Sábado, 24 de Setembro de 2022
MALAMBAS. CCLXVIII

TEMPO DE CINZAS. 12.03.2022 na Pajuçara – Republicação a 24.09.2022 em AlGharb do M´Puto

Crónica 3254 - Lendo a “TEORIA DA INCERTEZA” no 7º dia da guerra em Ucrânia

MALAMBA: É a palavra.

Por soba002.jpg T´Chingange, na Pajuçara de Alagoas e Lagoa do M´Puto

mano corvo.jpg Alain Delon, o donatário de dez paços de areia na praia Pajuçara chega por volta das sete horas da manhã fazendo um grande alarido em minha direcção, eleva as duas mãos, diz bom dia patrão e finca os dois polegares no ar abanados e virados ao céu para me desejar saúde. Estando eu a fazer movimentos de talassoterapia respondo do mesmo modo, com água até o pescoço, de óculos e chapéu quico branco do Palmeiras. Entrei na água pelas 5,45 horas, tépida, serena e espelhada como é normal na maré baixa. As calemas esbatem-se lá atrás nos recifes na forma de espuma branca; pode ouvir-se o barulho.

O Alain ganhou comigo o sobrenome de Delon em memória ao artista de cinema que me transmitiu alegrias na juventude Luandina, no antigo cine do bairro Maianga, meu clube, ou em uma outra qualquer das muitas salas ou esplanadas existentes na Luua de Angola tai como o Miramar, Império ou Avis. Aqui as sesmarias de posse d´areia são contadas em dez passos segundo uma direcção já estipulada e segundo duas referências como se fossem faróis ou bandeirolas, um poste alinhado com uma equina e, bem vertical à língua de praia.

Como chego muito cedo, a vastidão é só minha mas, porque conheço as balizas destes donatários sempre faço os possíveis para aqui ficar, sentar-me depois da hidroginástica, dizer umas larachas de soberania, comer uma peça de fruta à sombra do meu sombreiro com gravuras de peixe-agulha e flores, pegar no livro do dia para fazer a leitura hodierna; ainda ando mastigando o livro Veredas de Guimarães Rosa, triturando lentamente as falas intrincadas, parar e fazer-me entender envolto na riqueza de tantos vocábulos estranhos e, inusuais na literatura de hoje.

maqui1.jpg Sendo assim Alain deu paz à minha ideia congeminada entre o bracejar, rodar, remar e saltar abstraindo-me do olhar co contorno das cérceas que em curva se dispõem ao longo da marginal, calçadão, passeio e pista de ciclovia que ondula a marginal desta orla. Hotéis e edifícios residenciais que bordeiam esta grande piscina natural na forma de uma pequena baía. Estou bem em frente ao pavilhão de artesanato; posso vê-lo por entre os coqueiros e amendoeiras de um frondoso verde. É o lugar de Sete Coqueiros mas, em realidade são muitos mais.

pajuç1.jpg Tenho agendado fazer compra de prendas neste artesanato, oiro de capim das chapadas de Tocantins; pequenas lembranças a levar para o M´puto. Por via da guerra da Ucrânia, embora longínqua, terrível, estupida e medonha, tudo me perfaz num quanto baste provocando-me desagasalhadas alegrias. O Alain passa e, mete-se comigo enquanto acaba de espetar seus grandes chapéus quadrados e vermelhos, num total de nove na sua sesmaria, dizendo:- Hoje é dia de escrita, patrão!? Sem esperar resposta, que nem era para isso, num entretanto acode a dois casais acomodando-os bem ao lado preenchendo assim a frontaria da maré…

Ver a praia desnuda e, do nada virar coisas, chapéus de múltiplas cores, cadeiras, mesas e arrepios de vida, se o quiserem resiliência também. Assim vi! Num repente veio um relance que também me arrepiou ideias. Minha rasa opinião sucumbe no braço d´armas da guerra que mata gente como quem mata coelhos. Putin, o dono da caça, ele tem olhos muito incertos e vesga-os sem sair qualquer suor pestanejado, cara de cera, sem lágrimas nas beiradas de sua testa, o filho da puta! Vou dizer mais o quê, apetece-me chamar-lhe nomes.

pajuçara1.jpg Cada um com a casa atrás da parede, tijolos desfeitos, atrás do nada, um zumbido, muitos mais, um estrondo e muitos mais, fragmentando mortes, o crepitar de labaredas, caibros que caem, muitos e mais muitos rebentamentos só átoa com cheiros, com fumos – ninguém tinha esperado – ninguém tinha pensado. E, depois, um silêncio tremido de medo com choro abafado e de novo, um segundo que vira século, aquele outro silêncio pior que um alarido, que dói…

No buraco escuro, escutando a rádio, opiniões, muitas até em que não me assopro, hipocrisia. Que crime? O homem veio guerrear com todo o mundo. Guerra! Crime que sei, de fazer traição; não cumprir a palavra, não a ter: Uma arte de intrujice, nunca vista, nunca sentida, nunca cheirada. E o resto do mundo? O resto do mundo ficando agachados, molengados, por nivelar sem diferir. Na ponta dos olhos da gente sai uma raiva, outra e mais outra, feitas lágrimas. Ideias que vão e vêm – a gente empurra para trás, mas a todo o momento elas voltam a rodear-nos nos lados. E o mundo, no mundo a gente que pode, tem muitos mais lados! E, não há lá no sítio da URSS, um filho da mãe que lhe ofereça um como de cicuta…

O Soba T´Chingange                   



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:13
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2022
MOKANDA DO BRASIL . XVIII

SETE COQUEIROS DA PAJUÇARA - “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso - a palavra foi feita para se dizer”- Crónica 3238 - 05.02.2022 – Republicada no KIMBO a 30.08.22 no AlGharb do M´Puto

Portonito19.jpg T´Chingange – (Na Pajuçara de Maceió no Nordeste brasileiro)  

Hoje (05.02.2022) apreciei de dentro da água tépida de 28 graus o nascimento das capitânias d´areia – concessão aos empresários que vivem da venda de sombra aos turistas, uns cocos frios e pasteis feitos na hora e debaixo de uma amendoeira e também o açaí de Tocantins ou skol em lata. O empregado do capitão d´areia risca a areia segundo uma direcção já estipulada, depois conta dez passos para o lado concessionado e, com o pé risca na areia o término correspondente ao seu patrão, Seu Baldo.

bra4.jpg Entretanto o moço vai cantando uma lengalenga e, intercalando a mesma, mete-se com o vizinho, também mocambo do Comprido, nome de seu patrão; imagino que seja alcunha pois que ele é mesmo alto. O dito-cujo chegou mais tarde botando ordem na algazarrada feita forró de pé-de-serra da dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó… Pode assim imaginar-se a divisão do Brasil em capitânias medidas em léguas no tempo em que os prémios de marear mares por Portugal lá pelas Índias, eram ficar com lonjuras de terras desconhecidas até seu limite e segundo o Tratado de Tordesilhas, seguindo uma linha paralela aos paralelos ou equador.

brasil0.jpg Recordando a história, temos que as capitanias hereditárias eram uma forma de administração do território colonial português na América. Basicamente eram formadas por faixas de terra que partiam do litoral para o interior, comandadas por donatários e cuja posse era passada de forma hereditária. Por motivos de melhor aproveitamento para a administração da colónia, a Coroa Portuguesa delegava a exploração e a colonização aos interesses privados, principalmente por falta de recursos de Portugal em manter tais territórios.

As capitanias iam do litoral até o limite estipulado pelo Tratado de Tordesilhas, um modelo de colonização que tinha obtido sucesso na Ilha da Madeira e em Cabo Verde e África. A iniciativa de colonização utilizando este modelo respondia à necessidade de protecção contra invasores, sobretudo franceses que deixaram algum legado pois não me situo muito longe da Praia do Francês onde vivi por oito anos (de 2006 a 2014) . Os escolhidos eram membros da baixa nobreza portuguesa que a Coroa acreditava terem condições para a empreitada de colonização ou gente que se destacou na odisseia em descobrir o caminho marítimo para a índia.

Martim Afonso de Sousabrasil04.jpg

Esses nobres foram denominados donatários e representavam a autoridade máxima da capitania. O donatário não era dono, mas deveria desenvolver a capitania com recursos próprios, responsabilizando-se por seu controle, protecção e desenvolvimento. Juridicamente se estruturava o controlo da capitania através de dois documentos: Carta de Doação e Carta Foral. Tomemos por exemplo a capitânia de Paulo Afonso bem a meio do curso do Rio São Francisco que deu origem há agora grande cidade com seu nome, lugar que visitei na peugada de Lampião, um dos meus heróis da banda desenhada lá pelos anos de 1960 em Luanda (Angola), conjuntamente com o Mandrak, Homem de Borracha, Tarzan, Zorro ou O Fantasma… Minha cultura advém daqui e do cinema…

A Carta de doação dava a posse da terra ao donatário e a possibilidade de transmitir essa terra aos filhos, mas não a autorização de vendê-la. O documento dava também uma sesmaria de dez léguas (50 Km.) da costa onde se deveria fundar vilas, construir engenhos, garantir a segurança e colonização através do povoamento. Nela definia-se que o donatário era a autoridade máxima judicial e administrativa da capitania. As capitanias hereditárias existiram até 1821. À medida que iam fracassando, voltavam às mãos da Coroa Portuguesa e eram redimensionadas, gerando novas estruturas de administração. O acto de redimensionar as fronteiras das capitanias hereditárias moldou alguns estados litorâneos actuais.

arau154.jpg Não obstante o sucesso administrativo, o sistema de capitanias sofreu com a falta de recursos, algumas foram abandonadas e em outras jamais seus donatários estiveram ali. Igualmente sofreram ataques indígenas, os quais lutavam contra a invasão de suas terras.

Desta maneira, o empreendimento das capitanias hereditárias fracassou. Somente duas foram bem-sucedidas a saber: A Capitania de Pernambuco, comandada por Duarte Coelho, responsável por introduzir o cultivo da cana-de-açúcar e a Capitania de São Vicente, comandada por Martim Afonso de Sousa, graças ao tráfico de indígenas que realizavam naquelas terras.

O foco da Coroa portuguesa na sua colónia da América Portuguesa era a extracção dos recursos da terra, como o pau-brasil. Isso devia-se ao facto de não terem sido encontrados metais preciosos como foi o caso dos espanhóis em suas possessões. Após a inviabilidade das Capitanias Hereditárias, a colónia do Brasil, passou por uma reforma administrativa sendo instituído o cargo de Governo-Geral, prática também iniciada nas possessões africanas de Angola e Moçambique.

brasil05.jpg Convém aqui nesta leitura da história do M´Puto – Portugal, falar de algumas curiosidades sobre as Capitanias Hereditárias. Elas impulsionaram o crescimento das vilas, que aos poucos se transformaram em províncias e, mais tarde constituíram alguns estados brasileiros. A herança dos sistemas de capitanias hereditárias pode ser sentida até hoje através do coronelismo e das famílias que seguem mantendo o poder em certos estados. Martim Afonso de Sousa permaneceu pouco tempo em sua capitania, pois foi deslocado para ocupar um posto nas Índias. Quem administrou a terra foi sua esposa, Ana Pimentel. Ando a rever isto vendo a novela “Escrava Isaura” que foi escrita pelo romancista Bernardo Joaquim da Silva Guimarães…

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:08
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Domingo, 17 de Julho de 2022
MOKANDA DO BRASIL . XVII

PAJUÇARA - SETE COQUEIROS - “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso - a palavra foi feita para se dizer”- Crónica 3235 - 01.02.2022 em 7 coqueiros da Pajuçara

Republicada a 17.07.2022 do AlGharb

Por Soba T´Chingange brasil.jpg T´Chingange (Otchingandji )– No AlGharb do M´puto

paju2.jpg Eram 5 horas e 45 minutos quando furei a areia para colocar meu chapéu-de-sol na praia de Sete Coqueiros. Fui o primeiro a colocar um chapéu naqueles 4 quilómetros de areal e bem em frente do Pavilhão de Artesanato. Após dispor as duas cadeiras bem aselhadas e, muito próximo do máximo espraiar das águas em maré decrescente, meti-me na água até meus ombro serem cobertos por esta.

O início de minha hidroginástica começa bem aqui, virado para a orla marítima e apreciando a azáfama matinal que é bem diversificada. Daqui posso ver como num anfiteatro todos os movimentos, sentir cheiros e os muitos sons que vão subindo ao longo do passar do tempo. Observo uma senhora que percorre a linha de ondulação da máxima maré com um saco de plástico e abaixando-se amiudadamente apanha algo com sua luva transparente; pareceu-me ser pequenos objectos, utensílios feitos em plástico como garfos, facas e canudos de plástico.

Pode até ser conchas mas tudo indica andar a cumprir uma promessa de limpar a praia de desperdícios deitados no bota fora na óptica do quero lá saber. Deve ser mesmo um compromisso de sonho de limpar os maus hábitos. O mesmo homem de sempre passa em corrida de passos ou pulos pequenos em direcção ao porto do Jaraguá. E, passa um tal de Mateus, um quase atleta de futvolei, conhecido de há anos e dizendo adeus, some-se na lonjura com suas passadas enérgicas.

pajuç1.jpg As ondas à medida da descida da maré vão ficando menos altas pois que suas antecedentes ficaram lá atrás retidas nos arrecifes. É um lençol de água de cor esmeralda, que depois, no meio e antes dos recifes vai fiando azul e mais escura a caminho do horizonte. Estranho não voltar a ver uma velha senhora que caminhava na via ré, andando às arrecuas para ganhar mocidade. Ou então, andará envolvida nos rolos do medo covidesco na progressão de delta para ó-mi-com ou, na pior análise já foi nessa leva abalroada para o jardim das tabuletas.

Posso ver daqui o trilho que sei estar pintado de vermelho, pista de bicicletas e aonde se cruzam donzelas de justas pregas e todos os demais e, até vendedores de café da manhã que com seus zingarelhos de caixas, de pastéis bem dentro de outras caixas de isopor, esferovite de onde se pode divisar as tampas dos termos com café, com leite e outras garrafas com suco e quenturas de caldo de feijão; tudo numa ordenação estudada na resiliência. Ao lado, a gente correndo no calçadão vão dando colorido por entre os muitos chapéus de praia que vão surgindo a partir das sete e meia…

Contornando o calçadão, há dispostos altos coqueiros a emparceirar com as largas copas verdes de amendoeira, do figo da índia como eu conhecia em Luanda, capital de Angola. E, pela marginal posso acompanhar com os ouvidos o andamento de um carro discoteca que lança uma música tracejada de comprimido, mistura de kuduro com pera abacate. Parece, não haver noção dos decibéis enfiados a contragosto em todos os demais e, tudo numa boa, ninguém parece importar-se. A batida correu na avenida soando em tracejado ao meu ouvido já de si dolorido e carecido…

piaçabuçu02.jpg E, passa junto á beira da água molhada o mesmo general, caricaturado por mim já lá vão uns três anos e, sem jeito de baixar sua proeminente barriga de ginguba. Com suas flanelas protectoras do rei sol lá vai variando do amarelo fosfórico ao azul reluzente, tudo num passo rápido e convincentemente só. Pelas sete e meia surgem os trabalhadores empresários de chapéus no suficientemente largos para cobrir uma família. Fazem rasgos com os pé na areia a condizer com o seu licenciamento de capitania de praia e depois com uns negócios de enxadas gémeas fazem buracos o suficientemente fortes para aguentar sua estrutura.

Num rápido, já tudo está enxameado de cadeiras multicolores, mesinhas e chapéus; bem na berma do calçadão estão seus carros cangulos gigantes de serem levados por mão ou empurrão, depósito de todos aqueles trastes de artelhos com corotos e também caixas com gelo e bebidas para vender ao povão, cocos, cerveja e licores de jenipapo a misturar com iguarias de suco de ananás, acarajé de dendém e doces mixórdias de animar um qualquer ateu.

Bem perto duas mulheres com chapéus de palas largas em suas cabeças, rezam e cantam com as mãos elevadas para a kalunga ou iemanjá; mais longe saem as balsas dos jangadeiros levando turistas para as piscinas naturais; lugar do recife aonde a água transparece mostrando variedades de peixes que acostumados, vêm picar e debicar restos de pão, bonito de ver aqui e em qualquer lugar que tenha este jeito de recifes.

pajuç1.jpg Escrevendo em verde o que vai por aqui, sei que lá fora todos andam inquietados com as movimentações, canhões de Putin na Ucrânia, ameaças da UE e a NATO, enfim. Desde a estória do Adão e a Eva que andamos assim em permanente transgressão. A culpa é mesmo da EVA que comeu o fruto proibido quando tinha tantos outros para se lambuzar… mais logo vou comer canjica e queijo de coalho no meio da tapioca, ver pela TV pela segunda vez “A escrava Isaura” e depois … Depois, amanhã será outro dia - FUI!

O Soba T´Chingange            



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:04
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2022
MOKANDA DO BRASIL . XVI

TEMPO COM CINZAS27.01.2022 - No Nordeste brasileiro

E, aqui na PAJUÇARA - Se Deus salva as almas, e não os corpos, teremos de ser nós a resguardarmo-nos porque nem sempre é necessária a culpa para se ficar COVIDADO…

Crónica 3233. Republicada a 13.07.2022 no M´Puto

PorSoba T´Chingange brasil.jpg T´Chingange (Otchingandji) no AlGharb do M´Puto

xique xique4.jpg Embora o Senhor esteja em toda a parte, é de ter em conta de que Ele às vezes parece não nos ver, fazendo-nos sofrer por culpa de outrem. Na Praia da Pajuçara leio a notícia que é coisa que se tira a desejo, do fim do Sol espojando-se para o sono da noite. Foi um ontem transladado para hoje como um espelho preto. Da tristeza que sempre é notícia de toda a hora, o gráfico da ó·mi·cron que corresponde à letra “O” do alfabeto latino, subiu aqui e ali e, mais gente morreu.

Neste meio tempo de escrita, vou sendo rodeado de chapéus coloridos, cadeiras e mesas, caixas térmicas isopor ou esferovite com estampas de cerveja a estalar de frio, gulosas que chega, gente gira com barulhos de linguajar de Gravatá. Mais logo virão a música de forró e anedotas de repentistas caboclos, matutos e gente gira de cu-ao-léu, sereia mostrando a barbatana, os fios entalados na alegria dos olhos e cheiros de entaladinhos mais coxinhas de galinha e o acarajé da tia Alzira.

xique xique2.jpg E, assim e aqui na praia com algum aperto de desânimo aproveito para olhar para a banda de onde ainda se praz qualquer luz da manhã. Posso ver as velas enfornadas ao vento que vem do horizonte fazendo nadar as jangadas. Assim, mesmo sentado vou lambendo a fantasia de afinal quando é que a velhice começa surgindo de dentro da mocidade. Coisa endoidada de lembrar ao espaço pensamento em minha cabeça…

Lamber a maldição é castigo, mas a noticia que sempre a há, a gente tem de ir por ela, com ela e, entrar assim num mundo para buscá-la. A mulher caranguejo passa caminhando, bem, descaminhando ginástica de para trás, agarrando juventude na prática exercitada. Andando assim para trás diz-nos bom dia! Conhece-nos por temporada! Eu sou o que sou mas ela, mesmo andando à ré, continua a ser ela

paju1.jpg A mulher caranguejo já nem nos via há três anos mas, reconheceu-nos; quis saber notícias das maldades do mundo e, foi-lhe dito as balelas que todos sabem. Aos olhos da minha vazante, a maré já começava a subir, teria tempo de falar algo tal com falei e, eram 8 horas e 20 minutos, estava a meia hora de regressar ao meu mukifo no PortVille já ginasticado com a dose habitual de talassoterapia, escrever depois a minha crónica número 3233 para a Kizomba (esta).

Passar a limpo a mesma no computador, tomar o meu café da manhã “santa clara” e provar a canjica de milho branco com umas sementes de girassol e erva-doce porque a memória que Deus me deu não foi para palavrear às arrecuas; andando assim como a mulher caranguejo. E, sou mesmo forçado a criar tabus no meu espírito para me manter são na guerra da vida.

paju2.jpg Ou fico em silêncio, ou falo dizendo impropérios à falta do fervor alheia. De todo o modo, assim ou assado, com este ou aquele, no M´Puto ou aqui em terras de Vera Cruz, terei de aceitar o meu posto de cidadão, mesmo faltando-me a confiança; mesmo que daqui advenham tempos sombrios e confundidos. Terei de ir mandando pontapés aos espíritos, às arrecuas e de costas, pois!

Todos iremos morder o pó ou o fogo consoante a forma como desejarmos dispor do nosso bem-amado esqueleto. Toda a vez que vejo ou ouço "todo mundo usando máscara" impossível que minha mente não rebusque os estudos escatológicos da marca da besta que para mim é a mesma coisa. E falo isto agora, porque ainda me é permitido, porque eventualmente, em um futuro próximo já não me permitirão mais dizer o que penso. A vida anda muito perigosa...

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:09
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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2021
KAZUMBI . LXVIII

MOKANDA DA LUUA – KAPIANGO - Luanda do Mu Ukulu… Era uma vez … O temp ruge.

Da Luanda actual - Crónica 317709.08.2021

- Kinguilas, as fugitivas da Independência - II de IV

kinguila01.jpg

Por tonito17.jpgT´Chingange no AlGharb do M´puto

Do BCI não é o urinol da esquina, que não funciona, nunca funcionou. Importado a peso de ouro do Brasil, a “casa de banho” faz parte de outras talvez centenas espalhadas pela cidade que nunca funcionaram. Ninguém conhece os contornos do negócio, apenas se sabe que nunca funcionaram, nem se conhece ninguém que tenha lá dentro urinado. O Rialto já não existe, só ficaram as saudades dos apetitosos pregos com jindungo e os finos tirados com a pressão exacta. Em seu lugar, recentemente, foi construído um alvo Monumento ao Soldado Desconhecido.

Os jovens não sabem o que isso seja, imaginam, segundo me disse um deles na rua, ser um soldado sem registo de nascimento. Ali ao lado estão os Correios, já centenários, mas de que ninguém parece tirar utilidade. Perguntámos a um jovem, vagabundeando por ali, o que são os correios. Ele olhou, tranquilo e respondeu muito sereno “não sei, pai”. Ninguém sabe nada, aqui nesta cidade. Também não precisam de saber. O tempo parou, sitiado entre a madrugada das 6 horas e o pôr-do-sol das 18 horas, vaivém, a cidade se povoa e despovoa, aqui se faz tudo, mas ninguém é daqui, as pessoas desabitam aqui, por isso não há tempo.

kinguila0.jpg As kinguilas, fugitivas da Independência e da puliça, andam nos extremos da extensa avenida N´Zinga ou Ginga dominadas pelo banco estatal BPC, a agência Kaponte e a agência lá do fundo perto do Eixo Viário, ao lado da Unitel. Ninguém sabe o que é Kaponte, os jovens, desempregados, não sabem nada, não lhes diz respeito. Mas Kaponte pode ser uma pequena ponte, aquela ponte que liga à Praia do Bispo e onde se mataram, dizem, brancos desesperados com dívidas ou com desamores, naqueles tempos remotos antes do setentaecinco, tudo junto…

Lá dentro do BPC, para onde os mais velhos espreitam, diz-nos o jovem M´Bambi, nunca há sistema nos computadores, especialmente, reforça, depois das 14h - 14h30. Os funcionários querem ir para casa e não toleram mesmo, ser retardados por clientes sem dinheiro, mas com problemas complexos deles, de primos e tios que obrigam a consultas demoradas. Lá fora, um mundo mudo, ninguém fala, toda a gente parada sentando-se onde pode ou polindo esquinas…

kinguila5.jpg É o mundo das kinguilas, as cambistas de rua, as verdadeiras bancárias do sistema, que também vendem recargas da Unitel, são dezenas largas de mamãs opulentas, vigilantes, carregadas de kwanzas e de divisas, inexistentes nos Bancos. Usam um balaio de mateba ou de plástico colorido; cada uma usa sua própria cor. A operação “Transparência” não lhes toca, parecem da família, tudo mancomunado com a grande máquina de lavar dinheiro; as purificadoras do sistema com adestramento no antigo “tira biquíni!” e mais suprimentos e até complementos do tal tão falado de “Roque Santeiro”. Um ar adstringente com cheiro a maboque derramado com mistura de tamarindo…  

kinguila3.jpgSó dão berrida nas pobres zungueiras que povoam a Baixa durante o dia, sempre com um olho aqui outro ali, já estrábicas, tipo ciganas na Europa, prontas a correr em defesa da mercadoria. São as fugitivas da esquindiva, da finfia com finta no aprendizado da Independência.

Mas é também o mundo dos pensionistas, centenas, ou milhares todos os dias desde manhã cedo, ainda quase escuro e ao som dos primeiros pio-pio dos agora raros pardais, seres ainda vivos se abeirando do óbito, tentando ver se a pensão já caiu…

O tempo clareou obscuridades trazendo o lixo na corrente da estória que os  fez junto com os saídos de Angola involuntárias marionetes – a tal de dipanda do tundamunjila. Podia já ter esquecido todo este assunto, um tema deprimente para muita gente e descendentes matutos de mescla escura com mazombos e virgula no entretanto mas, eu mesmo prometi não esquecer este lado negro em terra que por via da descolonização se branqueou… O dólar tem de ser com o tal George de cabeça grande. O próprio George Washington

kinguila1.jpg Num aiué, todos os mitos em torno da “Nação de N´Gola”, as coisas mudam na percepção independente, tudo mudou mesmo muito nos anos da dipanda. Na Luua num repente também passou a ter também pretos de primeira e de segunda só que não querem que isto se saiba por ser assim muito tão cruelmente cruel. A preocupação com a etnogénese podia e pode ser muito bem motivada com a preocupação na degenerescência racial, da “eugenia positiva”, tem mwangolés de primeira e gente de chinelo do pé, tipo rafeiros mas isto, nunca passarão dum tal mito de que África dos trópicos de Capricórnio nunca vai querer analisar com profundidade …

(Continua…)

T´Chingange do kapiango na Diáspora dos AlGharb`s  do M´Puto



PUBLICADO POR kimbolagoa às 15:13
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Sábado, 18 de Janeiro de 2020
MUXOXO . LVI

KIBOM . I – É um sorvete gostoso

TEMPOS  BRABOS DE CALOR… 16.01.2020

Por

soba15.jpg T´Chingange – No Nordeste do Brasil

engraxador2.jpg Espetei meu chapéu verde e branco bem junto à Kanoa na pequena enseada da Pajuçara da Ponta Verde. Ainda não eram seis horas da manhã e, meu chapéu era o primeiro a ser fincado na areia de cor amulatada. Um homem bem moreno, cambuta de baixote no atarracado, mas ágil nos movimentos, espeta na areia bem junto de mim e no final da borda do beijo molhado da maré cheia, suas canas de genuíno bambu.

Galho recto e nodoso de simples natureza quanto baste, um escasso metro e meio de seda de nylon enrolada a partir do fino extremo e presa com um atilho saído dum vulgar pneu de bicicleta. Nada de sofisticados carretos a dar ares de pescador abastado. Ajustou seus dois baldes com letras de tintas de pintar paredes bem ao lado das esguias canas, meteu seus chinelos de dedão junto dos trapos dentro das mesmas e deu-se aos preparos finais.

Calçou sua cabeça com um chapéu camuflado de cobrir orelhas, pescoço e pala saliente a encobrir seus olhos e, em actos contínuos de mestria conhecedora, entrou na água de mansidão verde, cor de esmeralda, iscou seu ínfimo anzol na ponta dos cento e cinquenta centímetros, mais coisa menos coisa e, apontou a água num indefinido ponto de horizonte bem na curva como se fora num longínquo paralém. O pedaço de quase nada penetrou na água.

maceio1.jpg Assim e num repentemente, daquele lençol aguado, não demorou muito a puxar da água um peixe reluzindo pintura de prata chamado de xexéu. A cada lançada, novo peixe metido em seu pequeno balde pendurado no pescoço com um baraço de tira larga. Não demorou a ficar bem cheio com outros pequenos  variados peixes daqueles que depois de fritos na forma crocante fazem babar vontades de apetite.

No transbordo do peixe da lata pequena para a outra grande na areia e, muito perto de mim, o senhor olhando para minha ansiedade falou: - Moço, quer pescar? - Quero! Foi a resposta. Já com meio corpo dentro de água, apercebi-me da pequenez do anzol na forma de unha de gato quando enfiei um pedaço de camarão cru passado na pega entre os grossos polegar e indicador do senhor pardo matuto.

maceio3.jpg Enfiando pedacitos de camarão cru, fui lançando frustrações seguidas de ansiedade do vai ser agora e, bolas, pica, pica e num lança e tira e mete o isco, dá repelão e fugiu o filho da peste; assim num nadica de nada de só mesmo a picada, talvez por falta de jeito ou mesmo sorte fui lançando muxoxos de sundiameno aos pequenos roncadores. Assim apontando o horizonte fui ficando cansado dos pedaços frustrados de coisa nenhuma até que resolvi dar continuidade à minha talassoterapia.

Num meche perna, num torce e estica e roda, alonga braço e salta endurecendo músculos meus aperreados de tempo, idade e moleza, ele o senhor fala de novo: - Como é seu nome? À pergunta feita e respondida iniciámos falas de aproximação, nome de peixes, este é bom, este é espinhoso e assim por diante sem recta definida.

kanoa1.jpg Meu nome é Isaac, estou meio aposentado e ainda vou mexendo com minha macarronaria, sabe! Deduzi que isto tinha algo que ver com macarrão, massa de comer mas e, entretanto enquanto lança o caniço acrescenta: - Macarronaria do Isaac! Fica ali mesmo na paralela da Durval Guimarães, depois do Bom Preço, vira à direita, vira à esquerda e, é logo ali.

Negócio na parte baixa e residência no lado de cima. Hoje tenho de levantar dinheiro no banco para pagar aos meus seis empregados, visse! Agora, eu só fico entre as dezoito e vintiuma horas – meu tempo já foi, noé!? Pois! Disse eu poupando as falas entre outras ouvidas bem mais interessantes. Vá até lá seu António – vá provar minha macarronada de camarão, gostosa de roer vontade! Acredito seu Isaac, irei sim senhor!

kanoa2.jpg Já quase no ir, foi-me dizendo que voltaria sábado a horas de maré alta que é quando o peixe pega. Hoje é quinta-feira e, talvez no sábado próximo lhe pergunte pelo biónico personagem, o tal de General Emérito Fala Kalado, meu amigo de velhas antiguidades; quem sabe não é seu freguês lá na sua venda tasca ou lá o que seja, talvez restaurante. Quem é chambeta de pena falsificada e tem uma orelha plastificada decerto, sempre ficará preso na retina da ideia.

kanoa3.jpg Sabendo eu das particularidades de FK, dos gostos de matumbola reciclado em gente, dissimulado nas manhas e sempre prazeroso no trato, que gosta de whisky puro como quem só é fanático de água, bem pode ser um seu dissimulado cliente mesmo que o seja no incerto pois que, o personagem não é muito de usar roteiros rotineiros, um defeito desses propícios modos de surtidas com tocaias.  O hábito faz o monge talqualmente os tempos sangrados servem para assossegar segurança. Tomei um gelado Kibom com sabor a graviola e segui o rumo de casa a pensar de como vai ser o futuro, dos altos prazeres…

kanoa4.jpg Muxoxo é uma espécie de estalo que se dá com a língua aplicada ao palato, em sinal de contrariedade. No M´puto costumam chamar de “chocho", com o sentido de beijo.

O Soba T´Chingange



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Domingo, 3 de Março de 2019
BOOKTIQUE DO LIVRO . XV

“Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas, trauteei!? Reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo – Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. - 03.03.2019

Escrito por – José Eduardo Agualusa

Por

soba15.jpg T´Chingange, vulgo António Monteiro . No Nordeste brasileiro

Livros em cima do criado mudo (mesa da cabeceira)

1 - A minha Empregada - Editorial Estampa de - Maggie Gee

2 - O ano em que Zumbi tomou o Rio - Quetzal - José E. Agualusa

3 - O Último Ano em Luanda - ASA - Tiago Rebelo

4 - BURLA EM ANGOLA – Burla em Portugal - Guerra e Paz – Susana Ferrador

5 - História da riqueza de brasil – Estação Brasil – Jorge Caldeira

6 - GLOBALIZAÇÃO de Joseph E. Stiglitz

7 – VIDAS SECAS – Graciliano Ramos

8 - A viagem do Elefante – José Saramago – Da Caminho

9 - O Livro dos Guerrilheiros de José Luandino vieira - Da Caminho

10 – O CORTIÇO  - Romance de Aluísio de Azevedo – IBEP – S. Paulo, Brasil

agualusa2.jpg :::::144 

Eram 5.55 horas deste dia. O telefone tocou!... Preparava-me para ir à Praia da Pajuçara - deposito a xicara de café Santa Clara ainda muito quente no balcão de granito preto. Surpreso pela hora tão matinal e com o carnaval a desfilar na televisão tão cheio de cor no sambódromo de São Paulo penso: Quem será!? Vou atender pensando ser a Margarida a dizer que afinal, mesmo depois de passar a noite na refrega do samba do Jaraguá, sempre vai à praia. Atendo com um alô, alô! … Num espanto de quase susto, ouço: Sou o José Agualusa, o dono do Zumbi!... E, segue-se um espaço descolorido em cima dum branco fosforescente… Caramba é ele, o próprio! - Mas que prazer, disse assim meio tremendo de emoção com um formigueiro nos gémeos das quinambas. O José Agualusa!?

:::::145

Mas que prazer, repeti de forma escusada, meio encafifado e, ainda tendo na cabeça a musica “Olha a cabeça do Zezé, será quele é!?” … Será que ele é? Há problemas,… trauteei!? Não! Diz Agualusa meio a rir-se de meu titubear feito bobagem de susto!  Não, diz ele do outro lado da linha… (uma pequena pausa, creio que um gole de whisky, dum surdo e insuspeito gluk…gluk…) É para te agradecer pela propaganda que tens feito do meu livro do Zumbi!   

agualusa1.jpg :::::146

Também para te desejar um bom carnaval!... Estou em Curitiba num “Work Shop literário” e ontem vi alguém que tu descreves nas tuas mokandas do Kimbo! Também na Kizomba! Alguém que anda por aqui a farejar negócios - reconheci-o pela cicatriz que baixa da sua falsa orelha até ao meio do queixo papudo, disse isto como se eu apreendesse a mensagem vendo a figura. Não sei do que falas nem de quem falas! Disse eu, muito verdadeiro na surpresa. Nem tampouco conheço quem tenha uma orelha postiça. Pois, eu assim disse: - Não sei de quem falas amigo? Ele, o Agualuza, tinha sido meu vizinho lá no Huambo, podia dar-me a estas íntimas aproximações… Afinal quando ele cresceu, eu estava na Caála (Robert Williams).  

:::::147

Resposta rápida: Do teu personagem Coronel Fala Kalado, o morto vivo! Pópilas… (eu, no discurso directo) nem sabia que assim era! Às tantas até tem uma perna de pau que vira metralha ou catana em casos de periclitãncias e, eu sem saber. Pois é! O cara andou por aqui rondando. Não fosse eu saber de vossas relações e nem te iria perturbar a esta hora! Assim, como quem demonstra estar muito ocupado e após um Hic…Hic… xuk…xuk…krás…krás disse: - Fui! E, foice, digo foi-se mesmo!

fala1.jpg:::::148

E, eu que fazia o Coronel emérito das FALA estar bem perto de Poconé a traficar armas em troca de pó feito chocolate de canábis lá para os lados da Bolívia. Assim confuso, resolvi desvendar um pouco mais de sua escrita matrix das guerrilhas do Morro da Rocinha, lendo e relendo sem conseguir atinar na quietude do desassossego. Como é que descobriu meu telefone deste mukifo? Coisas por desvendar. E, que quereria ele dizer-me com esta descrição do cara ter na cara uma cicatriz bem por debaixo da orelha esquerda que era falsa. Vou-te contar (disse de mim para comigo mesmo!)

:::::149

RIO DE JANEIRO, IPANEMA, CLUBE FRANCÊS, NOITE – Na zona do CV – Comando Vermelho; Euclides, o jornalista, levanta a voz: Ouviste o que te disse? – Ouvi. O Presidente baicou… (morreu…) - E não te interessa? Francisco Palmares franze as sobrancelhas. Toda a sua atenção está concentrada no grande mapa da sala de comandos. Coloca e retira alfinetes. Desenha círculos a tinta vermelha em redor de determinadas posições. Enlaça os dedos e estala-os. Finalmente volta-se para o jornalista: - Então o velho baicou? Morreu como? – Faleceu durante o sono, enquanto fazia a sesta, ele era do tempo em que ainda se fazia a sesta. Ataque cardíaco. Foi Monte quem o encontrou… (parecem referir-se ao JES, o dono d´Angola)

matrindindi1.jpg :::::150

- Monte? O nosso amigo tem um talento especial para encontrar defuntos… Diz isto distraído e retoma o trabalho. O destino de Angola já não o entusiasma. Euclides senta-se numa cadeira. Abana a cabeça. Afaga perplexo o farto bigode. Aborrece-o o alheamento do outro: - Pensei que te agradaria a notícia. A morte do Velho vai abrir caminho para a democracia plena. O regime está a viver os seus últimos dias. Se a vossa aventura tiver um final feliz, entendes?, se o Governo aceitar as vossas condições … (este governo, é referente ao Brasil do tempo do PT - José Inácio, ainda liberto…) Pois tu não entendes, coronel?!...

:::::151

Se o José Inácio amnistiar toda a gente, podes depois regressar à Luua (Luanda). Francisco Palmares enfrenta-o de novo. Desta vez olha-o com intensidade. Pousa a mão nos ombros dele. Euclides sente-lhe a febre. Uma serena tristeza: - Eu já não volto meu kota. Não terei a alegria de morrer na Luua. Primeiro porque encontrei o meu destino. E depois, talvez nem se chegue a um acordo com o Governo (de novo o Brasil), talvez não haja um final feliz. A coisa aqui está a ficar preta (feia)… - O que dizes? Tu sabes que temos problemas…

araujo53.jpg :::::152

Começa a faltar comida na cidade e, como dizia a minha avó, em casa que não tem pão todos ralham e ninguém tem razão… Há divisões no movimento (do CV-Rio - Comando Vermelho), tem gente que quer assaltar os supermercados, os armazéns…Está a ser difícil lidar com algumas pessoas… O jacaré!?... Olha, por exemplo, o Jacaré. Muito destes mwadiés não têm formação politica. Em Angola vivemos um processo semelhante, não foi?, em setenta e cinco, quando o partido do M decidiu recrutar o lumpens (?),  a bandidagem dos musseques, gente habituada a fazer tiros… Mas não eram militares, faltava-lhes a disciplina… (refere-se aos pioneiros e outros desclassificados). E a seguir, ainda por cima, para saldar a dívida, deram-lhe cargos de responsabilidade… (de cabos fizeram generais num piscar de olhos).

café da avó1.jpg :::::153

- Pareces o teu pai… O meu Pai? O erro do meu pai, kota, aquilo que o perdeu, foi nunca ter sido capaz de passar das palavras aos actos. Democracia plena em Angola? Não, não penses nisso. Vai ficar tudo na mesma. (já Agualusa feito osga, estava a ver o filme bem afrente, com o laranja JL…). Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder. Como assim? – Em Angola talvez seja possível derrubar o regime, mas não vai mudar nada. Aqui (Referia-se ao Brasil), ao contrário, podemos até perder esta batalha. Mas, depois da nossa derrota, acredita, nada será como antes. Mesmo derrotados, teremos vencido.

(Continua…)

O Soba T´Chingange



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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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