pela secretaria do Shoba Safari Lodge. Momento único, numa vontade sem certeza, certeza de voltarmos a ter uma tão grande oportunidade de criar memórias duradouras, que nos acalentam sonhos em voltar para ver mais.

dia61.jpg Nas longas horas de jornada ao longo de terra árida, chinguiços ressequidos, caímos em devaneios de profecias, falamos pelos cotovelos dizendo falas desprovidas de sentido ou fora do reino de aventura. Agora que já se passaram uns longos anos de estio literário, relembro o que alguém, não sei quem, o disse: Que a Inglaterra será totalmente aniquilada, até mesmo a sua terra irá queimar como uma invasão liderada pela Rússia que vai invadir a Europa, através da Turquia e usar armas terríveis.

Costuma ser assim, cada qual diz o que lhe vem nas falas avulsas porque leu e, ou com edecéteras de kazumbis repassados por adivinhos ou pastores que por norma sempre vão mais álem do que plantar batatas no meio do Karoo  e, mais se disse que a África do Sul também entrará em uma guerra civil em um ano de eleições, após a morte de um líder negro; que será exibido em um caixão de classe nos Edifícios da União. Líderes mundiais virão homenagear. Será!?

DIA 108.jpgEm Kasane, nas voltas e andanças tarde do dia, cheios de gases, corpos curvados e cheios de ideias com turbulências no cerebelo e fome, antes que fosse noite, fomos comer ao Pizza Coffee do paquistanês em Kuzungula. Já noite, na tenda “tipo Livingston” podia  rever-me nos muitos esboços coloridos gatafunhados, coisas que vi, quilómetros precorridos, sugestões e pagamentos a encontrar ao calhas e a cores, amarelo, azul e amarfanhado no descolorido, colados a shwingame (pastilha elástica).

zambeze1.jpg Uma escrita misturada de experiências em blocos boligrafados, esquecidas com contas de somar, subtrair e cambiar. É fundamental ter dólares! Sem isto, a apologia de se ir ao acaso tolhe o instinto, cega a fé, mesmo que se repita muitas vezes o valha-me Deus. Faço isto por vezes para ver quanto gastei em Euros, agudizando-me na curiosidade de ver contas de números altos em dólares, randes, kwachas, pulas e dólares zimbabwanos e deparei com as falas de lugares passados que terei de descrever  nas próximas crónicas e, aqui repostas, para não transtonar o cerebelo em minha sequência de escritas…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:08
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Sábado, 16 de Setembro de 2023
VIAGENS . 77
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA) 
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3477 – 16.09.2023
No Shoba Safari Lodge de Kasane
- Escritos boligrafados da minha mochila, em KASANE, às margens do Cunene/Shobe – Entre os anos de 1999 a 2018

Botswana 019.jpg Em África as viagens em camiões trucks, conhecidas como "Overland Tours" são muito famosas. Cruzei com estes grupos animados no Cruger Park da África do Sul, Ai-Ais a Sul da Namibia, no Fixe River - canyons, no Sossusvlei, na Costa dos Esqueletos, em kasane e Kazungula do Botswana no Etosha Pan e em Victoria Falls. Sossusvlei, na Costa dos Esqueletos, em kasane e Kazungula do Botswana no Etosha Pan e em Victoria Falls.

Essas viagens cruzam países dando a oportunidade de se conhecer mais a fundo as realidades dessas terras, povos e países, fazer safáris a ver animais, ou passeios turísticos por lugares aprazíveis e exóticos. Muitas empresas fazem essas viagens de camião pela África numa agradável aventura por terra abrangendo muitos conhecimentos nos destaques culturais, paisagísticos e vida selvagem.

Botswana 294.jpg Muitas vezes, cruzando fronteiras proporcionando uma experiência verdadeiramente profunda, vendo muitos lugares fora dos roteiros mais conhecidos, sua forma de vida, sua alimentação, bem como os exotismos pantacruélicos que você quer conhecer porque alguém falou. Enfim: coisas positivas e algumas até bem deprimentes pela má gestão dos dirigentes de topo. Tive essa experiência através de inúmeras viagens em carros alugados.

As empresas especializadas neste tipo de turismo, usam veículos Trucks confortáveis, totalmente equipados e especialmente projectados para isso, proporcionando aos muzungos (brancos), só mesmo aos bazungus (turistas) que gostam mais dos animais do que das pessoas! um excelente ponto de vista para apreciar a paisagem e a vida selvagem. Todos os camiões possuem carregadores de telemóvel e, levam dois ou três tripulantes experientes que irão dirigir, guiar e cozinhar para você durante todo o passeio.

Botswana 261.jpgEssas empresas, condicionam o número de pessoas em cada passeio relativamente baixo, mantendo acomodados satisfatoriamente de 12 a 18 pessoas, o que significa terem o espaço necessário nas janelas tendo sempre a atenção pelo contacto pessoal com seus guias. Embora os arranjos dentro de cada passeio variem um pouco, em princípio, oferecendo esses passeios de duas maneiras: em acampamento ou “alojados” sendo o primeiro, a opção menos onerosa e, da que mais gosto.

Falando de nós, que iríamos ver as terras rasas do Shobe em barco e, porque houve falhas no planeamento nosso, tivemos de alugar um extra por 1420 Pulas; assim, um barco que normalmente leva 25 pessoas ia servir aos cinco bazungus que éramos nós: Ibib, Ricar, Marco, Isabel e o Je-T´Chingas- o cicerone condutor! Grosseiramente os Pulas pagos, correspondiam a 1917 Rands ou 112 €; valeu bem a pena porque vimos muita variedade de antílopes, centenas de elefantes, jacarés, hipopótamos e springboks; muitos búfalos e até cudus (Olongues)

Botswana 176.jpg Nas vistas largas das terras planas e verdes que bordeiam os canais do Rio Cuando e Shobe, e no chamado Shobe National Park, vimos bem mais do que 200 elefantes e muitos antílopes como olongos, gungas, facocheros, búfalos, impilas, jacarés e vários hipopótamos entre outros e, também aves de grande porte como o peru africano, várias espécimes de patos e pássaros multicolores. Pudemos avistar no meio de uma vasta e plana ilha, no meio do nada verde, uma bandeira enorme do Botswana em um gigantesco mastro. Esta ilha, só recentemente foi considerada por um tribunal internacional como pertencente ao Botswana…

Com nossos coletes de muitos bolsos como caçadores de elefantes, carregávamos anseios; estamos junto, companheiro – cada um é como cada qual! De facto, pelo observado aqui, sempre caía no estremo de dizer o quanto os angolanos deveriam estar gratos por terem os Tugas como colonos pois que aqui verifica-se que para além do mato, dos empresários levando bazungus, pouco mais há para mostrar.

Botswana 281.jpg Sempre caía naquela satírica forma de dizer: - Os angolanos estão cheios de razão, os Tugas deveriam não só ter levado para o M´Puto (Portugal) as suas estátuas, Diogo Cão, Maria da Fonte, Norton de Matos entre outras mais e, também os prédios, escolas, pontes, hospitais, estradas, igrejas e barragens pois que sempre, sempre o são rebaixados; ter deixado Angola exactamente como a encontrou Diogo Cam, 500 anos antes do achamento! E, assim andarmos, para a frente e para trás que nem Kiandas feitas salalé tresmalhado, por via da intuição feita cinco estrelas duns caçadores caçados por traição sabuja, vilipendiados até, para não dizer roubados. Também traídos, até pelo povo enganado pelos generais de aviário e a mídia esquerdoida do M´PutoActos nunca ressarcidos...

(Continua...)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:07
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2023
VIAGENS . 76

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA) Shoba

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3476 – 14.09.2023,  No Shoba Safari Lodge de Kasane

- Escritos boligrafados da minha mochila, em CASANE, às margens do Cunene/Shobe

– Entre os anos de 1999 a 2018

Por  safaris03.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

safaris10.jpg Estas tendas do Shobe Safari Lodge de Casane, até tinham chave electrónica para nelas entrar, uma coisa de cinema composta por duas camas, mesinhas de cabeceira, uma pequena mesa de centro, uma outra com espelho no topo e ainda outra para guardar malas e coisas menores. Também havia um ventilador que, nos  foi bastante útil porque o calor aqui é para fazer de sauna.

De noite, o tempo arrefece a ponto de termos de nos tapar pelo frio. Na gaveta da cómoda havia cinco preservativos. Sukwama! Exclamei - era isto mesmo que me fazia falta, aiué! A tenda tinha um avançado por cima do sobrado a fazer de varanda com mesa e cadeiras para seis pessoas mas tinhamos de ter cuidado com os babuínos, e outros macacos mais javalis facocheros pois que afoitamente nos vinham roubar as coisas do seu agrado.

safaris01.jpg Para fazermos nossos assados na churrasqueira brai, tinhamos de estar com um olho na carne e outro nestes caçadores furtivos. E, como gostavam de batatas fritas! Até os javalis vinham quase às nossas mãos para comer, embora houvesse avisos no sentido de nada se dar aos animais. Ao nosso redor surgiam facocheros, macacos babuínos, saguins, bâmbis, capotas e perdizes.

Os elefantes faziam-se ouvir por perto. Os kwés-kwés, uns pássaros pretos e grandes lançavam piares agudos ainda o dia não o era, só lusco-fusco. Também os turistas, homens e mulheres e gente outra auxiliar dos camiões super truck apetrechados para fazer safaris, que se dispunham a sair cedo, começavam a falar alto, desmontar tendas, agrupar ferros, juntar panelas, cadeiras, mesas e toldos entre outros corotos, imbambas e chuveiros de lona como os usados por funantes, comerciantes e exploradores do tipo de Hermenegildo Capelo ou Robert Ivens.

safaris6.jpg Pois assim, não tínhamos como não acordar lá pelas cinco e pouco! Talvez um dia me inscreva numa destas odisseias – em Espanha há especialistas em atravessar África desde o Cairo ou Madrid a Cape Town,  nesta forma de estar no mundo. Assim que o sol nascia lá no horizonte, o calor começava a ondular o cacimbo; podíamos apreciar isto nas luzernas entre a vegetação alta e empoeirada. Bem do outro lado das bissapas muito cheias de chinguiços podíamos ver a azáfama dos bafanas auxiliares dos carros apetrechados para a áfrica profunda. Desarmavam ferros, juntando-os de forma ordenada na parte inferior do machimbombo Truck-safari.

safaris12.jpg Carros com camas, farmácia, pratos e tudo o que compõe uma cozinha, frangos e carne para assar, maças da cidade do Cabo e feijões do Quénia, vários tipos de pão, café e arcas frigoríficos para atulhar isto mais verduras e, do outro lado, ferros de armar suas tendas; grupos de gente que depois tomam assento lá no alto do machimbombo truck para ver a vida do mato passar, os condomínios de pássaros suspensos nas acácias.

Ao peito dos coletes de zuarte amarelo suave de muitos bolsos, pendiam seus binóculos, suas camaras fotográficas e outros zingarelhos próprios de verdadeiros bazungus (turistas). Era bom andar mastigando chwingame, uma pastilha elástica que depois de mastigada era um bom vedante para tapar furos do radiador mas, agora as tecnologias de ponta são outras; não mais é necessário levar umas borrachas extras e arames para encurtar tubos de refrigeração ou pendurar argolas e chapas desprendidas com o sacolejar dos ripados da picada, ao jeito de tábua de lavar em selha, coisa desesperante.

safaris13.jpg Só para lembrar: As lonjuras complicam-nos o mataco que a dado momento já nem tem posição certa tornando o excesso de profiláctico em olfáctico dando comigo a abanar as orelhas e engolindo cacos de vidro como um faquir.  Estas paragens na aventura, odisseia, tonam-se necessárias. O zelo da quilometragem conjugando a hora com o dia, da noite que cai e da luz que se esvai. É fundamental termos um bom lugar para pernoitar, consultar no telemóvel ou perguntar por um aceitável sítio aonde pousar. A seguir, iremos ver os elefantes às centenas.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:07
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2023
VIAGENS . 75

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3475 – 12.09.2023

- Escritos boligrafados da minha mochila, em CASANE, às margens do Chobe – No Shoba Safari Lodge de Kasane

Entre os anos de 1999 a 2018

Porfrancistown03.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Botswana 264.jpgSaltando no tempo, vejo-me debruçado sobre os funis feitos na terra pela formiga-leão, os nossos conhecidos fuca-fucas de Angola. Pois, assim debruçado no Shobe Safari Lodge bem na margem do rio Shobe, concertávamos ideias sobre o que fazer e ver nesta parte norte do Botswana. Os alojamentos dos principais módulos, estavam todos ocupados e restou-nos ir para as tendas com os requisitos de um chalé normal com água, energia e chorrasqueira brai,  e seviço de hotel…

O nome da região Shobe, deriva do rio que corre ao longo do norte do parque aonde ficamos; em verdade é uma continuação do rio Cuando  que saindo do estremo do Leste  de Angola, atravessa a faixa de Caprivi passando a formar fronteira entre a Faixa de Caprivi da Namíbia e Botswana que passa a formar fronteira com a Zâmbia e que toma este nome de Shobe.

okavango3.jpeg Proseuindo o Cunene/Shoba,  dá encontro em Kazungula a escassos quilómetros de Casane com o rio Zambeze fazendo aqui, fronteira a Leste com o Zimbabwé. O rio Cuando é um rio que nace no Planalto Central de Angola e corre para sueste, formando parte da fronteira entre aquele país e a Zâmbia de uma forma caprichosamente ondulada e, formando ilhas na envolvência de muitos  charcos, tal como o Delta do Okavango do rio Cubango…

Durante este percurso, o leito do rio Cuando, ainda em Angola, é formado por ilhas e canais, com uma largura que varia entre cinco e dez quilómetros. O rio Cubango/Shobe, tem 800 km de comprimento. até encontrar o rio Zambeze; aqui também de uma forma muito tortuosa formando à semelhança do Leste de Angola  muitas  ilhas e, tendo muito fartura  de animais, destacando-se  os elefantes, hipopótamos e crocodilos…

torres14.jpgE assim feito, menino de alegria suburbana, descalço como um candengue de musseque com aduelas de barril do M´Puto, baptizado com água do Bengo, limpo, arrumadinho e de colarinho ajeitado na hora de berridar a ver paquidermes, hipopótamos, javalis, jacarés e veados à centena senão milhares. Na volta sou todo feito em pó asombroso . A alegria de contemplar e de compreender é a linguagem a que a natureza me excita, na preocupação pela dignidade com a saúde num quanto baste e, com o suficiente dinheiro para poder comprar as alfaces ou o paio defumado saído dum pata-negra.

Feliz de quem atravessa a vida prestativa sem o medo estranho à agressividade e ao ressentimento, capiangando a necessária felicidade, porque para se ser membro irrepreensível de uma comunidade de carneiros é preciso antes de tudo, também ser carneiro. O esforço para criar uma comunidade neste meio, sem a qual não podemos viver nem morrer neste mundo hostil.

fuca0.jpgE, de forma íntegra, tornar-se em um sofrível no meio dum impossível. Para seres favorável a alguém, tens de descartar outro alguém. É uma regra que sempre me provoca rebeldia. Tivemos batata frita, biltong e tostas rijas rusk que nem paracuca que depois se dissolviam nas humidades. Um grande balde com gelo, servia para nele meter todas as bebidas por forma a mantê-la frescas durante o esplendor.

prado0.jpgForam mais de três dias divertidos aqui no Shobe Safari Lodge de Casane - olhando até pelos pés e cotovelos: boligrafar também a boa forma de preencher o tempo sobrante, sempre à coca do surgimento de um facochero feito javali ou porco ou um bambi dócil com macacos a querer roubar sabão e barafustar mais álem,  por aquilo não ser  o weetabix, a farofa do seu breakfast. Neste então esperávamos a hora do seguinte dia para, a partir daí, darmos a volta em barcaça a uma áfrica como se assim fosse, a primeira vez – no rio Cubango ou Shobe …

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:56
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Sábado, 2 de Setembro de 2023
VIAGENS . 68

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3478 – 02.09.2023

- Escritos boligrafados da minha mochila - no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein – com palavrório erudito.…

 Por roxo135.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

soba0.jpeg O que importa mesmo reter é o revelar de relações entre as coisas, mesmo partindo de hipóteses falsas, premissas incertas. Na minha leitura diária pude verificar que segundo Mário Bunge um entendido em filosofia da física, que todo o coro de ideias científicas, serão avaliadas à luz de resultados a partir de tipos de testes a saber: 1-metateóricos, 2-interteóricos, 3-filosóficos e 4-empíricos. E, não se faz nenhum exame empírico a uma teoria senão depois de ela ter passado no crivo dos três primeiros testes. Estes carolas torram nossos neurónios a começar pelo palavrório da sua função erudita.

Nessa conjugação, o metateórico apoia-se na forma de conteúdo da teoria, particularmente a sua consistência interna. O teste interteóricos procura analisar a compatibilidade da nova teoria com outra. Só depois virá a prova filosófica situada no campo da respeitabilidade metafísica e epistemológica dos conflitos e pressupostos da nova teoria à luz de algum sistema filosófico. Cada um destes palavrões requer pesquisa apurada para penetrar nos neurónios e, de forma acertada, ser arrumada nos gavetões certos da compreensão. Mas, aqui em áfrica. o melhor mesmo, é termos os pés de Bohér com os olhos bem abertos para não nos espetarmos em qualquer espinho que atinja o coração.

maun0.jpg Voltando à odiseia estória que nos dá voltas à mioleira, podemos saber lendo que depois da Segunda Guerra Mundial, a 3 de Maio de 1945 as tropas alemãs de ocupação foram substituídas pelas tropas do Exército Popular de Libertação da Jugoslávia. Nos primeiros dias do novo governo, vieram acompanhados do fuzilamento em massa dos ativistas do Movimento Autonomista.

O símbolo da cidade, a águia bicéfala, retornou ao uso apenas em 1998. No final do ano 2004, um grupo de fiumanos fundou a "organização virtual Estado Livre de Fiume" com a ideia de reunir os fiumanos pelo Mundo numa identidade própria.  Como se pode concluir em história, quando tudo chega até nós já passou por um filtro e, muitas vezes tem a respeitabilidade “Ad Hoc” e de forma arbitrária.

Só depois e com as críticas de entendidos na matéria, é que surgirá o tal de “racionalismo” de pretensão universal com um simples “A priori”. Por hoje fico-me por aqui sem entrar no campo da logicidade plausível. Não fiquem assim matutando e, tentar entender as dificuldades da interpretação das coisas  com a suprema “Teoria da Incerteza” ou um simples “Só sei que nada sei” para se refastelar nas palavras com frustrados sonhos.

maun01.jpg Teremos sempre de ter em conta que os homens e mulheres com projecção viram monumentos da história; nestas  projecções se acoitarão bichezas menores e qualquer animal inferior que por ali ande, fará suas necessidades aonde quer que calhe, porque as bitacaias feitas matacanhas, sem conceitos de alma penetram sim, nos olhos dos pés. Mas, sempre voltando à base daquele espaço, sabe-se que entre os cidadãos de Fiume de etnia italiana, um grande número emigrou por motivos étnicos já quase nos finais da segunda guerra mundial.

Aconteceu assim, fugir-se às ideologias de Hitler e suas perseguições aos judeus com outras razões ideológicas, que hoje nos causam forte repulsa. E, tendo sido a Namíbia, um território colonial alemão, aqui fundaram suas "Comunas Livres de Fiume no Exílio" e, à qual aderiram muitos fiumanos; surgir assim daqui, um território colonial mais brando nas questões politicas, penso eu, neste nome e, num lugar tão distante.

maun3.jpg Para terminar esta estória bem intrincada, é deveras curioso encontrar assim, vastos territórios com uma aparente autonomia especial! Já deparei com isto às margens do Orange - Um território chamado de Orândia com moeda própria, bandeira e outros requisitos de gestão diferente do resto do país – África do Sul; também do espaço Casino de Sun City e Pilanesberg com um estatuto especial e do espaço e,  Farm Parys- Free State às margens do rio Vaal perto de Potcheftsroom.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:06
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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2023
VIAGENS . 67
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3477 – 01.09.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila – Um mar de acácias, no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein
– No Otjozondjupa da Namíbia…
Por acácia rubra2.jpegT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

ÁFRICA7.jpg Como se fosse um cofre, viemos futurar o destino em África, olhando dentro dele, ver o que já foi passado quando se abre e que, após seu fecho, só se pode pressentir o que poderá vir a acontecer, nada mais! Os segredos de Deus só a Ele pertencem! Na voz do bom senso, terei de esperar o amanhã, sem mais nada ter que fazer.

Assim, através do mato, desbravando os dias nas savanas de África sem fim, um mar de acácias, espinheiras em montes ardentes, campos sem cultivo intensivo, lugares habitados por kudus, búfalos, zebras e leões, aconteceu – bola prá frente… Sabendo de antemão, que o deserto não é só aquilo que a nossa mente se costumou a interiorizar.
 
Pelo que se lê ou pelo que se ouve, sempre na vontade e na natureza das coisas, observamos que Deus andou por aqui sem ser visto e, por ali também, Isso! Omnipotente e omnipresente… Só que os livros, nem nos escritos, mesmo que apócrifos, nada dizem de que alguma vez por aqui terem andado os apóstolos João, Zakarias ou Malakias e, se por ventura aqui veio o Eliseu, subiu ao céus rodopiando como um saca-rolhas e, saído do ventre de um baobá, árvore garrafa conhecida de imbondeiro.

araujo1.jpg Que se saiba foi o único ser humano que subiu vivinho da costa até o grande salão de São Pedro - foi mesmo esse Eliseu! Que eu saiba, só o designado santo homem, numa forma fenomenal subiu aos céus de forma côngrua ainda em vida; ele tinha uma forte vontade de ir para junto de Deus e, foi em espiral que fez sua derradeira viagem astral. Creio que por lá ficou! Muitos acham que Elias, que também subiu ao céu em carro de fogo, cavalos de fogo e, edecéteras! Seria um ET? Porque não! Aqui, na terra dos espinhos longos, pensa-se em tudo…

Diz a Bíblia que ele subiu em um redemoinho mas, cada um de nós vai interpretar isto de uma outra qualquer forma; outros acharão ser uma patranha maior do que o universo desconhecendo que este não tem fim, que não tem quatro linhas como fronteira. E, em verdade nem resultará irem desenterrar ossos feitos cinza, as queixadas dum qualquer santo ou mesmo escritos apócrifos de baús duvidosos, porque há verdades que nunca estarão ao nosso alcance.

fiume9.pngA incerteza sempre irá prevalecer porque o condão do saber e do sempre querer, estarão encerrados na ilusão do que somos: nada!Nunca iremos descobrir tudo e melhor será, este assim. Antes que me perca em devaneios, volto à cidade de Fiume, em Croata Rijeka (ambos os nomes, em português, significam "Rio"), que recebeu autonomia pela primeira vez em 1719, quando com o decreto do imperador Carlos VI foi declarada porto franco. Em 1779, nos tempos de Maria Teresa da Áustria foi fundado o Corpus Separatum. Desde então, e até 1924, Fiume existiu como entidade autônoma com elementos de um Estado.

Na cidade, viviam italianos, croatas, eslovenos, húngaros, alemães e outras etnias. O status particular da cidade criou um sentimento de nacionalismo dos habitantes em relação a Fiume. As línguas oficiais eram o húngaro e o alemão, enquanto que para a correspondência oficial era usado o italiano. A língua do povo era o fiumano, um dialeto particular da língua vêneta com alguns empréstimos e influência da língua croata.

Mvuu2.jpg Com a derrota do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, o status da cidade de Fiume tornou-se um problema internacional: a assim chamada "questão de Fiume". Durante a controvérsia entre o Reino da Jugoslávia e o Reino de Itália, as forças internacionais propuseram a fundação de um Estado independente. Em 12 de Novembro de 1920 o Reino de Itália e o Reino de Jugoslávia firmaram o Tratado de Rapallo, com o qual as duas partes reconheciam a total independência do Estado de Fiume e prometiam respeitá-la.

Com tal acto foi fundado o Estado Livre de Fiume, o qual existiu com duração de quatro anos. Agora que me estiquei nesta explicação, acho que terei de ir até ao fim prestando homenagem a esses sonhadores e exploradores fiumanos que tiveram essa sorte de o não serem expulsos numa farsa chamada de descolonização do TUNDAMUNJILA* (referente a Angola)… Sendo assim a todos os refugiados e retornados de Angola, poderemos chamar de TUNDAMUNJILANOS por obra e graça de um tal CR – Concelho da Revolução do M´Puto…

Nota* ; Tunda a m´jila – Vai-te embora…
(Continua…)
O Sob T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:05
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2023
VIAGENS . 66

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3476 – 30.08.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila - no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein – No Otjozondjupa da Namíbia…
Por FK2.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fiume02.png Aconteceu em paz, divorciar-me de mim, dando a chave do cofre ao mestre da charrua da vida, pensei assim aqui e, neste lugar preciso aonde judas perdeu as botas. Às vezes fico meio periclitante com Ele, o Nosso Senhor. Mas, adicionando casos e acasos, coisas miúdas, estendo minhas quinambas, mexo os dedos grande e o pequeno do pé revendo-me no equilíbrio da realidade tão bem fabricada: com a destreza bóher de fugir intuitivamente aos espinhos das acácias dum tamanho quilométrico, um exagero de 99,999%! Isso, de uns bons 10 cm…
Até já estou ganhando olhos nos pés, talqualmente como o homem que teimou em plantar batatas no deserto e, que por via dum sonho, teve-as – um milagre feito em toneladas de tubérculos a que os cientistas não têm a devida competência opinativa para o subtrair – o milagre.
E, porque foi que viemos aqui, se não era necessário afastarmo-nos tanto, a um lugar tendo por testemunho absoluto o céu que nos cobre, para onde quer que se vá. Para provar, que o que tiver que acontecer acontece, haverá sempre o lema: um milagre em que as pessoas, não escolhem os sonhos que têm; foi em duas noites passadas em Windhoek seguindo um destino dormido na Guest House Willtotop de Vanda Potgieter, esperando assim seguir o rumo ainda por escrever.

fiume8.jpg E, numa singular legitimidade, partilho só um pouco de um reino emprestado, aonde todos são presumíveis herdeiros e arrendatários. Quem não acreditar que assim o é, que se lixe! Pois! Reino, aonde o tempo, também passa igual para todos - Segui na direcção de Okahandja, Otjivarongo, Otavi, Grootfontein com paragem neste Fiume Rust Camp de Otjikango com o rumo do Rundu no Okavango.
Pois foi a Vanda Kikas Miranda que amavelmente marcou minha reserva de estada no Rest Camp Fiume, o lugar que aqui descrevo com a surpresa de reavivar uma estória desconhecida. Bem! Aqui estou neste estado LIVRE de FAZ-DE-CONTA em África, em um lugar longe de tudo, Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.

khoisan02.jpg Pesquisando a Wikipédia pude assimilar: Os cidadãos de Fiume lá da Croácia actual, de etnia italiana, um grande número emigrou por motivos étnicos ou razões ideológicas, fundando aqui, como em outros lados, "Comunas Livres de Fiume no Exílio". Numerosos fiumanos e, não sómente italianos, surgiram aqui e, desta forma, montaram bivaque após a Segunda Guerra Mundial
Tenho a dizer que a todas as perguntas que me possam fazer, não poderei dar todas as respostas porque nem sempre as estórias e lendas, conservam alguma relação com os factos, transformando-se até em puras fábulas. Será o caso de uma “Croácia de 14 km 2” em pleno mato da terra do nada, para satisfazer um sonho de alguém. As guerras provocam estas diásporas; alguns estabelecem-se algures, outros procuram algo que nunca irão encontrar, como no meu caso… Eu, que saí de Angola também tive este sonho: acampar-me na foz do Amazonas…

fiume12.jpg E, assim ungido de guerra "tunda munjila" (branco, vai embora), agora era o tempo de me ver no principio do nada, nada que resvalou num sempre. Tomamos o breakfast às sete horas do seguinte dia confirmando o legitimo cuidado de Jorn Gresssmann, o zelador-mor do Free State, uma simbólica herança, um perfeito sonho de um primogénito em terra de nome bizarros como Omatako, Okavarumendu, Otjssondu, Okakamara, ou Otjinoko. Já só restavam 440 km para chegar à Andara do Okavango. Mas antes, terei de descrever pela via da cábula Wikipédia, essa terra de Fiume, lá na Europa, no Mar Adriático…
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:39
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Terça-feira, 29 de Agosto de 2023
VIAGENS . 65
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3475 – 28.08.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila - no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein
– No Otjozondjupa da Namíbia…
Por:

fiume6.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fiume10.png Ainda em terras da Namíbia e antes de chegar ao Rundu, um destino base em minhas, nossas andanças, pernoitamos em uma fazenda quase tão grande como o original Fiume, uma terra situada na Europa, que já foi Italiana e uma cidade estado. Já foi Croata e, desde 1947, pertence à Jugoslávia. Pois isto parece irreal em África mas aconteceu!

Dado que os homens para tudo querem explicações, eu também quis saber um pouco da história do lugar aonde passei e ali permaneci por dois dias em duas vezes e, em diferentes datas.Surpreendi-me com tudo o que ouvi, que vi e do que pesquisei, pois que a este lugar com 14 km2 foi dado o nome de Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.

Fiume11.png Como disse, Fiume, foi uma cidade-estado da história contemporânea, entre 1920 e 1924, na actual cidade de Rijeka, na Croácia. Este Fiume Lodge e game farm, mantêm sua excêntrica soberania ostentando a bandeira da Croácia de forma simbólica.

Com metade da área daquela ex-parcela europeia tem (ou tinha) Jorn Gresssmann como zelador-mor de uns quantos habitantes khoisan residentes e uns quantos turistas ocasionais que por ali vão chegando. Os demais habitantes são bichos tais como girafas, elands, kudus, orixes, zebras, springboks, hartebests, e avestruzes entre outros, de mais pequeno porte.

fiume0.jpgTive de abrir três portões até chegar ao conjunto de lapas, chalés bem ornamentados e cobertos a capim do okavango formando um complexo de apartamentos em circulo e, um outro conjunto formando a recepção, bar, restaurante e cozinha. Nas duas entradas controladas por vídeo, existem duas fiadas de arame sendo a interior alta e com fios ligados a corrente continua para evitar fugas de olongues por via de salto ou encosto.

 
Entre o bloco de serviços e os chalés lapa em forma oval está disposto um agradável jardim com grama e plantas exóticas ornamentais enfeitando o conjunto com piscina, d´jango de descanso, lugar de braseiro e árvores de porte bonito autotnes. Em realidade é um oásis no meio de um nada, oceano verde de espinheiras.

FK5.jpgAté este núcleo habitacional, tive o cuidado de ir a passo de morrocoi tendo-me desviado de um cágado e um sengue (lagarto grande) passeando ao longo da picada. A receber-nos lá estava Jorn desfiando seu austero calendário; deu-nos escassos minutos para inicio do jantar que impreterivelmente era servido às sete horas, inicio da noite, e dali deliciando-nos entre outros acepipes, carne de gnu e de eland fechando com creme de manteiga escocesa, assim ao jeito de baba de camelo. E. dali podíamos ver através das janelas de vidro e rede anti-mosquito os muitos kudus que ali vinham beber entre avestruzes e springbokes como se sentissem obrigação de se exibirem a nós, antes da noite. Foi mais um fim de dia com surpresa inesperada, um “enjoy you stay” no requinte da sempre agradável Windhoek lager.

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:16
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Domingo, 27 de Agosto de 2023
VIAGENS . 64

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3474 – 27.08.2023 - Foi no ano de 1999

- Escritos boligrafados da minha mochila - dois himbas fotografavam a morte da minha infância…

Porkunene.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

ARAUJO216.jpg Ainda nas margens do rio Cunene, para lá da picada pedregosa, sentados em penedo elevado, com uma expressão de circunstância infantil sorriam com naturalidade ao meu espanto. Eu, um turista t´chindere, nas terras do fim-do-mundo a ser fotografado por pastores hereros de tanga. Aqui há coisa! Estou a ficar chanfrado! Passado dos carretos! Háka. Himbas - cafecos do kunene.

Pressentia-se vagamente o aparecer da tarde aonde a calma esmorecia um pouco a sombra dos troncos retorcidos de embondeiro alongando-se pela terra gretada e poeirenta. No horizonte desenhavam-se seios erectos reluzindo fogo entre pedregulhos de onde nasciam cactos em forma de candelabros. O silêncio da planura ondulava uma aprovada expectativa impassível, estirando labaredas num céu incendiando o horizonte.

edu59.jpgAs narinas arfavam nervosamente o suave cheiro de capim que de pontas viradas ao céu davam término em abrupta falésia; lá em baixo, na margem fustigada pelas ondas de águas rápidas farfalhavam mornices de verão pisoteadas por “nemas” chifrudas em movimentos leves, até graciosos. Era o rio Cunene.

Naquele instante e depois – em todos os instantes, sentia que me afastavam de tudo de quanto amava, e chorei disfarçadamente como se nunca mais ali voltasse. Dissimuladamente, limpava-me assim, como se finge limpar o suor.  De novo e agora, a nostalgia das terras do fim-do-mundo transcenderam no tempo fantasmagórico longos bocejos feitos admiração.

A partir dali iria passar por Fiume – um pedaço de estado livre, depois o “Epupa Falls do Okavango em Sepupa)” já no Botswana mais o Delta do Okavango. O rio Cubango ou Okavango que em seu curso, passou a a desbravar aventuras ora seguindo mansamente, ora rápidamente entre desenhadas figuras em  rochas com espuma branca e, mais longe não pude ir, nem voar

ÁFRICA18.jpgFaltava um todo o terreno ou um ultra leve para prosseguir a ver as quedas feitas rápidos,  deslumbrantes deste rio que vai para o Delta. Demasiado descuidado no agora, tempo de regenerações, usando pensos higiénicos fosforescentes dando bufadelas coloridas como os carroceiros boéres mais a sul; dos hábitos quase secretos que só eu mesmo abençoo entre as porcarias pálidas que se evaporam nas notícias mentirosas poluidoras  do Mundo.

Não se deve abandonar o nada de que se goste, e por amor amarrámo-nos às coisas da natureza como se ama alguém que nos é querido. Naquela universidade ou diversidade, aprendemos que as plantas comunicam entre si, por isso o elefante tem de andar muito, e contra o vento para que a coisa apetitosa, deixe de o ser.

epupa01.jpg Eu explico: - As plantas saborosas ao elefante são devastadas até ao extermínio e estas por feromonas lançadas ao vento, avisam as demais da mesma espécie que rápidamente passam a ter um sabor desagradável, expelindo ou misturando na sua seiva fluidos repugnantes ao sabor; o paquiderme “Jamba” predador, tem assim de contornar a selva ocupando um grande espaço da mata. E. fiquei a saber da importância que tem o salalé na limpeza da floresta eliminando troncos e folhas em decomposição, criando nutrientes para outras espécies se desenvolverem com mais pujança.

(Continua)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:07
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Sábado, 26 de Agosto de 2023
VIAGENS . 63

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3473 – 26.08.2023 - Foi no ano de 1999

- Escritos boligrafados da minha mochila - Aquele Bóere* das batatas do Vaal deveria ter mesmo olhos nos pés!

Por baú de coiro1.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

BATATAS4.jpg Aqui há diamantes? Perguntei à suricata empinada numa pequena elevação que nada me disse, pudera! Sem se importar com essa brilhante pedra que ofusca gentes, fugiu para um dos muitos buracos ali espalhados; terra fresca denotando trabalho árduo para assim se refrescar daquele calor tórrido; calor que chega a ir a mais de cinquenta graus no pico do verão. Coisa para se dizer, Pópilas!

Pois aqui, damo-nos conta de que afinal, sempre há povos a descrever teorias ou filosofias novas clareadas por meio de metáforas que a natureza lhes ensina. Aquela de os pés dos bóeres têm olhos vuzumunava minha kuca com lantejoulas rupestes. Nestes espaços abertos dissociamo-nos dos conflitos sociais; das metáforas criadas pelo homem a justificar coisas sempre compreendidas numa forma de agradar.

BATATAS6.jpg As artes criativas dos homens continuarão a florescer com brilhantes expressões saídas da imaginação; novos níveis de conflito ou sedução e, porque a arte por vezes é a mentira a nos mostrar a verdade. Ué… Lembrei-me do professor Souares, um espiritualista com manias de mwata a enfeitar minha testa com unguentos de salsaparrilha e xixi de guaxinim fedorento, tentando resolver meus problemas de mau-olhado.

Este eterno conflito foi-nos legado pela inteligência que tende a evoluir no tumulto com velhas ou novas criticas - velhas teses ou teorias diferentes deste mwata Kimbanda da mututa que me quer desfrisar uns kumbús como assim, na saúde, na doença e o escambau… Um teste de vida de tendência evolutiva legada por Deus, porque pensar o contrário disto, será decerto uma imperdoável heresia. Nos vínculos efectivos do antes, agora, depois e, enquanto gente, vamos rever humanidades antigas de quando passamos de animais quadrupedes a pessoas com mais de 600 centímetros cúbicos de capacidade craniana. Se agora temos 1.500 centímetros cúbicos de capacidade, tudo leva em crer que no futuro, nossas cabeças serão tão grandes que só se nascera de operação cesária.

BATATAS5.jpg Este problema sempre presente e cada vez mais remanescente, não reside na natureza nem na existência de Deus mas, nas origens biológicas que pela mente cataloga o auge evolutivo na biosfera. Poderá dizer-se nesta pequena imagem de vida real que cada homem está por assim dizer num estreito nicho como numa burocracia de curral. A parede deste nicho esmaga-nos individualmente a personalidade levando-nos a não poder extravasar nossa euforia como se fossemos bois confinados só a mugir até serem defuntados com um urro levado na ponta dum facão. Por ali, entre os khoisans, busquimanos, que se saiba, nunca andou  sequer um profeta escrevendo na areia qualquer mandamento…

As nossas atitudes em relação às coisas, reflectem critérios de valor fundamentais tornando a relação homem-coisa em algo cada vez mais transitório. Se eu fosse professor catedrático teria de vasculhar os termos para não falar tão fora dos parâmetros convencionais. A ideia de usar um produto-coisa uma única vez ou durante um curto espaço de tempo, substitui-lo ou deitá-lo ao lixo, contraria a sociedade ou os indivíduos com uma herança de pobreza.

batatas8.jpg As gentes do meu tempo, septuagenárias, que nasceram antes da invenção do plástico e do aparecimento do transistor, muito antes de haver computadores e inteligência artificial e ajuda dos algoritmos, não estão tão habituadas a produtos de utilizar e deitar fora; até conservam seus casamentos para lá dos cinquenta ou mais anos; preferem reciclar a vontade de fazer querer, em detrimento do só querer. Hodiernamente já nem vou a casamentos para não me sentir defraudado com a curta duração do umbigamento; quando muito, mando um pouco do meu laço de solidariedade com umas escassas centenas de kumbú para não o ser ovelha ranhosa na família… 

Comecei esta em querer falar no homem das batatas da África do Sul mas tudo escorregou na ladeira mais fácil a fim de não perturbar as mentes, pois sempre ouvi dizer que a fé move montanhas. E, num lugar ermo como este do Calahári, aonde o estio é brutal, um homem semeou batatas no deserto e, porque acreditou em Seu Senhor, foi abençoado com toneladas de tubérculos. Contaram-me, vi até um filme que mostrava aquela arides. Ao seu redor havia descrença e a surpresa apanhou-os de boca aberta; Também eu  fiquei confuso vendo tanta batata saída da terra. Terra que, com  vento, só leventava pó. Este bóere do Vaal devia ter mesmo, olhos nos pés!

khoisan04.jpg Bibliorafia: Bóere: Na África do Sul, os bôeres (africânderes) foram a base social principal do regime do apartheid, que durante muitas décadas vingou na África do Sul. Ao mesmo tempo, foram o grupo chave para o desenvolvimento económico da África do Sul e a posição de vantagem deste país na economia mundial… (Dados da Wikipédia…)

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:34
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2023
VIAGENS . 62

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3472 – 25.08.2023

- Escritos boligrafados da minha mochila - Foi no ano de 1999

Por vazio1.JPGT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

jindungo4.jpg Os conhecimentos milenares dos Khoisans, estão sendo estudados ao pormenor em algumas universidades da África do Sul por forma a conhecerem melhor sua tradição de estórias verbais com lendas e, dando a estes benefícios na forma sustentável sem os viciar. O Xhoba cacto inibidor do apetite vai através de convénio governamental contribuir para lhes criar hábitos de sedentarismo.

Labotórios, por todo o mundo, estão aprofundando formas de por via de cremes e milongos, colmatar a crise crescente de obesidade entre os cidadãos e, também para de certa forma, anular subtâncias provocadoras de adiposidades. Desconheço se os exploradores Tugas de outros tempos, davam importância a alguns factores relecionados com este povo bosquímano; se o fizeram ficaram relegados para segundas núpcias de estudo.

swakop5.jpg É provavel que estejam guardados em cadernos coloniais po via das explorações de Serpa Pinto (entre outros), pois que este recebeu a missão de estudar no Alto Chire a construção de uma linha de caminho de ferro que assegurasse a ligação do lago Niassa (Moçambique) com o mar. Nesse então, a coluna expedicionária era apoiado por uma forte coluna militar, com a finalidade de mais tarde se ligar no Baixo Catanga a uma outra coluna portuguesa ida do Bié, sob o comando de Paiva Couceiro.

Portugal deu início a várias acções de ocupação: entre 1887 e 1890; Artur de Paiva ocupou o Bié e Paiva Couceiro foi enviado para o Barotze com numerosos sobas prestando vassalagem a Portugal. Tendo isto em vista, os ingleses começaram a aliciar os chefes indígenas das regiões visadas, incluindo aqueles que já tinham prestado vassalagem a Portugal como os Macololos e os Machonas e até o célebre régulo de Gaza, Gungunhana.

cacto xoba1.jpg O envio de tropas e de funcionários para as colónias de Angola e Moçambique, para todos os lugares onde se fazia sentir a sua falta era, porém, virtualmente impossível para Portugal. Por outro lado, o acordado na Conferência de Berlim dizia respeito fundamentalmente aos territórios junto á costa, já que o “hinterland” africano era muito mal conhecido. Daí as numerosas expedições organizadas de reconhecimento por parte de Portugal, Bélgica, França e Inglaterra no intuito de a estes, lhes  ser reconhecida a soberania.

Os resultados da Conferência de Berlim, despertaram Portugal para a realidade. Se bem que o esforço estratégico tivesse sido orientado para África após a perda do Brasil, pouco se tinha feito por via da instabilidade na vida político-social da Metrópole, M´Puto e das extensas vulnerabilidades existentes. Aqui, no Karoo, na Ovobolândia, no Okavango e Kalahári de África, apaziguo rijezas adversas, relembrando a singularidade com sonhos do mundo.

berlim1.jpgNão existe ninguém que encontrando um espinho em seu pé não o retire após as primeiras dores; um amigo próximo disse-me que os pés dos bóeres têm olhos. Só entendi essa fala quando observei in situ um farmeiro de kimberley a andar de sandálias de pano colorido no meio do capim repleto de aranhas, centopeias, cobras e um sem fim de outros bichos rastejantes sem contar com os muitos picos espalhados a esmo pela terra barrenta.

Percorrendo o mato do Karoo africano, milhares de acácias com espinheiras do tamanho dum lápis, posso ver ao longe, morros suaves de um e outro lado dos rios Orange e Vaal. Nestas condições de apaziguar rijezas adversas do mundo, relembro a singularidade ainda não totalmente definida, fazendo-me num seixo redondo do Vaal. Seixo embrutecido que rebola no tempo só quando levado pela enxurrada desta mulola aonde me situo. Aqui há diamantes, dizem!

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:35
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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2023
VIAGENS . 61

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3471 – 23.08.2023

- Escritos Boligrafados da minha mochila - Foi no ano de 1999

Por koisan7.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

khoisan001.jpg Um amigo receitou-me pimenta Caiena para controlar a pressão arterial – passeava então o esqueleto no reino bushmen. Estando eu no Reino Xhoba, reino sem rei com cerca de 100.000 súbditos, pertença de vários países de África, não posso deixar de falar deles. Soube porque li em algum lugar que o anterior presidente da África do Sul, Nelson Mandela atribui a estes um território de quarenta mil hectares.

Ora se um hectare tem dez mil metros quadrados, quatrocentos ha darão 400 Km quadrados. Se para aí transplantarem o cacto Xhoba, vai dar muito cacto para amaciar barrigas inchadas por esse mundo. A maioria do povo bushmen também designado de khoisan, continua a viver em casas cobertas a capim em pequenos aglomerados, por vezes a centenas de quilómetros de distância da cidade mais próxima.

Estas palhotas são circulares tendo a altura de uma pessoa no seu centro. Para sua execução juntam uma boa quantidade de paus direitos que depois são curvados e enterrados no solo pelas extremidades. Estes são amarrados ao centro com mateba, uma casca retirada de uma árvore que entrelaçada faz de corda. Com outras varas mais finas e longas formam uns arcos progressivamente maiores à medida que são postos do centro da cobertura para o solo.

Leão5.jpg Estes paus tipo verguinhas mais finas, são amarrados aos outros mais grossos que estão na vertical tipo meridianos. E. porue é necessária uma prta de entrada, deixam um pequeno rectângulo por forma a permitir a entrada e saída de uma pessoa.

Os seus instrumentos são bem escassos pois com muita frequência, mudam de sítio por via de seguir a caça, seu sustento. Seu património pode bem ser transportado em uma mochila. Seu instrumento mais precioso será uma  lança com ponta de ferro como nossos primitivos ascendentes o faziam. Envenenam-nas com banha de um verme que apanham ainda em estado de casulo.

Chegam a matar girafas com o uso de sua astucia e modo felino de andar na mata, pé ante pé e sempre nas mesmas pegadas, sem fazer estalar qualquer tronco seco. Como disse, usam lanças e arcos de flexas, transportando mantas para suportarem o frio das noites que chega a graus negativos. Seus pratos são feitos de aboboras e os copos de massala ou maboque.

busq2.jpg São óptimos pisteiros e conhecedores de raízes cheias de água que espremidas são usadas directamente do produtor ao consumidor ou para vasilhas feitas de ovos de avestruz ou cabaças. As autoridades estão dando alguns apoios por meio de lhes facilitar a fixação colocando-os em sítios estratégicos com poços de água alimentados por energia solar!

Creio também que lhes fornecem mantas e facilidades de transporte para levar seus frutos a postos de venda na intenção de os tornarem mais “felizes” e com uma vida mais adequada aos dias que correm.  Fazem artesanato a partir de espinhos de porco, ovos de avestruz, cascas de massala e lindos colares de missangas com frutos seos do mato. Usam uma quinda ou balaio maleável aonde colocam seus parcos pertences.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 21:28
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2023
VIAGENS . 60

NAS FRINCHAS DO TEMPO – DO KUNENE na terra do NADA

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3470 – 21.08.2023

- Boligrafando MISSOSSOS de OSHAKATI do KUNENE, mais a norte

- Foi no ano de 1999

Por jacaré1.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

jacaré.jpg NO KUNENE, Aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado em Ondjiva (antiga Pereira d´Deça) no lado de Angola!... Rodrigues, seu primeiro dono, deu-lhe o nome de SUNDIAMENO. Isto, quase-quase é um  missosso, da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundo e ovibundo. Óscar Ribas, um escritor cego que tive o prazer de conhecer na Luua, foi o seu criador.

No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja.

ondjiva3.jpg Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha.

Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. – Com a boca! Respondeu o pivete. Pintado de coisa ruim consegui domesticar meu frenesim raivoso, e continuei: - Sim! Mas tem nome, não tem? – Chama-se de Sundiameno. Disse! Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! A gente lhe desconfia, acrescentou.

 – Nem nele, nem no pai dele! Concluiu. Esta conversa tola seguia um rumo desclassificado e, foi neste então que vi sentado num banco de pau feito e atado com matebas, um mais-velho de barbas credíveis e brancas, também chambeta de condição. Dirigi-me a ele e entabulei uma conversa séria, falamos do rio Kunene e de seus mistérios.

cunene01.jpg Foi este mais-velho kota, já século, que me descreveu alguns mistérios e, que passo a referir: - Olha mwadié (branco) este rio tem muito cazumbi e muito feijão branco. Um dia ajudei um gweta, t´chindele Rodrigues, branco assim como tu, que domesticou desde criança, um jacaré a apanhar diamantes para ele. Saiu daqui muito de rico! Afirmou isto e, em seguida, apontando para suas muletas de fibra sintética disse:

-Foi ele que mas ofereceu! No lugar aonde o rio se esconde, fizemos acampamento por muitos anos até que chegou a guerra da libertação e, ele seguiu com a sua gente (refugiados / retornados). Este segredo, eu conto a toda a gente! Conclui na sua sabedoria filosófica de cat´chipemba com bolunga Lubanguista. Por ali passaram gado, camiões e máquinas amarelas de fazer estradas. Abriram umas picadas e depois seguiram para Walvis Bay e Swakopmund da Namíbia. O mistério daquele jacaré estava quase desvendado por mim, mas, na dúvida sobrante, perguntei: - Então, este jacaré kianda, apanhava os feijões brilhantes? Talqualmente! Respondeu o kota num claríssimo português com pronúncia do norte do M´puto. E, continuou: - Pois, fui eu mesmo que fiquei com estas muletas e esse jacaré Sundiameno.

ondjiva2.jpg O mundo é por demais misterioso! Nunca que eu ia acreditar nisto se não visse! O mais velho de nome Oshakati Primeiro, ainda me disse outra coisa em que não acreditei (juro mesmo!): - Sabes que mais, disse ele. Esse jacaré toca guitarra! Acompanhava muitas vezes seu antigo dono a cantar fados duma tal de Amália, uma sua prima muito conhecida lá do M´puto! Isto era demasiado para a minha camioneta; meti-me no four-bay-four e segui para Ot´xivarongo. Conversando com um outro velho amigo de Oshakati Primeiro, piscólogo do Kalahári de nome Ot´xivarongo de Tuji, disse-me já ser conhecedor desta estória e, surpresa das surpresas, aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado! Juro que tudo isto me transcende! Agora que contei, está contabilizado…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:24
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Domingo, 20 de Agosto de 2023
VIAGENS . 59

NAS FRINCHAS DO TEMPO – OTJIKOTO LAKE na terra do NADA

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3469 – 18.08.2023

- Boligrafando estórias de OTJIKOTO, perto do ETOSHA PAN - Foi no ano de 1999

Por dy15.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

otjikoto6.jpgOtjikoto é um lugar aonde as musas lambem rochas - A poucos quilómetros a Norte de Tsumeb, na Namíbia, encontrei o angolano M´c Giver, zelador do buraco de sonho Otjikoto e tocador de baladas enlatadas, também anestesiadas de bolungas extracurriculares. Foi um fortuito encontro de amizade desértica. M´c Giver, tinha uns olhos visgosos tocando com gula a vida de simpatia numa velha viola feita em lata de azeite galo.

Aquele artefacto à qual chamou de “viola galo cantou” na qual fez aplicações com madeiras de cacto e buracos encantadores de assobios espaciais, havia sim, sonoridades extra particulares. Tanto assim que que ele, o M´c Giver teima em dizer terem sido trazidos do Kuito de Angola pois que, até exalavam cheiros de pólvora duma guerra que se extinguiu demasiado catingada É uma coisa assim nunca vista. Esta tecnologia de ponta deixou-me bem embalado em nostalgia na recordação do “Corimba show da Luua” – Um tocador ex-militar acantonado na vida …

OTJIKOTO5.jpg Os turistas, saídos do Etoscha pela estrada longa B1, porque eram escassos, requeriam atenção desdobrada pelo tocador de baladas. Ali, num lugar distante de tudo, na terra do nada, um poço com água de fundura desconhecida, sobe e desce ao sabor dos quadrantes da lua, zuni uma pedra nas suas águas e por três vezes chispou na toalha lustrosa - xim-trás-pum. Estava parcialmente satisfeito o desejo do encontro com aquele, um especial buraco num vulgar dia e invulgar lugar a caminho e regresso do Etosha Pan. Pude averiguar ser o "Otjikoto", derivado da língua Otjiherero que significa "um buraco profundo". Os Khoisan chamavam o lago de "gaisis", que significa muito feio, porque tinham medo de pura cagufa desse grande buraco.

O Lago Otjikoto desempenhou um papel importante como posto comercial antes da chegada dos primeiros europeus tendo sido uma grande caverna de dolomita na área de Karstveld. O lago ficou exposto quando a cúpula da caverna, que agora fica no fundo do lago, desabou (uma teoria). Sua profundidade varia entre 62 mts nas laterais a 71 mts ao centro, embora haja locais onde a profundidade medida ultrapassa os 100 mts; até hoje, ninguém viu sua parte mais profunda.

IMG_20170721_112726.jpgO diâmetro é de aproximadamente 102 mts, com a superfície cobrindo 7 075 mts quqdados. O lago tem o formato de uma cabaça e, o que o visitante vê, é a cauda da cabaça. Até agora o que se sabe sobre o Lago Otjikoto, baseia-se no que foi retirado de suas águas - uma conquista de mergulhadores profissionais que, em seu tempo livre e às próprias custas, passaram inúmeras horas debaixo d'água para determinar o tamanho exacto do lago e descobrir os demais mistérios que ele contém.

OTJIKOTO1.jpgOs mergulhadores estão actualmente com equipamentos modernos, ocupados na pesquisa do lago mistério e, suas cavernas subaquáticas, muitas das quais ainda são desconhecidas. O ambientalista Siegfried Agenbag compilou dados e factos sobre sua história, fauna, flora e sua infraestrutura técnica contemporânea nas proximidades, em análise aos rumores e segredos sobre aquelas águas escuras e sem fundo. Dizem até que, é sim um canal subterrâneo que liga ao mar por via de as águas subirem e descerem como se o fora  maré habitual nos mares, por influencia da lua…

maun8.jpgDespedimo-nos assim do M´c Giver angolano (eramos cinco) das areias e pedras de Otjicoto, do camaleão pré-histórico com picos ferozes e do louva-a-deus escandalosamente verde com a balada seguinte:

Num deserto cheio de vento - Espinheiras resistindo a tudo - A areia longa e solta na limpeza do ar - Da língua envolta em secura; …Na cabeça muitos sonhos - O tempo sem ida nem chegada - Moldura de gente, gente feita zebra - Fluidez imperfeita de uma vida…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:49
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2023
VIAGENS . 57

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”

- "DOS TEMPOS DE MU-UKULU*“ - Crónica 3467 – 17.08.2023

- Boligrafando estórias em NAMUTONI do Etoscha

–Ondundozonanandana -  Foi no ano de 1999

Por:khoisan01.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

khoisan001.jpg Para terminar a breve descrição da relação entre Namutoni do Etosha Pan na Damaralândia (hoje Ovambolândia, na Namíbia actual) e, a Batalha de Naulila no sul de Angola, acrescenta-se que este forte, também serviu de campo de prisioneiros resultantes da Batalha (Desastre) de Naulila entre os anos de 1914 e 1915.

O incidente de Naulila, influenciou profundamente a opinião pública de Portugal. Os defensores da entrada de Portugal na guerra contra a Alemanha ganharam esta causa por via deste acontecimento na África colonial. Naulila foi o grande catalisador do processo que levaria Portugal a entrar na Grande Guerra a 9 de Março de 1916.

Namotoni5.jpg As tropas metropolitanas (M´Puto), mal preparadas para a secura da savana, foram obrigadas a fazer centenas de quilómetros em marcha forçada em direcção à fronteira da Damaralãndia no rio Cubango, atravessando um território cada vez mais inóspito e habitado por povos crescentemente hostis.

Esta falta de preparação para repelir o ataque e, a falta de resistência das forças portuguesas em Cuangar e nos postos ao longo do rio Cubango foi explicada numa das sessões secretas que a Câmara dos Deputados do Congresso da República dedicou em 1917 à participação portuguesa na Grande Guerra.

Nessa sessão, o deputado Brito Camacho, fundador do Partido Unionista, afirmou que a chacina de Cuangar fora motivada por não ter o respectivo comandante recebido notícia do incidente de Naulila, e ter confiado numa informação de Portugal, expedida directamente de Lisboa, dizendo-lhe que estávamos em estado de neutralidade.

khoisan04.jpg A colonia de Angola levou ao fecho da única fronteira ainda aberta da colónia alemã, já que pelo sul e pelo leste as forças britânicas da União Sul-Africana já a sitiavam desde a declaração de guerra britânica de 5 de Julho de 1914 e, por mar, a poderosa marinha britânica impunha um apertado bloqueio.

Com as comunicações cortadas e, sem rotas de reabastecimento, em Julho de 1915 a Damaralândia rendeu-se às forças da União Sul-Africana sob o domínio Britânico. O incidente de Naulila, de que resultou o corte do reabastecimento a partir de Angola, foi factor determinante na sua rendição. Em verdade, o Desastre de Naulila acabou por determinar a perda da colónia alemã, passando a ser um protectorado Sul-Africano.

É curioso recordar isto fazendo uma comparação com a recente independência de Angola, e as lutas que se travaram a sul entre a UNITA com a ajuda Sul-Africana e o MPLA naquela que foi a maior batalha em território Africano - a Batalha do Cuíto, que forçou à governação unilateral do território angolano pelo movimento MPLA ajudados pela Rússia, Cuba e Portugal-C.R. (Concelho da Revolução). E, tudo isso, resultou na independência da Namíbia com a entrega incondicional à SWAPO de San Nujoma em fins do século XX…

Notas: * MU-UKULU - de antigamente…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:34
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VIAGENS . 58

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3468 – 18.08.2023

- Boligrafando estórias de RUACANÁ FALLS a Waterberg Prateou National Park. – Ondundozonanandana -  Foi no ano de 1999

Porkhoisan01.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

khoisan00.jpg Das quedas do Ruacaná, fronteira de Angola com a Namíbia, só vimos o penedo escuro na forma de falésia escorrendo pequenos fios de água envolvendo árvores retorcidas, estendendo aqui e além suas raízes; ao nível da margem aonde nós estávamos estendia-se um lago manso irregular entre tufos de vegetação. Não muito longe do gado beberricando aproveitamos refrescarmo-nos nas águas do Cunene, o mesmo que há muitos milénios desaguava no agora seco lago do Etoscha.

Foi no regresso que tivemos a feliz sorte de ver uma mulher Himba, toda pintada de ocre vermelho com tiras de couro cruzando o peito desnudo e seus carrapitos de cabelo enlameado de barro. Foi um contacto fugidio á beira da picada que liga à povoação Ruacaná mas, no registo das retinas de todos nós ficou aquela figura de gente agora quase em extinção.

otchicoto1.jpg Foi neste percurso e a caminho de Ondangwa que tentamos abraçar um embondeiro majestoso mas, os quatro da tribo não conseguiram chegar à metade. A t´xipala amarelecida relembra a euforia daqueles dias mas que agora estão confinadas à caixa de sapatos do mukifo do soba; O mofo foi lá deixado para preservar o espírito das terras do Fim-do-Mundo junto às petrificadas árvores das terras de Kaokoland, Namíbia Twifelfontein. Rumando a norte para o Okavango, seguimos a direcção de Grootfontein, uma singela cidade no meio da grande chana de África e após o almoço, na revisão de mapas, julgamos de interesse ficar por ali a fim de conhecermos o Waterberg Plateou National Park.

E, porque gostamos do lugar, acabamos por alugar um chalé bem junto à falésia colorida do Plateou entre acácias e, porque não podíamos percorrer com o nosso 4x4 o planalto, inscrevemo-nos no safari da reserva; por lá andamos toda a manha desfrutando paisagens alargadas. O Cudu, Olongue, do buraco de observação, deu um pulo descabido ao clique da máquina fotográfica e desenfreou-se entre capim e pedras.

khoisan03.jpg Já no Camp, o brai de carne estava melhor que nunca e, após tão suculento repasto veio a soneca de passar pelas brasas o tal cochilo. A tarde daquele dia, terminou com uma ascensão entre rochas de escorrida pintura natural em jeito de arco-íris e, seguindo a pista, fomos e viemos já ao cair da noite, de papo cheio de vistas soberbas. A contornar o chalé amiudadamente recebíamos a visita de saguins, bâmbis, capotas e um sem fim de pássaros, bicos de lacre, viuvinhas, celestes e o sempre presente monteiro´s ornebil com seu grande bico amarelo e, adunco.

O Park Nacional de Waterberg com sua bonita meseta, é um espaço protegido, situado bem no centro da Namíbia, ficando a 69 Km a este da povoação de Waterburg. Destaca-se pela sua elevação, bem acima da planície do Kalahári. Com os 405 Km quadrados de terreno circundante, foram declarados Reserva Natural no ano de 1972.

WATER1.jpg A meseta é em grande parte inacessível, pelo que, na década de 1970 várias das espécies em perigo de Namíbia, foram para ali trasladadas para assim as proteger de depredadores da caça furtiva. Em 1904, nas encostas da meseta, teve lugar a batalha de Waterberg, um marco de genocídio dos povos herero e namas (namaquas), perpetrado pelos alemães entre 1904 y 1907. A batalha saldou-se com a derrota dos hereros, muitos dos quais morreram no deserto. Esta zona faz ainda parte da Grande Namaqualândia, escassamente povoada pelo povo khoisan (bosquímanos) que tradicionalmente ali habita - região do semiárido chamado de Succulent Karoo…

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:21
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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2023
VIAGENS . 56
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”
- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3466 – 16.08.2023
- Boligrafando estórias em NAMUTONI do Etoscha
–Ondundozonanandana - Foi no ano de 1999
Por:Namotoni01.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Namotoni03.jpg Não posso deixar de descrever sucintamente o forte Namutoni pois que faz parte do Park Etoscha, lugar aonde se bivacaram as tropas da Alemanha durante a segunda guerra mundial e que também teve uma forte acção durante as batalhas do sul de Angola quando da consolidação da fronteira com a Namíbia, do tempo em que para ali foram enviados muitos expedicionários portugueses. Teremos de recordar ao de leve esses tempos do início do século XIX, do que foi a batalha de Naulila e a leva de militares nesse então - Alguns, foram considerados, sim! Outros morreram desclassificados até ao tutano que virou cinza…

O Combate de Naulila, ou Desastre de Naulila, é a designação dada na historiografia portuguesa à batalha travada a 18 de Dezembro de 1914 em Naulila, sul de Angola, entre forças portuguesas e alemãs, inserido na Campanha alemã em Angola, da Primeira Guerra Mundial. O combate terminou com a derrota dos militares portugueses, com cerca de 70 mortos da parte portuguesa, entre oficiais e praças. As forças portuguesas foram então obrigadas a abandonar temporariamente o Cuamato e Humbe, territórios na fronteira entre a então colónia portuguesa de Angola e a colónia alemã do Sudoeste Africano.

Namotoni04.jpg Em consequência da perda de prestígio das forças portuguesas as populações de Huíla revoltaram-se contra a ocupação portuguesa. A crise instalada resolver-se-ia com o envio de uma força expedicionária por Portugal sob o comando do general Pereira d'Eça. A Grande Guerra, originou um conjunto de conflitos com raízes na corrida à ocupação da África que se seguiu à Conferência de Berlim de 1884-1885. Por via da entrada de novas potências coloniais em África, a obrigação de ocupação efectiva do território, colónia de Angola, levou às campanhas de pacificação, as quais se prolongaram por décadas.

Portugal assistiu com grande desconfiança e desagrado à ocupação de enormes extensões de território por outras potências dando origem ao conflito com o Império Britânico, que desembocou na ultimato britânico de 1890 em torno do Mapa Cor-de-Rosa, as Guerras Bóhers com o consequente avanço para norte dos bóhers sul-africanos e, por se tratar do surgimento de uma potência sem tradições coloniais em África, criando as colónias alemãs adjacentes – leia-se Namíbia.

Namotoni1.jpg A colónia do Sudoeste Africano Alemão a sul de Angola que impôs novas fronteiras, limitando as pretensões portuguesas naquelas regiões interferiu na missionação portuguesa com o aparecimento de missões protestantes suportadas por organizações alemãs. As razões para a desconfiança mútua que se sentia eram sérias: em causa estavam as fronteiras entre as colónias de Angola e do Sudoeste Africano Alemão (Damaralãndia). Um consenso alargado na classe política portuguesa sobre a necessidade de defender as colónias africanas, traduziu-se no envio, em Setembro de 1914, de forças expedicionárias para Angola.

Para Angola partiu um contingente de 1600 homens, comandado pelo tenente-coronel José Augusto Alves Roçadas, um militar africanista que entre 1904 e 1907 se distinguira no sul de Angola na campanha do Cuamato, uma longa e difícil campanha de pacificação contra os povos cuanhamas. Conhecedor daquele território, em 1914, regressou com a missão de guarnecer a região de fronteira com a colónia alemã da Damaralãndia, incumbido de evitar levantamentos indígenas e de proteger a fronteira.

naulila1.jpg As forças comandadas por Alves Roçadas desembarcaram em Moçâmedes a 27 de Setembro e a 1 de Outubro daquele ano. Em Novembro de 1914, já após os incidentes de Naulila e Cuangar, foram enviados mais 2800 homens para Angola e em Dezembro outros 4300 militares. Nos anos seguintes, o efectivo continuou a ser reforçado. Dos eventos anteriores que levaram ao confronto de Naulila iniciou-se a 18 de Outubro de 1914, quando um pelotão comandado pelo alferes Manuel Álvares Sereno, em patrulha junto à fronteira com a Damaralândia, um território integrado no Sudoeste Africano Alemão, encontrou a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila uma pequena força alemã, capitaneada pelo Dr. Hans Schultze-Jena, juiz e administrador do distrito de Outjo, que tinha entrado em Angola sem prévio aviso às autoridades portuguesas.

naulila3.jpgDe incidente em incidente, a indignação na colónia era enorme e os apelos à vingança sucederam-se. E, deu-se assim o ataque a Cuangar a 31 de Outubro de 1914. A primeira retaliação alemã surgiu logo a 31 de Outubro, quando uma força alemão, sob o comando do comissário de polícia Oswald Ostermann, do posto de polícia de Nkurenkuru, atacou Forte de Cuangar, um posto fronteiriço a leste de Naulila, destruindo o forte e matando, com recurso a metralhadoras, todo o pessoal que ali se encontrava e que não conseguiu fugir para o mato. Este incidente, que ficou conhecido como o "Massacre de Cuangar", marca o desencadear das hostilidades entre as forças portuguesas e alemãs ao longo da fronteira com a Damaralãndia, actual Ovambolândia e, tendo o forte de Namutoni como um lugar bivaque de base à retaguarda… Lugar que, por isso, requer um avivar da história Lusa-Tuga…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:03
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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