Quarta-feira, 2 de Novembro de 2016
MALAMBAS . CXLIX

CINZAS DO TEMPO 02.11.2016De novo viajei à velocidade dum sonho com um ET… Tenho de falar assim para não me mentir na fricção!

MALAMBA: É a palavra.

Por

t´chingange 0.jpg T´Chingange

ET3.jpg Em 1952 aprendi que o Mundo era composto de sete planetas. Desde então e até agora, já surgiram bilhões de galáxias e triliões de planetas. Deus começou a surgir-nos radiactivo com muitas partículas de fotões e ondas electromagnéticas. Tivemos assim de viajar numa quantidade infinita de suposições sem sabermos como separar o possível do admissível medido num espectrograma muito preenchido de ruídos cósmicos; ruídos assim, como que vindos duma distância tão longínqua como o fim da linha vermelha marcada neste instrumento instalado no espaço.

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Num repente e sentindo-me uma ilusão rigorosamente inválida vi-me forçado a esboçar o tempo de sonho na distância de 20.000 milhões de anos-luz, procedência do meu novo amigo ET vindo da galáxia 3C295 com quem só falo por telepatia e, quando entro no sonho da noite. Os telescópios-satélites abriram uma janela para enxergarmos locais nunca pensados! De repente e num simples exercício de imaginação podemos dizer que no vasto espaço do Universo há tantos grãos de areia como num deserto terreste.

soba com ET.jpg Imagino quantos mundos diferentes pode haver nesse conjunto de galáxias, quantas belezas poderão ser encontradas, quanta diversidade, quanta vida! Este meu novo amigo a quem vou chamar de STAR 3C325, é ainda misterioso comigo; creio que me anda a estudar introduzindo-me moléculas tossidoras que só se denunciam ao despertar e, na forma de espirros. Começaram por ser cinco e agora já vão em treze.

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Tempos atrás, o céu só me parecia ter regiões escuras, sem absolutamente nada mas, uma força electromagnética surgiu feita partícula elementar; um quantum de luz, uma unidade indivisível em que as ondas podem ser absorvidas ou emitidas. Este meu amigo desproporcionalmente pequeno e raquítico em relação ao tamanho da cabeça tem um dos quatro dedos na forma broca. Senti que no primeiro contacto ele através desta broca enfiou em mim resíduos de sabedoria e novas formas sensoriais de usar a mente para dialogar.

soba03.jpg Interessante ter-me comunicado que eu só lhe despertei interesse porque do meu corpo não irradiava medo coisa pouco vulgar entre os humanos. Ele, o STAR 3C 325 está fazendo uma extensiva pesquisa sobre as capacidades do cérebro humano e a natureza da alma tendo até confidenciado que a minha alma pesa o dobro do normal, 48 gramas.

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Na nave bolota em forma de sino e pela segunda vez, fomos dar uma volta ultra rápida pela terra e vi coisa que nem quereria ver, aviões a despejar bombas em cima de cidades, gente a fugir doutra gente e outros trabalhando em buracos a tirar riquezas para outros. Ele viu o quanto eu detestava esta visão e levou-me até à terra do Tuiavii III, umas paradisíacas ilhas dos mares do Sul chamadas de Samoa.

matri2.jpg Por ali ficamos na ilha Upolu brincando os sonhos de tempos passados. Só eu o podia ver e, assim andei descansado por não chamar a atenção daquela gente pescadora. Comunicando cérebro com cérebro e, sem falar, ele foi dizendo que esta vida daqui nada tinha a ver com sua vivência longínqua alimentada a quantums e spins, propriedades internas de partículas elementares. Fiz um esforço para entender mas, juro que saí do sonho mais confuso do que já estava…

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:39
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011
PAPALAGUI . XIV

{#emotions_dlg.meeting}AS ESCOLHAS DO KIMBO

 

A imagem e a vida do Papalagui” - Visão de Tuiavvi *

É raro que um Papalagui adulto saiba dar cambalhotas ou fazer cabriolas como uma criança. Ao andar arrasta o corpo, como se houvesse alguma coisa a entravar-lhe os movimentos. Ele nega que isto seja uma fraqueza e pretende que correr, dar cambalhotas ou fazer cabriolas é contrário à dignidade de um individuo que se preze. Mas é uma explicação falsa, esta; na realidade os seus ossos endureceram e tornaram-se rígidos e os múscolos perderam toda a flexibilidade, pois a profissão dele os condenou ao sono e à morte. O Papalagui está sempre ávido de ler o jornal, muito embora narrem horriveis acontecimentos, que um homem sensato deveria querer esquecer imediatamente. Além disso, tudo quanto é mau e faz mal, vem descrito com mais precisão do que aquilo que é bom, contado até ao mais ínfimo pormenor, como se não fosse mais importante e mais gostoso dar conta do bem, em vez do mal. Os jornais são maus para o nosso espírito, não só porque relatam o que se passa, mas também porque nos dizem o que devemos pensar disto ou daquilo, dos nossos chefes de tribo, sobas de outras terras, e de todos os acontecimentos e acções dos homens.

 Di Cavalcanti Br

Os jornais gostariam que todos os homens pensassem o mesmo; atacam a cabeça e os pensamentos do indivíduo. Pretendem que toda a gente tenha cabeça e pensamentos iguais aos deles. E, sabem como levar isso a cabo. Quem leia pela manhã, os muitos papéis, saberá o que, ao meio dia, o Papalagui tem na cabeça e em que pensa. A todo momento todos falam a mesma coisa em todo o lado. O jornal é também uma espécie de máqiuina que todos os dias fabrica uma quantidade de novos pensamentos, muito mais que os que uma só cabeça conseguiria produzir. Atafulha a cabeça com esses muitos papeis, inútil alimento. Mal acabou de consumir um, e já se prepara para engolir outro. A sua cabeça assemelha-se muito a uma região pantanosa, afogada no seu próprio lodo, onde já nada cresce de verde e de fecundo, onde só há miasmas e nuvens de insectos que picam. O Branco perdeu a noção do real, que confunde a luz com a sua imagem e a vida com uma esteira coberta de inscrições. O Papalagui tem a grave doença de estar sempre a pensar.

PAPALAGUI: - Homem branco; *Tuiavvi: - Chefe de tribo das Ilhas Samôa que visitou a Europa no primeiro quarto do século XX e descreveu o que viu desta forma.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:39
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Sábado, 7 de Maio de 2011
PAPALAGUI . XIII

{#emotions_dlg.meeting}AS ESCOLHAS DO KIMBO
“As máquinas do Papalagui” - Visão de Tuiavvi *
  Milagres de MIRÓ

A grande ambição do homem branco Papalagui, é realizar sempre novos e cada vez mais imponentes milagres. Milhares de Papalaguis passam as noites em dificílimas pesquisas, a ver de como hão-de vencer o Deus. É Deus quem decide qual de nós irá morrer, e quando morrerá. É a Ele que em primeiro lugar obedecem o sol, a água e o fogo, e não será nos nossos dias que um branco o vai domar à sua vontade o nascer da lua ou a direcção dos ventos. A máquina é um ser sem vida, fria, incapaz de falar do seu trabalho, de sorrir quando o terminou, e de levar o que acabou de fazer ao pai e à mãe, para eles também se alegrarem. A grande maldição que a máquina encerra, é que o Papalagui deixou de gostar de toda e qualquer coisa, já que a máquina tudo pode reconstruir de imediato.
 A profissão . NEVES DE SOUSA
O papalagui corre sempre para um determinado fim. A maior parte das suas máquinas destinam-se a fazê-lo atingir mais depressa esse fim, e mal ele o atinge, logo parte com outro destino. O papalagui leva, pois, a correr até perder o folêgo, e cada vez mais se esquece do que é andar ou passear. O Papalagui ainda não construiu, até à presente  data, qualquer máquina que consiga preservar-nos da morte. Nenhuma dessas máquinas, nenhum desses seus artifícios e feitiçarias foi capaz ainda de prolongar a vida, de tornar uma pessoa mais alegre e feliz.  Todos os Papalaguis têm uma profissão. É difícil explicar-vos o que isso é. É qualquer coisa que uma pessoa devia ter vontade de fazer, mas que raramente tem. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, fazer uma coisa tantas vezes que se acaba por fazê-la sem esforços e de olhos fechados! Se as  minhas mãos só fizerem cabanas ou esteiras, terei, como profissão, a de construtor de cabanas ou tecelão de esteiras. Há entre os Papalaguis, tantas profissões quantas pedras há na lagoa. O Papalagui faz de cada acto uma profissão.
  Tussi -  Coisas de DALI

Quando apanha as folhas caídas da árvore do pão, exerce uma profissão. Quando alguém lava as malgas onde a gente come, exerce outra profissão. Desde que se faça qualquer coisa, quer com as mãos quer com a cabeça, exerce-se uma profissão. É igualmente profissão ter ideias ou olhar para as estrelas. O Papalagui transforma tudo quanto o homem é capaz de fazer numa profisão. Come peixes, mas não vai à pesca, come frutos, mas nunca os apanha; escreve tussi (carta - escrivão público) atrás de tussi, pois tussi-tussi é a sua profissão. Da mesma maneira, todos aqueles actos são outras tantas profissões: enrolador e arrumador de esteiras, cozinheiro de frutos, lavador de malgas, pescador de peixes, colhedor de frutos. Só a profissão confere a cada um, o direito de exercer uma actividade.
PAPALAGUI: - Homem branco; *Tuiavvi: - Chefe de tribo das Ilhas Samôa que visitou a Europa no primeiro quarto do século XX e descreveu o que viu desta forma.
(Continua...)
O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:11
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Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
PAPALAGUI . XII

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As máquinas do Papalagui” - Visão de Tuiavvi *

: Máquinas voadoras

O Papalagui tem o dom de faze rde tudo uma lança e uma moca. Agarra no raio fulminante, no fogo escaldante e na água veloz domando-os à sua vontade. Aprisiona-os, dá-lhes ordens; e eles obedecem, passando a ser os seus guerreiros mais valorosos. Sabedor de todos os seus segredos, consegue tornar o raio fulminante ainda mais pronto e certeiro, o fogo escaldante ainda mais escaldante e a água veloz ainda mais veloz. É, a um tempo, peixe, pássaro, verme e cavalo. Faz buracos na terra, através da terra e por baixo dos mais largos rios. Insinua-se por entre rochas e montanhas. Amarra rodas de ferro aos pés e caminha mais depressa do que o mais veloz cavalo. Eleva-se nos ares. Sabe voar. Vi-o planar no céu como um alcatraz. Tem uma enorme canoa para andar sobre a água e outra para andar debaixo de água. Voa, com a ajuda de outra canoa, de nuvem em nuvem. Não sou suficiente forte para poder explicar-vos o que é uma máquina. Uma coisa é certa: come pedras negras e, em contrapartida dá força. Nunca um ser humano será capaz de ter tanta força como essa máquina. A máquina do Papalagui é a maior das suas mocas.

 Raios

Se a gente der ao Papalagui o tronco da mais rija árvore da floresta virgem, da mais rija que houver, a mão da máquina quebrá-lo-á tão fácilmente como uma mâe parte uma maça para dar aos filhos. O Papalagui é um mago. Quando a gente canta uma canção, ele consegue apanhá-la e reproduzi-la em qualquer altura que se queira ouvir de novo. Mas ainda vi maiores milagres. Já vos disse que o Papalagui apanhava os raios do céu. É exactamente assim que as coisas se passam. Apanha-os e dá-os depois a uma máquina que os mastiga, os engole e os torna a cuspir, à noite, sob a forma de mil estrelinhas pirilampos e luas anãs. Seria fácil para o Papalagui inundar, durante a noite, as nossas ilhas de uma luz tão clara e brilhante que a gente se julgaria em pleno dia. O seu ouvido é capaz de se aperceber de um sussurro em Savaii e a sua voz possui asas de pássaros. Os olhos dele até vêem de noite. Vê através do homem como se a carne deste fosse água límpida, e distingue as imundícies que há no fundo da água.

 

* PAPALAGUI: - Homem branco; visão de um chefe de tribo das Ilhas Samôa que visitou a Europa no primeiro quarto do século XX e descreveu o que viu desta forma.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:08
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Segunda-feira, 7 de Março de 2011
PAPALAGUI . VIII

 AS ESCOLHAS DO KIMBO

“O dinheiro e o poder” - Visão de Tuiavvi

No sítio a que os brancos chamam de cidade, o solo está árido como a palma da mão. Por isso o Papalagui perdeu o trambelho e brinca ao Grande Espírito para esquecer o que não tem. Como é assim pobre, e a sua terra triste, apodera-se das coisas coleccionando-as como um louco que apanhasse folhas murchas e com elas enchesse a casa. O papalagui é pobre porque está obcecado pelas coisas e, não pode passar sem elas. Guarda isso tudo em baús, panos, tecidos de baixo e de cima, para as peles das mãos e dos pés, para guardar o metal redondo, para as provisões e até o livro santo (bíblia), para tudo quanto há na terra. Quando entramos numa cabana-cozinha do puto e toda a europa, vemos uma porção de pratos de comida e de utensílios de cozinha que nunca são usados. Para cada alimento há uma tanoa (prato, copo, taça) diferente, uma para a água, outra para a kava (vinho, marufo, sumo) europeia, mais outa para a noz de coco e outra ainda para o ovo. Quem tem poucas coisas considera-se pobre e isso fá-lo sentir-se triste.

 

Um papalgui com poder

Não há Papalagui algum que seja capaz de cantar e mostrar um olhar feliz se apenas possuir como nós de Samoa, uma só esteira para dormir e uma só tanoa para comer. Muito se lamentariam os homens e as mulheres do mundo branco se vivessem nas nossas cubatas. Irmãos destas muitas ilhas: temos que tomar cuidado e permanecer vigilantes, pois as palavras do Papalagui parecem bananas doces, mas estão cheias de dados ocultos, feitos para matar toda a luz e a alegria que existe em nós. Nunca da boca do homem branco saiu mentira maior do que esta que ele diz «As coisas do Grande Espírito não servem para nada; só as coisas do homem são úteis, muito úteis, as mais úteis». O que o branco diz e tenta impor-nos vem direito do espírito mau (diabo); os seus pensamentos estão imbuídos de veneno. Um dia ouvi um branco Papalagui dizer: «Temos que levar estes gajos a terem necessidades, só então é que eles ganharão de facto gosto pelo trabalho».

 

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:56
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
PAPALAGUI . VII

AS ESCOLHAS DO KIMBO

“O dinheiro e o poder” - Visão de Tuiavvi

O Soba

Graças à doutrina fomentada pelo valor do dinheiro o papalagui permite-se a ser cruel, ter o coração duro e sangue frio; mostra-se na generalidade velhaco, falso, raramente honesto e sempre perigoso quando corre atrás do dinheiro. É por isso que é raro um branco ter confiança noutro, pois todos conhecem a sua comum fraqueza. Nunca a gente sabe assim, se um homem que tem muito dinheiro terá bom coração, muito possivelmente será má pessoa. Nunca a gente sabe como ou donde vem a riqueza de alguém (* se for politico e português ou da Lusofonia, é quase que certo ser de roubo). Em contrapartida, também o homem rico não sabe se as honras que lhe prestam são devidas à sua pessoa ou ao seu dinheiro, quase sempre é o dinheiro.

A malha da usura

Nenhum papalagui quer renunciar ao dinheiro. Quem não gosta dele, é alvo de zombarias, é parvo (valea). Ser rico, isto é ter muito dinheiro, torna a pessoa feliz. O dinheiro é um aitu (o espírito maligno, o diabo), pois quem nele mexe em mais que a conta, fica sujeito ao seu sortilégio e, quem gosta dele tem de o servir, e consagrar-se-lhe por toda a vida com a sua força e alegria. Os brancos da Europa cultivam a crença que só o dinheiro torna a pessoa rica e feliz, cultivam isso como quem rega uma estimada flor! E quase todos se deixam seduzir por ele, o dinheiro, contraindo essa grave doença de se ser rico. Quando afirmo que o dinheiro não faz ninguém feliz e alegre digo-o pelo que vi, e antes traz graves perturbações ao ser humano.

Dartagnham

Esse metal redondo, para nós, será o maior inimigo. Com muito dinheiro, o papalagui julga-se mais forte que o Grande Espírito (Deus). Eis porque, do nascer ao pôr-do-sol, milhares e milhares de mãos mais não fazem que do que fabricar coisas, coisas cujo sentido ignoramos, e cuja beleza desconhecemos. O branco, procura inventar sempre coisas novas, as suas mãos tornam-se febris, o seu rosto cor-de-cinza e suas costas ficam curvas mas, os olhos brilham de felicidade sempre que consegue uma nova coisa, logo todos querem ter essa coisa, todos a adoram e a celebram com cantos de sua língua; quem assim não for é um pobre e reles cidadão, um desclassificado (*como eu)no exilio.

*- Anotações do Soba transcritor

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 01:04
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
PAPALAGUI . VI

AS ESCOLHAS DO KIMBO

“Discursos de Tuiavvi”


O dinheiro é de facto o Deus do Papalagui, se a gente considerar Deus aquilo que mais se adora. É preciso notar que nas terras do homem branco é impossível viver sem dinheiro, uma só vez que seja, do nascer ao pôr-do-sol. Se não tiveres dinheiro nenhum, não poderás matar a fome nem mitigar a sede, não encontrarás esteira para a noite, serás lançado no fale pui-pui (prisão) e falar-se-á de ti em muitos e variados papéis (jornais); tudo isto só por não teres dinheiro! Até para nasceres tens que pagar e, quando morreres, a tua aiga (família) tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação. Descobri uma única coisa pela qual se não pede ainda dinheiro na Europa, coisa que cada um pode fazer as vezes que quiser: respirar o ar. Sem dinheiro, tu és, na Europa, um homem sem cabeça e sem membros; não és nada. Tens que ter dinheiro. Precisas de comer, de beber e de dormir.

Samoanos

Quanto mais tiveres, melhor vives. A coisa passa-se assim: quando um Branco tem dinheiro suficiente para a sua comida, para a sua cabana, para a sua esteira e algo mais ainda, manda logo o seu irmão trabalhar para ele, graças ao dinheiro que tem a mais. Destina-lhe, para começar, aquele trabalho que lhe põe as mãos sujas e rugosas. Manda-o limpar os seus próprios excrementos. Se é mulher, arranja uma criada para o seu serviço, a qual tem que limpar-lhe a esteira suja, os pratos da comida e as peles para os pés, e remendar os panos rasgados; e tudo mais importante que faça terá que ser útil para a ama.

Cassoneiras do marufo

E isto até chegar ao ponto de nada mais fazer do que deitar-se na esteira, beber kava (bebida, marufo da palmeira), queimar os seus rolos de fumo, entregar as canoas já prontas e arrecadar o metal e o papel que outros, com o seu trabalho, ganharam para ele. Dizem então os homens: é rico. No mundo dos brancos, a importância de um homem não é determinada nem pela sua bravura, nem pela sua coragem, nem pelo fulgor do seu espírito , mas sim pela quantidade de dinheiro que possui ou que é capaz de ganhar por dia, dinheiro esse que fecha no seu grande baú  de ferro, o qual nenhum tremor de terra é capaz de destruir. Muitos brancos há, que amontoam o dinheiro que para ele outros ganharam, o depositam num sítio bem guardado e para aí vão acarretando sempre mais, até que um dia já não precisam de mandar os outros trabalhar para eles, trabalhando o dinheiro no seu lugar. Nunca consegui perceber como é que isso era possível, sem haver magia negra; e no entanto tudo se passa assim: o dinheiro multiplica-se como as folhas de uma árvore e o homem, até quando dorme vai enriquecendo.

Palmeira macaúba

O papalagui regozija-se com o poder que a abundância de dinheiro lhes confere. Ficam inchados de orgulho, como frutos podres sob a chuva tropical. Fazem, com volúpia, trabalhar duramente muitos dos seus irmãos, enquanto o seu corpo engorda e se fortalece. Procedem assim sem que a consciência os apoquente. Roubam a todo o passo a força de outros homens e fazem-na sua, sem que isso os atormente ou lhes tire o sono. Há pois, na Europa, uma metade que trabalha muito e se suja, e outra metade que trabalha muito pouco ou nada. A primeira não tem tempo de sentar-se ao sol, ao passo que a outra o tem de sobra.

Do Livro: O PAPALAGUI – discursos de Tuiavii, nos mares do Sul; Recolha de Erich Sheurmann


(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 23:59
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
PAPALAGUI . V

AS ESCOLHAS DO KIMBO

“Discursos de Tuiavvi”

 BAÚS . ARRANHA CÉUS

Mas se apenas quisermos dizer talofa (fazer saudação) a um amigo de outra ilha, não precisamos de ir a sua casa ou de correr dentro daquilo. Sopramos a mensagem em fios metálicos que se estendem, como lianas, de uma a outra ilha de pedra, e a mensagem chega ao sítio designado mais depressa do que um pássaro em pleno voo. Os homens das gretas pensam que tem direitos superiores aos do homem do campo e que aquilo que faz tem mais valor do que enterrar ou desenterrar frutos. Este conflito entre as duas partes não provoca contudo qualquer guerra entre elas. Quer viva entre gretas (na cidade), quer viva no campo, o Papalagui acha que tudo está bem como está. Quando o homem do campo entra nas gretas, admira o poderio do homem que as habita, e este canta e arrulha sempre que atravessa as aldeias do homem do campo. O homem das gretas deixa o homem do campo engordar artificialmente os seus porcos, e este deixa o homem das gretas construir e gozar os seus baús de pedra.

FLÔR DO MATO

Quanto a nós, filhos livres do sol e da luz, desejamos continuar fiéis ao Grande Espírito e não sobrecarregar com pedras o seu coração. Só indivíduos desvairados e doentes, homens que largaram a mão de Deus, serão capazes de viver felizes entre gretas daquelas, sem sol, sem luz e sem vento. Reconheçamos a incontestável felicidade do Papalagui, frustremos as suas tentativas de construir ao longo das nossas margens banhadas pelo sol, os seus baús de pedra, e de destruir a nossa alegria com pedras, gretas, sujidade barulho, fumo e areia, como é desejo seu fazer.

Flôr da Bromélia

Como todos vós sois testemunhas, o missionário proclama que Deus é amor e que um bom cristão deve ter sempre a imagem do amor presente no seu espírito. O Papalagui corrompeu-o, de modo que ele nos engana usando as palavras do Grande Espírito. A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro. Quando lhes estendem uma peça de metal redondo e brilhante ou um papel grande e forte, logo os seus olhos brilham e a saliva lhe assoma aos lábios. O dinheiro é o objectivo do seu amor, o dinheiro é a sua divindade. Todos os homens brancos pensam nisso, até mesmo a dormir. Muitos há que pelo dinheiro, sacrificaram o riso, a honra, a consciência, a felicidade e até mesmo mulher e filhos. Quase todos eles sacrificam a saúde ao metal redondo e ao papel forte, isto é, ao dinheiro. Trazem-no dentro dos panos, dobrado e metido em duras peles. À noite, põem-no debaixo do seu rolo de dormir, para que ninguém lho roube. Pensam nisso todos os dias, a toda hora, a todo o instante.

Do Livro: O PAPALAGUI – discursos de Tuiavii, nos mares do Sul; Recolha de Erich Sheurmann

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 00:22
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011
PAPALAGUI . IV

AS ESCOLHAS DO KIMBO

“Discursos de Tuiavii"


O PAPALAGUI NO  SEU BAÚ

Cabanas há, é claro, com maior número de baús. Como também há cabanas onde cada criança, e cada servo do Papalagui, possuem o seu próprio baú. Há-os até para os cães e para os cavalos. Estes baús de pedra encontram-se em grande número e muito próximos uns dos outros; nenhuma árvore, nenhum arbusto os separa; encontram-se ombro a ombro como homens, e em cada um deles há tantos Papalaguis como numa aldeia de Samoa. Do outro lado, à distância de uma pedrada, encontra-se uma outra fila de baús, igualmente ombro a ombro e habitados por homens. Entre essas duas filas há uma estreita greta a que o Papalagui chama «rua». Essa greta é, às vezes, tão longa como um rio e coberta de pedras duras. Muito se tem que andar, primeiro que se encontre um sítio mais desafogado; mas é aí precisamente que vêm desembocar outras gretas. Têm o mesmo comprimento dos rios de água doce e as suas aberturas laterais são outras tantas gretas de pedra, semelhantes às demais. Pode-se assim deambular dias inteiros entre essas gretas antes de se dar com uma floresta ou um naco de céu azul. Nunca, no meio das gretas, se vê na realidade, a cor do céu.

FLORES

São as ruas que comportam enormes caixas de vidro onde estão dispostas todas as coisas de que Papalagui necessita para viver: - panos, ornamentos para a cabeça, peles para os pés e para as mãos, provisões de comida, carne, alimentos a sério como sejam os frutos, os legumes, e muitas coisas mais. Tudo ali está para tentação dos homens. Mas ninguém tem o direito de tirar o que quer que seja, mesmo em caso de extrema necessidade; para isso é preciso ter recebido uma licença especial e feito um oferenda. Nessas gretas, o perigo ameaça por todo o lado pois não só os homens caminham em tropel, como circulam e galopam a cavalo em todas as direcções ou se fazem também transportar em grandes baús de vidro que deslizam sobre rampas metálicas. O barulho é enorme. Fica-se surdo dos ouvidos, por via dos cascos dos cavalos e dos pés dos homens cobertos de peles duras, que ferem as pedras do chão. Resumindo: - baús de pedra com os seus muitos homens, fundas gretas de pedra para um lado e para o outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou de nuvens – a isto o Papalagui chama uma «cidade», criação de que muito se orgulha; dos que ali vivem, muitos há que nunca viram uma floresta, um céu lavado ou o Grande Espírito, face a face. Todas as ilhas de pedra estão ligadas entre si por caminhos já traçados. Mas pode-se também viajar num barco terrestre, comprido e estreito como um verme, que cospe fumo sem parar e desliza com grande rapidez sobre uns fios de ferro, com mais rapidez do que uma canoa de doze lugares em plena corrida.

A CIDADE

O barulho é enorme. Fica-se surdo dos ouvidos, por via dos cascos dos cavalos e dos pés dos homens cobertos de peles duras, que ferem as pedras do chão. Resumindo: - baús de pedra com os seus muitos homens, fundas gretas de pedra para um lado e para o outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou de nuvens – a isto o Papalagui chama uma «cidade», criação de que muito se orgulha; dos que ali vivem, muitos há que nunca viram uma floresta, um céu lavado ou o Grande Espírito, face a face. Todas as ilhas de pedra estão ligadas entre si por caminhos já traçados. Mas pode-se também viajar num barco terrestre, comprido e estreito como um verme, que cospe fumo sem parar e desliza com grande rapidez sobre uns fios de ferro, com mais rapidez do que uma canoa de doze lugares em plena corrida.

Do Livro: O PAPALAGUI – discursos de Tuiavii, nos mares do Sul; Recolha de Erich Sheurmann

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:20
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
PAPALAGUI . III

AS ESCOLHAS DO KIMBO

“Discursos de Tuiavii”


o Tuiavii na aldeia com sua mulher

Os homens têm sempre o pescoço e as costas muito tapados. Um cavalheiro (alii), usa do pescoço até aos peitos um pedaço de pano caiado, do tamanho de uma folha de taro (folha de uma planta). Por cima disso, coloca um aro alto, igualmente branco, o qual enrola à volta do pescoço. Passa, através deste aro, um bocado de pano colorido (gravata), dá-lhe um nó como os que prendem os barcos, fura-o com um prego de oiro ou uma pérola de vidro e deixa isso tudo dependurado sobre o escudo do peito. Muitos Papalaguis usam igualmente aros caiados nos punhos, mas nunca nos tornozelos.

O Papalagui mora como o mexilhão do mar, dentro duma concha dura. Vive entre pedras, como a escolopendra (deve ser caranguejo ou lagartixa) entre as fendas da lava. Tem pedras a toda a volta, de lado e por cima. A sua cabana assemelha-se a um baú de pedra posto ao alto; um baú cheio de cubículos e de buracos. Entra-se e sai-se da concha de pedra por um mesmo sítio. O Papalagui chama a esse sítio «entrada» quando entra na cabana, e «saída» quando sai, muito embora uma e outra sejam exactamente o mesmo. A maior parte das cabanas (baús) é habitada por maior número de pessoas do que as que há numa só aldeia de Samoa. É preciso, por isso, saber-se exactamente o nome da família (aiga) que se quer visitar. Porque cada aiga ocupa a sua própria parte do baú de pedra, no cimo, em baixo ou a meio, à direita, à esquerda ou mesmo em frente.


Ilhas Samoa . Antes e depois do tsunami

Além disso, na maior parte das vezes, uma aiga nada sabe da outra, mas mesmo nada, como se entre elas houvesse, não apenas uma parede de pedra, mas Manono, Apolima e Savaii, as 3 ilhas de Samoa, e inúmeros mares. Muitas vezes mal sabem o nome das que lhes estão ao lado e quando se encontram, ao entrar para o abrigo, cumprimentam-se de má vontade ou zunem, quais insectos hostis, como se estivessem zangadas de se verem constrangidas e viverem perto uma da outra. Quando uma aiga mora lá em cima, junto ao telhado da cabana, temos que trepar em ziguezague ou à roda, através de vários ramos, antes de chegar ao sítio onde o nome da aiga estiver escrito na parede. Vemos então uma graciosa imitação de um mamilo de mulher, o qual devemos premer até soar um grito que fará vir a aiga. Esta, graças a um buraquinho redondo e gradeado aberto na parede, vê se não se trata de um inimigo; só depois, abre. Se reconhece um amigo, desprende logo um grande batente de madeira solidamente fechado a cadeado e puxa-o contra si, o que permite ao visitante entrar por essa fresta na cabana propriamente dita. Cada baú tem o seu fim próprio. O baú maior e mais claro destina-se às fonos (reuniões) da família ou ao acolhimento dos visitantes; há outro que serve para dormir. É aí que se põem as esteiras, isto é, que as estendem sobre um estrado de madeira com pés altos a fim de que o ar passe por baixo delas. Num terceiro baú, tomam-se as refeições e fazem-se nuvens de fumo; no quarto, guardam-se os alimentos. Cozinha-se no quinto, e toma-se banho no último, que é o mais pequeno, e também o mais belo cubículo. Está enfeitado com grandes espelhos, o chão embelezado com uma camada de seixos multicolores e, mesmo ao meio há uma grande bacia de metal ou pedra na qual corre água fria ou água aquecida ao sol. É nessa grande bacia, maior mesmo do que o belo túmulo de um chefe de tribo, que uma pessoa se mete, para limpar, e lavar o seu corpo de toda a poeira dos baús.

Do Livro: O PAPALAGUI – discursos de Tuiavii, nos mares do Sul; Recolha de Erich Sheurmann

(Continua…)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 07:51
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