Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXVIII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA Crónica 3326–24.08.2022 – Republicada a 16.12.2022

CORRIA O ANO DE 2002 . XIVNA TERRA DE MATRINDINDES“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos. Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por bay0.jpg T´Chingange – (Otchingandji) – No Al.Gharb do M´Puto

acácia1.jpg Já no Alto Liro do Lobito - De um qualquer lado, bancas de bolos de batata-doce e mandioca desprendiam odores fortes mas, do lado esquerdo, estava uma escura e abandonada ruína que em tempos tinha sido bloco de apartamentos. Talvez! Neste redor de muitas coisas e dúvidas senti uma náusea, uma multidão de gente barafustando ou incitando, rodeava um negro de aspecto encorpado, que tombado, rolava no chão ensanguentado.

Não sei o que teria originado aquele bate e chuta de alguns ou de todos mas, correu-me um calafrio pela tardoz coluna e, os senhores dois polícias que ali estavam, a escassos trinta metros se tanto, nada pareciam ver; ali havia coisa de roubo mal sucedido porém, o nosso guia “Bien” (Beto), também de acostumado, continuou sem nada dizer; conclui que a justiça popular estava a seguir as normas ao jeito do antigo “Tira Biquíni da Luua”, lugar aonde aconteceu queimarem supostos ladrões com pneus envoltos na cintura. Até dói, relembrar gente a morrer literalmente regados, nas chamas de gasolina.

Daquela parte e do envolvente não gostei e, quando olhei para trás as barrocas estavam apinhadas de cubatas eclecticamente construídas com os mais diversos materiais – plásticos, chapas de zinco, madeiras e remendos com latas de tinta, latas de azeite galo do M´Puto ou leite Nido, tipo patrocínio da Nestlé. Seguiram-se as lagoas de imundas margens, os barracões armazéns de todo o género de mercearia e bebidas, controlados pelos Libaneses e Sírios; todo o grande armazém dizia-se ser de uma destas castas, gente de resiliência permanente.

besanga0.jpg A dona Andresa esperava-nos de refeição posta; sabendo das carências nos caminhos ultimou um repasto de muitas iguarias e as frias e gulosas cervejas; A restinga, o barco no ar, o porto, o clube náutico, as casuarinas e os bares da pontinha estavam de melhor agrado do que tudo o visto anteriormente; dou nota positiva a este istmo a que chamam ilha mas o resto sempre ficará amachucado na lembrança sem a ongweva peculiar de um qualquer que queira ver progresso.

Noite entrada e já para lá da Catumbela a polícia fez alto ao nosso carro, ou melhor o zingarelho do Bien e, eu nem saí pois sabia que teria de forçosamente de haver uma conversa longa de convencimento e respectiva gasosa. Bem! Os motivos eram por demais evidentes. Da parte de trás o carro era fantasma, só tinha o escuro da noite e fuligem de má combustão, luzes, nem uma.

Luz de stop nunca tinha sido necessária mas, agora o polícia não saía das más conclusões e só a promessa de arranjo e o cuidado a ter com a outra patrulha mais à frente, fez deslizar o desejo em vontade e, o agrado ficou registado com uns quantos kwanzas. Entretanto, a meia hora perdida passou-nos à frente e deu-nos luz; a aventura estava a decorrer.

araujo170.jpgCA - Depois do canavial da cana-de-açúcar da Catumbela vimos a antiga fábrica de whisky “Sbel” enferrujada por abandono, ferros retorcidos a suportar chapas feitas catavento, rugidos agudos e penetrantes dando vida aos zingarelhos, vento do oceano guinchando desmazelo. Eu que fiz minha festa de casamento com aquele whisky na estalagem Leão de Luanda, fiquei abanando o cérebro penumbrado de muita tristeza. Seguiu-se no trajecto uma ponte que já o tinha sido em Rio Cavaco; contornámo-la antes de entrar em Benguela.

Aquele contratempo de não haver ponte forçou-nos a um pequeno desvio pela mulola seca mas, num repentemente, aí estava a cidade das acácias, Benguela aiué… Aqui os crioulos mazombos em rebeldia de afazeres e dizeres e ao rubro, reforçavam seus valores de mwangolés e, com algum aprumo, não permitiram aos cubanos levarem suas acácias para a sua ilha do desespero. Pois nesta cidade mestiça, fiquei bem ao lado da linda catedral em forma de bivaque de magala, na casa do Amores… Aqui o caldeamento do mundo negro num predisposto protesto com os t´chinderes brancos, os Silvas e os Ferreiras mais Pereiras, nunca atingiu a negritude plena – ficou mestiça com ongweva, estímulos e sentimentos… Escrevi então: Aqui me encontro – isto continua a ser Benguela!   

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:00
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXVII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA -.XII -" Alto Liro. Lobito à vista" - Crónica 3325 - 03.08.2022 – Republicada a 15.12.2022

CORRIA O ANO DE 2002 - CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

 “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por dia220.jpgT´Chingange – (Otchingandji) – No Al.Gharb do M´Puto

soba24.jpg Rumo a Sul, na geografia natural, segue-se o rio Evale, fronteira do Quanza Sul e não muito longe o rio Colango aonde paramos e provamos cocoto, fruto da matebeira; cá para mim aquilo de tão rijo só dá mesmo para enfeitar centros de mesa ou chapéus de dama exótica e, brasonada. Foi aqui, no Colango que vimos indicação de minas em tabuletas vermelhas de caveiras brancas.

Havia pedras pintadas de branco a dar indicação do lado ruim além berma em ambos os lados da ponte. Aqui compramos aos acantonados da UNITA umas quantas perdizes por 50 kwanzas cada e, mais uma tua; estes faziam por ali desesperos de nada recheados de moleza rota e mal paga. Mais à frente - muitos buracos... Os táxis e candongueiros das "piruas" passavam por nós desafiando a gravidade, como batiscafos. Alguns ultrapassaram as indefinidas bermas e desmantelaram-se nos capins e cajueiros.

benguela2.jpg Os condutores das “piruas” andam que nem louco; estes chapas kazukuteiros trabalham no futuro condicional, juro, vai correr tudo bem “tio”- falam só assim com os mais velhos; vimos vários nos capins ainda cheirando de desastre fresco. Foi a partir do rio Balombo ou, melhor, lá atrás na Kanjala, aonde começou a dança, aonde parámos para provarmos as frias Nocal, Eka ou Cuca à sombra de uma grande mulembeira; mesmo ao lado do hotel aonde o Jimba (Peixoto, já falecido) passou a sua lua-de-mel e, do outro lado do rio lá estava o bananal do Setas.

Demoramos seis horas contornando buracos nos 180 quilómetros, sendo os últimos oitenta os piores. A cassete enquanto desprendia música na perplexidade de tanto solavanco e, no recordar de palavras memorizadas de sal sujo, com as matubas (testículos) pisadas o “havemos de voltar “ incubava-se de vontade.

DIA76.jpg Entretanto as canções dos Irmãos verdade “Deixa eu entrar no teu coração “ ou o “Ka Bu Fronton“ do Jota Neto e mesmo “Os amigos da Onça” do D.J. Rafa e Isidora, perturbavam-me, juro mesmo!... Talvez pelo fumo do petróleo que entrava pela chapa do zingarelho –lastro do fundo sem fundo, misto de carrinha com ximbeco colado com chwingame nos muitos buracos do escape e periferias.

Carro chinguiço do engenheiro de Matanças, o Bien, francês de faz-de-conta. E, também com adjacências estranhas e estrambólicas que talvez, de certeza, perturbava nossos sete sentidos virados num oito de indefinida duração. Se não morrer por aí lá chegarei – aiué. Passado o cruzamento da estrada que liga ao planalto central através do Bocoio via Bailundo segue-se o desvio para a barragem do Biópio no rio Catumbela a montante dali, o Alto Liro do Lobito já estava próximo.

acácia rubra2.jpeg Era um era num era neste caminho de destino às acácias rubras e buganvílias de Benguela. Se Deus quiser, vamos chegar; pelo menos uma vez, olhe pelas nossas carcaças Tio do Ceu, viu! Sem saber se viu ou ouviu, lá fomos, sem ter chegado à nascente do Nilo ou Zambeze, tal como Livingstone e, ressalvada a lonjura no tempo e no espaço, também parte do meu coração foi ficando por ali em dedicação com fidelidade canina a África, terra de largos gestos! Saí de Angola mas ela nunca saiu de mim... Bien?... Prego no fundo que já cheira a maresia.

DIA199.jpg “Benguela, terra das acácias rubras". O lixo era por demais naquela descida para o sapal do Lobito, era-o de um lado e outro nas encostas do morro que nos levava lá abaixo. A estrada no final não se distinguia do resto e a gente era mais que muita no meio de uma suja poeira e fumo desmaiado de tendas mal-amanhadas; ali bem perto e do lado esquerdo corriam umas águas vindas do Alto Liro, dos esgotos claro! Ou, nem tanto, pois que talvez estivessem filtradas pela terra ou então, uma rotura nas águas domésticas porque estava a ser recolhida em baldes e já se via um Jeep luzidio da lavagem! Tudo indicava ser de um Libanês – aqui tem gente daí pra caramba. Até Sírios, tem…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 10:19
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXVI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . XII

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” - Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3323 de 01.08.2022  - Republicação a 13.12.2022, no Al.Gharb do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por angola6.jpeg T´Chingange – (Otchingandji)  

kapara2.jpgVoo TAP – Destino Luanda – Ano de 2002. A viagem de teimosia ao Lobito e Benguela respirou coerência porque queríamos sentir o ondulado de 180 mil buracos em oitenta quilómetros e, ficarmos zonzos no jeito de internar doidos na reclusão da paciência, mas valeu pela beleza das vistas além asfalto, além urbano, para lá do Morro do M´Gelo. Os sabores da antiga infância, sinuseavam aquela picada promovida a estrada trazendo à ideia o muxoxo da quitandeira lá do bairro e no tempo em que o contentor não era o mini- mercado de alguns desinfelizes.

Assim e sem luz, barulho engasgado do gerador Honda no fundo do quintal, entre queixas de uns e outros com muito sundiameno e toparioba pelo meio, tudo era intercalado com vírgulas de carvalhos sem vê, que isto assim não pode ser e, sem luz nem televisão havia silêncios misturados com prazer – a vida continua! Só o velho Pernambuco, o cozinheiro que sabia fazer lagosta suada como mais ninguém, se desfazia em queixumes silenciosos como essa dor de reumático que lhe entorpecia tudo e até o prazer de viver. Menino, estou nos finalmente, disse ele para mim e, eu fiquei bwé de triste, tristíssimo mentindo-lhe com falas baratas; falas de matrindindi…

baú de coiro1.jpg Na inventação disto tudo vejo que todos têm um forte compromisso na reconciliação dos direitos do homem, para no fundamental irem para além do marasmo, se solidarizarem com o comprimido aspro e paracetamol a que tudo acode, a tudo do quanto baste. Quinino, Kamoquina ou Rezoquina se houver tremuras com frio. Mas, o fado era mesmo deixa para lá que tudo passa com o que tiver que ser, missangas de vai ser com outras filosofias empoleiradas no varão da coisa fácil, amarrotadas no canto das alvissaras porque em tempo de crise urubu vira galinha, o chuço, talqualmente…

Só mesmo o Bien, engenheiro civil formado em Varadero e Matanças de Cuba, nos poderia levar a estes muitos lugares, em seu carro de muitas verguinhas soldadas no chassi, só mesmo metade do vidro retrovisor do lado dele, do outro só mesmo o espaço oco e enferrujado, era um carro de metades, biónico e ajustado nos ruídos de alerta, chiadeiras dos ferodos do travão com cheiros espaciais, com ajustes devido aos fumos saindo da carcaça sem reflectores, sem pára-choques, a mola da esquerda helicoidal com H e, da direita improvisada de molas de carrinha estiradas, batidas e ajustadas, Uma aranha andante que arrancava com gasolina e depois de virar o zingarelho de arame, gastava petróleo de candeeiro (Bien engenheiro, aprendeu isso em Matanças de Cuba)

IMBONDEIRO1.jpg Quase na foz do Cubal, junto à estrada das tormentas, o rio sai das alturas por um fundo canal com rápidos e margens escarpadas, cheias de vegetação nas vertentes; dos jacarés que dizem haver não vi nenhum mas, imaginei vislumbrar uns quantos em surdina da frescura. Bem perto, na antiga estrada para a praia do Kilombo lá estavam aqueles imbondeiros, referência da infância na viragem à direita naquela mesma picada. À vez cada qual dos ocupantes tinha vez de ir com a cabeça de fora para não intoxicar (verdade mesmo…)

Nas agressivas barrocas e antes dos tais penhascos misturavam-se um alcantarilha de cubatas feitas a taipa, cor da terra que desciam em presépio pobre terminando num terraço aonde se mantinha uma escola cuidada; na cornija desta podia ler-se “Havemos de Voltar”, penso eu que, uma alusão de que ali as crianças eram oriundas do planalto central de Angola, gente deslocada pela guerra. Recordar que tantas vezes repeti esta pequena referência como busca desenfreada que nunca se proporcionou, por uma qualquer razão até que entardeceu por demais…

nauk03.jpg  Como erva do diabo, o desejável raramente passa no mesmo sítio. Uma erva que existe no Calahári e deserto do Karoo muito para lá da Namíbia. Afinal, esta gente, tal como eu, também foram intornados para ali, lugar possível, foz de um rio chorado nas terras altas do Huambo. Como é necessário refazer os afectos, matutei.

 Saindo deste sapal aonde as mil formas de vida contemplam, a natureza sobrepõe-se à resiliência e, faço mais o quê!? - Sigo o rumo febril de cheirar por inteiro a mítica África que me viu nascer só de faz-de-conta no barco Niassa. Já no cair da noite, deixamos o kota da Vata de nome Diogo Cão, seu verdadeiro nome de pescador de lagostas naquele lindo lugar de Kilombo, lugar de antigas salgas de peixe seco; Fiquei a saber por ele que para além daqueles crustáceos há cacusso, também um bagre de nome tipioco e lagostim do bom, parecido com o “pitu” do Rio São Francisco do Brasil…

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:00
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2022
N´NHAKA . XXIV

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . X

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3310 de 02.05.2022  na Lagoa do M´Puto – Republicada a 01.12.2022 no Alentejo do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por  canguixe1.jpgT´Chingange - (Otchingandji)

soba0.jpeg Na contingência de estar a falar para o boneco de coisas passadas, dos tempos de escândalos e dinheiro escondido na cueca, enterrado nos jardins ou até esquecidos em contentores ao sol impiedoso e, no meio de gente que sofre de resiliência e coisas ao desbarato pós colonial, lá teremos que contar sempre com essa gente do sistema que não obstante serem estupidamente fanatizadas no partido da governação, o são também por conveniência despiedosamente vazias de raciocínio na humanidade.

Por isso terei de falar banalidades do dia-a-dia de então sem me imiscuir a fundo nas debilidades de N´Gola e no seu imberbe sistema caducado, passados que são muitos anos e, desde então sem ver o emprego crescer, sem ver uma boa ordenação do território com os governantes a só fazerem banga com o que lhes é alheio, dinheiro oriundo do petróleo caindo do céu e a rodos como se o fosse chuva a cair só no seu quintal, sua n´nhaka ou fazenda. Não obstante tudo ter um início, só senti o permanente cuspir cacofonia de palavrões na sorte do colono.

Cristo continua a assobiar para o purgatório na mira de não desagradar aos olheiros da justiça, da educação, na ética e, por aí; como tal não nos cabe pretender agradar a alguns esquecendo a todos! Teremos de omitir falar de venenos especiais, críticas eventualmente justas, desoxigenando o nosso EU na defesa de torpes brutamontes; o importante é não alimentarmos ódios ou desejo de vingança porque isso, só torturará nosso bom censo, nossa liberdade. Nem é preciso estudar-se psicologia avançada para se concluir que o ódio ou desejo de vingança como um bumerangue, só deformará nossa personalidade.

canguixe2.jpg Naqueles idos tempos e ali, Cantinho do Inferno, centro produtor de algodão havia muita gente dependente a não ganhar fortunas, mas, até havia cinema e salão da ferrunfunfa, forró aonde se curtiam danças de farfalho, lugares aonde se esgotava parte do salário, dinheiro da jorna desbaratado em álcool de cerveja e outras afinidades à bebedeira; segunda-feira era dia certo de se comunicar as falsas mortes lá de casa por via de se justificar a não ida ao trabalho. Não levava muito tempo para se matar a família todo e até os tios morriam duas e três vezes. A arte da mentira era bem conhecida do patrão, coisa corriqueira até.

Os filhos do patrão Cunha, subornavam com frequência os condutores subalternos com umas Cucas, Nocais ou Ekas e até Mission, para os deixarem conduzir o tractor, a alfaia ou a carrinhas Bedford ou Ford e, era um gozo do caraças. Foi bem assim que Chiquinho, Zito e Toninho aprenderam a fazer esquindivas com as máquinas. Mais tarde e ainda naquele agora relembraram as finfias que faziam. Neste entretanto da visita verificamos as muitas carências em que viviam naquele ano de 2002. Eu, Zito e Chiquito resolvemos voltar àquela aldeia. Decidimos ir à Cruz Vermelha local pedir um fardo de roupa a fim de o distribuirmos àquela gente; os candengues andavam com trapos nos corpos meio desnudos.

Assim pensamos e assim o fizemos. Junto do representante da Cruz vermelha depois de muitas falas no convencimento de que não havia negócio em nossa vontade, compramos um balão de roupa, fardo como nós conhecíamos do antigamente. No desenrolar de conversas ultrapassadas e pagamento de 100 dólares, pedimos ao senhor Setas o Land Roover e lá fomos conduzidos por seu filho Cado de nome. Passadas todas as instâncias, cuvas e buracos, chegamos á dita aldeia.

pilão1.jpg Chegados cedo encontramos o padeiro que também chegava naquele momento e partindo de mim, disse ao Zito que compraria todo o pão para oferecer àquela gente. Pois foi dia de festa: nós mesmo distribuímos todo o pão segundo a ordem da fila e entregamos ao Soba o fardo de roupa para distribuir pelos necessitados que em verdade eram todos. Recordo que distribuímos o pão sendo a unidade ao preço de cinco kwanzas. Os mais velhos conheciam a Dina, o Zito, o Chiquinho e as festas de ongweva, foram mais que muitas. Bebemos marufo em latas amassadas e sem rótulo oferecido por um deles, sabor que já conhecia por via da guerra do Maiombe; foi esse dia, pelo dito, um bonito dia de bênção.

Deram-me um canguixe, utensilio de pisar grãos de milho em cima das locas, penedos já lisos de tanto uso; foi um agradecimento que preservo como se o fosse de oiro em minha sala e num lugar nobre em cima da estante. Esta ferramenta de trabalho chamam também de “huim” – é usado só com uma mão, enquanto com a outra, normalmente as mulheres batem e batem, sequentemente ajustando o monte e, até tudo ficar em farinha. Tem a forma de um braço curto, feito de pau-ferro e, sendo uma das extremidades com o formato de cabo anatómico e ajustado à mão. Linda, era o nome da mulher que me ofereceu tal instrumento. Quiseram que trouxéssemos, imaginem, gente carecida de tudo, um cabrito e galinhas mas, rejeitamos ficando de voltar mais tarde para os comprarmos. Resta dizer que ainda nesse então havia sim, paredes de pé, havia sim sinais de bazucadas jogadas a eito. Concluindo: Os matrindindes continuam livres como sempre se viram!

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)       



PUBLICADO POR kimbolagoa às 17:51
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2022
N`NHAKA . XXIII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . IX

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3307 de 27.05.2022 (45 anos depois da morte de mais de 30.000 Nitistas – a matança)- Republicação a 28.11.2022 na Lagoa do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por n´tundo3.jpg T´Chingange – (Otchingandji)

n´tundo1.jpg Em terras de matrindindi! Matrindindi é uma carocha de perfil pré-histórico, talvez um normal insecto coleóptero do género do escaravelho, só que este é muito mais extravagante, de cor escura, dorso azul e com muitos picos e patas longas; mais parece obra duma formatada bruxa ruim promovida a grilo, salvo seja. O Land Rover do Cadinho do Sumbe, pisava-os sem alternativa, eram muitos a passear descuidadamente na picada, sucedendo-se os estalos como o de castanhas a rebentar ao calor do fogo. 

Era suposto falar hoje do 27 de maio de 1977 mas o tema ainda é “quase tabu” em Angola, desconhecido por muito jovens e, porque não quero hoje tocar em coisas nefastas vou passear pelos matos; o que mudou mesmo foi o ressurgir de novas formas de roubar ao erário público destroçando paulatinamente a economia angolana, levando o povo ao desemprego, usando formas tristes de rebuscar nas lixeiras os desperdícios dos ricos que mantêm o sistema…

A serra do Chamaco via-se ao longe como teta saliente na cordilheira e, no caminho de Seles com uma vasta região de floreta de espinheiras, acácias de picos medonhos, babosas, newas, matebas, uma ou outra cassuneira, lengues, lungwengué da qual se fazem cordas de muita resistência. Em terras e N´Gunza Kabolo, soba antigo que deixou bom nome, avançamos pelo matagal, por onda a guerra se fazia sentir escassos meses atrás; a comprovar lá estavam as carcaças enferrujadas de camionetas, machimbombos, Ifas e Urais de fabrico russo.

n´tundo4.jpg Calcorreando desvios, contornando maboques, upapas e lenwenue de bagas curativas das feridas de matacanhas, cheiramos a braveza da natureza a contornar o rio Lua e o Caçosso com n´nhacas de belas hortas até se chegar ao rio Cubal. Não vi os macacos pulando entre as bimbas, coisa normal de tempos idos mas, que a guerra decerto os fez correr para não serem comidos.

Havia sim goiabeiras mangueiras e gajajeiras que ainda serviam para alimentar as acantonadas tropas da UNITA. Num tom de saudosa lembrança a voz esganiçada de Vitória* tipo cana rachada fazia-se ouvir: Vou ti bater minina; pertencente à OMA – Liga da Mulher Angolana afecta ao MPLA foi sobrevivendo com o slogan de victória ou morte; ali estava ela anafada e impregnada de bolunga feita em álcool de caporroto, de casca de banana, mandioca ou batata mas, no entanto lembrava-se das tareias que levou por causa da menina Dina, filha do patrão Cunha.

caatinga2.jpg Um grande abraço selou a saudade, daqueles tempos em que perseguiam os macacos e metiam matrindindes em frascos de nescafé. Isso de quando iam apanhar minhocas do rio Caçosso colocando-as em latas de leite Nido para o tio Francisco ir à pesca lá na foz do Cubal. Apanhamos sape-sape (graviola) tirando deles as sementes, dispusemos em uns frascos de azeitona para plantar no M´Puto e também umas melancias gentias chamadas de tanga – vi estas em grande quantidade quando andei pelo Kalahári…

Os Bushmen usam-nas para fazer o “Kalahári thirstland Liqueur”. Aqui usam-nas para fazer de xuxú nos variados cozinhados: aproveitamos trazer uns cambungues (papaia) e ukeluá-muflé – folha de abóbora para fazer esparregado e, no regresso junto ao Caçosso apanhámos as tais bagas vermelhas que no tempo passado servia para colar os selos nas cartas - por isso ainda as conhecemos por árvore da cola. 

matrindindi00.jpg Da aldeia do Caçosso só existiam ruínas (não vem no mapa) mas, a mulembeira ainda lá estava, menos imponente porque a cortaram parcialmente. Dali seguimos até ao Cantinho do Inferno; o porquê deste sítio se chamar assim deve-se ao facto de numa baixa pantanosa as camionetas mercedes, chevrolletes, magiros e Fordes ficarem ali atascadas dias e dias na via que vinha do Planalto Central. A escassos quinhentos metros lá estava a casa mãe da fazenda de algodão (em abandono) que dava guarida a todos aqueles camionistas que por ali vinham com suas cargas e, ali tinham parada forçada pela chuva e atoleiro. Cantinho do Inferno, funcionava pois como pensão, restaurante e a boa-atenção do Patrão Cunha (Já falecido) …   * Nota: Vitória, entusiasta da OMA, morreu encharcada em cachaça no ano de 2004 - dois anos após esta odisseia…

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)        

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 13:01
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Sábado, 19 de Novembro de 2022
N´NHAKA . XXII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . VIII

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

“Angola, quanto tempo falta para amanhã?” Escritos antigos - Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi - 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3299 de 12.05.2022 – Republicação a 19.11.2022 na Lagoa do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por kota0.jpg T´ChingangeEm Arazede de Coimbra do M´Puto

roxo201.jpg Passando o dia nas quedas da Binga e já quase noite, retornamos ao Sumbe, a casa do Sr. Pais da Cunha, pai de Balbina, nosso anfitrião e sogro do Jimba; pela noite teríamos os jogos do Mundial de Futebol 2002. Situada na rua da Resistência, sector impar; o kota Pernambuco estava nos fundos do quintal queixando-se de dores e tremuras - tudo indicava que fosse paludismo, tomara! Dormia ali no relento da sacada no anexo.

Pernambuco, sempre foi um dedicado serviçal mas, agora a idade tornou-o corcunda mais propriamente depois de ser submetido a uma intervenção no hospital de Luanda por pseudo médicos cubanos. A vida por ali andava testada no fastio de sem cerimónias de consciência, andava muito próximo da morte como se assim o fosse coisa normal. Este comportamento social estava muito mudado para pior e em relação aos anos que por ali vivi e até o 13 de Agosto de 1975, quando da minha saída na ponte “Lualix”.

piram3.jpg Disse cá para mim nessa altura, que se calhar não voltaria a ver o kota Pernambuco e, em verdade, morreu pouco tempo depois envolto creio numa apatia de deixa andar para ver como fica, quando se sentia já o cheiro do além ainda em vida. Quando me lembro ainda fico triste. Jimba, marido de Balbina veio a morrer tempos depois e, após ter andado a ser tratado nos hospitais do M´Puto mas seu destino aligeirou-se entre fragilidades, fraquezas de coração e das bichezas cancerígenas…

Aquele velho de nome Pernambuco que tanto se dedicou lá na cozinha do Cantinho do Inferno, anos e anos a fio fazendo comezainas de gente fina como lagosta suada entre outras maravilhas pantagruélicas, ali estava que nem um enjeitado, definhando-se nas carnes dia após dia sem uma atenção mais esmerada pelos circundantes; aquela falta de atenção pelos demais fez-me ver a cruel postura da vida naquela angola acabada de sair da guerra dos misseis monacaxitos.

mirangolos.jpg Apercebi-me que a morte chegava mais rápido ali do que em outro qualquer lado, coisa de pensamento ainda envolto naqueles tempos em que a Novo Redondo se chamava “o cemitério dos brancos” e sem aquela atenção dos demais, a morte já vulgarizada de comum como se assim fosse uns continuados descuidos de humanidade que num repentemente levou Pernambuco… Lá naquele quintal, vou continuar a vê-lo na insignificância dos fundos, para sempre. Mas e agora, o casula Xingu e a Fati também estavam com indicio de febre; foram ao hospital e deram-lhe medicação para a febre tifóide. Tive dúvidas de ser isso e, creio terem-lhe dado este medicamento pelas águas insalubres do rio Cambongo.

A febre tifóide é uma doença infecciosa, transmissível e desencadeada pela bactéria Salmonella Typhi. Isso deixou-me na altura preocupado pelo que beber água só mesmo engarrafada. A doença, que apresenta gravidade variável, está relacionada directamente com as condições de saneamento básico em uma região e com os hábitos de higiene de cada indivíduo. Assim sendo, sua incidência é maior em áreas associadas a baixos níveis socioeconómicos, ocorrendo num maior número de casos nas regiões quentes e sem o devido tratamento.

mocanda9.jpg Numa destas noites Chiquinho saiu a ver novidades pelas ruas mal iluminadas do Sumbe e ao chegar teve a expressão: o holocausto está escuro! Nas noites que ali permanecemos, o galo do vizinho Cadinho cantou a todas as horas ímpares, começou à uma e terminou lá pelas cinco da manhã. Com o calor a apertar de noite tive de me levantar e banhar-me com o caneco de esmalte e, espreitando lá para o quintal do Cadinho pude localizar o galo cantor no meio de uns carros desarranjados com os motores descarnados, vielas soltas com os pistões a servir de varas aos galináceos, restos de geleiras, fogões e corotos vários todos caiados de neve saída dos galináceos, perus e patos…

Pude também ver já com o dia a despontar, no meio daquele conjunto de estralhos e zingarelhos o esqueleto de uma máquina de costura Oliva entre outras imbambas misturados com as baterias, cambotas, restos de macaco e chatarra de pneus, motores de arranque com muito fio enrolado em cima de uma mesa escura de óleo queimado, esqueletos de motorizadas e bicicletas e até um said-car. Também havia um fogão desmantelado, uma geleira que fazia de prateleira a latas besuntadas de óleos a granel. Enfim, todas as imbambas a um qualquer momento davam jeito e tanto que, em um dos dias o Bien, Humberto Cunha, foi lã buscar uma mola helicoidal para adaptar no seu carro hibrido, o mesmo talqualmente, que nos levou ao Lobito.

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)    



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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2022
N´NHAKA . XXI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . VII

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?”

– Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3295 de 04.05.2022- Republicação a 14.11.2022 para o Kimbo

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por chai4.jpgT´ChingangeEm Lagoa do M´Puto

deserto5.jpg Cambongo Negunza, é o nome do rio que desagua a norte do Sumbe e é dali que sai a água, sugada do rio, que sem tratamento segue para a rede da cidade chegando aos soluços, quando chega, sempre barrenta. O viveiro, em tempos verdejante e com muitas mudas de árvores e plantas para as ruas e jardins da urbe está agora mais que desprezado, acabado; vêem-se umas rosas de porcelana ressequidas no meio de tufos que definham no castanho, tendo o rio a dois paços. Mais à frente e do outro lado da estrada o tio Chico* vende petróleo a caneco.

De calções desbotados, camisa solta, mostra a velhice que se aproxima rápido; pés inchados indiciam ácido úrico e mazelas que se esborracham no chinelo de dedo grande, as manchas são mais que muitas coloridas de terra colada à gordura do querosene adocicado na terra do pó que se levanta com o vento e quando passa as relíquias de dodge, chevrollet, carrinhas ford ou camiões Scania mas, e também Urais dos militares russos; tudo faz levantar pó que se agarra ao transpirar da gente desde o cachaço às matubas do mijo mal pingado…

cafu14.jpg Tio Chico sentado no seu velho mercedes branco atende com rabugice os candengues que trazem latas, mulheres embrulhadas em panos com as esfinges de Eduardo dos Santos*, Mobutu e Mugabe, bafanas desocupados de trabalho efectivo que desenrascam só no leva e trás dos recados de quem vende chita e zuarte lá nas lojas do burgo. A crise da luz faz aumentar o consumo do querosene avermelhado. Cada caneco despejado, tem uma descarga de um monte de nomes fazendo vírgula com sundiameno e ponto e virgula com topariobé entre os recados e devolução de trocos em moedas de luínhas e notas surradas de kwanzas…

Tio Chico já com seus mais de setenta anos de idade sobrevive assim com a ajuda do irmão Cunha que prospera no negócio de venda de bebidas, bolungas, pneus, géneros alimentícios e outras candongas; dá para notar que o cumbú do tio Chico anda malé mesmo. Ué, beber água!? Só do Luso! Também aparece água da Chela de rótulo azul que diz ser da nascente natural – a condizer lá está colado o rotulo com o mapa minúsculo de Angola com a bolinha do sítio e o dizer: “Produto de Angola”…

O mercedes do tio Chico, tinha tanta terra dentro dele que seus sobrinhos Zito e Chiquinho até disseram que se podia ali plantar mandioca ou até cana-de-açúcar; um exagero bem condizente com o galinheiro chique de Mercedes Benz. Saídos dali, fomos até às Quedas da Binga no rio Queve ou Cuvo situada a uns oitenta quilómetros do Sumbe. De geleiras de isopor, esferovite cheias de gelo e cerveja, escolhemos lugar sombreado do parque e entre mergulhos lá íamos comendo iguarias feitas de esparregado de folha de abobora, folha de batata-doce e croquetes de peixe do rio Cambongo e ostras da foz do Cuvo.

sumbe1.jpg Estando ali na Binga e vendo a ponte meio derrubada pelos cubanos quando do avanço da forças vindas da África do Sul, fomos ao topo dos rápidos ver de perto como se fazia agora a travessia e constatamos haver uma grandes chapas de ferro grosso a ligar os pilares e muros que resistiram ao original desmantelamento por efeito de minas; Os militares de plantão não nos deixaram tirar fotos mas, sempre acabamos por fazer alguns registos fotográficos.

Visitamos um velho conhecido da antiga JAEA e que neste então se chamava de INEA. Passou de Junta a Instituto mas de relevo só mesmo o nome porque os buracos por todo o lado eram mais que muitos. Visita feita, tratamos de nos regalar nas águas frescas a montante das quedas com algumas ilhas e penedos a rodear-nos. Mais acima da corrente as donzelas tomavam banho com as mamas a leu, luzidias de negro, pulavam e gesticulavam-nos adeus, a mim e ao Zito. Assim metidos na água, até parecíamos, o Tarzan branco na minha pessoa e o auxiliar do Mandrak, o Zito Lothor preto, como se estivéramos numa cena de filme.

angola5.jpg Na merenda, pude observar a boa conservação do parque, muros caiados, terreno limpo e um vigilante a não permitir que a garotada se acercasse de nós pedinchando a famosa gasosa e, foram fotos debaixo da cachoeira, um sengue que mansamente se deslocava na margem de lá deixando rasto na areia ali depositada, a espuma da água compondo brancura. Recordei neste então a minha estada ali em lua-de-mel no ano de 1970 – naquele agora pareceu-me mais majestosa pelo muito caudal de água. As cervejas, sagres e castle da África do Sul estavam de arrepiar frescura sequiosa. Por debaixo do imbondeiro e ladeados por marulas, mutambas e upapas, nelas riscamos corações com flexas entre muitos outros nomes já ali encarquilhados no tempo com casca. Quase noite, retornamos ao Sumbe, casa do Sr. Pais da Cunha*, pai de Balbina, nosso anfitrião e sogro do Jimba*

Notas*: Tio Chico, Jimba, Pais da Cunha, Eduardo Santos (o presidente), todos já falecidos (14.11.202)

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)   



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Sábado, 5 de Novembro de 2022
N´NHAKA . XX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . VI

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3287 de 20.04.2022, em PortVille da Pajuçara de Maceió – Republicação a 05.11.2022 em Messejana do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto ao rio, horta…

Por araujo160.jpg T´Chingange –(Otchingandji)

araujo1.jpg CA -Já estamos no Sumbe, terra do eclipse e da eleição de misse 2001, um ano atrás, mas ainda lá está o jardim que proporcionou mostrar a fantasia com lençol de água escorrendo em cascata e, muita luz de coloridos brilhos. Tudo para trabalhar pela televisão as invencionices de lavagem da governação sem os desmandos, roubos e superfacturamento que a nomenclatura vinha praticando. Agora está tudo seco, o fingimento de beldades já sem águas escorrendo, deu lugar à terra crua e vermelha no lugar da grama - as árvores definham por falta de água!

Água, aiué…foi aparecendo nas torneiras em alguns dias entre as cinco e seis horas da manhã, depois, adeus… Não deu para tomar banho de chuveiro; na casa do pai de Balbina, Pais da Cunha o caneco funcionou todo o tempo. A luz da lâmpada também só aparecia nos dias ímpares; com gasosa até podiam dar-nos uma fase por mais algum tempo. O mundial de futebol de 2002 (vinte anos atrás) estava a decorrer. Todos desejavam a victória do Senegal e, só depois o Brasil – Os Tugas já estavam de fora.

arau44.jpgCA - Os grandes discos de antenas parabólicas proporcionavam aos mais abastados da cidade do Sumbe verem o canal de África – RTP Internacional entre outras e de todo o mundo. Xingú, o mais candengue da família Pais, nas falhas de energia lá ia a correr até à casa do gerente do gerador ligar a fase pirata da zona par; aconteceu até levar uma lata de gasóleo, o necessário para o gerador funcionar.

Era uma luta pelos vistos! É que nem sempre os vizinhos estavam nos ajustes indevidos para que o gerador funcionasse na borla devida. Mas, nestes dias a febre do futebol fazia milagres de luz para sempre se verem os gooolos. Em um dos vários dias comemos de vela acesa, talvez a gasosa do lado impar tivesse sido mais substancial. Até foi bom que acontecesse a escuridão porque tivemos oportunidade de assim entabular divagações com ajustes de posturas nos muxoxos e kazumbis.

araujo179.jpgCA - No meu sentido de inserir palavras nesta descrição, frases e estruturas sintácticas, fui acumulando palavras novas oriundas do kimbundo, do umbundo e outras maneiras de linguajar tendo sempre como base o português do M´Puto com as declinações e palavras novas, inventadas até e, u oriundas do tronco bantu. Sendo assim um misto de narração, inventação, conto ou testemunho de reportagem, coloco em meus próprios sonhos, as vontades de reconciliação com um profundo agradecimento a todos os que me proporcionaram dias tão diferentes.

Envolto em ideias díspares, quase psicografava em vontade, nas contradições, algumas das sanguinolentas, macabras até e, que sem o devido tato, poderiam resvalar para ressentimentos; acontecia assim ao falar com o filósofo Pipocas, um responsável do património local do MPLA que de tanto beber, se esqueceu dele mesmo – pifou em sabedoria!

araujo158.jpgCA -  Pipocas era em verdade um símbolo kazukuteiro descartável, ágil e de falas suaves, peneirava-se na beleza das malambas, esperto, agressivo no beber, desconsiderado ou desclassificado por raiva, ciúme ou desdém, poucos o tinham em conceito concebido mas, tinha sim uma mente aguda: Ginasticando suas manigâncias da vida definhava-se na permanente curtição do álcool, vinho Camilo Alves, cerveja, cachaça e outras mistelas de bangasumo e capo-roto.

Pipocas, tinha sido comandante mas, por ter arrecadado o dinheiro dos mortos de guerra saiu dos mecanográficos e, por ali está agora comandando os imóveis, remexendo continuamente mugimbos almoxarifados, efémeros de quanto baste para encantar linguistas; isto, antes de rodopiar os olhos liambados de coisa ruim. É um personagem típico dum grande palco que é Angola, passando os dias num faz de conta divagando e bebendo frias cucas; e, assim sua cuca se adia, sempre adiado nas obrigações. (…Com ele, Pipocas sóbrio, tive conversas bem interessantes, senti-lhe uma arguta esperteza, ideais bem formulados, revelando ter principios de sábia concertação social de elevada erudição – acima da média …)     

Ilustrações de CA -Costa Araújo

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)    



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Domingo, 30 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XIX

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . V

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002) – Crónica 3283 de 16.04.2022 em PortVille da Pajuçara de Maceió – Republicada a 30.10.2022 na Lagoa do M´puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por mocanda11.jpg T´Chingange

dracma5.jpg Neste lugar de encantos atarraxados, na área de serviço de Cabo Ledo, as cervejas são retiradas de grandes caixas de isopor, esferovite; dessas que se usam quando vamos para o campismo mas, de maiores dimensões. É dali que retiram as verdadeiras gasosas de beber, pepsi-cola, mission, cucas e taifal ou sagres do M´Puto. Ali perto há um aquartelamento militar; foi por aqui que entraram os primeiros militares cubanos que deram formação às primeiras tropas organizadas do MPLA. E, foi Carlos Fabião, Flávio Bravo e Agostinho Neto que acordam os pormenores da participação Cubana na Operação Carlota, a que ficou conhecida como a Batalha de Luanda.

Pois foi aqui que entraram e depois saíram entre Maio e Junho nessa Operação Carlota; oficiais que por ali passaram tais como: Abelardo Colomé Ibarra, Lopes Cubas, Freitas Ramirez, Leopoldo Cintras Frias ou Romário Sotomayor. Foram estes e os jovens da Academia Militar de “Ceiba del Água” que mais tarde deram os pormenores já descritos em várias fontes. Cabo Ledo teve uma forte intervenção naquela que ficou conhecida por “a Batalha de Luanda”.

No entretanto da observância vêem-se uns quantos militares roçando as donzelas; um deles, de patente rasa vem até nós pedir uma gasosa a fim de poder ir até Luanda visitar sua namorada; treta ou não, em seguida bazou de nós indo pela certa cravar outro, indícios firmes do pouco salário que recebem. Já perto do rio Calamba, começa a ver-se newas, maboqueiros, embondeiros e cassuneiras; podem ver-se muitas destas, altas e esguias palmeiras já em fase de vida terminal -alguém esclareceu que por tanto retirarem sua seiva para fazer marufo, elas definham até à morte.

quiçama01.jpg Atravessamos a Reserva da Kissama sem ter visto uma simples capota, nem tampouco um camundongo ou mesmo um dilengo (coelho). Começamos a descer para Porto Amboim, um antigo e importante porto de pesca e início da linha de comboio que trazia em tempos o café da CADA, uma empresa exportadora de café robusta. Foi ali na “Boa Lembrança” da CADA, que passei minha lua-de-mel como soe dizer-se, no ano de 1970. O sol kúkia, descia já no horizonte valorizando a ampla baía com o mesmo nome.

Neste local de muita azáfama piscatória no tempo dos Tugas, podia ainda ver-se alguma movida na arte de secar peixe, pesca da lagosta e lá mais adiante, ao dobrar do promontório e na foz do rio Cuvo as deliciosas e grandes ostras. Compramos ao Tadeu Matrindindi um saco de ráfia, daqueles usados no transporte de carvão lá no M´Puto. Custou-nos cem kwanzas ou seja o equivalente a dois €uros e vinte cêntimos. E, se havia ostras! Dias depois voltamos ali, atravessamos em uma improvisada jangada de paus de binga, amarrados com mateba, numa lagoa da foz do rio Cuvo e nós mesmos, eu, Jimba, Zito e o vizinho Candimba apanhamos mais um saco daqueles.

quiçama0.jpg À medida que espetávamos o bordão no fundo, sentíamos as ostras, um rochoso crocante, depois era só mergulhar e apanhar à lagardere… Foram dias de folgadas lembranças como se ainda candengue estivesse a apanhar na Samba da Luua as mabangas para o isco a usar na apanha das mariquitas ou roncadores. O banco de calcário ostrífero era impressionantemente vasto por ali. Fazendo uma fogueira na ilha de areia daquela foz, pudemos fazer abrir aquelas deliciosas ostras, meter-lhe uma porção de sumo de limão e, depois degluti-las. A acompanhar tivemos as frias, cervejas Hanson, Heineken, Sul Africanas e a Cuca angolana.

Recordo agora o Jimba (já falecido) a apontar uma farta planície, uma imensidão de capim, as terras de seu pai e aonde cultivavam algodão em idos tempos. Agora podiam ver-se umas quantas cabeças de gado nemas bem perto de um quartel com parque militar; estafadas Urais e Ifas soviéticas usadas na guerra recém terminada -  há quatro meses…    

quiçama03.jpg Posso agora, 47 anos depois do 75 recordar: E, foi na Praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”. Os instrutores deste equipamento sofisticado, estavam a ser coordenados pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville enviavam numa primeira fase, pequenos aviões para aterrizar na pequena pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)     



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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XVIII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . IV

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “Angola, quanto tempo falta para amanhã?” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

– Crónica 3280 de 12.04.2022 – Republicada a 26.10,2022 na Lagoa do M´puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por  ÁFRICA11.jpg T´Chingange – Em PortVille da Pajuçara de Maceió

A lufada de ar quente da chegada a Luanda foi há dias atrás; neste meio tempo li levemente a obra do sociólogo Paulo de Carvalho com o subtítulo desta crónica e que, só por si, revela a preocupação na mudança das coisas. O desejo de Kianda do Maurício dos Santos Pestana (Pepetela) também vem demonstrar que hoje as vivências fazem-se num confronto de ambivalência e das coisas confundidas no seio deste povo; o mesmo sol da secura e aridez que amadurece os produtos e, a chuva que tudo inunda, é a mesma que os rega.

dia207.jpg A linguagem mitológica, a verdade das coisas é colhida entre o falso e o verdadeiro, baralhando o conceito da razão; no entretanto destas divagações de um Niassalês, que sou eu, vamos a caminho do Sumbe, (Ex Novo Redondo), lá aonde se situa o Cantinho do Inferno. Até ao Sumbe são 320 quilómetros. Passada a Samba, vem o Rocha Pinto, a Corimba, o Benfica, o Futungo, os Morros dos Veados e da Cruz. Aqui, a capela foi promovida a Museu da História da Escravatura.

Em verdade, a criação deste Museu tem razão de o ser pois que foi dali, pertença do reino de N´Gola que saíram milhares de escravos para o Brasil. Chegados aqui, que fique claro que quando o Diogo Cam chegou à foz do rio Kongo surpreendeu-se com a prática dos indígenas comercializarem as suas gentes; usavam os prisioneiros de outras tribos, das guerras constantes que mantiam entre si, transaccionando-os como uma qualquer mercadoria.

Esta prática usada entre as muitas tribos em África e particularmente em Angola, veio a calhar para colmatar a falta de mão-de-obra para nas muitas culturas em expansão no grande território do Brasil; os engenhos da cana-de-açúcar estavam carentes de gente no seu trato, no amanho das longas extensões de terras como o café, algodão ou cacau. A partir daqui surgiram empresários negreiros que sem controlo, fizeram fortunas tratando as gentes oriundas de várias partes, ocasionando riquezas desmedidas de agentes em Angola e Brasil. A palavra infortúnio ainda não estava inventada…

cos0.jpg Foi esta disseminação de gente de tez negra para as américas que originou a grande diáspora alterando os conceitos de raça por via normal de miscigenação. Na escola básica, aprendi que no Mundo havia quatro principais raças, a branca, a negra, a amarela e a vermelha. Os sociólogos tiveram muita dificuldade em estabelecer padrões na sua classificação e, muito rápidamente o conceito de raça humanizou-se simplesmente em raça humana; nesta questão fica bem evidente a globalização com a forte participação portuguesa.

Continuando a viagem, usando a visível marcação do meio-fio e, quase sem buracos chegamos ao rio Kwanza. Aqui o controlo é mais refinado, mais pelos veículos do que propriamente pelos passageiros, a ponte suspensa tem alguma relevância mas, a destoar sucede o facto de alguns militares que por ali estavam espairecendo preguiça, nos terem abordado pedindo gasosa, a mesma pedinchice que sempre nos acompanhou por todo o lado e, desta feita perante o nosso semblante de surpresa, o militar de camuflado ao jeito explicativo e indicando os demais companheiros, encostado ao varão da ponte disse:

- Kota, ajuda só… é para levantar a moral! E, com este pretexto desinibido de vergonha escorregamos com cinquenta kwanzas correspondendo a duas frescas cucas e ainda sobram cinco kwanzas para o engraxador do Sumbe… Cabo Ledo fica em plena reserva da Quiçama mas, até aqui não vimos qualquer espécie de bicho. Acerca da área de serviço aonde paramos, a de Cabo Ledo, trata-se de um amontoado de chinguiços amarrados com mateba e cobertos a capim e, só simplesmente amontoado.

dia141.jpg Estas estruturas da área de serviço, têm “empresárias de sucesso” que superintendem caixas térmicas com gelo e frias sagres, taifel, hansen ou cuca. A acompanhar há galinha assada no espeto, talqualmente e, umas batatas-doces assadas no fogo. É quase uma paragem obrigatória pois que o calor é intenso. As empresárias de sucesso, amigas de Bien e Xico seu primo, com rudimentos falíveis de higiene aprendidas no funaná Bye Bye My Love, cursadas em sobrevivência, transformam a fome em petico de espanto. O frango no espeto marchou sem entretantos e, com muito jindungo; deu para notar as onduladas conversas de sussurradas popias de muitos atarraxados encantos…

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)



PUBLICADO POR kimbolagoa às 20:30
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XVII

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . III

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “havemos de voltar” – Em Julho de 2002 (quatro meses após a morte de Savimbi – 22 de Fevereiro de 2002)

Crónica 3276 de 07.04.2022 escrita na Pajuçara de Maceió – Republicação a 20.10.2022 na lagoa do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por t´chingange 0.jpg T´Chingange

selo10.jpg Bien, Humberto Cunha do Sumbe, engenheiro civil formado em Cuba em tempos de dipanda, chorou ao despedir-se de mim e Ibib no mesmo aeroporto “4 de Fevereiro” (antigo Craveiro Lopes ou de Belas). Eu, que me fiz forte na altura, relembro agora que também fiquei esfiapado das pestanas, com humidade por arrumo dos preparos finais. Foi exactamente na sala que nesse então, reparei, essa sala ter perdido o tecto falso; podia ver-se os tubos semi descarnados e em desalinho, dispondo-se encavalitados em todos os sentidos. Este intróito sendo de saída é só uma pescada de rabo na boca porque a descrição que se segue é o começo da visita ao CANTINHO DO INFERNO

Fiquei sem saber se os tubos levavam dentro outros fios ou águas negras; Se eram condutas de ar condicionado ou fios de comunicação! Só faço este reparo para verem o quanto havia de descaso numa sala de entrada e saída de gente a quem se necessita dar uma boa imagem; Os tempos de guerra finda há quatro meses, supõe-se não ter dado manobra de embelezamento às estruturas de aparência. Tinha saído de Angola nesta mesma sala em Agosto 1975 com uma guia de marcha sem volta, emanada pelo Alto Comissária em Angola e, no meio de tanta agitação, tanto caixote espalhado a esmo, nem reparei se havia ali, ou não, tecto falso.

Havia sim controlo sanitário, alfândega, controlo de polícia de fronteira e bagagem. Quem tivesse kwanzas ou outra moeda de sobra, era ali depositada por confisco sumário; não era permitido retirar do território qualquer divisa sem estar superiormente declarada. Consegui passar despercebido ao lado desta desorganizada rigorosidade. Nossas malas dispostas no exterior eram assinaladas por cada um dos passageiros que só depois de o dizer qual a sua mala ou malas, eram carregadas até ao avião da TAP. Compreende-se, pois nesse então e ali, não havia ainda os métodos modernos de visão do tipo de raio xis…

selos3.jpg Pois de vacina nas mãos é-nos indicado o sítio de carimbação; gente improvisada, vestida de bata dá valia aos papéis amarelos e, depois das boas chegadas por parte das autoridades com chapéu de dourados arabescos, vem a secção da bagagem aonde a dita gasosa agiliza as vistas. Isto aconteceu na chegada com o surpreendente pedido de gasosa sem sabermos nesse então o que seria isso; O Zito mais avisado disse ao Jimba (já falecido) que era uma gorjeta para não empatar; neste momento já tinha vinte euros na mão para desanuviar a mercadoria e, assim aconteceu…

O primeiro impacto com os destapados buracos de rua foi logo ali em frente ao aeroporto 4 de Fevereiro, esgotos a correr a céu aberto, bem à saída da base da Força Aérea e, entre esta e o bairro que já foi novo quando os cubanos o construíram. Os bolos de batata-doce, de mandioca e banana assada com outras iguarias por ali estão expostos, no meio do espezinhado lamaçal, em cima de improvisadas caixas. Mais ao lado há uma secção de lavagens de carros, uma mangueira que verte água que por seu lado escorre para este improvisado mercado das calamidades.

selos7.jpg O desenrasca funciona paredes meias com os supostos sítios nobres. Luanda aí está! Passando no antigo largo Afonso Henriques, e bem em frente aonde funcionou o sindicato metalúrgico para meu espanto, vejo um grande buraco a jorrar água limpa aos borbotos e uns quantos jovens a fazer daquilo uma estação de lavagem para carros, baldes, esfregonas, sabões e tudo no tecnicamente imperfeito. Os carros eram de alta cilindrada, vidos fumados e acessórios xispéteo… O sinaleiro da Maianga faz milagres para dar ordem ao trânsito, é desrespeitado e até chamado de nomes de macaco para símio. Os vendedores de antenas parabólicas, chinelos e quinquilharias chinocas não largam as janelas dos carros aqui e em qualquer cruzamento com ou sem sinais. Patrão compra só, é barato! 

E, vi porque ninguém me contou: coleiras de cão, peúgas, pó de pulgas, chapéus quicos e até batatas fritas. Os Libaneses resolvem o problema de despachar o negócio usando crianças a venderem de tudo e também CêDês produzidos em estúdios suspeitos do Cazenga ou kazukuteiros do Sambizanga, saídos do Tira-biquíni e Dona Xepa e outros com esquemas com bangula, um salve-se quem poder que a morte vem aí, é certa…

sumbe1.jpg Bem ao lado da casa do Chico Massa aonde ficamos por uma noite, cruzamento da rua de João Seca com a rua da Maianga, o imbondeiro, continua lá, mas muito rodeado de chapas altas. Posso ver daqui a antiga oficina do meu cunhado Paulino Branco, o homem das cambotas (já falecido), bem junto à antiga avenida Craveiro Lopes; sei que do outro lado está a morgue aonde em tempos de candengue vi pedaços de atrocidades, mas, olhando para cima consigo ver umas quantas múcuas. De lá de dentro sai um barulho de esmeril guinchando raivas afiadas – é uma fábrica de grades anti ladrão para colocar em janelas, portas e demais vãos de casas e edecéteras.

Nota: mais lá para o final colocarei um glossário para se lembrarem de quando não eram kaluandas…      

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)              



PUBLICADO POR kimbolagoa às 12:24
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Domingo, 16 de Outubro de 2022
N´NHAKA . XVI

ANGOLA, TERRA DA GASOSA . II

CANTINHO DO INFERNO – TERRA DE MATRINDINDES

Lembranças actuais de escritos antigos - “Havemos de voltar”Foi em Julho de 2002

– Crónica 3273 de 05.04.2022 – Republicada a 16.10.2022 no AlGharb do M´Puto

N´Nhaka: - Do Umbundo, lameiro, plantação junto aos rios, horta…

Por soba02.jpg  T´Chingange

caricocos.jpg Voo TP, destino Luanda – Uma lufada de ar quente ao sair do Douglas no Aeroporto Internacional de Luanda, “Quatro de Fevereiro” em Belas. Momentos antes na acomodação da aterragem, já lusco-fusco, circunsobrevoavamos a Luua e, ali estava ela cheia de pontinhos de luz dando indicação do crescimento emancipado para mais além do que se poderia imaginar em 11 de Novembro de 1975 e, lá estava a ponta da ilha Mazenga e sua bonita baia de luz reflectida em nuances multicolores, os barcos, edifícios e, também uma nova coisa chamada de plataforma petrolífera, mesmomesmo na embocadura.

Do Morra da Cruz e em círculo, passando por Viana até quase ao Cacuaco, tudo é Luanda, não se distinguindo aonde acaba o musseque e começa a cidade; o centro perdeu-se numa imensidão de cubatas e, aí temos a grande metrópole com quase cinco milhões de habitantes (2002), a transbordar nas barrocas e linhas de água, que já o foram. A catinga sente-se no ar à mistura com estagnados descuidos de águas negras a céu aberto e, sem impedimento de se o notar; o costume habitua-se no urbanismo da normalidade…

Noutro dia e, à luz clara da manhã fresca deu para pisar o pó e as escorrências, sentir os cheiros fortes de mabanga e peixe frito em óleo de dendém, odores de lixo desentulhado com muita gente circulando, fazendo não sei o quê, talvez queimando o tempo e, cruzando arrepiadamente sobrevivências por todo sitio, ruas definhadas, esburacadas, ondulando o passeio, que o não é mais; asfalto malé, aiué…

mirangolos.jpg Na encosta do Prenda cortava-se a carapinha num telheiro meio chapa, meio palha e pedaços de taipa quase que meio por fazer e, mais ao lado neste pseudo cabeleireiro, lá estava a tabuleta “Salão de senhoras Dona Xepa” e no letreiro podia até ler-se: desfrisam-se cabeças. Se havia cor no imóvel, tinha fugido, faz tempo!... Vou tentar cronicar o que vi e, fazer retrato do que me apercebi com as inerentes dificuldades dum branco de segunda, quase preto por defeito e ousadia, que não esquece o calor daquela terra de quando ainda candengue pisou todo aquele espaço.   

Espaço que também me viu crescer amulatado de jeitos, crioulo mazombo de imperfeição. Mas, diga-se, o calor continua também naquelas gentes, com vontade de agradar; a amizade faz-se rápido, flui mais repentinamente num abraço de empatia como doença de querer. Desta feita assim ganhei mais um amigo de nome Humberto, rebaptizado de “Bien”. Foi ele o meu cicerone durante vinticinco dias e, é a ele a quem esta crónica é dedicada por agradecimento…

Foi ele, engenheiro Bien, formado em Cubano, natural do Sumbe, que me levou desde a foz do rio Dande, bem perto do Caxito, até ao dito Cantinho do Inferno. Aqui voltarei na descrição chegado seu próprio momento e, para não me perder no fio da meada dizendo do resto aonde me levou que, assim será na ordem cardial e para Sul com o Porto Amboim, Sumbe, antigo Novo Redondo, Canjála, Lobito, Benguela e Baia Farta.

moka31.jpg Bien, ex-comandante, formado em Cuba, técnico de Construção Civil. Como tantos outros neste momento (2002) está no desemprego mas, sempre há um mas, desenrasca a vida peneirando diligências aqui e ali furando o esquema; comprou uma roulotte e, lá para os lados do Sambizanga tem uma catorzinha a vender peixe frito, banana assada, pasteis e cachorros quentes de pastas coloridas oriundas dos tomates e outras especiarias, mais cerveja cuca quando a há e, também quando calha, se acomoda com ela nas ternuras do farfalho…

Bien, o ex-comandante, engenheiro de desenrasca, diz que são necessidades fisioterapeutas. Só que lá no Sumbe e Benguela também tem mulher e filhos, pois! Mancomunou a vida aqui e ali soldando avarias pelas técnicas aprendidas em Havana e, ali nas facilidades acostumadas de suas terras, comunga tudo com as saias desprendidas e a isto, disse-me não ser de ferro. Em verdade, há trechos em que nossa vida amolece a gente, tanto, que até num referver de bom desejo, no meio da razão sempre vem um benefício…

Passados que são mais de vinte anos, recordo de novo nesta data para que conste na Torre de N´Zombo do Kimbo, a biblioteca base desta existência…

(Continua…)

O Soba T´Chingange (Otchingandji)               



PUBLICADO POR kimbolagoa às 22:38
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
MALAMBAS . CCXXXIX

UM CACTO CHAMADO XHOBA . XIX – 11.10.2019

TEMPOS DE DIPANDA NO OKAVANGO - Boligrafando estórias com a Kianda Januário Pieter e missossos - Na Dipanda*, nossas vidas têm muitos kitukus (mistérios)

Por

t´chingange.jpeg T´Chingange - No Algarve do M´Puto

miran07.jpg ::::: 168

A verdade é como o azeite, vem à tona de água com o tempo; as memórias que antes eram mugimbos, tornam-se agora verdadeiras. Já a tarde se fazia noite quando eu e Januário Pieter nos voltamos a encontrar na beirada do Okavango e desta feita com João Miranda do Mukwé, o branco quase lenda que também sabe falar com estalidos como os khoisans. Foi este o homem que chefiou esses especialistas do arco e flecha na invasão dos Sul-Africanos do Batalhão Búfalo- 32 tendo chegado às margens do rio Cuvo - Keve junto às quedas da Binda, entre a Gabela e o Sumbe… Após um pequeno estampido, um fumo feito holograma faz-se gente, e nós, num surpreendido susto, demos cada qual seu salto entornando os copos de cerveja Windhoek em nossos zuartes. Este inesperado susto deu lugar aos comprimentos perante a admiração espacial de Miranda. Tive de, muito na calma dizer-lhe ser este velho senhor uma Kianda que me acompanha desde nosso primeiro encontro em Jablines de Paris de França e quando pela primeira vez fui ao famoso parque da Disneylândia com minha neta!

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Surgindo de quando em vez, ali está ele a clarear coisas obscuras que ocorrem em nossas cabeças, coisas ainda por falar entre nós mas que ele desbravou em sua lanterna fosfórica do tempo. E sem mais nem porquê ali está ele pronto a falar connosco por via de pensamentos dúbios que normalmente vociferamos nas conversas banais. Essas coisas da arca-da-velha a fazer de vírgula nos acontecimentos. Só direi que este kota Kianda, seco de carcomidas carnes tem a bela idade de 394 anos. Como o tempo não nos rugia, recordei depois dum abraço longo e largo do tempo em que sentados em uma esplanada “Plaza Mayor” de Burgos de Espanha, ouvi Pieter descrever as descobertas feitas na sacristia do “Monastério de la Cartuja”.

mocanda42.jpg ::::: 170

Recordo dez anos trás teres-me dito que um teu tio seguindo as pisadas de seu pai Lestienne não sei das quantas, francês, poderia escrever em um livro sobre as judiarias ainda não reveladas da estória difusa e confusa do início da reviravolta em Angola. Não me esclareceste isto nessa altura porque estavas com pressa. Também afirmaste ser isso tarefa para mercenários da escrita ou fazedores de mambos, recordas? Miranda assistia à nossa conversa sem vislumbrar peva de qual era o objectivo desta longa introdução assim sem capítulos nos preâmbulos mas, logo espevitou as orelhas quando se falou na alteração do rumo à história da guerra daquele tempo no lugar de Cabo Ledo e na praia de Sangano. Pois disse eu abrindo as duas mãos solicitando atenção Pieter! Em verdade tu (ele) falaste das meias verdades contadas por Pepetela e um tal de Tchiweka, o homem segredo conhecido por Lúcio Lara, o grande ajudante em campo do Vermelho Rosa Coutinho, o Almirante.

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Não! Não é bem assim como dizes, disse abanando seu templo reluzente de sapiência: Esse meu tio de há quatrocentos e dez anos atrás, rumou até Cádis e no Puerto de Santa Maria no Sul de Espanha embarcou à descoberta das Américas. Ele nunca esteve em África! Agora essa estória de Cabo Ledo, minha terra natal, é só minha! Fui eu que a vivi! Diz peremtóriamente para ficar claro na minha debilidade. Pois é, fiz confusão pela certa, disse eu fazendo um trejeito de muxoxo mal disfarçado para Miranda do Mukwé inclinando a cabeça na forma de dizer aconteceu… Pude ler seu pensamento: - Aguenta parceiro!

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Mas, o que é que esta Kianda de trezentos e noventa e quatro anos sabia das artimanhas do glorioso PREC - Processo de Revolução em Curso, do MFA – Movimento das Forças Armadas do M´Puto, combinado unha com carne com o glorioso MPLA? Isso! Das coisas que desconhecíamos ao pormenor por tão bem escondido de todos. A verdade é como o azeite! Rosa Coutinho marinheiro, foi o oficial de aviário mais verdadeiro na história recente dos Tugas pois que teve o seu início numa gaiola. Em verdade, foi Holden Roberto como patrulheiro da fronteira do Zaire que fez passear em jaula como um macaco, o Vermelho General. Bem! Isto já era do nosso conhecimento, meu e de Miranda…

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Como já disse, as aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim, são uma permanente descoberta de novos pedaços de infinito. E, Pieter descreve: - Por entre os cactos das barrocas, entre a bruma da maresia e clareando, vi centenas de militares percorrer o areal, reunir apetrechos de guerra, subir para carros do tipo unimog e galgarem a montanha da costa a caminho do quartel, uns galpões construídos lado a lado e que seriam as primeiras casernas daquela gente que vim a saber pouco depois serem Cubanos. Estávamos em fins de Julho do ano de mil novecentos e setenta e cinco.

mocanda20.jpg :::::174

Mas, interrompo: - Os Cubanos, pelo que consta, só a cinco de Outubro desse ano, é que chegam a Angola. Foi o que sempre disseram quanto à ajuda pela União Soviética através de Cuba - Pois, (...) vocês souberam o que Rosa Coutinho queria que soubessem. Foi na praia de Sangano um pouco a norte de Cabo Ledo que desembarcaram os primeiros homens comandados pelo General Raul Diaz Arqueles. Ali descarregaram os primeiros complexos móveis de defesa antiaérea “Strela”; os instrutores deste equipamento sofisticado estava a ser coordenado pelo Coronel Trofimenko que a partir da Republica do Congo Brazaville eram enviados numa primeira fase em aviões mais pequenos para a pista de aviação da Kissama em Cabo Ledo.

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Andrei Tokarev afirmou que o seu comando enviou oficiais e sargentos que se aquartelaram em instalações abandonadas pelos Tugas: estes quarteis contornavam Luanda que em sequência das orientações do agente vermelho Rosa estavam ao abandono. Por esta altura desde Kifangondo passando por Katete, Colomboloca, Kassoalála, Kassoneca, Dondo, Massangano, Muxima, e descendo o rio até a foz do Kwanza e Cabo Ledo já estava tudo queimado: Ficaram algumas estruturas de pé para assegurar bivaque aos novos guerrilheiros e instrutores do MPLA.

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- Tudo o descrito só é possível a partir da chegada a Luanda do Vermelhão Rosa como Presidente da Junta Governativa de Angola precisamente em Julho de 1975 -Estava tudo traçado, continua Januário Peter. Rosa Coutinho, tempos antes como Alto-comissário escreve uma carta timbrada do antigo Gabinete do Governo Geral de Angola a Agostinho Neto, presidente do MPLA nos seguintes termos: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do processo: Aterrorizar por todos os meios os brancos, matando, pilhando, e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos,...” A Carta é datada a 22 de Dezembro de 1974, terminando com saudações revolucionárias, a vitória é certa, seguindo-se a assinatura, Alves Rosa Coutinho, Vice-Almirante.

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Recorde-se que a tropa Tuga, foi proibida de entrar nos musseques a fim de proporcionar “O poder popular”, simultaneamente retirando as armas em posse dos brancos. Há muitos buracos por preencher. Lúcio Lara, o “Tchiweka”, já pode desvendá-los, antes que se deturpem. Isso é verdade sim! Mas, nessa altura o assunto tinha explodido as veles de ignição de nossos medos, nossas preocupações; nossas cabeças eram uma revoada de coisas ruins…Vivi esta estória amigo Januário, disse. E, acrescentei: - O medo tomou conta de todos com ajuda da FUA, liderada por um tal chamado de Falcão, acrescento eu para a Kianda do Cabo Ledo. Falcão ou falsão? Disse João Miranda do Mukwé. Neste início de noite ficamos assim sem mais falar dos Khoisan…

miran03.jpg Nota: *Dipanda é o somatório das coisas positivas e negativas que ocorreram antes, durante os longos anos da crise Angolana, e após o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional. Corresponde à diáspora de angolanos e afins espalhados por esse mundo.

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 05:27
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018
MONANGAMBA . XLVIII

O CARMO E A TRINDADE – 06.02.2018 

- A nossa própria estória não pode ser enganada…

Monangamba - trabalhador sem especificação, faz-de-tudo (por vezes pejorativo).

Por

soba0.jpeg T´Chingange - no Nordeste Brasileiro

Encontrei o Adelino quando retirava uma sopa à jardineira da estante da Cozinha de Portimão, uma casa especialista em fazer churrasco de frango e, cujo dono é um xi-colono vindo do Lubango e, que ri sons agudos e solavancados; lembrei-me de seu nome: Álvaro Gomes Faustino. Notei pelo perfil que aquele outro senhor era o Adelino, um amigo vindo como eu na ponte da LuuaLix da guerra do tundamunjila de Angola.

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Na dúvida, toquei ao de leve no ombro dele, pelo que certifiquei-me de ser ele mesmo! Então Adelino, como vai a vida? Perguntei! Desculpe mas não sei quem é o senhor! Pópilas, o catravêz da estória retrograda tomou conta dele. Eu que passei tantas horas com ele, rebitando farras com seu sobrinho Zito, e, naqueles dias cinzentos. Daqueles tempos em que nos tentávamos adaptar ao frio, à indiferença do M´Puto e ao nome de retornados.

abraço0.jpg Sou eu o T´Chingange Monteiro amigo do Jimba e da Balbina Peixoto Pais da Cunha, sua sobrinha! Foi quando o lado certo da cabeça dele relampejou na demasiada sonolência. Desculpa, meu!... Deu-me um grande abraço, daqueles que só se dão quando se repara um infeliz lapso de memória!  Adelino é um mestiço nascido no Sumbe, antiga Novo Redondo, o cemitério dos brancos lá pelos anos 50 do século XX.

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Deu-me notícias de que seu irmão Pais da Cunha tinha falecido, bem como o Jimba Peixoto seu sobrinho por afinidade. Contou que na sua recente ida a Angola, foi maltratado! Como assim! Muxoxei para ele com aquela surpresa de quem num repente fica burro pelos incidentes! Verdade, meu irmão, mandaram-me para a minha terra, a terra do meu pai, referindo-se aqui ao M´Puto!

cafu14.jpg Ouvi a descrição sem espanto porque as odisseias da vida têm destas periclitantes situações. Pois! Disseram-me para vir para a santa terrinha; isto depois de 42 anos é muito chato de ouvir. Adelino veio na ponte, entrou a trabalhar no Tribunal de Portimão colocado como adido e por aqui foi ficando com a categoria de técnico oficial de execuções fiscais.

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Por vezes falava-me de casos pitorescos na sua incumbência de fazer inventários ou executar ordens de arrolamento com confiscação de bens, como colheres, mobílias e outros patrimónios de alto ou baixo pecúlio. Mas a estória que agora vou contar nada tem a ver com estas tarefas de agente do estado para desgraça de pobres, coitados e afins…

STUDBYQUER.jpg Adelino descasou-se em tempos de más descargas biliares com a sua genuína e primeiríssima mulher; sucede que naquele então estavam a chegar muitos refugiados vindo dos países nórdicos sendo em grande parte Romenos, Kosovares, Húngaros e até Russos com mais outros países devastados por guerras civis.

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Foi nesse então que lhe deram a hipótese de se umbigar com uma branquela cor de neve e jovem de fazer inveja com gaifonas à sua mulher. Vou-te substituir por uma branca, sua preta! Teria dito ele como desdém e gozo de muitas raivas e também para meter inveja! Pensas que fico por aí assoando ranho de choros!? Teria dito isto rindo-se todo de malvadez por dentro. Conheço a peça!

angola6.jpeg Vai daí, mandou vir uma mulher mas, eis que sem mais nem porquê vieram duas! Tanto assim que um dia disse-me: Monteiro, não queres uma mulher! Como é!? Este filme vim a conhece-lo mais a fundo posteriormente. O tempo passou e eis que um dia convida-me a ir à festa de um ano de sua menina nascida do ventre da tal mulher do Kosovo. E isto foi em sua casa no local da Pedra Mourinha de Portimão. Sua filha era loira, de olho azul, bonitinha…

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Agora que já são passados uns catorze anos perguntei se ainda estava com aquela tal mulher ao que me respondeu: Mandei-a embora! Andava a pôr-me os chifres com um patrício seu! Disse ele sem que lhe perguntasse! Desfiz-me da ranhosa. Estava a tornar a minha vida num xarope amargo e acabei com a estória. Então e a tua filha? Está bem, uma linda moça, boa estudante; fica bastante tempo em minha casa pois eu sou seu encarregado de educação. Fico contente que assim seja! Disse eu…

sapatos longos.jpg Daqueles meus amigos de Silves e Portimão, muitos voltaram a Angola depois da morte de Savimbi em 2002. Alguns, habituados às modernices do M´Puto com janela de vidro duplo, tiveram alguma dificuldade de se readaptarem na N´Gola, mas o tempo foi-os acomodando à terra sua por direito. Pelo que sei, ninguém se adaptou a cem por cento. Cá e Lá…

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Uma merda, diz Adelino relembrando muitas outras pequenas coisas em comum. Já nada é igual! Dissemos quase em uníssono! Transcrevo isto a bordo de um Boing da TAP rumo a Maceió aonde resido desde 2006! Um exercício que prometi fazer a fim de ginasticar a mente e, por modo a não ficar com aqueles chatos lapsos de memória que atrapalham o gosto de viver! Conheço-te de algum lado? Até um destes dias Adelino…

O Soba T´Chingange

 



PUBLICADO POR kimbolagoa às 19:47
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Domingo, 19 de Março de 2017
PÉROLAS . III
O homem herdou o mundo; a sua glória não consiste em suportar ou desprezar esse mundo…

PÉROLAS III segue na ordem de uma coluna iniciada com este título. Quem quizer pode vir até o Kimbo e falar de suas razões, suas emotividades e outras raridades... 

EM TERRAS DO SUMBE - ANTIGO CEMITÉRIO DE BRANCOS . Tempo de Macutas - Verdade ficcionada

Por

t´chingange 0.jpgT´Chingange

Esta perola é uma INVENTAÇÃO...

Estavamos em 1780 - O Exército do Império Unido de Brasil, Portugal e Algarves era o segundo mais poderoso do mundo, depois do Exército Sino-japonês.

angola6.jpegFugindo daqui e dali vi-me em aflições porque o passado reconheceu-me na palidez enrugada da velhice. Com palavrões dentro da cabeça, tentei reconstruir minha já antiga inventação e com os nomes esvoaçando, mijando raiva de mim aos poucochinhos, fui buscar as novidades fracturadas com figas e juras por sangue de Cristo. E, aqui o passado misturou-se no futuro...

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Tive mesmo de espreitar minha vida pelo cano de meu revólver, ou talvez um canhangulo de espirrar ferros e cacos cortantes; uma vida estriada em verdades misturadas nas mentiras. Foi ai que o filho da mãe surgiu, engalanado com bandeiras, panos e guarda-sóis coloridos. iIsto passa-se quando eu era dono do xerifado da fazenda, empregado dos Reis do M´Puto, um guarda de libongos de segunda linha por ser mazombo, um pano que funcionava como dinheiro; isto mito antes de Mobutu Sesse Seko mandar imprimir seus panos do kongo com a sua esfinge.

ekuikui1.jpgEm ambiente de grande excitação e alegria vindo de Quilengues, surge um branco albino que parecia um demónio, cabelos sujos e espetados como capim velho. Vinha buscar barricas de aguardente e rolos de tabaco. O Rei do Bailundo de 1998 Manuel da Costa Ekuikui III, nunca soube disto senão teria-se rido com seus dentes parecidos com castanholas e, seus dourados reluzindo pura alteza das terras umbundas ... mas, um dia vou-lhe contar!

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Eu, como secretário de fazenda de João de Câmara da Capitania-Geral do Reino de Angola com a ajuda do capataz José Nanquituka tinha de despachar rápidamente este rebelde mijão matumbo kazukuta com seus monandengues, porque não me era de fiar. Era mesmomesmo um filho da mãe!  Portando-me com o colar de dentes de javali ofertado pelo rei do Huambo Katchitiopololo Ekwikwi, monarca de muito respeito e respeitado, olhando para trás deste falso branco, pude ver que tinha consigo mais ausências de dignidade do que medo. 

maria2.jpgSua brancura indeferia-me com seus sorrisos matreiros de mentira chorada antes da lágrima. Já no terreiro fiz um sinal a Kaputo da Silva, o almoxarife missionário auxiliar, para que se aproximasse e, dei-lhe ordens para que procedesse à troca de géneros com estes demónios de Quilengues. Neste entretanto empoleirado nas horas das consequências com vénias de enrugada postura, o branco de fingir, dá umas ordens aos seus monandengues e, eis que salta um t´chingange para o terreiro empoleirado em antas, zingarelhos, enfeites de ossos de hiena e facóchero ao redor do corpo.

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Entre 1876 e 1893, reinava no Bailundo Ekuikui II, substituto de Ekongo-Lyo-Hombo, quando o reino entrou em grande alvoroço. Foi numa altura em que, no planalto, os reinos iam caindo, um a um, nas mãos dos portugueses, t´Chinderes do M´Puto, Muwena- Pwós do outro lado das kalungas.  No ano de 1893, os emissários do reino Bailundu, dirigiram-se à embala de Ekuikui II dizendo-lhe que o reino estava em vias de ser atacado. Todos se recordavam da prisão feita pelos portugueses, do rei Cingi I um século antes (1780?).
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Nesse então, o reino do Viyé, já estava há uma centena de anos submetido aos brancos. A Rainha D Maria era a minha superiora! Ela não me conhecia mas era eu que controlava suas makutas em substituição ds N´Zimbos, dos Kaurins e panos libongo. Ela, a Dona Maria morreu sem saber quem era o T´Chingange branco Niassalés, um seu alforriado cidadão das lonjuras da Matamba.

maria4.jpg Fazendo rodopios de dança espacial, gaifonas de feitiço e superstições secretas, ele o tal branco de linhagem indefinida, pintado com funge branca e jindungos na cintura salta e ressalta, gesticula traços com braços apitando uma estranha gaita até que, já cansado, estatela-se no chão, literalmente como forma de agradecimento à minha solene pessoa. 

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A mim, o t´chindele mwana-pwó almoxerife da Rainha do M´puto. Dois candengues colocam bem aos meus pés dois potes de mel silvestre e eu, agradecendo de mão virada para o pretobranco albino mando que lhe seja dada uma bandeira das quinas do M´Puto recentemente chegada de Loanda a mando da mesma Rainha D. Maria II.  Dando costas àquela turba pude observar que ordeiramente se dirigiam para o armazém das bebidas. Aquela noite o batuque prolongou-se mais para além do habitual; o kimbombo, t´chissângwa, marufo e bolungas várias faziam a alegria da vagabundagem.

maria0.jpg Não obstante ficar atento a possíveis alterações de ordem pública, recomendei pessoalmente ao Alferes da guarnição e presídio do Sumbe da foz do rio N´gunza, que mantivesse uns quantos cipaios a observar, até que aqueles kazukutas e seu chefe beiçudo, branco genérico se fossem para Quilengues. Só mesmo eu para relembrar estas estórias esquecidas no tempo, metidas num baú de lata oxidada nas águas da kalunga, Ai- iú-ééé

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Nota: Para minha Mana Kota Assunção Roxo em Roxomania para se deleitar nas bitacaias  com pérolas...

O Soba  T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 18:09
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QUEM SOMOS
Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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