VIVÊNCIAS – EU NÃO QUERO - Amai-vos uns aos outros, mas só se for pra valer…
Xicululu: - Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça
Por
Eberth Vêncio - Autor da revista Bula
Não! Eu não quero um empréstimo consignado! Eu não quero informações privilegiadas de um ex-diretor do Banco Central que actua no mercado financeiro. Eu não quero saldo ilimitado no cartão de crédito. Aliás, eu não quero que me enviem mais cartão algum com a primeira anuidade grátis. Eu não quero as menores taxas de juros do mercado. Eu não quero ser promovido a nada. Eu não quero investir na bolsa. Eu não quero aproveitar a crise para comprar dólares. Eu não quero o telefone de contacto do seu pistolão. Eu não quero curtir a vida endoidado, prefiro apenas viver. Eu não quero voar no jatinho do senador, nem que seja na poltrona da janela.
Eu não quero comer a aeromoça. Eu não quero comissão nenhuma, é apenas um favor o que estou lhe fazendo. Eu não quero comprar uma apólice de seguro de vida. Eu não quero saber o que vem depois da morte. Eu não quero usar um trevo da sorte. Eu não quero morrer dormindo. Eu não quero ir pró céu. Eu não quero consultar um psiquiatra, nem me confessar com um padre (eu não quero que ele tenha erecções sob a batina, nem oscilações na fé, ao saber dos meus pecados). Eu não quero comprar assinaturas de revistas que me deixam alienado em suaves prestações. Eu não quero torrar grana em Miami. Eu não quero que você me ame por altruísmo. Eu não quero a guarda compartilhada de um amor que se acabou. Eu não quero me mudar do país. Eu não quero ficar rico lavando pratos para os Alemães. Eu não quero aprender mandarim, o idioma do momento. Eu não quero ganhar o Euromilhões. Eu não quero ficar rico. Eu não quero saber de um segredo.
Eu não quero almoçar amanhã com o governador no palácio. Eu não quero credenciais pra um camarote VIP. Eu não quero prolongar os meus orgasmos, muito menos esticar o pénis (pelo amor de Deus, parem de anunciar o fim da calvície e enviarem spams por e-mail!). Eu não quero friccionar pomada japonesa na genitália de ninguém. Eu não quero massagens relaxantes, sem frescuras, para a minha satisfação total ou o dinheiro de volta. Eu não quero descabaçar uma virgem. Eu não quero explorar o ponto G de uma analfabeta afectiva. Eu não quero que uma cigana leia o meu destino antes de mim. Eu não quero alimentos que soltem o intestino. Eu não quero ficar musculoso, sexy e com boa aparência. Eu não quero ler Paulo Coelho na praça de alimentação do shopping. Eu não quero mais querer ser Carlos do carmo.
Eu não quero ser eleito para uma academia de vaidosos para passar o resto da minha mortalidade vestindo uma bata ridícula e tomando o chá das cinco com eles. Eu não quero atenuar as minhas rugas de preocupação e aplicar botox no saco. Eu não quero o IPhone 6. Eu não quero um apartamento de cobertura em frente ao mar. Eu não me quero confraternizar com desconhecidos. Eu não quero saber o que disseram de mim no réveillon. Eu não quero fazer terapia para ser uma pessoa melhor e crescer como ser humano. Na verdade, eu não queria nem mesmo ser humano. Eu não quero aprender a desentupir a pia da cozinha usando Coca-Cola. Eu não quero parar de comer carne vermelha. Eu não quero discutir a relação. Eu não quero dar um tempo. Eu não quero dar conselhos nem mesmo para o surdo da porta da igreja. Eu não quero sentar na primeira fila para ter uma visão privilegiada.
Eu não quero me aposentar o mais breve possível para poder aproveitar a vida. Eu não quero colocar aparelho nos dentes. Eu não quero sorrir quando sentir vontade de chorar. Eu não quero comprar o seu lugar na fila. Eu não quero pagar gorjetas numa repartição pública. Eu não quero dar um jeitinho na situação, seu guarda. Eu não quero autógrafos das celebridades. Eu não quero beijo de misse. Eu não quero me reconciliar com pessoas que não gostam de mim. Eu não quero fazer uma selfie comigo. Eu não quero perguntar porra nenhuma pró palestrante, eu só estava me espreguiçando. Eu não quero aproveitar a nova isenção de imposto automóvel para comprar um carango zero com câmbio automático, GPS, bancos de couro e dez anos pra pagar. Eu não quero lamentar a morte de quem me sacaneou. Eu não quero lisonjas. Eu não quero benesses. Eu não quero culpados. Eu não quero mais mentir. Eu só quero ser tratado com o mínimo de respeito. É só isso o que eu quero.
Ilustrações de Costa Araujo Araujo
As escolhas do Soba T´Chingange

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