Quinta-feira, 11 de Junho de 2015
XICULULU . LIII

ANGOLA - "A independência foi um parto difícil, mas hoje já andamos com o nosso próprio pé" 1ª de 3 partes

As escolhas deKimbolagoa

onofre2.jpgDR. ONOFRE ANTÓNIO ALVES MARTINS DOS SANTOS – Nasceu em Luanda a 16 de Dezembro de 1941 - Juíz Conselheiro do Tribunal Constitucional - Designado pelo Presidente da República JES a 20 de Junho de 2008. Ex-aluno do Liceu Nacional Salvador Correia, licenciado em Direito 1954-1964 e em Ciências Económicas e Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra 1964-1966. Advogado em Luanda desde 1966, onde exerceu cumulativamente as funções de Juiz do Tribunal de Menores e de Execução de Penas até 1975. Foi por nomeação do Presidente da República o Director Geral das Eleições realizadas em 1992. Exerceu também diversos cargos como Consultor eleitoral em missões das Nações Unidas de 1994 a 2005, relacionadas com eleições na Guiné-Bissau; Serra Leoa; Bangladesh; Vukovar (antiga Jugoslávia); Lesotho; República Centro-Africana; Níger; Costa do Marfim e Ghana. Concluiu recentemente o curso de pós-graduação em Direito de Petróleo e Gás (2009-2010) na Faculdade de Direito na Universidade Agostinho Neto.

Fonte: Angop

onofre1.jpg11 Junho 2015 - Lisboa - O juiz-conselheiro do Tribunal Constitucional, Onofre dos Santos, recorda os momentos de muita desilusão que viveu no período da independência de Angola, porque esperava que "seria tudo maravilha". Em entrevista à Angop, em Lisboa, a propósito dos 40 anos da independência do país, o antigo director-geral das primeiras eleições gerais da história de Angola (1992) conclui que, apesar dos percalços vivenciados, no fim e ao cabo, valeu muito a pena a ocorrência, porque era "a resposta à dignidade dos angolanos", acima de tudo.

- Onde é que se encontrava aquando da proclamação da independência nacional, a 11 de Novembro de 1975? - Estava no Ambriz (província do Bengo). Vindo de Kinshasa (RD Congo), cheguei nos primeiros minutos do dia 11 de Novembro. Aterrei no Ambriz, uma discrição que consta no meu livro ?Os meus dias da independência? (2014), que, muitas vezes, é lembrado nesta altura. Naturalmente, passaram-se 40 anos, mas aqueles comentários lembram-me, perfeitamente, aquilo que foram momentos de expectativas, de esperanças, etc.

- Que memória ainda guarda? -  Sinceramente, tive muitas desilusões relativamente àquilo que estávamos à espera. Eu esperava um acontecimento glorioso; que seria tudo maravilha, mas, como todos sabemos, a independência nasceu como acontece com o nascimento das pessoas: com muito sangue. Foi um parto difícil e levou algum tempo a conseguir chegar-se àquele momento em que hoje andamos. Felizmente, hoje já andamos com o nosso próprio pé. Já se cresceu mais.

onofre3.jpg - Olhando para trás, valeu a pena a conquista da independência? - A independência é uma coisa que foi sonhada durante décadas. Não se pode recuar muitas antecedências, porque Angola nunca foi um país com a configuração geográfica e política que tem hoje. Havia muitos reinos com quem Portugal, nas suas viagens de descoberta, criou negociações ou tratados. Depois, houve ocupações, situações de domínio abusivo e, no fim, já no século XIX, criaram-se as colónias. Todos os países europeus sentiam que tinham que ter em África uma colónia, que, no fundo, era uma extensão, o seu espaço para expansão. Os europeus admitiam que era em África onde podiam fazer uma afirmação da sua existência na Europa, mesmo no caso de países tão pequenos como Portugal ou a Bélgica.

besanga0.jpg A independência valeu a pena, porque foi uma resposta à necessidade de dar dignidade aos angolanos. O problema não era saber se os angolanos iriam ficar melhor no dia seguinte. O importante é que os angolanos tinham o caminho aberto para a sua própria dignidade. Este é o ponto fundamental da independência. Se, hoje, ainda não conseguimos ser o país que gostaríamos de ser, em que o povo todo tenha os benefícios da independência, o facto é que, há 40 anos, foi conquistada a possibilidade de um caminho em que todos se sentissem mais dignos, porque não estaríamos sob dominação de outrem, por cima um europeu, que, em África, era sempre um estranho, e que, durante séculos, justificou a sua presença com função civilizadora. E houve muita coisa que aconteceu, que permitiu que os angolanos fossem tomando consciência de luta anti-colonial. Foi uma conjugação muito interessante, porque houve angolanos e cidadãos de outros países de língua portuguesa que saíram de Portugal, onde estavam a estudar, para enveredarem pela luta. Alguns deles tornaram-se presidentes ou primeiro-ministros, embora nada tenham conseguido sem o apoio das bases. Por exemplo, no caso da Casa dos Estudantes do Império, o Estado português pensava que era um viveiro de aportuguesados, mas, caricatamente, verificou que estava a criar líderes nacionalistas.

- besanga2.jpgFoi um erro de cálculo do regime colonial português? - Não que tenha sido um erro. Se calhar, ao criarem a Casa dos Estudantes do Império, fizeram-no de boa intenção. Às vezes, tenta-se fazer uma coisa, mas sai ao contrário.

- O "tiro colonial" saiu pela culatra a Portugal? - Por mais que a gente contrarie, aquilo que tem de ser e o que deve ser, acontece. A Casa dos Estudantes do Império é um marco, porque nela confluíram não só angolanos, como também moçambicanos, cabo-verdianos, santomenses, bissau-guineenses, entre outros. Curiosamente, coincidiu também com a luta de alguns portugueses, que queriam derrubar o regime fascista, que tinha o aspecto de dominação colonial. A Espanha, ao lado, era também fascista, mas como deu a independência à Guiné Equatorial, já não foi tão atacada nesse plano.

 

- O que terá falhado para que, após a independência, Angola entrasse em guerra? -Terá o período de transição sido eficaz e pacífico? - A transição nem foi eficaz, nem pacífica, porque Portugal, naquele momento, entendeu que havia movimentos com os quais fez acordo (os Acordos de Alvor), mas se verificou uma coisa: os angolanos não estavam todos coesos. Mesmo na luta de libertação, o MPLA, a UNITA e a FNLA nunca se congregaram. Houve tentativas para isso, mas o que é facto é que estas diferenças, por momento, se apagaram. Em Portugal (durante a assinatura dos Acordos de Alvor), os três partidos falaram numa só voz, mas, depois, vieram ao de cima as grandes divergências que havia entre eles. 

- Quais eram, nessa altura, as principais divergências? - Eram mais divergências ideológicas. Estávamos num mundo de dois blocos (o americano e o da então União Soviética), e havia uma inclinação para um destes lados. Havia a possibilidade de jogar com países vizinhos, como a África do Sul, que tinha naquela altura um sistema racista. Havia amigos/aliados de ocasião que foram usados, porque, em desespero de causa, a gente lança a mão ao primeiro amigo que nos estende a corda.

Xicululu : - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça

(Continua...)

O Soba T´Chingange



PUBLICADO POR kimbolagoa às 16:06
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Temos um Hino, uma Bandeira, uma moeda, temos constituição, temos nobres e plebeus, um soba, um cipaio-mor, um kimbanda e um comendador. Somos uma Instituição independente. As nossas fronteiras são a Globália. Procuramos alcançar as terras do nunca um conjunto de pessoas pertencentes a um reino de fantasia procurando corrrigir realidades do mundo que os rodeia. Neste reino de Manikongo há uma torre. È nesta torre do Zombo que arquivamos os sonhos e aspirações. Neste reino todos são distintos e distinguidos. Todos dão vivas á vida como verdadeiros escuteiros pois, todos se escutam. Se N´Zambi quiser vamos viver 333 anos. O Soba T'chingange
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