Domingo, 2 de Junho de 2024
VIAGENS . 173

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3584 – 02.06.2024

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

araujo158.jpg É tempo de voltarmos à Jamba e  esperar na mata, a morte do  Agostinho do Sputnik lá para o ano de 1979. Entretanto, um turista bazungo com passaporte de muzungo (branco) Tuga, disfarçado com colete de zuarte, um quiko besuntado de raspas de biltong, destroços de pão duro rusk, muitos bolsos, um canivete macgyver e um crachá da UNITA cozido no forro do colete percorria a tal Faixa de Caprivi.

Procurando-me envolto em sonho, também para que o desse e viesse, com um galo em cerâmica dado a mim, por mérito creio, Issoisso, dado a mim, pelo meu herói de nome Alcides Sakala – um notável da UNITA; assim e, muito bem seguro  com boas linhas,  cosido no forro deste traje de caçador de elefantes.

araujo159.jpg Só eu e José Pedro Cachiungo um dirigente do galo negro em funções em Lisboa, sabia chamar-se assim de “Xirikwata – o pássaro comedor de jndungo”… Mas, nem sei como, San Nujoma, o presidente da Swapo, vim a saber que também o soube mas, desmilinguiu-me bem à beira do Okavango – eram os Serviços de Inteligencia a funcionar - ainda bem que assim o foi!  Tinha a CIA a proteger-me...

Agora, com minha cuca pintalgada de velhice tipo mapa mundo, recordo se estava mesmomesmo pifado dos carretos, coisas reais dum passado acantonada no luco-fusco da vida e, como se o fora um espião de verdade, um tugangolano - aiué! E, no ano de 1978, aconteceu algo; os rodesianos fizeram um ataque ao campo de refugiados da ZAPU de Joshua N´Komo, em Boma, Sul de Luena, onde foram massacradas centena de pessoas.

araujo169.jpg Em um ataque ao Lubango no ano de 1979, por bombardeamento feito pelos sul-africanos, morrem 612 pessoas. Este foi também o ano do “massacre de Cassinga” quando militares sul-africanos atacam um campo de refugiados namibianos, chacinando 1.200 pessoasA morte de Agostinho Neto  sucedeu  nesse ano de 1979.

A morte de Agostinho Neto, acontecu em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, na Rússia. Seu corpo regressa embalsamado a Luanda. Nas exéquias fúnebres, em quase histeria colectiva as pessoas gritam “mataram nosso Netinho”. Referiam-se aos soviéticos, mas a verdade é que Neto sofria de incurável cancro de fígado por via de tanto “chivas regal” e caporroto de Catete – implodiu por dentro, simplesmente!…

araujo179.jpg Na presidência de Angola, sucede o eng.º José Eduardo dos Santos, nascido no musseque Sambizanga, de pai pedreiro e mãe doméstica, foi aluno do Liceu Salvador Correia de Sá. Formou-se em engenharia de petróleos em Baku, ex-URSS, sendo a princípio contestado pelos radicais do MPLA.

Contestado em Luanda, especialmente por ter decidido congelar todos os processos de condenações à morte; posteriormente aboliu a pena de morte em Angola. Sabe-se sim, por via de muitas denúncias que sofisticaram a forma de eliminar inimigos ou gente inconveniente com venenos de sofisticada elaboração entre outras formas dissimuladas… Entretanto a guerra continua com a UNITA já fixada na Jamba – Cuando / Cubango. Iremos para lá a seguir…

Ilustrações aleatórias de  Costa Araújo

Nota 1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes e, durante os longos anos da crise Angolana e, na diáspora de angolanos  espalhados pelo mundo.

Nota 2:  **Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:03
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
VIAGENS . 160

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA*“ - Crónica 3571 – 23.04.2024

 “DO  CUELEI ATÉ KAPRIVI Na Faixa de Kaprivi, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

jamba14.jpg Antes de tudo isto… Naqueles longínquos anos de entre sessenta e setenta do século passado, o XX, todo eu estava metido na Mata do Maiombe, tropeçando na força das circunstâncias e num entretanto que só durou quatro anos, a guerra foi um conjunto de acidentes suados a paludismo. De um para outro lado, subindo e descendo rios procurando rastos de turras, com o soba Mateus, também preto  já condecorado com ida grátis ao M´Puto….

Mateus, o soba e guia ocasional, à frente, ia barafustando com o ar, cortando capim à catanada, mastigando uma bolunga escura e pestilenta, pisando charcos infestados de sanguessugas, larvas com milhões de patas e escorpiões pretos e pré-históricos a fingir de lagostins. Buscando turras num secalhar perdido entre a bruma e o cacimbo, o gozo da liberdade, corria como se a vida fosse um jogo de poker…

unita1.jpgUm jogo de poker duma azarada toma de pastilhas vermelhas para anular maleitas com micróbios fosfóricos na única água estraganada. Com as costas das mãos afastávamos as bicharias visíveis e, em seguida engolíamos aquilo escorrendo da mão ou numa qualquer folha verde a jeito. Guardando soberania da pátria do M´Puto, camuflados ensopados até o tutano, assim seguíamos em fila de pirilau, duas granadas presas ao peito, uma G3 em riste e uma cartucheira repleta de balas para o que desse e, viesse procurando o MPLA.

Mas, agora é tempo de relembrar a formação em comunicação e técnicas de controlo aéreo de Abel Chivukuvuku com seus companheiros Aniceto Cavala e Jardo Muekalia na base secreta de Delta ou Ómega na Faixa de Kaprivi da actual Namíbia, antigo Sudoeste Africano. No Rundu, esses três jovens iriam receber formação em tráfego aéreo. Muito mais tarde, eu, o T´Chingange, viria a saber outros pequenos detalhes…

unita2.jpg Pisando os mesmos caminhos, vendo as mesmas acácias e aquele capim do Okavango com o qual se cobrem as casas dos kimbos e das cidades e, com João Miranda, um próspero comerciante do Mukwé, Andara, Nyondo e Divundu, pois por ali andei, na secreta “Missão Xirikwata” com as credenciais da UNITA escondidas no forro daqueles calções de zuarte, mais  um colete muito farto de bolsos para meter balas de matar jambas (elefantes) - tudo a fingir…  

Fazendo futurologia sem bola de cristal e auto-risco, com o conhecimento descomprometido de José Pedro Cachiungo representante do Movimento em Lisboa, assim ia fazendo turismo de guerra como se o fosse, um espião de craveira - uma suave adrenalina regada com Windhoek lager e empatia de toda a família Miranda, sempre à beira do Cubango, que aqui só conhecem por Okavango - vendo Angola, sua gente e gado pastando ao alcance de um grito.

jamba7.jpg Relendo o livro de Agualusa fica-se a saber que em Abril de 1977, fica concluída a formação  no Rundu na Faixa de Kaprivi; Chivukuvuku foi colocado no aeroporto da Mapunda  junto à fronteira com o Sudoeste Africano - o tráfico deste aeroporto era usado quase exclusivamente pelos aviões que vinham de Kinshasa e do Sudoeste Africano. 

Neste então, as insígnias da UNITA ainda mantinham as palavras de Socialismo, Negritude e Democracia.  Nos anos de reestruturação da UNITA, a principal base do movimento foi a base secreta Delta, do outro lado da fronteira, mais propriamente na Faixa de Kaprivi do Sudoeste Africano. Era necessário em primeiro lugar ter-se a suficiente eficácia na defesa do principal bivaque da UNITA, a Jamba, já em fase de construção…

maian6.jpg Nota1: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana…

Nota2: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e do livro de Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku de José Agualusa

(Continua…)

O Soba T´Chingange 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:22
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Domingo, 7 de Abril de 2024
VIAGENS . 155

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3566 – 07.04.2024

 “A 2ª MARCHA – DO  CUELEI ATÉ KAPRIVI” No Cuelei, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

herero4.jpg em Cuelei e, após o 28 de Agosto do ano de 1976, Jonas Savimbi compreendeu que a UNITA só se conseguiria reorganizar e fortalecer, a partir do apoio do governo sul-africano, o regime bóher  do  apartheid que governava a Namíbia, nesse então, um protectorado saído a partir da ausência dos alemães, por sua derrota na Segunda Guerra Mundial, o chamado Sudoeste Africano

Assim e depois de acalorados debates no bivaque provisório de Cuelei pelos dirigentes disponíveis, os mais destacados da UNITA, decidiu-se pedir apoio às autoridades sul-africanas. Numa primeira decisão, Samuel Chiwale, foi o escolhido a chefiar um pequeno grupo de guerrilheiros na missão de cruzar a fronteira da Ovoboland do  Sudoeste  Africano - Namíbia, na designada Faixa de Kaprivi a fim de conversar com os chefes militares bóhers.

herero5.jpg Este projecto, rápidamente foi suplantado por outro perante a evidência de que só o próprio Jonas Savimbi conseguiria convencer os sul-africanos. Os oficiais do Movimento queriam em realidade poupar seu Mwata em mais um novo esforço, uma nova marcha de 1200 quilómetros até aos limites do território angolano, fronteira nas terras do fim do mundo. Lugares distantes entre si, algures entre a cidade do Rundu  e o rio Cuando, bem no extremo Sul, o canto que liga Angola com a Zâmbia e a Faixa de Kaprivi, santuário de elefantes. Relembrar aqui a frase de “Andaram e andaram e andaram” proferida por Philip du Preez, o oficial superior sul-africano que estabeleceu o contacto com esta delegação da UNITA.

Posto isto, àquele pequeno grupo inicial de Samuel Chiwale, grupo defensor de flancos, juntava-se-lhes a Delegação constituída por Savimbi, N´zau Puna, Jaka Jamba e António Dembo. Haveria antes de demais diligências, enviar alguém com a missão de alertar a policia de fronteira da chegada desta delegação.

cuelei3.jpg Para o efeito foram enviados os ainda jovens guerrilheiros saídos da Missão do DondiEpalanga Chivukuvuku  e Vituse. Estes dois jovens, penosamente chegaram à região do Rundu através de anharas secas com milhares de espinheiras; lugares por onde a delegação de Savimbi e seus notáveis companheiros também tiveram de passar até  alcançar o lugar aprazado…

Ali pararam algures num vasto capinzal, numa anhara não distante de Andara do Divundu, lugar aonde o rio Cubango passa a ter o nome de Okavango. Lugar cercano, aonde o rio atravessa a Faixa de Kaprivi, que se espraia em lagoas repletas de cacussos e hipopótamos e, cujo curso viram rápidos antes de chegar ao Botswana.

miran09.jpg Ao entardecer surgiu um helicóptero que os acolheu no capinzal raso; meia hora depois seriam largados em um outro terreno deserto junto a uma daquelas lagoas, não muito distante daqueles rápidos do Okavango, um lugar conhecido por Mahango… Muito mais tarde, fins do século, andei por ali fardado de caçador de elefantes.  A vida faz pouco das previsões e coloca palavras no lugar de silêncios.

Naquele, Epopa Falls do Okavango, sem presunção, era um desses lugares quem que o vento frio surge sem ser convidado. Ali, bem perto, ficava o Omega 3 - um antigo bivaque da UNITA. Enquanto observava os hipopótamos, pescando peixe tigre, pude ainda ver os telhados de capim preto por entre amarulas e embondeiros majestosos; lembro-me de sonhar - da muita saca-saca e mopane com pirão e jindungo, que por ali, não comi.

miran01.jpeg Nota: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange e do livro de Abel Chivukuvuku de José Agualusa…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:27
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Sexta-feira, 5 de Abril de 2024
VIAGENS . 154

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3565 – 05.04.2024

 “APÓS A LONGA MARCHA ”No Cuelei, com Savimbi…

- Escritos boligrafados, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – O NIASSALÊS em Lagoa do M´Puto

guerri4.jpg A UNITA, que no seu auge (ao final dos anos 1980) apresentou uma estrutura militar  composta de 65.000 soldados, incluindo 28.000 soldados regulares, foi um dos maiores movimentos políticos do continente africano… No primeiro trimestre de 1976, a UNITA foi obrigada a se retirar para zonas mais seguras, bivacando-se em Cuelei a 28 de Agosto desse mesmo ano - 1976.

Cuelei, nome que ficou na história de Angola, situa-se na província de Kuando-Kubango, lugar inóspito até aí e, aonde, com o apoio da África do Sul, a UNITA, iniciou sua reorganização. Em 1979, o movimento já se consolidara outra vez, estabelecendo uma sede permanente na região, a chamada República da Jamba –Terras Livres de Angola.

jamba10.jpg A UNITA, até aos anos 1980, expandiu seu controle territorial estabelecendo uma estrutura organizacional muito semelhante a de um Estado, dispondo de uma burocracia, exército convencional, e governo. Sua estrutura de liderança assemelhava-se à do próprio MPLA, consistindo de um Bureau Político e um Comité Central.

No fim dos anos de 1980, a população da Jamba era estimada entre 8.000 e 10.000 pessoas, e 80.000 a 100.000  pessoas no sistema de aldeias vinculadas ao movimento. Chegados aqui e, antes de seguir o rasto da UNITA depois da “Grande Marcha” até Cuelei, teremos de recordar aqui, que em 14 de Outubro de 1975 (um ano antes), os Sul-africanos iniciaram oficialmente a Operação Savana embora já estivessem ocupando esta região sul de Angola desde Agosto desse ano.

jamba01.jpg Um ex-agente da CIA posteriormente afirmaria: "houve uma estreita ligação entre a CIA e os sul-africanos"… Era forçoso não deixar avançar os comunistas em território angolano - África. Isto levou a África do Sul do apartheid que apoiava a UNITA, a  invadir Angola a 9 de Agosto de 1975.

Os cubanos, a pedido de Otelo Saraiva de Carvalho com anuência do Presidente Costa Gomes do M´Puto (que disse sempre, não reconhecer…) Também com a anuência revolucionária de toda a nomenclatura do C.R. (Concelho da Revolução) que formatava o M.F.A. (Movimento das Forças Armadas), os cubanos não tardaram em desembarcar em Angola, o que aconteceu a 5 de Outubro de 1975.

kariba7.jpg Aquela Força Operacional Zulu da África do Sul, cruzou da Namíbia para o Kuando-Kubango na fronteira da Faixa de Kaprivi na conhecida Ovoboland  afecta ao grupo de guerrilheiro SWAPO sob o comando de Sam Nujoma. Esta operação previa a eliminação do MPLA da zona da fronteira sul angolana, depois o sudoeste, a região central e finalmente a captura de Luanda, o que não veio a acontecer…

Otelo Saraiva de Carvalho, o estratego do 25 de Abril, agora (2024), com cinquenta anos de estória, na altura comandante do COPCON e governador militar de Lisboa empenhou-se a fundo na entrega de Angola ao MPLA, conseguindo-o em absoluto! Assim, falando do tempo conturbado de reestruturação da UNITA após Cuelei, se irá recordar a participação dos jovens saídos da Missão do Dondi no comando do capitão Vinama Chendovava com a designação de “jovens intelectuais”, fazendo renascer a UNITA das cinzas, com destaque para Abel Chivukuvuku, nesse então com 19 anos e, dando novas perspectivas ao  Galo Negro… 

Nota: Texto elaborado a partir das anotações do baú de T´Chingange com consulta a publicações de Jéssica da Silva Höring e José Agualusa

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:58
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2024
VIAGENS . 136

NAS FRINCHAS DO TEMPO

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3547 – 08.02.2024

O 11 de Novembro de 1975 no Huambo” - “A LONGA MARCHA” 

- Escritos boligrafados da minha mochila, aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018 - “Missão Xirikwata”

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

unita1.jpg Proclamação de Independência paralela – No Ambriz e Huambo, Holden Roberto, líder da FNLA, proclamava a Independência da República Popular Democrática de Angola (RPDA) à meia-noite do dia 11 de Novembro, no Ambriz. Nesse mesmo dia, a independência da RPDA foi também proclamada em Huambo, por Jonas Savimbi, líder da UNITA.

Reconhecimento internacional e consequências das 3 prolamações: Logo depois das três declaração da independência em Luanda, Ambriz e Huambo, reiniciou-se a Guerra Civil Angolana (que já estava em curso desde Fevereiro de 1975) entre os três movimentos, uma vez que a FNLA e, sobretudo, a UNITA não se conformaram nem com a sua derrota militar nem com a sua exclusão do sistema político.

mocanda32.jpg Uma parte considerável da população rural, especialmente a do Planalto Central e de algumas regiões do leste, fugiu para as cidades ou para outras regiões, inclusive países vizinhos. Em Fevereiro de 1976, deparamos com o rápido avanço do MPLA com cubanos para a tomada do Lobito, Benguela e Huambo à UNITA a sul e, a norte o Soyo, a antigo Santo António do Zaire sob a alçada da FNLA.

A seguir, o Comité Político da UNITA abandona Huambo e inicia a retirada para Sudeste. Savimbi inicia, juntamente com duas mil pessoas, aquilo a que se veio a chamar a “Longa Marcha”. O líder da UNITA, Jonas Savimbi, viria a atingir o Cuelei só a 28 de Agosto, milhares de quilómetros percorridos, apenas com 79 resistentes.

unita2.jpg Lendo Fred Bridgland, este, conta o que a seguir se trancreve com a devida vénia de algumas passagens do que foi  “A Longa Marcha de Jonas Savimbi...”. Tudo começa a 8 de Fevereiro de 1976. Aconteceu quando as colunas blindadas de cubanos entraram no Huambo, o quartel-general político da UNITA, durante os seis meses anteriores.

Com a ocupação do Huambo, a vitória fora, virtualmente, completa para os cubanos e o MPLA. No dia seguinte, Savimbi abandonou o seu quartel-general no Bié e voou em direcção ao Leste, para o Luso... Ao principio da tarde do dia 10 de Fevereiro, o capitão “Bock” Sapalalo ouviu os camiões cubanos e do MPLA que se aproximavam da última ponte a norte do Luso...

unitao1.jpeg Alcides Sakala

Savimbi dormia, pela primeira vez em 70 horas, quando as primeiras bombas explodiram no Luso, às 4 da tarde. Foi acordado do seu sono profundo por Chiwale. A população estava em pânico. Savimbi convocou rapidamente uma reunião para lhes dizer que a UNITA iria retirar e organizar uma nova guerra de guerrilha.

Meia hora depois de terem caído os primeiros morteiros, três aviões MIG bombardearam violentamente a cidade tendo morrido cerca de 50 pessoas. Imediatamente após o ataque aéreo, foi ordenada a evacuação do Luso. Cerca das 5 horas e 15 minutos da tarde, os primeiros veículos da UNITA abandonavam a cidade: na coluna de carros diversos e Land-Rover seguiam cerca de 1000 guerrilheiros que Chiwale conseguira reunir. Alguns milhares de civis, com os seus haveres, seguiam pelas bermas da estrada. O cortejo tomou o rumo sul, em direcção a Gago Coutinho, que distava dali cerca de 350 quilómetros.

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:48
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Domingo, 3 de Dezembro de 2023
VIAGENS . 112

NAS FRINCHAS DO TEMPO
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3523 – 03.12.2023
“Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”
Às margens do Cubango - Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018
Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

quem4.jpg(…) E, tinha gente treinada na Metrópole (Lisboa), propositadamente preparada para fazer parte deste MPLA. Do vinticinco de abril de 1974 até ao 25 de novembro de 1975 muita coisa se fez à revelia da vontade do povo e, por muito pouco não ficamos debaixo da alçada da União Sovietica. Alguns, irão sempre dizer que não, pois que em realidade parece uma peta feita mentira; o certo é a de que militares pagos pelo M´Puto, com ideário afecto ao Concelho da Revolução ficam inteiramente destacados naquele movimento terrorista como se dele fossem, com camuflado igual ao do MPLA.

Havia gente seleccionada pelo PREC de Otelo Saraiva (o Ché tuga…) Ainda ninguém trouxe isto às claras porque o sigilo estava por demais encafifado e, só alguns oficiais o sabiam; os não alinhados destes ou do contra, seriam logo conotados como fascistas. Até surgiu um selo mentiroso do M´Puto alusivo ao MFA com dois populares, um com um chapéu de campino e outro segurando uma arma. A mim sempre me pareceu muito feito a propósito por o ser verdadeiro!

chai0.jpgNakuru era folha morta! “Numa situação de guerra em Angola, como e a quem se ia entregar a sua governação?”. Era o próprio Silva Cardoso, Alto-Comissário, que se interrogava falando baixinho para que os demais ouvissem. Neto reclamava a  saída deste! Ele, Neto, o poeta, queria que assim fosse e, isto era o bastante! A maioria dos oficiais portugueses andavam a assobiar ao vento!
Triste ironia desta nítida má-fé e, de quem ainda anda por aí recebendo benesses e até medalhas de bom comportamento, tornados heróis como se isso o fosse de forma “avulso”. O MPLA venceu a Batalha de Luanda expulsando a UNITA e a FNLA com a inequívoca ajuda do glorioso MFA do M´Puto (isto sempre o será repetido…)

mfa1.jpg Em verdade a Batalha de Luanda resumiu-se ao duelo entre MPLA e a FNLA, enquanto os soldados e militantes da UNITA, sem armas para retaliar, se tinham simplesmente resignados a fugir. Os que não puderam fugir, foram simplesmente massacrados aos milhares (maioritariamente negros mas e também, alguns brancos). Nesta lengalenga de lembrarmos coisas mortas, cada homem é um mundo…
(…) A UNITA não permitia a entrada da tropa portuguesa em Nova Lisboa (Huambo) alegando que em outros pontos do território as FAP assumiam atitudes favoráveis ao MPLA e tinham toda a razão para assim procederem. A UNTA deu 24 horas às FAPLA para saírem de Nova Lisboa e assim veio a acontecer com a escolta protectora das Nossas Forças (NT) até ao Dondo, um bastião carbonizado em posse do “glorioso” MPLA…

chai1.jpg Pode notar-se nesta descrição o comportamento diferenciado por parte da UNITA em relação às outras forças; certo que tudo iria descambar mais tarde para coisa ruim mas as contingências da guerra aberta e sem mando capacitado, já não permitiam manter o aprumo desejável. Neste então a UNITA deu tempo às FAPLA para recuarem ao invés destes e das FALA que atacavam sem prévio aviso e com todo o potencial mortífero.

No Cunene, as tropas da UNITA já faziam rusgas aos trabalhadores Sul-africanos nas barragens de Caluéque e Ruacaná por se recusavam a regressar ao trabalho. Recorde-se que estas estações hídricas estavam cercadas pelas FALA, o braço armado do MPLA e os naturais Ovambos negavam-se a trabalhar sem garantias de segurança; foi assim que a queixa de Pretória chegou à Embaixada Portuguesa.
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:25
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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2023
VIAGENS . 103

NAS FRINCHAS DO TEMPO
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3514 – 10.11.2023
“Tropas cubanas para Angola, já!” - “Missão Xirikwata”
Às margens do Cubango - Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018
Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

pombinho5.jpg Rosa Coutinho, o marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas do M´Puto pois que teve o seu início de famoso, numa gaiola amarrada com lianas do N´Zaire. Terá sido Holden Roberto da FNLA, como patrulheiro da fronteira do Congo que o fez passear em uma jaula como se o fora, um macaco. Esta figura, o contemporâneo “maior traidor militar português”, deveria estar em maior destaque. Pois, assim sendo, deveria estar nesse mausoléu dos mwangolés, chamado de “Sputnik” da capital Angolana – Luanda, pois que, foi ele quem forjou toda a táctica de “libertação”.
Ele, Rosa Coutinho, estará salvo seja para Angola, como Simon Bolivar o está para a América - a chave basilar nas guerras de independência da América Espanhola - (…Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela), pois, foi este o monstro “Vice-Almirante e Alto-comissário” que para todos nós brancos da Luua e todos os demais espalhados pelos matos do sertão e cidades, proporcionou ao MPLA ficar na governação deste território, sem qualquer mérito.

florido3.png Agostinho Neto, o primeiro presidente, só o foi em verdade, uma testa de ferro daquela figura detestável com nome de Rosa… No entanto teve a ousadia de dizer à coisa dada que “a independência, arranca-se” – Mas qual foi seu mérito!? Rosa Coutinho - o traidor, aliado às artimanhas do “glorioso PREC” - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, que tudo lhe deram. Tuco combinado unha com carne com o glorioso MPLA, fez o que quis: pintou e bordou a preceito e, conforme as directivas comunistas.
Nós, os brancos (ditos colonos), ficamos como pulgas entre unhas de dois polegares, sem armas, sem qualquer ajuda, num abandono quase quase total; pronto para o serem: mortos! Quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês sabem o que Rosa Coutinho e os estafermos do MFA queriam que se soubesse. A grande maioria da população de Portugal estava em conformidade com esta postura, desinformado até ao tutano pelos órgãos de informação.

fuga6.jpg Pelos mesmos órgãos de informação controlados pelos guedelhudos militares pseudo revolucionários. Dizia-se: Os brancos eram definitivamente uns exploradores, uns fascistas e racistas da pior espécie. No M`Puto, até nossos familiares, nos aceitaram com desdém, manuseando crachás com a Catarina Eufémia ao peito. Entretanto as forças cubanas iam chegando a Cabo Ledo numa praia deserta com o nome de Sangano.
Foi por aqui que entraram os primeiros militares cubanos que deram formação às primeiras tropas organizadas do MPLA. E, foi Carlos Fabião, Flávio Bravo e Agostinho Neto que acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota, a que ficou conhecida como a Batalha de Luanda. Pode-se agora, 48 anos depois do ano de 75 recordar: Foi na Praia de Sangano que desembarcaram esses primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles.

flit2.jpg Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”. Os instrutores deste equipamento sofisticado, estavam a ser coordenados pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville enviavam numa primeira fase, pequenos aviões para aterrizar na pequena pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.
Pois foi aqui que saíram nessa Operação Carlota no terceiro trimestre desse ano; oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. Foram estes e os jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água” que mais tarde deram os pormenores já descritos em várias fontes que iremos recordar. Cabo Ledo teve uma forte intervenção na sinalização daquela que ficou conhecida por a “Batalha de Luanda”.
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:15
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Sábado, 4 de Novembro de 2023
VIAGENS . 100

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3511 – 04.11.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - “Tropas cubanas para Angola, já!”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

an2.jpeg No Mukwé - N´Zambi a tu bane n´guzu mu kukaiela”, Deus dá-nos força para seguir…– Sou eu falando: Na Luua, da boca de toda a gente era dito que se não fossem tomadas medidas de prevenção em curto prazo, todos estariam a viver uma situação de generalizada violência incontrolável. As autoridades do M´Puto não quiseram ver nem tomar medidas protectoras para com as populações maioritariamente de etnia branca que se encontravam nos matos ou periferia das cidades; esta é a verdade! Miranda Oliveira e Teles da Chibia, só escutavam  seu mais-velho, kota amigo.

Harmonizar a existência do sofrimento com a realidade é talvez, o mais antigo dilema da mente humana. Quando quero chorar, faço churrasco a popósito e, no entretatanto de atiçar as brasas com restos de  palmeira e rosmaninho ou alecrim meio seco,  meio húmido, abano o fumo.  Fumo que  penetra em mim após o sopro, nas nuvens pretas. O choro, mesmo sem o querer, vem limpando-me os olhos das mazelas; por fim, com fumo branco, brasas incandescentes, viro papa genérico e, emérito. Em busca de respostas, mergulhamos em especulações que resultam normalmente em dúvida e descrença. Com o pensamento voltado na busca de satisfação de alguma coisa pequena, alargamos sua importância de forma desmedida. E, assim ficamos matutando…

cuba 0.jpg Calma! Tudo irá passar... Por alturas de 25 de Novembro de 1975, vi escrito numa parede de Torres Novas do M´Puto, assinado com um A circunscrito de anarquistas: “Otelo Saraiva de Carvalho, que lindo nome tens tu, tira o V do carvalho e mete o resto no Cú” – talqualmente! Esteve ali bastante tempo antes que alguém se caiasse de coragem… Neste então, morava eu na rua da Várzea do cemitério bem perto da Rua do Arraial,  a uns quatro quilómetros do Riachos, a terra natal de Otelo Saraiva…

O revolucionário Otelo do COPCON, acabou por dizer mais tarde, que foi o PCP seu “inspirador” em sua ida a Cuba. Para o efeito foi enviado previamente Octávio Pato, fazendo de pombo correio, diligências numa  missão a que eu desigaria mais tarde de tundamunjila - “Tunda Mu N´jila” (Vai embora branco) . Na altura, entre Otelo e o PCP existiam graudas amizades e, não custa acreditar que os comunistas portugueses indicassem Otelo a Fidel numa perfeita escolha na feitura  duma boa picada lá na Angola…

step6.jpg E de facto, nas várias conversas com Otelo, de camarada revolucionário para para camaradas jornalistas, os “conselhos”, entre muitas falas não faltavam, como recorda: “ O Fidel interessava-se muito pela revolução portuguesa. Aconselhou-me a aceitar os conselhos do PCP e a fazer um entendimento com Álvaro Cunhal, que ele conhecia e de quem tinha uma excelente opinião.--

Era, aliás, o único dirigente político português que ele, Fidel de Castro, conhecia. Fidel foi sempre muito cordial comigo (diz ele, Otelo) e, mesmo no final da visita, quando eu já estava a embarcar no avião de regresso a Lisboa, subiu à cabina para me dar mais um abraço e dizer-me: “Cuida-te camarada!”.

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dia20.jpg Arrepia-me agora e sempre, contar estórias feitas missossos revolucionários porque me é muito, muito de dificultoso ficar só assim, conciliar no que é a puta da vida de cada qual como vim a saber, quando fui a Varadero de Cuba comer lagosta transpirada de medo. Isso! Num alpendre rodeado de citronela para espantar os mosquitos, E, eu que me dispus a fazer um molho daquele capim para fazer chá caxinde  no hotel – ué, camarada isso não se bebe!

Porque foi na candonga e num  comoé, não convém a gente levantar escândalo de começo porque só aos poucos é que o escuro fica claro! Ando a tentar continuar a estória do Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho que foi um coronel de artilharia português, destacando-se por ter sido um dos principais estrategas do 25 de Abril de 1974. Otelo, que antes de anteontem era só de ex-COPCOM mas, que  ficou por demais indefinido, defuntando-se só mesmo para receber uma condecoração de herói a titulo póstomo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:53
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Domingo, 22 de Outubro de 2023
VIAGENS . 96

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3507 – 22.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

araujo85.jpg Em Luanda e no ano de 1975, uns nove meses antes do 11 de Novembro, as leis e ordens saiam já apodrecidas do Comando Militar; passeavam  mortos pelas ruas como contestação ao ritmo de salto zulu, as fábricas iam fechando, os taxistas eram mortos de forma barbara; o ambiente era de se cortar à faca-catana escaldante na insegurança generalizada no presente do indicativo, tornando o gerúndio numa incerta loucura de futuro imprevisível

Naqueles dias, o amanhã transtornava a sociedade numa ginasticada ideia de sem se saber como iria ser - a fuga. Os locais mais concorridos eram o Aeroporto de Belas e o Porto de Luanda. Destino: Um qualquer sitio - seja aonde for! Naquele tempo surgiram do nada, muitos rambos com fitas de cunhetes a tiracolo passeando desaforo e medo na companhia daqueles, alguns magalas esqueroidos, oficiais alferes, praças das NT e, salvo-seja "nossos irmãos" que diziam com frequência: Vocês colonos, vão-se foder!

RETORNAR13.jpgE, foi… Aconteceu! A cidade suja, pegajosa e desnorteada, cheirava a cansaço, a suor, a medo e coisas mortas esfrangalhadas pelos cães vadios. Naqueles dias de catinga ouvia-se noite fora os martelos encerrando vidas, encafifando pertences e recordações. Também se ouviam rajadas lá para cima, mais ao lado e na outra banda das barrocas do Miramar. Da ilha de Luanda podia ouvir-se rebentamentos, colunas de fumos lá num suposto lugar do Sambizanga ou Bairro Operário…

Também do Bungo, do Caputo, do Cazenga, da Terra Nova. Não! Não havia naquela terra de N´Gola, mais lugar para os Tugas e assimilados a estes! Não venham agora com tretas e esquecimentos! Se antes era perigoso ser preto, agora era muito perigoso ser-se branco… Não! O passado vale pelos seus actos, pelas atitudes! Não me vou agora enganar no posfácio da vida, dispor-me a calar, engolir inverdades à força.

poluição.jpg Bom! Eis que surgiu então um filho da puta com o nome de Rosa Coutinho que de raiva vermelha fez o que quis! Ele e seus pares do MFA pintaram e bordaram, gozaram à tripa forra com Spínola, fizeram dele um chinelo, um merdas muito cheio de prosápia armado em rambo, oficial de pingalim, monóculo e luvas reluzentes com um chapéu de banga, assim enfeitado de pedante de carnaval com um símbolo doirado.  Um Mobutu Sese Seko do M´Puto…

O Consul americano em Luanda por via de desacatos, tiros e rixas, um pouco por todo o lado da Luua disse nesse então: “…os acontecimentos ilustram bem como não gerir uma crise”. Pois então! “As autoridades militares, inacreditavelmente foram simplesmente inaptas para lidar com a situação”. Pois claro! A merda foi calculada, premeditada e facilitada!

retornar1.jpg Como podíamos nós encarar esta situação e dar rumo a falsidades… Como ficávamos nós acantonados sem resguardo no Prenda, no Kazenga, no Palanca, na Calemba, na Cuca, na Maianga, no bairro Mota ou no bairro Popular, como? E querem que me cale! Nem morto… já em fins de 1974, inícios de 1975, os desacatos sociais na forma de guerrilha, aproveitavam o baixar de braços e armas das forças armadas portuguesas. As Forças Irregulares dos movimentos tendo o MPLA à proa do terror, situadas na Luua capital, e um pouco por toda a Angola, alastraram até às cidades e vilas como N´Dalatando (Salazar), Huambo (Nova Lisboa), Lobito, Benguela e Lubango (Sá da Bandeira).

retornar12.jpg Os acontecimentos procediam ao mais leve desaire, ao mínimo pretexto e na maior parte das vezes porque se pretendia que assim o fosse. Negativamente e de forma exponencial o MPLA e a FNLA aliciavam as populações a fazer alastrar a subversão a todos os centros urbanos fazendo correr boatos complicando a vida de normalidade. Havia boatos, muxoxos e muitos corpos na morgue trazidos das cidades e fazendas do Norte. Eu T´Chingas, convivi com isto pois morava bem perto da Morgue do Hospital Maria Pia bem ao lado da Maianga…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:50
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2023
VIAGENS . 94

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3505 – 18.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata” - Nossas vidas têm muitos kitukus…

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

paulo0.jpg PERFIL ETNO-HISTÓRICO DO POVO ANGOLANO - II*

(…)- Foram Estados fortes pela alma do seu povo, que sempre acreditou ser povo da terra dos destemidos, dos guerreiros. Ao lado das narrações, lendas e adágios, a canção testifica o passado: Kapalandanda wa lila; wa lilila ofeko yahe yilo ofeka yoku  loya, ka loyele a tunde ko!... - Kapalandanda chorou, chorou pela sua terra... Esta  é terra de combate, quem não luta, saía! O que fica consubstancia a mensagem secular do grito da liberdade "TERRA E LUTA ARMADA".

LUNDA-CHOKWE: Ocupa as província da Lunda, parte do Moxico e está também dissiminado nas províncias do Cuando-Cubango, Huíla e leste do Bié e compreende os Lunda-Lua Chimbe, Lunda-Demba e Chokwe. A tradição conta que os Chokwe, negando ser tributários do Rei Lunda, expandiram-se numa vasta região do Moxico, Bié, Cuando-Cubando e Huíla. Antes da sua expanção, os Chokwe permaneceram estreitamente ligados ao Império Lunda, até que fundaram vários Estados. São comerciantes, caçadores e apicultores, o que faz da área dos Lunda-chokwe um centro comercial importante com os povos do planalto central até aos princípios deste século.

miss01.jpg NGANGUELA: Povoando as províncias do Cuando-Cubango, moxico e parte do Cunene e Huíla, o grupo étnico-linguístico Nganguela compreende os Luimbi, Luchaze, Bunda, Luvale, Mbuela, Kangala, Massi e Yavuma. Os Nganguela destacam-se como pescadores (os Luvale são exímios pescadores que não se deizam influenciar pela época do ano) e notáveis apicultores. Vivendo longe da costa do Atlântico  e num habitat disperso, os Nganguela só foram dominados pelos portugueses a partir dos anos de 1920, dominação esta que sofreu resistência dos Bunda, chefiados pelo seu dirigente Muene Bandu, assim como dos Nhemba, com  o Rei Chilhauku. Divididos em sub-grupos, não tiveram autoridade centralizada; contudo formaram importantes Reinos, dentre os quais se destacaram os Reinos do Kubango, de Massaka, ou da Raínha Lussinga, de Senge e dos Luvale, sob a prestigiosa dinastia Nhakatolo.

miss02.jpg NHANEKA-HUMBI: Vizinhos dos Ovimbundu e dos Ovambo os Nhaneka-Humbi espalharam-se por Províncias da Huíla e do Cunene e  compreendem entre outros, os Muíla, Humbi e Gambo. Dedicando-se à pastorícia e praticando uma fraca agricultura, de vida semi-nomada, tiveram reinos fortes que resistiram ao colonialismo.

OVAMBO: Ocupando a Província de Cunene, entre o paralelo 16ª e a fronteira com a Namíbia, é constituído por Kuanhamas, Kuamatuis, Evales e Kafimas. Praticando uma agricultura de subsistência, tem a sua base económica na criação de gado que, por factores climáticos e baixo nível de desenvolvimento, não se libertou da vida semi-nómada. Sente-se ainda o calor de Mandume, que conseguiu unir o povo e fazer resistência forte aos Portugueses até Stembro de 1917. A sua capital foi Onjiva, cujo nome foi novamente retomado em substituição de Pereira d`Eça, nome que fora dado pelos Portugueses.

araujo95.jpg HERERO: O Herero é também um dos grupos populacionais do nosso País que se  espalha na Província de Moçamedes, Sul de Benguela e Oeste de Huíla. Tal como seus vizinhos Nhaneca- Humbi e Ovambo, dedica-se à criação de gado. Cada um vê no gado graúdo o seu capital e nas crias o seu lucro final.

KUANGAR-BUKUSSO: O grupo linguístico Kuangar-Bukusso ocupa toda a faixa Sul da Província  do Cuando-Cubango. Agricultores pacientes devido à acção cíclica da estiagem, têm a sua economia na criação de gado. Também praticam a pesca nos rios Cubango e Cuando.

selos3.jpg OS VASSAQUELE: Os Vassequele constituem um grupo numericamente muito reduzido, que se encontra na Província do Cunene e no sul do Cuando-Cubango. Caçadores infatigáveis, têm sido nómadas ao longo dos tempos. Porém com a influência dos povos Bantu, quase todos adoptaram a vida sedentária, fazendo pequenas lavras, sem terem deixado a caça e a procura de fruta e mel. Os Vassaquele possuem uma linguagem especial, caracterizada por "clics" ou estalidos. Foram os autores das maravilhosas pinturas que se encontram nos rochedos, em muitas grutas do Sul de Angola, como na gruta do Chitundo-Hulo no deserto de Moçâmedes.

bordallo.jpgbordalo3.jpg Nota*: A étnia branca ariana que não faz parte deste rascunho etno,  surge com o inicio da colonização com Diogo Cão no ano de 1480, espahando-se por todo o territário da actual Angola. Legou internacionalmente ao país o ideoma português como oficial, tendo sido o aglutinador dos demais povos que usavam e, que ainda usam outros dialectos no contexto de relação regional. Esta étnia (os t´chinderes, xi-colonos – 500 mil), em numero elevado, viu-se obrigada a abandonar o país por via de uma chamada de DESCOLONIZAÇÃO dirigida por Portugal e, após as guerras  de Tundamunjila (Vai embora) e Civil, entre o MPLA e UNITA…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:40
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2023
VIAGENS . 87
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3497 – 08.10.2023
-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”
- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018
Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

sacag2.jpg Em Angola, contornando medrosas angústias, febres palustres, jacarés e onças, entre várias molestias de paludismo cerebral, as guerras exigiram aos intervenientes, guerrilheiros, voluntários ou governamentais magalas da Metrópole, muito sacrifício. Assim o sejam no rumo da libertação ou seguindo a ideologia, de uma sentida crença ou por obrigação forçada por via de obrigatoriedade.

Assim o digo: Nações já formatadas em pleno, que exigiram dos homens um esforço extra na consolidação dum país ou de uma politica por imposição. Práticas de guerra levadas a cabo por combatentes que não o podem, ser esquecido pelos governantes de hoje, nos países dos PALOP´s, passados que são cinquenta anos da era colonial bem como das guerras posteriores de tundamunjila em Angola (guerra do vai embora branco…), que resultou na saída de quase um milhão de cidadãos. Também da guerra civil entre Movimentos em Angola, nomeadamente do MPLA e da UNITA.
 
Em reflexão, cheirando a brisa do rio Cubango, aqui em Mukwé, na companhia de João MirandaOliveira do Mucusso, e de vez em quando, Teles da Chibia, esporadicamente, reactivamos o quanto há hoje recalcados de tanta injustiça; todos estes ou esses que tiveram de perder o medo naquelas florestas, chanas, e anháras, numa Angola tão rica e tão ingrata a quem por ela ganhou uma “perna de pau”, “olho de vidro” ou “viajou para junto de N´Zambi”

pedras00.jpg Seguir directamente para o céu, directamente do produtor para o inferno feito fogo ou uma nuvem de algodão envoltos nessa kukia chamada de pôr-do-sol - fim de vida. Defenderam e mataram gente, construindo novas coisas, impondo regras sociais para conservar tal espaço. Fiotes, Kiokos, Kimbundos, Umbundos. Hereros, Ganguelas, Muilas, Mucubais, Bosquimanos, Magalas Tugas ou expedicionários do M´Puto.

Militares ou guerrilheiros que mudaram de alguma maneira, o modo de estar e de pensar, na sequência desses outros mais antigos magalas chamados de expedicionários da Metrópole e, que, aos milhares, também consolidaram um território dos Mwene-Puto e Mwangolés, morrendo por isso…

Quantas mortes para definir fronteiras de hoje. Angola ganhou condição de país quando na embala de Belmonte, Silva Porto, com 72 anos de idade se imolou envolvido à bandeira Portuguêsa. Aquilo, foi muito antes do arrastar da bandeira do M´Puto por muitos lados e pisoteada por gente que virou governante de alto coturno…

luua25.jpgGente que veio a presidir ao país e que também seguiu essa senda da vida defuntada na kukia da vida e, que também não ficou para semente. Todos, ou quase, percebemos que no livre jogo das forças, governos e governistas com afins circunscritos, hoje, interessa sim, adquirir a qualquer custo um poleiro digno governamentalista. O mundo está muito amalucado! Enquanto isso os resistentes daqueles tempos, lambem as feridas de catanas ou G-três da história.

Com as campanhas de submissão do sobado do Bié e, passados 85 anos, a 11 de Novembro de 1975, data em que Angola se concretizou num país cujas fronteiras foram delineadas por estes e aqueles combatentes que, paulatinamente o foram propositadamente, desprezados no tempo pelos seus países… E, tudo o foi desde o Mapa-Rosa africano que começou a ser desenhado a 11 de Julho de 1890. Data em que aquele chefe "O trovão", veio a sofrer represálias a 9 de Dezembro desse mesmo ano de 1890 por parte de Artur de Paiva, Paiva Couceiro e Teixeira da Silva com a ajuda do povo angolano Ovibundo, governado então pelo rei Ekuikui Segundo....
Ilustração de Costa Araújo
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:42
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Domingo, 1 de Outubro de 2023
VIAGENS . 86

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3496 – 01.10.2023

-Às margens do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, ou entre os anos de 1999 a 2018

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

papoila2.jpg Hoje, aqui no Mukwé,  vou só relembrar coisas já ultrapassadas para me distrair na conversa: Naqueles muitos dias de dipanda aproveitava-se o espevitar da inteligência limpa de quem só tinha coração de ouvir. Nos tempos mangonhosos da idade maisvelha, sem precisar condicionantes de pôr mais minha conversa no ar, cada qual ouvia o que cada um tungava na sua maneira. Se der um tiro no passado, posso bem ser apanhado com uma bazuca do futuro e, deixando a sequência das coisas soterradas em uma cova sujeita à criatividade dos contadores muitas vezes fraudulentos. Também sujeito à critica de gente com os neurónios falaciosos num empenhamento de visão de Pilatos, senão coisa pior, assim do tipo Estalinista ou Leninista…

Cadavez, quando um ria, outro ria também só à toa. Agora, ali, Teles Ferrujado simpatizante do glorioso “Eme”, meu mais-velho amigo da Chibia, Capunda-Cavilongo das terras do fim-do-mundo. Contava seus dias de caça; tinha muito de esperto caçador e com muito mais de velhos anos, ainda estava vivo! Mentia também em suas calmas, esfregando sua barba rala e crespa, companheira de muitos segredos, de mentira, mesmo embrulhada por vezes em kafufutila de bombô com açúcar. E, eu até gostava de ouvir sem franzir o sobrolho.  Falava dos muxitos, das pacaças, desenhando aquela sua luz de verdecida vaidade de pontaria no centro do querer. Eu e mano Fernando Teles Ferrujado amigos do tempo do tundamunjila sabíamos que os espíritos antigos, depois de tanta guerra necessitavam de descansar .

Nós mesmo queríamos esquecer essa encruzilhada de muita maka e muito sangue. É que as lições da vida têm de ser sempre passadas a limpo, só nossa morte é quem pode ficar em rascunho - li isto nos guerrilheiros do Luandino. Teles me olhou muito mais macio, falar suave de caça de bichos não é o mesmo que a guerra do kwata-kwata e mata-mata de gente; Teles era bom e se via nos olhos dele, medo de acordar outros medos.

homologado.jpg Longe das anharas da Chibia, do Calai e Munhango de Angola, sentíamos então o cheiro do grande rio que descia ora barrento das chuvas, ora escuro na junção das chuvas com sombras. Só sentíamos mesmo o cheiro dos longínquos Québe, Cuito e Okavango. E, eu era de novo o Mazombo guerrilheiro gweta da Unita a afogar-me naquele cheiro de sol e mangue com o vento do mato e do zungal aonde cassumbulavamos com garimpeiros.  Assim contava coisas legitimamente enferrujadas, como que aproveitando pregos retorcidos de antigas tábuas de caixão ou porta duma administração de posto colonial.

Um, não era igual ao outro, nem um era como o outro ou contra o contrário do outro porque tudo o que se passava era só assim, mais nada, era como era, mais nada. De coração grande e espinhoso, esta cumplicidade, fugidos do mundo, nenhuma mata ia poder nunca lavar catinga de geração recordada nos encontros com o Fernando Teles da Chibia que sabia fazer biltong (carne seca com ou sem jindungo), como ninguém. Carne seca  para vender nos seus chimbecos, mukifos de taipa cobertos a zinco, espalhados por ali, sítios de gente dispersa…

edu42.jpg Teles o caçador, um conhecido dibengo, zebra, voltou à sua terra da Chibia na Quipungo, levando seus candengues Hugo e Carmita, faz tempo, nunca mais que soube da sua vida mesmo buscando no FB nada de nada! José Manuel Fernandes Teles, seu verdadeiro nome, bazou mesmo!  Num dia de mãos cheias nas falas de tempos lembrados ao sabor de uma moamba bem à maneira kaluanda, com os respectivos quiabos, gimboa, saca-saca da folha de mandioca e funge, escafedeu-se ué…

Tudo feito pelo ajudante de cozinheiro Tata kadinguila do Mukwé,  bem  à maneira de como os trabalhadores da construção faziam no meu antigo bairro da Maianga e Malhoas da Luua. Lembrei que em kandengue assistia curioso ao fazer daquela cola de sapateiro como minha mãe Arminda dizia. Agora, íamos fazer igual para relembrar. E, na hora de almoço sentados, em bancos de pau ferro  undianuno, e umas quantas tábuas grossas e soltas de kibaba a fazer de mesa, improvisávamos no quintal relembrando bem aquela forma de vidas biscateadas.

ama3.jpg Com os calos de nossas mãos fazíamos bolinhas de funge acinzentado e molhando na lata de dendem besuntávamos, levando à boca com prazer deglutindo, Aiué. Estávamos mesmo recordando nossas juventudes.  Amanhã vai mesmo ser peixe bagre ou tigre seco para matar saudades… Dona Elisabete  anuiu, quersedizer, disse que sim. Aqui, entre amigos e no lugar do Mukwé os dias iam passando falando coisas, umas àtoa e outras bem afincadas em nossa lembraduras (tempo atado nos fundilhos da memória)! Estavam reunidas as condições para falarmos da recente guerra de TUNDAMUNJILA, cada qual falando suas furúnculosas recordações …

Glossário: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, Tundamunjila: mandado embora, sair à força em contra-vontade; bazar: Cassumbular: - ser matreiro e ligeiro em tirar algo de outrem; kazucutar: viver de expedientes, viver à toa; Zungal: - capinzal, erva áspera de charco ou pântano.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:42
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Sábado, 30 de Setembro de 2023
VIAGENS . 85

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3495 – 30.09.2023

 – Em Mukwé, Andara e Shitemo às margem do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018 

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

araujo19.jpg Pedro Rosa Mendes, repórter galardoado do "Público", partiu em Junho de 1997, com uma bolsa de criação literária do Centro Nacional de Cultura, mochila às costas, máquina fotográfica e gravador, atravessando o continente Africano de costa a costa, à semelhança de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, por picadas, rios e caminhos de areia, lugares por onde andei por várias vezes e em distintas datas.

Mendes, regressaria três meses e meio depois desta viagem, carregado de histórias bastantes diferentes das que aqueles exploradores certamente encontraram. Histórias de ódio e de horror, de crueldade, num continente onde nesse ntão decorria uma guerra sem fim à vista, aniquilando muita gente. "Baía dos Tigres" é um relato dessas histórias, no suplemento Leituras, do "Público" de então.

araujo 25.jpg Encontrou pela certa os mil estilhaços da história, autenticidade  que por certo lhe exigiu tudo, tal como eu vivenciei nos países limitrofes  como: olhos, ouvido, pele, coração, sangue, suor, lágrimas, coisas simples, primeiras e últimas, como nascer a caminho da incerteza e até mesmo a morte, decrevendo ambos a seu modo, o que somos apenas com palavras…

Viagens de T´Chingange de agora  e "Baía dos Tigres" de Rosa Mendes, daqueles tempos, fizeram fricção, ficção, romance, crónica, ou poesia, em documentos densos ou infernais. Como acontece aos homens, o ser-se assim, vem do muito fundo no respirar do cacimbo - uma extraordinária viagem ao fim da vida dos homens

Também a viagem ao inacreditável mundo habitado por homens com  pernas de pau, com braços de turquês em ferro, sem dentes, sem orelhas, sem  pele, ou mesmo sem rosto … Viagens sem horário, por vezes sem os comuns "vouchers" com pequeno almoço incluído e sem a bebida fresca tomada na esplanada à hora que se quer… Foi útil ter uma visão diferente do que se estava a passar no terreno, no entanto, pareceu-me tendencioso em seu livro no julgamento de Miranda comerciante, retratando-o como um brutamontes. Comparou-o a um Bóher “Mamburra” mal formado o que me pareceu ser um exagero de todo.

AUJO240.jpg Tratamento tal e, só porque tinha pertencido à companhia Sul-Africana “Os Búfalos” o que, não era motivo étnico para tal, parecendo coisa encomendada com direito a carimbo de gazosa do falso governo de N´gola sob tutela do MPLA. Creio que, tudo tinha de ser ser descrito para preservar a onda esquerdoida que grassava no M´Puto e, subsidiada para tal, no quadro de interesses com desvios ideológicos na defesa das convulsões partidárias da corrida ao poder. Isto, aconteceu, acontece e irá acontecer num trato de Lua/lix (Luanda/Lisboa)…

Ainda no Shitemo e, no lugar de Andara um dia à tarde, observei a chegada de dois camiões TIR de grandes dimensões usados para transporte internacional de cargas repletos de sacos de farinha de mandioca – fuba, tendo sido depositados num amplo armazém bem na margem do rio, creio que num lugar chamado de Nyondo. No outro dia, um pouco antes do meio-dia fiz companhia a um sobrinho de Dona Elisabete que normalmente distribuia pão na região e, quando paramos no mesmo armazém, reparei que se tinham evaporado todos os mantimentos ali depostos no dia anterior.

áfrica19.jpg Nada perguntei mas, logicamente deduzi que naquela noite tudo foi passado para a outra margem para o Calai, Jamba ou Mucusso em silenciosas canoas. Era por aqui que se passava o grosso dos mantimentos não obstante haver ao longo do rio Okavango postos militares de observação e guarda; O termo "só para Inglês ver" ajustava-se aqui, na perfeição. E, felizmente, o povo Ovambo sabia preservar a sua existência partilhando os dias menos bons. De cartão da Unita camuflado no forro dos calções, regozijei-me por observar esta vivência no silêncio das terras do Fim-do-Mundo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:09
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2023
VIAGENS . 84

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3494 – 27.09.2023

 – Em Mukwé, Andara e Shitemo às margem do Cubango - “Missão Xirikwata”

- Escritos boligrafados da minha mochilaAleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018 

Por: T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

kasane12.jpg Nunca fiquei a saber se os jornais locais deram noticia com foto do aperto de mão entre mim T´Chingange e San Nujoma, o presidente do Movimento de Libertação da Namibia que se tornou o Presidente do novo país, Namíbia. O encontro do Shitemo, mesmo à magem do rio Okavango ou Cubango, em principio, era um encontro entre o líder e militares da Ovobolândia, os guardadores responsáveis da segurança nesta natural fronteira.

Esta reunião neste rio fronteira, aconteceu também com os mais destacados comeciantes da região de entre o Rundu e Divundu dos quais Miranda, o personagem que sempre destaco em minhas falas empregnadas de cacimbada catinga, numa forma ou jeito nada erudita ou de destaque literário. Ao certo, nunca soube se a Swapo ou o Departamento de Segurança Interna da Namíbia  estava vigiando os meus passos, um turista bazungo.

Sim! Um turista bazungo com passaporte de muzungo (branco) português disfarçado com colete de zuarte, um quico besuntado de raspas de biltong e restos, destroços de pão duro rask, muitos bolsos, um canivete macgyver e um crachá da UNITA um galo em cerâmica dado a mim, por mérito creio, pelo meu herói de nome Alcides Sakala e, assim muito bem seguro  com boas linhas,  cosido no forro deste traje de caçador de elefantes.

paracuca17.jpgPara o que desse, viesse ou conviesse assim levava escondido meu distintivo de convicta afeição e convicção mas, o certo é que não tive qualquer contratempo em minhas andanças, nas  descritas verdade turísticas de bazungu, um verdadeiro matumbo a fingir de autoguerrilheiro de boligrafo, em pleno segredo numa odisseia passifica que só agora desvendo.  Assim, compartilhando com a natureza, bichos e afins, só eu e José Pedro Cachiungo um dirigente do galo negro em funções em Lisboa, sabia chamar-se de “Xirikwata – o pássaro comedor de jndungo”…

Não obstante a postura dos governantes de Windohek mostrarem dureza no trato, as autoridades regionais faziam vista grossa às movimentações que o comércio local fazia com a UNITA, com a Angola do outro lado dos rios Okavango, e Quando. Em realidade de um e outro lado eram gente com o mesmo passado, falando os mesmos dialectos, uma região conhecida por Ovobolândia com família distribuída por ambos os lados, do Calai ou Mucusso.

okakau1.jpg Constatei que o comércio floria em prosperidade, talvez de forma corrompida mas, tudo se vendia. No Divundo, tivemos necessidade de comprar mantimentos no shop do Miranda ao cuidado de sua filha Ana Maria e, de todos os pacotes de bolacha que compramos só um estava no prazo de validade. Foco isto porque era uma prática comum, região não vigiada pelas autoridades que nada queriam ver  por vista grossa em troco de uma bateria para o carro ou de um saco de  mandioca.

Esta quase inconfidência, pode até considerar-se uma falta de cortesia de minha parte sendo sempre tão bem acolhido pela família Miranda e, sempre a custo zero  mas, que me perdoem por esta lisura em minha franqueza – foi uma época, um tempo. Em terras do fim do Mundo vale tudo; com a minha missão de xirikwata africana, nada de anormal sucedeu em minhas transacções mas ouvimos sim, relatos de coisas mal paridas e defuntadas em agruras de por dá-cá-aquela-palha…

ÁFRICA13.jpgO encontro com Pedro Rosa Mendes, autor do romance ficcionado de “Baia dos Tigres” desaconteceu aqui em Divundo em Junho de 1997, no shop da Ana Maria de Andara.  Fiquei a saber antecipadamente as agruras de Pedro Rosa Mendes descritas em seu livro, lidas mais tarde e da periclitância da guerra que se julgava não ter fim; não fiz muitas ondas porque o meu percurso de passeio não tinha o mesmo objectivo que o dele e, também não sabia o que ele viria a descrever em suas crónicas faladas via rádio todos os dias com o M´Puto. O meu anonimato prevalecia a tudo naquele então – Não podia mesmo fazer ondas nem cavalgar surf em seco…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:30
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2023
VIAGENS . 83
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3493 – 25.09.2023
– Em Mukwé, Andara e Shitemo nas margens do Cubango
- Escritos boligrafados da minha mochila – Aleatoriamente após 1975 e, entre os anos de 1999 a 2018
Por tonito3.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

okavango3.jpeg O ser humano sendo contraditório, sem que eu mesmo possa fugir à regra gosta de pequenos deuses, afeições apenas para acalmar a consciência como “chaveiros”, “amuletos, “figas”, “estrelas” entre outros. Por repetição faz isso de forma automática e por isso acaba acreditando em sua intuição. Faz anos que ando com um dente de facochero preso ao fio colgado no meu torcicolo para fazer fugir as bruxas e cinquenta dólares feitos bissapas todos amarfanhados no forro de um casaco para subsistir no mundo, estando à rasca. Sim, lembrei! Apontei algures seu nome mas, com o ronco da pacaça fazendo frente ao leão, meu coração pulou de medo juntamente com o papel de embrulho gorduroso de envolver manteiga no lugar do Mukwé

Assim foi! Aquele papel ficou no mato vadiando-se com o vento portador das primeiras chuvas, águas que dão cheiro à terra fantasiando nossas lembranças. Cheiro de chuva, um cheiro difícil de descrever – só mesmo cheiro de chuvaE, foi João Miranda que nos acolheu às margens do Okavango; uma casa totalmente construída em madeira no lugar de Andara em Mukwé; um lugar com ocultos mistérios do canto Xirikwata - um pássaro comedor de jindungo. Não muito longe dali, no mapa pode ler-se no lugar do Omega Um, Military Ruins – lugar aonde chiam segredos de ferrugem abandonada.

okavango5.jpeg Coisas mal oleadas com negócios de madeiras, diamantes, chifres de elefantes e muita aventura em frente dos olhares de hipopótamos. É Miranda que me chama à atenção das muitas infra-estruturas militares que ali existiam e que tiveram grande intervenção no desenrolar da guerra em Angola. Assim falávamos, cheirando o churrasco do brai em fim de tarde, enquanto se bebia gim com água tónica para nos esquindivar dos mosquitos.

Seguíamos viagens só em rumos de falas saindo dessa imensidão de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, Land-Rover, Fords ou Chevroletesterra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.O que ficou preso ao meu cerebelo gustativo foi aquele café cheiroso servido pela manhã a escassos metros da corrente do rio Cunene no meio de uma ténue névoa de cacimbo.
Nunca mais esqueci esses momentos de alegria de conversa solta, com estórias, anedotas e bizarrices passados com Dona Elizabete (falecida recentemente) que falava com o gentio com estalidos bem como João Miranda, seu marido e patrão do kimbo. Juro que tenho saudades de seu tão lindo riso, da sua empatia e do trato tão jovialmente belo. Para além de ter visto coisas do meu agrado, guardei em mim as falas que ouvi de patrícios e carcamanos embebidas em um tempo que se pretendeu esquecer e, que se colaram a cuspo no subconsciente para não ferir susceptibilidades.

dia001.jpg Relembrando Luandino, digo taqualmente como ele afirmou: - “as lições da vida têm de ser sempre passadas a limpo, só nossa morte é quem pode ficar em rascunho”. João Miranda, um chefe do mato, o senhor dos anéis num lugar esquecido mas muito especial pelo envolvente mistério de sua fuga de Angola. veio a fazer parte do batalhão Búfalo chefiando os bushmens na investida Sul-africana a Angola, naquele distante ano de 1975.

Sabendo de antemão que neste mundo só os anjos não têm costas, João Miranda contou com detalhes esses dias de guerra! Isto é mato, amigo! Dizia após longas falas como dando um finalmente àquele passado, falando virgulas desse conturbado tempo. Este lugar de fim-do-mundo deve por certo haver um Deus, que nos julga em cada dia e diferentemente, de acordo com o que viermos a ser em cada dia. João Miranda era agora um bem-sucedido empresário, amigo de San Nujoma.

okavango02.jpeg Naquelas reuniões de falas de beira rio, as verdades toldavam a mentiras e, a mentira mais descarada que ali ouvi foi a de Oliveira, um amigo que por ali conheci e que ia e vinha até o Mucusso, aonde estava umbigado, com uma dama com o conhecimento da UNITA. Pois não é que num belo dia pensou ter morto uma zebra e, estando a abrir a mesma, depois de separarem seu couro com um rasgão ao longo da barriga, qual é o espanto de num entretanto de distracção ela, a zebra, levantar-se e fugir com as peles a dar a dar batendo-as, como se asas ou orelhas de elefante, o fossem. Esta peta, ouvida com atenção de verídica ficou-me entalada na mente até hoje… E, ainda hoje ao lembrá-la, me rio…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:07
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2023
VIAGENS . 79

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3489 – 19.09.2023 No Shoba Safari Lodge de Kasane

- Escritos boligrafados da minha mochila, em KASANE, às margens do Cunene e Shobe – Entre os anos de 1999 a 2018

Por chicor4.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Malambas4.jpg Pois! E, porque me  deparei com falas de lugares já passados e, não descritos aqui, abro um parêntesis para tapar e rever essa lacuna: Dias atrás muitos cheios de pó, chegamos a Nata no Botswana, bifurcação tendo pela esquerda via Namíbia, lugar aonde já passamos de Epupa Falls e Delta do Okavango e, pela direita atravessando várias reservas até chegar a Kasane às margens do rio Shobe que em Angola se chama de Cuando. Pois foi por aqui que viemos até aqui – a Kasane.

Pernoitamos ali, em Nata, no Pelican Lodge aonde se recolheu informação com outros aventureiros bazungus, de qual o melhor caminho a seguir e outros detalhes. Tinhamos a opção de acampar ou ficar em um dos chalés e, optamos por alugar dois destes. O alojamento dispõe de restaurante à la carte onde comemos à base de carne de caça, uma sempre boa opção.

caprand0.jpg Aqui o Pelican,  oferece passeios panorâmicos para o Santuário de Pássaros em Nata dentro das Salinas Makgadikgadi mas, nossa intenção era continuar  até o santuário do Shobe e Kazungula. Durante o Jantar, um grupo de bailarinos tradicionais deu uma prova da dança tipicamente africana com tambores com alguns detalhes de danças usadas pelos mineiros na tradição da dança "gumboot" do Soweto e Lesoto; cantar e dançar os ritmos do Botswana - Diversão especialmente dirijida para um grupo de bazungus idos da europa, ali hospedados.

Era suposto encontrarmos muitos animais no percurso, um domingo, ao atravessarmos as reservas de Tamfupa, Sibuyu, Kazuma e Nogatsaa mas, os quilómetros foram desvanecendo a avidez e os olhos já cansados de tanta secura entre um gole e outro de água de garrafa, foram escorrendo conversas de profecias ainda mal entendidas.

macu5.jpg E, veio à tona aquelas profecias sobre a Inglaterra e África do Sul; aquela que diz que a Inglaterra será atingida por 7 pragas quando a 3ª Guerra Mundial estiver próxima. Isto já o foi contado lá  atrás, por isso passarei à descrição da tal Ilha com uma bandeira gigante do Botswana no meio do Shobe e, na qual andamos vendo confortavelmente no barco do Shoba Safari Lodge de Kasane.

Aquela ilha que tem o nome de Sidudu/ Kazakili Island esteve até há questão de poucos anos em disputa na definição de fronteiras pois que a Namíbia reclamava como sendo sua mas, o Tribunal Internacional deu posse definitiva ao Botswana. Aqui está a justificação de tão grande mastro naquela planura tão verde e tão cheia de animais.

cos3.jpg Pudemos assim ver as margens do rio Cuando a confrontar com o parque Kasika da Namíbia e o canal Shobe no lado do Botswana. Esta missão exploradora serve somente para revestir-me de uma armadura contra as megalomanias daqueles que julgam possuir todas as chaves de abrir todos os becos, todas as quelhas, todas as picadas sem declarar seu próprio fisco à sua alma. Sei porque digo isto mas, saiu, saindo…

O Rio Cuando e o canal Shoba desaguam no rio Zambeze e, é aqui em Kazungula, mesmo ao lado, que confinam quatro países: Botswana, Namíbia (ponta da faixa de Kaprivi), Zâmbia e Zimbabwé. Foi um dos momentos altos como uma odisseia das potholes (buracos); aí estão os bazungus, mais que muitos, a pagar caro para ver a natureza. Há gente de todas as nacionalidades mas, maioritariamente da Comunidade Europeia. Troquei impressões com três espanhóis que amavelmente nos deram indicações sobre trajectos por conhecer. Bola pra a fente!  Agora sim,  iremos de volta ao Okavango passando por Catima Mulilo…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:44
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Sábado, 9 de Setembro de 2023
VIAGENS . 73
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3473 – 08.09.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila, “de Maun a Francistown - Botswana ”
Entre os anos de 1999 e 2010
Por sertão2.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Fracistown1 Hoje, o certo é de que quanto mais se sabe mais se sofre. Há fastio de inteligência! Há tédio! Há vontade de mandar tudo fora e partir vidraças, emudecer brilhos, despedaçar bocejos. Mas, desde quando um carneiro tem orgulho? Tão abarrotado de civilização, espreito os meses farejando raças sob o abrigo de suas telhas ou, carraças em suas orelhas.

Telhas vãs no calor da lareira, panela atestada de couves tronchas, frigideiras com unto branco de porco, uns chouriços de pendão, panelas tisnadas, trempes de ferro sempre aquecidas entre troncos de oliveira e borralho esparramado: Nestas visões passadas de meus ancestrais, revejo como todos os dias se processam milhares de pensamentos como estes, aonde pequenas decisões determinarão através de mecanismos intrincados que, tudo o que os sentidos captam (odores, sons, imagens) causam impressões indeléveis na mente.
Com destino à cidade de Francistown, lá prosseguimos viagem a partir de Maun do Botswana, por estrada pavimentada, pisando o Kalahári, quilómetros na savana, vendo de quando em vez, aglomerados de kimbos no meio de muxitos, tufos verdes e palmeiras com folhas acerosas. Com o planeado destino, rolamos quilómetros na savana, observando o já dito, burros atravessando a estrada sem rumo, abanando as orelhas a saudir moscas, abutres fazendo círculos aqui e mais além. Bebendo água mesmo sem ter sede para não desidratar e, para alimentar as glândulas dos olhos e garganta, falavamos e viamos pelos cotovelos, miragens virarem paisagens de água.

Fracistown2 Muita água feita oceano com barcos à vela e vapores… Andamos assim, somando falas ao longo da distância, coisas que ocorreram antes e durante os longos anos da crise Angolana, após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional; assuntos correspondendo à diáspora de muitos angolanos e afins chamados de refugiados, retornados e transtornados, espalhados pelo mundo, como se o fossem salalé tresmalhado, pontapeados por ideários gravadas à exaustão no excepcional computador - nosso cérebro.

Verdade: - Na Dipanda, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios). A roleta da vida dá muitas voltas, quando por vezes sentimos o peso do mundo que carregamos às costas, como se fosse um embondeiro; noutros, mercês de circunstâncias inesperadas, haverá o privilégio de estarem sentados confortavelmente no topo dele, usufruindo em ter ao seu redor um batalhão de servos pagos para adivinharem e satisfazerem todos os caprichos ou fantasias sonhadas – os funcionários da nomenclatura…

francistown01.jpg A cada ai, a cada ui, aparecerão centenas de comentadeiros a decifrar porque assim tossiu, assim baliu, assim mugiu, lendo nas entrelinhas e supondo ter nas cuecas maços de falsas notas verdes, feitas dinheiro… Neste deserto que atravesso, Botswana, vejo figuras rarefeitas entre bandos de estorninhos migrantes, diluídas na essência ondulada dum ar que tremelica no calor da miragem, também do que se pode ver em uma falha, na textura de uma velha casca de árvore com um lagarto pré-histórico camuflado de fenda. Pode!?

São formas escorregadias da realidade guardadas em meus armários, baús, que preenchem o quase-tudo do grande nada de minhas vivências. Observá-las com verdadeira atenção, transformando-se em centenas de momentos sagrados, só meus. E, sempre na busca de uma vida interessante, aventureira, apaixonada e diferente, trilhando trilhado por África procuro-me entre anharas, savanas e desertos de longas e altas dunas, lugares do cu-de-judas ou terras do fim-do-mundo sem os banais pormenores das urbes, cheias de semáforos…

francistown03.jpg Lugares de sermos confundidos como caçadores de elefantes por tanto pó salobro das tortuosas picadas, expostas ao sol impiedoso; ao calor abrasador dos dias e dos frios cacimbos húmidos a envolver noites com manto de espesso escuro; bem perto uma hiena parece chorar ao redor de uma carcaça fedorenta, carniça de vida sobrevivente. Lugares longinquoas de grandes metrópoles, com gente empoleirada até ao céu. A caminho de Francistown– Vou – Vamos! O sol tem ondas de ferroadas quentes que machucam na ida da vinda de nossos dias…

(Continua...)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:42
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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2023
VIAGENS . 70
 
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 348004.09.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila - Em Maun Rest Camp, cidade de Maun no Delta do Okavango…
Por tonito11.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

maun07.jpg Botswana, território que começou a ser desvendado por exploradores a partir do século XVIII, deram-lhe o nome de Bechuanaland mas, após a sua independência em Setembro de 1966, toma o nome de Botswana com junção do prefixo "bo" que quer dizer homem em língua Bantu a de "Tswana", nome da tribo mais numerosa daquelas paragens

Realizando regulares eleições ao invés de outros muitos povos de África, é considerado um exemplo de estabilidade política. Botswana é um grande planalto árido situado bem no interior de África meridional. É daqui que saem para o resto do mundo os mais puros diamântes dando ao povo um modo de vida melhor equilibradao do que a grande maioria dos países do continente negro.

maun8.jpg Os principais grupos étnicos são os Tswanas, Kalangas, Khoisan entre outros dos quais os brancos nativos dali e indianos que para ali foram idos do Quénia, Zâmbia, Tanzânia, Ilhas mauricias, África do Sul e principalmente do Zimbabwé aonde a instabilidade ditada por Robert Mugabe (já falecido) a isso obrigou.

Deitado de barriga virada ao tecto de lona da tenda, a osga gorda estuda-me com seus olhos oblíquos – também aqui há osgas gordas, indicação de que também aqui há mosquitos. Acena por várias vezes, parece cuspir qualquer coisa e depois refugia-se no escuro ficando a espreitar entre a costura do tecto e o pau avermelhado da espia tecto de sisal. Ainda não eram horas de dormir mas estava relaxando do almoço feito de chocos e mexilhões “apanhados” no supermercado Spar de Maun…

maun05.jpg Aquela osga era-me familiar, dei-me conta de que só ela sabia alguma coisa da minha origem, minhas andanças. Sim! Quase percebi, chamar-me de Niassalês – sentia-me reduzido a um ponto de interrogação; acho mesmo que aquela gorda osga via pessoas que mais ninguém via ou conseguiria ver. Nesta questão de instantes o tempo murchou-me a vontade de entender se o pior era eu não suportar o balanço das potholes (buracos) ou as quezílias do tipo de entre gémeos.

Convêm saber: -A Republic of Botswana, em tsuana é um país sem ligação ao mar. Sua capital é Gaborone, que é também a maior cidade do país; seu relevo é plano com o Kalahári ocupando 70% de seu territário. Sua fronteira com a Zâmbia ao norte, perto de Kazungula no rio Zambeze, com travessia feita por ferry-boat por onde já passei, é um lugar que destaco pela diversidade e beleza que marca a fronteira com este país.

IMG_20170720_104337.jpg O Botswana em 1966, era a segunda nação mais pobre do mundo. Desde então, transformou-se numa das economias mais consistente, com um alto rendimento nacional dando ao país um padrão de vida modesto. Apesar de sua estabilidade política e considerável prosperidade, o país está entre os mais atingidos pela epidemia do HIV/AIDS; estima-se que cerca de um quarto da população, seja seropositiva.

Lendo descrições antigas dos khoisans, revejo-me em Silva Porto a descrevê-los: Magros, ossudos, envoltos em peles de leopardos ou chitas e com os cabelos penteados em tranças longas. Também aqui, são os grandes caçadores desta parte de África; dóceis e selvagens no aspecto como sempre são referidos descendo e subindo ao longo das linhas de água aonde só corre água quando chove. Mulolas que lhes mata a sede com seus charcos (água do subsolo, a pouca profundidade). t´chimpacas naturais com nomes de t´chicapa e, em terra de mwene-mãe nos sertões com nomes de Lubuco ou Lubo, distantes do principal rio, o Cassai, aonde as manadas de elefantes são às centenas.
(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:34
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Domingo, 3 de Setembro de 2023
VIAGENS . 69

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3479 – 03.09.2023

- Escritos boligrafados da minha mochila - Em Maun Rest Camp, cidade de Maun no Delta do Okavango

 Por soba002.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

maun09.jpg À entrada da fronteira do Botswana em Popavalle ou Popa Falls, um posto fronteiriço, deparamos com o aprumo de agentes aduaneiros que nos atenderam duma forma surpreendentemente civilizada ao invés de outras anárquicas fronteiras aonde tudo se resolve com uns quantos dólares de gasosa.

Com os restos de murmúrios falsos, tinhamos a ideia formada de que o Botswana era um país esquecido com muitos burros mortos na estrada e desordenadas lixeiras, a comparar com outros países aonde impreparados chefes exibem arrogância impregnada de devaneios mal curtidos mas, foi um total engano.

Conhecer a terra é em verdade um laboratório de vida constante porque nos purifica e regenera. O corpo é em verdade o pára-choques das emoções recolhidas da terra. Estes kimbos, na forma de quilombos com paliça em circulo e, a contornar palhotas redondas, rondáveis feitas a barro com bosta de boi chapados à mão nos entrelaçados chinguiços amarrados a mateba (casca de àrvore ou arbusto) - a taipa; numa vastidão de capim ralo, formavam conjuntos harmoniosos.

maun12.jpg Algumas cubatas, ficam circunscritas com cercas de paus, chinguiços duros dispostos em ciculo e, com uma só entrada, enterrados e afiados nas pontas viradas ao céu, com o  fim de proteger das feras a quem ali vive. As lembranças de coisas passadas podem confundir-se com o hodierno numa amalgama de engravidadas verdades e no exacto momento de sobrevoar o kimbo grande de Maun, feito cidade de paliças no Botswana, desfrisei essas visões à mistura com os horizontes verdes de água silenciosamente parada deste Delta do Okavango.

Falo na qualidade de gente feita  zebra, nem preto, nem mulato, nem branco de verdade porque o tempo desclassificou-me no quente vento da saudade. Saudade desnorteada no sonho encardido, juntando umas lágrimas ao Delta do Okavango e, lembrando a Angola da Lua da minha infância suburbana, amulatada do bairro da Maianga, inícios do Catambor…

maun001.jpg No Delta do Okavango, cidade de Maun instalámo-nos em duas tendas do tipo campanha militar no Maun Rest Camp. O Motsentsela Tree Lodge tinha melhores acomodações mas nós preferimos sentir a natureza mais próxima através duma lona esverdeada ao jeito daquelas vistas em filme do Tarzan e, assentes em um estrado de madeira; os banheiros eram uns caniços esparsos instalados a meio do Rest Camp, sem qualquer cobertura o que, para alguns utlizadores, os  inibia em usar, principalmente durante o dia destapado do escuro.

Maun é uma das cidades mais caracteristicas de África mantendo a tradição de construção redonda feitas em taipa de barro e paus cruzados, sendo cobertas a capim de canudo grosso caracterisico das margens do rio Okavango. No dia seguinte alugamos uma avionete e sobrevoamos o Delta a duzentos metros de altura vendo do ar, todo o tipo de animais desde o hipopótamo ao elefante, distribuidos em grupos naquela enorme extenção de charcos serpenteados por verdura, ora rasteira, ora de árvores de grande porte.

maun02.jpg O explendor da biodiversidade estava ali espalmado ao redor fazendo-nos imensamente pequenos num pantanal maravilhoso (opântano do Okavango). Vivendo os dias no limite, queriamos que as coisas perdurassem assim seduzidas. Já distantes do Sul de Angola, linha de Calai, Dirico ao Mucusso, extravasando a face oculta do meu personagem "espia", mantinha-me fiel aos princípios éticos recolhendo vivências dos povos circundantes a Angola.

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:24
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2023
VIAGENS . 66

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3476 – 30.08.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila - no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein – No Otjozondjupa da Namíbia…
Por FK2.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fiume02.png Aconteceu em paz, divorciar-me de mim, dando a chave do cofre ao mestre da charrua da vida, pensei assim aqui e, neste lugar preciso aonde judas perdeu as botas. Às vezes fico meio periclitante com Ele, o Nosso Senhor. Mas, adicionando casos e acasos, coisas miúdas, estendo minhas quinambas, mexo os dedos grande e o pequeno do pé revendo-me no equilíbrio da realidade tão bem fabricada: com a destreza bóher de fugir intuitivamente aos espinhos das acácias dum tamanho quilométrico, um exagero de 99,999%! Isso, de uns bons 10 cm…
Até já estou ganhando olhos nos pés, talqualmente como o homem que teimou em plantar batatas no deserto e, que por via dum sonho, teve-as – um milagre feito em toneladas de tubérculos a que os cientistas não têm a devida competência opinativa para o subtrair – o milagre.
E, porque foi que viemos aqui, se não era necessário afastarmo-nos tanto, a um lugar tendo por testemunho absoluto o céu que nos cobre, para onde quer que se vá. Para provar, que o que tiver que acontecer acontece, haverá sempre o lema: um milagre em que as pessoas, não escolhem os sonhos que têm; foi em duas noites passadas em Windhoek seguindo um destino dormido na Guest House Willtotop de Vanda Potgieter, esperando assim seguir o rumo ainda por escrever.

fiume8.jpg E, numa singular legitimidade, partilho só um pouco de um reino emprestado, aonde todos são presumíveis herdeiros e arrendatários. Quem não acreditar que assim o é, que se lixe! Pois! Reino, aonde o tempo, também passa igual para todos - Segui na direcção de Okahandja, Otjivarongo, Otavi, Grootfontein com paragem neste Fiume Rust Camp de Otjikango com o rumo do Rundu no Okavango.
Pois foi a Vanda Kikas Miranda que amavelmente marcou minha reserva de estada no Rest Camp Fiume, o lugar que aqui descrevo com a surpresa de reavivar uma estória desconhecida. Bem! Aqui estou neste estado LIVRE de FAZ-DE-CONTA em África, em um lugar longe de tudo, Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.

khoisan02.jpg Pesquisando a Wikipédia pude assimilar: Os cidadãos de Fiume lá da Croácia actual, de etnia italiana, um grande número emigrou por motivos étnicos ou razões ideológicas, fundando aqui, como em outros lados, "Comunas Livres de Fiume no Exílio". Numerosos fiumanos e, não sómente italianos, surgiram aqui e, desta forma, montaram bivaque após a Segunda Guerra Mundial
Tenho a dizer que a todas as perguntas que me possam fazer, não poderei dar todas as respostas porque nem sempre as estórias e lendas, conservam alguma relação com os factos, transformando-se até em puras fábulas. Será o caso de uma “Croácia de 14 km 2” em pleno mato da terra do nada, para satisfazer um sonho de alguém. As guerras provocam estas diásporas; alguns estabelecem-se algures, outros procuram algo que nunca irão encontrar, como no meu caso… Eu, que saí de Angola também tive este sonho: acampar-me na foz do Amazonas…

fiume12.jpg E, assim ungido de guerra "tunda munjila" (branco, vai embora), agora era o tempo de me ver no principio do nada, nada que resvalou num sempre. Tomamos o breakfast às sete horas do seguinte dia confirmando o legitimo cuidado de Jorn Gresssmann, o zelador-mor do Free State, uma simbólica herança, um perfeito sonho de um primogénito em terra de nome bizarros como Omatako, Okavarumendu, Otjssondu, Okakamara, ou Otjinoko. Já só restavam 440 km para chegar à Andara do Okavango. Mas antes, terei de descrever pela via da cábula Wikipédia, essa terra de Fiume, lá na Europa, no Mar Adriático…
(Continua…)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 09:39
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Terça-feira, 29 de Agosto de 2023
VIAGENS . 65
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO REINO XHOBA - (HOODIA)
"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3475 – 28.08.2023
- Escritos boligrafados da minha mochila - no “Estado Livre de Fiume” em Grootfontein
– No Otjozondjupa da Namíbia…
Por:

fiume6.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

fiume10.png Ainda em terras da Namíbia e antes de chegar ao Rundu, um destino base em minhas, nossas andanças, pernoitamos em uma fazenda quase tão grande como o original Fiume, uma terra situada na Europa, que já foi Italiana e uma cidade estado. Já foi Croata e, desde 1947, pertence à Jugoslávia. Pois isto parece irreal em África mas aconteceu!

Dado que os homens para tudo querem explicações, eu também quis saber um pouco da história do lugar aonde passei e ali permaneci por dois dias em duas vezes e, em diferentes datas.Surpreendi-me com tudo o que ouvi, que vi e do que pesquisei, pois que a este lugar com 14 km2 foi dado o nome de Fiume Rust Camp situada na área administrativa de Otjikango.

Fiume11.png Como disse, Fiume, foi uma cidade-estado da história contemporânea, entre 1920 e 1924, na actual cidade de Rijeka, na Croácia. Este Fiume Lodge e game farm, mantêm sua excêntrica soberania ostentando a bandeira da Croácia de forma simbólica.

Com metade da área daquela ex-parcela europeia tem (ou tinha) Jorn Gresssmann como zelador-mor de uns quantos habitantes khoisan residentes e uns quantos turistas ocasionais que por ali vão chegando. Os demais habitantes são bichos tais como girafas, elands, kudus, orixes, zebras, springboks, hartebests, e avestruzes entre outros, de mais pequeno porte.

fiume0.jpgTive de abrir três portões até chegar ao conjunto de lapas, chalés bem ornamentados e cobertos a capim do okavango formando um complexo de apartamentos em circulo e, um outro conjunto formando a recepção, bar, restaurante e cozinha. Nas duas entradas controladas por vídeo, existem duas fiadas de arame sendo a interior alta e com fios ligados a corrente continua para evitar fugas de olongues por via de salto ou encosto.

 
Entre o bloco de serviços e os chalés lapa em forma oval está disposto um agradável jardim com grama e plantas exóticas ornamentais enfeitando o conjunto com piscina, d´jango de descanso, lugar de braseiro e árvores de porte bonito autotnes. Em realidade é um oásis no meio de um nada, oceano verde de espinheiras.

FK5.jpgAté este núcleo habitacional, tive o cuidado de ir a passo de morrocoi tendo-me desviado de um cágado e um sengue (lagarto grande) passeando ao longo da picada. A receber-nos lá estava Jorn desfiando seu austero calendário; deu-nos escassos minutos para inicio do jantar que impreterivelmente era servido às sete horas, inicio da noite, e dali deliciando-nos entre outros acepipes, carne de gnu e de eland fechando com creme de manteiga escocesa, assim ao jeito de baba de camelo. E. dali podíamos ver através das janelas de vidro e rede anti-mosquito os muitos kudus que ali vinham beber entre avestruzes e springbokes como se sentissem obrigação de se exibirem a nós, antes da noite. Foi mais um fim de dia com surpresa inesperada, um “enjoy you stay” no requinte da sempre agradável Windhoek lager.

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:16
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2023
VIAGENS . 60

NAS FRINCHAS DO TEMPO – DO KUNENE na terra do NADA

"DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3470 – 21.08.2023

- Boligrafando MISSOSSOS de OSHAKATI do KUNENE, mais a norte

- Foi no ano de 1999

Por jacaré1.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

jacaré.jpg NO KUNENE, Aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado em Ondjiva (antiga Pereira d´Deça) no lado de Angola!... Rodrigues, seu primeiro dono, deu-lhe o nome de SUNDIAMENO. Isto, quase-quase é um  missosso, da literatura oral angolana, contos, adivinhas e provérbios com homens, monstros, kiandas de Cazumbi, animais e almas dialogando sobre a vida, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de dialecto quimbundo e ovibundo. Óscar Ribas, um escritor cego que tive o prazer de conhecer na Luua, foi o seu criador.

No fogo do pó levantado do chão vermelho, margens do Kunene, os kandengues himbas dançavam com um jacaré domesticado; desconhecia que um jacaré podia ser domesticado mas, os olhos meus, me diziam no seu ver, que aquilo visto, era mesmo de verdade verdadeira. Vejo e aprendo que a natureza muito nos ensina com seu riso de muitas flores riscando no firmamento cinza com branco a azul, musgos de nossas velhices coloridas a vermelho com laranja.

ondjiva3.jpg Pus a mão no meu cérebro buscando naqueles milhões de células apalpar qual daqueles cabelos feitos bissapas estavam fora do sítio para entender aquela cena inaudível, inacreditável! Sei que tudo em minha vida resulta de guardar sempre comigo a esperança monandengue; de espiá-la com olhinhos de a ver balouçada no arco de minha sobrancelha.

Como se chama esse jacaré! Perguntei ao jovem mais próximo. – Com a boca! Respondeu o pivete. Pintado de coisa ruim consegui domesticar meu frenesim raivoso, e continuei: - Sim! Mas tem nome, não tem? – Chama-se de Sundiameno. Disse! Fiz uma cara feia, de nariz torcido e, ele, vendo-me embrutecido repetiu. É mesmo de Sundiameno porque não é de fiar! A gente lhe desconfia, acrescentou.

 – Nem nele, nem no pai dele! Concluiu. Esta conversa tola seguia um rumo desclassificado e, foi neste então que vi sentado num banco de pau feito e atado com matebas, um mais-velho de barbas credíveis e brancas, também chambeta de condição. Dirigi-me a ele e entabulei uma conversa séria, falamos do rio Kunene e de seus mistérios.

cunene01.jpg Foi este mais-velho kota, já século, que me descreveu alguns mistérios e, que passo a referir: - Olha mwadié (branco) este rio tem muito cazumbi e muito feijão branco. Um dia ajudei um gweta, t´chindele Rodrigues, branco assim como tu, que domesticou desde criança, um jacaré a apanhar diamantes para ele. Saiu daqui muito de rico! Afirmou isto e, em seguida, apontando para suas muletas de fibra sintética disse:

-Foi ele que mas ofereceu! No lugar aonde o rio se esconde, fizemos acampamento por muitos anos até que chegou a guerra da libertação e, ele seguiu com a sua gente (refugiados / retornados). Este segredo, eu conto a toda a gente! Conclui na sua sabedoria filosófica de cat´chipemba com bolunga Lubanguista. Por ali passaram gado, camiões e máquinas amarelas de fazer estradas. Abriram umas picadas e depois seguiram para Walvis Bay e Swakopmund da Namíbia. O mistério daquele jacaré estava quase desvendado por mim, mas, na dúvida sobrante, perguntei: - Então, este jacaré kianda, apanhava os feijões brilhantes? Talqualmente! Respondeu o kota num claríssimo português com pronúncia do norte do M´puto. E, continuou: - Pois, fui eu mesmo que fiquei com estas muletas e esse jacaré Sundiameno.

ondjiva2.jpg O mundo é por demais misterioso! Nunca que eu ia acreditar nisto se não visse! O mais velho de nome Oshakati Primeiro, ainda me disse outra coisa em que não acreditei (juro mesmo!): - Sabes que mais, disse ele. Esse jacaré toca guitarra! Acompanhava muitas vezes seu antigo dono a cantar fados duma tal de Amália, uma sua prima muito conhecida lá do M´puto! Isto era demasiado para a minha camioneta; meti-me no four-bay-four e segui para Ot´xivarongo. Conversando com um outro velho amigo de Oshakati Primeiro, piscólogo do Kalahári de nome Ot´xivarongo de Tuji, disse-me já ser conhecedor desta estória e, surpresa das surpresas, aquele jacaré era gente! Gente boa que nasceu em corpo errado! Juro que tudo isto me transcende! Agora que contei, está contabilizado…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:24
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Domingo, 20 de Agosto de 2023
VIAGENS . 59

NAS FRINCHAS DO TEMPO – OTJIKOTO LAKE na terra do NADA

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3469 – 18.08.2023

- Boligrafando estórias de OTJIKOTO, perto do ETOSHA PAN - Foi no ano de 1999

Por dy15.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

otjikoto6.jpgOtjikoto é um lugar aonde as musas lambem rochas - A poucos quilómetros a Norte de Tsumeb, na Namíbia, encontrei o angolano M´c Giver, zelador do buraco de sonho Otjikoto e tocador de baladas enlatadas, também anestesiadas de bolungas extracurriculares. Foi um fortuito encontro de amizade desértica. M´c Giver, tinha uns olhos visgosos tocando com gula a vida de simpatia numa velha viola feita em lata de azeite galo.

Aquele artefacto à qual chamou de “viola galo cantou” na qual fez aplicações com madeiras de cacto e buracos encantadores de assobios espaciais, havia sim, sonoridades extra particulares. Tanto assim que que ele, o M´c Giver teima em dizer terem sido trazidos do Kuito de Angola pois que, até exalavam cheiros de pólvora duma guerra que se extinguiu demasiado catingada É uma coisa assim nunca vista. Esta tecnologia de ponta deixou-me bem embalado em nostalgia na recordação do “Corimba show da Luua” – Um tocador ex-militar acantonado na vida …

OTJIKOTO5.jpg Os turistas, saídos do Etoscha pela estrada longa B1, porque eram escassos, requeriam atenção desdobrada pelo tocador de baladas. Ali, num lugar distante de tudo, na terra do nada, um poço com água de fundura desconhecida, sobe e desce ao sabor dos quadrantes da lua, zuni uma pedra nas suas águas e por três vezes chispou na toalha lustrosa - xim-trás-pum. Estava parcialmente satisfeito o desejo do encontro com aquele, um especial buraco num vulgar dia e invulgar lugar a caminho e regresso do Etosha Pan. Pude averiguar ser o "Otjikoto", derivado da língua Otjiherero que significa "um buraco profundo". Os Khoisan chamavam o lago de "gaisis", que significa muito feio, porque tinham medo de pura cagufa desse grande buraco.

O Lago Otjikoto desempenhou um papel importante como posto comercial antes da chegada dos primeiros europeus tendo sido uma grande caverna de dolomita na área de Karstveld. O lago ficou exposto quando a cúpula da caverna, que agora fica no fundo do lago, desabou (uma teoria). Sua profundidade varia entre 62 mts nas laterais a 71 mts ao centro, embora haja locais onde a profundidade medida ultrapassa os 100 mts; até hoje, ninguém viu sua parte mais profunda.

IMG_20170721_112726.jpgO diâmetro é de aproximadamente 102 mts, com a superfície cobrindo 7 075 mts quqdados. O lago tem o formato de uma cabaça e, o que o visitante vê, é a cauda da cabaça. Até agora o que se sabe sobre o Lago Otjikoto, baseia-se no que foi retirado de suas águas - uma conquista de mergulhadores profissionais que, em seu tempo livre e às próprias custas, passaram inúmeras horas debaixo d'água para determinar o tamanho exacto do lago e descobrir os demais mistérios que ele contém.

OTJIKOTO1.jpgOs mergulhadores estão actualmente com equipamentos modernos, ocupados na pesquisa do lago mistério e, suas cavernas subaquáticas, muitas das quais ainda são desconhecidas. O ambientalista Siegfried Agenbag compilou dados e factos sobre sua história, fauna, flora e sua infraestrutura técnica contemporânea nas proximidades, em análise aos rumores e segredos sobre aquelas águas escuras e sem fundo. Dizem até que, é sim um canal subterrâneo que liga ao mar por via de as águas subirem e descerem como se o fora  maré habitual nos mares, por influencia da lua…

maun8.jpgDespedimo-nos assim do M´c Giver angolano (eramos cinco) das areias e pedras de Otjicoto, do camaleão pré-histórico com picos ferozes e do louva-a-deus escandalosamente verde com a balada seguinte:

Num deserto cheio de vento - Espinheiras resistindo a tudo - A areia longa e solta na limpeza do ar - Da língua envolta em secura; …Na cabeça muitos sonhos - O tempo sem ida nem chegada - Moldura de gente, gente feita zebra - Fluidez imperfeita de uma vida…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 06:49
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2023
VIAGENS . 58

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3468 – 18.08.2023

- Boligrafando estórias de RUACANÁ FALLS a Waterberg Prateou National Park. – Ondundozonanandana -  Foi no ano de 1999

Porkhoisan01.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

khoisan00.jpg Das quedas do Ruacaná, fronteira de Angola com a Namíbia, só vimos o penedo escuro na forma de falésia escorrendo pequenos fios de água envolvendo árvores retorcidas, estendendo aqui e além suas raízes; ao nível da margem aonde nós estávamos estendia-se um lago manso irregular entre tufos de vegetação. Não muito longe do gado beberricando aproveitamos refrescarmo-nos nas águas do Cunene, o mesmo que há muitos milénios desaguava no agora seco lago do Etoscha.

Foi no regresso que tivemos a feliz sorte de ver uma mulher Himba, toda pintada de ocre vermelho com tiras de couro cruzando o peito desnudo e seus carrapitos de cabelo enlameado de barro. Foi um contacto fugidio á beira da picada que liga à povoação Ruacaná mas, no registo das retinas de todos nós ficou aquela figura de gente agora quase em extinção.

otchicoto1.jpg Foi neste percurso e a caminho de Ondangwa que tentamos abraçar um embondeiro majestoso mas, os quatro da tribo não conseguiram chegar à metade. A t´xipala amarelecida relembra a euforia daqueles dias mas que agora estão confinadas à caixa de sapatos do mukifo do soba; O mofo foi lá deixado para preservar o espírito das terras do Fim-do-Mundo junto às petrificadas árvores das terras de Kaokoland, Namíbia Twifelfontein. Rumando a norte para o Okavango, seguimos a direcção de Grootfontein, uma singela cidade no meio da grande chana de África e após o almoço, na revisão de mapas, julgamos de interesse ficar por ali a fim de conhecermos o Waterberg Plateou National Park.

E, porque gostamos do lugar, acabamos por alugar um chalé bem junto à falésia colorida do Plateou entre acácias e, porque não podíamos percorrer com o nosso 4x4 o planalto, inscrevemo-nos no safari da reserva; por lá andamos toda a manha desfrutando paisagens alargadas. O Cudu, Olongue, do buraco de observação, deu um pulo descabido ao clique da máquina fotográfica e desenfreou-se entre capim e pedras.

khoisan03.jpg Já no Camp, o brai de carne estava melhor que nunca e, após tão suculento repasto veio a soneca de passar pelas brasas o tal cochilo. A tarde daquele dia, terminou com uma ascensão entre rochas de escorrida pintura natural em jeito de arco-íris e, seguindo a pista, fomos e viemos já ao cair da noite, de papo cheio de vistas soberbas. A contornar o chalé amiudadamente recebíamos a visita de saguins, bâmbis, capotas e um sem fim de pássaros, bicos de lacre, viuvinhas, celestes e o sempre presente monteiro´s ornebil com seu grande bico amarelo e, adunco.

O Park Nacional de Waterberg com sua bonita meseta, é um espaço protegido, situado bem no centro da Namíbia, ficando a 69 Km a este da povoação de Waterburg. Destaca-se pela sua elevação, bem acima da planície do Kalahári. Com os 405 Km quadrados de terreno circundante, foram declarados Reserva Natural no ano de 1972.

WATER1.jpg A meseta é em grande parte inacessível, pelo que, na década de 1970 várias das espécies em perigo de Namíbia, foram para ali trasladadas para assim as proteger de depredadores da caça furtiva. Em 1904, nas encostas da meseta, teve lugar a batalha de Waterberg, um marco de genocídio dos povos herero e namas (namaquas), perpetrado pelos alemães entre 1904 y 1907. A batalha saldou-se com a derrota dos hereros, muitos dos quais morreram no deserto. Esta zona faz ainda parte da Grande Namaqualândia, escassamente povoada pelo povo khoisan (bosquímanos) que tradicionalmente ali habita - região do semiárido chamado de Succulent Karoo…

 (Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:21
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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2023
VIAGENS . 56
NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”
- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3466 – 16.08.2023
- Boligrafando estórias em NAMUTONI do Etoscha
–Ondundozonanandana - Foi no ano de 1999
Por:Namotoni01.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Lagoa do M´Puto

Namotoni03.jpg Não posso deixar de descrever sucintamente o forte Namutoni pois que faz parte do Park Etoscha, lugar aonde se bivacaram as tropas da Alemanha durante a segunda guerra mundial e que também teve uma forte acção durante as batalhas do sul de Angola quando da consolidação da fronteira com a Namíbia, do tempo em que para ali foram enviados muitos expedicionários portugueses. Teremos de recordar ao de leve esses tempos do início do século XIX, do que foi a batalha de Naulila e a leva de militares nesse então - Alguns, foram considerados, sim! Outros morreram desclassificados até ao tutano que virou cinza…

O Combate de Naulila, ou Desastre de Naulila, é a designação dada na historiografia portuguesa à batalha travada a 18 de Dezembro de 1914 em Naulila, sul de Angola, entre forças portuguesas e alemãs, inserido na Campanha alemã em Angola, da Primeira Guerra Mundial. O combate terminou com a derrota dos militares portugueses, com cerca de 70 mortos da parte portuguesa, entre oficiais e praças. As forças portuguesas foram então obrigadas a abandonar temporariamente o Cuamato e Humbe, territórios na fronteira entre a então colónia portuguesa de Angola e a colónia alemã do Sudoeste Africano.

Namotoni04.jpg Em consequência da perda de prestígio das forças portuguesas as populações de Huíla revoltaram-se contra a ocupação portuguesa. A crise instalada resolver-se-ia com o envio de uma força expedicionária por Portugal sob o comando do general Pereira d'Eça. A Grande Guerra, originou um conjunto de conflitos com raízes na corrida à ocupação da África que se seguiu à Conferência de Berlim de 1884-1885. Por via da entrada de novas potências coloniais em África, a obrigação de ocupação efectiva do território, colónia de Angola, levou às campanhas de pacificação, as quais se prolongaram por décadas.

Portugal assistiu com grande desconfiança e desagrado à ocupação de enormes extensões de território por outras potências dando origem ao conflito com o Império Britânico, que desembocou na ultimato britânico de 1890 em torno do Mapa Cor-de-Rosa, as Guerras Bóhers com o consequente avanço para norte dos bóhers sul-africanos e, por se tratar do surgimento de uma potência sem tradições coloniais em África, criando as colónias alemãs adjacentes – leia-se Namíbia.

Namotoni1.jpg A colónia do Sudoeste Africano Alemão a sul de Angola que impôs novas fronteiras, limitando as pretensões portuguesas naquelas regiões interferiu na missionação portuguesa com o aparecimento de missões protestantes suportadas por organizações alemãs. As razões para a desconfiança mútua que se sentia eram sérias: em causa estavam as fronteiras entre as colónias de Angola e do Sudoeste Africano Alemão (Damaralãndia). Um consenso alargado na classe política portuguesa sobre a necessidade de defender as colónias africanas, traduziu-se no envio, em Setembro de 1914, de forças expedicionárias para Angola.

Para Angola partiu um contingente de 1600 homens, comandado pelo tenente-coronel José Augusto Alves Roçadas, um militar africanista que entre 1904 e 1907 se distinguira no sul de Angola na campanha do Cuamato, uma longa e difícil campanha de pacificação contra os povos cuanhamas. Conhecedor daquele território, em 1914, regressou com a missão de guarnecer a região de fronteira com a colónia alemã da Damaralãndia, incumbido de evitar levantamentos indígenas e de proteger a fronteira.

naulila1.jpg As forças comandadas por Alves Roçadas desembarcaram em Moçâmedes a 27 de Setembro e a 1 de Outubro daquele ano. Em Novembro de 1914, já após os incidentes de Naulila e Cuangar, foram enviados mais 2800 homens para Angola e em Dezembro outros 4300 militares. Nos anos seguintes, o efectivo continuou a ser reforçado. Dos eventos anteriores que levaram ao confronto de Naulila iniciou-se a 18 de Outubro de 1914, quando um pelotão comandado pelo alferes Manuel Álvares Sereno, em patrulha junto à fronteira com a Damaralândia, um território integrado no Sudoeste Africano Alemão, encontrou a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila uma pequena força alemã, capitaneada pelo Dr. Hans Schultze-Jena, juiz e administrador do distrito de Outjo, que tinha entrado em Angola sem prévio aviso às autoridades portuguesas.

naulila3.jpgDe incidente em incidente, a indignação na colónia era enorme e os apelos à vingança sucederam-se. E, deu-se assim o ataque a Cuangar a 31 de Outubro de 1914. A primeira retaliação alemã surgiu logo a 31 de Outubro, quando uma força alemão, sob o comando do comissário de polícia Oswald Ostermann, do posto de polícia de Nkurenkuru, atacou Forte de Cuangar, um posto fronteiriço a leste de Naulila, destruindo o forte e matando, com recurso a metralhadoras, todo o pessoal que ali se encontrava e que não conseguiu fugir para o mato. Este incidente, que ficou conhecido como o "Massacre de Cuangar", marca o desencadear das hostilidades entre as forças portuguesas e alemãs ao longo da fronteira com a Damaralãndia, actual Ovambolândia e, tendo o forte de Namutoni como um lugar bivaque de base à retaguarda… Lugar que, por isso, requer um avivar da história Lusa-Tuga…

(Continua…)
O Soba T´Chingange


PUBLICADO POR kimbolagoa às 14:03
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Domingo, 13 de Agosto de 2023
VIAGENS . 53

NAS FRINCHAS DO TEMPO – NO ”ETOSHA PAN”

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“ - Crónica 3463 – 12.08.2023

- Boligrafando estórias em Okaukuejo do Etosha – Ondundozonanandana -  Foi no ano de 1999

Por:tonito16.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto – (Dia da Lara)

xavier 01.jpg Passeando na paisagem dos silêncios em sonho do “Naukluft”, sigo, seguimos todos e, até perseguimos as ilusões. Fora dali, nem tudo é justo e nem tudo é falso mas o que em mim perdura além das rugas, é o deserto, juro mesmo! Numa sociedade em que já ninguém tem tempo a perder, no deserto, foi e, é ali que eu me preencho longe dos atropelos, mensagens, redes Net e Facebook e o escambau, onde e aonde se oferecem amigos a granel; paletes, como dizem esses 10 mil amigos que  nunca vi, só alguns pucos e, os que vi: esvoaçam ou esvoaçaram-se…

No Etosha, lugar de feitiço completo, pelas vinte e três horas apareceram os leões na poça de Okaukuejo; saí ensonado da tenda para de novo assistir ao majestoso mundo natural duma verdadeira África. O Etosha Pan, é um lago seco de 120 quilómetros formando o chamado Parque Nacional Etosha, um dos maiores parques da vida selvagem da Namíbia.

luua38.jpg A vasta área é principalmente seca, mas após uma chuva forte, ela adquirirá uma fina camada de água parecendo uma miragem, que é fortemente salgada pelos depósitos minerais na superfície. O Etosha Pan é principalmente lama de barro seco dividida em formas hexagonais que à medida que seca, racha, e raramente é vista com essa fina camada de água cobrindo-a.

Foi aqui, no Etoscha, que vi a maior diversidade de animais – um lago seco que quando chove cria uma ténue camada de água que se esvai rápidamente deixando a referida superfície como uma grande panela salgada. No entanto, os rios na forma de mulolas, Ekuma, Oshigambo e o Omurambo Ovambo, são as únicas fontes sazonais de água para o lago. De tempo a tempos, sucede sim, chover chuva molhada na forma de milagre. No ar, fica um cheiro diferente de todos os outros, como pestanas torriscadas em cinza quente …

Timidamente, a natureza forma pequenas águas em charcos dos rios mulolas com sedimentos atingindo o lago seco que penetra no leito do mesmo ou se espraia em véu como já dito… As vastas zonas de poucos declives formam as chamadas planícies africanas, chanas ou anharas de clima extremamente seco. E, o curioso é de que a esta mesma latitude e para o lado poente temos os desertos junto à costa do Sul de Angola e Norte da Namíbia que são banhadas pela tão mencionada corrente fria de Benguela.

nauk1.jpg No Oshakati, paredes de pau-a-pique quase nas margens do Cunene agreste coabitamos com uma raça em extinção chamada himba. Naquele outro um dia, vesti-me de lama numa gordurosa cor ocre e dei um rápido mergulho no popa falls do fim do mundo, Ruacaná. Do outro lado, estavam as terras dos Kwanhamas mas, por ali fui ficando com os Ovambos lambendo feridas com “castle lager” (cerveja local).

Sentado num cepo de madeira petrificado, senti-me o senhor com a maior dor d´alma do mundo. Foi o preciso lugar e momento de começar a esquecer e ser esquecido. Pasmado assim no tempo, só continuo mais-velho. Naqueles dias de correria louca num quatro por quatro ou em um Toyota 1600, éramos donos do que víamos; tudo era nosso na vastidão. Da doce vista das pedras eternas entrecortadas com tufos de capim sobrevivente do nada, havia em nós um misto de atracção e raiva carregada de adrenalina.

Namotoni3.jpg O medo protector balançava alegria escondida, também curiosa tranquilidade impregnada de um silêncio pacificador; a coisa nunca sentida fora deste mundo, empolgava-nos a existência num esmagador pórtico num além sem fronteiras, de para além-de-tudo ou as terras do Fim-do-Mundo. Éramos uma mini-tribo procurando experiências de vida num ermo só nosso. Éramos cinco despeitados “Tugas mazombos de N´Gola” da diáspora. Todos sequiosos, desbravando o nada como se, se nos procurássemos ali, naquele agora…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:06
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Sábado, 29 de Julho de 2023
VIAGENS . 40

NAS FRINCHAS DO TEMPO – UM CACTO CHAMADO XHOBA  (HOODIA)

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“  - Crónica 3450 – 29.07.2023

- Boligrafando estórias na cor antiga em Ondundozonanandana. Estávamos ainda em Luderitz, terra soprada a areia ria… Foi no ano de 1999

Por koisan9.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto

koisan8.jpg O cansaço adormeceu-nos sem pensamentos nem cobras ou lagartos. Ali, mitos e lendas são insociáveis da paisagem quase lunar, rochas escaldadas formando morros aqui e, mais longe areia de onde sobressaem umas árvores milenares do tipo aloés do além.

Nesta natureza que não é assim tão vazia, vivem espalhados por África e mais propriamente ao sul do Botswana mais de sessenta mil aborígenes, dados do fim do século XX. Resistindo a tudo e ao tempo, ali aonde o desespero é um inútil alívio de evasão, vivem os khoisans, que mais a sul chamam de KoyKoy´s

O sol ali não é dócil, pus o meu chapéu do Karoo, montamos o Toyota e, bem cedo seguimos à descoberta do Fish River mais a norte; fomos três a descer ao fundo do Canyon que parecia perto, era logo ali e, o que pensamos fazer em uma hora na descida e subida, levamos bem perto de quatro horas, Ufa!!!

luderitz17.jpg Eu, Tilinha e Marco M´Fumo Manhanga…Que calor! Mas, por sorte sempre havia uma fria windhoek lager à espera no restcamp… Que delicia! Uma vez na vida, experimentem atravessar um deserto para ter o prazer de beber uma fria na chegada. Foi nesta atmosfera e azáfama de sobreviver subvertidos à marginalidade do mundo real, que tomamos contacto com o tal cacto de xhoba.

E, não podia deixar de descrever toda a envolvência desta real contradição: a fome dos khoisans vai-lhes ser mitigada por milhões de obesos que só o são na maior percentagem, porque comem em demasia. Os deuses nestas paragens escreverão sua sina por linhas tortas. Já no topo do Canyon do Fish River a adrenalina escorria-nos nas faces com os olhos tremendo como a neblina matinal.

busq11.jpgE, as pernas abanavam sentidos incomuns à magnitude das vistas em banda larga com “óoos e áaais” de espanto. Era o Ai-Ais! Estou em crer que foram estes Ais de admiração que deram o nome ao acampamento desta canyon. Já dias antes, tinhamos subido a Brandberg a ver as acácias solitárias, entre pedras vermelhas sobrevivendo a um deserto impiedoso. Os dias terminavam com suspiros de plena satisfação em curtos goles de marula tree sobre um sorvete Dom Pedro ou umas pedras de gelo gratinado…

Com destino ao povoado de Ondundozonanandana, lugar perdido no Norte da Namíbia, não muito distante do Etosha Pan e marcado em círculo no mapa Michelin, lá prosseguimos viagem a partir de Ai-Ais do Fish River por estrada pavimentada rolando quilómetros na savana até Windhoek a capital da Namíbia. Era para assim ser mas, chegados ao cruzamento entre as estradas B1 e B4 em Keetmanshop, derivamos para Luderitz pela Estrada nacional B4.

Namibia12.jpeg Andando por este mundo, mares, desertos, matos, savanas, anharas e terras agrestes com matutos e mamelucos de outras latitudes, estava agora a tornar-me um mestiço mazombo viajando na terra e no tempo, ora sem GPS porque ainda não existia ora perguntando aqui e ali ou riscando o mapa com esboços, nomes e cópias destes borradas de café, lama e até sarapintados de cafufutila, esses salpicos salivados de euforia que descuidadamente saltam das nossas falas eufóricas, entusiasmáticas.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:11
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2023
VIAGENS . 39

NAS FRINCHAS DO TEMPO – UM CACTO CHAMADO XHOBA  (HOODIA)

- "DOS TEMPOS DE DIPANDA“  - Crónica 3449 – 28.07.2023

- Boligrafando estórias tão fantásticas, que até o nome se alonga de gozo: Ondundozonanandana… Foi no ano de 1999

Por swakop8.jpgT´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto

nauk16.jpg De sabedoria debruada em muitas rugas, olham num permanente espanto as coisas que nós os ocidentais inteligentes banalizam e, uma casca de fruta que pode ser um grande património para eles, torna um fio com uma linha uma tecnologia espacial. Para nós alienígenas ocidentais do mundo terreno, iremos dizer do quanto é maravilhoso ter comprimidos que permitirão encher o bandulho de pasteis de creme, de nata e baba de camelo às duas da manhã ou o sorvete na forma de gelado sem riscos de se ficar com um peso na consciência.

E, tem mais, as mulheres não deixarão seus maridos à solta se souberem que ingeriram uma vitamina super de xhoba. Se bem conhecem, a história da coca-cola foi objecto de um filme em que uma garrafa destas caiu em pleno deserto do Calahári e que daí, provocou para além da curiosidade as vicissitudes do mundo ocidental, o mundo dito civilizado. Recordo que neste então e, descrevendo sumariamente o filme, uma criança viu-se acossada por umas quantas hienas.  O candengue (puto), sabedor dos costumes da tribo pegou em um pau colocando-o na cabeça; assim parecendo mais alto, as hienas não se atreveram a atacar o candengue Bushmen.

busq7.jpg Estas estórias de tão simples, tornam-se fascinantes para quem todos os dias manobra com aparelhos inteligentes, coisas tecnologicamente chamadas de ponta. O mundo avança tão rápidamente que todos os dias nos atropelamos em ignorância. Tempo virá em que nossos médicos, nossos choferes, nossos farmacêuticos e bibliotecários, serão robôs; que os políticos virarão um bando de gângsteres usando a mentira e novas tecnologias algorítmicas; que a morte será premeditada e o ciclo da escravidão retornará envolta em lubrificadas e premeditados desfalques à nação…       

Desconfio que pelo andar da carruagem este trem da Terra vai conspurcar pouco a pouco aquelas paragens semi desérticas repetindo por muitas vezes este episódio da coca-cola e, o povo mais antigo ao cimo da terra passará a usar gravata e sapatos de coiro em substituição da sua pele rugosa e resistente. Por via da tal “molécula P57” o mundo dito civilizado subsidiará as tribos nómadas que vivem sem fronteiras entre Angola, Namíbia, Botswana, Zâmbia, África do Sul e Zimbabwé.

busq6.jpg Estes, não mais irão ter de correr atrás dos macacos para saber aonde beber; de reconhecer as plantas que no meio do deserto lhe fornecerão água em suas raízes, terão à mão um chinocas, uma venda, quiosque cuca-shop para lhes venderem água e cachaça… A Bushmanland não mais será a mesma! A cento e vinte quilómetros a sul do Orange, num local conhecido por Springbok, pernoitamos numa palhota do tipo em que vivem os Bosquímanos.

Com estrutura circular formada de paus vergados e enterrados na sua parte mais grossa, entrelaçam-se entre si na parte mais alta sendo o restante amarrado com fios feitos de casca de arbustos locais. Chovia quando ali chegamos pela primeira vez indo de Orange River mais a sul; coisa rara para quem passa esporadicamente como o era, neste meu caso; não há cheiro igual noutro qualquer lugar do mundo.

busq4.jpg Após as primeiras chuvas, o pó em África, tem um cheiro de terra espacial; quem o não cheirou, não consegue conciliar os sentidos inebriadores duma mistura de pólens invisíveis dos escassos tufos de vegetação. No outro dia já as encostas suaves dos morros ficam numas chapadas feitas jardim, um mar de rosas deslumbrando-nos. Ver o deserto em tão curto prazo de tempo virar um jardim florido é qualquer coisa de misterioso, milagre que nos leva até um ser superior a quem chamamos de Deus…

Estas palhotas do Springbok tinham 1,80 metros na sua parte mais elevada, cobertas a palha presa aos paus com a mesma casca, tipo mateba, deixando uma abertura com uns sessenta centímetros de largura e noventa de altura. Após ter feito uma prévia inspecção ao local circundante enxotando lacraus, aranhas e carochas, derramei um fio de gasóleo na parte de fora. O gordo bóher dono do pedaço, nada me disse para além de afirmar que estávamos seguros mas, eu não me sentia tão firme, se não fizesse isto.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 08:51
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Terça-feira, 25 de Julho de 2023
VIAGENS . 36

NAS FRINCHAS DO TEMPO – UM CACTO CHAMADO XHOBA

- " DOS TEMPOS DE DIPANDA“  - Crónica 3446 – 25.07.2023

- Verdade ficcionada

Pornamibia22.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto

N´Tumbo0.jpg Oshakati, ficava na direcção contrária à faixa de Kaprivi, uma faixa de linha recta saída do Divundo junto ao rio Cubango (Okavango) até o rio Zambeze com cerca de 405 km de comprimento e 30 km de largura. Tem a forma de frigideira e fica situada no nordeste da Namíbia formando as duas regiões namibianas denominadas de Kavango e Kaprivi

Tinha indicações que havia um tal senhor Rocha que fugido do Sul de Angola ali se estabeleceu com um restaurante e uma fiada de casas térreas que eram alugadas a baixo custo a refugiados; foi para ali que me dirigi e aonde me refastelei com uma caldeirada de cabrito. Enquanto a família comia, uns quantos olheiros miravam e ouviam atentamente o que se passava entre nós; gente deslocada de Angola que vivia de expedientes e bufaria…

n´guzo2.jpg Rocha era ainda um rapaz novo; sentou-se em nossa mesa e conversamos um longo tempo, fruto da minha insistência na recolha de informações. Rocha falou abertamente do sonho em se fazer rico, construir um hotel em condições e negociar com diamantes quando lhe fosse possível. A empatia foi tal que não se coibiu de falar o que quer que fosse…

Aconselhou-me a ficar num dos quartos de Bicho da Ponte do Charuto (Estômbar do M´Puto) logo no fundo da rua, pois que ele estava com os alojamentos repletos de gente saída de Angola. Em África parece tudo ser perto pois que tudo se sabe; carências de notícias levam à união e a fraternidade dando a isto, uma característica única no mundo; Em nenhum lado do grande globo se encontra esta postura e este facto é a razão do porque, ninguém se esquece desses locais aonde a vida tem socalcos diferenciados assim como se estivéssemos num permanente mundo de Indiana Jones, coisa de cinema com senas a correr numa mina do tipo de kimberly …

okakau1.jpg Daqueles aromas, do som do mato, do chorar da hiena, do uivar do mabeco e até o cacarejar das capotas com o “tou-fraca, tou-fraca…” mais o por do sol atrás duns chinguiços, cassuneiras ressequidas e mato estéril. Rocha estava a par da odisseia de João Miranda do Mukwé e acabei por ouvir um pouco mais da sua fuga das terras do fim-do-mundo, zonas do Calai, Dírico e do Rundu:

Quando Miranda chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas actuaram com rapidez. O comando Sul-africano do Rundu, enviou prontamente tropas para receber a família no Calai. A família Miranda estava salva. O comandante da polícia local, o inspector Erasmos, instalou os Miranda numa “guest house” do Governo, nesse tempo Namíbia, ainda estava debaixo da alçada Sul-africana.

div4.jpg Nessa mesma tarde apareceu o general Loots, reformado, combatente da II Guerra Mundial, acompanhado por um oficial português, madeirense, o tenente Silva. João Miranda foi entrevistado e no final informaram-no de que receberia no fim do mês um ordenado, relativo ao primeiro dia em que fugira de Angola. Para a Intelligence Sul-africana era de grande valor ter um homem que dominasse a fala por estalidos dos khoisan (bosquímanos), que fosse conhecedor da área e tivesse tido um agraciado valor militar – era o caso. 

A família foi depois transferida para Grootfontein, já no interior norte da colónia, para maior protecção. - Julgo que é ali que eles estão agora! Afirmou Rocha. Com esta informação a minha odisseia teria outro rumo; Teria toda a noite para pensar como prosseguir no dia a seguir; agora iria à procura do senhor Bicho para me instalar. O Okavango seria nosso destino, Mukwé, não muito longe do Rundo cidade, eram os rumores mais aproximados de seu bivaque (“acampamento”) - Não seria assim tão difícil encontrar um comerciante branco junto ao rio Cubango…   

(Continua…)

Glossário: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

O Soba  T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 11:08
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Domingo, 23 de Julho de 2023
VIAGENS . 34

MALAMBAS NAS FRINCHAS DO TEMPONo rio OKAVANGO, dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga…

Crónica 3444 – 23.07.2023MALAMBA: É a palavra.

Por pombinho12.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto

roxo92.jpg Em busca da verdade, muitas vezes acontece-nos não fazermos perguntas por ainda não estarmos preparados para ouvir as respostas e nem sempre o é assim porque simplesmente, por vezes sentimos medo a elas; podemos enumerá-las ou até suspirá-las mas, todo o ser humano em alguns momentos de sua vida têm coisas boas e outras más que se enfileiram ao jeito de missangas atrás uma das outras.

Um rosário do tempo e através dele que como um terço, rezamos ou fingimos rezar porque como se diz, atrás do tempo vem o tempo e depois da tempestade vem a bonança. E, porque se diz que a justiça é cega, surda e muda, pelo que se sabe também anda meia calçada e meia descalça para fingir que agrada a humildes descamisados e ricos encoirados.

okakau1.jpg Mas, pelo sim pelo não, usamos amuletos da sorte para nos enganarmos nas figas, no corno, na meia-lua, na estrela de David penduradas ao pescoço ou uma ferradura velha de burro ou cavalo, pendurada do lado detrás da porta de entrada de nossas casas.

Por via de duvidas também usamos amuletos da sorte na forma duma nota de dólar, um santinho, uma qualquer nossa senhora da aparecida mais responsos escondidos em forros de malas e maletas. Até uma vagem envernizada de feijão maluco serve para o efeito! O místico junta-se com a Cruz e o Cristo numa caixa, asfixiando-O o tempo todo.

E, sempre picado em sua coroa de medonhos espinhos com um credo na ponta das falas, um cuzcredo (!?) com interrogação juntas na exclamação. No meio da algazarra das palavras, dos apelos, dos gritos ou cânticos, haverá sempre uma insatisfeita curiosidade, perguntas sem respostas ou maneiras mentirosas de dizer a verdade…

namibia18.webp Verdade que nem sempre achamos lógica ou patética nem sempre merecedora de ser levada ao cutelo ou ao fogo da veracidade porque, simplesmente nós não somos guardiões nem usamos beber do crime no rio da vida. Amolecendo a preguiça num chinchorro (rede), a trinta metros do rio Okavango ou Cubango, do outro lado Mucusso.

Dou-me conta do quanto meu sovaco cheira a catinga, odor em tudo igual a todas as outras catingas dos negros corpos de África. E, assim, aqui estou de livre e espontânea vontade como um emigrante e muito enfeitiçado pelas gentes acolhedoras; gentes que como eu, saíram dessa imensidão dos matos de Angola, de lonjuras percorridas em velhos Dodges, GMC, Willis, land-Rover, Fords ou Chevroletes, terra de onde se parte sem querer partir e já partindo, arrependido depois por não ter ficado.

namibia20.jpg Um homem e uma mulher, sexagenários andando através do mato, savanas de África sem fim, um mar de acácias, espinheiras em montes ardentes, campos sem cultivo intensivo, lugares habitados por kudus, búfalos, zebras e leões, sabendo de antemão, que o deserto não é só aquilo que a nossa mente se costumou a interiorizar, pelo que se lê ou pelo que se ouve, sempre na vontade e na natureza nas coisas de Deus. Como vamos nós próprios destrinçar a verdade dentro da nossa própria imensidão, nos assuntos de crenças e impiedades de bens tão profusos nas regras do Mundo.

O Soba T´Chingange   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:59
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Sábado, 22 de Julho de 2023
VIAGENS . 33

MALAMBAS DAS FRINCHAS DO TEMPO – No Okavango River e o risco ou o rego que, por coisa pouca muda nossas vidas…

Crónica 3443 – 22.07.2023 -  MALAMBA: É a palavra.

Por okapi1.jpg T´Chingange (Otchingandji) – Em Amieiro do M´Puto

okakau1.jpg Se a vida é uma sentença com um princípio e um fim, não conseguiremos ouvir o grito da vida se sentirmos remorsos daquilo que não fizemos, ou daquilo que poderíamos ter feito; não podemos assumir a culpa dos pais, nem dos pais de outros pais. Na percepção parcial das vitais contingências, tecidas e compostas nas coincidências de que a vida é feita, encontraremos o rigoroso sentido do passado, por fortuitos efeitos que determinaram o futuro próximo e mais distante.

Cada um de nós foi o que foi por uma coisa pequena, que sem se lembrar do primeiro choro, outros choros se lhe seguiram e, como um risco feito no chão, nem sempre se escolheu dedo ou arado nem por onde fazer o rego que por coisa pouca mudou nossas vidas. Sem perder tempo com enigmas, aceitei o convite da Ana Maria para passear ao longo do Kavango até quase o Botswana a visitar rápidos e remansos das chanas deste, já com as águas do Kuito, águas escuras que vão inundar o Delta do Okavango.

okavango3.jpeg Um mar muito antigo a dar vida aos muitos N´dovus ou jambas que conhecemos por elefantes, entre hipopótamos búfalos e, outras variadas espécimes. Pela picada de macadame encrespada de ondinhas já para lá do Divundo, dos vários cuca-shops* e cola-colas dos chineses, passamos locais de kimbos dispersos e lodges junto ao rio como o Rainbow Lodge, Nunda River, Ngepi Camp, Ndhovu Safari, mas foi no Mahango Safari Lodge escondido no denso arvoredo verde e bem na margem do rio, aonde subimos numa barcaça…

Mesa posta supimpa, para as catorze almas e alminhas do clã Miranda degustarem um bem surtido e nutrido breakfast com iguarias de crepes e outras ternuras mais adultas. Já de regresso, de novo nos internamos numa sinuosa picada de areia a visitar um lugar já conhecido como Suclabo Lodge propriedade duma madame de nome Suzi mas, agora com o nome de Divava Okavango Lodge e Spa, cinco estrelas de “elegant style and luxury”.

miran01.jpeg Cumcatano, disse eu depois de pisar o paradisíaco sítio cheio de coisas “good” logo a seguir a cubatas feitas de barro e capim com dois por dois metros, e muito matutar de como caberia ali um par de gente sem os pés encolhidos. Eu, João, Bruno e seu tio Alemão Franz lá fomos em uma pequena balsa com motor à popa e um bafana enfarpelado de caqui, seu chapéu de carcamano do Divava, um surtido de águas, refrescos e cervejas na caixa térmica.

Entre margens de exuberante verde, altas árvores, chegamos á base dos rápidos do Popa Falls. Naquela turbulência e com nossas canas de carretos, zingarelhos e estralhos, amostras bizarras e bizarrocas, farfalhudas com penas ou reluzentes, atiramos e recolhemos, atiramos e recolhemos e, por aí, repetido sem nada pescar e, eis que o campeão João num truz recolhe um peixe tigre cheio de dentes pontiagudos aí com uns dois quilos que, foi tudo na soma da pescaria, um tigre e três nadas. 

miran02.jpeg E porque é vulgar dizer-se que os gestos não totalmente sinceros vão sempre atrasados, agradeci logo tais luxuriosas horas de lazer a Ana Maria e seus dois filhos quase carcamanos, mas com rusticidade na traça mirandesa, bragançana ou transmontana em seus sotaques, falas e cantorias. Soe dizer-se que todo o acto humano interfere com a vontade de Deus por mais insignificante que seja e, neste dia de Domingo, quatro de Janeiro do ano da graça de 2015 assim foi…

Só fui livre para poder ser castigado na míngua da pesca com um escassíssimo nada. Também nisto, não posso ter remorsos! Um dia de cada vez com encontros decisivos de nula ou muita importância, um simples dia de vida com rooibos tea and rusk bread, Windhoek lager, biltong bóher e bacorinho no espeto, assado pelo Thinus de Outjo, o mais genuíno carcamano bóher da família Miranda.

(Continuarei pelo Okavango – Terras do fim do mundo, Rundu em dialecto Ovambo…)

MIRAN1.jpg Bibliografia: Cuca-chopes: - Muito pequenas bodegas; vendas à margem das estradas que têem cerveja e bolachas já fora de tempo, Coca-Cola e fuba; Kavango: - Rio que faz fronteira entre a Namíbia e Angola, que deu o nome à região; Bafana: - natural da região, normalmente negro na cor; Zingarelhos e estralhos: - apetrechos de pescador; Rooibos: Chá de capim do Calahári; Bóher: de origem Holandesa saído da colonização da Companhia das Índias Orientais…

Nota:  Com um levado agradecimento à familia Miranda que no Divundo da Namíbia,me deram guarida grátis! Terra de xirikwatas, um pássaro que come jindungo - foi Dona Elisabette , recenteente falecida que  me deu ese conhecimento com o mais bonito riso  que  senti naquelas terrs do fim-do-mundo... Ao amigo Miranda um abraço XXL...

O Soba T´Chingange.



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:38
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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